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Category: Família e moralConteúdo sindicalizado

Quem vai arrumar a mesa?

Irmãs da FSSPX

Em uma família, as crianças não são como hóspedes de um hotel onde tudo lhes é servido. É essencial que participem das tarefas da família, e a primeira que vem à mente, por ser uma atividade diária simples, é pôr a mesa. Essa é até uma das primeiras tarefas que as crianças podem cumprir e terão orgulho de que as julguemos capazes de pôr a mesa.

Talvez os pais temam que os mais pequenos acabem por quebrar a louça. O risco não é tão grande. Veja como estão ansiosos para provar-lhes que são dignos da confiança que lhes foi dada. As crianças sabem como prestar atenção e ter cuidado quando necessário. Não é melhor correr esse risco mínimo de um vidro quebrado do que arriscar transformar os filhos em criaturas egoístas, pouco dispostas a prestar serviços? Se necessário, é possível utilizar pratos de plástico no início de seu aprendizado.

Quantas vezes devemos pedir-lhes isso? Pôr a mesa é uma tarefa diária, portanto, devemos solicitar sua ajuda diariamente, a fim de acostumar as crianças ao esforço, e não nos contentarmos com uma ajuda ocasional. Podemos nos organizar de acordo com a composição da família: é possível pedir um voluntário a cada vez, mas o risco é que seja sempre a mesma criança com temperamento mais generoso; e o que fazer se não houver voluntário? Pôr a mesa também pode ser um privilégio do filho mais novo, ao passo que os mais velhos teriam tarefas mais difíceis. Ou cada criança pode revezar: uma põe a mesa no almoço, outra no jantar. Essa é uma tarefa que pode ser requisitada tanto a meninos quanto a meninas quando mais jovens. Mas, à medida que envelhecem, seria melhor pedir aos meninos outros serviços mais masculinos, como tirar o lixo ou cortar a grama.

Não devemos hesitar em lembrar às crianças que é hora de pôr a mesa, principalmente as crianças. As outras crianças perceberão que estamos chegando perto da hora da refeição, e esse será o sinal para que deixem de lado seus jogos ou dever de casa e lavem as mãos antes de irem para a sala de jantar.

No começo, solicita-se aos pequenos que definam apenas as coisas essenciais: pratos, copos e talheres, mas aos poucos podemos ensiná-los a fazer todo o trabalho, sem esquecer os detalhes: utensílios de cozinha, jarra de água, cesto de pão, faca e prato de manteiga, guardanapos, sal e pimenta ... Para ter uma refeição bem organizada, certifique-se de que, no final da mesa, você tenha os últimos pratos, sejam queijo ou sobremesa, com os pequenos pratos que os acompanham. Isso evitará viagens desnecessárias à cozinha.

Quando houver convidados, é o momento de treinar as meninas mais velhas para o papel de futura dona de casa. Preparar uma mesa agradável não é uma tarefa onerosa: não falamos das artes da mesa? Toalhas de mesa e guardanapos combinados, pratos festivos, uma peça central será apresentada. Elas também terão que prever os diferentes pratos e a troca de pratos em função do menu, sem esquecer os detalhes: por exemplo, lavar pratos raramente usados, colocar os copos de vinho à direita e os copos de água à esquerda etc.

Por mais simples que pareça a mesa, é uma maneira de desenvolver muitas qualidades nas crianças: saber servir, atenção, perseverança, o senso de trabalho bem-feito, ou seja, nos mínimos detalhes, um senso de harmonia, conhecendo as regras de etiqueta e boas maneiras ... Seria uma pena não pedir isso a seus filhos, seja por não saber como fazê-lo ou por não querer ser ajudado!

Um ambiente familiar feliz

Irmãs da Fraternidade São Pio X

 

As flores, para desabrocharem, precisam dos raios quentes do sol. E no jardim das almas, é a alegria que proporciona a atmosfera necessária para os corações se expandirem. 

 

Não deixemos as crianças se fecharem em si mesmas

Há temperamentos alegres, otimistas, que nunca se mostram apáticos ou abatidos; sabem ser gratos ao bom Deus, e isso é um dom precioso. 

Ao lidarmos com crianças mal-humoradas, emburradas, ranzinzas e tristes (e que acabam por se afastar de todos), precisamos ensiná-las a serem alegres. Que saibamos apontar o lado bom das coisas — porque sempre há um. O tempo está ruim? A chuva nutre a Terra e ajuda as plantações a crescer. Se um motivo de aborrecimento se apresenta, encaremo-lo como uma oportunidade de oferecer um sacrifício ao Bom Deus! Recebi um pedaço menor de bolo que o meu irmão? Fico feliz por ele!

Não deixemos que as crianças fiquem ensimesmadas em seu mal-humor. Tão logo isso se apresente, devemos aliviar as tensões com uma piada ou um gracejo como “Cuidado, seu beicinho está crescendo! Vamos, tire rápido um sorriso do bolso!”, ou algo do tipo. Crianças irritadiças, que nunca estão satisfeitas, devem ser interrompidas com comentários do tipo: “Pare de reclamar. Você reclama tanto do que não tem, que esquece de perceber o que tem!”.

Não obstante, é necessário procurar identificar as causas se surgir alguma tristeza incomum, por exemplo, por uma má influência ou dificuldades na escola, sobre as quais a criança não se atreva falar. Se a criança puder confiar em algum adulto para ajudá-la, a alegria retornará.

Devemos tirar tempo para apreciar as pequenas alegrias da vida familiar, como as alegrias que se seguem ao trabalho: contemplar belos campos, admirar jardins ou mesmo um cômodo recém-limpo. Há também a beleza do reencontro após a semana passada no internato, a alegria de cantar enquanto lavamos a louça, os piqueniques e passeios, a felicidade de ser grande o bastante para ajudar o papai e tantas outras pequenas alegrias disseminadas entre nós por Deus. — Se a criança não encontra na vida familiar a atmosfera alegre de que precisa, é de se temer que irá procura-la em outro lugar, e só Deus sabe onde isso se dará.

Devemos mostrar, através de nossos exemplos, que a virtude (longe de a extinguir) é fonte da verdadeira felicidade. Uma virtude rígida, fria e por demais austera, porém, não é comunicável. Ao invés de atrair a criança, o excesso afasta-a e arrisca torná-la rebelde. A verdadeira virtude católica é naturalmente alegre, pois nos proporciona o conhecimento de sermos filhos amados de Nosso Pai Celestial, o gosto de lhe oferecermos os pequenos eventos de nossa vida diária e a satisfação de sermos perdoados de nossos erros e curados de nossas fraquezas. 

Nosso Senhor, nas “Bem-Aventuranças”, fala de oito promessas para nos fazer felizes. Ele abençoa e encoraja a alegria. Pode-se dizer que, depois do amor, a alegria é o presente mais doce que vem das Suas mãos.   

 

Os efeitos da tristeza

A tristeza, por outro lado, destrói as almas, mata o sabor do esforço e estimula o vício. Não sejamos educadores pessimistas, que nunca estão satisfeitos com os esforços da criança, fazendo comentários do tipo “Você não se saiu tão mau como de costume. Para você, até que não foi tão ruim”. Pelo contrário, devemos saber encorajar até mesmo quando repreendemos: “Sei que você é capaz de fazer melhor. Na próxima vez, tenho certeza que isso não se repetirá”. Que saibamos dar os fundamentos para uma boa reputação à criança, fazendo justiça aos seus esforços e regozijando-nos de seus sucessos.

Há certamente muitas cruzes em toda vida, por vezes muito duras. Para não entristecer a atmosfera familiar, devemos deixar as preocupações com os adultos: crianças não têm a força necessária para lidar com elas. Algumas provações não lhes escaparão, no entanto, como a dor de um falecimento ou uma doença: será preciso ajudá-las a lidar com elas sem se afogarem na tristeza. Com efeito, quando nos entregamos inteiramente à Vontade de Deus, mesmo se sofremos em demasia e a despeito de qualquer dor, ainda há um pouco de alegria no centro de nossas almas. Talvez não possamos senti-la, mas é real porque a alma ama a Deus — que está sempre presente. A alegria é um dos frutos da presença do Espírito Santo em nossas almas.

Dom Bosco usava a alegria como um dos pilares de seu método de Educação. Ele sabia que o demônio é um eterno infeliz e estende essa infelicidade às almas que leva para o inferno. Uma alma em estado de Graça, ao contrário, é cheia de alegria. Deixemos que as crianças brinquem, corram, riam e façam barulho — mas que não pequem! O santo até mesmo chegou a fundar a “Sociedade da Alegria”. São Domingos Savio bem compreendeu seus ensinamentos ao afirmar: “Fazemos a santificação consistir em estarmos estarmos sempre felizes”.

A criança desleixada

Eis uma parte verdadeiramente importante da educação das crianças: ensiná-las não apenas a fazer o que lhes é pedido, mas a fazê-lo bem. De que são compostas nossas vidas humanas? De uma série de pequenos eventos. Como os milhões de grãos de areia que compõem uma praia, eles parecem insignificantes. Mas, uma vez juntos, compõem o tecido da nossa vida.

