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Está bem, dirá alguém ao chegar aqui. Tudo isto é facílimo de compreender, e basta apenas folhear a história para tê-lo por averiguado. Mas o delicado e espinhoso é expor a conduta que deve observar, para com tais ministros da Igreja desviados, o fiel leigo, tão santamente zeloso da pureza de sua fé como dos direitos legítimos da autoridade.
É indispensável estabelecer aqui várias distinções e classificações e responder diferentemente a cada uma delas.
1° - Pode ocorrer que um ministro da Igreja seja publicamente condenado por ela como liberal; neste caso, bastará recordar que todo fiel eclesiástico ou leigo, a quem a Igreja separou do seu seio, deixa de ser católico (quanto ao direito de merecer tal consideração), até que, por meio de uma verdadeira retratação e um formal arrependimento, faça-se outra vez admitido à comunhão dos fiéis. Quando isto ocorre com um ministro da Igreja, trata-se de um lobo; não é pastor, nem sequer ovelha. É necessário evitá-lo, e sobretudo rezar por ele.
2° - Pode dar-se o caso de um ministro da Igreja, caído na heresia, mas sem ter sido ainda oficialmente declarado culpável pela Igreja. Neste caso é preciso agir com maior circunspecção. Um ministro da Igreja caído em erro contra a fé não pode ser oficialmente desautorizado senão por quem tenha sobre ele jurisdição hierárquica. Entretanto, no terreno da polêmica puramente científica, pode ser combatido por seus erros e condenado por eles, deixando sempre a última palavra, ou seja, ou a sentença definitiva à única autoridade infalível do Mestre Universal. A grande regra, a única regra em tudo, estamos a dizer, é a prática constante da Igreja de Deus, segundo aquele adágio de um Santo Padre: Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus . Pois bem, assim se procedeu sempre na Igreja de Deus. Simples fiéis perceberam num eclesiástico doutrinas opostas às que comumente se ensinaram como as únicas sãs e verdadeiras; deram o grito de alarme contra elas em seus livros, de viva voz e em seus folhetos, pedindo assim ao magistério infalível de Roma a sentença decisiva. São os latidos do cão que advertem o pastor. Não houve heresia no catolicismo que não tenha começado a ser confundida e desmascarada desta maneira.
3° - Pode dar-se o caso de que o infeliz extraviado seja um ministro da Igreja ao qual estamos particularmente subordinados. É preciso então proceder com temperança e discrição ainda maiores. Deve-se respeitar sempre nele a autoridade de Deus, até que a Igreja o declare deposto dela. Se o erro é duvidoso, deve-se chamar a atenção dos superiores imediatos, a fim de que peçam ao suspeito explicações claras. Se o erro é evidente, nem por isto é lícito colocar-se em rebeldia aberta, mas é preciso contentar-se com a resistência passiva à autoridade, nos pontos em que ela se coloca manifestamente em contradição com as doutrinas reconhecidas como sãs pela Igreja. Deve-se, porém, conservar por ela todo respeito exterior que lhe é devido, obedecer-lhe no que não pareça doutrina condenada ou danosa, resistir-lhe pacífica e respeitosamente no que se aparte do sentimento comum católico.
4° - Pode dar-se o caso (e é o mais comum) de que o extravio de um ministro da Igreja não verse sobre pontos concretos de doutrina católica, mas sobre certas apreciações de fatos ou pessoas ligadas mais ou menos com ela. Neste caso, a prudência cristã aconselha olhar com prevenção para esse padre contagiado de liberalismo, preferir aos seus conselhos os de quem não tenha tais contágios, e de recordar esta máxima do Salvador: “Um pouco de levedura faz fermentar toda a massa”. Por conseguinte, uma prudente desconfiança é neste caso a regra de maior segurança; e neste ponto, como em tudo, pedir luz a Deus, conselhos a pessoas dignas e de fé íntegra, procedendo sempre com grande reserva contra quem não julga muito retamente ou não fale muito claro sobre os erros da atualidade.
E eis tudo o que podemos dizer sobre este ponto, cheio de inumeráveis dificuldades, e impossível de resolver em tese geral. Não esqueçamos uma observação que derrama torrentes de luz: conhece-se melhor o homem por suas afeições pessoais, do que por suas palavras e seus escritos. Ser amigo de liberais, mendigar seus favores e louvores é, regularmente falando, para um padre, prova mais que duvidosa de ortodoxia doutrinal.
Que nossos amigos reparem neste fenômeno, e verão quão segura norma e quão infalível critério lhes dá.
“Eu sou o Bom Pastor, conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem. E dou a minha vida pelas minhas ovelhas” Evangelho.
Paramentos brancos
Diz-nos São Pedro na Epístola que Jesus é o pastor das nossas almas, perdidas tantas vezes pelos atalhos da vida, errando longe do redil. E que o Senhor veio dar a vida por elas e agregá-las à sua volta, não duvidando para o fazer, como o Evangelho acentua, deixar no deserto as noventa e nove e ir por moitas e algares à procura da desgarrada que se perdera.
Lembremo-nos que os sacerdotes são os legítimos continuadores desse pastor divino e sejamos dóceis à sua palavra e rezemos por eles para que sejam dignos do seu ministério.
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Irmãs da Fraternidade São Pio X
"Mamãe, o Lucas me empurrou!" "Professor, o Vianney está me copiando!" "Mamãe, Joana pegou meu livro!" Como devemos responder a tais acusações? Devemos encorajá-las endossando-as, ou tirar partido dessas informações recém-descobertas? Será que o acusador é movido por um senso de justiça, pelo desejo de ver o triunfo de tudo o que é bom e verdadeiro? Ou será egoísmo e amor-próprio o que inspira tais comentários?
Infelizmente, a última hipótese é mais frequente. Se completássemos as acusações mencionadas, ouviríamos: "Lucas não me empurrou de propósito, mas, não estou pronto para perdoar essa leve falta de respeito involuntária." "Vianney me copiou, e como ele não é legal, resolvi puni-lo." "Joana pegou meu livro porque fui egoísta e não queria emprestar."
Portanto, podemos interromper o acusador dizendo "Eu não escuto dedo-duro." A criança entenderá que não é correto dizer tais coisas e, em seguida, não dará continuidade à acusação. No entanto, quando essas acusações seguem ocorrendo diariamente, é preciso parar e se dedicar a fazer com que a criança reflita sobre a moralidade dos seus atos.
Por exemplo, ao ouvir uma acusação, podemos responder: "Você acabou de me dizer que Cecilia trapaceou no jogo. Trapaceou mesmo? O que ela fez?” Ao fazer mais perguntas e se aprofundar um pouco mais, a mãe descobre que Cecília não tinha realmente trapaceado: "Só um pouco, mãe, porque ela soprou os dados para que desse um seis e seu cavalo pudesse avançar..."
"Mas isso não é trapaça, você sabe disso! Você está acusando a Cecilia de ter trapaceado quando ela não o fez. Disse coisas que não são verdadeiras, você sabe qual é o nome disso?”
"Mentira..."
"Você precisa perceber que mentiu. Será que fez isso porque a Cecilia estava ganhando o jogo?"
"Sim, mamãe..."
"Será que você estava com um pouco de ciúmes e procurou se vingar dela?"
"Um pouco..."
"Ora, esse é o tipo de mentira que chamamos de calúnia. Calúnia é dizer uma mentira sobre alguém a fim de causar-lhe algum dano; para puni-lo, por exemplo. Isso é pecado." E com ar de gravidade, a mãe conclui: "Nunca mais quero ouvir você dizer essas coisas novamente." Finalmente, em tom mais suave, acrescenta: "Que tal você correr e retomar o jogo com Cecilia, não se esqueça de estar de bom humor e de ser caridosa com sua irmã."
Aqui vai outra história:
Alice volta para casa toda agitada. "Mamãe, Maria não tem mais sua caneta rosa porque a Ana roubou dela. Todas as meninas têm certeza de que foi a Ana, porque ela ama canetas cor-de-rosa!” "Lá vamos nós de novo", suspira a mãe. Agora uma história de roubo na escola... e se for verdade? Por prudência, ela se limita a dizer: "Eu não escuto dedo-duro." No entanto, procurará conversar com a professora. A freira conhece bem os alunos de sua turma e esclarecerá rapidamente a situação. "Maria certamente perdeu sua caneta em algum lugar, não será a primeira vez que perde os seus pertences. Quanto à Ana, é uma mocinha passando por um surto de crescimento, bastante desajeitada, e, portanto, não é muito querida pelas suas colegas de classe. Mas não é nenhuma ladra. Talvez a Alice precise de uma lição sobre o respeito devido à reputação dos outros”.
Naquela mesma noite, a mãe chama Alice: "Filha, ontem, você disse que Ana tinha roubado a caneta da Maria. Você a viu fazer isso?”
"Não mamãe, mas Ana gosta muito de canetas cor-de-rosa."
"Isso não é razão para acusá-la! Você também gosta de canetas cor-de-rosa, mas isso não significa que está pronta para roubá-las. Você acusou a Ana de ser uma ladra sem motivo. Você sabe como isso é chamado?”
"Não, mamãe".
"Julgamento temerário, que é algo que não se deve fazer. Todas as meninas da escola estão dizendo que a Ana é ladra. Você gostaria que todos estivessem te chamando de ladra, mesmo que não seja verdade?
"Eu não sou ladra!"
"Você não percebe? A Ana também não é. Você se comportou mal com ela. Amanhã, irá se entender com a Ana, dirá que ela não é ladra e, em seguida, vai brincar com ela no recreio”.
O oitavo mandamento nos proíbe revelar qualquer mal cometido por outro sem justa causa. No entanto, há quatro casos em que uma criança não só pode, mas deve dizer que testemunhou um pecado. Esses casos não são "inúteis" quando conhecidos, porque permitem que os adultos acabem rapidamente com o grave escândalo em questão. São eles: blasfêmia, crueldade, sabotagem e impureza.
Por exemplo, quando o Alan voltou para casa do internato, disse: "Mãe, estou um pouco enojado com o que o Luís fez. Ele descobriu uma maneira de levar seu celular para a escola e, em seguida, passou a visitar certos sites à noite com outros meninos do dormitório. Para dizer o mínimo, os sites eram muito vulgares..."
Algumas perguntas garantem à mãe a gravidade do que aconteceu. "Alan, você fez a coisa certa falando comigo porque isso é muito sério e é considerado um escândalo. Ou seja, algo que incita os outros a pecar também. Agora que falou comigo sobre isso e cumpriu seu dever, gostaria que esquecesse e não falasse mais da situação com os outros. E lembre-se, evite as más amizades como quem evita a peste." De agora em diante, a mãe de Alan tem o desagradável dever de ir à escola, sem que o filho esteja presente. Ela deve apresentar as informações recebidas ao diretor da escola, e deixá-lo lidar com o problema.
A língua é uma pequena parte do nosso corpo, mas pode acender um grande fogo! Na epístola de São João, lemos "Se um homem não peca na palavra, ele é perfeito." É essa perfeição que queremos e buscamos para nossos filhos.
(The Angelus, março de 2021)
Por desgraça, é muito comum que se encontrem eclesiásticos contaminados de liberalismo, o qual se favorece em grande medida deste fato. Nestes casos, a singular teologia de certa gente converte em argumento de grande peso a opinião ou os atos de tal ou qual eclesiástico; disto tivemos experiências deploráveis em todos os tempos na Espanha católica. Convém, pois, tratar deste ponto ressalvando todos os respeitos, e perguntar com sinceridade o seguinte: Pode haver ministros da Igreja manchados de liberalismo?
Sim, amigo leitor, sim, infelizmente pode haver também ministros da Igreja que sejam liberais exaltados, liberais moderados ou eivados de liberalismo, exatamente como entre os leigos. Não está isento o ministro de Deus de pagar o miserável tributo à fraqueza humana, e por conseguinte, várias vezes o tem pago ao erro contra a fé.
E que tem isto de extraordinário, se não houve jamais uma única heresia na Igreja de Deus que não tenha sido criada ou propagada por um eclesiástico? Mais ainda, é historicamente certo que, se desde o começo não houvesse clérigos a seu serviço, em nenhum século as heresias teriam causado problemas ou se desenvolvido.
O clérigo apóstata é o primeiro fator que busca o diabo para realizar sua obra de rebelião. Necessita apresentá-la com aparência de autoridade aos olhos dos incautos, e para isso nada lhe serve tanto como a firma de um ministro da Igreja. E como infelizmente nunca faltam nela clérigos corrompidos em seus costumes, corrupção por onde mais comumente a heresia caminha; ou cegos de soberba, causa também muito freqüente de todo erro; daí que a este último, sob todas as formas e em todas as manifestações, nunca lhe tenham faltado apóstolos e fautores eclesiásticos.
Judas, que começou em seu próprio apostolado a murmurar e a semear suspeitas contra o Salvador, e acabou por vendê-lo a seus inimigos, é o primeiro tipo do sacerdote apóstata e semeador de cizânia entre seus irmãos. Ora, notai bem, Judas foi um dos doze primeiros sacerdotes ordenados pelo próprio Redentor.
