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DOMINGO DE PÁSCOA
Paramentos brancos
Exatamente como no Natal, é em Santa Maria Maior que se faz a estação desta festa, a maior de todo o ano.
A Igreja não separa nunca Jesus de Maria e glorifica hoje com a mesma apoteose o Filho e a Mãe.
Jesus Ressuscitado dirige-se em primeiro lugar ao Pai, em homenagem de sujeição incondicional, enquanto a Igreja, por seu lado, levanta a Deus um hino de sentido reconhecimento e lhe suplica que venha em socorro dos filhos que lutam com o mundo, o demônio e a carne, a caminho da pátria nova dos céus. Mas para isto é necessário comer o Cordeiro Pascal com os ázimos da virtude, duma vida santa e impoluta. O Evangelho apresenta-nos as santas mulheres correndo ao sepulcro para ungir o Mestre com perfumes. Corramos também com a alegria de ressurgidos a ungir com o nosso amor e a nossa fidelidade à virtude o coração do Mestre, não morto, porque é imortal, mas alanceado, dilacerado pelos crimes do nosso tempo e, possivelmente, da nossa má conduta.
Do Evangelho: O anjo apareceu envolto numa túnica branca, diz S. Gregório, para anunciar a alegria da nossa festa. A alvura das vestes representava o brilho e a magnificência da nossa solenidade.
Da nossa? Da nossa e da deles; porque a Ressurreição do Senhor foi e é indubitavelmente a nossa festa, pois reintegrou-nos na vida da graça, e é também a dos anjos, porque reabilitando-nos para o céu preencheu entre eles as cadeiras que a defecção dos rebeldes deixara vazias.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Posso fazer tatuagem, já que surgiram tecnologias para removê-las de modo simples, barato e indolor?
Fazer tatuagem não é um ato pecaminoso em si mesmo, mas também não é um ato moralmente neutro. Em todo caso, não é a facilidade de remoção a condição fundamental para determinar a sua moralidade. A “moralidade” de um ato consiste na relação deste com a lei moral, que é, em última instância, a lei de Deus. Ela pode ser determinada considerando o objeto da ação (o que se faz), juntamente com o fim desejado por quem desempenha a ação, as circunstâncias em que ela se realiza, e como esses três fatores se relacionam com a lei moral, seja quando está em conformidade com ela (neste caso, a ação é moralmente boa) ou quando se lhe é oposta (a ação é moralmente má, um pecado).
Pois bem, primeiramente, o objeto: o que é uma tatuagem? Tatuagem é uma “marca ou desenho permanente feito no corpo por meio da introdução de pigmento na pele” (Enciclopédia Britannica). A tatuagem tem sido usada no mundo em diferentes períodos históricos por razões distintas. Havia sido praticamente erradicada do mundo ocidental até ter sido redescoberta nos últimos séculos pelo contato com índios americanos e polinésios, porém mesmo então era usada quase exclusivamente pelas camadas marginais e menos respeitáveis da sociedade. Hoje, todavia, desde os anos 1990, a tatuagem parece ter se tornado uma moda, chegando até a ser “respeitável”.
Não obstante as tatuagens terem sido proibidas na Bíblia (Lv 19,28), foram-no porque representavam a profissão de superstições cananitas e cultos pagãos. Em si mesma, enquanto simples marca no corpo, a tatuagem não é pecaminosa, pois não transgride um mandamento divino, tampouco um bem humano ou ensinamento da Igreja. No entanto, pode se tornar pecaminosa devido à sua circunstância, por exemplo: o custo de uma tatuagem pode ser excessivo em relação ao ganho de uma pessoa; a tatuagem pode deixar cicatrizes se removidas posteriormente; a imagem tatuada pode ser imoral ou obscena e até mesmo blasfema ou satânica; ela pode cobrir uma parte muito grande do corpo, desfigurando-o, ou pode ser feita em uma parte imodesta do corpo.
Isso nos leva a considerar o fator mais importante na avaliação da moralidade de uma tatuagem: a razão para fazê-la.
Em algumas culturas, fazia-se tatuagem para receber proteção mágica contra algum mal, ou para assinalar o grau, status ou pertencimento do tatuado a um grupo, ou até como simples ornamento corporal. Os antigos romanos tatuavam criminosos e escravos e, no século XIX, condenados americanos em liberdade e desertores do exército inglês eram identificados com tatuagens. Os cristãos coptas tatuavam crucifixos em suas testas e dedos como uma profissão de fé contra o invasor islâmico. Alguns peregrinos medievais faziam o mesmo, para dar testemunho do término de sua jornada de devoção.
Hoje, contudo, a aparente onipresença das tatuagens provém de motivos muito distintos: uma adesão irrefletida a tendências e modas; imaturidade e imprudência; um espírito de desobediência ou rebelião contra as autoridades ou convenções sociais. Muitas vezes, faz-se tatuagem por pressão dos colegas ou por desejo de ir contra a sociedade, por tédio ou busca de novidades, por desejo de chamar atenção, por vaidade e ostentação, por narcisismo, por um espírito de exibicionismo que pode até revelar um desequilíbrio psicológico mais grave. Todos esses atos podem ser pecaminosos em diferentes graus.
Demais, temos o dever de respeitar e cuidar do nosso corpo, que nos foi dado por Deus e transformado pela graça em templo do Altíssimo. "Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo. (1Cor 6,19). Qualquer alteração ou desfiguração desnecessária e injustificada do corpo é – também aqui, com diferente graus de culpabilidade – uma violação da verdade, do nosso dever de bem cuidá-lo.
Por fim, tatuar-se é um modo de se identificar com uma cultura e seus valores. Ceder ao movimento moderno das tatuagens é um modo de acomodar-se à vida do mundo, à cultura anticristã e a um modo de vida esvaziado de valores cristãos. Como disse São Paulo "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito" (Rm 12,2). Somos católicos, estamos no mundo mas não pertencemos ao mundo, não devemos imitá-lo. Só Nosso Senhor deve ser a luz e o guia de nossas ações, e não as modas e mentalidades mundanas.
Pe. Arnaud Sélégny, FSSPX
Depois de várias vacinas contra a Covid-19 terem sido desenvolvidas, vários rumores passaram a circular sugerindo a impossibilidade moral de usá-las.
A situação farmacêutica é extremamente complexa e cambiante. Até o momento, existem cerca de cinquenta vacinas diferentes já produzidas ou em desenvolvimento, de acordo com quatro métodos distintos de elaboração.
O presente artigo trata exclusivamente de responder a seguinte questão moral: considerando a base concreta do funcionamento de uma vacina e a maneira como é preparada, é possível utilizar alguma delas sem cometer pecado?
Todos são livres para opinar sobre a origem da Covid-19, sobre a forma como a epidemia tem sido gerida aqui e ali, sobre a política de vacinação de um determinado país ou sobre a vacinação em geral. No entanto, tudo isso não muda a conclusão moral dada aqui.
Artigo atualizado em 6 de março de 2021.
Este artigo é dividido em três partes, necessárias para a compreensão do julgamento moral apresentado.
I. Visão geral da vacinação
A ideia da vacina
A ideia de preparar o corpo para os efeitos nocivos de venenos ou agentes infecciosos não é nova. Pode remontar ao rei Mitrídates (132-63 A.C). Diz-se que ele toma pequenas quantidades de veneno para se acostumar com ela. Essa ideia pode ser encontrada hoje na dessensibilização, que visa reduzir reações inadequadas em indivíduos alérgicos. O sujeito é colocado em contato com quantidades crescentes de elementos aos quais é sensível para, em última análise, suprimir a reação alérgica a esses elementos.
Na vacinação, o mecanismo é diferente. Envolve a administração total ou parcial de um agente infeccioso, às vezes apenas o seu produto, para fazer o corpo reagir e permitir que adquira imunidade contra esse agente.
Uma primeira conclusão importante deve ser tirada. A vacinação não faz mais do que usar uma propriedade do corpo humano ou animal: sua chamada capacidade imunológica de se opor ativamente a agentes estranhos que o atacam. Assim, se um sujeito for infectado pelo bacilo de Koch, o agente da tuberculose, e se recuperar, ficará imune a uma nova infecção: essa é a imunidade natural. Se outro sujeito for vacinado com a vacina BCG (Bacilo de Calmette e Guérin), que vem de um bacilo de Koch atenuado, também desenvolverá imunidade, produzida pela vacinação: é uma imunidade induzida, eficaz contra o bacilo de Koch.
Mas é óbvio que essa imunidade também é natural: é apenas a forma como foi produzida que difere. Essa imunidade induzida costuma ser menos durável, porque a reação desencadeada é menos vigorosa do que durante uma doença.
Os diversos tipos de vacina
Até o presente, as vacinas podiam ser classificadas em duas categorias: as vacinas de vírus vivo atenuado e de vírus inativado.
No primeiro caso, antes de serem administradas, o agente infeccioso era modificado a fim de tornar-se inofensivo, mantendo, porém, seu poder antigênico, ou seja, sua capacidade de provocar uma reação imunológica. O caso do BCG é característico deste método. O sistema imunológico ataca o agente da vacina e se lembrará de sua intervenção: então, torna-se capaz de se defender contra um ataque do agente infeccioso.
Este tipo de vacinação, no entanto, é contraindicado para indivíduos imunodeprimidos -- cujo sistema imunológico é deficiente – porque, nesse caso, há o risco de uma infecção verdadeira. Foi o que ocorreu com a vacinação contra a varíola, produzindo muitos dramas.
No caso das vacinas de vírus inativado, o agente infeccioso está morto; pode ser administrado inteiro ou em parte. Entre as vacinas desse tipo, a antitetânica é um caso singular: não utiliza o agente infeccioso, mas a toxina que ele produz, que é perigosa e até mesmo fatal. Essa toxina é desintoxicada antes de ser administrada, de forma que não representa mais um perigo, mantendo seu poder antigênico.
A esta última categoria podemos associar as vacinas ditas “proteicas”: o agente vacinal é composto apenas de proteínas do envelope do vírus, ou de todo o seu envelope esvaziado de seu conteúdo.
Outra variante consiste em utilizar um vírus inofensivo para o homem, para introduzir o agente vacinal na célula-alvo (vetor viral).
Vacinas sintéticas
Um novo tipo de vacina vem sendo estudado há dez anos. Foi pensado inicialmente para doenças como Ebola ou Zika. A ideia foi retomada para a vacina contra a Covid-19.
Como todas as coisas vivas, o vírus da Covid-19 contém material genético formado a partir do ácido ribonucléico (RNA). Nos seres vivos, o RNA pode existir de várias formas: RNAm (mensageiro), que transmite informações do DNA do núcleo da célula para os sistemas do usuário; RNAt (transportador), que fornece os elementos a serem montados de acordo com o código do RNAm; RNAr (ribossômico) que constitui os ribossomos, as fábricas de fabricação de proteínas.
A ideia da vacina sintética é copiar uma pequena parte do vírus afetado sob a forma de um RNAm. A parte escolhida no caso do Covid-19 é a parte que codifica a espícula, elemento que permite ao vírus entrar nas células.