As pequenas ações de seus filhos a todo momento, suas pequenas reações de alegria ou raiva, estão cheias de um poder inesperado. A ruína de muitas almas começa com pequenos erros: uma mentira para encobrir a preguiça, uma hora passada com maus amigos... Não é grande coisa, alguém poderia dizer. Mas os hábitos são formados rapidamente e, embora a consciência grite um pouco na primeira vez, logo ela é abafada.

Para a maioria das crianças, não há uma oportunidade decisiva de heroísmo em suas vidas. Mas elas podem ser heróicas todos os dias, fazendo as mesmas pequenas coisas repetidas vezes, após o exemplo de Nosso Senhor, que “fez tudo bem” (Mc 7). Como?

Apenas contemple a obra-prima de Deus que chamamos de Criação. Dê uma olhada no microscópio neste cristal com seus tons cintilantes de verde. Uma esmeralda? Não, um cristal de açúcar! Deus faz todas as coisas perfeitamente. E Ele deseja que o imitemos: "Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito". Ser perfeito naquilo que Ele nos deu: os momentos da nossa vida.

 

Agir por Caridade

Alguns exemplos: limpar o quarto porque a mãe mandou é uma boa ação, mas "limpá-lo bem para fazê-la feliz" é um ato de caridade. Aprender a lição por necessidade é uma boa ação, mas aprendê-lo "da melhor maneira possível" é um ato de caridade. Com esta varinha mágica chamada “fazer o nosso melhor para agradar Jesus”, nossas ações diárias são transformadas de grãos de areia em pedras preciosas. Ler um livro com cuidado, sentar-se adequadamente à mesa, responder educadamente quando questionado... Obedecer prontamente, não conversar durante as aulas, oferecer-se para ajudar, não responder… tudo isso pode ser ato de caridade.

No entanto, não devemos esquecer que nem todas as crianças têm os mesmos talentos. Portanto, o objetivo não é necessariamente a perfeição material do trabalho ou ação. Devemos sugerir um objetivo adaptado a cada criança, sem comparar uma criança menos dotada a um camarada mais talentoso que obtém os mesmos resultados sem nenhum esforço.

 

A Catedral de Milão

Procurar fazer tudo bem também significa trabalhar sem buscar recompensas. Nosso mundo moderno tem outros padrões: "relação custo-benefício", "salário", "realização rápida" e não apenas "realização". Um dia alguém perguntou ao escultor das magníficas estátuas no alto da Catedral de Milão por que ele estava se esforçando tanto. Quem veria as estátuas do chão? Ele respondeu: “Do chão, ninguém; mas Deus as verá.” Isso é amor verdadeiro, amor que não busca outra recompensa senão a de agradar a Deus. Antes de chegarem ao ponto de agir habitualmente “para fazer Jesus feliz”, as crianças precisam que suas ações sejam recompensadas de vez em quando, mas sem que isso se torne uma obrigação, o que seria o caso se toda boa ação lhes desse o direito a um "salário."

Não devemos nos vender: as crianças não são naturalmente atraídas pelo esforço, elas preferem o prazer imediato. Como podemos incutir nelas um senso de dever? A oração obtém todas as coisas. Reze e ensine seus filhos a rezar.

Também é importante que elas terminem o que começaram, seja trabalho, jogo, desenho... Terminar em todos os sentidos da palavra: completar e fazer bem. Não aceite um trabalho pela metade ou mal feito nem termine o que seu filho começou e desistiu na primeira dificuldade. Ajude-o a terminar o trabalho se precisar de ajuda. Pouco a pouco, ele aprenderá a pedir conselhos e perseverar: é preciso paciência e humildade. Incentive-o a voltar às mesmas ocupações todos os dias com alegria. O objetivo precisa ser claro: é para Deus, Ele ama coisas bonitas! Os pais podem contar com o tesouro da generosidade que está no coração dos seus pequenos.

Há uma alegria legítima e benéfica em ver nosso trabalho bem feito, e este é um excelente incentivo para continuarmos a "fazer o nosso melhor". Um trabalho malfeito, no entanto, após o alívio de nos livrarmos da tarefa, deixa uma sensação desagradável de insatisfação, de trabalho inacabado. A alma nunca encontra satisfação no “aproximado".

Dê aos seus filhos pequenas responsabilidades na vida familiar, como alimentar o peixe, pôr a mesa ou varrer uma escada. Obviamente, você precisará verificar e eles precisam ser corrigidos se falharem em seu dever; mas assim que fazem o melhor possível, o sorriso da mãe e algumas palavras gentis de encorajamento podem fazer maravilhas. As crianças precisam aprender em tenra idade que, quando pai e mãe são felizes, Jesus também é feliz.

E, por fim, lembre-se bem deste provérbio que é a chave do Céu: "Ser santo não significa fazer coisas extraordinárias, mas fazer coisas comuns extraordinariamente bem".

Refeição em família

Irmãs da Fraternidade São Pio X 

 

São sete horas e Kevin, de onze anos, volta para casa. O apartamento está vazio pois seus pais ainda estão trabalhando. Ele abre a geladeira e escolhe um sorvete para devorar, então se senta em frente ao seu Play Station enquanto mastiga amendoins. Provavelmente, de tão absorto no jogo, só tirará os olhos do mesmo quando finalmente sua mãe chegar em casa. Ela, por sua vez, estará cansada, esquentará o chá e comerá uma maçã enquanto folheia uma revista.

Nessa mesma noite, num apartamento vizinho, Vianney já está em casa há umas duas horas. Sua mãe lá estava para recebê-lo, pronta para ouvir as histórias da escola e ajudá-lo com os deveres. Quando o pai chega, ele se senta com os outros membros da família para tomar uma sopa de abóbora fumegante seguida de uma deliciosa caçarola de vegetais com bacon.

Em poucas palavras, mostramos aqui dois exemplos de vida familiar – e são quase como duas civilizações distintas. Sem hesitação, escolhemos a mais autêntica, onde pais e filhos reúnem-se ao redor da mesa de refeições.

Por que é importante que as crianças não comam sozinhas? Em primeiro lugar, pela questão da saúde. Com certeza, se deixadas livres para escolher, escolherão pizza e biscoitos ao invés de saladas e vegetais.  

Numa análise mais profunda, a refeição em família também serve para trabalhar a vontade, uma vez que ensina o autocontrole. Aprende-se a comer o que é servido sem reclamar, ao invés de encontrar terreno livre para caprichos e gostos. Claro que não estamos falando de proibir que se tenha preferências alimentícias, mas aprende-se também a comer até o que nos apetece menos. Que oportunidade maravilhosa para “fazer sacrifícios”! Deste modo, nosso “lado animal” vai dando lugar à razão e à vida de Graça. Por esse motivo, não encorajamos os lanches entre refeições (para os menores, porém, o lanche é considerado como uma refeição). Apenas a mãe pode abrir o refrigerador para preparar a comida de todos. Se assim não for, pode incitar os instintos caprichosos que não são dignos de um filho de Deus.

Por fim, há uma outra razão pela qual a hora da refeição se torna um momento de união familiar: é nela que são contadas as aventuras, as descobertas e as dificuldades do dia. É papel dos pais cuidarem para que esse momento seja instrutivo e divertido, e nunca pessimista ou negativo. Uma família não é a junção de indivíduos justapostos e sim um organismo vivo, onde todos dão um pouco de si para a felicidade coletiva. Sim, é quase o oposto do individualismo mostrado no exemplo do início do artigo. À mesa há muitas ocasiões para se educar; muitas oportunidades de elevar as almas de nossas crianças através de comentários criteriosos, encorajamento e leves provocações – que são o sal da amizade!

No Evangelho, o Reino de Deus é comparado a um banquete. Que nossas humildes refeições terrenas sejam ao menos um leve reflexo dele!   

 

Cometo o pecado de fofoca se falo à minha esposa de pessoas que fizeram algo errado a mim?

A doutrina moral católica nos ensina que uma das coisas mais importantes que uma pessoa tem é sua reputação, pois ela é a base a partir da qual nós nos relacionamos entre nós em nossas interações sociais.

Santo Tomás enumera (IIa-IIae, qq. 72-76) todas as maneiras pelas quais podemos danificar o próximo com nossas palavras, ou seja, como nós podemos, injustamente, macular a reputação ou a honra de uma pessoa, que não está presente normalmente, seja contando mentiras sobre ela ou compartilhando verdades sobre ela de forma inapropriada. O murmúrio consiste em falar pelas costas de uma pessoa, danificando sua imagem. A calúnia consiste em contar mentiras que atingem a reputação de uma pessoa. Detração refere-se a revelar certas verdades sobre alguém que, apesar de verdadeiras, não devem ser compartilhadas e que, na verdade, diminuem ou atingem a imagem daquela pessoa ante os outros. Derrisão refere-se a fazer graça de uma pessoa de tal maneira que diminua sua honra e compostura aos olhos dos outros. Maldição é o desejo falado de que uma pessoa sofra um mal.

Todos esses pecados da fala são reunidos, na nossa linguagem comum, sob o nome de “fofoca”.

A gravidade desses pecados é variável, de acordo com o grau de dano causado pelas nossas palavras, com as circunstâncias em que essas palavras são ditas (onde, quando, na presença de quem, que tipo de linguagem etc) e, mais importante, de acordo com a intenção da pessoa que fala.