A seita dos Nicolaítas originou-se com o diácono Nicolau, um dos sete primeiro diáconos ordenados pelos Apóstolos para o serviço da Igreja, e companheiro de Santo Estêvão, protomártir.
Paulo de Samosata, grande heresiarca do século III, foi bispo de Antioquia.
Novaciano, padre de Roma, foi o pai e fundador do cisma dos Novacianos, que tanto perturbou a Igreja universal.
Melécio, Bispo de Tebaida, foi autor e chefe do cisma dos Melecianos.
Tertuliano, também sacerdote e eloqüente apologista, cai na heresia dos Montanistas e nela morre.
Entre os Priscilianistas espanhóis, que causaram tanto escândalo em nossa pátria no século IV, figuram os nomes de Instâncio e Salviano, dois bispos, desmascarados e combatidos por Higínio, e condenados em um concílio reunido em Saragoça.
De todos os heresiarcas que teve a Igreja, Ário talvez tenha sido o principal. O Arianismo chegou a arrastar consigo tantos reinos como o Luteranismo o fez hoje; Ário era um padre de Alexandria, ressentido de não ter alcançado a dignidade episcopal. Esta seita teve um clero tão numeroso que por muito tempo, em grande parte do mundo, não houve outros bispos e sacerdotes senão os arianos.
Nestório, outro famoso herege dos primeiros séculos da Igreja, foi monge, padre, bispo de Constantinopla e grande pregador. Dele procedeu o Nestorianismo.
Eutiques, autor do Eutiquianismo, era padre e abade de um monastério de Constantinopla.
Vigilâncio, o herege taberneiro tão elegantemente satirizado por São Jerônimo, fora ordenado sacerdote em Barcelona.
Pelágio, autor do Pelagianismo, objeto de quase todas as polêmicas de Santo Agostinho, era monge, e doutrinado nos erros sobre a graça por Teodoro, bispo de Mopsuesta.
O grande cisma dos Donatistas chegou a contar com grande número de clérigos e bispos. Deles diz um historiador moderno (Amat, Hist. de la Iglesia de J. C.): “Todos imitaram logo a altivez de seu chefe Donato. Possuídos de uma espécie de fanatismo de amor-próprio, não houve evidência, nem obséquio, nem ameaça que pudesse apartá-los do seu ditame. Os bispos acreditavam-se infalíveis e impecáveis; e os fiéis que seguiam estas idéias se imaginavam seguros, seguindo os seus bispos mesmo contra toda evidência.”
Sérgio, Patriarca de Constantinopla, foi o pai e doutor dos hereges Monotelistas.
Félix, bispo de Urgel, foi dos Adopcianos.
Constantino, bispo de Natólia; Tomás, bispo de Claudiópolis e outros prelados combatidos por São Germano, patriarca de Constantinopla, caíram na seita dos Iconoclastas.
Do grande cisma do Oriente não precisamos nomear os autores, pois é sabido que o foram Fócio, patriarca de Constantinopla, e seus bispos sufragâneos.
Berengário, o perverso detrator da Sagrada Escritura, foi arcediago da Catedral de Angers.
Wicliffe, um dos precursores de Lutero, era pároco na Inglaterra.
João Huss, seu companheiro de heresia, era também pároco na Boêmia. Os dois foram condenados e executados como chefes dos Wiclefitas e Hussitas.
De Lutero basta recordar que foi monge agostinho de Wittemberg.
De Zuínglio, que foi pároco de Zurique.
De Jansênio, bispo de Iprés, que foi autor do maldito Jansenismo.
O cisma anglicano, promovido pela luxúria de Henrique VIII, foi principalmente apoiado pelo seu favorito, o arcebispo Cranmer.
Na Revolução francesa, os mais graves escândalos na Igreja de Deus foram dados pelos padres e bispos revolucionários. As apostasias que afligiram os homens de bem naqueles tristíssimos tempos causam espanto e horror, e a Assembléia Francesa testemunhou cenas que o leitor pode ler em Henrion ou qualquer outro historiador.
O mesmo sucedeu depois na Itália. Conhecidas são as apostasias públicas de Gioberto, de frei Pantaleão, de Passaglia, e do Cardeal Andrea.
Na Espanha, houve padres nos clubes da primeira época constitucional; padres nos incêndios dos conventos; padres ímpios nas Cortes; padres nas barricadas; padres entre os primeiros introdutores do protestantismo depois de 1869. Sob o reino de Carlos III, houve bispos jansenistas em abundância (veja-se sobre isto o tomo III dos Heterodoxos de Menéndez Pelayo). Muitos deles pediram em suas cartas pastorais a iníqua expulsão da Companhia de Jesus, e muitos a aplaudiram. Hoje mesmo, em várias dioceses espanholas, são conhecidos publicamente alguns padres apóstatas e casados após sua apostasia, como é lógico e natural.
Está portanto constatado que, desde Judas até o ex-padre Jacinto, a raça dos ministros da Igreja traidores de seu Chefe e vendidos à heresia se sucede sem interrupção; que, ao lado e diante da tradição da verdade, há também na sociedade cristã a tradição do erro; que, em contraste com a sucessão apostólica dos ministros bons, o inferno possui uma sucessão diabólica dos ministros pervertidos, o que não deve escandalizar ninguém. Recorde-se a este propósito a sentença do Apóstolo, que não se esqueceu de prevenir-nos: É preciso que haja heresias, para que se manifeste quem são entre vós os verdadeiros fiéis.
D. José Pereira Alves
Conferência realizada no Círculo Católico do Rio de Janeiro
Eminência
Exmo. e Revmos. Senhores
Minhas Senhoras,
Senhores.
O Exm°. Sr. Dr. Moreira da Fonseca acaba de ler a esta douta assembleia o seu magnífico trabalho em que nos deu a certeza da morte real de Jesus Cristo.
Cabe-me a honra de oferecer ao vosso elevado espírito, a consideração das provas da Ressurreição do Divino Salvador.
O SEPULCRO VAZIO
O túmulo, em que jazia o corpo de Jesus Cristo exânime, fora encontrado vazio. Eis um fato verificado pelos apóstolos, por Santa Maria Madalena, pelas santas mulheres e pelos discípulos. “Alguns dos nossos foram ao sepulcro, escreve S. Lucas, e acharam todas as coisas como as mulheres o tinham dito”
Esta mesma verificação foi feita pelos inimigos de Cristo. Não pode haver dúvida. Os guardas do túmulo não podiam deixar de comunicar os acontecimentos da noite aos seus chefes.
Os príncipes dos sacerdotes e anciãos que tinham espalhado pelo povo a notícia do furto do corpo, foram com toda a certeza e, com eles os habitantes de Jerusalém, examinar o sepulcro de onde desaparecera o corpo do Crucificado.
São milhares de testemunhas — as próprias testemunhas da morte — que podem ver e percorrer o túmulo do Cristo vazio.
O corpo de Jesus não está mais ali.
Que era feito, pois, do corpo de Jesus Cristo?
APARIÇÕES
Santa Maria Madalena volta ao Jardim de novo deserto, com o espírito agitado por mil pensamentos. O Divino Mestre morrera.
Havia só no meio de sua confusão mental um ponto evidente e desesperador. O túmulo estava vazio. Mais uma vez ela percorre com o olhar indagador o interior do sepulcro e certifica-se da sua desgraça. Não estava mais ali. Ela viu então dois anjos, dois enviados de Deus, vestidos de um manto branco, assentados um à cabeceira, outro no pé do túmulo no qual o Senhor repousara.
“Mulher, disseram os anjos, porque tu choras? ” — “Porque, respondeu ela, levaram o meu Senhor e eu não sei onde o puseram”
Subitamente, a um sinal ou ruído, Santa Maria Madalena se voltou e viu um homem de pé que lhe perguntou também: “Mulher, porque tu choras? A quem procuras? ” E ela pensando que falava ao jardineiro respondeu: “Se foste tu que o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o levarei comigo”
“Maria”, disse o homem. Aquela voz tinha o timbre divino do Mestre e Santa Maria Madalena, sacudida nas profundezas da alma por aquele mistério de doçura e amor, reconheceu Jesus e gritou, lançando-se aos seus pés: “Rabboni! Ó meu Senhor! ”
Foi a primeira visão de Cristo.
Ela disse aos apóstolos: “Vi o Senhor”
É assim que Santa Maria Madalena, depois de receber a mensagem divina se tornou apóstola da Ressurreição.
EMAÚS
Há na minha catedral um pequeno e velho quadro onde certamente pousou a mão de um grande artista. A noite desce. Os dois discípulos de Emaús, atraídos pelo encanto misterioso do desconhecido que lhes revelava durante o caminho os segredos das Escrituras sobre o Cristo, insistem com o viandante para descansar e parecem dizer: “Já anoitece, fica conosco”
O peregrino daquela tarde primaveril florida e bafejada pela brisa perfumada da Palestina, tem o ar complacente de uma terna condescendência. Há por toda a cena, inspirada no Evangelho, uma cor natural, uma harmonia, todo um perfume cristão de sentimento, amor e de paz silenciosa que a alma se sente enlevada pelo êxtase da fé e pela sublime poesia do Evangelho.
É verdadeiramente cheio de emoções o episódio de Emaús. Durante toda a viagem, os dois discípulos são subjugados pelas palavras ardentes do inesperado interlocutor, mas não o conhecem. Sentam-se à mesa para a refeição frugal da noite. “No fim da ceia, escreve conhecido autor, Jesus ressuscitado, livre das tristezas da Quinta-feira Santa, longe da presença importuna de Judas, numa intimidade mais estreita, no meio do silêncio mais profundo e mais puro dos campos renovou o mistério da Ceia. “Tomou o pão, benzeu-o, rompeu-o e ofereceu-o aos discípulos”. Seus olhos se abriram. Mas Jesus desapareceu. Ainda não era hora do Céu, comenta um ilustre escritor. Quando eles, em transportes de alegria, voltaram para anunciar aos apóstolos a maravilha de que foram testemunhas oculares, souberam, antes de abrirem a boca, que o Salvador aparecera a Pedro.
APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS
Os apóstolos, ouvindo a narrativa emocionante de Emaús, discutiram com calor os últimos estranhos acontecimentos. As portas da casa estavam cuidadosamente fechadas por medo dos judeus.
Naquelas horas de ânsia e de inquietações, Jesus aparece de pé no meio deles, dizendo: “A paz seja convosco, sou eu, não tenhais medo! ”
Foi um momento de espanto para todos. Que seria? Perguntavam interiormente a si mesmos. Um fantasma? Um espírito? Teriam sido vítimas de uma alucinação? Estavam vendo e, de medo, não ousavam proferir uma palavra. Então o Senhor lhes falou: “Por que vos perturbais. Por que todos esses pensamentos que se elevam em vossos corações”
“Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo: apalpai, examinai, os espíritos não têm carne, nem ossos. Vós vedes que eu tenho”.
E mostrou-lhes as mãos e os pés. Era bem uma evidência sensível para as testemunhas atônitas daquele espetáculo. E para dar-lhes uma prova fulminante da realidade pediu de comer e comeu com eles. Era demais. Os corações dos apóstolos saltavam de transbordamento, de imensa e inefável alegria. Foi, na frase de notável pensador, o primeiro Aleluia da Igreja. Nele se condensava todo o gáudio católico da universal festa da Páscoa que ainda hoje agita as almas e os sinos dos nossos campanários.
E Jesus, que atravessou a vida e a morte dando-se à humanidade, pensando nas circunstâncias vindouras, convivas da régia mesa pascoal, comunica ao sacerdócio, representado na culminância pontifical dos apóstolos, o privilégio divino, o poder, reservado ao Altíssimo, a faculdade suprema de perdoar: “A paz seja convosco! Como meu Pai me enviou, eu vos envio”. E, soprando sobre eles, acrescentou:
— “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos”
Só Deus poderia restituir à matéria a glória e a liberdade da vida. Só um Deus pode atribuir a si e delegar a outros o poder sublime de restituir ao pecador a glória e liberdade do espírito, a ascensão sobrenatural para o Infinito.
As belas e empolgantes cenas da Ressurreição não deviam terminar em Jerusalém com a aparição de Cristo a São Tomé. As aparições hierosolimitanas destinadas à demonstração absoluta da ressurreição deviam suceder no plano divino as aparições da Galileia, destinadas à configuração definitiva da Igreja e ao supremo legado das palavras e da benção do Salvador.
A poesia, o esplendor e a paz do país da Galileia onde se refugiava a caravana apostólica, banhada de alegrias e de esperanças ofereciam uma moldura rica, florida, luminosa a esse último quadro da vida messiânica de Jesus.
As margens do Lago de Genesaré, de águas tão puras, Simão Pedro, o velho pescador, com saudades do mar, disse: “Eu vou pescar”. Os outros disseram: “Vamos contigo” e a barca de Pedro, a barca simbólica, vogou sobre a água durante a noite profunda.
