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Category: Gustavo CorçãoConteúdo sindicalizado

Mauriac e seus críticos

Há alguns meses Otto Maria Carpeaux publicou no livro "Origens e Fins" um ensaio intitulado "Mauriac?". O presente estudo pretende responder àquela interrogativa, procurando, ao mesmo tempo, organizar e arrumar o que o ensaísta deixou em erro e desordem ao longo de 13 páginas. Devo notar que nesse meio tempo esse autor tem sido atacado de um modo quase sempre injusto e mesquinho. De todos os desvãos literários surgiram libelos, ironias, sarcasmos e injúrias contra o mesmo Carpeaux que poucos meses atrás desfrutava confortavelmente as inalações dos incensos em que nossa crítica é por vezes desperdiçada. Agora tornou-se alvo dos pequeninos dardos de papel com que alguns publicistas cruzam nossos ares intelectuais.

Do cientificismo às sociétés de pensée

O Cientificismo
Com o objetivo de apontar, na bacia hidrográfica a que nos referimos atrás, os principais afluentes que convergem todos na caudalosa Revolução que faz de nosso século um estuário de contestações e recusas, comecemos por este “ismo” que, no livro anteriormente citado (Dois Amores, Duas Cidades, Agir, 1967), foi apontado como uma das primeiras conseqüências da poluição nominalista. Cremos que vale a pena transcrever algumas linhas dessa obra:

Contra o Evolucionismo dos evolucionistas

“Parece-nos indispensável marcar bem a intolerância em relação à Evolução dos evolucionistas, que tira o mais do menos, que faz passar a potência ao ato sem nada que esteja em ato, o que consiste precisamente em ser um processo autocriador que torna sub-repticiamente aceitável a criação “ex-nihilo” sem um Deus Todo Poderoso, desde que essa criação se torne infinitesimal e suficientemente lenta para que as inteligências tardas não percebam o mecanismo do absurdo, e fiquem, de tantos em tantos metros, ou de tantos em tantos séculos, diante de uma situação de fato.
 
É preciso denunciar a absoluta inaceitabilidade do evolucionismo dos racionalistas e dos empiristas”.
 
Gustavo Corção

Preceito e amor

 

O drama religioso de nosso tempo consistindo essencialmente numa infiltração vinda das correntes de anarquismo revolucionário, apresenta diversos aspectos de desordem entre os quais destacaria dois de incalculáveis conseqüências: 1°) negação do princípio de autoridade por aqueles que deveriam exercê-la para a proteção dos fiéis e salvação das almas: essa negação é feita em nome de uma falsa bondade como se viu no caso da Espanha, e em tantos outros; 2°) negação de obediência à santa doutrina e à tradição: essa recusa é praticada em nome de uma evolução e de reformas que pretendem transformar a Igreja Católica em “outra”. Nesta atmosfera poluída de erros, as mais extravagantes idéias surgem ou ressurgem nas mais variadas circunstâncias. Assim é que a contestação do preceito é feita em torno da missa dominical por um bispo, ou é retomada como “contrária” ao “puro amor de Deus” ou em nome da dignidade do homem.

A esperada renovação

O mundo moderno nos oferece, em todos os seus variadíssimos quadros, um espetáculo de assustador envelhecimento, como se a humanidade houvesse esgotado toda a alegria de viver e toda a esperança de progredir. Um ceticismo profundo, atacando as raízes das mais adiantadas e orgulhosas culturas, manifesta-se à superfície dos acontecimentos de um modo paradoxal que desnorteia os observadores e que os leva a ver, nessas mesmas manifestações profundas do abatimento e da descrença, sinais de vitalidade e ânimo.

Implicações do Evolucionismo

O século XIV foi o sombrio e tumultuoso século da peste negra, da guerra de cem anos e da fragorosa ruína da civilização cristã. Nosso bravo século XX, em lugar da sombria nuvem pestífera que pairou cem anos sobre a cristandade agonizante, está sendo flagelado por uma outra nuvem, não menos sombria: a da estupidez satisfeita e otimista. Os físicos, matemáticos, biólogos e astrônomos que operam no nível de saber mais acessível e mais próprio para os trabalhos coletivos, e também para o efeito acumulativo dos resultados, por seus sucessos dificultam a exata apreciação do imenso progresso da burrice humana nas coisas que concernem a vida espiritual.

Catarina de Sena

No dia 30 de abril a Igreja comemora a festa de Santa Catarina, que viveu numa das épocas mais perturbadoras da história do Ocidente tanto para o mundo, que nos fins do século XIV se despedia da civilização medieval e preparava os critérios de uma nova civilização, como para a Igreja, que sofria a divisão, o cisma, a crise do papado, e já começava a sentir as aflições que cem anos mais tarde produziriam a Reforma.

Desagravo

Na semana atrasada o hebdomadário O Pasquim apareceu nas bancas ostentando na capa uma figura convencional de Jesus Cristo, e em letras garrafais o anúncio: Jesus é a Salvação. Mas logo na página 2 descobre-se a chave da pilhéria. Ao lado de outra figura convencional anuncia-se que o humour deve ter nascido da graça divina. E à esquerda, abaixo, lê-se uma entrevista com o padre Ítalo Coelho sobre o movimento turn on to Jesus, surgido nos Estados Unidos entre hippies. O Pasquim pergunta: “A revolução com Jesus pode ser levada a sério?”. E o padre Ítalo, agachado, responde com todo respeito (pelo O Pasquim): “Acho que ela encerra algo de existencial muito profundo (...) Acho que esse novo encontro com Jesus é a única busca válida”. (Grifo nosso).  

 

A voz dos Papas canonizados

A Igreja — diz Santo Agostinho — peregrina no mundo entre as aflições dos homens e as consolações de Deus. Nos dias que correm tornaram-se tão graves e cruéis as aflições trazidas pelos homens que mais imperiosa do que nunca se tornou a procura das consolações de Deus.

As aflições dos homens e as consolações de Deus

[TRANSCRIÇÃO DE AULA DE 06/10/1975] Hoje, vou falar a propósito de um tema sobre o qual escrevi ultimamente em um artigo1, o problema da Santa Missa e do Pontificado — dois problemas interligados.

  1. 1. [N. da P.]Corção refere-se ao artigo “A voz dos Papas canonizados”
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