Skip to content

Category: Perguntas e RespostasConteúdo sindicalizado

Tenho um parente na casa dos 30 que não foi batizado. Ouvi falar que qualquer pessoa pode batizar se um padre não estiver disponível.

É verdade que um leigo pode batizar validamente, porém só é lícito a um leigo batizar alguém quando o não batizado está em perigo iminente de morte e quando um padre não estiver disponível. Além disso, um leigo só pode dar a matéria e a forma necessários para a validade do sacramento. Ele não pode administrar as demais cerimônias, que só podem ser separadas da forma sacramental em caso de perigo de morte.

Ademais, um adulto só pode ser batizado se ele acredita e aceita todos os artigos da fé católica, se ele houver estudado e aprendido seu catecismo, se ele estiver arrependido de seus pecados e se houver requerido ser recebido na Igreja Católica. Apenas um padre pode julgar se essas condições foram preenchidas. Se não foram, o batismo corre risco de ser infrutífero e não dar a graça.

Um caso em que um leigo poderia batizar seria aquele em que um não batizado está em leito de morte e não há tempo para chamar um padre, e o moribundo faz atos de fé, esperança, caridade e de contrição, afirmando que crê em tudo que a Igreja Católica acredita, está arrependido de seus pecados e quer tornar-se um católico. Porém, deve-se fazer todo esforço para encontrar um bom padre tradicional que julgue as disposições do catecúmeno.

- Pe. Scott, Agosto de 1999.

Por que os católicos não comem carne nas sextas-feiras?

A prática de abstinência de carne nas sextas-feiras data do início da Igreja. O princípio da prática penitencial de abstinência, para se atingir o domínio de si mesmo, já estava delineado por São Paulo: “E todos aqueles que combatem na arena de tudo se abstêm e o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível” (1Cor 9, 25) e “Antes nos mostramos como ministros de Deus nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns” (2Cor 6,5).

Menção explícita da prática de abstinência nas sextas-feiras é feita em um documento do fim do século I (A Didaqué dos Apóstolos), assim como por São Clemente de Alexandria e por Tertuliano no século III. Era um costume universal desde o começo, e a sexta-feira foi escolhida em comemoração da Paixão de Nosso Senhor como um dia em que devemos nos esforçar de maneira especial para praticar a penitência. É em reconhecimento do fato de que Cristo sofreu e morreu e deu sua carne humana e sua vida por nossos pecados em uma sexta-feira que os católicos não comem carne nesse dia. O Papa Nicolau I tornou isso lei da Igreja no século IX. Na Igreja Latina, nos primórdios da Idade Média, esse dia de abstinência não foi considerado suficiente, e a abstinência aos sábados foi acrescentada em honra ao sepultamento de Cristo e ao sofrimento de Nossa Senhora e das santas mulheres no Sábado Santo. Isso foi tornado lei da Igreja por São Gregório VII no Século XI, mas, desde então, caiu em desuso, exceto por parte daqueles que querem professar sua devoção a Nossa Senhora de maneira especial. A Igreja Oriental também tem regras  rigorosas para abstinência, pois, nela, a abstinência de carne é praticada nas quartas e nas sextas-feiras.

As regras acerca do que é ou não permitido em dias de abstinência também variaram conforme o tempo. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, indica que ovos, leite, manteiga, queijo e gordura são proibidos em dia de abstinência porque eles vêm de animal e, portanto, têm, em sua origem, algum tipo de identidade com a carne. As regras dos nossos dias restringem a abstinência à carne vermelha apenas.

A abstinência de carne é uma lei eclesiástica, mas que, desde muito tempo, obriga sob pena de pecado mortal. O Papa Inocêncio III deixou isso muito claro no começo do Século XIII, e, no Século XVII, o Papa Alexandre VII anatematizou aqueles que buscavam minimizar o caráter dessa obrigação ao declarar que sua violação seria apenas um pecado venial.

