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Índice de autores

apresentação do quarto domingo da quaresma

A multiplicação dos pães, figura da Páscoa cristã.

 

Paramentos roxos ou cor de rosa

 

Nesta semana lê-se no Breviário a história de Moisés. Duas ideias principais a dominam toda. Por um lado, Moisés retira o povo de Deus do cativeiro e o faz atravessar o Mar Vermelho; por outro lado, dá-lhe de comer o maná no deserto, dá-lhe a Lei no Sinai, e o conduz à terra prometida onde se erguerá um dia Jerusalém, a cidade santa que regurgitará com as tribos vindas de todo o Israel para cantar os louvores de Jeová. A Missa de hoje nos dá a realização dessas figuras. O verdadeiro Moisés, com efeito, é Jesus Cristo, que nos resgatou do cativeiro da lei e do pecado, nos fez passar pelas águas do Batismo, nos alimenta no deserto da existência terrena com o verdadeiro maná, a sua carne, e nos introduziu na terra prometida que é a Santa Igreja.

A estação de hoje congregava-se na Igreja de Santa Cruz de Jerusalém, velho palácio romano que Santa Helena transformou em santuário para nele guardar as relíquias da Cruz descoberta no Calvário e representar no coração da capital do Cristianismo a cidade de Jerusalém e os lugares santos.

E, de fato, a escolha desta basílica impunha-se para cantar as alegrias e grandezas da nova Jerusalém, que é simultaneamente a Igreja da Terra e a Cidade dos Céus, cujas portas o Senhor nos veio com a sua morte abrir. Neste Domingo (Laetare) a Igreja pois congrega aí os fiéis para os fazer experimentar um raio da grande alegria que se aproxima. Era com este sentimento de júbilo que a Igreja benzia outrora a rosa “laetare” e é com ele que ainda hoje reveste de paramentos cor de rosa os ministros do altar. “Regozijai-vos e exultai-vos de alegria” diz o Intróito, porque mortos com Jesus Cristo para o pecado havemos de ressuscitar com Ele. O Evangelho relata-nos o episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, símbolo da Eucaristia e do Batismo1 que são por excelência os sacramentos da ressurreição. E na Epístola, São Paulo procura nos fazer compreender a liberdade dos filhos da Igreja, que é a liberdade de Cristo.

Que a Missa deste domingo, já tão impregnada das alegrias pascais, nos dê coragem para prosseguirmos com generosidade a segunda parte da Quaresma.

Da Epístola: Jerusalém negando-se a receber o Salvador permaneceu sujeita à escravidão da Lei Mosaica. São Paulo compara-a a Agar, a mulher escrava, que dá à luz para a escravidão, e que viverá doravante condenada ao servilismo da terra, a ser uma Jerusalém terrestre, deserdada dos bens do Céu. A Jerusalém celeste, que é a Igreja, é livre, pelo contrário, porque aceitou a lei do amor que Jesus lhe deu. São Paulo compara-a a Sara, a mulher livre de Abraão, que deu à luz o herdeiro da promessa.

Do Evangelho: A multiplicação dos pães é uma figura da Eucaristia. ‘Eu sou o pão da vida’, dizia o Senhor. "Os vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Eu sou o pão que desceu do Céu, para que aquele que Me comer viva eternamente”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. Cristo era figurado, nas catacumbas, por um peixe, porque em grego esta palavra é formada das primeiras letras de cinco palavras que significam Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. Os Padres da Igreja vêm ainda no peixe uma figura dos cristãos, porque eles nasceram na piscina batismal e hauriram na água o princípio da vida espiritual. São Paulo nos lembrará também, na Páscoa, que sendo libertados do velho crescente do pecado, somos o pão ázimo, sob a espécie do que recebemos na Eucaristia.

Segunda Meditação para a Quaresma

Pe. Luís de la Puente, S. J.

 

Da resignação necessária para ouvir a vocação de Cristo,

renunciar todas as coisas e ser discípulo Dele

 

              Como Cristo Nosso Senhor chama incessantemente os homens para que O sigam, nesta meditação mostrarei qual a disposição mais conveniente que devemos procurar (Exercícios Espirituais de Sto. Inácio, ibid.), para que a santa vocação entre em nós e por ela alcancemos a vida eterna. Declarou-o o próprio Senhor naquela sentença memorável, que disse por São Lucas (Lc 14, 33): “Qualquer de vós que não renuncia tudo o que possui, não pode ser meu discípulo”. Nestas palavras não manda que todos renunciem a todas as coisas, deixando-as de fato, mas que as renunciem com o coração e abandonem as afeições desordenadas por elas, estando preparados para deixá-las se forem impedimentos à salvação, ou se o Senhor, com especial vocação, inspirar a deixá-las, por ser meio mais conveniente e seguro para que se salvem; nestas coisas se incluem o dinheiro, a honra, a dignidade e os cargos proeminentes, bem como os pais, os irmãos, os filhos, os amigos e os conhecidos – quaisquer pessoas ou objetos desta terra, cujo amor desordenado pode impedir-nos de seguir a Cristo e de sermos discípulos Dele. Pressuposto isso, mostraremos três tipos de homens que desejam chegar à salvação, seguindo a Cristo, e querem dispor-se para alcançá-la, a fim de que vejamos qual deles acerta, e qual devemos imitar.

                Primeiro ponto. – O primeiro tipo são os homens que desejam chegar à salvação sem usar os meios adequados, por causa da grande dificuldade que sentem: desejam seguir a Cristo, mas não renunciar a todas as coisas, e caso desejem renunciá-las e abandonar as afeições desordenadas, não tomam medidas eficazes para abandoná-las, como o doente que deseja curar-se, mas recusa sangrias, purgas e outros remédios necessários à saúde, em razão da dor e amargura que sente ao tomá-los. A disposição destes é totalmente contrária à vocação divina e à ordem de abandonar todas as coisas; assim, nunca alcançarão a saúde espiritual nem a vida eterna, porque esta não se alcança só com desejos, se faltam obras; assim, parece que querem se salvar e curar, mas de fato não o querem. Por isso disse o Espírito Santo (Pr 13, 4): Vult, et non vult piger, “o preguiçoso quer e não quer”: quer o fim, mas não os meios; quer ir aonde está Cristo, mas não atrás de Cristo; quer a bondade da virtude, mas não a dificuldade, e por isso a deixa. Refletirei também sobre mim, para ver se a minha pretensão a certas virtudes é engano, pois às vezes digo para mim que quero alcançar a humildade e vencer a soberba, mas não quero humilhar-me nem ser humilhado; que quero ter paciência e vencer a ira, mas não gostaria de sofrer, e assim permaneço soberbo e impaciente. A mortificação das paixões é o meio necessário para vencer os vícios, e a prática das virtudes o é para ganhá-las.

                Segundo ponto. – 1. O segundo tipo são os homens que desejam chegar à salvação e usar os meios de alcançá-la, porém meios oriundos do próprio juízo e vontade, e não de Deus. Querem seguir a Cristo e renunciar o apego desordenado das coisas, mas sob a condição de ficarem com elas; ainda que sejam ocasião de pecado, e Deus os alerte interiormente para que as abandonem, recusam-se e por isso se entristecem, como o rapaz rico, a quem disse Cristo Nosso Senhor (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens”. Estes são semelhantes aos doentes que desejam curar-se e tomam os remédios, mas não os que o médico receita, e sim os que escolhem conforme o gosto pessoal, forçando a vontade do médico para que os aprove. Deste modo, estas pessoas buscam trazer a vontade de Deus até à sua, e não levar a sua até à vontade de Deus; por conseguinte, dispõem-se a recusar a vocação divina de renunciar a todas as coisas, com risco de condenarem-se, pois bem sabe Nosso Senhor que a cura está em deixar as coisas possuídas, para que se abandonem as afeições desordenadas e os muitos pecados que daí procedem. Quase sempre devo acreditar que o remédio das enfermidades espirituais não reside nos meios que escolho com o meu juízo cego, mas naqueles que Deus – que é o médico da alma – ordena; veja-se o exemplo de Naaman, o leproso, que, apesar de aspirar pela cura da lepra, negava-se a usar o meio indicado pelo profeta Eliseu (4Rs 5, 10), que era banhar-se sete vezes no Rio Jordão, preferindo o meio fácil que inventou na própria cabeça, que era o profeta tocá-lo com a mão. Porém, se não mudasse de ideia e se resignasse à vontade do profeta, nunca se curaria, uma vez que Deus decidira curá-lo, não pelo meio que escolhia, mas por outro que mais lhe convinha.

                2. Refletirei ainda sobre mim, em outros pontos particulares de minha vida, para ver se incido neste engano; pois, se me confesso, erro ao recusar os meios de cura que o confessor prudente assinala, escolhendo os que me aparecem à frente. Se sou religioso, é grande engano pretender a perfeição de estado pelos meios que escolho com o meu próprio juízo, buscando convencer os prelados a concordarem com a minha vontade, em vez de curvá-la para querer o que eles querem; deste modo, dir-me-á Cristo Nosso Senhor o que disse a São Pedro (Mt 16, 23), num caso semelhante: Vade post me Satana, “Retira-te de mim, Satanás”, pois não sou obrigado a fazer o que tu queres, mas tu o que Eu quero: o mestre não seguirá o discípulo, mas o discípulo o mestre, nem o súdito governará o superior, mas o superior o súdito. Ó, Soberano Mestre, porque sois o caminho, a verdade e a vida, não permitais que eu vá por um caminho diferente do Vosso, nem siga outra verdade diferente da Vossa, nem viva outra vida senão a que vivíeis, sempre seguindo-Vos a Vós, que descestes do céu, cumprindo não a minha, mas a vontade do Pai, na vereda que Ele Vos assinalou.

                Terceiro ponto. – 1. Aqui vemos que o terceiro tipo de homem é o mais ditoso, porque é o daqueles que desejam alcançar a salvação, a vitória sobre as afeições desordenadas e a perfeição das virtudes pelos meios que Deus escolheu, resignando-se totalmente à vontade divina e prontificando-se a deixar sem vacilo as coisas que possuem, caso seja mais conveniente para a honra e glória de Nosso Senhor e a salvação das almas; é o exemplo dos doentes que desejam curar-se e se confiam nas mãos dos médicos, determinados a tomar todos os remédios receitados e convenientes à saúde, sem preferirem um a outro.

                2. Estas pessoas possuem admirável disposição para ouvir a vocação divina e receber dela ilustrações e inspirações, confiando sempre na providência de nosso grande Deus e Senhor, o qual, como disse o profeta Isaías (48, 17), ensina-nos o que é proveitoso e conveniente, e nos guia por esta via ao céu, quer por Si mesmo, quer por seus ministros. Quem deixa que Deus o guie, aceitando os meios que inspira e ordena, há de alcançar um oceano de paz e santidade, e chegará com segurança ao porto da salvação e perfeição, pois a Divina Providência chama a cada um para o estado e o modo de vida que mais lhe convém [...]. Conforme tudo isso, se compararmos os três tipos de homens, e verificarmos os danos e enganos do primeiro e segundo tipos, sou obrigado a escolher o destino do terceiro. Diante da presença de Deus Nosso Senhor, direi do fundo do coração, como outro Saulo recém-convertido (At 9, 6): Domine, quid me vis facere? “Senhor, que quereis que eu faça?” Vede aqui o vosso servo, desejoso de Vos servir e seguir, mas as afeições desordenadas me prostram doente; ponho-me em vossas mãos, para que façais de mim o que quiserdes: estou disposto a cumprir a Vossa vontade; inspirai-me e ensinai-me os meios mais convenientes para a saúde da alma, que eu, junto com a Vossa divina graça, me ofereço a executá-los, ora retendo o que possuo, ora abandonando tudo por Vosso amor.

            3. Existem outras pessoas que querem ir mais adiante; assim, para imitar com perfeição a Cristo Nosso Senhor, desejam e se inclinam, no que lhes cabe, a ser pobres, desprezados e afligidos como Ele o foi, de preferência a serem ricos, honrados e consolados, como aconteceu com outros justos, embora estes sempre se conservassem indiferentes diante da posse ou privação dos bens, segundo a vontade de Deus, uma vez que Sua Majestade não faz a todos a graça de chamar para que O sigam na verdadeira pobreza voluntária da vida religiosa, ou para que padeçam trabalhos e injúrias por Seu amor. Eu deveria procurar tal disposição com todas as minhas forças, imitando o Apóstolo, que dizia (Gal 6, 14): “Mas longe mim o gloriar-me senão da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo”. Ó, Deus Eterno, por Vossa misericórdia, concedei-me essa disposição, para que seja eu digno de que me chameis a fazer e padecer os grandes feitos da Vossa glória. Amém.