Este RNAm da vacina é administrado ao sujeito e penetra em uma célula, resultando em sua multiplicação. Ao sair da célula, é apreendido como um elemento estranho e destruído pelo sistema imunológico. Como resultado, o indivíduo adquire uma imunidade induzida que lhe permitirá lutar contra uma infecção real de Covid-19.
A vantagem desse método é a velocidade do processo de elaboração da vacina. Com efeito, dois laboratórios que já anunciaram resultados muito satisfatórios utilizam este método. O laboratório russo Gamaleya produz uma vacina de forma semelhante, mas utiliza um “vetor”, ou seja, um vírus inofensivo para o homem, para introduzir o fragmento de RNA. Isso pode representar um problema moral que será examinado mais tarde.
Os especialistas em RNAm possuem algumas objeções à tais vacinas que merecem ser consideradas. Primeiramente, vários parâmetros necessários à eficácia da vacina parecem aleatórios demais. Por exemplo, pacientes com câncer ou doenças autoimunes podem sofrer complicações. Além disso, a possibilidade do RNAm ser convertido em DNA, embora muito baixa, não é nula. Isso poderia levar à incorporação deste RNA no genoma. Essa é a razão pela qual essa vacina tem sido contraindicada para pacientes infectados com o vírus HIV.
Finalmente, quando se trata de vacinação, a história da medicina tem mostrado que não se pode dispensar certos passos e do tempo que eles requerem. A pressa com que essas vacinas de RNAm foram permitidas, pode, portanto, ser considerada uma grave imprudência.
A preparação das vacinas
A preparação de uma vacina envolve três etapas: desenvolvimento, produção e testes laboratoriais. No curso dessas três etapas pode surgir uma dificuldade moral em função do ambiente na qual a vacina é preparada.
Deve-se notar desde já que vacinas contra doenças transmitidas por bactérias não estão em questão. Neste caso, o meio de cultura é apenas um conjunto de nutrientes que a bactéria usa para se alimentar: glicose, água, cálcio etc.
No caso das vacinas virais, a dificuldade é a seguinte: cada uma das três etapas da sua preparação pode requerer uma cultura do vírus, necessitando de um ambiente celular vivo. No caso específico de vacinas sintéticas, isso ocorre apenas na fase de teste.
Os virologistas usam três tipos de células: células de órgãos humanos ou animais; linhagens contínuas , que muitas vezes são de origem cancerosa e se multiplicam quase indefinidamente; e células embrionárias humanas, que também se multiplicam por muito tempo.
Linhagens embrionárias humanas
Entre essas últimas, há atualmente pelo menos três linhagens derivadas de um aborto: a linhagem HEK-293, originária de um feto abortado em 1972 nos Países Baixos, a linhagem MRC-5, originária de um feto abortado em 1966 na Inglaterra, e a linhagem Per.C6, que veio de um feto abortado nos Países Baixos em 1985.
A utilização de células de fetos abortados para produzir vacinas está em curso desde a década de 1960, e já levou ao desenvolvimento de diversas vacinas, como as que previnem rubéola, varicela, hepatite A e zona.
No quadro do desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19, essas células são utilizadas tanto para produzir os vetores virais (adenovírus), que transportarão o agente vacinal, como para produzir a proteína da espícula do coronavírus, que provocará a resposta imune.
Infelizmente, as empresas farmacêuticas preferem usar células de fetos em vez de células adultas, que envelhecem mais rápido e param de se dividir. As células fetais também são menos propensas a serem infectadas com vírus ou bactérias, ou ter sofrido mutações genéticas.
II. Problemas morais acarretados pela utilização de linhagem proveniente de fetos abortados
A questão é saber se alguém pode utilizar ou, em alguns casos, ser obrigado a usar uma vacina que teria sido cultivada em células derivadas do aborto.
O crime de aborto é tão abominável e tão difundido hoje em dia que, à primeira vista, a questão parece supérflua; espontaneamente, o católico responde: não.
Na realidade, o problema pode ser extremamente delicado, porque acontece que, em certas circunstâncias muito específicas, podemos ser confrontados com deveres tão graves, que conduzem a verdadeiros casos de consciência. Nesses dilemas assustadores, o apoio da teologia moral é essencial para examinar a situação em profundidade e discernir o bem a ser realizado.
Observações preliminares
É necessário observar que as células fetais não são injetadas com a vacina, como acreditam alguns: elas servem apenas para a cultura dos vírus e, além do mais, são destruídas pelos vírus, como o são as células infectadas de um paciente. Isso não muda em nada o problema moral.
Deve-se notar também que o problema não é o uso das células fetais em si, porque poderiam ter sido obtidas legalmente, no caso de aborto espontâneo. O problema é que foram obtidas por uma má ação, um aborto.
Distinções em jogo
O princípio que guia a reflexão aqui é o da cooperação no mal. A questão geral é a seguinte: é lícito cooperar com o mal ou o pecado dos outros? A teologia moral deu as explicações necessárias.
Ajudar um pecador a cometer seu pecado é chamado de "cooperação para o mal", independentemente da ajuda dada. Para que se constitua, a ação do cooperador deve ter uma influência real sobre o ato maléfico, através da ajuda prestada para produzi-lo.
Para avaliá-lo, é preciso situá-lo com exatidão. Isso é muito importante. Aqueles que negligenciam esses detalhes podem não julgar apropriadamente a moralidade da cooperação.
A cooperação é dita imediata quando o cooperador realiza com o pecador o ato mesmo do pecado, por exemplo, se ajuda o ladrão a tirar o butim e a escondê-lo. É o caso do auxiliar cirúrgico que realiza certas partes do aborto ao lado do abortista.
A cooperação é dita mediata quando o cooperador fornece algo que será útil ao pecador – material, ajuda, recurso -- ou que lhe permita fazê-lo mais facilmente. É o caso de quem segura a escada para o ladrão, ou da enfermeira que auxilia o abortista.
A cooperação mediata pode ser mais ou menos “próxima” ou “distante”, conforme a ajuda prestada influencie mais ou menos o pecado cometido, ou tenha maior ou menor conexão com ele. Assim, fornecer um ídolo a um pagão é uma cooperação estreita. Mas vender a madeira da qual o ídolo será feito é uma cooperação distante.
Além disso, em razão da intenção, distingue-se a cooperação entre formal e informal. A primeira é quando o cooperador consente voluntariamente com o pecado para o qual está ajudando. Portanto, quem ajuda um ladrão ficando à espreita, por exemplo, ao aprovar esse pecado, coopera formalmente. Ele também será chamado de "cúmplice" pela lei.
A cooperação é material quando o cooperador não quer pecar, mas age prevendo que o pecador abusará da sua contribuição para pecar. Assim, o dono do bar que concorda em dar alguns drinques a um cliente já embriagado, apenas pelo dinheiro, participa do pecado da embriaguez, mas não se associa à intenção do bêbado.
Princípios
-- A cooperação formal é sempre ilícita e proibida, pois assume o pecado a que se coopera. O cooperador procura o próprio pecado.
-- A cooperação imediata, mesmo que apenas material, é ilícita, porque é um ato ruim e, na maioria das vezes, um pecado idêntico ao do pecado principal. Por exemplo, um assistente de cirurgião que participa da esterilização -- ligadura das trompas ou vasectomia -- comete o mesmo pecado que o do cirurgião, pois sua ação influencia diretamente o ato de pecado que não poderia ser cometido sem o seu concurso, ou ao menos seria realizado com muito mais dificuldade.
-- A cooperação mediata pode ser tanto lícita como ilícita. Na maioria das vezes, e ordinariamente, é ilícita, pois devemos sempre procurar evitar ações más ou cooperar com elas.
Não obstante, por uma utilidade real ou grave necessidade, às vezes podemos ser convidados a fazer algo que, embora bom em si mesmo, será uma cooperação mediata a uma ação ruim.
A utilidade ou necessidade em questão pode ser tão imperiosa que se é então dispensado da obrigação de evitar a cooperação com o mal. Diz-se que há uma razão proporcionalmente grave para a cooperação lícita.
Tomemos um exemplo geral: os diversos personagens ao redor de um aborto:
-- cooperador imediato: o auxiliar cirúrgico que realiza uma parte do procedimento;
-- cooperador mediato próximo: o instrumentador, que ajuda o médico dando-lhe os instrumentos.
-- cooperador mediato menos próximo: a enfermeira que preparar a mulher para a operação;
-- cooperador mediato ainda menos próximo: o funcionário que cuida da sala de cirurgia;
-- afastando-se ainda mais: o funcionário que esteriliza os instrumentos necessários;
-- cooperador remoto: o laboratório que fornece os anestésicos e os dilatadores, ou o fabricante de instrumentos cirúrgicos: em ambos os casos, os equipamentos fornecidos podem ser utilizados para intervenções que não sejam um aborto;
-- cooperador muito remoto: a empresa que realiza a entrega desses produtos.
Pressupondo a cooperação material em todos esses casos, a "proximidade" com o pecado cometido é muito variável. Devemos dizer que todos esses cooperadores materiais estão absolutamente obrigados a abster-se de suas funções? E isso a qualquer custo?
A teologia moral responde que não. A influência sobre o ato mau é tão pequena, por exemplo, no ato de varrer a sala de cirurgia, que a manutenção do emprego é razão suficiente para o faxineiro.
Por outro lado, quanto maior for a influência sobre o pecado, mais grave terá de ser a razão. E quando a proximidade é muito grande, nenhuma razão pode justificar. Então, é preciso recusar, mesmo que se tenha que mudar de emprego.
III. Aplicação ao caso das vacinas preparadas com células provenientes de um aborto
Trata-se agora de situar a cooperação dos envolvidos no preparo ou uso de uma vacina, caso seja preparada com células obtidas de um aborto. Presume-se que esta seja uma cooperação material, porque a cooperação formal é sempre ilícita.
Quem quer que fabrique ou comercialize esta vacina está cooperando com o pecado do aborto de uma forma que, embora não possa ser considerada próxima, pode ser considerada imoral. A culpa varia, entretanto, dependendo do papel exercido.
Quem dirige uma empresa farmacêutica que lucra com um aborto anterior tem responsabilidade maior. Primeiro porque poderia não fabricar essa vacina, segundo porque deveria interromper o uso das linhagens celulares em questão e escolher outras que não representem um problema moral, mesmo que isso tenha suas desvantagens.
O pesquisador que escolhe as linhagens celulares com as quais deseja trabalhar se encontra em uma situação semelhante: está lucrando com um crime passado.
Mas o técnico de laboratório, que é apenas um executor, ou o caminhoneiro que entrega a vacina, têm apenas uma cooperação distante, então é aceitável, principalmente para o segundo.
O médico que vacina um paciente, ou o paciente que é vacinado, tem cooperação distante, pois esses atos encorajam e promovem o pecado do aborto de uma forma muito remota e muito tênue. Por razões de saúde suficientes, tais atos poderiam ser moralmente permitidos.
Uma jovem que está prestes a se casar pode, portanto, receber a vacinação contra a rubéola, embora essa vacina seja quase sempre preparada com células fetais obtidas pelo aborto. O motivo é o perigo para a criança: se uma mulher contrair rubéola durante a gravidez, principalmente no primeiro trimestre, os riscos de malformações - olhos, audição ou coração - são grandes. Essas malformações são permanentes.
