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Category: EspiritualidadeConteúdo sindicalizado

As revelações de Deus

Quando Deus nos dá a fé, Ele entra em nossa alma e fala ao nosso espírito, não por modo de discurso, mas de inspiração; propondo tão agradavelmente ao entendimento aquilo que é preciso crer, a vontade recebe com isso um grande comprazimento, de tal sorte que ela incita o entendimento a consentir e aquiescer à verdade, sem nenhuma dúvida ou desconfiança, e eis o que é maravilhoso; porque Deus faz a proposta dos mistérios da fé à nossa alma entre obscuridades e trevas, de tal maneira que nós não vemos as verdades, antes só as entrevemos, assim como acontece, às vezes, que a Terra, estando coberta de bruma, não nos permite ver o sol, mas vemos apenas um pouco mais de claridade do lado em que ele está, de modo que, por assim dizer, nós o vemos sem o ver porque, de um lado, não o vemos tanto que possamos propriamente dizer que o vemos e, de outro lado, não o vemos tão pouco que possamos dizer que não o vemos, e é isto que chamamos entrever. E, entretanto, essa obscura claridade da fé, tendo entrado em nosso espírito, não pela força de discurso ou argumentos mas pela simples suavidade de sua presença, se faz crer e obedecer ao entendimento com tanta autoridade, que a certeza que ela nos dá da verdade ultrapassa todas as outras certezas do mundo e sujeita de tal modo a si todo o espírito e todos os discursos deste que eles, em comparação, não têm crédito algum.
 

Sexta-feira das Têmporas do Advento

Comentário de Sto Ambrósio sobre Lc.1,39-47

Costuma ser admitido por todos que para se exigir a fé deve-se apresentar motivos válidos. Assim o anjo, ao anunciar os mistérios escondidos, para motivar a fé, anunciou à Virgem Maria que uma mulher idosa e estéril havia concebido, indicando que Deus pode tudo o que lhe agrada. Quando ouviu isso, não como incrédula diante do oráculo, nem desconfiando do mensageiro, nem duvidando do exemplo, mas alegre pela entrega, religiosa pelo encargo, apressada pelo gozo, parte Maria para a montanha. Para onde parte ligeira, já cheia de Deus, senão para as alturas? A graça do Espírito Santo ignora o peso da lentidão.

Sermão sobre o jejum

O que pode ser mais eficaz do que o jejum? Por sua observância nos aproximamos de Deus e, resistindo ao diabo, triunfamos da sedução dos vícios. O jejum sempre foi um alimento para a virtude. Da abstinência, enfim, procedem os pensamentos castos, a vontade reta, conselhos saudáveis; e pela mortificação voluntária do corpo, damos morte à concupiscência da carne, renovando o espírito pela prática das virtudes.

Mas como a salvação de nossas almas não é conquistada apenas pelo jejum, completemo-lo pela misericórdia para com os pobres. Seja abundante em generosidade o que retiramos ao prazer; que a abstinência dos que jejuam reverta para o alimento dos pobres. Pensemos na defesa das viúvas, no socorro dos órfãos, na consolação dos que choram, na paz aos revoltosos. Que o peregrino seja recebido, que o oprimido seja ajudado, que o nu seja vestido, que o doente seja curado, a fim de que, todos os que oferecerem o sacrifício de nossa piedade, por estas boas obras, a Deus, autor de todos estes bens, mereçam receber Dele, o prêmio do Reino Celeste.

O Fiel depositário

É opinião generalizada e sentir comum entre os homens que o depósito, isto é, um bem que recebemos para guardar, tem qualquer coisa de sagrado e que o devemos conservar para quem no-lo confia não somente por fidelidade mas por uma espécie de sentimento religioso. Por isso o grande Santo Ambrósio nos ensina no livro 29 de seus Ofíciosque era piedoso costume estabelecido entre os fiéis o de trazer aos bispos e a seu clero aquilo que se queria guardar com mais cuidado, para que fosse colocado junto ao altar, em virtude da santa persuasão em que estavam de que não havia melhor lugar para guardar um tesouro do que aquele ao qual o próprio Deus confiou a guarda dos seus, isto é, os santos mistérios.