(Tradução: Permanência. Meditaciones Espirituales del V. P. Luís de la Puente, de la Companía de Jesús – Tomo II; Imprenta de Pablo Riera, 1856, Barcelona; págs. 58-66.)

Primeira Meditação para a Quaresma

Pe. Luís de la Puente, S. J.

               

 

Da vocação geral com que Cristo Nosso Senhor chama a todos

os homens para que se neguem a si mesmos,

tomem a sua cruz e O sigam.

 

 

                Porque Cristo Nosso Senhor veio ao mundo, como disse São João (1Jo 3, 8), para desfazer as obras do demônio, trataremos primeiro nesta meditação sobre o chamado do demônio, que convoca as pessoas para que o sigam contra a Cruz de Cristo Nosso Senhor, e logo depois sobre o chamado do próprio Cristo, para que, comparando este com aquele, vejamos a quem é mais acertado seguir. Esta meditação e a seguinte darão muita luz para que elejamos com acerto o estado mais conveniente para a nossa salvação.

                Primeiro ponto. – 1. Em primeiro lugar, há de se considerar Lúcifer (Jo 14, 30; Exercícios Espirituais de Santo Inácio, 2ª sem., 4º dia) príncipe deste mundo, sentado num trono de fogo, cheio de fumo, com aparência horrível e rosto espantoso, rodeado de numerosos demônios, príncipes de trevas, os quais confabulam para guerrear contra o Cristo Nosso Senhor, e dar batalha contra o exército da Cruz. Para tanto, armam laços de tentações aos homens, induzindo-os a três vícios, que São João denomina (1Jo 2, 16) concupiscência da carne, cobiça dos olhos e soberba da vida. Primeiro convidam as pessoas aos prazeres da carne, donde nascem os vícios da gula e da luxúria; então, à cobiça de dinheiro e honras, donde procedem os vícios da avareza e da ambição; depois, à soberba da vida, que é o desejo de excelência, em que há presunção de si mesmo e das próprias opiniões; chama-se a isso soberba da vida, porque é soberba imensa, viva e buliçosa, que vive e cresce sempre (Sl 73, 23), e alimenta os demais vícios e pecados do mundo.

                2. Em seguida, há de se ponderar sobre a raiva (1Pe 5, 8; Ap 12, 9) com a qual os demônios cerceiam o mundo por todos os lados, buscando a quem devorar, quer como leões, com a força e a violência das perseguições; quer como dragões, com a astúcia dos raciocínios aparentes, para enganar os homens e pô-los a seu serviço. Grandíssimo é o estrago que causam, pois são inumeráveis os homens que atraem: uns se rendem à cobiça dos bens; outros, à cobiça das riquezas e honrarias mundanas; e outros ainda, à soberba e à altivez da vida; enfim, alistam-se nas forças demoníacas todos os inimigos da Cruz de Cristo, os quais – como disse São Paulo (Fil 3, 18-19), deplorando a miséria desses homens – têm como deus o ventre e a glória mundana, para a própria confusão, pois o fim deles é a morte eterna. Pensando nisso, à imitação do Apóstolo, lamento que existam tantos que sigam as hostes do demônio, e me admiro de que haja gente tão louca que o queira seguir, sabendo que a recompensa de tal serviço será o inferno. Refletindo a minha vida passada e presente, chorarei porque estive neste engano algum tempo, e suplicarei a Nosso Senhor para que me liberte dele para sempre. Amém.

                Segundo ponto. – 1. Em segundo lugar, hei de considerar a Cristo Nosso Senhor sentado num lugar humilde, com o rosto sereno e amoroso, rodeado de discípulos e muitas outras pessoas, dizendo a todos eles: Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, et tollat crucem suam, et sequatur me: “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me”. Nestas palavras, contrariamente ao príncipe deste mundo, Cristo chama e convida os homens a três coisas: primeiro, a negarem-se a si mesmos, mortificando as três concupiscências do mundo e os vícios que delas procedem, ou seja, que neguem e mortifiquem o amor dos prazeres sensuais, a cobiça de dinheiro e vã glória, e a soberba interior, mortificando o juízo e a vontade, e toda presunção e desejo de excelência.

                2. Segundo, chama-os para que levem a Cruz e se ofereçam em oposição às três concupiscências do mundo, ou seja, que sofram trabalhos e dores, necessidades e desprezos, além de toda sorte de humilhação e sujeição; pois a Cruz Espiritual de Cristo está montada com estas três peças: pobreza, desprezo e dor, embora cada uma delas encerre trabalhos muito distintos, que as acompanham; a Cruz requer que todos a carreguem a cada dia, aceitando cotidianamente o que lhes couber, com perseverança até a morte. Terceiro, Cristo chama os homens para que O sigam, imitando as virtudes e os exemplos que dá com a abnegação e com o peso de Sua própria Cruz, porque já decidiu que não admitirá em Sua escola nem em Sua companhia quem não decidir abraçá-la e não se alistar no Seu exército; por isso disse (Lc 14, 27) que “O que não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo”.

                3. Agora hei de considerar quão acertada é esta vocação; pois, se sou mau e inclinado a vícios e pecados desde o nascimento, é justo que me negue a mim mesmo e mortifique todas as más inclinações, para libertar-me dos males que delas nascem. Se prêmios, riquezas, honras e excelências mundanas são o combustível para todas as maldades, cumpre abandonar o amor desordenado de tais coisas para preservar-me de tantas misérias. E se esta vida mortal me reservar muitos trabalhos, cansaços, dores e tribulações, que haverá de mais sensato do que fazer da necessidade virtude, e abraçar a Cruz de boa vontade, merecendo por ela a vida eterna? Se Jesus Cristo Nosso Senhor desceu dos céus, a fim de levar a Cruz e abraçar-Se à dor, à pobreza e ao desprezo, qual o problema em segui-Lo, imitando os atos de meu Capitão, meu Rei e meu Deus? Ó, soberano Capitão, já que me convocais para que me negue, vinde lutar comigo contra mim, pois mais forte que eu será quem me vencerá. Assim, porque quereis que leve a minha cruz a cada dia, dai-me a cada dia a Vossa graça, para que, sob a opressão do madeiro, não caia nem desfaleça.

                Terceiro ponto. – 1. Em terceiro lugar, há que considerar três argumentos eficacíssimos que Cristo Nosso Senhor nos apresenta, a fim de nos persuadir dessa vocação. Primeiro: “O que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por amor de mim achá-la-á” (Mt 16, 25); ou seja: Vossa salvação e vida eterna é negar-vos, levar a vossa cruz e seguir-Me até à perda da vida temporal, se for o caso, como já pedi; quem a perder assim, não a perderá totalmente, porque Eu a devolverei renovada e eterna. Do mesmo modo, posso imaginar que Cristo Nosso Senhor me diz: Quem por Mim perder dinheiro, honra, prêmios, amigos e qualquer outro bem temporal, depois o reencontrará; ao contrário, quem quiser ganhar ou conservar essas coisas contra a Minha vontade, perderá tudo, além da própria alma para sempre.

                2. O segundo argumento é: “Que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou o que dará o homem em troco de sua alma?” (Mt 16, 26). Como se dissesse: Se seguis a sugestão do demônio e não a Minha vocação, havereis de perder para sempre a alma, pois de que vos aproveitará a posse de todos os prêmios, riquezas, honras e excelências do mundo, se no final vossa alma se condena? Perguntai aos condenados que estão ardendo no inferno, e eles vos dirão (Sb 5, 8): De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? Que bem nos fez? Qual proveito tiramos dos prêmios, das honrarias, das dignidades e de todos os bens da terra? Tudo passou como sombra, e agora, por causa da nossa maldade, estamos em perpétuo tormento.

                3. O terceiro argumento é (Mt 16, 27): “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras”; ou seja: Tenho de vir julgar o mundo com o estandarte e a bandeira de Minha Cruz; quem não a quis carregar comigo, condenarei ao fogo eterno com os demônios, cujo bando seguia; mas quem deu ouvidos à vocação e abraçou a Cruz, levarei comigo para a glória do Pai. Sopesando esses três argumentos, compararei estes dois chamados, o de Lúcifer e o de Cristo; o fim brutal dos que seguem a um, e o fim ditoso dos que seguem o outro; pois não é possível, como disse o Redentor (Mt 6, 24), servir ao mesmo tempo a dois senhores: não podemos servir a Deus e às riquezas, a Cristo e às honrarias vãs, nem é possível assentar praça sob as bandeiras de capitães tão contrários; por isso, cuidarei de fechar os ouvidos às sugestões de Lúcifer e de abri-los à vocação de Cristo, negando-me a mim, abraçando a minha cruz e seguindo o soberano Capitão sob a Sua bandeira. Eis uma pergunta que ajudará na decisão de qual bandeira abraçar: a quem gostaria eu de haver seguido ou escolhido, quando chegar a hora de minha morte e tiver de me apresentar diante do tribunal de Cristo? A riqueza ou a pobreza, a honra ou o desprezo, os prêmios ou as aflições, o cumprimento da vontade própria ou a abnegação dela e de mim mesmo? Assim, escolherei agora o que mais tarde gostaria de haver escolhido.

                4. Para não remeter o acerto da boa escolha apenas à hora da morte e ao juízo, acrescento que o chamado do demônio, embora num primeiro momento prometa deleites, honras, riquezas, liberdade e descanso, está tão misturado com numerosas amarguras, que é verdadeiramente trabalhosíssimo (Sb 5, 7); até os condenados confessam que viveram cansados no caminho da maldade, e andaram por estradas ásperas e dificultosas. Por seu lado, o caminho de Cristo, embora seja de abnegação, está traçado pela Providência Divina, e ajustado às forças de cada um, vindo misturado com tantas consolações e graças celestes, que é verdadeiramente suavíssimo nesta vida, de tal modo que os que seguiam as tropas do demônio encontram grande alívio ao seguir o caminho de Cristo; assim o disse o Senhor (Mt 11, 28): “Vinde a mim todos os que estais fatigados e carregados, e eu vos aliviarei; tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”; ou seja: O jugo é a abnegação, mas suave; o peso é a cruz, mas leve, contanto que sejais mansos e humildes como Eu, porque aos humildes dou a Minha graça, com o que se torna leve tudo aquilo que em si mesmo é pesado e amargo (Ti 4, 6). Ó, dulcíssimo Mestre, sobre cujos ombros carregais a minha cruz e a de todos os mortais, concedei-me ouvir o Vosso chamado e abraçar os trabalhos da cruz, deixando à Providência os consolos ao levá-la, para que, escolhendo na vida o que gostaria de haver escolhido na morte, receba em Vosso juízo a coroa da glória. Amém.

(Tradução: Permanência. Meditaciones Espirituales del V. P. Luís de la Puente, de la Companía de Jesús – Tomo II; Imprenta de Pablo Riera, 1856, Barcelona; págs. 58-66.)

A beleza de Maria

D. José Pereira Alves

Conferência pronunciada no Seminário de Olinda

 

Dir-me-eis, senhores, a razão por que estou aqui? Como definir-me neste momento? Sonho ou realidade, toda essa visão de luz, de festa, de riso, e de paz?

Eu de nada quero saber; porque um fato de uma verdade crua é que eu estou aqui e é este fato que me acabrunha implacavelmente. Chamá-lo-ia um pesadelo e um duende, se outro que não a Boa Mãe, fosse o objeto deste festival do espírito. Amarrado por cadeias formadas de fibras de corações a esta tribuna, eu recebo a ordem indeclinável de ser o que não sou: “conferencista”! Seja! É preciso uma metamorfose? Não há dúvida. É preciso sê-lo ainda disfarçado? Pois não! Por que não a máscara e o disfarce?

Aceitemos, pois, o fato consumado! Na presente conferência não me haveis de achar, porque haveis de achar os outros, salvo em alguns dos recantos, escondido na obscuridade pessoal. Creio que nem mesmo me posso comparar à laboriosa e pequenina abelha que da matéria prima colhida entre as flores fabrica um delicioso e refinado mel.

Eu sou antes semelhante à garrula criança que, durante o formoso mês de maio, recolhe no avental azul lindas rosas dos canteiros floridos. E depois as entrelaça, dispõe e forma um belo ramalhete para oferecer à Virgem da ermida.

A minha conferência, pois, é um buquê, onde eu só tenho folhas, porque as flores são dos outros; e, por cima, a sua disposição, que é o meu trabalho quase todo, acusa bem a imperícia do seu autor. A eloquência do púlpito tem feito a sobejo o panegirico da fisionomia espiritual de Maria e mergulhado nesses abismos a luz, voltando à tona cega de tanta glória e esplendor. Eu, meus senhores, escolhi para tema desta minha conferência mariana a Beleza exterior e física de Maria Santíssima.

Não se trata de um estudo crítico e profundo da matéria: é apenas uma apologia simples desta formosura sem rival.