No entanto, se uma vacina é obtida de células não abortivas e está disponível, é claro que é ela que deve ser usada.
Aplicação ao caso da vacina contra a COVID-19
Ocupamo-nos aqui apenas com a seguinte questão: o aspecto moral do uso de uma vacina contra a Covid-19 no que se refere ao seu processo de preparação ou fabricação.
Linhagens utilizadas no âmbito da vacina contra Covid-19
A lista completa das vacinas em preparação é fornecida no documento anexo a este artigo. Este documento especifica a empresa responsável e a utilização eventual de células de feto abortado, em uma ou outra fase da preparação: concepção, produção e testes.
Lista de vacinas atualmente em preparação (anexo)
Julgamento moral segundo os princípios colocados
Visto que algumas das vacinas existentes não foram preparadas de modo ilícito, elas não representam um problema moral de uso deste ponto de vista. Elas devem, portanto, ter preferência sobre as outras.
As vacinas que usaram uma preparação moralmente ilícita devem ser ignoradas na medida do possível.
Mas e se, em um caso particular, alguém precisar ser vacinado, e não conseguir obter uma vacina "lícita", tendo apenas uma vacina "ilícita" disponível? Isso pode ocorrer por motivos de saúde -- idoso vulnerável -- ou devido à situação profissional -- pessoal médico exposto; ou por motivos profissionais, como viajar de avião, porque já existe pelo menos uma companhia aérea -- a Qantas, no caso - que comunicou que só aceitará passageiros vacinados assim que as vacinas estiverem disponíveis. É muito provável que esse requisito seja rapidamente aceito por muitas companhias aéreas.
Como a cooperação é distante, e o motivo alegado é suficientemente sério, é possível, nesses casos, lançar mão dessa vacina. Além disso, cada um deve julgar, buscando conselhos apropriados, se há real necessidade.
Deve ficar claro que estamos aqui no domínio de um juízo de prudência, que não pode ser uniforme para todos e em todos os casos. A teologia moral diz o que é legal ou ilegal. Ele fornece os princípios, mas cabe à prudência pessoal julgar sua aplicação caso a caso.
Quanto aos elementos alheios a esta questão [da legalidade segundo a origem e o preparo da vacina], são da ordem da opinião pessoal. Como qualquer opinião que não pode ser absolutamente provada, é vão e impossível querer impô-la a todos. Todos são livres para opinar sobre a origem da Covid-19, sobre a forma como tem sido gerida aqui e ali, sobre a política de vacinação de um determinado país, sobre a vacinação em geral; mas todos esses elementos não mudam a conclusão moral dada aqui.
Uma última observação
Deve-se notar que, além do caso dessas vacinas que estudamos, a cooperação com o mal ocorre em muitas situações análogas: esta última pode ser tratada e resolvida de acordo com os mesmos princípios morais. Por exemplo:
Devemos deixar de pagar impostos, por exemplo na França, uma vez que parte do dinheiro é usado para reembolsar o aborto ou reprodução assistida?
Devemos concordar em obter suprimentos de um farmacêutico que vende produtos ilícitos: abortivos, preservativos, anticoncepcionais? Isso não seria uma forma de encorajamento?
Devemos aceitar ser tratados por um médico que aprova o aborto e prescreve a pílula?
Podemos ir até uma loja de departamentos ou a uma livraria que vende jornais ruins?
O caixa deve se recusar a atender um cliente que quer comprar um DVD ruim? Obviamente, a lista poderia continuar indefinidamente.
Apresentamos um exemplo final tirado do Novo Testamento: É lícito comer idolothytus, em outras palavras, carne sacrificada aos ídolos (1 Cor 8, 1)?
Para compreender a questão, é importante saber que toda a carne consumida na Antiguidade necessariamente passava pelos templos. Aliás, só existe uma palavra em grego, mageiros (usada exclusivamente no masculino), para designar o sacrificador, o açougueiro e o cozinheiro: para quem queria se abster da carne imolada, não havia outra carne para comer.
Acrescentemos que o pecado da idolatria é um dos mais graves, pois ataca o próprio Deus.
A resposta que São Paulo dá é a seguinte: é permitido comer essas carnes, a menos que isso escandalize o vizinho. Ou seja, quem quer que consuma essa carne não está participando do pecado da idolatria. Não fosse assim, São Paulo não teria respondido dessa maneira.
Da mesma forma, quem está em uma situação de cooperação material suficientemente distante no uso de uma vacina contra Covid-19, cuja fabricação tenha se beneficiado de uma das linhagens celulares acima mencionadas, não participa do pecado do aborto cometido 35, 48 ou 54 anos atrás.
Porém, como já foi dito, deve-se, na medida do possível, evitar a cooperação no mal, mesmo material, e se houver opção, tomar a vacina que não represente nenhum problema moral.
No entanto, não devemos contentar-nos com este estado de coisas deplorável e não fazer nada. Católicos influentes devem usar todo o seu poder para influenciar a indústria farmacêutica a desenvolver suas novas vacinas de maneira a não apresentar dificuldade moral.
O famoso artigo da Civiltá Cattolica e nossa oportuníssima citação continuam assim:
”Se os liberais nos pedem a verdadeira caridade, a única que lhes convém e que nós, como redatores da Civiltá Cattolica, lhes podemos e devemos dar, tão longe estamos de querer negá-la que, ao contrário, julgamos tê-la prodigado bastante até agora, senão segundo todas as suas necessidades, ao menos segundo a nossa possibilidade.
“Os liberais cometem um intolerável abuso de palavras dizendo que nós não usamos de caridade para com eles. A caridade, una em seu princípio, é variada e multiforme em suas obras. Muitas vezes, o pai que bate fortemente em seu filho, tanto usa de caridade como o que o cobre de beijos. E ocorre freqüentemente que a caridade do pai que beija seu filho seja inferior à do pai que o castiga.
“Nós batemos nos liberais, não negamos, e batemos neles com muita freqüência (com palavras, é claro), mas quem poderá concluir deste fato que nós não os amamos, que não temos caridade para com eles? Isto poderia ser dito antes daqueles que, malgrado as prescrições da caridade, interpretam mal as intenções do próximo. No que nos diz respeito, tudo o que os liberais poderão dizer é que nossa caridade para com eles não é a caridade que desejam. Mas nem por isso deixa de ser caridade, sim senhor, e grande caridade; e visto que são eles que pedem caridade, e nós os que lha concedemos em vão, bem poderiam recordar aqui o velho provérbio: ’A cavalo dado não se olhe para o pelo’.
“A caridade que queriam de nós, seria a de os louvar, admirar, apoiar, ou de ao menos os deixar agir à vontade. Nós, ao contrário, não queremos fazer-lhes senão a caridade de gritar-lhes, repreendê-los, exortá-los por mil modos a sair do seu mau caminho. Quando dizem uma mentira, semeiam uma calúnia ou pilham os bens alheios, os liberais gostariam que lhes encobríssemos estes e outros pecados veniais com o manto da caridade. Nós, ao contrário, os apostrofamos de ladrões, embusteiros, caluniadores, exercendo assim para com eles a caridade mais excelente de todas, a de não adular nem enganar aqueles a quem queremos bem. Quando lhes escapa algum disparate gramatical, de ortografia, de linguagem, ou simplesmente de lógica, gostariam que fizéssemos vista grossa; e choram, e lamentam-se quando os advertimos em público, queixando-se de que faltamos com caridade. Nós, ao contrário, fazemos-lhe uma boa obra obrigando-os a apalpar com suas próprias mãos uma coisa que não devem ignorar, a saber: que não somente não são mestres, como pensam, mas que não passam de estudantes medíocres. Deste modo contribuímos, na medida de nossas forças, à cultura das belas artes na Itália, e ao exercício da humildade cristã no coração desses liberais que têm, como se sabe, grande necessidade dela.
“Os senhores liberais gostariam sobretudo que fossem tomados sempre muito a sério, estimados, reverenciados, obsequiados, e tratados como figuras importantes. Resignar-se-iam a que os refutássemos, sim, contanto que o fizéssemos de chapéu em mão, corpo inclinado e cabeça baixa em reverente e humilde atitude. Daí vêm suas queixas, quando às vezes são caricaturados, isto é, quando se zomba deles. Deles! Os pais da pátria, os verdadeiros italianos, a própria Itália, como costumam dizer de si mesmos! Quem tem, pois, a culpa, se é tão ridícula essa pretensão que ao próprio Heráclito faria soltar uma gargalhada?
“Pois bem! Devemos, para o seu agrado, passar a vida reprimir todo movimento natural de riso? Deixar-nos rir quando certamente não se pode deixar de o fazer é também obra de misericórdia, que os liberais poderiam outorgar-nos de boa vontade, já que por sua parte não custa muito. Todos compreendem muito bem que, assim como fazer rir honestamente, à custa do vício e dos viciosos, é em si coisa muito boa, segundo o dito castigat ridendo mores, e aquele outro ridendo dicere verum, quid vetat?, assim, fazer rir uma e outra vez os nossos leitores, à custa dos liberais, é verdadeira obra de misericórdia e caridade para os mesmos leitores, que certamente não hão de estar sempre sérios e rigorosos, enquanto lêem o jornal. E afinal os mesmos liberais, se bem considerarem, ganham muito em que os outros riam à sua custa, porquanto deste modo todo mundo vem a conhecer que nem todos os seus feitos são tão horríveis e espantosos, como podem parecer, já que normalmente só costumam provocar o riso as deformidades inofensivas.
“Não nos agradecerão nunca o caráter ingênuo com que procuramos apresentar algumas de suas picardias? Como não percebem que não há meio mais eficaz para conseguir que se corrijam delas, do que a chacota e o riso daqueles que as vêem por nós expostas em sua devida luz? E como não vêem que não têm direito algum de acusar-nos, quando assim o fazemos, de não obrar com eles como manda a caridade?
“Se tivessem lido a vida do seu grande Victor Alfieri, escrita por ele mesmo, saberiam que, quando pequeno, sua mãe que o queria muito bem educado costumava, quando o apanhava em alguma travessura, mandar-lhe ir à missa com a gorra de dormir. E conta Alfieri que este castigo, que não era senão expô-lo um pouco ao ridículo, de tal maneira o afligiu uma vez, que por mais de três meses se portou do modo mais impecável. “Depois disto, diz ele, quando, ao primeiro sinal de travessura, ameaçavam-me com a terrível gorra de dormir, imediatamente eu entrava tremendo na linha de meus deveres. Um dia, tendo caído em certo pecadilho, disse à senhora minha mãe uma solene mentira para desculpá-lo, e por isto fui de novo sentenciado a levar em público a gorra de dormir. Chegou a hora; a gorra fora colocada em minha cabeça, eu chorava e gritava em vão. Meu aio pegou-me pela mão para sairmos e um criado me empurrava por detrás.” Porém por mais que ele chorasse, gritasse e pedisse caridade, a mãe que queria o seu bem, permaneceu inexorável. E qual foi o resultado? “Foi, continua Alfieri, que por muito tempo não me atrevi a dizer outra mentira. E quem sabe se àquela bendita gorra de dormir não devo o haver-me tornado um dos homens mais inimigos da mentira!” Nesta última frase mostra-se de passagem o fariseu, que sempre costuma ter-se por melhor que os outros homens. Nós, portanto, que devemos supor que todos os liberais têm em alta conta os elevados sentimentos do seu grande Alfieri, por que razão não esparíamos nós corrigi-los do vício vergonhoso de dizer mentiras, ou pelo menos impedir de publicá-las, enviando-os com a gorra de dormir malgrado seus gritos, esperneios e apelos à caridade... não à missa, que isso é impossível, mas a dar uma volta pela Itália, e isso nem sempre que lhes escape uma mentira, pois que seria demasiado freqüente, mas ao menos todas as vezes que imprimam um milhar delas de uma só vez?