Certamente é verdade que, sendo um preceito eclesiástico, a abstinência das sextas-feiras pode ser alterada pela autoridade soberana da Igreja. Porém, a maneira como esse importante preceito tem sido banalizado pela Igreja pós-conciliar é uma enorme desgraça e vergonha para os Católicos. Não se ensina claramente que ele obriga sob pena de pecado mortal, e a possibilidade de substitui-lo por qualquer outro tipo de sacrifício, dada pelo Código de Direito Canônico de 1983, efetivamente destruiu essa antiga prática. A razão fundamental pela qual os modernistas detestam a abstinência de sexta-feira é que eles negam a necessidade de alguns pequenos atos de penitência para satisfazer o castigo temporal devido aos nossos pecados, além do que eles fazem tudo que podem para esvaziar o mistério da Paixão, isto é, da cruz, e tentam substitui-lo por um Cristo Ressuscitado sem sofrimento ou sacrifício. Porém, foi através do sofrimento e do oferecimento da sua carne e do seu sangue que nosso Divino Salvador se dignou nos salvar, e, consequentemente, é nosso dever associar-nos aos seus sofrimentos através da abstinência das sextas-feiras.

 

- Pe. Scott, Novembro de 2002.

A Igreja deu condições para que uma guerra seja justa?

Existem princípios católicos imutáveis para que uma guerra seja justa. O procedimento é simples: aplicamos à guerra os fatores determinantes de um ato moral. Em todo ato moral deve haver três fatores: (a) o objeto, (b) a intenção, (c) as circunstâncias. Todos os três devem ser considerados moralmente bons; caso contrário, o ato é mau e deve ser proscrito. Em outras palavras, todos os determinantes da moralidade devem ser bons e presentes.

 

O objeto

O objeto deve ser bom, isto é, a guerra deve ter justa causa. As guerras podem ser de dois tipos: defensiva e ofensiva. Uma guerra defensiva tem justa causa se praticada para defender um direito essencial e fundamental que foi injustamente negado; uma guerra ofensiva é justa se for o único meio para preservar um direito essencial e fundamental injustamente negado, desde que todos os outros meios pacíficos e diplomáticos hajam sido exauridos.

Além disso, é indispensável que o bem defendido seja proporcional aos males que a guerra causará. Em hipótese alguma o católico pode aceitar o princípio “meu país, esteja ele certo ou errado”.

 

A intenção

A única intenção que pode justificar a guerra é a promoção do bem comum e o objetivo de evitar um mal maior. No nosso mundo, o bem comum abrange não apenas o bem daquela nação específica, mas o bem de todo o mundo, pois nenhuma nação vive isoladamente; a ordem da prosperidade das nações está diretamente conectada com o bem de cada uma delas.

 

As circunstâncias

A guerra deve ser boa não apenas na sua causa e intenção, mas também nas suas circunstâncias ou métodos. O Papa Pio XII declarou, em Março de 1937, aos Bispos mexicanos: “1) Os métodos usados para vindicar direitos são meios para se atingir um fim e, portanto, constituem um ‘fim relativo, não um fim absoluto em si mesmo. 2) Por serem meios para se buscar um fim, os métodos de vindicar direitos devem ser lícitos e não atos intrinsecamente maus’. Em outras palavras, o fim não justifica os meios. Roubar os ricos para ajudar os pobres não é um princípio moral católico. Nenhuma vantagem, por maior que seja, pode ser adquirida às custas da violação da lei moral. 3) Como os métodos para vindicar direitos devem ser proporcionais ao fim, eles devem ser usados apenas na medida que pareçam atingir aquele fim, no todo ou em parte, e de tal maneira que não tragam dano maior à comunidade que o dano que eles, supostamente, deveriam remediar.

Apenas quando essas três condições de uma causa ou moralmente boa, intenções corretas e métodos justificáveis estiverem presentes, pode-se dizer, afirmativamente, que uma guerra está justificada.

- Pe. Boyle, Julho de 1995.

A Igreja Católica se opõe à guerra?

