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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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A caridade, amor sobrenatural

Hoje em dia, os católicos são solicitados em toda parte. É impossível percorrer uma rua em Paris sem encontrar um pedinte, impossível encontrar um lugar na França onde não haja um estrangeiro pedindo abrigo. Qual é nosso dever de caridade? Perguntam-se os fiéis.

 

Voltemos às definições

Atualmente, todo mundo fala de tudo, mas não é capaz de dar as definições verdadeiras das palavras ou dos conceitos utilizados. Isso é assim de modo eminente para a caridade. Essa bela virtude foi aviltada pelo naturalismo devastador que há três séculos assola o mundo.

Então, o que realmente é a caridade? O catecismo responde assim: “A caridade é uma virtude sobrenatural, infusa por Deus na nossa alma, pela qual amamos a Deus por Ele mesmo acima de tudo, e amamos ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.”

Quatro pontos vão reter a nossa atenção. A caridade é 1) uma virtude sobrenatural; 2) amor; 3) amor a Deus; e 4) amor ao próximo.

 

Virtude sobrenatural

Sabemos pela fé que recebemos duas vidas distintas e concomitantes. A vida natural é a da nossa natureza humana, recebida de nossos pais. O corpo e a alma, a inteligência e a vontade pertencem a essa vida.

Na sua bondade, Deus quis acrescentar à vida da natureza humana uma outra vida: a sua. O que nós chamamos de vida sobrenatural – por exceder as capacidades da natureza – é uma participação na vida divina. Nós chamamos também de vida da graça, porque ela é um dom puro e gratuito que Deus faz ao homem. É uma elevação a uma ordem muito superior à da natureza do homem. Elevação que não destrói em nada a vida natural, mas antes a aperfeiçoa.

Com efeito, ao nos fazer participar da sua vida divina pela graça, nosso Criador nos atribui um fim ou uma felicidade bem maior que aquela que a natureza abandonada a si mesma poderia nos fazer entrever. A realidade dessa vida sobrenatural, à exemplo da vida natural, tem seus componentes. A graça é a essência dela, as virtudes infusas são os seus princípios de ação. Assim como, com nossa natureza humana, possuímos faculdades que nos fazem agir como homens, do mesmo modo, na vida sobrenatural da graça, possuímos princípios de ação que nos fazem agir não mais apenas como homens, mas como filhos de Deus. Eis o que precisamente são as virtudes sobrenaturais.

A caridade é uma virtude sobrenatural. Dito de outra maneira, só pode existir na alma de quem possui a graça, e sua ação é essencialmente sobrenatural. Possuir a caridade, viver da caridade, realizar atos de caridade não são o apanágio do homem na plena posse da sua natureza, e sim algo próprio dos filhos de Deus, dos que vivem em estado de graça.

 

Um certo amor

Mas, o que é essa virtude? Uma virtude é um princípio de ação. Qual é a ação ou o ato da caridade? Trata-se de um amor, mas não de um amor qualquer. Santo Tomás possui longos e belos textos sobre o tema[1]. A caridade é uma amizade.

A amizade é uma forma particular de amor. O amor é uma atração, um apetite por um bem, um movimento que move o amante em direção ao ser amado.

Esse movimento pode se revestir de uma dupla intenção da parte de quem ama. No primeiro caso, o amante quer se apoderar da coisa amada para si mesmo, para o seu próprio bem ou satisfação. Falamos, nesse caso, em amor de concupiscência, termo que não possui aqui nenhuma conotação moral. Quando o leão é atraído pela gazela, trata-se de amor de concupiscência: ele quer a gazela para si. Também é assim com o homem que cobiça uma Ferrari ou a mulher que deseja uma bolsa de pele de crocodilo. 

No segundo caso, o amor se volta para uma pessoa a quem o amante quer o bem. O ser amado não é mais desejado para si, como no amor de concupiscência, mas é amado em si mesmo, para o seu bem. Fala-se então de amor de benevolência, o que significa etimologicamente, de modo perfeito, a realidade desse amor: querer o bem. Assim, os pais têm pelos seus filhos um amor de benevolência, amor pelo qual desejam o bem aos seus filhos.

A amizade é um amor de benevolência, mas um amor de benevolência particular. A amizade acrescenta, com efeito, à benevolência uma reciprocidade: o amante quer o bem do amado e o amado quer o bem do amante.

Todo amor de benevolência não é necessariamente recíproco. O mestre ou o professor tem pelos seus discípulos um verdadeiro amor de benevolência que, infelizmente, nem sempre é retribuído... A amizade, ao contrário, pressupõe a reciprocidade, porque o amigo é amigo do seu amigo!