“Não insistam, pois, os liberais na queixa de que não os tratamos com caridade. Digam antes, se quiserem, que a caridade que lhes damos, esta não a recebem de boa vontade. Já o sabíamos. Mas isso só prova que, por seu estragado gosto, precisam ser tratados com a sábia caridade que empregam os cirurgiões com seu doentes, ou os médicos do manicômio com seus loucos, ou as boas mães com seus filhos mentirosos.
“Mas ainda que fosse verdade que não tratamos com caridade os liberais, e que os tais nada disso hão de agradecer-nos, nem por isso teriam direito algum a queixar-se de nós. É sabido que nem a todo mundo é possível fazer caridade. Nossas faculdades são muito escassas: fazemos caridade segundo a medida delas, preferindo, como é nosso dever, aqueles que a mesma lei de caridade bem ordenada manda preferir.
“Dizemos (entenda-se bem) que fazemos aos liberais toda a caridade que podemos, e cremos tê-lo demonstrado. Mas na suposição de que não a fazemos, insistimos ainda que nem por isso devem fatigar-nos com queixas os liberais.
“Eis um fato semelhante que vem muito ao caso. Um assassino de punhal na mão está agarrado a um pobre inocente para cravá-lo em sua garganta. Acontece passar na ocasião alguém que leva na mão um bom taco, e dá no assassino uma forte tacada na cabeça; deixa-o inconsciente, o amarra e entrega à justiça, livrando assim, por sua boa estrela, da morte a um inocente, e de um malfeitor a sociedade.
“Faltou este terceiro com caridade em algum ponto? Se escutarmos o assassino, para quem naturalmente lhe dói o golpe, dirá que sim. Discorrerá talvez que, contra a chamada norma inculpatae tutelae, o golpe foi forte demais, e com menos força teria bastado. Mas, à exceção do assassino, todos louvarão o passageiro, e dirão que praticou um ato não só de valor, mas ainda de caridade, não certamente em favor do assassino, mas da vítima; e que se para salvar este, teve de abrir a cabeça do outro sem ter muito tempo para medir escrupulosamente a força do golpe, não foi certamente por falta de caridade, mas porque a urgência da situação era tal que não se podia usar de caridade para com um, sem sacudir bem o outro. Teria ele tempo para demorar-se em sutilezas sobre o mais ou o menos da inculpata tutela.
“Apliquemos a parábola. Publica-se, por exemplo, um folheto maledicente, calunioso e escandaloso contra a Igreja, contra o papa, contra o clero, contra qualquer coisa boa. Muitos crêem que tudo naquele folheto é pura verdade, já que seu autor é um célebre, distinto e honrado escritor, qualquer que seja. Se, para defender os caluniados e livrar os leitores do erro, alguém dá umas tantas pauladas no desavergonhado autor, terá faltado com a caridade?
“Não poderão agora negar os liberais, eles se encontram mais freqüentemente na situação de salteadores do que na de vítimas. Que haverá de espantoso, portanto, que levem por isto uma paulada? Que haverá de estranho se queixarem de que não são tratados com caridade? Parem de comportar-se como desordeiros e arruaceiros; acostumem-se a respeitar os bens e a honra dos outros; não contem tanta mentira; não levantem tanta calúnia; pensem um pouco antes de falar sobre qualquer coisa; tenham em maior conta as leis da lógica e da gramática; sejam sobretudo honrados, como há pouco aconselhou o barão de Ricasoli, com pouca esperança de bom êxito, apesar da autoridade e exemplos de tal conselheiro, e poderão então queixar-se com razão se não são tratados com o respeito de que, como aquele da liberdade, pretendem ser os absolutos monopolizadores.
“Mas já que agem tão mal como escrevem; já que andam sempre com o punhal na garganta da verdade e da inocência, assassinos de uma e da outra com seus feitos e com seus livros, tenham paciência se não podemos em nossos jornais prodigar-lhes outra caridade que aquela algo dura, que cremos, embora contra seu parecer, seja a mais proveitosa, tanto para eles como para a causa dos homens de bem.”
[Nota da Permanência: O texto seguinte foi tirado do livro "O Espírito de Família", de Monsenhor Henri Delassus, à venda na nossa livraria. Agradecemos à Editora Castela a permissão de publicá-lo.]
“Interroga as gerações passadas e recorda diligentemente a experiência dos antepassados: porque somos de ontem e não sabemos, pois os nossos dias sobre a terra passam como a sombra. E eles instruir-te-ão e falarão contigo, e tirarão sentenças do seu coração: Acaso pode crescer o papiro fora da terra úmida e o junco germinar sem água?” (Jó 8, 8-11)
Devolver aos pais de família a liberdade de reconstituir um patrimônio — bem de família transmissível de geração em geração — é apenas parte da tarefa a executar para povoar novamente a Europa com autênticas famílias, na plena acepção da palavra. A outra tarefa é fazer renascer nelas as tradições. A primeira está ao nosso alcance apenas indiretamente, através do legislador; a segunda pode e deve ser a obra de cada um de nós no seu próprio meio social. Só se pode esperar a abolição das leis revolucionárias a partir de um grande movimento de opinião. Mas o que cada um pode fazer é reavivar em torno de si o espírito de família. Desse modo, fará aos seus o que de melhor está ao seu alcance e ao mesmo tempo preparará a renovação da sociedade. Porque é necessário que existam tradições subjacentes às leis, para que elas tenham a força que o assentimento do coração lhes dá, da mesma forma que é necessária uma educação familiar subjacente às tradições para as sustentar e fazer com que elas se tornem o princípio dos costumes, sem os quais as boas leis nada são e contra os quais as leis más nada podem.
“Enquanto um vestígio de tradição uniu a França nova à França antiga — escreveu Émile Montégut — a Revolução não pôde chegar às suas últimas consequências. Mas quando a roda do tempo girou o suficiente para que não subsistisse qualquer resíduo do passado, a hora da lógica soou; e as gerações contemporâneas, educadas em uma sociedade na qual só a Revolução permanece de pé, ouvem sem estranheza palavras que, trinta anos antes, as teriam enchido de horror e de medo.”
Hoje assiste-se impassível a atos que teriam revoltado os povos mais bárbaros na antiguidade pagã. Nas escolas, onde antes se ensinava as crianças a conhecer, amar e adorar a Deus, agora formam-se, por ação ou omissão dos responsáveis, pessoas sem religião e sem moral.
De onde vem essa impassibilidade? Do fato de já não haver nos espíritos ideias claras nem princípios solidamente ancorados nas almas, mas só ideias vagas e flutuantes, incapazes de inflamar os corações. E por que são assim flutuantes as ideias nos nossos dias? Porque as ideias-matrizes, as ideias-princípios, não foram impressas nas almas das crianças por pais que as tivessem haurido nos ensinamentos dos avós, por sua vez imbuídos dessas verdades pelos antepassados. Em uma palavra, porque as famílias já não têm tradição.
Havia antigamente uma ideia muito difundida, uma ideia quase religiosa, ligada à expressão tradições de família, entendida esta no sentido mais alto: uma herança de verdades e virtudes, no seio das quais se formaram os caracteres que proporcionaram a uma casa de família a sua duração e grandeza.
Hoje em dia, essa expressão nada diz às novas gerações que vêm ao mundo. Surgem em um dia para desaparecer no seguinte, sem ter recebido e sem deixar depois delas um conjunto de recordações e afetos, de princípios e costumes que outrora se transmitiam de pai para filho e davam às famílias que lhes eram fiéis a possibilidade de ascenderem na sociedade. A família que possui tradições, geralmente deve-as a um antepassado seu, no qual o sentimento do bem foi mais forte do que nos seus semelhantes e a quem foram dadas sabedoria e vontade para inculcar nos seus.
“A verdade é um bem — diz Aristóteles —, e uma família na qual os homens virtuosos se sucedem é uma família de homens de bem. Esta sucessão de virtudes tem lugar quando a família remonta a uma origem boa e honesta, porque é no início onde normalmente se conhecem as futuras consequências, boas ou más. [...] Portanto, quando existe em uma família um homem muito dedicado ao bem, a sua bondade comunica-se aos descendentes, ao longo de muitas gerações, e daí provém necessariamente uma família virtuosa.”
O homem que quiser fundar uma família virtuosa deve persuadir-se de que os seus deveres não se limitam, como pretende Rousseau, a prover às necessidades físicas do seu filho, enquanto este não puder cuidar de si mesmo. Deve dar-lhe também uma educação intelectual, moral e religiosa.
Os animais têm forças e recursos para satisfazer às necessidades corporais das crias, e isto basta-lhes. Mas a criança, ser moral, tem muitas outras necessidades, e é por isso que Deus deu aos pais, além da força, a autoridade para educar a vontade dos filhos e fazê-los ingressar nas vias do bem, manter-se nelas e progredir. Deus quis que esta autoridade fosse permanente, porque o progresso moral é obra de toda uma vida. E como, segundo os desígnios da Providência, o progresso deve desenvolver-se ao longo dos tempos, é necessário que a família humana não se extinga em cada geração: o vínculo familiar deve subsistir entre os que já partiram e os que estão vivos, entrelaçando entre si todos os descendentes de uma estirpe vigorosa.
O homem de bem não pensa unicamente nos seus filhos, mas nas gerações que se seguirão a estes e empenha-se para que a virtude se torne tradição familiar.
É por isso que o livro de família tem grande importância. Começar este livro, ordenar ao primogênito que o continue e transmita essa injunção ao seu próprio filho, é o meio mais fácil e seguro de inculcar em uma família as tradições. Com uma condição: ter-se-á como regra inviolável procurar só alianças matrimoniais nas famílias que pratiquem as virtudes que se deseja transmitir aos próprios filhos.
“Aliar-se a uma família — diz Lacordaire — é aliar-se a bênçãos ou a maldições, e o verdadeiro dote não é aquele que o notário consigna no papel. Só Deus conhece o verdadeiro dote, mas até certo ponto a memória dos homens também o pode conhecer. Perguntai se o sangue que se vai unir ao vosso contém as tradições de virtudes humanas e divinas, e se foi purificado há muito tempo pelos sacrifícios que o dever impõe. Perguntai se a alma está cheia das graças de Deus. Remontai tão longe quanto possível na sua história genealógica, a fim de que, explorando todos os ramos de antepassados, como se explora uma mina, fiqueis a saber o que vale diante de Deus esta geração que desconhecíeis e que vai unir-se à vossa para tomar-se uma só na posteridade” .