Não é também uma exposição à altura do objeto, porque nem tempo houve, nem “a tanto me pode ajudar engenho e arte”.

A Beleza externa de maria será considerada:

1° No conceito Bíblico.

2° No conceito Tradicional.

3° No conceito Litúrgico.

4° No conceito Teológico.

5° No conceito Artístico.

 

Conceito Bíblico

Tiremos agora as nossas sandálias, porque santa é a terra em que vamos entrar. Escutemos no silêncio da alma, porque penetramos no sancta sanctorum onde Jeová faz trovejar a sua divina voz. Como as grandes catedrais da nossa Santa Religião, vasta, grandiosa, resplandecente é, e o é, soberanamente, essa Catedral da Religião que se chama a Bíblia.

Nas nossas melhores e mais importantes igrejas há um simbolismo admirável que se espalha pelas magníficas pinturas, baixos relevos, pelas linhas duma estatuária rica e artísticas decorações. O mesmo se dá na Basílica da Fé — a Bíblia. Um simbolismo surpreendente vive e palpita naquelas páginas do Céu com um esplendor raro de imagens, de alegorias, de fatos, de painéis lindíssimos e de uma significação profunda.

O Divino Redentor, que foi realmente o negócio dos séculos, se acha prefigurado e vaticinado em toda a Escritura antiga. Lê-se no Talmud que todos os profetas não vaticinaram senão sobre os dias messiânicos. Em virtude das afinidades estreitíssimas entre a personalidade de Cristo e a personalidade de Maria, resultante do mistério da Encarnação, eu creio que não será uma frase atrevida afirmar que, à semelhança do seu Filho, Maria foi também o negócio dos séculos prefigurado e vaticinado nas Sagradas Escrituras. Negotium saeculorum. Novum Testamentum in vetere latet et vetus in novo patet.

O Novo Testamento se oculta no Velho e o Velho se revela no Novo, diz o grande Santo Agostinho. Eu classifico ao menos para o meu fim, em dois grupos distintos a escritura figurativa de Maria o grupo personativo e o grupo emblemático. O grupo personativo compreende um grande número de figuras da predestinada pelo Altíssimo no segredo dos seus conselhos. Destaquemos a esmo: Ester, Judite, Sara, Raquel, Noemi, Abigail, Betsabé, Rebeca, Eva, Esposa do Cântico dos Cânticos.

Analisemos esses tipos bíblicos da Virgem sem falar de outros muitos que apareçem nos Livros Sagrados. Que diz a Bíblia, meus senhores, não digo da fisionomia moral, mas do caráter estético, sensível destas personagens, espelhos presentes da Virgem futura? Que diz?[1]

De Ester, lê-se no seu livro que era muito formosa e de incrível beleza, incredibili pulchritudine. Judite é de elegantíssima presença. Sara em extremo bela — pulchra nimis. Raquel é delineada como uma virgem bela e de formoso semblante; não é Noemi que diz: não me chameis Noemi, isto é, formosa? Prudentíssima e formosíssima era Abigail de Nabul, refere o 1° Livro dos Reis; a formosura excepcional de Betsabé e de Rebeca é superlativamente reconhecida nos Reis e no Gênesis; e Eva a mãe dos viventes, a primeira mulher, não podia deixar de surgir das mãos do Criador com todas as graças da natureza. O poema sagrado nos seus idílios com tanta prodigalidade de pinturas, com tanta poesia de expressão descreve a Esposa! Abri de olhos fechados o Cântico dos Cânticos e em cada página de ouro cintila o mesmo fulgor descritivo do formoso objeto do esposo encantado. [2]Senhores, porque essa insistência do Espírito Santo em acentuar a beleza dessas figuras de Maria? Porque tendo elas caracteres tão diferentes, missões diversas, tem este ponto de contato, de afinidade: a Beleza? Essas considerações dos autores nos iniciam nos desígnios da Providência. O Eterno retratara de antemão a beleza daquela de quem cantou o poeta Florentino: “Ó Virgem, Mãe e Filha de teu Filho; Mais do que ente criado humilde e alta; foste ao divino intento alvo prefixo”.[3]

Eram os esboços da obra-prima. Sim, porque[4]:

 

“Obra-prima do artista onipotente

Tu és, Maria, a joia mais fulgente

De toda a criação.

 

Não tem mais brilho o sol, candor a lua,

Nem há beleza que se iguale à tua

Na graça e perfeição”.

 

O argumento de Santo Antonio é o seguinte: todas as mulheres que são figuras de Maria na Lei Antiga foram célebres pela sua beleza; ora, a verdade é superior à figura e a realidade à sombra; logo a formosura de Maria é incomparavelmente mais deslumbrante do que a de suas figuras bíblicas. Essas figuras são sinais de Maria. Qual é a noção filosófica de sinal?

É aquilo cujo conhecimento prévio leva ao conhecimento da coisa significada. Porque não será a sua fiel representação em virtude de sua relação sobrenatural? Essa reflexão confirma o argumento do douto santo. A propósito escreve um autor: “Plínio, o velho, conta em sua História Natural que o famoso pintor Zêuxis devendo fazer um quadro que os habitantes d’Agrigento queriam consagrar a Juno, estudou as virgens desta cidade para reproduzir em sua obra todas as belezas que poderia descobrir nelas. Pois bem, de uma maneira muito mais admirável, Deus Criador de todo o universo, Deus, o mais sublime dos pintores, escolheu entre as criaturas tudo o que elas encerravam de grandeza e de beleza e como numa pintura sublime, o realizou por Sua sabedoria infinita na Virgem Maria”. Do outro grupo — o grupo dos emblemas — ressalta pelas razões aduzidas a beleza exterior da Virgem. Na Sagrada Escritura nossa boa Mãe do Céu possui uma preciosíssima flora e mesmo uma esplêndida fauna. No reino das coisas sem vida, de toda a fulguração dos céus, de todos os encantos da terra em uma palavra de tudo o que há de belo e de brilhante formou o Altíssimo a auréola dos símbolos de sua eleita — objetos de suas eternas e amorosas intuições. É a mesma semelhança ou proporção do representante e do representado, do sinal e da coisa significada, da ideia típica e do objeto que se impõe claramente. Uma outra reflexão, meus senhores. O emblema envolve em sua natureza um caráter formal de atribuição: é um atributo real; ora, a lei da atribuição exige uma adequada proporção possível entre o sujeito e o atributo, para que ela seja relativamente perfeita. Por que razão, pois, tão belos títulos, belos nas coisas que exprimem, hão de descrever apenas a fisionomia luminosa da alma de Maria? Porque não fotografarão também a surpreendente beleza de seu olhar, dos seus lábios, de sua peregrina face?

Não há razão plausível para essa exclusividade moral. Belas coisas exprimem os emblemas marianos. Sim!

Não é ela a gemedora pomba escondida entre os rochedos? Não é ela a águia real alcandorada sobre os montes?

Que beleza! Que flora figurativa!

“Eu me elevei como o cedro do Líbano: estendi os meus ramos como as palmeiras de Cades; ergui-me como o plátano plantado à beira das águas, eu espalhei um perfume como a canela e como o bálsamo mais precioso”[5]. Floresce como a rosa e perfuma como o lírio, segundo a interessante estrofe encontrada em um antigo pergaminho:

 

Ut rosa flores

Flagras ut lilium,

Ora pro nobis

Ad tuum Filium.

 

Irradia como o sol, formosa como a lua, radiante como a aurora.

Que multidão, que riqueza, que brilho de comparações! E sobretudo é a rutilante estrela:

 

Symbole déespérance á l’heure ou tout est sombre,

Astre celeste ou Dieu mit toute sa splendeur,

Vienne le crépuscule intense qui fait peur,

Vienne l’heure angoissante ou le salut se couche;

“Ave Stella”, dira, dans un soupir, ma bouche[6]

 

Da análise dos dois grupos figurativos da Virgem emerge, brilhante de formosura inigualável, o perfil hiperangélico de Maria. E não se apele para o silêncio dos Evangelhos, porque esse mesmo silêncio é o maior panegírico de sua beleza exterior. Tenha a palavra S. Antonino: “Tendo Maria em plenitude tudo que de bondade e de beleza houve nos outros, calando-se o Evangelho acerca de um privilégio particular como a beleza e outros, louvou-a mais supondo tacitamente do que manifestando.

Do mesmo modo que os Arcanjos por serem louvados pelos dons superiores, por isso não estão privados dos dons inferiores que neles estão mais perfeitamente do que nas ordens menos nobres. E eu digo que o Evangelho não emudece muito, ao contrário, ele proclama a beleza peregrina de Maria. Não é aquele Mater Jesu a raiz e a preconização virtual das prerrogativas ainda naturais da augusta Mãe de Deus? E por que não tomar em toda a sua extensão a graça de que Maria possui a plenitude? ”[7]

 

Conceito Tradicional

Os estudos feitos sobre as antiguidades pagãs não têm apenas contribuído para o progresso científico, mas também têm derramado luz no problema religioso.

Os sábios que têm aclarado com a lâmpada de suas pacientes investigações esses labirintos do mito, descobriram relações e harmonia entre o mundo lendário e o mundo cristão, apesar de sua natural antinomia. Os inimigos da Igreja julgavam encontrar nessas semelhanças de doutrina um argumento formidável para provar que o Cristianismo é um grande plágio das religiões, relíquias conservadas no museu do passado, como se a seiva pujante de nossa fé pudesse ter saído dessas múmias estratificadas no sarcófago dos tempos!

Toda essa afinidade se explica naturalmente pela difusão primitiva da Revelação entre os povos.

Não é a religião verdadeira que é o plágio, muito ao contrário, ela é o arquétipo divino que o paganismo copiou, deformando-o na abominável saturnal dos seus vícios e paixões. E é por isso que nós encontramos na Mitologia antiga sombra dos mistérios inefáveis do Cristianismo. A Mariologia lucrou com essa pesquisas crítico-religiosas nos cultos pagãos[8].

A Virgem parece desenhar-se no perfil de Íris, de Ceres e outras divindades do círculo místico. Pois bem, aí, nas tradições idólatras, podereis descobrir confirmações do que vos tenho afirmado na explanação do presente trabalho sobre a formosura externa de Maria. Como tenho em muita conta o vosso precioso tempo, eu apenas citarei um testemunho pagão. Mas não irei desentranhá-lo do politeísmo helênico nem dos carvalhos do druidismo gaulês nem do masdeísmo persa que Zoroastro reformou ou do Budismo índico.

Não! Aqui mesmo nas nossas virgens florestas continentais, sob a verde umbela da pujante vegetação da América do Sul, no Paraguai, os habitantes do grande lago Zaragas, os Macênicos contavam aos missionários que “outrora uma mulher belíssima, ficando sempre virgem, teve do mesmo modo, uma encantadora criança que, depois de homem, operando milagres insignes, um dia no meio de muitos discípulos subiu aos ares convertendo-se no sol”. Consultemos, porém, a tradição cristã, não a que está nos monumentos antigos, mas a que está no senso católico, nos escritos dos Santos Padres e escritores eclesiásticos. Nessa rica messe há apenas o trabalho de escolher. Poderei reclamar a vossa paciente e benévola atenção? Escutai. O pensamento tradicional revela-se em toda parte, absorvendo a insignificante minoria contrária. Ide por aí afora em nossa terra, pelos nossos mais atrasados lugarejos, interrogai o filho do povo, e vereis que o mais bronco dos nossos patrícios não poderá admitir que a Virgem da Conceição não exceda em formosura a mais prendada das filhas dos homens. O mesmo, a fortiori, se daria num meio culto. Se eu pedisse agora nesta luzida assembleia uma votação nominal, Maria Imaculada alcançaria decerto uma esplêndida vitória. É tempo de referir alguns eloquentes testemunhos da dinastia espiritual dos Padres da Igreja e escritores eclesiásticos. Santo André de Jerusalém afirma que “Maria em seu corpo é a mais pura joia da virgindade, um céu esplêndido, uma viva imagem da beleza suprema, uma estátua viva que Deus mesmo esculpiu”. Ela é o espelho da beleza por excelência, diz Santo Alberto Magno. São João Damasceno escreve que “Maria é ao mesmo tempo a obra-prima da natureza e da graça”. Para que multiplicar sem necessidade as citações? Non sunt multiplicanda, é o aforismo da filosofia[9]. Nós não temos a felicidade de possuir de nossa extremosa Mãe Celeste um autêntico retrato. Seria um bálsamo para nosso espírito embeber o nosso olhar naqueles olhares de doçura que tanto consolaram os apóstolos.