 

Comunitarismo em lugar da Comunhão dos Santos

 

Creio na Comunhão dos Santos, dizemos no Símbolo dos Apóstolos, que foi o primeiro compêndio de Sagrada Doutrina produzido pelo magistério infalível da Igreja de Cristo. Neste nono artigo do Credo, o objeto da fé revelada é a Comunhão dos Santos, união sobrenatural que existe entre todos os membros da Igreja. Pelos dons de graças que nos vêm do Pai, que para nós transbordaram na Paixão de Cristo, e que em nós operam pelo Espírito Santo, somos todos santos, vocatis sanctis (Rom. I, 7), e unidos formamos um povo santo (I Ped. II, 9). Fomos eleitos por Deus para sermos santos (Ef. I, 4). Ainda que não tenhamos chegado à união transformante que nos dá o direito pleno de dizer, como Paulo, “vivo eu? não! vive o Cristo em mim”, somos desde já participantes desse dinamismo do Corpo Místico, e desde já atuantes na Comunhão dos Santos como operários e como usuários. O primeiro e principal efeito da Comunhão dos Santos é o de tornar os bens espirituais da Igreja comuns a todos os seus membros, e consequentemente o de nos tornar responsáveis em vista do bem comum do povo santo. Unidos pelos vínculos da caridade, vivificados pelo mesmo Sangue, devemos ter bem presente em nossa consciência a idéia da reversibilidade dos méritos e deméritos que decorre da associação em que Deus entrou primeiro com o Sangue de Seu Filho. Devemos saber constantemente que tudo o que fizermos em consonância com a vontade de Deus será lucro comum cuja misteriosa aplicação se realiza dentro da Igreja por ministério dos homens e dos anjos, e tem dimensões de eternidade que ultrapassam todas as cronologias humanas. Podemos assim imaginar, sem sombra de fantasia, que a oração de uma contemplativa que ainda não nasceu, estará diretamente associada aos favores de Deus na vitória de Lepanto, ou no relâmpago de contrição que num segundo, entre o bordo e o abismo, salvou a alma de um suicida; e também podemos pensar que alguma alma desgarrada hoje se salva por intercessão de um grito de Santa Catarina: Gesú dolce, Gesú amore. Mas também, ai de nós, devemos saber conscientemente, constantemente, que cada pecado nosso é um desfalque que cometemos contra todos. E assim como nos apraz pensar que possamos estar direta e pessoalmente associados a uma salvação, convém temer e tremer pela possibilidade de estarmos direta e pessoalmente associados a uma perdição. Terrível e maravilhosa é essa organização sobrenatural que eleva à máxima potência a troca de favores, e à máxima potência a responsabilidade das faltas. Na verdade, para sermos dignos membros do Corpo que se anima com a Graça de Deus devemos ser perfeitos, isto é, devemos ser santos no sentido mais estrito que damos ao termo, quando nos referimos, por exemplo, à necessidade e ao valor do culto de veneração pelos santos que estão no Céu, e que a Igreja nos oferece como modelos mais próximos, e como intercessores que, mesmo na Glória, guardam transfiguradas a ciência e a lembrança de toda a humana miséria.
 

No Sangue

O último artigo entregue por Gustavo Corção ao GLOBO foi publicado com o noticiário sobre sua morte. O texto a seguir, embora estivesse concluído, só foi encaminhado à redação após a morte do escritor, por seus colaboradores.

 

Maria, a nova Eva

Dizemos tudo o que é preciso, ao menos em substância, em relação a Nossa Senhora, quando pronunciamos as duas primeiras invocações da Ladainha: Santa Mãe de Deus, Santa Virgem das Virgens. As palavras Mãe de Deus designam a dignidade única da maternidade divina que situa Nossa Senhora imediatamente depois do Verbo encarnado, seu próprio Filho, acima portanto, de todos os bem-aventurados e de todos os anjos. A precisão Santa, posta antes de Mãe de Deus, nos adverte que Maria foi dignamente preparada para sua missão por uma plenitude de graças e de santidade; que ela preencheu dignamente esta missão com toda consciência e caridade e que fez sua vontade de redenção que lhe manifestara seu Filho desde a visita do arcanjo.

Um Berço Digno do Filho de Deus

Na torre da nossa igreja não temos ainda nenhum sino. No entanto eu os ouço tocar. Lá dentro, no santuário uma imagem de Nossa Senhora muito maior, muito mais rica do que merecemos lembra-nos todos os dias que tudo devemos a ela, que tudo começou num já longínquo 8 de dezembro de 1991, na primeira missa que celebramos em Niterói ainda num salão de festas de um prédio.

Rue du Bac

 

Num recanto de Paris, margem esquerda, quase escondida atrás do Bon Marché, onde trepida toda a variedade do efêmero, há uma rua estreita, um portão abrindo para um pátio que, no fundo, por uma porta à direita também quase escondida abre para uma sombria capela espaçosa onde, em todas as horas, encontramos um permanente contraste: a multidão e o recolhimento. Estamos na Capela das Irmãs da Caridade, 140, Rue du Bac, permanentemente cheia e permanentemente imersa no mais profundo e silencioso recolhimento.
 

O dogma da Assunção

A 15 de agosto, como todo o povo católico sabe, a Igreja comemora a Assunção de Nossa Senhora. Esta festividade litúrgica se situa, no ano eclesiástico, na grande planície que fica entre as grandes festas do Cristo e do Espírito Santo. De Pentecostes até natal há uma espécie de campo juncado de santos mortos que um dia ressucitarão e terão um corpo de glória.

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