Charles de Ribbe empregou o melhor da sua vida em revalorizar os livros de família. Depois de editar os manuscritos de muitas famílias antigas, publicou diversas obras para divulgar os ensinamentos que neles se encontram. Por fim redigiu, baseando-se nos modelos que tinha diante de si, o Livre de Famille, para servir de modelo aos pais que quisessem pôr em prática os exemplos dos antepassados. Recomendamos com insistência a aquisição, leitura e meditação deste livro, que pode contribuir para levantar a nossa sociedade.
Daremos aqui apenas algumas indicações.
O livro de família, ou livre de raison, é assim chamado porque nele se transmitem aos filhos e seus descendentes as razões ou motivos da posição da família, os seus antecedentes, trabalhos, ideias e sentimentos que a guiaram no caminho da vida e dos costumes, que devem garantir a transmissão dos mesmos sentimentos e virtudes. Constitui desse modo um vínculo moral entre as gerações, cujos elos, graças a tal livro, permanecem estreitamente unidos em uma comunidade de ideais e sentimentos.
Era dividido em três partes, correspondentes às três fases da existência da família. O passado, que é a genealogia e a história das origens da estirpe. O presente, que é a geração atual. O futuro são os ensinamentos deixados pelos pais e avós aos seus descendentes. O livro de família, quando bem elaborado, resume tudo o que material e moralmente diz respeito à família.
E em primeiro lugar a genealogia. André Lefèvre d’Ormesson, já citado, diz no seu livro de família:
“Que os nossos filhos conheçam aqueles de quem descendem, por parte de pai e mãe, para que se sintam estimulados a rezar a Deus pelas suas almas e a bendizer a memória daqueles que, com a graça de Deus, honraram a sua casa e adquiriram os bens de que os seus descendentes desfrutam, e que passarão às outras gerações, se na sua bondade o Criador quiser dar para isso a sua bênção, como eu Lhe suplico de todo o meu coração.”
Em outros termos, a genealogia da família é a condição primeira para criar e manter o espírito de família.
Sempre que possível, acrescentava-se uma pequena nota a cada nome. Todas as famílias deveriam ter uma história. O livro de família é o guardião dessa história. Os livros de família publicados ultimamente mostram-nos, nessas curtas notas, como muitas famílias modestas conseguiram, pela força dos costumes, perpetuar-se durante muitos séculos na mesma região, na prática das mesmas virtudes.
Depois da genealogia vem o diário, onde se registram sucessivamente os atos importantes da família: nascimentos, casamentos e óbitos, com as informações que cada um destes fatos comporta. O livro de tombo, onde se registram as cópias dos títulos de propriedade. O livro das contas e negócios. A exposição dos métodos de trabalho, onde se consignam conselhos para melhorar a sorte da família por uma experiência doméstica comprovada.
Os ensinamentos só excepcionalmente formam uma parte distinta. Normalmente as ideias e reflexões morais aparecem ao lado do relato dos fatos. Aproveita-se os acontecimentos para dizer aos filhos: eis a verdade, eis o bem. Evitai tal erro; tomai cuidado com tal falta. Estes avisos, formulados quase sempre com palavras tiradas da Sagrada Escritura, são curtos. Espera-se que desta forma eles se gravem melhor no espírito e penetrem no fundo dos corações:
“Eu gostaria de chamar este livro — dizia Antoine de Couston — a sabedoria da família. É necessário que ele continue a ser escrito em cada geração, que seja o depositário dos nossos êxitos, bem como dos nossos erros, de modo que, revertendo o bem e o mal dos que hoje vivemos em benefício dos que virão, ligue umas gerações às outras, transformando-as em uma só família sempre viva e animada do mesmo espírito. Se assim não for, as gerações rolarão umas atrás das outras em um círculo de ignorância e erros.”
Joubert descreveu bem a situação moral contemporânea, resultante da falta de ensinamentos tradicionais:
“Poucas ideias firmes e muitas ideias peregrinas, sentimentos muito vivos mas nada constantes, incredulidade em relação aos deveres e confiança nas novidades, espíritos decididos e opiniões vacilantes, afirmações categóricas no meio das maiores dúvidas, confiança em si mesmo e desconfiança em relação ao próximo, ciência das doutrinas loucas e ignorância das opiniões dos sábios: tais são os males do século. Tendo sido destruído o costume, cada um cria para si hábitos e maneiras de acordo com a sua natureza. Deploráveis épocas aquelas em que cada homem mede tudo pela sua bitola e caminha, como diz a Bíblia, iluminado pela própria candeia” .
É propriamente esse o nosso tempo. Havia antigamente, em cada casa, uma característica própria que a distinguia, em virtude da qual se podia dizer: eis aí um membro de tal família. Essa característica tinha sido formada pelos antepassados e mantivera-se pela tradição. Isso já não existe e as consequências são bem visíveis. Enquanto viveram alguns dos representantes das antigas gerações, havia sempre uma luz que iluminava a vida. Mas à medida que desapareceram os velhos, cuja educação fora feita de tradições, os jovens encontraram-se diante de uma tábua rasa. Nada sabem das antigas verdades que constituem a família e a sociedade. Estes jovens tornam-se pais de família em um meio invadido pelo luxo e por todo o gênero de facilidades, que os faz esquecer o pouco que aprenderam; sem falar das revoluções que neste nosso século têm acabado por destruir no coração do país o que lhe restava de vida.
Após as desordens que abalaram a Europa do século XVI, muitíssimos pais esforçaram-se por defender os filhos e os seus servidores contra o contágio do mal. Desta época datam os melhores livros de família. Eles foram os guias e os sustentáculos das famílias nobres que ilustraram a época de Henrique IV e Luís XIII.
Que bom seria se isso voltasse a acontecer! Não é temerário esperá-lo. Nos mais diferentes meios sociais recomeça-se a compreender a necessidade das tradições.
Logo após a morte do seu pai, o antigo redator do Petit Journal, Ernest Judet, publicou no Éclair estas palavras incisivas:
“Eu nunca compreendera tão bem o poder da tradição, a lição da hereditariedade, a carga que uma pessoa lega a outra dela nascida e a responsabilidade de nos desenvolvermos de acordo com o espírito daqueles que nos criaram!”
É bem conhecida a impressão profunda que produziu no público o livro de Paul Bourget intitulado L’Étape, em que o autor defende idênticos princípios.
Charles de Ribbe pesquisou a fundo as tradições familiares da velha França e tirou dos seus estudos a seguinte conclusão:
“Baseando-nos em testemunhos irrefutáveis, podemos afirmar: quando as famílias caminharam nas vias traçadas por Deus, vencendo os vícios e elevando-se pela virtude, o trabalho e a poupança, graças a uma séria educação cristã, alcançaram sempre uma grande riqueza material, que possuíram de maneira estável” .
No livro intitulado Quelques réflexions sur les lois sociales, o duque d’Harcourt fez uma observação muito oportuna para as famílias contemporâneas. Falando dos sentimentos íntimos da aristocracia do século XVIII, escreveu:
“Sabemos que, entre eles, a irreligião estava na moda. Zombavam dos dogmas e das tradições. Nos nossos dias, pelo contrário, os representantes das famílias nobres são, de modo geral, católicos praticantes”.
Pergunta em seguida como se operou essa mudança, e responde:
“Seria possível, no fim do século passado, que um grande número de indivíduos, por ódio à Revolução, mudasse assim de sentimentos? Não. Não foram os filhos dos ímpios que, espontaneamente, passaram a ter sentimentos piedosos, opostos aos dos seus pais. Pode ser que isso tenha ocorrido, mas muito raramente. Essa transformação explica-se simplesmente pela extinção quase completa da descendência dos céticos do século passado. Muitas dessas famílias desapareceram e, quanto às outras, perpetuaram-se, seja porque faziam parte da minoria que na Corte escapou ao contágio, seja porque descendem de parentes obscuros perdidos na província, mas que ali conservaram, juntamente com as antigas tradições, as ideias religiosas sem as quais as famílias não se perpetuam”.
Possa este memorável exemplo persuadir as famílias que querem perpetuar-se, a restabelecer as tradições que fizeram a antiga aristocracia! E para isso, que se retorne em toda parte nas famílias cristãs o belo costume dos livros de família. Estes tiveram outrora um grande prestígio em quase todos os países da Europa e até do Oriente. Uma instituição nascida espontaneamente em tantos e tão diversos países só pode ser inspirada pela própria natureza, ou melhor, pelo Autor da nossa natureza. Foi-nos terrivelmente funesto abandoná-la. Ser-nos-á extremamente favorável recuperá-la.
Pela afirmação do preceito tal como é lida na Sagrada Escritura (Ex. 20:8-11), pode-se ver o rigor e a severidade com os quais a Lei Moisaca prescrevia o descanso sabático. Os israelitas, às vezes, interpretavam-na de uma maneira muito literal e material, como Nosso Senhor em pessoa ressaltou (Lc. 13:14-16). A Lei do Evangelho, embora mantendo o preceito do Decálogo, abrandou sua interpretação prática, como São Tomás de Aquino explica: “Na Nova Lei, a observância do Dia do Senhor tomou o lugar da observância do Sabbath, não por virtude do preceito, mas pela instituição da Igreja e o costume do povo cristão. Pois essa observância não é figurativa, como era a observância do Sabbath na Lei antiga. Portanto a proibição de trabalhar no Dia do Senhor não é tão estrita quanto era no Sabbath; e certos trabalhos são permitidos no Dia do Senhor, mas eram proibidos no Sabbath, tais como cozinhar comida e outros. E, novamente, na Nova Lei, dá-se a dispensa do preceito mais facilmente que na Antiga, quando se trata de certas obra proibidas, em razão de sua necessidade, porque a figura diz respeito à protestação da verdade, cuja omissão é ilícita até mesmo nas coisas pequenas; enquanto os trabalhos, considerados em si mesmos, são mutáveis em razão do lugar e do tempo (II-II, 122.4 ad 4).
Como estabelecido pelo Código de Direito Canônico, nos Domingos e dias de festa, a Igreja proíbe o trabalho servil, atos legais e comércio público, compras, etc (Can. 1248).
Trabalhos servis são aqueles que, ordinariamente, requerem o exercício de força física, como aqueles executados por fazendeiros, trabalhadores braçais, pedreiros, carpinteiros, etc. As obras servis não devem ser julgadas pelo propósito da pessoa que as realiza ou pela fatiga física que causam, mas apenas por sua própria natureza; assim, elas não deixam de ser servis mesmo quando são feitas apenas por recreação ou sem qualquer fatiga corporal.
Portanto, nos dias santos de preceito, os trabalhos servis são proibidos sob pena de pecado mortal; mas dispensas e exceções são possíveis.
Atos legais e judiciais que requerem um certo aparato e publicidade, como convocar testemunhas, realizar uma audiência pública, sentenciar, etc, são proibidos nos dias santos de preceito, mas não aqueles que podem ser feitos em privado, tais como consultas, escrever um relatório, dar conselhos, etc.
Em razão das inconveniências que normalmente trazem à santificação do dia de festa (dificuldades para ir à Missa, busca excessiva de lucro, etc), a Igreja também proíbe mercados públicos, feiras e outras vendas e compras públicas nos dias santos, exceto se autorizados por costumes legítimos ou por permissões especiais dadas pela autoridade eclesiástica.