Não o temos; nem a imagem comumente atribuída a São Lucas, diz um ilustre jesuíta, nem as descrições minuciosas que os historiadores gregos de data mais recente nos deixaram, são de natureza a assegurar um juízo do que o exterior de Maria poderia ter sido. Jamar, apoiado nesses historiadores, nos dá o seguinte retrato de Maria:

“Ela era duma estatura mediana; seu rosto era oval, dum puro colorido; e notável pela delicadeza e graciosa regularidade das linhas; a fronte larga, sobrancelhas bem arqueadas e dum moreno ligeiramente escuro; olhos vivos; cuja pupila era matizada dum delicado azul.

O nariz e a boca eram perfeitamente proporcionados; lábios purpurinos, queixo de uma forma irrepreensível; cabelos louros; as suas mãos desembaraçadas e delicadas”[10].

Revesti, meus senhores, este belo perfil, de nobreza, de candura, de modéstia, de gravidade, de maneiras simpáticas e distintas, e tereis Maria, segundo as descrições antigas, na esplendente e encantadora expressão de sua beleza sempre jovem. Sempre jovem, sim. Dionísio Areopagita quase que a tomou por uma Divindade se não soubera pela Revelação que só há um Deus. E quando a visitou, a Virgem estava muito além da idade juvenil. Eu li que, quando Deus resolveu criar a rosa, convocou para este fim uma câmara de deputados do universo. Uns queriam-na sem espinhos, outros sem eles não lhe achariam graça; e foi tal a balbúrdia e desencontro de opiniões, que Deus, por um golpe de estado, dissolveu a câmara e criou a rosa por um decreto especial. Este apólogo traz à lembrança aquela piedosa alegoria de Gerson sobre a criação da formosíssima Rosa Mística do Céu, alegoria que será a chave destas considerações sobre a Beleza de Maria no conceito tradicional. Quando o Altíssimo se determinou a formar Maria diante do seu sólio aurifulgente apresentou-se uma formosa dama acompanhada de suas servas. E ela assim falou: “Ó Deus que eu adoro e canto, permiti que ofereça os meus humildes préstimos para a formação daquela que é a ansiedade dos povos; nada farei para embelezar a sua alma candíssima porque isto não está em meu poder, mas eu juro e comigo juram as minhas dedicadas servas que havemos de torná-la a rainha inigualável da formosura.

Eu derramarei no seu rosto o encanto duma simplicidade, duma majestade ternura tal como jamais se verá; hei de compor tão bem o seu olhar, as suas palavras, os seus gestos, que ela será um modelo perfeito e admirável; ao vê-la todos hão de exclamar: esta mulher merece em verdade ser a imperatriz do mundo, a rainha triunfante dos céus. Era a natureza que assim falava, cortejada pelas influências e causas naturais. Falava ainda a poderosa princesa, quando se adiantou uma outra dama que tinha o ar e o porte duma verdadeira rainha.

Deslumbrante séquito a rodeava. Era a Graça. Ela desejava rematar esplendidamente a obra-prima do Criador. Por ela falou a sua irmã — a Sabedoria — implorando ao Onipotente o favor da concessão. E foi assim que dos prodígios da natureza e da graça brotou a rosa branca e virginal que Deus criou para o enlevo do céu e êxtase da terra”.

A alegoria do religioso chanceler coroa magnificamente a prova testemunhal do conceito de tradição da beleza mariana. Diz Santo Agostinho, que as palavras são vasos de ouro que contém o licor do pensamento. O licor do pensamento tradicional é finíssimo, mas eu lamento profundamente que as minhas desluzidas palavras não tenham sido essas taças de ouro para a libação de tão precioso néctar.

 

Conceito Litúrgico

Não é infrutífero o labor de quem escava as entranhas ricas duma mina. Não é! Não é improfícuo o mourejar de sol a sol do nosso lavrador a abrir nos seios da terra virgem sulcos para o plantio. O seu suor não é como a gota de suor de Buda guardada num templo da Coréia, suor que esteriliza, diz a lenda, a vegetação circunjacente.

Não, o suor do trabalho fecundo é germe, é arbusto, é árvore, é fruto, é flor e, mais tarde, pão e vida. Eu também me fiz de mineiro e fui buscar lá nas antigas liturgias o ouro precioso de uma confirmação em favor do meu asserto; fiz-me de solerte lavrador e abri o sulco nesse terreno opulento do ritual cristão, não para plantar mas para descobrir entre os esplendidos tesouros joias de preço real para prestar homenagem à fascinante beleza externa de Maria. E podia dizer como Arquimedes: “Eu achei”. Na verdade, achei. Ouvi, senhores. Não há aqui lugar nem há tempo para uma dissertação profunda sobre tão importante estudo. Limitar-me-ei a uma singela exposição. As pinturas das catacumbas e as imagens são o que se chama a Liturgia muda.

Mas deixá-la-ei para algumas considerações que dizem respeito à arqueologia e à iconografia mariana. Agora apenas uma ligeira síntese dessas pérolas espalhadas na liturgia marial de todos os tempos porque o culto de Maria tem as suas origens na idade apostólica, para não dizer que é eterno como Deus. [11]A liturgia grega canta assim: “justos alegrai-vos; regozijai-vos, ó céus; exultai, ó montes; o Cristo nasceu; a Virgem está sentada semelhante a um querubim... E mais: Ó vós que sois o brilhante palácio do Senhor, como vindes num miserável estábulo dar ao mundo o Rei, o Senhor encarnado por nós, ó Virgem toda santa esposa do grande Deus? ” “Salve, Virgem Mãe de Deus, exclama a Liturgia Abissínia, Vós sois o turíbulo de ouro que trazeis o carvão de fogo, o verbo encarnado...”

O rito Moçárabe é deste modo que celebra a Virgem Santíssima. “É a lâmpada que o Espírito acendeu e em que fez aparecer a verdadeira Luz”. Ouvi algumas estrofes escolhidas desta encantadora sequência:

 

Salve, Mater Salvatoris,

Vas electum, vas honoris,

Vas caeleste gratiae.

 

E na décima e undécima estrofes:

 

Tu caelestis paradisus,

Libanusque non incisus,

Vaporans dulcedinem.

 

Tu candoris et decoris...

Tu dulcoris et odoris,

Habes plenitudinem.

 

Que encanto! Tu tens toda a beleza, a plenitude — habes plenitudinem.

A décima sexta nos pode dar um excelente coronal:

 

Sol, luna lucidior,

Et luna sideribus,

Sic Maria dignior

Creaturis ormnibus.[12]

 

E quantas vezes tendes repetido no Breviário ou no Ofício parvo aquela antiguíssima antífona:

 

Ave Regina coelurum,

Ave Domina angelorum.

 

Virgem gloriosa que a todos venceis em beleza — Super omnes speciosa. A Deus, ó Soberana da Beleza, reza a Cristo por nós:

 

Vale, o valde decora,

Et pro nobis Christum exora.

 

A hinologia, o antifonário, prosas e ladainhas, Missas e Ofícios, nos forneceriam as expressões mais poéticas da Beleza de Maria, num religioso lirismo de encantar.

Como podeis ver, é impossível a Liturgia mariana em todas as suas surpreendentes manifestações. Mas, para exemplo, tomai o Breviário ou o Missal.

Abri-os: 15 de agosto. Muito bem! É a festa de hoje — A Assunção de Maria.

Ofício vesperal. Cantaste-lo há pouco. Última antífona: tu es bela e formosa, ó filha de Jerusalém. Antífona ad magnificat: “Ó Virgem Prudentíssima para onde tu te elevas como uma aurora rutilante? ”

“Filha de Sião, toda formosa e meiga, tu és bela como a lua e brilhante como o sol”. Que quereis mais? Lede as lições do primeiro noturno: “Eu sou negra, mas sou formosa, ó filhas de Jerusalém, como os tabernáculos de Cedar... Tu és bela — os teus olhos são como os da pomba”.

E assim a Liturgia vai aplicando à figura angélica da Virgem todo o fulgor dos tropos bíblicos e das eloquentíssimas palavras dos Padres da Igreja, cujo testemunho em favor da Beleza exterior da Imperatriz Celeste é tão claro e peremptório. Aqui poderiam objetar dizendo que o senso litúrgico se refere à maravilha de sua alma sobrenatural e não à formosura corporal.

Bem que em muitas das citações vê-se claramente compreendida esta beleza e máxime na festividade da Assunção, em que se celebra a miraculosa subida de Maria ao Céu, corpo e alma, como se pode ainda responder dizendo que a Liturgia canta uma plenitude de Beleza, que não é estranha ao sentido bíblico, à tradição e ao bom senso que sobre tal ponto não hesita. E, para concluir essas modestíssimas reflexões sobre a Liturgia mariana, recordemos a bela e encantadora Ave-Maria em que está o completo panegírico de nossa celestial e carinhosa Mãe: cheia de graça.

No mês de maio entre todas as flores realça a Rosa — símbolo místico — Beleza sobre-humana que maio em flores saúda, como canta harmoniosamente a musa italiana na peregrina música do verso:

 

Te del Signore piccoletta ancella

Sorrisa de um gentil nimbo d’amore,

Saluta com l’angelica favelia

Il dolce maggio in fiore:

 

Saluta l’aria deliziosa e plena

Di profumi, di canti, d’armonia,

E la balza fiorita e la serena

Convalle: Ave Maria.

 

E il bosco fondo mormorante a’ venti,

E la collina aprica e solatia

Sprigionano d’omaggio umili accenti

A Te, dolce Maria.[13]

 

Conceito Teológico

Dizem, meus senhores, que o Nemrod apresentou, um dia, três urnas fechadas aos três filhos. Os escravos seguravam-nas.

Ao seu primogênito disse o rei: “Escolhe meu filho, a urna que te parece conter maior tesouro”. O príncipe escolheu uma que era de ouro, na qual havia a palavra — Império. Abriu-a e estava cheia de sangue. Nemrod dirigiu-se ao segundo filho e disse: “Toma também uma delas e abre-a”. O mancebo obedeceu e na sua urna de âmbar tinham gravado — Glória.

Nela estavam guardadas as cinzas dos grandes da terra. “Filho meu, falou o monarca ao terceiro, toma a urna de barro e abre tu também”. Ele abriu-a; estava vazia, mas no fundo se via escrita esta palavra: Deus.

Qual das urnas vale mais? perguntou o rei. Os ambiciosos disseram que era a de ouro; os poetas e conquistadores que era a de âmbar; os sábios responderam que era a de barro, vazia porque uma só letra do nome de Deus valia mais que o globo da terra.

Pois bem, meus senhores, por mais humilde que seja o barro humano, por mais frágil que seja a estátua de argila em cuja fronte o Eterno acendeu os lumes da razão, esse barro que vive, que sente e pensa, torna-se maior que a sua própria natureza, quando em seus misteriosos abismos, a Fé gravou indelével o nome sacrossanto da Divindade. O seu coração é o santuário de Deus, de conformidade com a palavra do Apóstolo: toda a edificação construída em Cristo cresce como um templo consagrado ao Senhor — sanctum in Domino.

Sobre os escombros dos ídolos antigos erguem-se os altares do Deus vivo, sobrenaturalmente iluminados. Pois bem, meus senhores, Maria é o tabernáculo por excelência do Altíssimo, tabernáculo debaixo de cujo pavilhão Deus habitaria não espiritualmente, mas ainda corporalmente.

Digo mais: o Corpo de Deus humanado, templo augusto, tiraria a sua matéria da preciosa matéria do corpo de Maria, santuário divino.

Senhores, os templos materiais dedicados à glória de Deus, ostentam e devem ostentar na sua fisionomia arquitetural uma beleza, uma feição estética admirável, eles que são destinados à suprema Beleza-Deus.

Que dizer da formosura da decoração externa do mais digno, do mais grandioso dos templos divinos?

O Artista excelso não se deixou vencer pelos artistas humanos e de Maria fez a sua obra-prima de sua divina Arte. As afirmações teológico-racionais ou melhor, a razão teológica robustece desse modo os dados fornecidos pela Bíblia, pela Tradição e pela Liturgia.

Eu quisera dispor de mais tempo e traria à tela desta modesta discussão muitos outros argumentos. Limitar-me-ei a apresentar mais um que não poderei desenvolver completamente.

Há uma lei fisiológica que determina a reprodução dos tipos: a lei chamada hereditariedade. A hereditariedade e a verificação da “lei pela qual, diz Mercier, o ser vivo possui um princípio de finalidade imanente, em virtude do qual tende naturalmente à formação, à conservação, à reprodução dum tipo determinado”. Em virtude desta lei herda-se não somente o caráter da espécie, mas ainda se transmite os caracteres individuais.

Baseados nessa lei, procuram certos filósofos destruir o livre arbítrio sustentando que o vício e a virtude são heranças.

Nada mais falso em psicologia, porque o vício e a virtude — não são produtos materiais. Em virtude do fenômeno hereditário dá-se algumas vezes retrocesso nos tipos dos avós, o que se chama atavismo.