Nos nossos tempos, em que um falso pacifismo parece dominar o pensamento de muitas pessoas influentes, vale relembrar qual o verdadeiro ensinamento da Igreja Católica acerca da guerra. Uma condenação absoluta da guerra é algo alheio à tradição católica. A vocação militar, de maneira alguma, é proscrita no Evangelho e sempre foi praticada pelos católicos. Afinal de contas, não houve vários mártires e santos homens de armas?

Os Padres da Igreja consideram a profissão militar e o seu exercício um estado honroso de vida. Toda a Teologia católica desde Santo Agostinho, passando por Santo Tomás de Aquino e até o Papa Pio XII, qualificam atos que geram desarmonia, desunião e ausência de concórdia entre os homens como sendo puramente negativos e, indo além, determina que nem sempre é pecado o combate.

A guerra, porém, é um mal, embora não necessariamente o maior dos males, e a Igreja a inclui, juntamente com a fome e a peste, entre os castigos dos quais os homens devem ser preservados, por exemplo, na Missa In Tempore Belli. Para uma guerra ser lícita, deve haver certas condições: que seja declarada pela autoridade competente, que seu propósito seja reparar a violação de um direito, que haja uma expectativa fundada de sucesso e que a guerra seja conduzida com moderação.

A questão da guerra total é mais delicada, dado o armamento sofisticado moderno e a destruição de vasta escala de que ele é capaz. Uma guerra defensiva contra um agressor é sempre lícita, e a moralidade de uma guerra, em geral, está sujeita a duas condições: que ela seja justa e que o recurso às armas seja necessário para repelir um agressor; e que ela seja moderada, pois não há direito de guerrear imoderadamente.

- Pe. Boyle, Julho de 1995.

O que são anjos?

Anjos são puros espíritos criados que possuem um intelecto e vontade mais elevados que os do homem. Eles não têm corpos e, portanto, não podem ser homens nem mulheres. Cada anjo é uma nova espécie em si mesma, e há nove coros angélicos. Eles cumprem a vontade de Deus ao serem mensageiros e guardiões dos homens, de papas, bispos, cidades e países. Há obras onde se atribui a eles a tarefa de manter o universo ordenado, guiando os planetas e estrelas nos seus movimentos. 

Nós só sabemos os nomes de três: Miguel, Gabriel e Rafael. Desde o Vaticano II, alguns adeptos da Nova Teologia têm negado a existência dos anjos porque essa verdade de fé seria um obstáculo para os não-católicos – e isso apesar das Sagradas Escrituras, que falam dos anjos em quase toda parte!

- Pe. Carl, Abril de 1979.

O que são os querubins e os serafins?

Querubim é a forma plural da palavra hebraica “cherub” e significa algo próximo a “aquele que abençoa” ou “aquele que reza” -- tratam-se de espíritos a serviço do Senhor Deus. Nós os encontramos, para citar apenas alguns lugares, após a expulsão de Adão do Jardim (Gn 3, 24) e na visão de Ezequiel (En 1, 10). Eles agem como guardiões no Antigo Testamento, seja de maneira real (Ez 28, 14), seja representados no Santo dos Santos sobre a Arca da Aliança.

Serafim é o plural de “seraph”, que significa “aquele que queima”. Nós os vemos na visão de Isaías ao redor do trono de Deus (Is 6, 1-7). Eles são descritos como possuindo seis asas e prostrados ante a divina majestade de Deus três vezes santo. Essas duas classes de seres celestiais são consideradas as mais elevadas, as mais próximas do trono de Deus.

(Trecho do livro "The best of Questions and Answers", Angelus Press)

Se Cristo sabe tudo, como pode dizer que não sabe o dia do julgamento?

Cremos que Cristo, como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, sabe tudo, pois Ele é Deus. Então como Ele pode dizer que não sabe o dia do Julgamento, mas apenas o Pai?

As palavras nas quais essa dificuldade se baseia podem ser encontradas no Evangelho: “A respeito, porém, desse dia ou dessa hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai” (Mc 13, 32).

Essas palavras podem ser explicadas de duas maneiras, que refutam essa aparente dificuldade levantada na pergunta.