Certamente, sempre é proibido contar mentiras, e muito mais se essas mentiras causam dano à reputação de uma pessoa. Também é proibido revelar verdades desnecessariamente sobre alguém, verdades que essa pessoa preferiria que não soubessem. Obviamente, pode haver ocasiões quando é necessário compartilhar certas verdades sobre os outros, como para evitar um dano a um terceiro – mas essa revelação deve ser feita com discrição, ou seja, apenas para aqueles que precisam saber, e deve-se contar apenas o que é certamente verdadeiro e, apenas, a verdade que precisa ser revelada, não tudo o mais sobre aquela pessoa.

Não obstante, há momentos em que precisamos falar sobre defeitos ou idiossincrasias de pessoas que não estão presente – por exemplo, quando buscamos conselhos para lidar com alguma pessoa ou com as consequências do que algo que essa pessoa fez conosco, ou quando precisamos de encorajamento em uma situação difícil na qual alguém nos colocou, ou quando nós simplesmente precisamos colocar algo “para fora do nosso peito” antes que esse sentimento nos leve a ressentimentos ou outros atos não caridosos.

Nesses casos, e mantendo o máximo de discrição possível, nós podemos falar a alguém que julgamos confiável e capaz de fornecer ajuda através de um conselho razoável ou apoio solidário.

Se sou casado, não deveria haver ninguém mais próximo de mim que minha esposa, ninguém mais confiável e solidário em meus momentos de necessidade.

Nessas circunstâncias, minhas palavras sobre alguém – mesmo que sejam danosas à sua reputação – não são fofocas, desde que eu transmita o que é certamente verdade, que não busque atingir a reputação do outro, que não encontre nenhuma alegria em expor suas faltas e não tenha nenhuma intenção de que o que contei se espalhe para mais alguém. Mas, ainda assim, devemos ter muito cuidado com esse tipo de conversa, pois podemos cair em pecado muito facilmente.

Quem é meu filho?

A mãe se debruça sobre o berço de seu filho: “Aqui está meu pequenino, a quem amarei, cuidarei e educarei pelos próximos vinte anos. Quem é você, pequeno Pedro, que foi confiado a mim por Deus?”. Com efeito, essa é uma questão fundamental. Quem é esse pequeno homem? Da resposta à essa questão depende a escolha do tipo de educação que ele irá receber. Se a resposta for de acordo com Jean-Jacques Rousseau (“A criança é boa por natureza”), ela será educada segundo os padrões da sociedade atual. O resultado, lamentavelmente, não é muito empolgante.

 

DAS SENSAÇÕES À INTELIGÊNCIA

Santo Tomás de Aquino baseou-se no filósofo grego Aristóteles ao dizer que o Homem é um “animal racional”. A mãe protesta: “Meu Pedrinho não é um animal!”. Não; claro que não! Há um abismo entre um felino e um homem: a inteligência. O pequeno Pedro, porém, tem um corpo e seus sentidos — e são esses que solicitam primeiramente a atenção dos pais. Ele precisa receber cuidados físicos, mas desde o início de sua vida, há os bons hábitos que também necessitam ser-lhe transmitidos. Essas são as primeiras bases da educação: ter uma rotina regular para as refeições e a hora de dormir, aprender a obedecer sem chorar, não pôr o dedo na tomada elétrica (e, caso o faça, receberá um tapinha na mão), sentar reto numa cadeira sem se contorcer etc.

É claro que não limitaremos seu desenvolvimento a isso porque sua inteligência e sua vontade precisam ser formadas. Porém, é somente de forma gradual que sua inteligência floresce. É também de forma gradual que a criança adquire a linguagem, que é a ferramenta do pensamento, e que será aperfeiçoada desde a infância até as dissertações filosóficas próprias do último ano escolar. Pouco a pouco ela adquire o hábito do julgamento e da reflexão, e terá muitos momentos de tentativa e erro antes de chegar aos pensamentos que serão totalmente seus. Por esse motivo faz-se necessária uma adaptação da educação à capacidade de compreensão da criança. No início, os pais é que pensam por ela, pela sua incapacidade de fazê-lo sozinha. É inútil dizer a uma criança de três anos que ela precisa comer feijão “porque esse alimento contém vitaminas indispensáveis ao seu crescimento”! É mais eficaz dizer apenas “Coma o feijão ou não terá sobremesa”. Pronto. O resto seria supérfluo. O que a criança é capaz de entender com essa idade, e o que precisa aprender, não são os princípios da boa nutrição, e sim que os pais mandam e o filho obedece. Somente mais tarde a criança entenderá que tudo isso é para o seu bem. 

Obviamente, quanto mais a criança cresce, mais receberá as explicações necessárias. Um adolescente não obedece simplesmente porque seu pai mandou. Mas o que ele precisa, entretanto, é de explicações, e não de justificativas. Uma autoridade não precisa “justificar” em detalhes os motivos de suas ordens. Os pais dão as ordens por serem os responsáveis, perante Deus, pela criança a eles confiada. Porém, para que as crianças obedeçam, é necessário dar-lhes alguns motivos e circunstâncias — afim de que aprendam, com isso, a caminhar sozinhas quando adultas. Por exemplo: “Não, Pedro, você não vai passar o fim de semana com o Kevin. Ele tem uma coleção enorme de video games e vocês passariam o tempo todo jogando. Você sabe bem o que penso desses jogos! Convide-o para vir até aqui. Ele pode se beneficiar do contato com um ambiente familiar sadio. O valor de uma amizade é medido pelo bem que um proporciona ao outro”. Esse exemplo poderia ser utilizado como uma boa ocasião para pai e filho conversarem sobre amizades verdadeiras.

Tomem cuidado! Mesmo que a criança ainda não saiba se expressar bem, a inteligência está nela; e os menores compreendem o que dizemos muito mais do que pensamos. Cuidado com os comentários feitos entre adultos sobre as crianças, porque elas certamente estão ouvindo, sem aparentar fazê-lo. “Minha amiga, como a Ágata está bonita com esses olhos azuis e esses cachinhos! E o vestido que você mesma costurou! Ela é adorável!”. Observe que esse tipo de declaração nunca deixa de ser ouvido...

 

DO PECADO À GRAÇA

Não teremos completado a descrição da criança dizendo apenas que é um animal racional. Pedrinho também é filho de Adão, marcado pelas consequências do pecado original. Após seu Batismo, foi elevado à categoria de filho de Deus e ao estado sobrenatural pela graça santificante, e destinado à vida eterna.

Pedrinho é marcado pelo pecado original, e pela tendência ao mal que dele decorre, como infelizmente se observa desde a mais tenra idade; isso é uma verdade muitas vezes confirmada pela experiência. As primeiras birras surgem muito cedo. Desde os seis meses, a criança já é capaz de criar complicações injustificáveis. Emília, por exemplo, cai no choro assim que sua mãe a coloca no berço, fazendo com que precisem pegá-la. Ela só dorme quando está no limite da exaustão. João tem fome de sobremesas, mas não de espinafre; está sempre cansado quando é hora de arrumar seu quarto, fazer lições ou ajudar sua mãe. Sua vitalidade reaparece, porém, quando quer jogar futebol ou implicar com sua irmãzinha. Sem falar na capacidade incrível que possui de inventar mentiras para soar importante. Não; não importa o que Rousseau disse, ao afirmar que o homem é naturalmente bom. Seria um crime deixar uma criança fazer exatamente o que quer e quando quer. Pobres crianças de hoje a quem nunca lhe negam nada e não são nada além do objeto de seus impulsos e suas paixões desenfreadas! Ao se tornarem adultas, perceberão que são essas mesmas paixões que as destróem (preguiça, impurezas, ambição, álcool, prazeres etc.). Porém, acorrentadas aos maus hábitos por vinte anos, já não possuem forças para resistir a eles.

Por sorte a graça de Deus está presente nas almas dos batizados para curar, pouco a pouco, essas tendências más e elevá-las às alturas de futuros habitantes do paraíso. Uma criança batizada abre-se muito rápida e espontaneamente para o universo sobrenatural. Ela prontamente sopra um beijo para Jesus antes de dormir — sinal de suas futuras orações noturnas. Há todo um universo sobrenatural no qual mergulha de cabeça. A história de Jesus e Maria chama a alma ungida pela graça a explorar os mistérios divinos. A prática do bem é outra motivação. Quanto entusiasmo a jovem alma mostrará ao perguntarem a ela: “O que você fará durante a Quaresma para consolar Jesus, tão triste por causa dos nossos pecados? Você fará um esforço e limpará seu quarto toda noite sem que eu precise mandar? Isso deixará Nosso Senhor muito feliz”. Para ajudar os missionários, por exemplo, as crianças podem ficar sem presentinhos e enviar o dinheiro que seria destinado a eles, com a ajuda dos pais, para missões em países pobres. Para converter os pecadores ou livrar almas do purgatório, crianças são capazes de grandes atos de generosidade. Cabe aos adultos provocar, encorajar e canalizar esses atos. No Batismo, essa vida de fé planta nas almas as sementes e precisarão de uma educação abundante para se desenvolverem integralmente: os bons exemplos, as orações em família, a educação religiosa e o recebimento dos sacramentos…

Dividido entre tantas tendências contrárias (É um animal; porém é inteligente. Pecador; porém assistido pela graça), como no surpreender que a alma de uma criança lembre por vezes um campo de batalha, onde tendências opostas se confrontam? É aqui que se encontra o equilíbrio da educação: ao nos darmos conta, como adultos, de que o pequeno indivíduo necessita compreender que é um general pronto para o combate. Ele deve assumir a responsabilidade de suas lutas durante a vida, para que a graça triunfe no objetivo de santificá-lo.