A fortiori, o tipo imediato imprime os seus caracteres físicos. Daí a lei ordinária que os pais são semelhantes aos filhos e vice-versa. E ainda mais o sexo masculino, é o ensino dos autores e uma coisa vulgar, reproduz ordinariamente as feições maternais: filii matrizant.

Ora, meus senhores, Jesus Cristo é o mais belo dos homens — speciosus prae filiis hominum; é o filho de Maria. Logo Maria de quem Jesus, como Filho, reproduz as lindíssimas feições, foi ornada das galas de uma formosura sem rival.

A lei supramencionada admite exceções; aqui, porém, não se verificam, porque em Maria, segundo ensina um autor, a semelhança entre o Filho e a Mãe deve ser mais acabada em virtude da ação do Espírito Santo, que não podia ser perturbada pela causalidade de influências subalternas.

A razão teológica une, pois, a sua nota vibrante ao hino universal em honra da beleza daquela de quem cantou Leão XIII na inspirada poesia — Prece à Virgem:

 

Maria Dulce melos dicere mater ave:

Dicere Dulce melos, ó pia Mater ave,

Tu mihi delicia, spes bona, castus amor,

Rebus in adversis tu mihi praesidium.

 

Senhores, perdoai a tirania de minhas palavras e vinde contemplar comigo a Beleza de Maria no conceito artístico.

Sob este ponto de vista um novo horizonte de considerações descortina-se à visão de nossa alma embebida neste esplendor sobre-humano que nimba a figura doce, meiga, imaculada da Rainha do Céu.

 

Conceito Artístico

A arte, meus senhores, é a encarnação do ideal. Filho das visões do espírito, o ideal projeta sobre a obra de arte um raio de sublime concepção. Com razão disse Castelein: “A obra de arte deve ser original, harmoniosa, evocadora do ideal”.[14] O Belo criado, que a arte auxiliada pela ideia luminosa, genial e pelas formas concretas e sensíveis da imaginação, procura traduzir e encarna, é um reflexo do ideal Supremo.

É o que disse Kant: “O belo é um reflexo do infinito sobre o finito: é Deus entrevisto”

O Eterno fez as coisas como expressões do seu ser, de sua bondade, de sua beleza essencial, de suas perfeições; elas são o espelho da Divindade. Ora os seres exprimem as perfeições divinas segundo o grau de sua perfeição material; são espelhos mais ou menos luminosos e perfeitos.

Pois bem, meus senhores, os artistas cristãos conceberam um ideal grandioso e sublime da beleza de Maria, considerando-a como a obra prima das mãos do artista divino, feitura plástica, perfeitíssima do poder do Criador. E como o ideal se materializa na forma sensível, eles procuravam imprimir nos tipos de arte mariana — uma perfeição estética inigualável.

Não foi somente pelas prerrogativas espirituais, que a Fé lhes mostrou em Maria, que eles a esculpiram, a cantaram sobrenaturalmente bela. “A voz da tradição e da sua razão lhes revelaram também a Virgem em todo o fulgor de sua formosura sensível. Nas criptas das catacumbas a arte primitiva cristã deixou as suas pinturas de Maria; e séculos afora a Virgem tem recebido as homenagens dos eleitos do gênio artístico. Como não admitir essas magníficas Madonas de Rafael, de Vinci, em sua “Santa Família”, de Fra Angélico; a “Assunção” do Ticiano e a de Murilo? O gênio arrematado pela fascinação do ideal, sentiu-se muitas vezes apoucado diante do sublime.

Eu cito um laureado orador:[15]

“Como traduzir estas maravilhas?

Ah! A obra é difícil, porque, como muito bem disse Dante, “a forma não se harmoniza sempre com as instruções da arte; porque a matéria é surda para responder”.

“Angélico de Fiesole derramou mais de uma vez lágrimas; Leonardo de Vinci quebrou os pincéis; Miguelangelo criticou as suas obras; grandes artistas se sentiram invadidos pela tristeza todas as vezes que tentaram representar a divina realeza do Cristo e as graças celestes de sua Mãe; e sobre as obras primas que nós admiramos hoje eles ousavam apenas lançar os seus olhares desanimados”

Que vos direi, senhores, da iconografia Mariana? Seria uma lista infindável a enumeração desses primores da estatuária e escultura dos mestres cristãos.

Os dicionários iconográficos nos fornecem um compte rendu minucioso das belezas de mármore e de gesso, que sorriem na própria insensibilidade da matéria, que, mudas, são duma eloquência que admira, dum encanto que seduz e hipnotiza o olhar.[16]

Vede, meus senhores, esta esplendida imagem da Virgem da Assunção, dádiva preciosa da generosidade do nosso venerando Prelado[17]. Vêde-a nesse belo monumento enfeitado de garridas flores. Não há um que de celeste e de divino na expressão de seu olhar, na peregrina formosura de suas faces cor de rosa? O artista arregaçou-lhe delicadamente o manto azul-celeste sobre a túnica de ouro. É só assim, meus senhores, que a arte pode conceber a Maria.

A numismática também quis render o seu respeito à Virgem inefável. Na exposição marial realizada no Palácio de Latrão a 26 de novembro de 1904, havia uma soberba coleção de 12 mil medalhas, sinetes e moedas de Maria, enviadas pelo Padre Corbiére de Saint Louis des Français.[18]

Quantas harmonias o anjo da arte divina tem atirado aos pés de Maria? Porventura a alma musical não tem sofrido os tormentos da inspiração para saudar a Beleza da Mãe de Deus?

Senhores, eu sou constrangido a resumir para não fatigar a vossa benevolente atenção. Mas, como esquecer os surtos do gênio da poesia, celebrando as graças da Rainha dos Anjos?

As liras de todos os povos com a tristeza dos seus trenos o com a vivacidade dos seus júbilos celebraram os encantos da Senhora.

Permita-me o autor[19] algumas de suas lindas estrofes, feitas à beira do túmulo: — In hora mortis:

 

Maria, dulce Signora,

eletta como il sole,

per cui il cielo s’infiora

di rose e di viole;

 

Maria, Vergine pura,

aurora sempiterna

alta piú che criatura

sui ciecli ove s’eterna

 

La Somma Sapienza;

vedi quant’é l’errore

che incombe e la demenza

che ci ottenebra il cuore!

 

Assim a poesia toma parte no harmonioso e universal congresso das artes em louvor da Virgem a quem a humanidade implora um olhar que, como diz o poeta espanhol, é:

 

Bello fulgor que al sacro Eden nos guia

Dulce Maria!

 

Para citar poesia nossa, da terra brasileira, ouvi como no Caramuru, S. Rita Durão descreve a formosura de Maria:

 

“Todos suspendem em pasmo respeitoso

O amável formosíssimo semblante;

E mais nele se ostenta poderoso

O soberano autor do céu brilhante:

Quanto a angélica luz de rutilante,

Quanto dos serafins o ardente incêndio,

De tudo aquele rosto era um compendio”

 

Meus senhores, na solenidade inaugural da exposição mariana em Roma, o Cardeal Ferrata, num discurso admirável sobre o tema “Maria foi a sublime inspiradora da arte cristã”, enunciou entre outros estes belos pensamentos: “Maria é o gênio mais fecundo, o ideal mais puro da arte cristã, desta arte que tem por objeto a harmonia da fé e da razão, do natural e do divino das maravilhas deste mundo e dos esplendores revelados”. Maria é bela como o sorriso de Deus, nela se encontram o sublime, o verdadeiro, o belo e o bem.

Falando de Rafael, disse estas palavras: “Ele pode ser chamado o pintor por excelência da Rainha do Céu. Das belas tradições da Escola de Umbria, do estudo dos mestres precedentes, mas sobretudo do seu coração, de seu gênio, de sua natureza tão delicada, o jovem artista tirou a inspiração que deu à fisionomia de Maria esta forma tão pura e bela, esta pose majestosa e atraente, esta expressão suave e venerável de Virgem e de Mãe, que nos arrebata e nos enche de amor como uma visão do paraíso”[20]

A Virgem, meus senhores, que tem recebido em todos os séculos tão brilhante consagração de sua real beleza parece dizer aos marechais da arte, na frase de Monsabré, estas palavras que o grande dominicano põe nos lábios virginais de Maria:

“Amantes da verdadeira beleza que procurais o divino na Criação, contemplai-me, pedi-me inspiração e conselhos: Eu sou o Senhor das Artes”[21]

O ideal artístico de Maria abraça o conjunto de todas as suas belezas espirituais e naturais, que o Artista exprime nas formas mais resplandecentes da matéria, porque não pode conceber que uma alma tão peregrina e celeste fosse a inquilina eterna duma moradia vulgar.

Permiti, senhores, que eu termine esta última parte de minha humilde conferencia com chave de ouro: é a homenagem de um príncipe da arte, da inteligência eleita de um grande poeta à Beleza de Maria.

É o primoroso soneto de Luís de Camões, orgulho imortal das duas pátrias que falam a Língua Portuguesa:

 

Para se enamorar do que criou

Te fez Deus, sacra Phenix, Virgem Pura.

Vede que tal seria essa feitura

 

Que para si o seu Feitor guardou.

 

No seu alto conceito te formou

Primeiro que a primeira criatura,

Para que única fosse a compostura,

Que de tão longo tempo se estudou.

 

Não sei se diga eu tudo quanto baste

Para exprimir as raras qualidades

Que quis criar em ti quem tu criaste.

 

És filha, Mãe e Esposa: e se alcançaste

Uma só, três tão altas dignidades,

Foi porque a Três de Um só tanto agradaste.

 

“Deo Gratias” é o grito que a vossa delicadeza acaba de sufocar.

“Deo Gratias” também digo eu porque hei de levado até o Calvário a minha Cruz. Mas ainda, senhores, uma dose de paciência e eu desaparecerei daqui.

Não quero terminar sem levar os meus parabéns a essa mocidade levítica que tão filialmente festeja a subida gloriosa de sua Mãe ao país das eternas alegrias — O Céu.

Filhos de Maria, este vosso esforço vos honra em demasia e é uma segurança ao mesmo tempo que uma credencial junto ao trono da Mãe de Deus.

Nos prélios do vosso futuro apostolado, no campo aberto da batalha universal, haveis de recordar-vos, saudosos, destes momentos felizes, verdadeiros paraísos volantes na terra; haveis de recordar-vos, jovens (e com lágrimas nos olhos), e esta recordação por si só seria um bálsamo, porque, no vosso peito há de brotar a flor da esperança naquela que não se deixa vencer em amor, nem deixa homenagem sem recompensas!

Meus parabéns!

Eu li, senhores, que um saltimbanco assistia a uma grande festa em honra de Maria. Essa história que li numa revista francesa — Lectures pour tous, a encontrei mais[22] desenvolvida numa conferencia mariana do nosso ilustre e católico patrício o Sr. Conde de Afonso Celso. Diz ele que a imagem era da Virgem da Glória, das que tem o menino Jesus no braço.

Todos, ávidos de homenagear a Virgem, traziam, cada um a sua oferta. Este levava o lírio branco; esse o seu perfumoso incenso; aquele atirava flores; mais além na salva tiniam as moedas de ouro e de prata.

Só o nosso acrobata não se movia. Coitado! Era tão pobre o palhaço da feira! Mas ele se afligia muito.

 

Que poderei dar?

De súbito na sua alma de pobre e de simples, mas devoto de Maria, relampejou uma ideia. E ele disse com seus botões: “Eu sei fazer cabriolas, eu tenho os meus jogos. Quem sabe se ela não aceitará isto oferecendo-o de coração? É tão boa! ” E, rompendo o povo, aproximou-se do altar, estendeu um tapete no chão e começou a fazer toda a sorte de ginástica e de cambalhotas de sua arte diante do nicho.

Foi um escândalo. O povo gritava, quase o agarravam como um louco.

E ele, o bom saltimbanco, teimava. “Deixem-me, senhores. A intenção é que vale. Ao menos o menino há de gostar. As crianças gostam disso”

Consentiram, cheios de emoção. O pelotiqueiro, diz Afonso Celso, fez o que de mais fino contava o seu repertório.

E então, rezam as crônicas, houve um milagre. O Menino Jesus que estava nos braços da Virgem, sorriu, quase aplaudiu o acrobata.

O pelotiqueiro entusiasmado, oh! Se o tivésseis visto imaginai, senhores, fez prodígios de ginástica, empregando todas as forças possíveis.

Extenuado, esgotado, nadando em suor, ele rolou por terra. Coisa nunca vista!

O Menino sorria e a Mãe Celeste, sorrindo, desceu do altar, devagarinho, cheia de doçura, com nívea mão enxugou, com a ponta do manto cor do céu, a fronte suarenta do acrobata.

Senhores, eu sou como o saltimbanco da Virgem da Glória.