Primeiro, poderíamos salientar que Deus Filho, que se tornou homem, fala aqui não enquanto Deus, mas enquanto homem. Concluímos disso que Ele está falando sobre o conhecimento que tem enquanto homem. Pois Cristo, que era Deus e homem, tem um conhecimento perfeito, infinito, enquanto Deus; mas, enquanto homem, é claro, Ele possuía um tipo de conhecimento diferente, não sabendo, assim, tudo que sabia enquanto Deus.

Poderíamos dizer que Cristo fala aqui do mesmo modo que quando fala que o Pai é maior que Ele: que fala de sua natureza humana e de seu conhecimento humano, e que Ele, portanto, meramente indica que não sabe o dia do Julgamento enquanto homem.

Essa explicação, porém, foi rejeitada por um decreto do Santo Ofício em 05 de junho de 1918; portanto, devemos crer que, mesmo enquanto homem, em virtude de seu conhecimento humano, Cristo sabia todo o passado, presente e futuro; e, portanto, também conhecia o dia do Julgamento. É por essa razão que fazemos melhor em aderir à explicação tradicional que Santo Tomás de Aquino nos dá: Cristo não sabia o dia e a hora do julgamento com scientia communicabilis, isto é, com um conhecimento que poderia compartilhar com os outros. Foi por isso que disse que não sabia. Afinal de contas, nós também podemos responder a perguntas inadequadas sobre coisas que não podemos revelar dizendo: “Eu não sei”.

Com essas considerações, podemos dizer que os apóstolos demostraram uma curiosidade inadequada sobre o dia do Julgamento. E, portanto, Cristo indicou que o dia e a hora permaneceriam desconhecidos até que o Pai os tornasse conhecidos.

Como conciliar a doutrina do pecado original com a justiça divina?

Por Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels

Pergunta: Como o pecado oirginal pode ser conciliado com a justiça divina? Afinal de contas, em razão do pecado original, somos culpados de algo que não fizemos por conta própria, mas que foi feito por Adão nos primórdios da criação.

Resposta: Sabemos da Bíblia que Deus criou as primeiras pessoas em um estado de felicidade. Ele lhes deu os grandes privilégios de ter uma alma e um corpo. Acima de tudo, Ele direcionou o homem para um fim sobrenatural, isto é, a salvação eterna, que consiste na visão beatífica de Deus. Como meio de atingir esse fim sobrenatural, o homem recebeu de Deus a graça santificante, fazendo-o filho adotivo de Deus com direito ao céu como herança.

Esses e outros privilégios, tanto na ordem natural quanto na sobrenatural, foram dados ao homem como um dom totalmente imerecido. Tudo isso foi dado não apenas às primeiras pessoas pessoalmente, mas, nelas e através delas, a todos os seus descendentes, isto é, a todos aqueles que descenderiam deles por nascimento. Mas as primeiras pessoas tiveram de se mostrar dignas desses grandes privilégios através de uma fiel aliança com Deus e da obediência aos Seus mandamentos, a saber, a lei natural e, especialmente, o mandamento específico: não comer do fruto proibido.

Afinal de contas, Adão foi não apenas o ancestral natural de todas as pessoas, mas também foi nomeado por Deus como a cabeça moral, isto é, o representante de toda a humanidade no que diz respeito à graça santificante e à salvação eterna no Céu. Adão carregava a vida da humanidade, não apenas a física e natural, mas também a sobrenatural. Se ele continuasse a obedecer o mandamento de Deus, seus descendentes seriam felizes; se ele se tornasse infiel ao mandamento de Deus, a humanidade, nele e através dele como seu representante, tornar-se-ia infeliz.

Nós sabemos o que aconteceu. Portanto, a vida sobrenatural da humanidade foi profanada pelo representante da humanidade: Adão. E daí adveio que as pessoas que nascem sem a graça sofrem não apenas uma perda, mas um roubo. Todos os que descendem de Adão deveriam ter tido um bem que foi roubado. Isso deixou a natureza humana em um estado de desespero espiritual, que chamamos de pecado original.