Essa reciprocidade merece ser explicitada. Com efeito, para que exista uma benevolência recíproca, é preciso que haja uma troca, algo de comum sobre o qual essa reciprocidade vai ser exercida. Dito de outro modo, existe um bem comum, uma comunhão de bens que permite, aos dois amigos, essa troca de amor.

Assim, toda amizade é um amor de benevolência recíproca, fundada em alguma comunhão ou comunicação de um bem.

 

O amor de Deus

Qual é, portanto, a comunicação do bem na caridade?

Santo Tomás responde de modo tão lapidar, que é quase desconcertante! “Portanto, quando há uma comunhão de bens entre o homem e Deus, posto que Deus nos faz partilhar a sua beatitude, resulta que essa partilha implica em uma amizade.”[2]

O bem comunicado é a beatitude de Deus. Dito de outro modo: o bem comunicado é a própria vida de Deus. Eis o que é a caridade. Um amor recíproco entre Deus e o homem fundado na vida divina, que nos é comunicada pela graça!

Quanta riqueza numa simples definição! Antes de mais nada, a caridade é um amor de Deus, amor pelo qual amamos a Deus tal como Ele se ama, posto que Deus é caridade. Que grande mistério, uma reciprocidade entre Deus e sua criatura!

Deus criou em nós a capacidade de amar (eis o porquê desse amor ser sobrenatural, essa capacidade excede nosso simples poder) e de amá-lo tal como Deus é na intimidade da sua vida trinitária (eis outra razão da caridade ser sobrenatural: o seu objeto está fora do nosso alcance, sendo inacessível e incognoscível a nossa vontade e conhecimento). Compreende-se também que, para viver de caridade, é preciso viver da graça, posto que essa última é uma participação na vida divina. Sem a graça, não há caridade, simplesmente porque não há mais nada de comum entre o homem e Deus. O simples fato de amar a Deus como nosso criador não basta tampouco para definir a caridade, posto que ela excede as capacidades da natureza humana, que não alcança a intimidade divina.

Se compreendemos bem em que consiste a caridade, podemos então nos perguntar em que consiste a caridade pelo próximo. Será ela possível, uma vez que a caridade é o amor recíproco entre o homem e Deus?

 

O amor ao próximo

Nosso Senhor, que nada diz em vão, acrescentou este pequeno inciso a propósito do mandamento de amar a Deus: “O segundo é semelhante a este: amarás o teu próximo...”[3]

Tudo está dito com a palavra semelhante! Não há duas virtudes de caridade. Há uma só que consiste em amar a Deus como Ele se ama, e amar a Deus no próximo por Deus e em Deus.

Tudo permanece sobrenatural no amor ao próximo. O que visa a caridade pelo próximo, não é o seu bem estar material, a quantidade de arroz na mesa ou a qualidade das cobertas com que passará a noite. Isso pode até fazer parte, mas não é o principal. O que define a caridade fraterna é a mesma comunicação que existe na caridade com Deus: a beatitude ou a vida de Deus.

Amar ao próximo é desejar-lhe a graça e a vida divina, é entretê-la nele. Amar ao próximo é ver nele a obra de Deus, por vezes ainda não iniciada, mas a ser começada. Amar ao próximo de modo material é predispor-lhe a receber o amor de Deus, pois aí está a felicidade de Deus a que o homem é chamado.

 

Desvio diabólico

Compreende-se bem, por esses desenvolvimentos, como a caridade foi aviltada. O naturalismo é a chave disso. Pois, após passar pelo filtro desse naturalismo, não restou grande coisa da caridade. Fez-se dela uma aptidão puramente humana, um amor humano. Atribuiu-se a ela um objeto humano: o emigrante; ao qual se acrescentou meios humanos: a acolhida. Para cúmulo, deu-se ao homem um fim humano: o globalismo, sob os aspectos do ecologismo e do respeito pela “mãe terra”.

O diabo é o símio de Deus. Nesse caso, sua força consiste em guardar a palavra caridade esvaziando-a de toda substância sobrenatural a fim de fazer dela um humanitarismo. O pior talvez não seja isso. A força do demônio é de fazer com que aquele que deveria agir como Vigário de Cristo esteja hoje a serviço do globalismo.

 

(Le Chardonnet no. 362 – Tradução: Permanência)

 

[1] S.T., IIa IIae, q. 23.

[2] S.T., IIa IIae, q. 23., a. 1.

[3] Mt 22, 34.

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