É possível acrescentar uma intenção a um terço já rezado?

É verdade que, em todas as nossas orações, assim como nas Missas a que assistimos, podemos ter várias intenções e que cada intenção adicional não diminui as outras. No entanto, o bom senso indica que a intenção deve preceder o ato, pois, se assim não fosse, ela não poderia dar o propósito ou a moralidade ao ato, nem poderia ser a causa final pela qual o ato é praticado. Se praticamos um ato de bondade, é pelo fim pelo qual ele foi praticado (finis operantis), que é a principal circunstância que determina seu valor e seu mérito. O mesmo pode ser dito de nossas orações e terços. As intenções são a razão pela qual praticamos esses atos, e, consequentemente, se queremos que elas tenham alguma influência nas nossas orações, devem ser formuladas preferencialmente no início, mas pelo menos antes do fim dessas orações ou terços. De outra maneira, elas não poderão ser consideradas como sendo as intenções dessas orações.
 
Esse princípio é confirmado pelo ensinamento dos teólogos morais acerca das intenções de um Padre que oferece o Santo Sacrifício da Missa. A intenção pela qual a Missa é rezada deve ser formulada antes da Missa. Ela não precisa ser formulada imediatamente antes, mas pode ser formulada com boa antecedência. O mais tardar, no momento em que a essência do sacrifício da Missa acontece, ou seja, durante o Cânon da Missa, antes da segunda consagração. De outra maneira, não se poderá considerá-la uma intenção pela qual a Missa foi rezada (Prummer, Man. Th. Mor: III. p. 183)
 
De maneira semelhante, o fiel deve formular as intenções de seus terços, orações e Missas antes do início, ou ao menos quando começam esses exercícios. É boa coisa ter uma intenção geral além das intenções particulares, como, por exemplo, por tal e tal pessoa doente. Essa intenção geral pode ser por todos aqueles que se recomendam às nossas orações, ou pela Igreja e pelas almas necessitadas. Outro tipo de intenção geral que se recomenda é aquela descrita por São Luís Maria Grignion de Montfort na prática da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, qual seja, praticar todas as nossas ações e orações por Maria como nosso fim próximo, isto é, pelas intenções dela, pois, assim, damo-lhe o valor de todas as nossas boas ações e entregamos a ela pleno direito de dispor delas. Se essa é nossa intenção geral, não precisamos nos preocupar se não mencionamos uma intenção particular, seja porque nos esquecemos dela ou porque não a conhecíamos. Pois já que Maria, na glória do céu, conhece todas essas intenções, ela pode aplicar os méritos de nossas orações a essas intenções, e jamais teríamos que nos preocupar se houve alguma intenção que deixamos de mencionar e à qual precisamos aplicar nossas orações retroativamente.

É lícita a caça ou a pescaria? Moralmente falando, é preciso obter permissão legal para pratica-las?

Deus deu ao homem domínio sobre todas as criaturas, incluindo animais, o que permite que sejam usados pelo homem para propósitos justos, como alimentação, vestimenta, experimentos científicos, trabalho e mesmo lazer. Caçar e pescar por esporte enquadra-se nesse aspecto de lazer e recreação. Por outro lado, crueldade desnecessária com animais é pecaminosa, não porque viola supostos "direitos" dos animais (que não existem na realidade, pois apenas seres racionais podem ser sujeitos de direitos), mas porque macula a dignidade do homem como ser racional e como administrador da criação de Deus.

Como Deus deu os animais para o uso de todos os homens e também das gerações futuras, as autoridades civis — ministros temporais de Deus — têm o dever de garantir que os animais serão preservados, e não arbitrariamente eliminados, o que facilmente ocorreria se não houvesse regulações.

Nos nossos tempos, esse dever é exercido através das leis civis que regulam o tempo, o lugar e a espécie de animais que podem ser caçados ou pescados. Essas leis são impostas para cuidar de certos elementos particulares do bem comum dos homens — a preservação da vida selvagem, que foi criada para todos nós, e a garantia da vida humana e da propriedade.

Sendo esse o caso, as leis civis regulando a caça e a pesca esportivas são verdadeiras leis, de acordo com a definição tomista: "uma ordenação da razão, criada para o bem comum e promulgada pela autoridade responsável pela comunidade".

Portanto, sim, se alguém pratica pesca ou caça esportiva, há um dever moral de observar essas leis. Elas vinculam a consciência — ou seja, negligenciá-las e feri-las é um ato pecaminoso. Apesar disso, nem todas elas vinculam sob pena de pecado mortal, mas a depender da gravidade da matéria.

A piedade na família

I. Ponto de vista da questão.

Quando lamentamos a indiferença e a impiedade que crescem a cada dia no mundo atual; quando fixamos horrorizados os olhos no quadro tristíssimo que os costumes públicos hoje nos oferecem, rara é a vez em que, ao investigar as causas de espetáculo tão desolador, as procuramos em sua primeira origem, qual seja, a desordem que há anos vem se introduzindo na família. No entanto, é nessa sociedade menor, mais do que em qualquer outra parte, que se devem procurar os males da sociedade maior, e é a ela também que se devem aplicar os remédios. As teorias sociológicas retumbantes, como as atuais, não curarão o mundo, tampouco os debates sublimes ou os discursos mais ovacionados do parlamento e da academia. O saneamento deve começar por onde a gangrena começou, e é a família o organismo social mais atingido – mais atingido do que qualquer outra instituição.

Há anos se vem observando, dolorosamente, que a sociedade está se descristianizado. Sabem por quê? Porque se encontram pouquíssimas famílias cristãs. Essa afirmação parecerá ousada; contudo, não nos é difícil repeti-la, de novo e de novo. Sim, encontram-se pouquíssimas famílias cristãs no mundo atual.

Como! - diria alguém, alarmado: porventura não são batizados, graças a Deus, todos ou quase todos os filhos da Espanha? Não se sucedem as gerações sob as bênçãos de Cristo, que sanciona os matrimônios? Não se vive e morre em nossas casas à sombra da cruz?

Sim, tudo isso é verdade, o que não impede que também seja aquela minha afirmação, que tão ousada lhes pareceu. Encontram-se pouquíssimas famílias cristãs no mundo atual. Ouçam-me com alguma atenção, meus amigos, e talvez o assombro se desvaneça.

A família cristã, como a chamo, não é somente a família em que cada um de seus membros isoladamente seja cristão; não é somente a família que, para casar, nascer e morrer, cuida em conservar o uso do carimbo oficial da Igreja Católica, que intervém nesses atos da vida, em vez de recorrer à polícia ou ao registro civil. Para ser cristã, uma família deve professar algo para além dessa religião que se poderia apelidar de oficial e característica dos atos solenes, dessa religiosidade de meras práticas individuais, que cada um exerce por sua conta e razão, sem participação na vida coletiva da sociedade doméstica. Assim como não é católico o Estado cujas leis e cujos órgãos não estão inflamados de espírito católico, que não é obediente aos preceitos católicos e fundamentado nos princípios da verdadeira ortodoxia católica, por mais que delegue funcionários bem uniformizados para assistir a um cerimonioso Te Deum, ou mande celebrar exéquias pomposas, com orações fúnebres e tudo o mais; assim também, por mais que os filhos tenham nomes de santos, por mais que os defuntos descansem em túmulos consagrados e tenham os vivos uns laivos de obediência à Igreja, não se pode chamar de cristã a família que – no conteúdo, na trajetória e na vida do lar doméstico – não se harmonize com os documentos fundamentais da fé cristã, não se inspire neles e a eles não obedeça.

Digam-me, então: Quantas famílias hoje vivem assim?

A família moderna está perdendo aquele aroma puro que sempre vivificou a tradicional família espanhola: o aroma da piedade. Conheço muitas casas em que não é possível chamar a ninguém de incrédulo. Ninguém – nem o pai, nem a mãe, os filhos ou os sobrinhos – renegou a fé. Todos são vistos de vez em quando na Missa, e todos têm certidões de batismo, confirmação e casamento no arquivo paroquial. No entanto, essa fé, que sem dúvida se aninha em todos os corações, não se vê na casa, nem se reflete na vida doméstica: um protestante ou um ateu pode permanecer ali por dias sem que se sinta mortificado pela falta de crença ou a preocupação anticatólica. Os indivíduos são católicos, mas – oh, que pena! – a casa não é.

O tema “A piedade na família”, com o qual nos ocuparemos nas páginas seguintes, indica o aspecto da questão doméstico-religiosa que nos propomos a desenvolver. Nossos leitores podem ir refletindo desde já se esse tema é ou não é oportuno. Para nós, ele parece muito conveniente e apropriado ao apostolado benfazejo que todo propagandista católico deve procurar exercer nos lares espanhóis.

 

II. Por onde se começa com uma pergunta aparentemente ridícula, embora muito importante, no fundo.

Mas — perguntaria alguém — Deus tem o direito de reinar na família?