Esse pecado original não é contrário à justiça de Deus. Afinal de contas, um príncipe, também, pode elevar um camponês e toda a sua família à nobreza, mas apenas sob condição de que essa pessoa sirva o príncipe fielmente. Se ele não servir, ele perde a nobreza não apenas para si, mas também para todos os seus descendentes. Esses descendentes poderiam acusar o príncipe de ser injusto porque nasceram sem nobreza? É claro que não! Devemos, portanto, prestar atenção a isto: por causa do pecado de Adão, só foram perdidos os bens aos quais não tínhamos direito. A natureza em si, com seus dons naturais, sobreviveu à destruição do pecado.

É melhor, portanto, darmos mais atenção ao amor ilimitado de Deus, que nos deu um Redentor, Cristo Nosso Senhor, e que, assim, tornou o pecado de Adão -- conforme à palavra de Santo Agostinho -- uma felix culpa, uma culpa feliz. Esse pecado foi feliz no sentido específico de que ele nos trouxe a bênção da Redenção.

The Angelus, Março-Abril de 2020

 

Se Deus é a causa de tudo, como podemos ser livres?

Por Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels

 

Nota do editor: este artigo é o segundo de uma série de respostas concisas a perguntas e objeções contrárias à fé católica frequentemente encontradas. As perguntas e respostas foram adaptadas da obra “As Dificuldades Mais Frequentemente Encontadas” (em inglês: “The Most Frequently Encountered Difficulties”), do Prof. Felix Otten, O.P., e C.F. Pauwels, O.P., publicada originalmente em holandês em 1939. 

 

Pergunta: A Igreja Católica ensina que o homem é livre e, ao mesmo tempo, que Deus é a causa de tudo. Se é assim, então não seria Deus a causa de nossa vontade? E, se Deus sabe, de antemão, o que vamos fazer e até mesmo causa o que vamos fazer, então como podemos ser livres?

Resposta: Pessoas que fazem perguntas dessa natureza, normalmente, estão equivocadas quanto ao conceito de “causa”. Um tratamento científico completo dessa pergunta demandaria treinamento filosófico profundo; portanto apenas alguns comentários serão feitos aqui.

A afirmação “Deus é a causa de tudo” poderia levar a muitos mal entendidos. Alguém poderia concluir dela: “Então Deus também é a causa do mal”, e essa conclusão seria totalmente absurda. Então, em vez, devemos dizer: “Deus é a causa de todo o bem”. E, como há algo de bom em todo ato humano, então Deus também é a causa de todo ato humano; porém Deus não é a única causa daquele ato.

Deus move tudo, mas Ele o faz como causa primeira. Isso significa que Ele nos deu nosso livre arbítrio. O livre arbítrio é, portanto, enquanto um dom de Deus, a causa de nossos atos livres. E não poderia ser de outra maneira: a vontade livre é criada e, portanto, deve depender da causa primeira, a saber, Deus. E, por ser a causa primeira, Deus move todas as coisas de acordo com sua natureza. De acordo com a ordem criada por Deus, é da nossa natureza ser livres.

Então nem Deus, nem a vontade livre são a única causa das ações humanas: Deus e a vontade trabalham juntos como a causa primeira e a causa segunda. Isso não significa que Deus e a vontade fornecem, cada um, um pedaço desses atos, mas que tanto Deus quanto a vontade causam o ato. Deus é a causa primeira, e a vontade, a causa segunda. E, se Deus não agisse como a causa primeira, a vontade jamais poderia ser a causa segunda.

Essa é uma questão difícil, e não podemos fazer nenhuma comparação que ajude a esclarecê-la. Pois já que apenas Deus, que é o Criador de tudo, é a causa primeira, não há nada parecido com isso. A solução a essa pergunta reside nisto: Deus é a causa que leva uma outra causa inferior a ser uma causa por sua vez.

The Angelus, Março-Abril de 2020

Todo e qualquer julgamento do próximo é condenado por Cristo?