Não tinha vela, não tinha ouro, nem incenso, nem flores. Pobre como palhaço de feira, eu toquei a minha indigência.

Que oferenda lançar aos pés de minha Mãe?

Vi os meus irmãos com as mãos cheias de mimos e eu não os tinha.

Como o pelotiqueiro da lenda vim para aqui, ao pé do deslumbrante monumento, fazer o que sabia.

Não vos importuneis com as minhas peloticas sem arte e sem estilo, porque a intenção é que vale.

Se não mereço que a Virgem enxugue o meu suor, com a fimbria azul do marchetado véu, ao menos tenho a confiança de ir juntamente com os meus indulgentes ouvintes contemplar no Céu a Beleza deslumbrante de sua peregrina face.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

 


[1] Cf. Terrien Jourdain.

[2] Cf. Terrieu Jourdain. Escrip.

[3] Divina Comédia.

[4] Apud. Rev. S. Cruz.

[5] Cântico dos Cânticos.

[6] Apud. Noél.

[7] Cf. Terrien – Nicolas.

[8] Apud, Nicolas.

[9] Vid. Terrien, Jourdain.

[10] Apud. Jordain.

[11] Vid. Nicolas.

[12] Adam de S. Vitor.

[13] Leonardo Mascello, Foglie al vento.

[14] Psichologie.

[15] Monsabré

[16] Vid. Dicc. Iconographique, Migne.

[17] D. Luiz de Britto, Arcebispo de Olinda.

[18] Rome, revue.

[19] Ver. P. Mascello

[20] Apud. Revue Rome.

[21] Discurs et Panegiriques.

[22] Apud. Rev. S. Cruz

24. Resposta a uma objeção, à primeira vista grave, contra a doutrina dos dois capítulos precedentes

Uma dificuldade, à primeira vista gravíssima, podem os nossos adversários opor à doutrina estabelecida nos capítulos anteriores. Convém-nos, antes de avançar, deixar nosso caminho livre e desembaraçado de escrúpulos ou outros obstáculos dessa natureza.

O papa, dizem, e é certo, tem recomendado várias vezes aos jornalistas católicos a temperança, a moderação, o respeito e a caridade nas formas de polêmica. Quer que se evitem as maneiras agressivas, os epítetos depreciativos e as invectivas injuriosas. Ora, dirão agora, a doutrina que acabais de expor é diametralmente oposta às recomendações pontifícias.

Com ajuda de Deus, vamos demonstrar que não há contradição entre nossas indicações e os sábios conselhos do papa. E não nos custará, por felicidade, dar a prova evidente.

Com efeito, a quem se dirigiu o Santo Padre nas suas reiteradas exortações? Sempre à imprensa católica, sempre aos jornalistas católicos, supondo-os que o são. Por conseguinte, é evidente que, ao dar esses conselhos de moderação e temperança, o Santo Padre dirigiu-se a católicos que tratavam de questões livres com outros católicos, e não a católicos que travavam contra anti-católicos declarados o feroz combate da fé.

É evidente que não aludiu às incessantes batalhas entre católicos e liberais; porque diante do fato de que o catolicismo é a verdade e o liberalismo a heresia, as batalhas travadas entre seus representantes devem considerar-se, em boa lógica, como batalhas entre católicos e hereges.

É claríssimo que o papa quis que se aplicassem os seus conselhos só em relação com nossas dissidências de família, infelizmente muito comuns, e não pretendeu que com os inimigos da Igreja e da fé lutássemos com espadas sem fio e sem ponta, usadas só em justas e torneios.

Por conseguinte, não há oposição entre a doutrina por nós exposta e a contida nos Breves e Alocuções de Sua Santidade, porque a oposição, em boa lógica, deve ser ejusdem, de eodem et secundum idem, o que não ocorre aqui. E como poderia a palavra do papa interpretar-se corretamente de outra maneira? É uma regra de sã exegese que um texto da Sagrada Escritura deve ser interpretado em sentido literal, quando este sentido não se opõe ao contexto; e só deve recorrer-se ao sentido livre ou figurado quando esta oposição se apresenta. Igualmente, podemos seguir a mesma regra ao tratar da interpretação dos documentos pontifícios.

Poderá supor-se o papa em contradição com toda a tradição católica, desde Jesus Cristo até os nossos dias?

Poderão crer-se condenados por um risco de pena o estilo e a maneira dos mais célebres apologetas e polemistas da Igreja, desde São Paulo até São Francisco de Sales?

É evidente que não. E é evidente que assim seria, se tais conselhos de moderação e temperança devessem ser entendidos no sentido em que (para conveniência de sua causa) os interpreta o critério liberal. Por conseguinte, a única conclusão admissível é que os conselhos do papa, que todo bom católico deve considerar como ordens, não se referiu às polêmicas entre católicos e inimigos do catolicismo, como são os liberais, mas às dos bons católicos, entre si, em suas dissidências e diferenças.

Não, não pode ser de outra maneira, o próprio senso comum o diz. Nunca em batalha alguma o capitão proibiu seus soldados de ferirem gravemente o adversário; nunca lhes recomendou brandura para com eles; nunca afagos nem atenções. Guerra é guerra, e nunca foi feita de outra maneira senão causando danos. É suspeito de traidor quem, no fragor do combate, anda gritando entre as filas dos combatentes: "Cuidado para não incomodar o inimigo! não lhe ataque no coração!".

Que mais dizer? O próprio Papa Pio IX nos deu a interpretação autêntica de suas santas palavras, e mostrou de que maneira seus conselhos de temperança e moderação devem aplicar-se. Aos sectários da Comuna, numa ocasião memorável, chamou demônios, e aos sectários do catolicismo-liberal 1 chamou piores do que aqueles demônios. Esta frase correu o mundo, e saída dos lábios mansíssimos do papa, permanece gravada na testa do liberalismo como estigma de eterna execração. Quem depois dela temerá exceder-se na dureza dos qualificativos?

As próprias palavras da Encíclica Cum multa, de que tanto abusou contra os mais firmes católicos a impiedade liberal, são as mesmas palavras com que nosso Santíssimo Padre Leão XIII recomenda aos escritores católicos que “evitem o tom de violência na defesa dos direitos sagrados da Igreja e recorram de preferência às armas mais dignas da moderação, de sorte que o peso das razões mais que a aspereza e violência do estilo, deem a vitória ao escritor.” É evidente que o Santo Padre não fala aqui senão de polêmicas entre católicos e católicos sobre o melhor modo de servir a sua causa comum, e não das polêmicas entre católicos e inimigos declarados do catolicismo, tais como os sectários formais e conscientes do liberalismo.

A prova está à vista de qualquer um, basta olhar o contexto da admirável encíclica citada.

O papa a termina exortando para que se mantenham unidas as associações e os indivíduos católicos. E depois de ponderar as vantagens desta união, assinala como meio principal de conservá-la, essa moderação e temperança no estilo, que acabamos de indicar.

Daqui deduzimos um argumento que não tem contestação.

O papa recomenda a suavidade do estilo aos escritores católicos, para que esta os ajude a conservar a paz e a mútua união. Esta paz e mútua união, o papa não pode, evidentemente, querê-la senão entre católicos e católicos, e não entre católicos e inimigos do catolicismo. Logo, a suavidade e moderação que o papa recomenda aos escritores só se referem às polêmicas dos católicos entre si, e nunca às que existem entre católicos e sectários do erro liberal.

Ainda mais claro: O papa ordena esta moderação e temperança como meio de alcançar como fim a união. Este meio deve, por conseguinte, caracterizar-se por este fim a que está ordenado. Ora, este fim é puramente a união entre católicos, e nunca (quia absurdum) entre católicos e inimigos do catolicismo. Logo, aquela moderação não pode entender-se aplicada a outra esfera.

  1. 1. Em 18 de junho de 1871, à deputação francesa que foi a Roma festejar o 25º aniversário de seu pontificado, Pio IX declarava: “Meus queridos filhos, é preciso que minhas palavras vos digam bem aquilo que trago no coração. O que aflige vosso país e o impede de merecer as bênçãos de Deus, é a mescla de princípios. Direi a palavra, e não a calarei: o que temo, não são todos esses miseráveis da Comuna de Paris, verdadeiros demônios do inferno que passeiam pela terra. Não, não é isso; o que temo, é esta infeliz política, esse liberalismo católico que é o verdadeiro flagelo. Disse-o mais de quarenta vezes; e vos repito, por causa do amor que vos tenho. Sim, é este jogo... Como se diz em francês? Em italiano chamamo-lo altalena... Sim, justamente, esse jogo de básculo que destruiria a religião. É preciso sem dúvida praticar a caridade, fazer o possível para reunir os que estão dispersos: mas para isso não é necessário compartilhar de suas opiniões.”

apresentação do terceiro domingo da quaresma

Jesus expulsa um demônio impuro. E uma mulher exclama “Bem-aventurado o seio que Vos trouxe””

 

Paramentos roxos

 

A assembleia de hoje reunia-se na Igreja de São Lourenço Fora dos Muros, onde descansam os restos de S. Lourenço e de S. Estevão, e que é uma das cinco basílicas patriarcais de Roma. A oração de S. Lourenço pede a Deus a graça de vencermos o ardor da concupiscência com o heroísmo e a tenacidade com que o mártir venceu as chamas do suplício; e a de S. Estevão convida-nos a amar os inimigos e a pedir por aqueles que nos perseguem. Estas duas grandes virtudes, melhor que ninguém as praticou o Patriarca José, cuja história o Ofício desta semana nos relata1. Fugiu às solicitações da mulher de Putifar e perdoou e intercedeu pelos irmãos que o tinham vendido. Mas é como figura de Cristo, sobretudo, que a fisionomia de José toma particular relevo.

Conhecem todos assaz a história de José, vendido pelos irmãos, preso e levado cativo para o Egito, conquistando as graças do Faraó até se lhe sentar à direita, encarregado por ele do governo do reino, para ver em tudo isto os traços da figura, por assim dizer, preexistente de Jesus Cristo nos mistérios da Paixão e Ressurreição. Familiarizados com a simbologia do Antigo Testamento, os nossos maiores amaram-na com predileção e encontravam nela a explicação dos mistérios da Redenção. Quando liam na Bíblia a história de José, o seu pensamento logo voava para o Salvador: “Sou eu José, a quem vendestes. Mas não temais. Que Deus fez tudo para que vos salvasse da morte”. Mais de um texto da Missa de hoje pode colocar-se como uma oração nos lábios de José. Ao cantá-los, procuremos fazê-lo com aquele espírito confiante e profundamente religioso que animou e conduziu todos os passos desta grande figura. O Evangelho apresenta o Senhor a expulsar um demônio do corpo de um possesso. Confiemos n’Ele, porque mais forte que Satanás, vencerá conosco o filho das trevas e coroará a nossa fronte com a liberdade dos filhos de Deus. Aos fariseus que não queriam admitir a Sua missão redentora, declara que já chegou a hora em que o príncipe deste mundo será corrido. Haverá também quem volte atrás, à lama do pecado, mas nem por isso a Sua vitória será menos completa.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. No sacramentário galicano, José é chamado o pregador da misericórdia; e a Igreja, na Solenidade de S. José, proclama especialmente a sua castidade.

20. Rosário das Santas Chagas de N. S. J. C. ou da Misericórdia

Rosário das Santas Chagas de N. S. J. C. ou da Misericórdia1

 

Pode-se começar pela seguinte oração:

“Ó Jesus, Divino Redentor, sêde misericordioso para conosco e para com o mundo inteiro. - R. Amen.”

“Deus Forte, Deus Santo, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro. - R. Amen.”

“Graça, misericórdia meu Jesus, durante os perigos presentes: cobri-nos com o vosso sangue precioso. - R. Amen.”

“Padre Eterno, misericórdia pelo Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho único. Tende misericórdia de nós, nós vo-lo suplicamos. - R. Amen, Amen, Amen.”

 

Sobre as contas pequenas:

“Meu Jesus, perdão, misericórdia. - R. Pelos méritos das vossas Santas Chagas.” (300 dias de indulgência cada vez).

 

Sobre as contas grandes:

“Padre Eterno, eu vos ofereço as Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. - R. Para curar as chagas das nossas almas.” (300 dias de indulgência cada vez.-S. S. Pio XI. - Sagrada Penitenciária, 16 de janeiro de 1924).

 

Ao terminar diz-se três vezes: “Padre Eterno, eu vos ofereço as Chagas, etc.”

 

Uma humilde Conversa, Irmã Maria Marta Chambon, falecida em odor de santidade no Mosteiro da Visitação de Chambéry (21 de março de 1907), assegurava ter-lhe Nosso Senhor ensinado estas duas invocações.

Ela declarava ter recebido d’Ele uma dupla “missão”: a de invocar constantemente as Santas Chagas e a de avivar no mundo esta devoção.