Por mais ridícula que seja a pergunta, não estranhem que comecemos o capítulo por ela. Hoje, tudo o que se refere aos direitos divinos é matéria de discussões. O homem se agarra tanto à própria vontade e soberania, que alimenta um temor perene de que elas sejam cerceadas por algum desmedido direito que se atribua a Deus. Este temor é a mania, ou melhor, a heresia do século, cujo nome é tão conhecido que não precisamos mencioná-lo aqui. Portanto, antes de começarmos a examinar se a família deve buscar o reinado de Deus pelo exercício da piedade, precisamos informar-nos de se Cristo-Deus tem ou não tem o direito de nela reinar.

Ainda que doa a quem doer, e se limite a liberdade indômita de quem quer que seja, afirmaremos que sim. Primeiro, porque Deus é Deus, e tem todos os direitos. Logo, não lhe pode faltar este. Segundo, porque Deus é rei em todos os lugares, e não há privilégio nem imunidade que eximam o domicílio do homem desta jurisdição real. Terceiro, porque, se Ele é o dono do homem, e tem direito absoluto a reinar sobre ele e seus costumes, tem, por conseguinte, direito a reinar, mais do que em qualquer outro lugar, no lar doméstico, onde se formam os homens, pois é nele sobretudo que se moldam os costumes.

Dessas três razões, as duas primeiras são evidentes por si mesmas, à guisa dos axiomas matemáticos, e é portanto ociosa a demonstração. E mais: de tão verdadeiras, são indemonstráveis. Passemo-las, pois, por alto, e finquemos pé na terceira, que oferece caráter mais prático e tem aspectos que se relacionam mais de perto com o nosso apostolado.

Com efeito, Deus instituiu desde o princípio a sociedade doméstica, para que fosse criadouro e viveiro das gerações humanas, não somente quanto ao aspecto material e físico, mas muito especialmente quanto ao aspecto moral. O varão e a mulher não se unem em matrimônio apenas para ter filhos, visto que essa finalidade única rebaixaria a nobilíssima instituição matrimonial a funções animais e rasteiras. Ambos se unem em matrimônio para ter filhos bons, o que, depois da revelação de Cristo-Deus, equivale a dizer: para ter filhos cristãos, ou seja, para constituir uma família cristã. Essa é uma verdade que nasce de outra, não menos fundamental e sólida: a de que os filhos são criados não para a terra, mas para o céu, e a de que os pais não são pais somente dos corpos, mas dos corpos unidos às almas. Portanto, a paternidade não deve almejar somente que os filhos saiam roliços e belos, nem muito instruídos e gentis, e nem mesmo muito ricos e ilustrados, e sim muito aptos ao fim último a que estão destinados, que é, segundo o sábio catecismo, “amar e servir a Deus nesta vida, para vê-lo e gozá-lo na outra”.

Essa é uma noção elevada demais para que a aceitem as gentes modernas, cujos ideais – até em matérias tão sublimes – conservam num nível baixo e rasteiro. Embora elevada demais, é a única noção que a boa filosofia cristã admite, e a única que se praticou durante os séculos em que a família se constituiu segundo os preceitos cristãos. Essa é a verdade, e o resto é absurdo naturalista e embuste mentiroso da Revolução. Os pais existem para dar os filhos ao céu antes de dá-los à terra. Não importa que precisem passar pela terra antes de ir ao céu, pois é preciso passar primeiro pelos meios antes de chegar ao fim, ainda que logicamente se prefira o fim aos meios. O certo é que sejam criados não para este mundo, porque a missão não termina aqui, mas sim para o outro, que é o destino definitivo.

Assentada essa verdade, depreende-se daí que o lar deve ter um caráter cristão para que os filhos saiam cristãos, assim como é preciso que o molde seja adequado à figura que se deseja extrair dele. A casa deve, pois, ser o caminho do céu, se quiserem que os indivíduos que morem nela e percorram os seus caminhos cheguem ao céu – a menos que se repute normal chegar a certo lugar percorrendo um caminho que dê em outro, diametralmente oposto. Deduz-se daí que o Cristo-Deus deve reinar no lar como reina em todas as partes, sendo este o princípio do seu glorioso reinado sobre a vida do homem, que é criatura sua.

Para ser mais claro e conciso: ou Deus não tem direito nenhum sobre o homem, e nesse caso não é Deus, ou Deus tem um direito muito especial sobre o lar e a família, porque é por aí que deve começar a exercer seus principais direitos sobre o homem.

Isso tudo talvez pareça muito metafísico a alguns leitores ingênuos dos nossos folhetos. Tenham paciência e esperem. Acabamos de apresentar o princípio e fundamento de todo o nosso plano; agora os senhores passarão a ver as consequências, simples e práticas, que decorrem desse princípio nos capítulos seguintes.

Conste desde já que, se alguém quiser pôr em dúvida o direito absoluto de Deus de reinar sobre a sociedade doméstica, visto que hoje infelizmente já se proclama que Ele não tem direito de reinar sobre a sociedade civil – esse alguém se limita a reafirmar um barbarismo liberal da pior espécie, oposto tanto à Religião quanto à sã filosofia e ao bom senso.

 

III. Do caráter prático que, acima de qualquer outra educação, possui a educação no lar doméstico.

Cristo-Deus tem direito de reinar sobre a família porque tem direito de reinar sobre o homem, e o homem, de ordinário, nasce e cresce na vida moral segundo o molde moral em que se enquadra os atos de sua vida – e a família ou lar doméstico é esse primeiro molde moral. Para falar de modo mais direto: para ser cristão, o homem deve ser formado segundo uma educação cristã, no seio de uma família constituída de maneira cristã; não há outro modo de se tornar cristão, a não ser por milagre especialíssimo de Deus, o que por si só é exceção, e não regra. 

Deve, pois, ser cristã a família que se dedica a formar cristãos, e deve ser cristã na prática. Porque a família é uma escola, não de sistemas, mas de costumes; não de discussões, mas de hábitos; não de árduas e áridas especulações do entendimento, mas de singelas e suaves inclinações do coração. Na família não se instrui o homem raciocinando, ou argumentando, ou contrapondo razões, mas vivendo, aprendendo e imitando os bons exemplos. Por isso, vê-se muitas vezes que pais estimados por muito sábios se revelam educadores medíocres dos filhos, ao passo que outros, muito rudes e iletrados, os educam maravilhosamente. Assim é porque nessa escola ensina melhor quem melhor obra, não quem sabe mais; do mesmo modo, não aprende mais quem ouve as coisas mais belas, mas sim quem presencia as melhores ações. A Religião, mais que tudo, se aprende mais com a prática do que com discursos. Sobre o alicerce da boa e leal prática religiosa assentam-se as razões e argumentos que a ilustram e esclarecem, e que a confirmam cientificamente em sua divina verdade. Mas, primeiro, cumpre abraçá-la com coração amoroso, e somente depois lhe compreender os ensinamentos de modo correto e preciso, com todas as luzes da inteligência apoiadas na fé. Esse procedimento, que parece invertido, é aqui o único lógico e natural. Credo, ut intelligam, dizia um grande Doutor da Igreja: “Creio primeiro, para entender depois”. Com igual razão, poderia ter dito: Amo, ut credam et intelligam: “Começo por amar e praticar com fervor, para bem crer e entender”.

Dado o caráter prático que a educação cristã deve ter e, por conseguinte, o caráter de cristianismo prático que a família deve ter – família que precisa ser a principal escola desse gênero de educação –, já não parecerá estranho que tenhamos intitulado estas notas de “A piedade na família”, e não “A religião, ou o Cristianismo, ou o Catolicismo na família”. Escrevemos “A piedade”, e julgamos que escrevemos bem, e que contamos com um forte fundamento filosófico.

Com efeito: Que é a piedade? Essa palavra, que a tantos espanta, significa apenas “a Religião na prática”, ou “a prática fiel e amorosa da Religião”. Ambas as definições vêm a dar no mesmo, embora a segunda seja mais clara. Depois de muito prestar atenção na piedade e nas pessoas piedosas, concluímos logicamente que ninguém pode ser bom cristão se não for cristão na prática, com amor e fidelidade às práticas cristãs; em conseqüência, ninguém pode ser bom cristão se não for perfeitamente piedoso. De modo que a piedade, a tão aborrecida e difamada vida de piedade, não é uma coisa só de padres e monges, ou de alguma senhora desenganada do mundo, ou de algum homem enfadonho e mal-humorado... De jeito nenhum! A piedade é, simplesmente, o dever de todo homem e toda mulher – que não for judeu ou gentio –, do homem que não se resigna a abandonar a fé do batismo; a piedade pertence a todos os estados, a todas as carreiras, a todas as idades, porque é simplesmente a Religião na prática, e não há estado, nem carreira, nem idade que  possa eximir-se da pratica da Religião.    

Daí concluímos que a família deve ser cristã na prática e, para tanto, deve ser perfeitamente piedosa; portanto, a piedade na família não é uma coisa que se possa licitamente deixar de lado, como um grau de maior perfeição que se pudesse livremente renunciar. Antes, ela é o primeiro dever, o dever fundamental, o dever religioso e essencial, o dever que abrange e sustenta todos os demais deveres domésticos, o dever sem o qual desaba toda a trama desse delicadíssimo edifício privado e, em decorrência, de todo o edifício social.  

Parece-nos que esse ponto já está provado o suficiente; por isso, podemos repousar antes de passar às aplicações consequentes.