Nada fizeram. As primeiras horas da manhã, um desconhecido lhes grita da praia: “Meus rapazes, tendes alguma coisa? ” “Não”, respondem. E o desconhecido ajuntou: “Lançai a vossa rede à direita da barca e achareis”
Uma nova pesca milagrosa. As redes estavam pesadas. “É seguramente o Senhor”, disse João a Pedro.
Era realmente Jesus. Eles não se atreviam, entretanto, a pergunta-lo, sabendo que era o Senhor. Só depois que Jesus lhes distribuiu o pão e o peixe, puderam aproximar-se e gozar da divina intimidade do Ressuscitado.
Os primeiros raios começaram a dourar as montanhas e iluminar aquele paraíso de recanto galileu enquanto Jesus, na plenitude da vida imortal e cheio de celestial doçura tomava parte no repasto frugal dos apóstolos, à beira do lago tranquilo e azul.
Como tudo isto é admirável de simplicidade! Nenhum artifício nessas narrativas evangélicas.
A beleza se irradia límpida e tocada da graça divina dessas páginas de verdade, de vida, de amor e de paz — promessas do Natal hoje transfiguradas numa realidade histórica, testemunhada e sentida por milhões de almas erguidas para o céu pela virtude divina do Redentor que, ressurgindo dentre os mortos e abandonando a solidão do seu túmulo, freme, palpita, esplende na vida para não morrer mais.
Nas diferentes aparições da Galileia o Salvador a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, não só cria o poder supremo da Igreja instituindo, solene, o papado, mas faz profecias de glória; projeta as grandes linhas da sua obra divina através dos séculos e anuncia o Espírito, o Paráclito que lhes há de ensinar toda a verdade.
É impossível nos limites deste modestíssimo trabalho a particularização desse grandioso período da Ressurreição.
Finalmente sobre um pequeno monte vizinho do Lago de Genesaré Nosso Senhor aparece a mais de quinhentos galileus.
São testemunhas das quais muitas viviam no tempo de São Paulo, segundo a sua própria afirmação. O Salvador faz um discurso público aos onze apóstolos: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, ensinai a todos os povos, pregai a toda criatura. Batizai os homens em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que eu mandei. Aquele que crer, e for batizado será salvo. Aquele que não crer será condenado. Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”
Jesus Ressuscitado dirige a sua fala de Soberano à Igreja Docente e à Igreja Discente, aos apóstolos e aos quinhentos discípulos em assembleia solene sobre o cimo sagrado, — cátedra do Mestre e do Fundador — criando e determinando a vida e as funções constitucionais da sua Igreja visível.
A última aparição do Divino Ressuscitado que durante quarenta dias, em horas diferentes, em lugares diversos e descobertos, a intervalos bem notados se mostra vivo e pessoal a testemunhas de categoria, condição, idade, sexo, espírito, caráter e interesses vários numa atmosfera de dúvida, hesitações e patente incredulidade, a última aparição se realiza no Monte das Oliveiras — de tanta recordação pungente.
É daí que o Cristo quis traçar a via triunfal, da sua glória, a Ascensão para o eterno Pai.
Depois de pronunciar o seu adeus supremo, últimas palavras de sua missão terrena, o seu programa de verdade e de amor. Nosso Senhor estende sobre todos, as suas mãos abertas em chagas de luz — em última benção — e começa lentamente a subir para o céu.
Eles olhavam no espaço ainda a nuvem em que se recolhera o Redentor triunfante quando dois anjos os arrancaram do êxtase, dizendo: “Galileus, que fazeis aí de pé olhando para o céu? Esse Jesus que acaba de deixar-vos para subir ao céu, voltará de lá como o viste subir”
Minhas senhoras, meus senhores. Que pensar de tudo isto?
O túmulo de Jesus estava vazio na manhã de domingo. Milhares de amigos, inimigos, indiferentes, o testemunharam.
Que corpo era esse, pois, que apareceu em tantos lugares e circunstância a tão diferentes pessoas durante quarenta dias? Que corpo era esse, que não só se deixava ver e tocar, mas que agia, falava e afirmava uma personalidade com uma consciência perfeita e clara do seu ser, da sua ação e das suas funções próprias e um sentimento vivo e determinado do seu Eu? Era um corpo? Era um fantasma? Era um espírito? Era uma projeção alucinatória de Santa Maria Madalena, dos apóstolos e dos discípulos de Cristo? Ou foi realmente a aparição miraculosa do Cristo que deixara vazio o sepulcro na alvorada esplêndida do domingo?
A hipótese do furto do corpo pelos discípulos do Cristo já está abandonada. Nenhum racionalista que se preze ou tenha probidade intelectual, prestigia nos nossos dias essa hipótese. O mesmo se pode dizer do espírito de impostura e má fé atribuído aos apóstolos. Reville presta uma homenagem magnífica à sinceridade profunda desses homens que se deixaram matar pelo Cristo Ressuscitado.
Picard nota muito bem: não foram os discípulos, dizem, foram os judeus que roubaram o corpo de Jesus. Esta hipótese é ridícula da parte da incredulidade. Os judeus teriam assim fornecido armas contra si mesmos. Destruíram a única peça de convicção que podia aniquilar o testemunho dos apóstolos...
A suposição de Strauss de que o corpo de Jesus Cristo foi atirado ao lixo, opomos este fato de notoriedade pública no tempo de São Paulo; foi sepultado. De resto, naquela maneira de agir não era conforme nem à lei romana nem à lei judaica. Segundo a primeira, o cadáver devia ser entregue logo que fosse reclamado. Quanto à lei judaica, esta estabelecia expressamente que o cadáver do supliciado devia ser sepultado antes do pôr do sol.
As hipóteses racionalistas, inventadas para explicarem a Ressurreição de Cristo, de Strauss, Renan, Harnak e de tantos outros hipercríticos ou romancistas modernos e contemporâneos, são evidentemente um esforço desesperado do racionalismo para negar a existência do sobrenatural.
As explicações dadas por Strauss, Renan, Noak, Ewald Lang, Hosten, são diversas, mas têm um fundo comum — as aparições são visões subjetivas. Já estão fora de moda e sem interesse pelo vão esforço que representam para tornar ilusória o fato da Ressurreição.
Outros não recusaram a realidade das aparições, mas negaram a Ressurreição física de Jesus Cristo. As alucinações dos apóstolos teriam sido alucinações verdadeiras. Aparições objetivo-subjetivas. Jesus sobrevivia num estado espiritual e capaz de agir espiritualmente sobre o sentido humano e assim tornou sensível a sua presença e a sua ação aos apóstolos que visualizavam, isto é, traduziam por visões objetivas o que percebiam, e oralizavam, isto é, interpretavam como verdadeiros discursos o que compreendiam.
Ora, meus senhores, minhas senhoras, lendo todos esses devaneios mascarados de cor científica ou filosófica, nós nos lembramos instintivamente do verso de Virgílio — Quis Deus vult perdere, prius dementat — e nos entristecemos sobre essas ruínas do orgulho humano, humilhado na tentativa insana de apagar as estrelas do céu.
As narrativas evangélicas documentam a realidade corpórea da Ressurreição. Os discípulos tocaram um corpo real, ainda que glorioso, com suas mãos e ouviram com seus ouvidos.
No texto evangélico também não se acha fundamento para as visões pneumáticas objetivas de Leim e Schweizer para quem as cristomanias são visões interiores do estado glorioso de Cristo no céu, interpretadas pelos apóstolos no sentido de sua Ressurreição corpórea.
Essa ilusão de ótica, necessária para reanimar a fé nos apóstolos nem satisfaz a consciência moderna, inimiga do sobrenatural, nem explica o contato sensível do Cristo em suas aparições diversas durante quarenta dias, nem o túmulo vazio atribui à divindade a causa direta do erro.
A Ressurreição é o fato fundamental do Catolicismo.
Os vinte séculos da verdade católica se apoiam no túmulo glorioso de Jesus Cristo. É o milagre que, por excelência, prova a divindade de Cristo. Ressuscitar um morto é um prodígio. Ressuscitar a si mesmo é o prodígio dos prodígios. Na sua vida e na sua morte o Divino Mestre multiplicou os fatos extraordinários que documentaram divinamente as suas afirmações absolutas sobre a sua personalidade divina.
Na Ressurreição, a demonstração do Salvador atingiu o seu apogeu de luz e de glória. Os inimigos da fé compreenderam muito bem que aceitar a ressurreição é aceitar toda a revelação cristã com todas as suas consequências doutrinais.
São Paulo escreveu claramente: Se Cristo não ressuscitou, vã é a minha pregação e inútil a vossa fé.
O racionalismo chegou ao cúmulo de negar a morte de Cristo. Cristo segundo alguns incrédulos, apenas desmaiara na Cruz. No repouso, ele voltou a si da frieza do túmulo e das resinas do embalsamento.
E esses espíritos orgulhosos não leram que Pilatos só deu autorização para a descida do corpo depois de se ter certificado de sua morte? E o divino supliciado poderia ter resistido após tão terríveis tormentos à lança do soldado romano que lhe abre o peito na largura de uma mão? E como esse Cristo desfigurado, arrastando-se, desgraçado, saindo penosamente de um sepulcro poderia ter fortalecido e transformado os seus medrosos discípulos?
A impiedade se torna ridícula na ânsia de repudiar o sobrenatural, custe o que custar.
A palavra do anjo continua a ser uma palavra de vitória:
“Procurais a Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ressuscitou; não está aqui”
O túmulo está vazio. Os soldados romanos subornados dizem que estavam dormindo quando roubaram o corpo do crucificado.
E como esses pescadores tímidos, rudes, pobres, sem meios, sem influencia, sem nenhum interesse para eles, afrontando as consequências do seu ato, teriam violentado, corrompido ou enganado a guarda romana? Todas as explicações atingem o máximo do absurdo.
O túmulo do Cristo, vazio, apesar de todas as precauções tomadas, só tem uma explicação aceitável. É a palavra do anjo: “Ressuscitou; não está aqui”
Santa Maria Madalena, suas companheiras e os apóstolos foram vítimas de uma alucinação, gritam os céticos de todos os tempos.
A psicologia dessas gloriosas testemunhas do Cristo redivivo é o que há de mais contrário ao fenômeno da alucinação.
Nenhuma delas se mostra crédula. Nenhuma pensa na Ressurreição. Santa Maria Madalena corre ao sepulcro e quando vê a pedra derribada, diz: “Roubaram o Senhor e não sei onde o puseram”. Ela se lamenta junto do túmulo abandonado. Diante dela está um homem de pé. “Por que choras mulher? A quem procuras? Se tu o tiraste, responde Madalena, dize-me onde o puseste”
Maria! Disse o homem.
E a grande arrependida, reconhecendo Jesus naquela voz cheia de doçura, exclama: “Rabooni! ” É assim que Madalena se torna a apóstola da Ressurreição. Ela diz aos discípulos: “Vi o Senhor”. Os apóstolos foram duma incredulidade a toda prova. E eles tomaram as santas mulheres por visionárias. E quando o Senhor lhes aparece, eles julgaram-no um fantasma. Um deles, São Tomé, leva a audácia de sua incredulidade a querer tocar as chagas do Mestre. Sugestão e alucinação se tornaram na linguagem dos ímpios, palavras cômodas para explicarem os fatos sobrenaturais.
Bossuet, no seu famoso discurso sobre a história universal disse: “Ao terceiro dia, Jesus Cristo ressuscita; aparece aos seus que o haviam abandonado e se obstinavam a não crer na sua Ressurreição. Os discípulos o veem em particular, e todos o veem em conjunto; aparece uma vez a mais de quinhentos homens reunidos. Um apóstolo, assegura que a maior parte dentre eles vivia no tempo em que ele escrevia. A Ressurreição é um inabalável fato histórico. A sua certeza está acima de toda a dúvida. A sua certeza está acima de toda a dúvida. O Cristo ressurgiu. E, ressurgindo, ressuscitou o mundo.
Levantou todas as lousas que pesavam sobre o gênero humano, baniu todas as escravidões — a escravidão dos sentidos, do coração, da inteligência. Sobre a família humana raiou um novo sol. Todos os infelizes, todos os desgraçados puderam soltar um suspiro de alívio. Como um verdadeiro triunfador, o Cristo Ressuscitado invadiu a consciência da humanidade e criou uma mentalidade e uma civilização desconhecida.
Jesus transformou o homem com seu verbo, com sua graça, com seu amor. Ele semeou na alma racional essas verdades fecundas que produziram na sociedade uma total revolução nas ciências, nas artes, nas leis, na política, nos costumes e na vida dos povos, essas verdades que fizeram surgir do caos social antigo um novo mundo moral, iluminado pelas fulgurações e relâmpagos da Ressurreição.