Além dessas dispensas legítimas, outras causas pode, circunstancialmente, dispensar da lei de repouso dominical, como por exemplo:
Piedade a Deus; portanto é lícito trabalhar no que está imediatamente conectado com o culto de Deus, decorar os altares, preparar uma procissão, etc; mas não os trabalhos que têm relação mais remota, como consertar a Igreja, costurar paramentos, etc.
Caridade com o próximo; portanto é lícito, nos dias de festa, fazer qualquer trabalho físico que seja necessário para satisfazer as necessidades dos doentes, etc.
Necessidades prementes; por exemplo, no caso de trabalhadores que são obrigados a estar em seus trabalhos por seus empregadores sob pena de perder o emprego; os pobres, para obter seu sustento diário, os fazendeiros para evitar dano de uma tempestade ameaçadora, as mães ocupadas com tarefas domésticas e outros casos semelhantes. Mas devemos ter cuidado para evitar o escândalo e garantir que sempre haja uma causa verdadeira e proporcional, evitando autoengano ou malícia.
Paramentos roxos
“O mistério pascal, diz S. Leão, tem de direito e de fato o primeiro lugar entre as solenidades cristãs. E se é certo que o nosso viver de todo o ano nos devia ir sempre dispondo gradualmente para o celebrarmos de maneira digna e adequada, os dias que vamos atravessar devem incitar-nos a uma devoção mais fervorosa, porque, tenhamo-lo presente, aproxima-se a solenidade do mais divino mistério da divina misericórdia”. Este mistério é o da Paixão e Ressurreição do Salvador; Pontífice e Mediador do Novo Testamento, Jesus vai subir em breve o patíbulo da Cruz e apresentar ao Pai, ao penetrar no Sancta Sanctorum dos Céus, o preço do nosso resgate na moeda batida e cunhada com o Sangue do seu sacrifício.
“Eis, canta a Igreja, que resplandece o mistério da Cruz em que a Vida morreu, mas de tal sorte que morrendo nos deu a vida”. A Eucaristia é o memorial deste amor imenso de Deus aos homens, porque o Senhor ao instituí-lo disse: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós. Este é o cálice da nova aliança no meu sangue. Fazei isto em memória minha”. E para corresponder a toda esta bondade divina, que fez o homem? “Os seus não O receberam, diz São João, e pagamos com mal o bem que nos fez”, retribuímo-lo com ultrajes, “desonramo-lo”, como Ele mesmo se queixou.
O Evangelho nos mostra, com efeito, o ódio crescente do Sinédrio. Abraão, pai do povo de Deus, acreditara firmemente nas promessas divinas que anunciavam o Salvador e no limbo a sua alma alegrou-se ao vê-las realizadas com a vinda do Messias. Mas os judeus, que deviam reconhecer em Jesus Cristo o Filho de Deus, maior que Abraão e os profetas, não quiseram entender o sentido das palavras, e depois de o maltratar por todos os meios que a malícia pode inventar, tentaram apedrejá-lo. No entanto, Jesus domina-os com todo o poder da sua personalidade divina, porque, como diz Jeremias, foi estabelecido como uma cidade fortificada, cingida com muralhas de ferro e de bronze na face dos reis da Judéia, dos príncipes dos sacerdotes e do povo. “Hão de te combater, mas não te vencerão porque eu estou contigo para te salvar”. Quanto a mim, dissera o Salvador, não busco a própria glória mas há quem a busque e julgue. E pela boca do salmista continua nestes dolorosos acentos: “Julgai-me, Senhor, e discerni a minha causa da deste povo ímpio. Livrai-me do homem perverso e enganador. Livrai-me dos meus inimigos, arrancai-me das mãos do homem violento e de vontade pervertida”. Deus, com efeito, não permite que os homens façam mal ao Senhor antes de chegar a sua hora. E quando a hora da imolação chegar, virá a da glorificação também, a da ressurreição.
Esta morte e ressurreição predisseram-na os profetas e simbolizou-a Isaías. Foi vontade de Deus que Jesus passasse pela humilhação, pelo sofrimento e pela morte, antes de entrar na glória. Os judeus, porém, cegos pela paixão, esperavam um Messias glorioso e, escandalizados com a Cruz de Jesus, rejeitaram a salvação. Foi por isso que Deus os rejeitou e acolheu com benevolência aqueles que esperam na Cruz do Salvador; porque, diz São Leão, a esperança da vida eterna é coisa certa e segura para todos os que participam da Paixão do Senhor. E agora que vamos comemorar a Paixão do Senhor, pensemos que para participar dos seus benéficos efeitos é necessário lutar e sofrer. Só o que lutar será coroado.
Do Evangelho: “As palavras que o Senhor proferiu são verdadeiramente terríveis. Aquele que é de Deus ouve a palavra de Deus. E se vós a não ouvis é porque não sois de Deus”
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Uma entrevista com o Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X sobre o pontificado do Papa Francisco
DICI: Reverendíssimo Padre, passaram-se oito anos desde que o Papa Francisco ascendeu ao trono de São Pedro, e, por ocasião desse aniversário, o sr., bondosamente, concedeu-nos essa entrevista, pela qual estamos verdadeiramente gratos.
Para alguns observadores do pontificado do Papa Francisco, particularmente para aqueles apegados à Tradição, parece que a batalha de ideias acabou. De acordo com eles, agora, há uma praxis que domina, a saber, a ação concreta, inspirada em um pragmatismo amplo. Qual sua opinião acerca disso?
Padre Pagliarani: Eu não tenho tanta certeza de que as ações e as ideias devam ser opostas dessa maneira. O Papa Francisco, definitivamente, é muito pragmático. Mas, sendo um homem de governo, ele sabe perfeitamente bem onde quer chegar. Uma ação de larga escala é sempre inspirada em princípios teóricos, em um conjunto de ideias, normalmente dominadas por uma ideia central, com a qual toda a praxis pode e deve estar relacionada.
Deve-se perceber que todas as tentativas de entender os princípios [por detrás] do pragmatismo do Papa Francisco ainda estão no âmbito da tentativa e erro. Por exemplo, algumas pessoas achavam que tinham encontrado os princípios norteadores de sua ação na teologia del pueblo, uma variação argentina da teologia da libertação – porém muito mais moderada. Parece-me, no entanto, que o Papa Francisco está além desse sistema, e mesmo além de qualquer sistema conhecido. Eu acredito que as ideias que direcionam suas ações não podem ser analisadas e interpretadas de maneira satisfatórias se nos limitarmos aos critérios teológicos tradicionais. Ele não apenas está além de qualquer sistema conhecido, está acima deles!
O que o Sr. quer dizer com isso?
Com o Papa João Paulo II, por exemplo -- apesar de tudo que pode ser deplorado em seu pontificado -- certos pontos da doutrina católica permaneciam incólumes. Com o Papa Bento XVI, lidávamos com um espírito apegado às raízes da Igreja. Seu esforço considerável de realizar a quadratura do círculo, ao tentar reconciliar a Tradição com os ensinamentos conciliares ou pós-conciliares, embora condenado ao fracasso, revelavam contudo uma preocupação com a fidelidade à Tradição. Mas, com o Papa Francisco, essa preocupação não existe mais. O pontificado sob o qual vivemos é um ponto de virada histórico para a Igreja Católica: bastiões que ainda existiam, foram agora demolidos para sempre – humanamente falando; e, ao mesmo tempo, a Igreja redefiniu, ao revolucioná-la, sua missão em relação às almas e ao mundo.
Ainda é muito cedo para analisar o escopo integral dessa sublevação, mas já podemos tentar analisá-la.
O Sr. disse que os bastiões que ainda existiam foram demolidos. Que bastiões são esses?
Estou me referindo, de maneira particular, aos fundamentos morais últimos sobre os quais não apenas a sociedade cristã, mas qualquer sociedade natural se estabelece. Estava fadado a acontecer mais cedo ou mais tarde, era uma questão de tempo. Até agora, embora sendo vaga às vezes, a Igreja ainda mantinha suas demandas morais de modo um tanto firme, por exemplo acerca do casamento católico. Ela ainda condenava todas as perversões sexuais… Mas essas demandas, infelizmente, eram baseadas em uma teologia dogmática que estava desviada de seu propósito e, portanto, tornada instável. Era inevitável que, um dia, tudo isso iria vacilar. Princípios sólidos de ação não podem se sustentar firmemente por muito tempo quando a ideia de seu Autor Divino é enfraquecida ou distorcida. Esses princípios morais poderiam sobreviver por algum tempo, até mesmo por algumas décadas, porém, privados de sua espinha dorsal, eles estavam condenados a, um dia, ser tachados de “ultrapassados” e negados na prática. É isso que estamos vendo com o pontificado do Papa Francisco, em particular com a exortação apostólica Amoris Laetitia, de 19 de março de 2016. Esse documento não apenas contém erros sérios: ele manifesta um approach novo, completamente historicista.
O que é esse novo approach? O que poderia ter determinado sua escolha?
O Papa Francisco tem uma visão geral muito precisa da sociedade contemporânea e da Igreja contemporânea – e mesmo da história como um todo. Ele me parece muito afetado por um tipo de hiperrealismo, uma espécie de hiperrealismo “pastoral”. De acordo com ele, a Igreja deve encarar a realidade: é impossível a ela continuar a pregar a doutrina moral como tem feito até hoje. Ela deve, portanto, render-se às demandas do homem moderno e, consequentemente, repensar seu papel como mãe.
É claro, a Igreja deve sempre ser mãe. Mas, ao invés de ser mãe ao transmitir a vida e ao educar os filhos, será mãe na medida em que saiba ouvir, compreender e acompanhar seus filhos… Essas preocupações, que não são más em si mesmas, devem ser compreendidas, aqui, em um novo e muito particular sentido: a Igreja Católica não pode mais – e, portanto, não deve mais – impor-se. Ela deve ser passiva e adaptar-se. É a vida eclesial, tal como é vivida atualmente, que condiciona e determina a missão da Igreja, e, até mesmo, sua raison d’être [propósito]. Por exemplo, como não pode impor as mesmas condições que impunha no passado para a recepção da Sagrada Comunhão, uma vez que o homem moderno as percebe como uma intolerância inaceitável, a única reação verdadeiramente cristã e realista, ao seguir essa lógica, consistiria em adaptar-se a essa situação e redefinir essas condições. Portanto, por força dos acontecimentos, a moral muda; as leis eternas, agora, estão sujeitas a uma evolução, que se torna necessária em razão de circunstâncias históricas e dos imperativos de uma falsa e mal-compreendida caridade.
Na sua opinião, o Papa se sente desconfortável com esse desenvolvimento? Sente necessidade de justificá-lo?
Sem a menor dúvida, o Papa devia estar ciente, desde o princípio, da reação que tal processo provocaria dentro da Igreja. Ele, provavelmente, também estava ciente do fato de que estava abrindo portas que, por mais de dois mil anos, haviam permanecido muito bem fechadas. Mas, para ele, as demandas dos tempos superam quaisquer outras considerações.