Entretanto, cada um dos nossos estimados leitores pode começar a deduzi-las por si mesmo. E, sem dúvida, a primeira que lhes ocorrerá é que uma casa piedosa ou, o que dá no mesmo, uma casa cristã, se reconhece pelos mesmos sinais que distinguem um homem ou uma mulher cristã de um homem ou uma mulher não cristã. Como diz a máxima: “Dinheiro e amor ninguém consegue esconder”. O mesmo fenômeno acontece com o tesouro da Fé e o nobilíssimo amor pelas coisas da Fé: quando alguém os tem, é dificílimo ocultá-los; quando alguém de fato não os tem, é dificílimo fingi-los. 

A pessoa ou a casa piedosa proclama a própria virtude, sem fazer o menor esforço, por meio do aparato e da fisionomia exterior. Enxerga-se o espírito de fé prática, que influi em todos os seus atos, a uma légua de distância. Esses atos trazem Deus consigo, e Deus, como lume vivíssimo, irradia-se com todo o ser no mais puro esplendor.

 

IV. Aplicações mais concretas da doutrina anterior.

Uma vez demonstrado que, no cristianismo, a família, (pois dela falamos e a ela nos dirigimos), deve ser piedosa, agora é possível averiguar como ela deve ser piedosa ou, o que dá no mesmo, quais devem ser as formas da piedade. Temos aqui um largo campo a percorrer, um vastíssimo horizonte ante o nosso olhar; uma selva frondosa de reflexões nos convida, por assim dizer, a escolher. Portanto, para dar alguma unidade ao que possamos dizer sobre o tema, comecemos por propor a divisão tão conhecida dos atos de Religião, que se referem uns diretamente a Deus, outros diretamente a nós mesmos. Assim a família cristã, para que de fato seja cristã, quer dizer, para que seja cristãmente cristã, por mais que pareça redundante a expressão, precisa fazer com que se cumpram com bondade e perfeição estes deveres: o dever para com Deus, e o dever para com os próprios membros.

Temos assim uma rota traçada e um plano delineado. Vamos desenvolvê-lo com brevidade e ligeiras indicações.

Dever para com Deus. Esse é o primeiro dever do homem, e é, por consequência, o primeiro de toda família de homens. Contém em si o reconhecimento formal e expresso de Deus, a adoração à sua majestade, a obediência à sua lei, o agradecimento por seus benefícios, o recurso a Ele nas necessidades. Não cumprem, pois, esse dever primário e fundamental as famílias que em sua vida coletiva prescindem por completo de Deus, embora não incorram, formal e expressamente, nas negações ímpias do ateísmo. 

Deus, pois, deve ser visto em todas as partes do lar doméstico cristão. Nossos avós começavam por esculpir seu Nome Santíssimo e o de sua Santíssima Mãe no batente da porta, e coroavam com a cruz benta o cume das torres e claraboias. Esse era um bom sinal de Deus, que dizia com clareza a todos que aquela casa, que com tanto amor ostentava as divinas divisas, era sua. Hoje já não há nada disso – sinal de como estes tempos são péssimos, pois nos contentaríamos com menos, mesmo que trabalhemos e desejemos conseguir todo o resto.  Resignar-nos-íamos de imediato se o interior da casa tivesse o selo e o caráter cristão, e se nela tudo fosse uma declaração franca e explícita da fé que os indivíduos que ali habitam dizem professar.

Por exemplo, não deveria haver ali nenhum adorno que se opusesse à moral de Cristo; nenhum que fosse grosseiro ou impudico, ainda que sob pretextos históricos ou artísticos; nenhum que se deva furtar ruborizado aos olhos do sacerdote, se ele por acaso ali puser os pés; nenhum que não possa figurar dignamente num templo. Por que o cristão deverá ter em sua casa quadros, estátuas e relevos que o horrorizariam se os visse colocados na coluna da Igreja, ou junto do altar? Será ele menos cristão em sua casa do que é na casa de Deus?

Que dizer dos livros e jornais? Será ridículo, será irracional exigir que uma casa cristã não permita a entrada senão de publicações cristãs? Se essa casa abre as portas ao que vem em nome de Deus e também ao que vem em nome do diabo, seu inimigo, a quem pertencerá ela, que reparte entre ambos, com tanta equidade, a amizade e a simpatia? De quem é essa casa? De Deus ou de Belial? De Deus é que não é, porque Deus não reina senão só, sem competição.

Fazem-se refeições em família, mas em família não se reza nem se lê? Então essa é uma família só de corpos, já que só convive em função do corpo? Aquele pai e aquela mãe, que tão pouco zelam por elas, também não se enxergam como pais de almas? Será o bastante que o pai ou a mãe se contentem de rezar sozinhos, sem saber se as outras pessoas da casa satisfizeram essa dívida sagrada para com o Criador? E se ela não for satisfeita, sobre quem recai a responsabilidade dessa insolvência? Por acaso a lei humana não deposita sobre os pais a responsabilidade pelas dívidas que os filhos contraem e não pagam? Pois a Lei divina lhes faz a mesma e terrível exigência.

Divertir-se é pecado? Não; mas procurar e permitir diversões pecaminosas é. E assim o são a maior parte das diversões de hoje em dia, como ninguém ignora, por mais que sobre isso, como sobre tantas outras coisas, haja muito empenho em manter a consciência adormecida. Pecam os pais e as mães que autorizam essa corrupção calculada do lar, embora eles pessoalmente não frequentem os ambientes perigosos: pecam se souberem a que lugares empesteados vão os filhos e filhas, e pecam também se não souberem, porque deveriam saber. Do salão de baile e do espetáculo imoral os filhos maiores trazem para casa, a cada noite ou domingo, miasmas pestíferos que, depois de tê-los envenenado, minam aos poucos tudo quanto lhes estiver próximo, e preparam para a família inteira os germes da corrupção inevitável. O mal se torna gravíssimo se os próprios pais se transformarem no veículo dessa influência malsã. E que dizer dos simplórios ou pusilânimes que, apesar de acreditarem que a consciência não lhes permite participarem da função, ainda assim autorizam que com ela se corrompam aqueles a quem, por mandato divino, estão encarregados de vigiar e proteger?

Mas esse tema tem maior proximidade com o dever da família para consigo mesma.

 

V. Dos deveres da família cristã para consigo mesma.

Além dos deveres gerais para com Deus, teria a família cristã deveres para consigo mesma?

E como não teria? Um desses deveres, de certa maneira, resume e compendia a todos: a educação. Nesse sentido, diremos que a piedade não é apenas o pagamento da dívida de respeito, gratidão e amor que temos para com Deus: é também o meio mais eficaz de aperfeiçoamento moral para nós mesmos, a pedra angular de todo sistema de educação verdadeira, a grande tutora da alma por excelência; por conseguinte, é a grande educadora da família.

Parece coisa velha e gasta repetir aqui que o temor de Deus é o princípio da sabedoria, e, portanto, de toda educação sólida e verdadeira. Mas, por velho que seja esse axioma, e por repisado que o vejamos em púlpitos e livros, é palavra do Espírito Santo, e isso nos dispensa de demonstrá-lo. Se, no entanto, quiséssemos demonstrá-lo ao leitor, bastaria a simples observação e experiência do que vemos todos os dias à nossa volta. A educação doméstica sem Deus tem produzido tantos e tais frutos envenenados, que esse fato é o suficiente para convencer de uma vez por todas sobre o caráter maligno e infernal do sistema que os produz. A expulsão de Deus da educação da família levou embora todos os germes de respeito, amor, concórdia e boa ventura, além de trazer a ruína eterna, que se prepara, quase inevitavelmente, para tais almas desventuradas. 

E para nos cingirmos apenas ao presente, a cujos limites estreitos costuma reduzir-se o olhar do vulgo, declaramos que as virtudes domésticas não podem reinar, absolutamente, num lugar de onde se proscreveu, como ente inútil, o único inspirador de todas elas, que é o temor de Deus. Esse é o laço que a tudo une, o freio que a tudo sujeita, o contrapeso que a tudo equilibra, o norte que a tudo guia, o calor que a tudo vivifica, a esperança celestial a que tudo dulcifica. Na prosperidade nos faz sóbrios, na adversidade resignados, no gozo moderados, no mando discretos, na obediência humildes, na fidelidade constantes, no trabalho animosos. Para a infância é o mestre, para a adolescência o companheiro, para a maturidade o báculo e apoio, para a decrepitude a única esperança e consolo. “A piedade para tudo é útil”, disse o Apóstolo, pietas ad omnia utilis est, “tendo a promessa da vida presente e da futura”: promissionem habens vitæ quæ nunc est, et futuræ.