Quando perguntado sobre um homossexual de boa vontade que busca o Senhor, o Papa Francisco, num comentário que se tornou famoso, respondeu “Quem sou eu para julgar?” Isso parece estar perfeitamente na linha do mandamento de Nosso Senhor, quando Ele ordenou “não julgueis, para não serdes julgados” (Mt 7,1). Por outro lado, o Verbo de Deus também nos disse que “devemos julgar não de acordo com a aparência, mas fazer um julgamento justo” (Jo 7,24)

Para resolver essa contradição aparente, devemos distinguir os diferentes sentidos em que falamos de “julgamento”.

Em primeiro lugar, o julgamento é um ato de nossa inteligência pelo qual percebemos o acordo ou desacordo entre duas ideias; em outras palavras, é, como Santo Tomás explica, o ato mental pelo qual afirmamos ou negamos algo – por exemplo, quando fazemos afirmações simples sobre as circunstâncias de nossas vidas cotidianas, como quando dizemos “hoje é um lindo dia”, ou “eu não gosto de doces”, e mesmo quando afirmamos coisas mais sérias, doutrinais, tais como “Deus existe” ou “o aborto é um crime”.

Esses julgamentos são necessários para se viver uma vida humana normal. Eles são necessários para o exercício da virtude moral da prudência, que nos ajuda a discernir o que devemos fazer a todo momento para direcionar todas as nossas ações, grandes e pequenas, de maneira segura e tranquila, para seu fim último, que é Deus. Portanto, Deus não proíbe tais julgamentos – na verdade, Ele não os poderia proibir sem nos privar de algo essencial à natureza que Ele mesmo nos deu.

Por nossa vez, não podemos nos abster de fazer tais julgamentos todos os dias se quisermos viver uma vida racional, cristã – e muito menos podemos nos abster deles se, por nosso ofício ou vocação, estamos chamados a guiar os outros a Deus.

O que Nosso Senhor realmente proíbe é que o que chamamos de “julgamento temerário” -- isto é, atribuir algo moralmente repreensível ao nosso próximo, ou negar algo moralmente virtuoso sem prova suficiente. É uma afirmação, com convicção firme, sobre a moralidade de alguém, em vez de uma suspeita ou dúvida.

O julgamento precipitado é contrário à caridade, que, conforme São Paulo, “não é temerária […] não suspeita mal” (1Cor 13, 5). Santo Tomás de Aquino ensina que, na ausência de prova cabal, dúvidas sobre as virtudes do próximo sempre devem ser interpretadas beneficamente. A intenção de uma pessoa que faz um julgamento precipitado é essencialmente maliciosa e alegra-se ao encontrar perversidade no próximo, em clara contradição com o espírito da caridade.

Também é contrária à prudência, pois o julgamento não tem fundamento razoável; é baseado em uma evidência que, por sua própria insuficiência, não autoriza um julgamento definitivo.

Mesmo assim, a malícia específica do julgamento precipitado consiste em sua injustiça. Primeiramente, falhamos na justiça devida a Deus, pois, quando julgamos não apenas as ações externas de alguém, mas vamos além e afirmamos que seu estado interior é pecaminoso, sem provas suficientes, ofendemos a Deus por usurpar Seu direito exclusivo de julgar os corações dos homens (1 Cor 4, 5; Rom 14, 4). Também infligimos uma injúria moral na pessoa julgada, que tem o direito, se não a uma reputação boa aos olhos dos outros, ao menos de não ser desprezada sem razão suficiente para tal.

A gravidade do pecado que cometemos com nosso julgamento precipitado depende de várias circunstâncias. Especialmente, ela aumenta em proporção direta à gravidade dos pecados de que acusamos nosso próximo, e também são levados em conta a dignidade da pessoa acusada e a insuficiência das provas em que baseamos nosso julgamento.

Não parece ser pecado mortal, contudo, tomar como certo algo que é muito provável de ter acontecido. Além disso, um conhecimento profundo das feridas que o pecado original deixou em nossa natureza humana e a nossa própria experiência de vida podem nos levar a tomar precauções contra a possibilidade de que outro esteja inclinado a agir pecaminosamente – e isso seria, simplesmente, um ato de prudência.

AdaptiveThemes