São essas torrentes de luz que dobram os joelhos dos sábios e arramam dos seus lábios palavras como estas do grande matemático Cauchy: “Eu sou católico, e, se me perguntassem a razão disso, veriam que as minhas convicções são resultado não de preconceitos de família, mas de um exame aprofundado. Veriam como se gravaram para sempre no meu espírito verdades mais incontestáveis aos meus olhos do que o quadrado da hipotenusa”
A pedra do sepulcro do Divino Vencedor é o granito da Igreja. Há vinte séculos contra ela se despedaçam crânios. Mas é um granito de amor. Há vinte séculos ela recebe as lágrimas de todos os infortunados, as flores de todos os agradecimentos, as homenagens da inteligência e do coração.
Há vinte séculos sobre essa lousa augusta se repetem, num crescendo de amor, os beijos da gratidão genuflexa que bendiz, aclamam, canta por todos os júbilos de Páscoa, a alvorada cristã do Deus Ressuscitado.
A Ressurreição de Jesus Cristo tranquiliza o nosso espírito. Não estamos iludidos sobre o nosso futuro. O Cristo ressuscitado garante todas as certezas da Fé e todos os ensinamentos da Igreja. Ficamos na posse consciente de verdades eternas. Os ventos vários das filosofias humanas não poderão abalar a nossa confiança que repousa indefectível no rochedo iluminado do Domingo Pascal. A ressurreição física de Jesus é a prova decisiva.
Doravante estamos voltados para o céu donde esperamos Nosso Senhor Jesus Cristo que transformará o corpo de nossa humildade, segundo o modelo de seu corpo glorioso.
O Cristo, primogênito da vida e vencedor da morte, envolve na benção de sua ressurreição gloriosa a carne sofredora da humanidade. Nós cremos na imortalidade da alma e na perpetuidade radiosa da carne ágil, sutil, impassível, esplendente, como uma flor do espírito, no Reino da glória, forma suprema da beleza sensível, transfiguração pelo sopro criador do Artista Divino.
Na igualdade dos seres que a morte nivela é sempre a mesma devastação do corpo que se decompõe e vai alimentar a erva humilde depois devorada, talvez, por um animal estúpido.
Seja o cérebro de um sábio, — laboratório do pensamento seja a mais abjeta das criaturas, é sempre a mesma a humilhação da morte. Diante do sepulcro aberto não vemos mais que podridão, poeira e pó. Se perguntarmos ao materialista se o homem ficará reduzido à miséria do túmulo, ele responderá: “Ficará. A matéria será restituída à circulação da natureza”
E o pensamento? Os surtos de seu espírito? Os seus desejos? As vozes supremas de sua alma? Todos os seus movimentos transformados em sensações e ideias? Tudo ficará perdido para sempre, dizem os materialistas.
Coisa terrível é a morte do homem que só crê na matéria! Espanta, aterroriza!
Se perguntarmos a um ultra espiritualista se a matéria ficará reduzida à miséria do túmulo, ele responderá. “Ficará, porque vai ser restituída a circulação da natureza, somente a alma não sofrerá essas misérias”
É menos terrível essa concepção da morte.
Só a alma com os seus pensamentos, os seus surtos e os seus desejos não se poluiria no túmulo.
Mas o cérebro onde se elaboram as ideias, o coração onde se aninham os sentimentos, o corpo onde demoram as vibrações, tudo desaparecerá para sempre no conceito do espiritualista ingrato.
Nós católicos, porém, não podemos admitir essa poeira eterna do cérebro, do coração, do nosso corpo.
Deus não quis condenar o homem-fanal da criação à podridão eterna, à devastação completa do corpo que foi feito à sua imagem e semelhança.
Credo resurrectionem. Nós acreditamos na ressurreição da carne. Estamos convencidods de que esta há de florir.
Quando Deus, completou o plano da criação, do limo, formou o homem e lhe deu o sopro de vida, o espiráculo de vida não foi para reduzi-lo a nada, nem para inutilizar o encanto de sua obra, que formou os enlevos da criação.
Não foi inutilmente que colocou essa semelhança de sua imagem no meio de sua obra gigantesca.
Não foi inutilmente que criou para os seus olhos os encantos da vegetação e as maravilhas da luz e os esplendores dos quadros que a sua mão de artista formou onipotentemente.
Não foi inutilmente que criou par os ouvidos do homem a deslumbradora orquestração da natureza, a música das águas, o canto dos pássaros, a harmonia das esferas.
A carne é herdeira das liberalidades divinas.
Quando a alma quer rezar, os lábios murmuram, o coração palpita, as mãos se juntam e se erguem para o alto numa atitude magnifica. E não é possível que essa carne fique reduzida à podridão para sempre. Também ofereceu seu sangue, se sacrifica, se martiriza por Deus.
A Igreja saúda a carne irmã da carne de Jesus Cristo.
A nossa religião respeita o espírito e a carne criada, cuja ressurreição proclama.
Sendo divina a nossa religião, é eminentemente humana. Não se preocupa só com a alma, mas também com o corpo. Sem corpo não teríamos ressurreição completa. É um dogma da nossa Igreja a ressurreição da carne. O sepulcro não é só podridão. O nosso esquife é berço da imortalidade.
A própria natureza nos prenuncia a ressurreição da carne.
Ao pôr do sol, todas as tardes, segue-se a noite longa e silenciosa. À alvorada, o sol surge. É a ressurreição da manhã. O lavrador atira o grão humilde que vai apodrecer para nascer, reflorir e frutificar. A larva se transforma em crisálida e esta em borboleta que alça o voo em demanda do infinito, no anseio da liberdade.
Se Deus concede a vida ao vegetal que nasce da semente apodrecida, a vida que palpita na verdura dos campos, no coma verde das árvores, se dá essa vida que cintila na asa das borboletas, por que razão não a concederá à nossa carne, também?
A carne apodrecida é transfigurada e se preparará para ser a angélica farfala, de que nos fala Dante, em procura do sol divino.
A razão disso nos persuade, porque seria terrível essa separação eterna da alma e do corpo.
Deus criou do limo a carne e depois deu-lhe alma e disse-lhe: “Alma, tu és rainha, aqui está um trono; alma, tu és chama, aqui está um coração, onde tens sangue, paixão, amor, sentimento; alma, tu és vibração, aqui estão os nervos; alma, tu és luz, aqui está uma lâmpada; alma, tu és raio, aqui estão os olhos, através dos quais poderás esplender”. E a alma se precipitou para esse corpo para substituir a natureza.
A alma e o corpo constituem uma só substância. A natureza exige a ressurreição da carne.
O corpo não é lira, que a alma agite durante algumas horas, durante algum tempo, durante uma existência, apenas.
O corpo reza, chora, ri, geme, suspira, é feliz e é desgraçado com a alma. Separados na morte, voltam a unir-se na outra vida.
A alma celebra com o corpo e epitalâmio da terra e da eternidade. Vivem numa perfeita vida conjugal.
A razão e a fé nos mostram que assim tem sido compreendido sempre desde os tempos de Zend Avesta em que Ormuz se refere, sem nada que dúvida faça à ressurreição da carne. Platão, Sêneca, a crença mosaica, tudo nos convence do mesmo modo. São Paulo, nas suas Epístolas, afirma que o corpo será semeado na corrupção e ressuscitará incorruptível, ressuscitará na glória.
Senhores, há dois mil anos, Cristo reina. A cruz flutua em todos os continentes. A bandeira de Cristo Rei congregou todos os povos derrubando barreiras dos costumes. O mundo vivia de orgulho, e Cristo ensinou a humildade.
Foram por Ele transfigurados todos os costumes e todas as gentes se dobraram aos seus ensinamentos. Invadiu a trama e o tecido de todas as instituições e apareceu como o maior legislador da humanidade. Abateu as barreiras de todas as regiões até então existentes. Fez ruírem os deuses antigos de seus pedestais, extinguiu a casta sacerdotal antiga.
Ensinou o Pai Nosso, oração universal, recitado por todo o mundo, que vale como demonstração sublime da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Eu sou o Bem, disse Nosso Senhor, e toda a humanidade enamorada segue-lhe os ensinamentos maravilhosos que afrontam a fúria dos tempos.
Envelhecem as repúblicas, passam as instituições, muda-se a face dos acontecimentos. Só o Cristo vive, só o Cristo atravessa as idades. Só o Cristo resiste a todas as mutações que se operam no mundo.
Se assim não fosse, Cristo seria um mentecapto ou um impostor, seria um velhaco ou um bandido, cuja pregação seria sem valor.
Mas a sublimidade do Evangelho bem atesta no vigor de suas indestrutíveis verdades que só um Deus seria capaz de nos dar tão grandioso monumento de sabedoria.
Não falta quem não tenha dito ter sido Cristo um visionário, um louco, um filósofo, um revolucionário.
Mas Cristo é realmente Deus, nosso Deus, força e fundamentos da verdade. No seu trono de glória, no mistério do tabernáculo, no último recesso do sacrário, ele exora misericórdia para toda a humanidade.
Em tão augusto silêncio, ele está trabalhando a obra imortal da Igreja, por toda a eternidade, porque Ele disse: “Estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”
Aparecendo à Santa Margarida através do véu branco que cobre o sacrário, disse: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens e deles é tão pouco amado”
Glória, pois ao Cristo que ressurgiu dos mortos e preparou para a humanidade a glória da RESSURREIÇÃO.
Eminência.
V. Eminência com esta bondade que não cansa, se dignou vir a esta casa para prestigiar a ação dos bravos da União Católica; abençoar esta numerosa e brilhantíssima assembleia em que a fé, a ciência, a cultura, a graça cristã e o espírito católico desta Metrópole fulguraram; honrar e animar o modesto pregador do Divino Ressuscitado, enfim, emoldurar no esplendor da púrpura esta bela noite do Ano Santo, noite da Ressurreição.
Beijamos agradecidos esta Púrpura que já se doura dos raios romanos com a investidura de V. Eminência na alta Missão de Legado Pontifical ao Congresso Eucarístico Nacional.
Outra missão incumbe também a Vossa Eminência.
Dir-se-ia, senhores, que o nosso Cardeal leva enrolado na púrpura sagrada o bele e generoso Coração do Sul para uni-lo ao ardente Coração do Norte, fundindo-os num só Coração — O Divino Coração Eucarístico que no Ostensório da Bahia histórica vai abençoar a união dos brasileiros.
Boa viagem, Sr. Cardeal, para a descoberta cristã da República.
Cabral chamou Monte Pascal o primeiro cume descoberto, — o cume dos Aimorés, — entre os arrebóis de Páscoa. O Brasil nascia para a civilização, sob o sinal glorioso do Divino Ressuscitado da Galileia. Sua vocação histórica era sagrada pelas auroras da Ressurreição.
Quem sabe, Eminência, se à sombra do Monte Pascal, os sinos das velhas igrejas da colônia em repiques de aleluia nacional não irão saudar o ressurgimento cristão do ESTADO BRASILEIRO?!
Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.
Oitava da Páscoa e primeiro domingo depois da Páscoa
Paramentos brancos
Chama-se este domingo – Quasi modo – das primeiras palavras do Intróito e in albis porque nele depunham outrora a túnica branca do batismo.
Para ensinar os seus filhos recém-nascidos para a graça com que generosidade devem confessar o nome de Jesus, a Igreja os conduz à Basílica de São Pancrácio, que, aos doze anos, rendeu ao Senhor o testemunho do sangue.
Todo cristão deve dar testemunho de Cristo. A fé no Filho de Deus ressuscitado dar-lhe-á coragem para vencer os poderes do mal, para vencer o mundo, como diz São João. É necessário, pois, que esta fé em Jesus tenha uma base sólida; e a Igreja no-la oferece na missa de hoje. Esta fé deve ter por base, diz São João, o testemunho das três Pessoas Divinas e o da água, do sangue e do espírito que no batismo, no calvário e na vida da Igreja e dos cristãos dá testemunho da divindade de Jesus. A dupla aparição do Senhor aos apóstolos e a incredulidade de Tomé que cede à evidência mais nos confirmam nesta fé.
Pela nossa crença esclarecida e forte e pela nossa conduta impoluta rendamos à divindade do Senhor, no meio desta sociedade corrompida, o testemunho sincero da nossa alma.
Do Evangelho: “A dureza dos discípulos em acreditar na Ressurreição, diz S. Gregório, não foi apenas sinal de que eram ainda enfermos na fé, mas antes argumento para firmar a nossa fraqueza. Menos me aproveita a mim Madalena que logo acreditou, que Tomé que duvidou por muito tempo; porque o apóstolo, tocando nas chagas, amputou-nos do peito a raiz da dúvida”
Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.
Em meio à crise do COVID e enquanto a França saia do confinamento no verão de 2020, um evento passou despercebido, apesar de merecer um pouco mais de atenção: trata-se do anúncio de um "Great Reset" global por Klaus Schwab, presidente-fundador do Fórum Econômico de Davos. De que se trata? Por que agora? Quais os objetivos declarados ou ocultos da "elite mundial" que se comprime em Davos? Muitas perguntas precisam ser respondidas, ainda que pela influência deste Fórum e de seu fundador, cujas afirmações nunca são sem importância.