Por onde se vê que pouco trabalha para o bem dos seus o pai que não procura, antes de tudo, formá-los na piedade sólida e no temor de Deus, fazendo da casa a escola prática de tais virtudes. Pouco importa que tenha todo o resto em ordem: ao edifício que levanta falta o alicerce essencial, e portanto a mais ruína desastrosa é inevitável e certa. Essa ausência de solidez e coesão sobrenatural não se compensa com os procedimentos pedagógicos mais refinados que a brilhante França, a atilada Inglaterra ou a filosófica Alemanha trazem diariamente à nossa terra. Essas pedagogias humanas poderão dar formas à educação, mas não lhe darão fundo, porque para isso é preciso ter a chave do coração, e somente a Religião verdadeira é quem a tem. Os instintos poderosos e ferozes que prematuramente (sobretudo neste nosso século de precocidades) arrastam o jovem para o orgulho, a emancipação, o gozo de todas as liberdades, não podem ser vencidos; esses instintos poderosos e arrebatados não podem ser vencidos senão com algo que seja mais poderoso, e que tenha garras mais fortes que as suas para mantê-los cativos e acorrentados. E esse algo não existe abaixo de Deus; porque abaixo de Deus não há coisa que o homem não possa, num momento de orgulho, olhar como um igual. Assim vemos que, diante do furor das paixões desencadeadas na idade juvenil, cede como débeis arbustos arrastados por um rio impetuoso a fidelidade ao sangue, os olhares do interesse material, a lembrança dos benefícios recebidos, as máximas de moral universal tão pomposas quanto ocas e estéreis; numa palavra, tudo o que por si só oferece uma educação meramente humana e fundada em motivos meramente humanos. Só exerce alguma força sobre o homem aquilo que é superior ao homem; aquilo que flutua no naufrágio de todo o resto; aquilo que, ainda que por um instante pareça coberto pelas águas turvas, permanece ao menos como um penhor de arrependimento futuro.

Vejam, pois, como se perde miseravelmente o tempo e o trabalho de tantos pais desorientados, que pretendem que a família seja boa e morigerada sem contar com Deus para nada. A realidade quase sempre confirma neles aquela sábia sentença do salmista: “Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam” (Sl 126, 1). Os pais que professam e praticam um sistema educacional tão ruim lavram a desventura temporal e eterna dos filhos, e com a deles a própria. Educam tão somente para a carne, portanto a carne prevalece e orgulha-se de todas as suas vilezas e ignomínias. Eles não cuidam da alma, imagem de Deus, de forma que os filhos costumam apresentar essa soberana imagem completamente obscurecida e desfigurada. Essa educação é uma horrenda calamidade dos nossos tempos, sem dúvida a pior entre todas as que tornam tão desastroso o nosso presente estado social.

    

VI. Do que poderíamos chamar de laicismo na família.

A última novidade revolucionária, a moda do dia em educação, é o laicismo, ou seja, a escola sem Deus e sem Religião. Mas o que mais espanta é ver que muitos pais e mães, que não podem ouvir falar na escola laica e dos professores laicos sem horror, tornam-se eles mesmos pais laicos e fazem laica a sua casa, sem sentir com isso escrúpulo no coração, nem vergonha no rosto. A menos que se tenha em conta uma estranha incoerência, tão comum ao homem, não se compreende como o laicismo da escola os horroriza tanto, se tão pouco os horroriza o laicismo na família, que é sem dúvida muito pior.

Advirta-se uma circunstância. A desculpa com que os pedagogos laicos pretendem abonar seu sistema funesto de prescindir na escola de toda idéia de Deus e de Religião é a de que essa idéia, dizem eles, diz respeito à missão especial do pai e da mãe de família, ou ao sacerdote no templo, não competindo aos mestres ingressar em outra esfera senão a puramente literária e científica. Por seu lado, os pais e mães que chamaremos de laicos dizem algo similar, porém em sentido inverso. Eles dizem que podem desencarregar-se da obrigação de ensinar a piedade aos filhos, pois para isso vão eles à escola e ao colégio, onde essas coisas lhes são ensinadas. De sorte que, conforme vão progredindo as idéias modernas sobre a questão, teremos o caso, certamente ridículo, dos mestres confiando a educação religiosa das crianças aos pais, e estes, por sua vez, confiando-a aos mestres, resultando inevitavelmente em menino e menina sem religião. Assim se vê o modo singular e engenhoso de Satanás urdir suas artimanhas, e como são ingênuos e simplórios muitos católicos da geração presente, que nunca as percebem.

Não, pais e mães descuidados, não existe desculpa para os senhores, mas sim grave, gravíssima responsabilidade. Se são más e abomináveis as escolas laicas, onde o mestre, que é uma espécie de assalariado a serviço do diabo, cuida de envenenar a infância inexperiente com uma educação naturalista e atéia, muito mais abominável e satânica é a família laica, onde a alma terna do menino ou da menina se vê privada do último refúgio de moralidade e crença que poderia ainda salvá-la da atmosfera corruptora da má educação escolar. O mundo lhe dá peçonha a mancheias em todas as partes; em casa, ao menos se poderia preparar um antídoto eficaz. Se essa atmosfera estiver também peçonhenta e adulterada, onde procurará socorro?

Por desgraça, há tanto desse laicismo doméstico na sociedade presente, que já ninguém se comove, de tão familiarizados que estamos com ele. Quem diria? São mestres e mestras laicos, sem perceber, uma infinidade de pais e mães que se têm talvez na conta de bons e honrados cristãos! E com isso servem à Revolução e à Maçonaria, como se para isso a seita lhes desse a paga de tantos ou quantos dinheiros por semana ou por mês como preço de seu ofício de corromper! E mansamente, eles que tanto dizem amar e vigiar os filhos, infundem-lhes nas almas o ateísmo prático que as paixões, os maus livros, as companhias perversas se encarregarão dia após dia de converter em doutrina! Pais! Mães! Os senhores já meditaram um minuto sequer, em toda a sua vida, no caráter gravíssimo de que se reveste a mera negligência em assunto tão vital? Pais! Mães! Se o maior perigo dos nossos dias é a escola teórica sem Deus, qual não será o imenso perigo dessa outra escola prática sem Deus que é a família sem piedade?

Dizíamos sem pensar muito, somente pela força do convencimento, que entre um laicismo e outro não sabíamos qual era o pior e de consequências mais espantosas. Olhando bem, porém, não há dúvidas de que podemos considerar mil vezes mais desastroso o laicismo da família que o da escola, porque a influência boa ou má daquela é mil vezes mais eficaz que a desta, e por muitíssimas razões. Primeiro, porque a criança experimenta a influência da família muito antes de experimentar a da escola, e sabe-se que, em matéria de impressões, as primeiras costumam ser mais decisivas ou, no mínimo, mais permanentes. Além disso, a criança vive quase sempre na atmosfera da família, e na da escola somente um pouco por dia. Além disso, porque a autoridade e a força moral que a criança geralmente reconhece no pai ou na mãe é infinitamente superior à que o mais fiel discípulo pode jamais reconhecer no mais respeitável dos mestres. E, finalmente, porque as noções religiosas que a piedade enraíza profundamente no coração da terna infância são de uma tal índole que, se a suavíssima e poderosíssima voz da autoridade familiar não as grava, somente a custo poderão ser infundidas.

Mas este último ponto oferece campo vasto a novas reflexões, que exigem um capítulo à parte.

 

VII. Por onde se demonstra o que foi dito anteriormente.

Por que uma casa sem práticas de piedade é uma casa sem Religião ou laica? Porque na casa a única forma cabível de ensinamento religioso é a prática piedosa.

Vejamos. Nem o caráter da Religião, nem o caráter dos pais, nem o caráter dos filhos consentem outro ensinamento religioso na família senão sob a forma do ensinamento prático, ou seja, das obras de piedade.

O caráter da Religião não o consente. A Religião como ciência é complicadíssima, vasta, profunda. Só consegue estudá-la em todo o conjunto uma vida inteira dedicada unicamente a isso; só consegue sondar além da superfície das suas profundezas o engenho perspicaz. Nada é tão grande e incomensurável quanto esse imenso saber que abarca todas as relações e mistérios de Deus, do homem e da eternidade. No entanto, a Religião deve ser patrimônio de todos, e todos devem possuí-la como o principal meio de felicidade presente e futura; todos, incluindo os mais rudes, dos mais alheios a toda investigação científica e até a mais vulgar alfabetização. Como se podem, pois, conciliar esses extremos? De um modo muito simples: ensinando-lhes bem a prática, até mesmo quem nem de longe é capaz de compreender a divina doutrina por trás dela; crendo, como também devemos crer todos, sob a fé de Deus e da Igreja, comunicada à sua débil inteligência por meio dos pais, que são o órgão de maior confiança que a criança pode ter neste mundo; e praticando e vendo a prática diária daquilo em que se crê. Esse é o meio mais seguro para que esses ensinamentos sobrenaturais desde cedo se identifiquem e se fundam com a vida natural num só hábito. E façamos uma observação. Essa mesma prática, que alguém talvez qualifique como inconsciente, traz consigo uma certa luz para a inteligência de quem amorosa e sinceramente a observa, até o ponto em que, iluminados por ela, muitos dos rudes e ignorantes chegam a entrever e a vislumbrar, em matéria de Religião, arcanos aos quais nunca chegou a ciência adquirida nos livros. A graça de Deus se compraz em dar-se aos pequeninos e aos pobres de espírito, e em fazer refletir seus esplendores principalmente sobre os limpos de coração, A prática fiel, humilde e amorosa da Religião é, pois, caminho para se saber muitas coisas a respeito dela, e é a única coisa indispensável tanto para o comum dos cristãos quanto para os que a estudam. Deve, pois, ser religiosa a família. Com maior clareza: uma vez que não deve ser laica nem atéia, o que dá no mesmo, deve ser piedosa. E deve ser piedosa pelo uso e pela repetição, até formar o hábito dos atos de piedade, o que o próprio caráter da Religião exige.