É nessa perspectiva que a ideia de “misericórdia” adquire seu valor e escopo completos. Essa ideia de “misericórdia” é onipresente em seus discursos. Ela não é mais a resposta de um Deus de amor, que acolhe o pecador arrependido com braços abertos, para o regenerar e dar-lhe a vida da graça de volta. Ela, agora, é uma misericórdia fatal, que se tornou necessária para satisfazer as necessidades urgentes da humanidade. Daqui em diante, considerados incapazes de respeitar até mesmo a lei natural, os homens têm o direito estrito de receber essa misericórdia, uma espécie de anistia condescendente de um Deus que também se adapta à história, sem dominá-la como antes.
Desse modo, não apenas a fé e a ordem sobrenaturais são abandonados, mas também os princípios morais indispensáveis a uma vida honesta e reta. Isso é assustador, porque significa a renúncia definitiva da cristianização da moral: ao contrário, os católicos, agora, devem adotar a moral do mundo, ou ao menos adaptar – de acordo com o caso concreto – a lei moral à moda atual, incluindo aquela dos casais divorciados “recasados” e mesmo dos casais de mesmo sexo.
Essa misericórdia, portanto, tornou-se uma espécie de panaceia, o fundamento de uma nova evangelização a ser proposta para um século que não pode mais ser convertido e a cristãos aos quais o jugo dos mandamentos não pode mais ser imposto. Dessa maneira, as almas em perigo, ao invés de serem encorajadas e fortalecidas em sua fé, são consoladas e confirmadas em sua situação pecaminosa. Ao agir assim, o guardião da fé revoga até mesmo a ordem natural, o que significa que mais nada sobrou.
O que subjaz esses erros é a ausência total de transcendência ou verticalidade. Não há mais nenhuma referência, mesmo implícita, ao sobrenatural, à nossa vida após esse mundo e, acima de tudo, à obra de Redenção de Nosso Senhor, que, de modo definitivo, deu a todos os homens os meios necessários para sua salvação. A eficácia perene desses meios não é mais pregada, nem mais reconhecida. Eles não acreditam mais neles! Consequentemente, tudo é reduzido a uma visão puramente horizontal e historicista, na qual as contingências prevalecem sobre os princípios, e na qual apenas o bem-estar terreno importa.
Esse "ponto de virada", que o Sr. mencionou, continua consistente com o Concílio Vaticano II, ou já pertence a um Concílio Vaticano III, que não aconteceu?
Há, ao mesmo tempo, continuidade com as premissas estabelecidas no Concílio e superação delas. Isso por uma razão muito simples: com o Concílio Vaticano II, a Igreja quis adaptar-se ao mundo, quis “atualizar-se” com o aggiornamento promovido pelos Papas João XXIII e Paulo VI. Agora, o Papa Francisco continua essa adaptação ao mundo, mas em um sentido novo e extremo: a Igreja, agora, deve adaptar-se aos pecados do mundo – ao menos quando o pecado for “politicamente correto”. O pecado, no entanto, é apresentado como uma expressão autêntica de amor, em todas as formas permitidas na sociedade contemporânea e, portanto, permitidas por um Deus misericordioso. São sempre analisados caso a caso, mas esses casos excepcionais estão destinados a se tornar a norma, como já podemos ver na Alemanha.
Paralelamente a essa aniquilação progressiva da moral tradicional, o Papa Francisco propõe valores a serem promovidos? Ou, para colocar de outra maneira, na sua opinião, sobre que fundamento ele quer construir?
Essa é uma pergunta muito pertinente, à qual o próprio Papa deu a resposta no dia 03 de outubro de 2020, na sua última encíclica Fratelli tutti, onde afirmou que “trata-se, sem dúvida, doutra lógica”; e ele continua, propondo que aceitemos “o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente […] Esse é o verdadeiro caminho da paz”. Isso é o que se chama de uma utopia, e é isso que acontece a todos que se separam de suas raízes. O Santo Padre, rompendo com a Tradição Divina, aspira a uma perfeição ideal e abstrata, totalmente desconectada da realidade.
Reconhecidamente, na mesma passagem, defende sua posição, admitindo que o que diz “parecerá um devaneio”. Ele também especifica a base na qual ele quer justificar sua posição: “o grande princípio dos direitos que brotam do simples fato de possuir a inalienável dignidade humana”. Mas, de modo preciso, a Revelação Divina e a Tradição Católica nos ensinam que a natureza humana e a dignidade humana não são autossuficientes. Como Chesterton diz, “retire o sobrenatural, e o que resta é antinatural”. Sem Deus, a natureza tende a se tornar, na prática, antinatural. Ao chamar e elevar o homem à ordem sobrenatural, Deus ordenou a natureza humana à graça. Portanto, a natureza não pode remover a ordem sobrenatural sem introduzir uma desordem profunda nela mesma. O sonho do Papa Francisco – sua “outra lógica” é profundamente naturalista.
Outro sinal desse caráter utópico, seu sonho toma um escopo universalista: é uma questão de o impor a todos, de maneira autoritária e absoluta. Sendo concebidos de maneira artificial, os sonhos só podem ser impostos de uma maneira artificial...
Mas em que consiste a utopia do Papa Francisco?
Em osmose perfeita com as aspirações do homem moderno, imbuído dos direitos que ele reivindica e separado de suas raízes, ela pode ser resumida em duas ideias: a da ecologia integral e a da fraternidade universal. Não é coincidência que o Papa tenha dedicado suas duas encíclicas chave a esses temas, que, como ele mesmo defende, caracterizam as duas principais partes do seu pontificado.
A ecologia integral de Laudato si (24 de maio de 2015) não é nada mais que uma nova moral proposta para toda a humanidade, deixando de lado a Revelação Divina e, portanto, o Evangelho. Seus princípios são puramente arbitrários e naturalistas. Eles se harmonizam, sem a menor dificuldade, com as aspirações ateístas de uma humanidade que está apaixonada pelo mundo na qual vive, e atolada em preocupações puramente materiais.
E a fraternidade universal de Fratelli tutti, defendida pelo Papa de modo muito solente na Declaração de Abu Dhabi, coassinada pelo Grande Imam de Al-Azhar (04 de fevereiro de 2019), não é nada mais que uma caricatura naturalista da fraternidade cristã, fundada na paternidade divina comum a todos os homens, salvo por Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa fraternidade é, materialmente, idêntica à da Maçonaria, que, ao longo dos últimos dois séculos, não fez nada além de semear ódio, particularmente contra a Igreja Católica, em um desejo feroz de suplantar a única verdadeira fraternidade entre os homens possível.
Não é apenas a negação da ordem sobrenatural, reduzindo a Igreja Católica às dimensões de uma ONG filantrópica, mas também é uma falta de compreensão das feridas do pecado original e o esquecimento da necessidade da graça para restaurar a natureza decaída e para promover a paz entre os homens.
Nesse contexto, como pode o papel da Igreja ser distinguido do papel da sociedade civil?
Hoje, a Igreja Católica oferece a imagem de um poder sacerdotal a serviço do mundo contemporâneo e de suas necessidades sociopolíticas… Porém, esse sacerdócio não é mais dedicado à cristianização das instituições ou à reforma da moral, que se tornaram pagãos novamente. É um sacerdócio tragicamente humano, sem qualquer dimensão sobrenatural. Paradoxalmente, a sociedade civil e a Igreja, portanto, encontram-se, como no apogeu do Cristianismo, unidos, lutando lado a lado por objetivos comuns… Mas, dessa vez, é a sociedade secularizada que sugere e impõe suas visões e ideais à Igreja. Isso é verdadeiramente assustador: o humanitarismo secular tornou-se a luz da Igreja e o sal que lhe dá seu sabor. A debandada doutrinal e moral dos últimos anos é um bom exemplo do complexo de inferioridade que os homens da Igreja mantêm em relação ao mundo moderno.
E, ainda assim – esse é o mistério de nossa fé e, também, nossa esperança – a Igreja é Santa! Ela é Divina! Ela é Eterna! Apesar dos sofrimentos da hora presente, sua vida interior, em todas as suas dimensões mais elevadas, é, certamente, de uma beleza que delicia a Deus e aos anjos. Hoje, como em todos os tempos, a Igreja Católica dispõe completamente de todos os meios necessários para guiar e santificar as almas!
Na sua opinião, como a Igreja pode livrar-se desses erros e regenerar-se?
Primeiramente, devemos rejeitar todas as utopias e voltar à realidade, um retorno aos fundamentos da Igreja Católica. Podemos identificar três pontos chave que a Igreja deve recuperar e começar a pregar novamente, de maneira direta, sem qualquer concessão ou transigência: a existência do pecado original e de seus efeitos (que são a concupiscência tripla de que São João fala em sua primeira Epístola) – e isso é contrário a toda forma de ingenuidade naturalista; a necessidade da graça, fruto da Redenção, que é o único remédio – porém um remédio todo-poderoso – para triunfar sobre aqueles efeitos devastadores; e a transcendência dum fim último que não está nessa terra, mas no Céu.
Pregar isso novamente seria o princípio de “confirmar vossos irmãos”. A verdadeira fé católica seria, novamente, proclamada. É a condição necessária para qualquer vida sobrenatural. É, também, o guardião indispensável da lei natural, que também é divina, eterna e imutável em sua origem, o fundamento necessário para levar o homem à sua perfeição.
Esses três conceitos podem ser resumidos em um único ideal: o de Cristo Rei. Ele é a essência de nossa fé. Ele é o autor de toda a graça. Ele é o autor dessa lei natural que Ele insculpiu nos corações de todos os homens quando Ele os criou. O legislador divino não muda. Ele não renuncia a Sua autoridade. Assim como essa lei não pode ser alterada sem se alterar a própria fé, ela também não pode ser restaurada, sem restaurar ao divino legislador a honra que Lhe é devida.
Para colocar de maneira mais simples, não devemos nos render ao mundo, mas “render todas as coisas a Cristo”. É em Cristo Rei e através de Cristo Rei que a Igreja Católica tem todos os meios para vencer o mundo, cujo príncipe é o pai das mentiras. Através da Cruz, Ele já o venceu de uma vez por todas: “Eu venci o mundo”.
O Sr. acha que a Bem-Aventurada Virgem Maria terá um papel especial nessa vitória?
Como essa vitória é uma vitória de Cristo Rei, ela, necessariamente, também será de Sua Santa Mãe. Nossa Senhora é sistematicamente ligada a todas as batalhas e a todas as vitórias de seu Filho. Ela, certamente, estará ligada a essa de um modo muito especial, porque jamais antes houve um triunfo de erros tão sutis e perniciosos, que causaram uma devastação tão generalizada e profunda na vida concreta dos católicos. A prova disso é que, entre os títulos mais belos que a Igreja dá a Nossa Senhora, estão aqueles de “Destruidora de todas as heresias” - ela esmaga a cabeça daqueles que as concebem – e de “Auxílio dos cristãos”. Quanto mais a vitória de um erro parecer definitiva, mais gloriosa será a vitória da Bem-Aventurada Virgem Maria.
Essa entrevista ocorreu em Menzingen, no dia 12 de março de 2021,
Festa de São Gregório Magno, Papa
Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX
O Concílio Vaticano I (Dz. 1792) ensinou, com toda precisão e clareza, qual o objeto da fé: “Por fé divina e católica, deve-se acreditar em todas as coisas contidas na palavra escrita de Deus e na Tradição, e naquelas propostas pela Igreja, seja em um pronunciamento solene, ou em na sua autoridade magisterial ordinária e universal, como sendo divinamente reveladas."