I. O GRANDE RESET
1. APRESENTAÇÃO GERAL
“The Great Reset” é uma ideia exposta por Klaus Schwab em um livro publicado em meados de 2020, com o título COVID 2019: the Great Reset (A Grande Reinicialização) . Aparentemente, o livro é apenas um ensaio de estilo tecnocrático, tal como os que abundam nas bibliotecas dos organismos internacionais.
No fundo, o título do livro é deliberadamente provocativo, sem que o leitor saiba de imediato se está diante de uma decisão já tomada por órgãos globalistas ou de uma proposta a ser implementada. Nesse sentido, o título não é tranquilizador: reinicialização de quê? recomeçando do zero? quem decidirá? o que está em jogo?
A leitura do livro dá algumas respostas, sendo a ideia principal do autor a de aproveitar a crise do COVID-2019 para repensar o mundo e fazê-lo retomar sobre novas bases. Mas vários pontos permanecem suspeitos:
⦁ A palavra 'reset / reinicialização' não foi bem escolhida, porque embora a crise do COVID represente um choque, o mundo permanece por enquanto um continuum: os governos seguem os mesmos de antes (infelizmente), assim como os bens econômicos (embora afetados) e as populações (embora vitimadas). Trata-se na verdade de uma "reconfiguração" e não uma "reinicialização", a menos que se trata das nossas contas bancárias... mas essa ideia não é mencionada no livro;
⦁ Deve a reconfiguração do mundo ser imposta de cima para baixo, por meio de cenáculos secretos e pensadores sem nenhuma legitimidade política, ou deve vir de baixo, ou seja, daqueles que estão em posições de comando (governantes) e daqueles que lhes estão sujeitos (as populações)? Seria então necessário falar de debates públicos, referendos e subsidiariedade, palavras que causam horror nos globalistas (“O povo, que horror”);
⦁ "Repensar o mundo" é um propósito prometeico, digno de cérebros inflados de orgulho, que existem apenas nas imediações de círculos próximos ao inimigo da humanidade. Deus não pediu para o homem "repensar o mundo", mas apenas cuidar dele e usá-lo em seu próprio benefício.
Também podemos nos surpreender com a publicação deste livro em pleno desconfinamento, logo após a "primeira onda" e antes mesmo que as lições desse evento fossem aprendidas pelos Estados, como se todas as análises que nele aparecem tivessem sido escritas antecipadamente e o livro já estivesse pronto há muito tempo. A propósito, é muito oportuno que o livro venha a ser publicado a tempo do 50° aniversário Fórum de Davos, que ocorrerá em 2021 durante a sessão de janeiro (de 25 a 29).
2. Conteúdo do livro
O livro está estruturado em três partes reveladoras, em que a economia tem primazia em tudo:
- a reinicialização vista de um ângulo muito geral (“reset macro”) nos campos da economia, da sociedade, da geopolítica, do meio ambiente e da tecnologia;
- a reinicialização vista de um ângulo mais detalhado (“reset micro”), que diz respeito principalmente ao mundo dos negócios e da indústria;
- reinicialização vista de um ângulo individual (com seus efeitos sobre nossa natureza e saúde), que na verdade é apenas uma subdivisão da 2ª parte (microanálise).
Em questões econômicas, o autor enfatiza que as epidemias têm sido historicamente oportunidades para impulsionar a economia. Ele acredita que o declínio que geram é uma oportunidade de refletir sobre o mito do crescimento. Ao seu ver, há oportunidade para configurar uma economia mais verde. Ele se inquieta igualmente com as consequências monetárias que a crise acarreta, pelo aumento dos déficits e pela distribuição descontrolada de dinheiro (“helicopter money "), mas não acha que possa haver inflação ainda.
Nas questões sociais, o COVID revelou as falhas de sistemas muito liberais, como os anglo-saxões (Estados Unidos e Reino Unido), que oferecem cobertura social bastante frágil aos mais pobres. Corre-se o risco de acentuar desigualdades e agravar as tensões sociais, sobretudo as preexistentes (por exemplo, o “Movimento dos coletes-amarelo" na França), em particular no tocante aos jovens, em grande parte vítimas desta crise (educação, emprego, recursos). Deve-se também sublinhar o papel do Estado e dos governos na fase de recuperação, o que será acompanhado de um aumento de impostos.
Em termos de geopolítica, o autor sai de sua neutralidade para expor imediatamente o perigo dos nacionalismos, "o fim caótico do multilateralismo" (p. 79) e "a erosão da mundialização" (p. 80). Ele sublinha o perigo desta evolução que tem aumentado pelo COVID, ilustrado pelo fechamento das fronteiras e aumento do protecionismo Reconhecendo o fracasso da hipermundialização propôe uma posição de recuo, focada na tomada de consideração das questões sociais e ambientais. Ele lamenta o risco da ineficácia da governança global, ilustrada em particular durante a crise do COVID, quando cada estado tentou encontrar uma resposta nacional e os Estados Unidos denunciaram a OMS. Aponta para o risco de confronto entre os Estados Unidos e a China, a retirada progressiva dos Estados Unidos do cenário internacional e o risco de um “Déficit de ordem mundial” (p. 80), ao mesmo tempo que encoraja uma posição mediana, a da regionalização.
Em questões ambientais, o COVID se soma aos riscos preexistentes das mudanças climáticas e da destruição de nosso ecossistema. O autor vê ligações entre esses três riscos, uma vez que o pangolim (sic), tendo deixado seu habitat natural, teria transmitido o vírus COVID e a poluição do ar favoreceria doenças. Deduz-se, portanto, que a crise da COVID deve ser uma oportunidade para repensar o equilíbrio entre o homem e a natureza e estimular uma economia mais verde e livre de carbono.
No campo tecnológico, a crise da COVID mudou a situação e acelerou a digitalização da vida econômica: homeoffice, uso intensivo de smartphones etc. Os aplicativos de rastreamento COVID destacam a linha frágil entre o bem comum e a privacidade; esta crise, aliás, reforçou todos os meios de controle virtual. Lembrando que as medidas tomadas depois de 11 de setembro de 2001 ainda estavam em vigor nos Estados Unidos, o autor destaca o risco de distopia, ou seja, de um regime totalitário se intrometendo de forma ultrajante na vida privada.
No nível microeconômico, o autor vê mais uma vez o COVID como uma oportunidade para a indústria repensar seu funcionamento, embora seja pessimista no tocante a determinados setores (turismo, hotelaria, lazer). Os setores de produção de bens ou alimentos terão que se adaptar à digitalização (por exemplo através de sistemas de delivery). O fim da hiperglobalização colocou em questão a tercerização e as cadeias de abastecimento; a segurança deve triunfar sobre o lucro. Essa tendência também deve fortalecer o papel do Estado (nacionalizações, legislação trabalhista, gestão de estoques).
Finalmente, no nível individual, a pandemia tem uma dupla consequência: desenvolve mais o isolamento (confinamento) ao passo que aumenta a solidariedade. Em um nível mais amplo, o autor, mais uma vez, aponta o risco do nacionalismo e da busca de bodes expiatórios. Preconiza obviamente uma maior colaboração, que vai no sentido de uma maior inclusão global Também destaca o efeito da pandemia na saúde física e mental das populações, em forte deterioração. E termina com algumas notas positivas, estimando que essa crise pode nos ajudar a desenvolver mais nossa criatividade, relação com o tempo, frugalidade e retorno à natureza.
3. Conclusão
As ideias contidas neste livro são esperadas e muitas vezes de bom senso, mas suas conclusões são desviadas pelo objetivo principal do livro, repetido capítulo após capítulo: toda crise global deve ser uma oportunidade de fazer avançar o mundo em direção ao governo mundial:
As possibilidades de mudança e de [criação de uma] nova ordem resultante são agora ilimitadas e dependem apenas de nossa imaginação. (p. 16)
Devemos aproveitar esta oportunidade única para reimaginar nosso mundo. (p. 17)
Não há tempo a perder. Se não melhorarmos o funcionamento e a legitimidade de nossas instituições globais, o mundo logo se tornará incontrolável e muito perigoso. Ele não poderá ter uma recuperação duradoura sem uma estrutura de governança estratégica global.” (p. 86), o que equivale a desejar um governo mundial.
Este leitmotiv vem acompanhado de um aviso: não podemos tomar o caminho errado! O mundo está dizendo não à globalização e ao globalismo, o que seria dramático, na visão do autor.
Há, portanto, uma esperança neste livro: a elite globalista reconhece seu fracasso, e isso é altamente animador!
Vamos, portanto, examinar em mais detalhes qual era o plano global original.
II. UM PLANO GLOBAL QUE VAI MAL
O objetivo ideológico de avançar a todo o vapor rumo em direção a um mundo mais globalizado é conhecido há muito tempo.
1. Um plano antigo para o governo mundial
Sem voltar aos fariseus que desde muito cedo manifestaram seu desejo de governar o mundo por meio de um Messias terreno, a ideia de dominação mundial (para o bem da humanidade, é claro!) remonta pelo menos ao século XVI com os Rosa-Cruzes, a Comenius no XVII com seu "aerópago do mundo" e as conquistas anglo-saxônicas dos séculos 19 e 20, incluindo a criação da Liga das Nações em 1919 e da ONU em 1945.
A ideia de uma "Nova Ordem Mundial" "(NOM) também floresce neste período e a conclusão é oficialmente pronunciada pelo presidente Bush pai em 1990 no prelúdio da 1ª Guerra do Golfo (1991).
Desde aquela data, com uma regularidade suspeita, a cada dez anos, algum evento particular tem servido de gatilho para o estabelecimento de novas medidas de coerção globalistas. A crise COVID não escapa a esta regra.
2. As etapas do plano global
As etapas que estão sendo implementadas foram há muito tempo referidas em todos os tipos de documentos, qualificados geralmente como falsos e "conspiratórios" por aqueles que têm interesse em silenciá-los, mas que existem realmente como o Plano Pike , os Protocolos dos Sábios de Sião, a Ordem dos Bárbaros , O Comitê dos 300, os Protocolos de Toronto e a Aurora vermelha . É justamente interessante notar que as etapas descritas nesses planos sempre foram realizadas ou estão em processo de serem-no, o que nos faz pensar que são de fato autênticos, independentemente de sua origem.
21. Etapas já concluídas
Entre as mais significativas podemos citar:
⦁ controlar e perverter a sexualidade (contracepção, aborto, homossexualidade, pornografia...);
⦁ perverter os jovens por meio da música e das drogas;
⦁ autorizar o comércio aos domingos, para profanar o calendário;
⦁ controlar a imprensa e a mídia, para controlar a opinião pública;
⦁ criar crises econômicas para enfraquecer os Estados, torná-los dependentes do FMI por meio de dívidas;
⦁ promover o comércio internacional para isolar os países nacionalistas;
⦁ transferir reservas de mão de obra para novos países (China);
⦁ promover a imigração em massa para desestabilizar os países anfitriões;
⦁ criar um sentimento de insegurança e medo, em particular através do terrorismo;
⦁ fomentar guerras, privilegiar a força sobre o direito.
Qualquer observador intelectualmente honesto pode constatar que essas etapas foram cumpridas, sem precisar ser um conspirador hediondo.
2.2. Etapas em vias de realização
Se os franceses tivessem sido informados em 2019 que o Sr. Macron se preparava para os trancar em suas residências, com a obrigação de apresentar à Gestapo Nacional um Ausweib para deixar sua casa, quem tivesse declarado isso seria considerado um terrível conspirador (fascista-populista-reacionário, esses são os slogans de hoje)! No entanto, é isso o que estamos vivendo nos dias de hoje... Os anúncios dos globalistas de ontem são indicações das realizações de hoje.
Ora, entre as etapas descritas há décadas, algumas estão em processo de realização:
⦁ controlar a educação e abolir a educação privada;
⦁ promover a eutanásia;
⦁ reduzir o acesso à informação;
⦁ restringir autorizações de viagem;
⦁ contratar jovens recrutas sem cultura na força policial;
⦁ absorver as fortunas por meio de impostos e dívidas;
⦁ reduzir a circulação de dinheiro e promover o dinheiro eletrônico, para maior vigilância;
⦁ encorajar o ecologismo, para usurpar territórios em troca de perdão de dívidas ou impostos sobre carbono;
⦁ destruir a autonomia industrial dos países avançados e, em particular, sua independência energética (nuclear);
⦁ reduzir a diferença salarial e promover o salário universal;
⦁ estender o registro e a vigilância geral das populações;
⦁ controlar o comércio de armas de fogo para reduzir a capacidade de resistência das pessoas;
⦁ fabricar doenças mortais;
⦁ criar um tribunal mundial para estabelecer a supremacia globalista.
Mais uma vez, a evolução atual não se encaminha para um mundo mais livre e sereno, mas mais controlado e mais privado de liberdade. Nesse contexto, a crise do COVID atua como um acelerador formidável dessa tendência e atende a muitos objetivos globalistas: eliminação dos mais vulneráveis, restrição de viagens, vigilância generalizada, transferência de fortunas (da classe média para a oligarquia).