Mas o caráter dos pais também o exige. Os pais são os mestres natos da família. E quantos pais há que possam exercer esse delicado magistério, sem valer-se da eloquência e das razões do bom exemplo? Mesmo os pais mais instruídos não têm geralmente instrução nesse ramo da ciência religiosa, nem chegam a ser catedráticos medianos nela. Ou não serão, pois, mestres em sua casa, ou o serão do único modo que lhes é possível, ou seja, ensinando na prática aquilo que não podem ensinar de outro modo. E se afirmamos isso dos pais que têm conhecimentos regulares de letras e ciências humanas, que diremos então da imensa generalidade dos pais que nem isso têm, que mal sabem ler e escrever, ou que nem a isso chegam? E, no entanto, mestres devem ser, com responsabilidades e deveres iguais aos pais mais instruídos. Somente, pois, por meio da piedade, isto é, da prática fiel e constante dos atos de Religião em família, é que ela está capacitada a receber o ensinamento cristão de que necessita.

Finalmente, exige-o também o caráter dos próprios filhos. Eles devem receber esse ensinamento numa idade em que seja impossível adquiri-la de outro modo, senão por aquele que procede da impressão, e que se conserva e perpetua pelo hábito. Santo Agostinho ou Santo Tomás em pessoa, se estivessem encarregados de doutrinar na fé crianças de certa idade, dificilmente poderiam tirar outro fruto de suas inteligências insipientes. Não há ali força de abstração, não há ali destreza de raciocínio, não há olhar compreensivo e generalizador: só há terra disposta a receber as sementes que a seu tempo germinarão e crescerão. Essas sementes serão principalmente (além do hábito sobrenatural da fé infundido pelo Batismo) os hábitos criados pela autoridade do exemplo: hábito de crer, hábito de venerar, hábito de sujeitar-se, hábito de mortificar-se e outros semelhantes, eis aqui os cimentos da educação religiosa. Melhor: eis aqui quase toda a educação religiosa possível para a tenra idade. E como isso só é factível pelo exemplo constante da vida de piedade na família, eis aqui a necessidade da prática contínua dos atos piedosos em seu seio.

Mais brevemente, e resumindo:

Se a Religião deve ser ensinada para certa idade e classe de pessoas, só pode ser ensinamento prático. Se os pais devem ser mestres, só podem ser mestres práticos. Se os filhos devem ser discípulos, só podem ser discípulos ao modo prático.

Logo, não cabe outro ensinamento religioso na família senão o ensinamento por meio da piedade.

Logo, a piedade é a principal necessidade da família, e portanto é o primeiro dever dos indivíduos, especialmente dos chefes dela.

 

VIII. Acrescenta-se um exemplo a modo de conclusão.

Um correspondente, amigo nosso, residente numa das cidades mais belas e populosas da Andaluzia, levou tão a sério, segundo nos contou, essa piedade em família que vimos há tanto tempo pregando aos nossos leitores, que nos pareceu bem dar-lhes esse exemplo formoso como fim e coroa dos presentes capítulos.

O citado amigo, tão ilustrado quanto fervoroso, chegou a estabelecer em sua casa o que ele chama, com propriedade, de culto doméstico, o qual celebra com a exatidão e minúcia mais edificantes.

Começou por escolher um lugar especialmente dedicado a esses atos de piedade privada, e ali ergueu um oratório. Pôs nele as imagens dos santos padroeiros da família: a Imaculada Conceição, São José, São Roque e São Luís, presididos pelo Sagrado Coração de Jesus. Enfeitou-o com todo o gosto e primor que se pode permitir uma família sem muitas posses; gosto e primor que todos os lares poderiam mostrar para com Deus, já que os mostram tão facilmente no adorno de suas casas e pessoas, e até de seus cães e cavalos.

Todo dia aquele bom pai se reúne com sua família e criados naquele lugar para a prática da piedade. A oração do Santo Rosário e uma pequena leitura espiritual são as ações usuais de cada dia; nos dias de festa, se acrescenta alguma coisa a essa medida cotidiana. Os dias mais solenes do ano são festejados com iluminação mais esplêndida e com cantos que um dos próprios filhos acompanha ao harmônio. Uma tabela a modo de escala fixa na parede do oratório assinala os dias que poderíamos chamar de clássicos, e as diferentes funções com que devem ser celebrados os dias de preparação, as oitavas e novenas, os meses inteiros consagrados a São José, à Virgem de Maio, ao Sagrado Coração ou às almas benditas do Purgatório. O pai é, por direito natural, o oficiante dessa pequena Igreja doméstica, verdadeira filial da paroquial, da qual é obscuro e modesto satélite auxiliar.

Eis aqui o que é organizar a piedade na família de modo a nada deixar a desejar. Mas, sem precisar chegar a essa perfeição e primor de detalhes, não é certo que todo pai e mãe verdadeiramente cristãos podem providenciar em sua casa um culto doméstico análogo, senão igual, ao que acabamos de indicar? Que dificuldades apresenta, além da preguiça, a oração do Santo Rosário? Que custa ler por um quarto de hora a cada noite para a família reunida umas páginas de um livro apropriado, como As Vidas dos Santos, as obras do Padre Granada, que todo espanhol devia saber de memória, ou o popular e nunca assaz elogiado Exercício de Perfeição do Padre Rodríguez? Que perderiam os filhos e filhas se conhecessem, por meio da leitura do pai, todas ou quase todas as obras dos nossos admiráveis ascetas, o severo Nieremberg, a jovial Teresa de Jesus, o familiar e castiço Rivadeneira, alternadas com a leitura dos principais autores modernos, que a apologética católica dá à luz todos os dias?

Antigamente esse era o uso na Espanha, e era a esse uso sem dúvida que a antiga família espanhola devia a proverbial severidade e o caráter austero. São as idéias que dão a têmpera devida aos costumes, e as idéias, tanto na casa quanto na cidade, são as que formaram nossos atuais costumes civis ou domésticos, tão frouxos, tão desmazelados. Quem quiser restaurar a ambas e voltar à ordem primitiva deve começar a reformá-las sobre a base da piedade sólida, sem a qual edifica-se sobre a areia qualquer construção que se queira levar a cabo.

Se eu viajar para um lugar remoto no fim de semana, tenho que me deslocar por horas a fio para ir à Missa?

Pela lei natural e pela lei positiva divina, devemos render culto a Deus. A lei eclesiástica determina que essa obrigação deve ser cumprida assistindo à Missa nos domingos e nos dias santos. Esse preceito vincula sub gravi (ou seja, sob pena de pecado mortal) a todos aqueles que atingiram a idade da razão (sete anos de idade). Além disso, qualquer pessoa obrigada a obedecer a uma lei também está obrigada a fazer esforços para evitar qualquer obstáculo ao seu fiel cumprimento.

Como uma lei não pode obrigar ao impossível, a Igreja reconhece que, em certas circunstâncias, alguém pode ser escusado de observar a lei. Assim, uma causa moderadamente grave pode nos escusar de assistir à Missa em um domingo. As principais causas, normalmente, são: 

  1. impossibilidade física ou moral, como, por exemplo, em caso de doença, grande distância de uma Igreja, condições de tempo perigosas, risco de séria perda material, etc; 
  2. caridade que nos obrigue a ajudar o próximo, como, por exemplo, tomar conta de uma pessoa doente, ou estar presente para evitar que alguém caia em pecado; 
  3. obrigação imposta por certas funções ou ofícios, como, por exemplo, soldados, enfermeiras, bombeiras, etc, enquanto em serviço.

Mas, embora Deus não espere de nós que façamos o impossível, Ele espera que suportemos alguns inconvenientes ou obstáculos aos nossos planos para que consigamos cumprir Sua vontade.

Portanto, não nos é lícito criar um obstáculo ao cumprimento da lei, exceto se houver uma causa grave proporcional.

Relaxamento e recreação são, certamente, necessidades humanas legítimas, bem como dons de Deus. Mas, como existem várias formas de relaxar, devemos escolher aquela que não nos force a ausentar-nos da Missa dominical.

Portanto, se escolhemos uma atividade recreacional que nos impossibilite assistir à Missa dominical, a razão para isso deve ser de uma gravidade proporcional à gravidade do preceito eclesiástico. Um motivo dessa gravidade proporcional poderia ser, por exemplo, se acampar num local remoto for aconselhável como a maneira mais útil de fortalecer os laços de uma família que corre o risco de desabar. Outros motivos de gravidade proporcional poderiam ser, por exemplo, se não tivermos oportunidade de tirar férias anuais em outro período, ou se for o caso de uma viagem ao estrangeiro que jamais teremos a oportunidade de fazer novamente.

Em todo caso, devemos evitar fazer de nossas atividades recreacionais o ponto de partida da programação do nosso fim de semana, relegando pensar em Deus e na Missa a um momento posterior.

A Missa é um dom de Deus, e assistir a ela é um privilégio incrível para nós, especialmente na atual crise da Igreja, em que há um número decrescente de Missas e de fiéis indo à Missa para render a Deus o culto que Lhe é devido.

Portanto, não devemos tentar encontrar desculpas para não ir [à Missa de preceito], mas, ao contrário, fazer esforços para ir à Missa mesmo em outros dias da semana.

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