Nosso Senhor comprazia-se em prepará-la para a sua missão, fazendo-lhe quase todos os dias como um “Catecismo das Santas Chagas”, catecismo que ela devia repetir à sua superiora.

Eis alguns desses ensinamentos:

A devoção às Santas Chagas tem os mais sólidos fundamentos: os merecimentos infinitos do Salvador.

“Minha filha, reconheces o tesouro do mundo?”

“Quando ofereceis a meu Pai as minhas Divinas Chagas, ganhais uma fortuna imensa.”

“Não queirais ficar pobres... A vossa riqueza? É a minha Santa Paixão. - Esse tesouro pertenece-vos.”

“Meu Pai compraz-se no oferecimento das minhas Santas Chagas... oferecê-las é oferecer-lhe a sua glória, é oferecer o Céu ao Céu!”

“As minhas Santas Chagas susteem o mundo.”

A esta devoção dignou-se Nosso Senhor fazer as mais animadoras promessas.

“ Concederei tudo quanto me pedirem pela invocação das minhas Santas Chagas. É preciso propagar esta devoção.”

“Obtereis tudo, porque é pelo merecimento do meu Sangue que é de um preço infinito.”

“Com as minhas Chagas e o meu Divino Coração, podeis alcançar tudo.”

“Das minhas Chagas saem frutos de santidade.”

“As minhas Chagas repararão as vossas.”

Esta devoção tem preciosas vantagens para a vida quotidiana.

“Em qualquer desgosto, qualquer sofrimento, recorrei logo às minhas Chagas que a dor será suavizada.”

“Oferece-me as tuas ações... unidas às minhas Santas Chagas, onde há riquezas incompreensíveis mesmo nas mais pequenas.”

Deve-se recorrer às Santas Chagas em favor dos doentes.

“Deve-se repetir com freqüência junto dos doentes esta aspiração: Meu Jesus, perdão e misericórdia pelos méritos das vossas Santas Chagas!”

“Esta oração aliviará a alma e o corpo.”

Em favor dos agonizantes:

“Deve-se morrer com os lábios colados a estas Sagradas Feridas.”

“Não haverá morte para a alma que exalar o último suspiro nas minhas Chagas; elas dão a verdadeira vida.”

“O caminho das minhas Chagas é tão simples, tão fácil para chegar ao Céu!...”

Em favor dos pecadores:

“As minhas Chagas apagarão todas as vossas faltas.”

“Oferece-me muitas vezes pelos pecadores, porque eu tenho fome das almas.”

“O pecador que disser a oração seguinte: - Padre Eterno, eu vos ofereço as Chagas de N. S. J. C. para curar as chagas das nossas almas - alcançará a sua conversão.”

“A cada palavra que pronunciardes do Terço da Misericórdia, eu deixo caír uma gota do meu Sangue sobre a alma dum pecador.”

“Este Terço da Misericórdia faz contrapeso à minha justiça, suspende a minha vingança.”

Em favor das Almas do Purgatório:

“O beneficio das Santas Chagas faz descer as graças do Céu, e subir ao Céu as almas do Purgatório.”

“As Santas Chagas são o tesouro dos tesouros para as almas do Purgatório.”

Em favor da Igreja:

“Minha filha, é preciso desempenhares-te bem da tua missão, que é de oferecer as minhas divinas Chagas a meu Eterno Pai, porque daí deve vir o triunfo da Igreja, o qual passará pela minha Mãe Imaculada.”

“É necessário que recorras sem cessar a estas Fontes para o triunfo da minha Igreja.” (O que não significa o triunfo material.)

“Uma alma que, durante a sua vida, tiver honrado as Chagas de N. S. J. C. e as tiver oferecido ao Pai Eterno pelas almas do Purgatório, será acompanhada no momento da morte pela Santíssima Virgem e pelos Anjos, e Nosso Senhor na Cruz, resplandecente de glória a receberá e lhe dará a coroa eterna.”

A Santíssima Virgem aparecendo um dia sob a figura de Nossa Senhora das Dores, com Jesus nos braços, disse à feliz privilegiada: - “Minha filha, a primeira vez que contemplei as Chagas do meu querido Filho foi na ocasião que depuseram o seu Santíssimo Corpo nos meus braços.”

“Meditei as suas dores e procurei fazê-las passar ao meu coração... Contemplei os seus Pés divinos um depois do outro... depois o seu Coração, onde vi essa grande ferida, a mais profunda para o meu coração de Mãe... contemplei a Mão esquerda, depois a direita e em seguida a Corôa de espinhos. - Todas estas Chagas me dilaceravam o coração!... Eis a minha Paixão!... Tenho sete espadas no meu coração, e é pelo meu coração que se deve honrar as Sagradas Chagas do meu Divino Filho!...”

 

D. S. B.

 

IMPRIMATUR:

Chambéry, 15 de Maio de 1926.

 

+ DOMINIQUE CASTELLAN,

Arcebispo de Chambéry.

 

+ EMMANUEL M.a,

Episcopus Tudensis.

  1. 1. Pode-se rezar somente um terço... uma dezena...

19. Palavra final do Mosteiro de Chambéry

Palavra final do Mosteiro de Chambéry

 

Quando, pelos fins de dezembro de 1923, os acontecimentos nos levaram a publicar estas páginas, pensávamos que elas não sairíam do recinto familiar dos nossos mosteiros e que bastaria imprimir algumas centenas de exemplares. Porém, sem falar das traduções em diversas línguas, perto de dez mil exemplares foram distribuídos em seis meses. E não cessando de afluír os pedidos, fez-se uma quarta edição, atingindo-se com ela o número de trinta mil exemplares.

Eis agora a quinta edição, e são já sessenta mil exemplares.

Damos graças a Deus por esta difusão tão rápida quanto imprevista, o que é para nós uma prova de que Nosso Senhor abençoou esta obra empreendida para glória das suas Sagradas Chagas e que este livrinho - atraíndo as almas a essas Fontes de Salvação - satisfaz em muitas pessoas uma necessidade do coração.

E de fato, chegam-nos de todos os pontos do mundo comovidos agradecimentos das almas piedosas, as quais encontram na devoção às Santas Chagas um estímulo ao seu amor generoso; - almas amarguradas ou desamparadas, recolhem, por assim dizer, dos próprios lábios de Jesus padecente, a palavra que levanta e guia, tranquiliza e consola.

Os sacerdotes manifestam a sua alegria vendo os fiéis voltarem-se para Aquele que “levantado na Cruz, atrai tudo a si!”

Um fato parece sobresair muito especialmente nesta correspondência: é o cumprimento das promessas de N. S. J. C. em favor dos pecadores:

“A cada palavra que pronunciais do Terço da Misericórdia, deixo cair uma gota do meu Sangue sobre a alma dum pecador.”

Muitas cartas assinalam “graças obtidas”. Que nos seja permitido escolher, entre muitas outras, dois traços, dos quais temos testemunhos imediatos.

O Sr. ..... acabava de cair gravemente doente. Nao tinha ninguém para o rodear de cuidados neste momento crítico. Caritativos vizinhos acudiram a pedir em seu favor as Irmãs de Caridade. Todas estavam cheias de trabalho, contudo, uma delas, posta ao corrente desta situação, ofereceu-se para este apostolado.

Logo na primeira noite, notou a iminência do perigo... assim como as disposições lamentáveis do moribundo.

O Sr. .... vivia, há muito tempo, longe de toda a prática religiosa. Seu filho conhecia tão bem os seus sentimentos que, às solicitações da religiosa, deu a resposta seguinte:

“É impossível pensar em mandar vir um padre. Ele já veio, meu pai recebeu-o cortezmente, mas não quis confessar-se... Eu quero, declarou-me ele, um enterro pela Igreja; mas quanto ao resto não me faleis, é inútil!... E sobretudo, que não venha aqui nenhum padre!...”

Passaram-se três dias de angústia, durante os quais a dedicada Irmã, que tinha tomado a peito salvar a alma do seu doente, não cessava de repetir, a meia voz, ao mesmo tempo que lhe prodigalizava os seus cuidados, as invocações às Santas Chagas:

“Meu Jesus, perdão e misericórdia, pelos méritos...”

Depois destes três dias, a pedido da religiosa, o filho fez uma nova tentativa. Sem a menor hesitação, o padre é aceite! A partir deste momento, assiste-se a uma verdadeira transformação. Até ali, taciturno e sombrio, o Sr. ..... , começa agora a unir-se às invocações. Por vezes ainda, a força do costume e da dor arrancam-lhe palavras ímpias.

“´Não se deve falar assim, sugere-lhe a Irmã; quando sofreis, dizei: Meu Jesus, perdão e misericórdia...”

E ele, com uma comovedora boa vontade, detém-se no meio duma blasfêmia:

“Ah! eu não devo mais dizer isto!... Mas sim: Meu Jesus, perdão e misericórdia pelos méritos das Vossas Santas Chagas.”

De tempos a tempos dirige-se à sua enfermeira:

“Minha Irmã, orai mim, porque tenho muito que expiar.”

Ele mesmo não cessa de orar...

Eis que chega a morte, mas uma morte que, sem dúvida, lhe abriu o Céu:

“Não haverá morte para a alma que expirar nas minhas Chagas; elas dão a verdadeira vida.”

Um outro fato não menos notável e consolador é-nos comunicado de Londres. Não fazemos mais que traduzir a carta recebida:

“Um amigo dum Rev.o P.e Passionista, a quem eu tinha dado um folheto das Santas Chagas, mostrou-o a esse padre, que pregava uma missão no norte da Inglaterra.

“Havia ali um velho que não recebia os Sacramentos há 40 anos...

“Nenhum padre podia mover o seu coração e o rev.o p.e passionista também não conseguia nada. Uma noite este bom padre pediu a todos os seus paroquianos que se unissem a ele na recitação do Rosário das Santas Chagas pelos pecadores da paróquia tomando, em particular, uma intenção especial pelo seu velho pecador.

“Logo na manhã seguinte a essa noite de oração, o querido velho veio por si mesmo apresentar-se na igreja, pedindo para se confessar. Seguiu depois todos os exercícios do retiro.”

“Não é maravilhosa esta resposta tão rápida e completa à oração?”

“E não é isto um triunfo magnífico das Santas Chagas?...”

 

D. S. B.

 

............................................

 

V. + J.

18. Ultimos anos e morte da Irmã Maria Marta

Ultimos anos e morte da Irmã Maria Marta

 

O fim deste opúsculo era simplesmente tornar conhecido um resumo do plano divino na vida da Irmã Maria Marta, expondo a sua missão, a “tarefa” de depositária e apóstola das Santas Chagas. Mas isto não é senão um pequeno esboço da sua vida interior. Faltava-nos falar da Santa Infância e da convivência tão íntima e graciosa que existia entre “esta alma infantil” tão pura e simples, e o celeste Amigo dos pequeninos e das Virgens. Faltava-nos dizer o amor do seu coração - despojado de todo outro amor - a Jesus Sacramentado. Faltava-nos mostrar como este comércio constante e tão intimo com Jesus Crucificado e Jesus Menino a levava natural e como instintivamente às grandes e sólidas devoções: a mostrar, por exemplo, a sua devoção para com a Santíssima Trindade, com as coisas extraordinárias (por não ousarmos dizer miraculosas) que foram, mais de uma vez, a sua recompensa; pintar-lhe a terna devoção para com Maria, que ela tomou por Mãe com toda a força de expressão e que - mostrando-se verdadeiramente Mãe - vinha completar as lições de Jesus e corrigir maternalmente a sua filha, quando era preciso.

Faltava-nos enfim inumerar as mortificações, descrever os seus êxtases... Ler-se-ão todas essas coisas, detalhadamente, na “Vida da Irmã Maria Marta” que, se Deus o permitir, será publicada ...

* * *

As graças e as comunicações divinas enchem verdadeiramente todos os instantes desta vida excepcional - durante vinte anos! - isto é, até à morte da Rev.ma Madre Teresa Eugênia Revel (30 de dezembro de 1887).

Muito tempo antes, Jesus, mostrando à Irmã Maria Marta as duas Madres que conheciam o segredo de todas as suas graças, tinha-lhe feito esta pergunta:

“Não estarias pronta a fazer-me o sacrifício delas?...”

E esta alma desprendida de tudo que não fosse Jesus, tinha aderido - com uma reserva apenas: - a de não aparecerem mais os favores de que Ele a cumulava... que tudo ficaria bem oculto somente entre os dois: Jesus prometeu e cumpriu.

Depois da morte da nossa boa Madre Teresa Eugênia, Jesus cobriu com um véu, cada vez mais espesso, aquela que Ele tinha resolvido conservar oculta até à morte. Deus permitiu - por meio de uma série de circunstâncias - que seria longo referir, que as superioras que sucedessem não tivessem senão um conhecimento muito vago das graças recebidas porque os cadernos que continham a narração de tudo foram guardados por outras mãos enquanto ela viveu.