2.3. As etapas que ainda precisam ser cumpridas
Com base na realização das etapas anteriores, só podemos estar atentos à implementação das etapas restantes a serem cumpridas:
⦁ reduzir a população mundial;
⦁ limitar as famílias a 2 crianças, ou mesmo retirar as crianças
de seus pais;
⦁ Suprimir os médicos particulares;
⦁ suprimir religiões (especialmente o cristianismo) e fundi-las em uma só;
⦁ transferir as forças armadas nacionais para a ONU;
⦁ estabelecer um governo despótico, se necessário por meio da guerra ;
⦁ deter o poder mundial e fazer com que as pessoas o aceitem.
Essas constituem as etapas finais que permitirão a elite globalista finalmente alcançar o seu sonho: a dominação mundial, por meio da força, da economia, da justiça, da religião, tudo detido em uma só mão.
É esta fase do plano que atualmente vai mal, porque os povos ainda não estão prontos para esta ditadura insidiosa e começam a se rebelar: os povos europeus desconfiam cada vez mais de suas “elites” impostas e da falta de defesa do bem comum; desconfiam da União Europeia, considerada com razão como um Moloch frio e inútil; desconfiam do desemprego, da imigração, do terrorismo importado pela globalização.
O fato de o Sr. Klaus Schwab reconhecer isso é um avanço notável e prova que a bela engrenagem montada para subjugar as pessoas pode ter falhas. Este é o ponto que deve ser estudado agora.
III. AS ILUSÕES E INCOERÊNCIAS DA ELITE MUNDIAL
1. Cegueira e radicalismo devido ao orgulho
Não é hábito dos globalistas ter dúvidas: visto que estão persuadidos a trabalhar pelo bem da humanidade, como poderiam estar errados?
É esse orgulho de sempre estarem certos (apoiado no fato de que seu poder material lhes permite ir na direção de suas convicções) que lhes dá uma convicção insuportável, que já denunciava Cristo em seu tempo ("Vejo que este povo é de dura cerviz" - Ex 32, 9) e que ainda hoje encontramos em suas declarações e escritos, com muito excesso e presunção:
⦁ Nós teremos um governo mundial, gostem ou não. A única questão é se será criado por conquista ou por consentimento. (Paul Warburg, 17/02/1950)
⦁ Iremos juntos em direção a esta Nova Ordem Mundial e ninguém, afirmo ninguém, será capaz de se opor a ela. (Sarkozy, 16.01.2009, aos embaixadores)
⦁ Muitos de nós nos perguntamos quando as coisas vão voltar ao normal. A resposta curta é: “nunca” (Schwab - op. cit. p. 11)
⦁ O mundo que conhecemos nos primeiros meses de 2020 não existe mais, desfez-se no contexto da pandemia. Mudanças radicais acontecerão de tal forma que alguns especialistas chegam a referir-se a um período "anterior ao coronavírus "(BC) e" após o coronavírus "(AC) (Schwab - p. 11)
Também podemos notar a aparente onisciência globalista, que na verdade consiste apenas em descrever antecipadamente o que está planejado em sua agenda e que pode levantar questões sobre as reais causas dos acontecimentos:
[Este livro foi] publicado no meio da crise e no momento em que várias ondas de infecção são esperadas (Schwab, op. Cit. P. 17)
Esses três cenários plausíveis são todos baseados na hipótese básica de que a pandemia poderia continuar a nos afetar até 2022. (p. 33)
Este livro está estruturado em três capítulos principais, que oferecem uma visão panorâmica do cenário futuro. (Schwab, p. 17)
[Alguns imaginam] um retorno aos negócios como antes. Isto não acontecerá jamais. (Schwab, p. 131)
Enfim, essa arrogância de quem sabe tudo não seria a de quem pensa que sabe tudo porque pretende tudo dominar? As conspirações de uma elite que pressupõe governar o planeta, não existiriam, finalmente, na forma como o livro de Schwab parece indicar?
2. Uma hipocrisia mal dissimulada e seus erros
2.1. Hipocrisia
Podemos notar que em nenhum momento Klaus Schwab se questiona sobre a origem do vírus, sobre a sua natureza, ou sobre o motivo pelo qual apareceu na China em um laboratório fornecido pela França, embora esta questão seja essencial. O pangolim tem as costas largas.
Também ficaremos surpresos ao ver que Klaus Schwab não se pergunta sobre o porquê de a OMS ter alterado as condições para a definição de uma pandemia ao passo em que aponta acertadamente que as estatísticas demonstram que, em termos de mortalidade, a COVID-2019 não é uma pandemia. Esse ponto, nunca mencionado na mídia, é essencial:
No final de junho de 2020 (. ..), COVID-2019 matou menos de 0,006% da população mundial (...) [enquanto] a Peste Negra (1347-1351) é considerada como tendo matado entre 30 e 40% da população mundial na época. (Schwab, p. 188)
Também ficamos surpresos ao ver Klaus Schwab deplorar a evolução anárquica do mundo, sem nunca se lembrar de que a responsabilidade por essa anarquia recai tanto sobre ele quanto sobre seus amigos. Porque as crises que o mundo vive há 50 anos (guerras externas, terrorismo, crises econômicas repetidas, crises de saúde) são apenas o resultado de um mundo mais globalizado, mais aterrorizado, mais financeirizado, onde os dirigentes políticos não estão mais no controle do destino dos países que deveriam liderar, porque há muito delegaram suas responsabilidades a elites tecnocráticas incapazes, por serem ideólogos, em suma, amigos de Klaus Schwab. Como, então, repensar o mundo confiando em quem o destruiu?
Na verdade, todo o livro The Great Reset é um belo exercício de hipocrisia, pois se o autor lamenta em mais de 200 páginas as consequências desastrosas do COVID, ele se alegra ao dizer que se trata de uma grande oportunidade para repensar o mundo. Isso nos lembra as palavras daqueles globalistas cínicos, que antes dele expressaram o mesmo:
Tudo o que precisamos é uma grande crise apropriada e as nações aceitarão a Nova Ordem Mundial. (David Rockefeller, 23.09.1994)
A história nos ensina que a humanidade só evolui significativamente quando realmente tem medo. (...) A pandemia que começa [H1N1 na época] poderia desencadear um desses medos estruturantes. (J. Attali, artigo "Avançar pelo medo", L'Express, 17.05.2009, p. 138)
Para isso, teremos que criar uma força policial mundial, um estoque mundial e, portanto, um sistema tributário mundial. Chegaremos então, muito mais rápido do que a razão econômica apenas teria permitido, para colocar em ação as bases de um verdadeiro governo mundial. (Attali, ibid.)
Isso remete igualmente à máxima bem conhecida da maçonaria: “Solve et coagula” (dissolver e reconstruir). O Sr. Schwab pede-nos, portanto, sem pestanejar, que apliquemos este lema, com o sorriso no rosto....
2.2. Erros
No plano filosófico, Klaus Schwab mostra que é adepto da consciência livre e do relativismo, pois declara:
Como todas as noções de filosofia moral, a ideia do bem comum é difícil de definir e questionável. (p. 166)
Em suma, cada um com a sua verdade... Tanto mais para Klaus Schwab, um fervoroso defensor do evolucionismo, para quem o homem tem 200.000 anos e os vírus 300 milhões de anos (p. 17). 190.000 anos lascando pedras é muito tempo ...
Isso nos permite constatar que, quando olhamos para a lista de participantes nos círculos globalistas (Bilderberg, Davos, O Século...), não estamos lidando com uma verdadeira elite intelectual, merecedora de nossa consideração, e sim com um conjunto de pessoas inteligentes, mas intelectualmente deformadas, influenciadas pelas idéias da Revolução mental que infestam nossas universidades há 200 anos, que que não sabem mais raciocinar a partir da realidade dos fatos. Eles partem de si mesmos, de seus espíritos, da ideologia que foi instilada neles e que estão tentando aplicar, assim como o livro The Great Reset começa do ponto de vista MACRO (o de seus espíritos) e não MICRO (o da realidade).
As opiniões expressas por essas pessoas não são, portanto, pertinentes, porque são movidas pelos seus próprios interesses, e não pelos dos seus povos.
3. O falso domínio de uma agenda que derrapa
Por mais que a "elite" globalista repise as suas certezas, o trem louco globalista em direção a um futuro radiante e um amanhã ensolarado parece cada vez mais descarrilhado:
⦁ As guerras americanas no mundo são retumbantes fracassos vis-à-vis os objetivos declarados (levar a paz e a democracia aos países "obscurantistas"), seja no Iraque, Afeganistão, Síria, Venezuela etc.;
⦁ a luta contra o islamismo exibida pelos líderes europeus (Sr. Macron e Sra. Merkel na liderança) é, na realidade (e com uma notória inconsistência), acompanhada por uma intensificação da imigração graças ao Sr. Soros. Atualmente, o povo recusa essa hipocrisia e essa política antinatural;
⦁ a marcha forçada para o globalismo (cf. o inchaço perpétuo da UE) atingiu os seus limites e em 2016 viu os seus primeiros fracassos com o BREXIT, depois com a eleição do Sr. Trump nos Estados Unidos;
⦁ a hipermondialização não trouxe nenhum benefício para as pessoas (ao contrário das multinacionais) e apenas contribuiu para o endividamento de todos os Estados do planeta, o que não apenas salta aos olhos, mas acarreta uma dificuldade cada vez maior de governar.
Daí a pensar que a crise do COVID serviu como um disfarce maravilhoso para essa soma de incompetências, é um passo que não podemos dar, é claro. Mas isso talvez explique o porquê de cada nova crise ser sempre mais grave que a anterior: já que o paciente resiste, é necessário usar de uma dose sempre mais... Depois do 11 de setembro e do terrorismo (2001), o mundo conheceu uma crise financeira sem precedentes (2008), depois repetidas crises de saúde, depois crises sociais (imigração, 2015). O que falta, senão a guerra civil e a guerra mundial para impor aos povos o que eles recusam?
4. A reação dos povos ao totalitarismo
A boa notícia é que os povos se cansam de se passar por ovelhas prontas para o abate. As manifestações cívicas e os motins contra os governos estão a aumentar na Europa. A reação dos Gilets Jeunes (Coletes Amarelos) na França é notória, mesmo que o governo não tenha cumprido nenhuma das promessas que fizera naquela época, mas ao contrário intensificou a repressão. Um governo não pode resistir lançando mão constantemente da repressão, da coerção, do confinamento e da privação de liberdade; o exemplo da URSS está aí para nos provar a aspiração intrínseca dos povos à liberdade.
Essa reação se reflete cada vez mais nas urnas, com o surgimento na Europa de novos nacionalismos ou aspirações de soberania, para desgosto dos globalistas que não suportam que as pessoas possam querer assumir seus destinos nas próprias mãos. Esse movimento é ainda muito incipiente em relação à energia que teríamos que gastar para nos livrarmos do jugo globalista que pesa sobre nossos ombros (acreditar na neutralidade de nossas instituições já seria uma derrota), mas caminhamos na direção certa.
5. A reação divina
Ainda resta um parâmetro que os globalistas não dominam: Deus. Ele já disse várias vezes que o cálice estava cheio. Ele enviou a Virgem Maria para comunicá-lo em La Salette em 1846 e em Fátima em 1917, que são as aparições mais importantes dos últimos séculos em relação ao seu caráter profético. Ele deixou claro que as causas mais importantes que atraem o castigo das nações eram a apostasia, a blasfêmia, a corrupção da moral, tudo isso encorajado por nossos governos apóstatas.
Ele então já revelou por seus profetas que aqueles que serão culpados por essas acusações serão exterminados (os globalistas) e que não vencerão em seu desejo de dominar o mundo, antes que os Tempos sejam cumpridos. Mas ainda não é chegado, porque o povo fiel ainda está presente, embora reduzidos.
A terra está cheia de adultérios, a terra chora por causa das blasfêmias que aí se ouvem (Jr 23, 4)
No ano das duas primaveras, a República morrerá em opróbrio geral. (Pe. Souffrand, 1827)
Então, Jesus Cristo, por um ato de sua justiça e de sua grande misericórdia para com os justos, ordenará a seus anjos que todos os seus inimigos sejam condenados à morte. De uma só vez, os perseguidores da Igreja de Jesus Cristo e todos os homens dados ao pecado perecerão e a terra se tornará como um deserto." (Virgem Maria em La Salette, 1846)
IV. CONCLUSÃO
Os Globalistas de todos as matizes, dos quais Klaus Schwab é um dos porta-vozes mais eminentes, não pretendem parar por aí nesse caminho promissor e confiam que hão de cumprir o plano pelo qual são pagos. Eles não se importam que as pessoas morram do vírus, que percam seus empregos e que a governança mundial que pretendem estabelecer apenas traga a abominação da desolação na Terra. Não é possível fazer uma omelete sem quebrar os ovos! Sempre haverá vencedores e perdedores nas reformas, reorganizações, reinicializações que devem acompanhar o nosso mundo!