Expliquemos os termos dessa proposição, que é um modelo de precisão e exatidão.
É necessário acreditar por fé divina e católica, isto é, com uma fé sobrenatural apoiada na autoridade de Deus, que revela, e naquela da Igreja, que, infalivelmente, garante a existência da revelação divina.
Tudo que está contido na palavra escrita de Deus ou transmitida pela Tradição. Isso indica as duas fontes da revelação divina, a saber, a Sagrada Escritura, que a transmite a nós pela palavra escrita, e a Tradição Católica, que a transmite a nós pela palavra escrita ou oralmente, de geração para geração. A maioria das seitas protestantes não reconhecem como pertencentes à fé nada além das verdades expressas contidas na Sagrada Escritura; mas essa doutrina é totalmente falsa e herética e, como tal, foi condenada pela Igreja (Dz. 783-784).
Essas palavras também excluem, como objeto da fé católica e divina, as revelações privadas que algumas pessoas receberam em particular. Apenas elas estão obrigadas a crer nessas revelações com fé divina se sua origem divina é conhecida por elas com toda certeza por virtude da luz profética.
E que a Igreja propõe como divinamente revelada. A proposição da Igreja é uma condição sine qua non para o assentimento de nosso entendimento ser um ato de fé divina.
A razão é que o testemunho de Deus não pode ser conhecido com certeza e infalibilidade por nós mesmos, salvo por uma luz profética (que ilumina apenas a pessoa que recebe, diretamente, a revelação divina) ou pela proposição infalível da Igreja, que, em virtude de uma assistência especial do Espírito Santo, não pode errar. Por essa razão, nas seitas protestantes que rejeitam a autoridade da Igreja, há confusão e caos reais acerca das verdades que devem ser admitidas como de fé, pois cada um deles crê ou rejeita o que eles acham conveniente, sem orientação nenhuma além daquela dos seus caprichos pessoais.
Por definição solene. É uma das maneiras – a mais clara e explícita – de propor aos fiéis as verdades da fé. Ocorre quando o Papa define, ex cathedra, algum dogma da fé ou declara-o expressamente por um Concílio Ecumênico, presidido e aprovado pelo Papa.
Ou por seu magistério ordinário e universal. É a outra maneira através de que a Igreja propõe aos fiéis as verdades que devem ser cridas com fé divina e sobrenatural. Ela consiste no ensinamento comum e universal de uma certa doutrina por todos os Bispos e Doutores espalhados pelo mundo. O ensinamento universal não pode falhar ou conter qualquer erro em razão de uma assistência especial do Espírito Santo, que não pode permitir que a Igreja inteira erre em alguma doutrina relativa a fé ou moral.
Quando a Igreja, seja por definição solene ou por seu magistério ordinário e universal, propõe aos fiéis alguma verdade como digna de crença revelada por Deus, essa verdade adquire o nome de dogma. Consequentemente, um dogma é uma verdade revelada por Deus e proposta pela Igreja como tal.
Duvidamos que se encontre uma saída a este argumento, porque simplesmente não há. Mas como a questão é da mais alta importância e tem sido nestes últimos tempos objeto de uma acalorada controvérsia, sendo além disso escassa e de pouco peso a nossa autoridade para falar definitivamente sobre ela, pedimos a nossos leitores permissão de reproduzir, em favor de nossa doutrina, um voto de mais reconhecida, para não dizer incontestável e incontestada, competência.
É o da Civiltá Cattolica, o primeiro jornal religioso do mundo, senão oficial em sua redação, ao menos em sua origem, pois foi fundado por um Breve especial de Pio IX, e por ele confiado aos Padres da Companhia de Jesus. Este jornal cujos artigos, ora em forma séria, ora em sátira, não deixam sossegar os liberais italianos, viu-se várias vezes repreendido pelos mesmos liberais por falta de caridade. Para responder a essas farisaicas homilias sobre a moderação e a caridade, a Civiltá Cattolica publicou um graciosíssimo artigo, tão pleno de humor como de profunda filosofia.
Vamos reproduzi-lo aqui para consolação de nossos liberais e desengano de tantos pobres católicos contaminados de liberalismo, que fazem coro com eles, escandalizando-se a todas as horas de nossa tão anatematizada falta de moderação. O artigo se intitula: "Um pouco de caridade!", é como se segue:
”De Maistre diz que a Igreja e os papas nunca pediram para sua causa mais do que a verdade e a justiça. Ao contrário dos liberais, os quais por um respeitoso horror que naturalmente professam à verdade e sobretudo à justiça, não fazem senão pedir-nos a caridade a todas as horas.
“Há cerca de doze anos que, por nossa parte, estamos assistindo a este curioso espetáculo dado pelos liberais italianos, que não cessam um segundo de mendigar, com lágrimas, a nossa caridade, suplicando-nos, de braços cruzados, em prosa e em verso, em folhetos e em jornais, em cartas públicas e privadas, anônimas e pseudônimas, direta ou indiretamente, que por amor de Deus tenhamos com eles um pouco de caridade; que não mais nos permitamos fazer o próximo rir à sua custa; que não nos entretenhamos em examinar tão detalhada e minuciosamente os seus sublimes escritos; que não sejamos tão pertinazes em trazer ao público suas gloriosas façanhas; que façamos vista grossa e ouvidos surdos aos seus descuidos, solecismos, mentiras, calúnias e mistificações; que, numa palavra, os deixemos viver em paz.
“Pois em última análise, caridade é caridade; e que os liberais não a tenham, é natural e compreende-se bem, mas que não a usem os escritores, como os da Civiltá Cattolica, isso é outra história.
“Justo castigo de Deus é que os liberais, que tanto aborreceram a mendicidade pública, a ponto de a proibirem em muitos países sob pena de prisão, se vejam agora forçados a tornar-se mendicantes públicos, pedindo em nome do céu, como ardilosos reacionários... um pouco de caridade!
“Com esta edificante conversão ao amor da mendicância, os liberais imitaram aquela outra não menos célebre e edificante, a do rico avarento à virtude da esmola. Este, tendo assistido uma vez ao sermão e ouvido uma exortação muito fervorosa à prática da esmola, de tal modo se comoveu, que chegou a ter-se por verdadeiramente convertido. Em verdade, fora tão fortemente tocado pelo sermão, que dizia ao sair da Igreja: É impossível que esses bons cristãos que o ouviram não me dêem de vez em quando alguma coisa por caridade.
Assim os nossos sempre estupendos liberalaços, depois de haverem demonstrado (cada um segundo os seus meios), por atos e escritos, que têm à caridade o mesmo amor que o diabo tem à água benta; quando depois, ouvindo falar em caridade, voltam a si e se recordam que há no mundo algo que se chama a virtude da caridade e que esta pode em certas ocasiões ser-lhes proveitosa, mostram-se de repente furiosamente enamorados dela e vão pedi-la com gritos ao papa, aos bispos, ao clero, aos frades, aos jornalistas, a todos... até aos redatores da la Civiltá!
“E é preciso ouvir as belas razões que sabem aduzir em seu favor! Se neles crermos, teríamos de pensar que não falam por interesse próprio. Santo Deus, não! Se assim falam, é com o interesse de nossa santíssima religião, que eles têm no íntimo do coração e que por certo sairá muito prejudicada de nossa maneira tão pouco caridosa de defendê-la. Falam no interesse dos próprios reacionários e, especialmente (quem o acreditará?) em nosso próprio interesse, no interesse dos redatores da Civiltá Cattolica.
“Que necessidade tendes — dizem, em tom confidencial — de meter-vos nessas querelas? Não tendes já bastantes hostilidades para enfrentar? Sede tolerantes e vossos adversários o serão convosco. Que ganhais com esse triste ofício de cães ululando sempre aos ladrões? E se no final saís batidos e golpeados, a quem dareis a culpa, senão a vós mesmos e a esta indomável obstinação que tendes em procurar as pancadas?
“Sábia e desinteressada maneira de discorrer, cujo único defeito é o de assemelhar-se muito àquela que o comissário de polícia recomenda a Renzo Tramaglino no romance Os noivos, quando tentava levá-lo à prisão persuadindo-o, presumindo que, se usasse de força, o jovem não se deixaria conduzir. ’Creia-me, dizia Renzo, tenho prática nessas coisas. Caminha devagarinho e sempre adiante, sem ir de um lado para o outro, e sem que o notem. Assim, ninguém nos reparará, ninguém advertirá o que se passa, e conservarás portanto tua reputação.’ Mas aqui observa Manzoni que Renzo não acreditava em nenhuma de suas belas razões. Não podia acreditar que o comissário o estimasse, que se interessasse por sua honra e reputação, ou tivesse verdadeira intenção de favorecê-lo. De sorte que tais exortações só serviram para confirmá-lo no desígnio já pré-concebido de portar-se inteiramente ao contrário do que lhe foi aconselhado.”
“Este desígnio, falando com franqueza, nós também estamos muito tentados a formá-lo; porque não podemos persuadir-nos de que os liberais se importem pouco ou muito com o dano que possamos causar à religião, ou que se preocupem com o que possa nos convir. Cremos, ao contrário, que se os liberais julgassem verdadeiramente que o nosso modo de agir prejudicava à religião ou pelo menos a nós mesmos, não somente se guardariam de nos advertir, porém ainda nos incentivariam com aplausos.
“Consideremos que mostrarem-se zelosos conosco, rogar-nos que modifiquemos o nosso estilo, são sinais claros de que a religião nada perde com isso, e que os nossos escritos têm alguns leitores, o que para um escritor não deixa de ser sempre uma consolação.
“No que diz respeito a nossos interesses e ao princípio utilitário, visto que os liberais têm sido com justa razão considerados sempre como mestres neste ponto, e têm fama de haver aplicado sempre este princípio muito mais em proveito próprio do que em nosso favor, é preciso que nos permitam crer, como temos crido até hoje, que em toda controvérsia sobre nosso modo de escrever contra eles, não somos nós os que saem mais prejudicados, nem tampouco é a religião.
“Por conseguinte, havendo manifestado esta nossa pobre opinião, e supondo que as razões que poderíamos chamar intrínsecas e independentes do princípio utilitário, que alegam os liberais em favor próprio e contra nosso modo de escrever, têm sido já muitas vezes refutadas nas séries passadas da Civiltá Cattolica, só nos restaria aqui despedir com bons modos esses mendigos de nova espécie, aconselhando-os que cumpram daqui em diante o seu ofício de advogados em causa própria, melhor do que faziam com Renzo aqueles esbirros do século XVII.
“Mas, porque muitos entre eles continuam a mendigar, e recentemente publicaram em Perusa um opúsculo intitulado: Que é o partido chamado católico?, que consagraram inteiramente a mendigar à Civiltá Cattolica um pouco de caridade, não será inútil repetir mais uma vez, no princípio desta quinta série, as mesmas antigas respostas contra as mesmas antigas objeções. E será isto também grande caridade, não certamente aquela que os liberais imploram de nós, mas outra bastante meritória: a caridade de escutá-los com paciência pela centésima vez.
Do resto, o tom humilde e queixoso com que, desde algum tempo, eles andam nos pedindo um pouco de caridade, não merece menos.”