Durante os vinte últimos anos, isto é, até à sua morte, nada se revelou exteriormente dessas graças maravilhosas - nada - senão as longas horas que a nossa Irmã Maria Marta passava junto do SS.mo Sacramento, imóvel, insensível, como em êxtase!... E ninguém ousava interrogá-la sobre o que se passava nestes benditos instantes, entre a sua alma arrebatada e o Hóspede Divino do Tabernáculo. Esta cadeia contínua de orações, de trabalho e de mortificação... este silencio, este apagamento absoluto, parece-nos uma prova a mais - e não das menos convincentes - da verdade dos favores inauditos com que ela foi favorecida. Uma alma de humildade suspeita, ou mesmo vulgar, procuraria chamar a atenção e vangloriar-se-ia da obra que Jesus operava nela... mas a Irmã Maria Marta nunca!... Submergia-se com delícias na sombra da vida comum e escondida... Mas, como o grão da mostarda lançado à terra, a devoção as Santas Chagas germinava nos corações.

* * *

Durante a última noite de Natal que a nossa Irmã passou na terra, Jesus - como presumimos - tinha-a advertido da sua próxima partida deste mundo, e, ao mesmo tempo, dos sofrimentos que ainda lhe queria pedir. Uma Irmã que estava junto dela, durante a Missa da meia-noite, ouviu-a exclamar com angústia:

“Ó meu Jesus, isso não!... tudo, sim tudo, menos isso!...”

Esse “isso” devia ser a penosa e dolorosa doença... Esse “isso” devia ser sobretudo o abandono interior, a ausência do Bem-Amado!... Ela, habituada à sua querida presença, à sua conversação quotidiana, não podia - sem se lhe despedaçar o coração - aceitar essa privação.

Desde esse dia notava-se uma tristeza profunda impressa na sua fisionomia. Atacada duma forte constipação, à qual se juntaram diversas complicações muito graves, recebeu a Extrema-Unção com alegria, no dia 13 de fevereiro de 1907.

Restava-lhe ainda subir um doloroso Calvário: cinco semanas de supremas purificações durante as quais o Salvador a identificou, mais que nunca, consigo, para a tornar mais semelhante a si, nas agonias físicas e morais da sua Paixão.

Já a tinha prevenido com antecipação:

“O mal que te fará morrer sairá das minhas Chagas.”

Sentíamos que havia alguma coisa de misterioso neste último combate da natureza... No dia 21 de Março, após uma noite de terríveis sofrimentos, seguiu-se uma grande calma, um grande silencio... Toda a Comunidade cercava a moribunda, recitando milhares de vezes as queridas invocações às Santas Chagas. Finalmente, às oito horas da noite, nas primeiras Vésperas das suas Dores, Maria veio buscar a sua filha a quem tinha ensinado a amar Jesus!... E o Esposo recebia para sempre na Ferida do seu Coração Sagrado, a esposa que tinha escolhido para sua vítima bem-amada na terra para confidente e a apóstola das Santas Chagas.

 

Deus seja bendito!

17. Como a Irmã María Marta soube corresponder aos desejos de Jesus

Como a Irmã María Marta soube corresponder aos desejos de Jesus

 

Comovida até ao mais íntimo do ser com tais revelações, a nossa querida Irmã deixou-se impregnar delas inteiramente. Estava tão apaixonada pelas Chagas do Salvador que lhe parecia “que ia devorá-las”. O seu mais ardente desejo era suscitar no universo os sentimentos de amor e de reconhecimento que elas devem inspirar, pronta a dar a vida pela extensão dum culto que ela queria imenso, apaixonado, sem limites! Se, aliás, o seu ardor esmorecia, se as invocações se tornavam menos numerosas sobre os lábios, Jesus não tardava em apresentar-se a ela no estado lastimoso a que o reduziram as nossas iniquidades e, mostrando-lhe as Chagas, fazia-lhe amorosas repreensões:

“Elas olham sempre para ti, mesmo quando tu as esqueces, tu, que devias contemplá-las sempre... - Já tas mostrei tantas vezes que isso deveria bastar-te; mas não, é preciso que eu te desperte contìnuamente o fervor.”

Ou ainda:

“As invenções dos algozes para me fazer sofrer, era Eu que as queria. - Queria-as por vosso amor e para satisfazer a meu Pai. Tudo se fazia por minha vontade!... E agora, minha filha, também te farei sofrer, porque Eu o quero.”

“Desejo e quero que me consoles dos ultrajes que recebo!... - Quero-te vítima corajosa: Eu serei o teu Sacrificador. Eleva o teu coração e lança-o nas minhas Chagas.”

Apresentando-se a ela como num quadro, suplicou-lhe um dia Jesus, com um tom de indizível ternura e de ardente desejo:

“Deves copiar-me, deves copiar-me!... Os pintores fazem quadros quase conformes com o original, mas aqui sou Eu o pintor que faço a minha imagem em vós, se vós me contemplardes.”

Insistindo sobre este mesmo convite, o nosso Divino Salvador ensinava-lhe um día:

“Minha filha, quando um pintor quer fazer um quadro, prepara primeiro a tela que deve receber pinceladas.”

“- Bom Mestre, não sei o que isso quer dizer” - dizia ela na sua extrema ignorância.

E Jesus teve que explicar-lhe que a sua alma era esta tela preparada:

“Minha filha, prepara-te para receber todas as pinceladas que Eu te quiser dar.”

Algum tempo mais tarde, Jesus perguntou·lhe: “Minha filha, queres ser crucificada comigo ou glorificada?”

“Ah! meu bom Jesus, antes quero ser crucificada! Queria sofrer tanto por Vós, como Vós sofrestes por mim!...”

“Sofrerás por Mim, como Eu sofri por ti, fazendo todas as tuas ações para me agradar e não me recusando nenhum sacrifício...”

Ao ouvir isto, a Irmã Maria Marta ficou subitamente invadida por uma grande impressão e começou a inumerar os seus defeitos, como um obstáculo às graças de Deus:

“Os teus defeitos, replicou o seu terno Mestre, hão-de aparecer todos no dia do Juízo, mas para tua glória e minha!... - Recebo todas as tuas ações e sofrimentos pelos pecadores e pelas almas do Purgatório, mas é preciso que tu permaneças como que colada ao meu Coração, às minhas Chagas, não fazendo senão um comigo... - Não deves sair do meu Coração, porque, se o fizesses, já não poderia comunicar-me a ti.”

“- Bom Mestre, ensinai-me o catecismo” - pediu-lhe ela, uma vez, com a sua candura e ousadia infantil.

“Vem à tua morada, minha esposa, respondeu Jesus, mostrando-lhe as Chagas, vem à tua morada; lá encontrarás tudo!... Serei teu pregador e ensinar-te-ei a imolar-te por meu amor e pelo teu próximo.”

“O Crucifixo, eis o teu livro!... Toda a verdadeira ciência está no estudo das minhas Chagas. Quando todas as criaturas as estudassem a todas bastaria, sem precisarem de livro algum. - É nele que os meus santos leem e lerão eternamente, é o único a que vos deveis afeiçoar, é a única ciência que deveis estudar.”

“Quando beberdes nas minhas Chagas, disse-lhe ainda Nosso Senhor, aliviais o divino Crucificado!”

E voltando-se para o nosso Santo Fundador, que estava presente a este colóquio, disse:

“Eis o teu fruto! Uma das tuas filhas que toma o meu Sangue das sagradas aberturas para o dar às almas e aplacar a minha justiça.”

A nossa Irmã, devorada pelo amor de Deus, aproveitou esta ocasião para pedir ao nosso bem-aventurado pai que lhe obtivessse a graça de ir em breve para a Pátria, gozar do Soberano Bem. Mas ele respondeu-lhe:

“Minha filha, é preciso que cumpras a tua tarefa!...”

“Ninguém pode entrar no Céu sem ter cumprido a sua missão no mundo. - Se tu morresses já, vendo que a tua tarefa não estava completa, desejarias voltar à terra para a terminar, considerando a glória prestada ao Divino Mestre e como aplacas a Justiça de Deus tão fortemente irritada... - Estou bem contente com a glória que vós me dais também a mim, invocando as Santas Chagas.”

Deste modo, a Irmã Maria Marta era constantemente sustentada, animada na “sua tarefa”, segundo a expressão que incessantemente lhe vinha aos lábios. Esta tarefa, como vimos, era em primeiro lugar oferecer contìnuamente os méritos das Santas Chagas de N. S. J. C. pelas necessidades da Igreja militante e padecente. Era depois trabalhar por renovar, tanto quanto possível, esta salutar devoção no mundo inteiro. A primeira parte referia-se a ela pessoalmente: Nosso Senhor a tinha estimulado a isso levando-a a fazer promessas solenes, já antigas e redigidas pela mão da superiora:

“Eu, Irmã Maria Marta Chambon, prometo a N. S. J. C. oferecer-me todas as manhãs a Deus Pai, em união com as Divinas Chagas de Jesus Crucificado, pela salvação do mundo inteiro e para o bem e perfeição da minha Comunidade. - Adorá-l’O-ei em todos os corações que O recebam na Santa Eucaristia... Agradecer-lhe-ei por se dignar vir a tantos corações tão pouco preparados... Prometo a Nosso Senhor oferecer, de dez em dez minutos, com o auxílio da sua graça e em espírito de penitência as Divinas Chagas do Sagrado Corpo ao Pai Eterno... unir todas as minhas ações às Santas Chagas, segundo as intenções do Adorável Coração, pelo triunfo da Santa Igreja, pelos pecadores e pelas almas do Purgatório, por todas as necessidades da minha Comunidade, do Noviciado, do Pensionato e em expiação de todas as faltas que neles se cometem... Tudo isto por amor, sem obrigação de pecado.”

A invocação:

“Padre Eterno, eu vos ofereço as Chagas de N. S. J. C. para curar as das nossas almas, é a fórmula desta oferta...”

A Irmã Maria Marta tinha prometido fazê-lo “de dez em dez minutos”, mas não se passava um momento no dia, sem que a sua boca a renovasse, juntando-lhe a segunda invocação:

“Meu Jesus, perdão e misericórdia, pelos méritos das Vossas Santas Chagas.”

A existência da nossa querida Irmã tornou-se assim uma oração ininterrupta. A união com Deus e um silencioso recolhimento sempre se liam na sua fisionomia. Ao vê-la com os olhos quase sempre fechados e os lábios murmurando incessantemente uma oração, ficava-se comovido. Sobretudo no coro, perdia-se verdadeiramente n’Aquele que se dignava mostrar-se aos olhos da sua alma como um Pai e um Amigo.

* * *

Quanto à segunda parte da “tarefa” - a de despertar nas almas a devoção às Santas Chagas - não dependia só da generosidade heróica da Irmã Maria Marta... N. S. tinha o cuidado de lhe fazer entrever a extensão das dificuldades:

“O teu caminho é tornar-me conhecido e amado pelas minhas Chagas, sobretudo no futuro.”

“Será preciso muito tempo para estabelecer esta devoção.”

O véu do futuro parece ter sido levantado parcialmente diante do olhar da Irmã Maria Marta numa espécie de visão, cuja obscuridade Rev.ma Madre Teresa Eugénia Revel deplora, com um sensível pesar:

“Nao pudemos saber ao certo o fim desta visão nem o seu significado1.”.

Sem entrarmos nas particularidades desta narração, sem procurar uma interpretação que só podia ser pessoal e, indubitavelmente, fantasiada, apontamos simplesmente os fatos reais: a Irmã Maria Marta tinha, com o auxílio das superioras, introduzido a devoção às Santas Chagas na Comunidade - era o primeiro passo. Numerosos mosteiros seguiram este exemplo e adotaram esta devoção - segundo passo. A concessão de 300 dias de indulgências em favor de todos os Mosteiros da Visitação do mundo, era o terceiro passo. O quarto passo data da publicação desta brochura e prosegue magnìficamente.

A leitura das graças concedidas à nossa Irmã, a benéfica influência das palavras de Jesus com respeito à sua santa e amorosa Paixão, o zelo das almas religiosas e de tantos corações dedicados, a extensão das indulgências a todos os fiéis, os grandes alentos recebidos... provocaram uma renovação de amor para com o Divino Crucificado, enquanto através de todo o mundo se multiplicam as confiadas invocações as Santas Chagas.

  1. 1. No dia 29 de agosto de 1868, uma obra começada em 1843 proseguia em Lyon com grande progresso. Foi elevada à classe de Arquiconfraria em 1875. É a Arquiconfraria das Cinco Chagas, cuja sede era Rue de l'Enfance, 65, Lyon.
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