Esta visão cínica não é nossa e não é a de Cristo para quem todo ser conta, toda ovelha perdida deve ser trazida de volta ao redil. Não, não vamos deixar nossos idosos morrerem em asilos! Não, não deixaremos nossa juventude sem outro ideal senão o republicanismo de M. Blanquer! Não, não vamos deixar nossos amigos artesãos e comerciantes sem outro futuro que o da falência porque nossos políticos e Klaus Schwab decidiram dessa forma!
Não, não vamos "reinicializar" o mundo em benefício das multinacionais, “Big Pharma”, em prol de um mundo mais inclusivo e totalitário, em prol de uma “Mãe Natureza” mais verde com mais abortos, por um mundo mais seguro e mais invasivo para -- como dizem -- o nosso bem.
Se tivermos de reinicializar o mundo, será primeiro por desglobalizá-lo, deixando que os povos tomem seu destino em suas próprias mãos. Não, senhor Klaus Schwab, não é porque a globalização falhou que precisamos de mais globalização! Se o Great Reset (Grande Reinicialização) ocorrer, será o da "elite" globalista que você representa, que irá fracassar no curto ou médio prazo e que terá de ser exterminada. Sr. Schwab, você já é um homem do passado e nós somos o futuro!
“Livra-nos do homem ímpio, Senhor!"
Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX
1. Aldo Maria Valli é um dos vaticanistas mais conhecidos na Itália. Ele é também uma das figuras mais representativas dos fiéis católicos ligados à ortodoxia doutrinal, disciplinar e litúrgica, naquela que convencionou-se chamar de Igreja “oficial”. Sua voz, apesar de simpatizante com relação à Fraternidade São Pio X, não pode ser suspeita, a priori, de ser um eco de críticas provindas dos meios ditos tradicionalistas, ainda menos de pertencer a uma suposta "obediência lefebvrista". As reflexões preocupadas e indignadas que acaba de publicar, para exprimir sua reação diante da evolução atual do papado, são por isso mais dignas de nota.
2. “O papa”, ele escreve, “ainda que fisicamente presente, não está verdadeiramente lá, porque não age como papa. Ele está presente, mas não cumpre sua tarefa de sucessor de Pedro e vigário de Cristo. Jorge Mario Bergoglio está presente, mas Pedro não está.” E acrescenta: “Uma coisa é estar no mundo e uma outra tornar-se como o mundo. Falando como o mundo fala e pensando como o mundo pensa, Bergoglio fez Pedro evaporar-se e colocou-se em primeiro plano”.
3. A formulação pode parecer chocante. Nós podemos apostar que os discípulos de Dom Lefebvre que se arriscassem a usá-la seriam seriamente admoestados, e que aí se veria o indício de um espírito cismático, de uma tendência sedevacantista ou, ao menos, de uma tendência ao isolamento. Os ditos discípulos incorreram em tais censuras por muito menos que isso, por causa de uma linguagem cuja modéstia repousava no espírito do fundador da Fraternidade São Pio X. “Nós não recusamos a autoridade do Papa, mas o que ele faz”, dizia esse último pouco tempo antes de ser chamado a Deus. “Nós reconhecemos a autoridade do Papa, mas quando se vale dessa mesma autoridade para fazer o contrário daquilo para o qual essa autoridade lhe foi dada, é evidente que não podemos segui-lo” . Quatro anos antes, ele já fazia o seguinte diagnóstico: “Existe todo um conjunto agora em Roma, que não existia outrora, e que não pode nos dar leis à maneira dos papas de antes, porque não mais possuem o espírito verdadeiramente católico nesse quesito”. E vinte e cinco anos após as sagrações do dia 30/06/1988, o segundo sucessor de Dom Lefebvre fazia em nome da Fraternidade essa declaração de princípio: “Nós somos obrigados a constatar que esse concílio atípico, que quis ser somente pastoral e não dogmático, inaugurou um novo tipo de magistério, desconhecido até há pouco na Igreja, sem raízes na tradição; um magistério resoluto em conciliar a doutrina católica com as idéias liberais; um magistério imbuído dos princípios modernistas do subjetivismo, do imanentismo e em perpétua evolução segundo o falso conceito de tradição viva, viciando a natureza, o conteúdo, o papel e o exercício do magistério eclesiástico” . Nesse sentido ele está certo em dizer, como o fez Aldo Maria Valli, que “Roma não possui Papa”.
4. Mas, trinta anos após a morte de Dom Lefebvre, a autoridade do Papa está tão subvertida que seu uso quase diário resulta em afundar as almas numa confusão e numa desordem cada vez maior, fomentando um indiferentismo que não é mais apenas doutrinal e eclesiológico, mas que invade agora o campo da moral. O Papa Francisco prossegue sobre a via aberta pelo Concílio Vaticano II e já seguida por seus predecessores, desde João XXIII e Paulo VI. O papado da história atual, portanto, parece celebrar constantemente a destruição ou o enterro daquilo que é sua razão de ser, dissolvendo a fé e os costumes no seio da santa Igreja Católica. Aldo Maria Valli simplesmente assinala isso, como a Fraternidade São Pio X fez até agora antes dele:
“Mas hoje Pedro não pastoreia suas ovelhas e não as confirma na fé. Por quê? […] Bergoglio fala sobre Deus, mas de toda a sua pregação vem um Deus que não é o Deus da Bíblia, mas um Deus adulterado, um Deus, eu diria, desprovido de poder, ou melhor ainda, adaptado. A quê? Ao homem e à sua pretensão de se justificar vivendo como se não existisse pecado”.
5. Roma sem Papa?… A energia da proposição reflete mais do que uma exasperação, uma angústia que toca agora as almas muito além do movimento dito “tradicionalista”. Nós podemos ver aí o sinal de que a observação de Dom Lefebvre estava certa. Mas nós veríamos de nossa parte também uma homenagem involuntária concedida não somente à temperança teológica mas ainda à sabedoria sobrenatural do fundador de Ecône. Não somente esse último sempre quis evitar a ambigüidade de linguagem, a qual poderia deixar margem para que se julgasse que aderira ao sedevacantismo, mas ele via sobretudo com clareza onde estava o drama: drama de abandono, pelo Papa, de todo o patrimônio da Tradição da Igreja, abandono daquilo que faz a Roma eterna, a “Roma de sempre”. E é o Papa de agora que não é mais romano: um Papa sem Roma, numa miragem de Roma, uma falsa Roma “neomodernista e neoprotestante”.
(Courrier de Rome, 638)
Pe. Xavier Beauvais - FSSPX
Há em nossos tempos um demônio que nos interessa e que temos o máximo interesse em combater: o demônio mudo, o respeito humano. Como podemos defini-lo?
Dá-se o respeito humano quando um indivíduo, numa ação ou omissão, ao invés de expressar concretamente a sua personalidade e tudo o que ela comporta de idéias, crenças, afeições e sentimentos, leva em consideração a mentalidade dos que o rodeiam e adapta a sua atitude pessoal a ela, de modo a evitar o disse-me-disse, o deboche, os gracejos e críticas de todo tipo. Numa palavra, é culpado de respeito humano quem respeita os homens mais do que a Deus, quem respeita o sentimento geral mais do que a verdade, quem respeita a moda mais do que a moral. Não se pode tornar-se mais escravo, não se pode rebaixar-se mais, nem se tornar mais abjeto e, no fundo, lastimável, do que respeitando tais coisas mais do que a Deus, a verdade e a moral.
É preciso ser de seu tempo, dirão alguns. Não é essa uma maneira bastante hipócrita de se esconder um profundo respeito humano? Seria preciso citar sobre esse tema páginas inteiras de Abel Bonnard:
“Os imbecis jactam-se de serem do seu próprio tempo: isto prova que são dele. A verdade é que escapamos à nossa época à medida que desenvolvemos a nossa pessoa. É isto que torna tão cômicos os que, briosos, nos anunciam que são do seu tempo, que o querem ser; isso significa que se atam a si mesmos no fio do telefone, que se fazem servos das máquinas que deveriam servi-los, que vivem segundo um ritmo que lhes é imposto. Orgulham-se de fazer o que se faz, de correr aonde se corre, de comprar o que se vende, de pensar o que se diz, de se vestir segundo a moda do tempo; não se poderia proclamar com maior glória a própria inexistência. Não se adaptar, eis aqui, segundo penso, a verdadeira divisa das almas fortes. Os seres fortes não se adaptam, eles se afirmam.”
Escreveu o Papa Pio XII:
“Nada fere mais a alma do que ver que, de ordinário, não é tanto a presença de elementos perversos o que torna doentio e pernicioso o lugar do trabalho profissional, e sim o respeito humano. Respeito humano dos jovens, alguns dos quais dão-se ares desenvoltos e zombam de tudo o que toca a religião e os bons costumes, enquanto outros seguem usos inconvenientes, sem ter a coragem de reagir, e assim os vemos estabelecer tristes usos de linguagem, de familiaridade, de licença, que fazem tremer. Se tudo isso é verdadeiro e lamentável na juventude, ainda mais deplorável em seus efeitos se torna o respeito humano em homens maduros, que poderiam tão facilmente se opor ao mal, corrigir um abuso com elegância, impedir uma imprudência indecente, mudar o rumo de uma conversa que da leviandade dirige-se para a obscenidade. Mas eles não o ousam. E por que não? Porque o respeito humano é como o medo, como o pavor do escuro das criancinhas. E eis então o espetáculo tristemente paradoxal: todo um ajuntamento de homens, de mulheres, de moços, de moças, transforma em lugar de perdição o santuário do trabalho, enquanto que cada um deles, desgostoso no fundo do coração do que vê, do que escuta, da falta de dignidade e de caráter do ambiente, e sobretudo de si mesmo, de sua própria covardice e pusilanimidade, poderia, com uma palavra oportuna, com um olhar severo, um sorriso de reprovação, e mesmo com uma pilhéria, purificar a atmosfera viciada, seguro de lançar-se a empreitada com a aprovação dos pais e das mães, a confiança respeitosa e mesmo o reconhecimento filial daqueles moços e adolescentes.”Não seria difícil listar passagens dos Evangelhos em que se impõe aos fiéis a obrigação de agir, não em consideração do que possam os outros pensar ou dizer, mas sim à vista dos deveres impostos pela reta consciência.
Em suas palavras, Nosso Senhor condena não só a hipocrisia, mas igualmente essa atitude de respeito humano. Obriga mesmo, em certas circunstâncias, aqueles que o seguem a confessá-lo perante os homens, ainda que advenham inconvenientes: “Digo-vos mais: Todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus. O que me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus” (Lc 12, 8-9).
São Paulo Apóstolo recordou esse dever em muitas passagens, e ele mesmo mostrou-se bastante escrupuloso em segui-lo, sobretudo porque sua vocação especial ao apostolado implica uma obrigação particular de anunciar o Evangelho sem temer as conseqüências: “Em verdade, eu não me envergonho do Evangelho” (Rom 1, 16). Ele quer que os fiéis em geral, mas sobretudo os que ele constituiu chefes da Igreja, sigam o seu exemplo: “Portanto, não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas participa comigo dos trabalhos do Evangelho, segundo a virtude de Deus” (2Tim 1, 8).
O elogio que dirige aos corajosos comporta também uma nota de desdouro para aqueles que não o foram tanto. Essa exortação do Apóstolo, de que é preciso saber confessar sua fé quando surge a ocasião, ou ao menos não se envergonhar do Evangelho, foi sempre mantida pela Igreja. Em tempos de perseguição, ela jamais admitiu que seus filhos fraquejassem, jamais considerou que o temor das pressões externas servisse de escusa para a covardia. Em 1635, por exemplo, a Congregação para a Propagação da Fé, em Roma, lembrava aos missionários em países islâmicos que não era permitido batizar aqueles que, temendo incorrer em perigos, não se dispunham a professar sua fé exteriormente. Passado mais de um século, a mesma congregação protestava contra a atitude dos católicos que, em terras infiéis, assistiam aos ofícios, mas, por temor aos estrangeiros que assistiam por curiosidade as cerimônias, evitavam todos os sinais que pudessem trair suas convicções interiores.
Finalmente, o próprio Direito Canônico exprime de modo categórico a obrigação que incumbe a todos os católicos de professar exteriormente a sua Fé em dadas circunstâncias. Prescrições severas, julgará o católico moderno, impregnado de laicismo, desta verdadeira traição a Jesus Cristo que é o vírus da laicidade. Contudo, estes princípios da Igreja são muito razoáveis. Ora, aquele que, por temor do sentimento das testemunhas, não professa sua Fé, diminui-se moralmente, pois renega a si mesmo no seu coração, no seu espírito e na sua vontade. Rebaixa-se intelectualmente, pois contraria a Fé, a doutrina da Fé que aprendeu a conhecer e à qual aderiu. Desdenha seus mais profundos sentimentos, aquilo que ama. Finalmente, usa mal da sua liberdade, pois ao invés de escolher o que serve para o seu bem moral, dispersa seus esforços no sentido oposto.
Fala-se muito hoje em dia em distensão da personalidade, em relaxar: é aqui o lugar do respeito humano, a um tempo negação prática e ato pecaminoso. Ao invés de manter-se fiel aos seus deveres religiosos, o sujeito desvia-se do bem soberano e considera apenas o seu interesse humano e sua tranqüilidade pessoal. De resto, quem cede freqüentemente ao respeito humano expõe-se ao risco de perder a Fé. A prática exterior da religião é uma proteção ao assentimento interior. Ceder por respeito humano a todas as modas intelectuais e morais significa muitas vezes dinamitar as proteções interiores, engendrando a diminuição da Fé até sua completa ruína.
O medo de mostrar-se cristão exteriormente conduz, a longo prazo, a uma atonia da vida religiosa, com sua conseqüência quase fatal: a dúvida, de início admitida timidamente, em seguida instalando-se definitivamente e minando o assentimento dado ao conjunto das verdades ensinadas pela Igreja. Essa covardia é culpável principalmente por servir de ocasião de escândalo e pedra de tropeço para almas fracas, testemunhas do ato positivo ou negativo ditado pelo respeito humano. O respeito humano é igualmente uma falta para com a Igreja, cuja unidade exterior pode ser comprometida por aquele que não ousa afirmar concretamente as suas convicções. Sua influência exterior, de todo modo, se vê seriamente impedida por isso. Ao invés do contágio benfazejo do exemplo, vê-se produzir o fenômeno inverso; a moleza de alguns avança pouco a pouco e acaba por tomar conta da massa. O pequeno rebanho começa a definhar.
Finalmente, o respeito humano é um ato de irreverência diante de Deus, uma vez que a opinião humana é anteposta ao julgamento divino do Mestre de todas as coisas. A honra devida a Deus certamente exige que a profissão da Fé católica seja, em dados momentos, não apenas privada, mas também pública, sejam quais forem os perigos que possam ameaçar aqueles que permanecem exteriormente fiéis às suas convicções. Aqui, as hesitações, as ambigüidades não são toleráveis, sobretudo quando se trata de se afirmar perante o poder estabelecido.
Essa disposição malsã do respeito humano é freqüentemente ocasião de lamentáveis omissões, mas também leva a atos pecaminosos. É assim que, por respeito humano, muitos se deixam associar mais ou menos timidamente a conversações anti-religiosas que degeneram em zombarias, quando não em blasfêmias. É certo que, sob nenhum pretexto, é permitido praticar atos positivos contrários à lei divina: quaisquer que sejam as circunstâncias atenuantes que ela concede aos cristãos que, por temor, se tenham tornado culpáveis de atos exteriores de idolatria, a Igreja sempre os considerou como lapsi, e sua disciplina foi bastante severa no que lhes concerne.
Precisemos, contudo, que certas circunstâncias podem autorizar um católico a omitir certas práticas prescritas na lei eclesiástica. Se não somos nunca autorizados a negar nossas convicções por atos positivos, não estamos obrigados a exibi-las em certas circunstâncias. Pode mesmo ocorrer casos em que a jactância, a fanfarronice, o desejo de exibir-se sejam mais nefastos à causa que servimos. Mas não é isso o mais freqüente.
Como tão bem escreveu o Pe. de Chivré:
“A nova liturgia gasta seu tempo envergonhando-se da divindade de Cristo, envergonhando-se da sua diferença dos homens: atenua a sua transcendência em textos que já não ousam conservar-lhe o lugar. Envergonha-se de Cristo, sugerindo a todo o tempo e em toda a parte uma hesitação em reconhecer que Ele é o Juiz Soberano, ainda que não ouse negá-lo. Envergonha-se dele escamoteando a razão principal da sua morte: um sacrifício de expiação.
“É, pois, chegada a hora de uma coragem espiritual obrigatória, até às aparências de desobediência que não são outra coisa que uma magnífica obediência a Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Tenhamos um único medo no mundo, o de sermos mudos até a apostasia.”
(L’Acampado, 113. Tradução: Permanência)
”Temos defendido, prossegue a Civiltá, contra os liberais, a nossa maneira especial de escrever, demonstrando sua perfeita conformidade com a caridade que tão constantemente nos recomendam. E visto que até aqui falávamos a liberais, ninguém se surpreenderá com o tom irônico que temos empregado com eles, e convencidos estamos de que não é excesso de crueldade opor com algumas poucas figuras retóricas os ditos e feitos do liberalismo. Mas já que tocamos hoje neste assunto, não será talvez ocioso que, mudando de estilo e repetindo agora o que já noutra ocasião escrevemos com o mesmo propósito, terminemos este artigo com algumas palavras dirigidas seriamente e com todo o respeito aos que, não sendo de modo algum liberais, mas antes firmes adversários do liberalismo, possam todavia crer que jamais é lícito, escreva-se contra quem quer que seja, sair de certas formas de respeito e caridade, às quais julguem não estarem talvez suficientemente submetidos nossos escritos.
“Querendo responder a esta censura, tanto pelo respeito devido a essas pessoas, como pelo interesse de nossa própria defesa. E cremos não o poder fazer melhor, do que brevemente resumindo aqui o que o Pe. Mamachi, da ordem do Pregadores, diz de si mesmo na introdução ao livro III de sua doutíssima obra, Do livre direito da Igreja de adquirir e possuir bens temporais:
“Alguns, diz, embora confessem estar convencidos de nossas razões, declaram-nos contudo amigavelmente que teriam preferido mais moderação nas respostas que damos a nossos adversários. Não temos combatido por nós, mas pela causa de Nosso Senhor e da Igreja, e por mais que nos ataquem com manifestas mentiras e atrozes imposturas, jamais quisemos sair em defesa de nossa própria pessoa. Se empregamos, pois, alguma expressão que possa parecer a alguém áspera ou exagerada, que não se faça a injustiça de pensar que isso provenha de nosso mau coração ou do rancor que tenhamos aos escritores que combatemos; deles não recebemos injúrias, nem sequer os conhecemos ou com eles temos relações. O zelo que devemos ter pela causa de Deus é que nos colocou na situação de gritar e levantar a nossa voz como voz de trompeta.
“Mas, e o decoro do homem honrado? E as leis da caridade? E as máximas e exemplos dos santos? E os preceitos dos apóstolos? E o espírito de Jesus Cristo?
“Calma, aos poucos chegaremos lá. É verdade que os homens pervertidos e enganados devem ser tratados com caridade, mas apenas quando haja fundada esperança de os conduzir à verdade com tal procedimento. Se não há tal esperança, e sobretudo se está provado por experiência que calar-nos e não revelar publicamente a têmpera e o caráter de quem espalha erros redunda em gravíssimo dano aos povos, seria crueldade não levantar com toda a liberdade o grito contra o propagandista, e deixar de lhe dirigir frontalmente as invectivas que bem merece.
“Os Santos Padres, por certo, tinham conhecimento muito claro das leis da caridade cristã. Por isso, o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, no princípio de seu célebre opúsculo Contra os impugnadores da Religião, apresenta Guilherme e seus sequazes (que com certeza não estavam ainda condenados pela Igreja) como ‘inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anticristo, inimigos da salvação do gênero humano, difamadores, semeadores de blasfêmias, réprobos, perversos, ignorantes, imitadores de Faraós piores que Joviniano e Vigilâncio. Por acaso temos nós chegado a tanto?
“Contemporâneo de Santo Tomás foi São Boaventura, que entendeu dever increpar com a maior dureza a Geraldo, chamando-o de insolente, caluniador, louco, ímpio, asno chapado, fraudulento, envenenador, ignorante, embusteiro, malvado, insensato, pérfido. Alguma vez chamamos assim a nossos adversários?
“Muito justamente — prossegue o Pe. Mamachi — é chamado melífluo São Bernardo. Não nos deteremos a copiar aqui o que escreveu durissimamente contra Abelardo. Contentaremo-nos em citar o que escreve contra Arnaldo de Bréscia, pois havendo este levantado bandeira contra o clero, querendo privá-lo de seus bens, foi um dos precursores dos políticos de nossos tempos. Trata-o, pois, o santo doutor de desordenado, vagabundo, impostor, vaso de ignomínia, escorpião vomitado de Bréscia, visto com horror em Roma e abominação na Alemanha, desdenhado do Sumo Pontífice, glorificado pelo diabo, artífice de iniqüidade, devorador do povo, boca cheia de maldição, semeador de discórdias, fabricador de cismas, lobo feroz’.
“São Gregório Magno, repreendendo João, bispo de Constantinopla, lança-lhe à face seu ‘profano e nefando orgulho, sua soberba de Lúcifer, suas néscias palavras, sua vaidade, seu curto talento’.
“Do mesmo modo falaram São Fulgêncio, São Próspero, São Jerônimo, o papa São Sirício, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzeno, São Basílio, Santo Hilário, Santo Atanásio, Santo Alexandre, bispo de Alexandria, os santos mártires Cornélio e Cipriano, Atenágoras, Irineu, Policarpo, Inácio de Antioquia, Clemente, todos os Padres enfim, que nos melhores tempos da Igreja se distinguiram por sua heróica caridade.
“Omitirei os cautérios aplicados por alguns destes aos sofistas do seu tempo, ainda que menos delirantes do que os dos nossos, e agitados de menos ardentes paixões políticas.
“Citarei apenas algumas passagens de Santo Agostinho, que observou ‘que os hereges são tão mais insolentes quanto menos repreensão sofrem; e que muitos, dirigem àqueles que os repreendem os epítetos de brigões e provocadores’. E depois acrescenta: ‘que alguns extraviados devem ser tratados com uma caridosa aspereza’. Vejamos agora como colocava em prática as regras traçadas por ele mesmo. A vários chama sedutores, malvados, cegos, tontos, inchados de soberba, caluniadores; a outros, impostores de cujas bocas só saem monstruosas mentiras, perversos, maledicentes, delirantes, néscios estúpidos, furiosos, frenéticos, espíritos das trevas, rostos desavergonhados, línguas insolentes. E a Juliano lhe dizia: ‘Ou tu calunias de propósito, inventando tais coisas, ou não sabes o que dizes, acreditando em embusteiros’; e noutro lugar o chama de ‘enganador, mentiroso, de juízo insano, caluniador, néscio’.
“Respondam agora nossos acusadores: temos dito alguma vez coisa parecida? E não estamos muito abaixo disto?
“Mas basta já desse extrato, em que não pusemos palavra nossa, apesar de termos omitido algumas do Pe. Mamachi, como a indicação da fonte nas obras dos Santos Padres, com intuito de abreviar. Igualmente, não transcrevemos a parte da defesa, em que o mesmo Padre tira do Evangelho iguais exemplos de caridosa aspereza.
“De tais exemplos, pois, nossos amáveis censores bem podem deduzir que a sua crítica, qualquer que seja o motivo, quer se baseie em um princípio moral ou em regras de conveniência social e literária, encontra-se plenamente refutada pelo exemplo de tantos santos, dos quais alguns foram excelentes literatos, ou, pelo menos que ela fica muito desautorizada e reduzida a um valor muito incerto.
“E se agora, à autoridade dos exemplos quisermos reunir à das razões, muito breve e claramente as expôs o Cardeal Pallavicini, no capítulo II do livro I de sua História do Concílio de Trento. Neste capítulo, antes de começar a provar como Sarpi foi ’perverso, de notória malícia, falsário, réu de enormes traições, depreciador de toda religião, ímpio e apóstata‘, o sábio cardeal diz, entre outras coisas, que ’assim como é caridade não perdoar a vida a um malfeitor, para salvar muitos inocentes, assim é caridade não perdoar a fama de um ímpio, para salvar a honra de muitos bons‘. Toda a lei permite que, para defender um cliente de uma falsa testemunha, se mostre em juízo e se prove tudo o que pode infamar esta última, ato que, em outras circunstâncias, seria castigado com gravíssima pena. Por isso eu, que defendo neste tribunal do mundo, não um cliente particular, mas toda a Igreja Católica, seria vil prevaricador, se não estampasse no rosto das testemunhas falsas as nódoas de infâmia que anulem, ou ao menos enfrequeçam o seu testemunho.
“Se, pois, todos julgariam prevaricador o advogado que, podendo demonstrar que quem acusa seu cliente é um caluniador, não o fizesse por razões de caridade, por que então acusar de ter violado a caridade quem cumpriu seu dever contra os perseguidores de toda espécie de inocência? Seria desconhecer a instrução que dá São Francisco de Sales em sua Filotéia, no final do capítulo XX da 2ª parte: “Faço exceção dos inimigos declarados de Deus e de sua Igreja, os quais devem ser difamados tanto quanto possível (sem faltar com a verdade), sendo grande obra de caridade gritar: ‘o lobo!’, quando está entre o rebanho, ou visível onde quer que se encontre.”
Assim se exprime La Civiltá Cattolica (vol. I, série V, página 27), cujo artigo tem a força de sua elevada e respeitabilíssima origem; a força das razões irrefutáveis que aduz; a força, por fim, dos gloriosos testemunhos que apresenta. Parece-nos que muito menos era preciso para convencer quem não seja liberal, ou miseravelmente contaminado de liberalismo.