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Gustavo Corção (178)

Deus marcou encontro conosco

     

O texto de Gustavo Corção que publicamos aqui é parte de um ciclo de conferências realizadas em Belo Horizonte na década de 1950. Apesar de não estar completo, não deixa de ser um exemplar importante das atividades do grande escritor católico, numa época em que Corção era requisitado para constantes palestras, entrevistas e artigos. Depois o mundo girou, os polos foram deslocados, os homens tornaram-se cúmplices da Revolução num mundo evolutivo e estagnado no nada. Já não lhes interessava a firmeza da verdade e da fé que Gustavo Corção guardou e ensinou até a morte.

Editora Permanência

 

 

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A Igreja do Céu

Gustavo Corção

 

“Em mim reside toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Sou como a roseira plantada à beira das águas”. Ofertório — Nossa Senhora do Rosário

Vale a pena, nestes meses de outubro e novembro, meditar muitas vêzes na Comunhão dos Santos, e especialmente na intercessão daqueles que povoam a Igreja do Céu; e vale a pena consagrar uma especial atenção ao culto de veneração que devemos à Virgem Santíssima, de cujas mãos recebemos as graças de seu Filho para nossa salvação.

Bem sabemos que os tempos são ingratos para esta forma de piedade, tão católica e tão comprovadamente boa. Quase devemos ter força de mártir se quisermos dizer alguma coisa sobre o nono artigo do Símbolo: “creio na Comunhão dos Santos”, e sobretudo se quisermos meditar aos pés de Nossa Senhora. Ai de nós!, o tempo em que vivemos gaba-se de ser comunitário em todos os sentidos, exceto neste que se refere à Comunhão dos Santos; e gaba-se de ser pacífico e fraterno em todos os sentidos, exceto neste que se refere à nossa Mãe. (Continue a ler)

O quarto mandamento

Gustavo Corção

 

I

Uma primeira vista d’olhos sobre o panorama da atualidade, em todo o mundo, nos dá a impressão de uma efervescência sem regras nem rumo. A História, segundo esta primeira impressão, seria uma agitação errática e desordenada de vidas que querem viver seu fugaz momento, movimento browniano de pó de vidas.

Uma análise mais atenta revela-nos, indubitavelmente, linhas-de-história de marcada ascensão humana, e, portanto de marcado propósito de procurar um mundo melhor. Em que sentido? O único que nos parece incontrovertido é o do progresso, pela ciência e pela técnica, do domínio do homem sobre o mundo exterior e interior. Há um indiscutível e admirável progresso nas ciências e técnicas. O homem já vê a distancia, e já pôs o pé na Lua. Nos países mais avançados naquela linha já se entrevê uma melhor divisão dos bens materiais a despeito da atoarda que ainda fazem os revolucionários que assim vêem escapar-lhes das mãos o triunfo da miséria com que exploram a miséria.

O que não se vê, por mais que se queira abrir créditos ilimitados aos fatores materiais da vida humana, é um sinal de verdadeira ascensão humana na efervescência do momento histórico. Ao contrário disso vêem-se tendências contestatórias, torrentes de recusa e de protesto atiradas contra o passado, contra a tradição, CONTRA O PAI. As novas gerações são solicitadas a manifestarem sua maioridade com a bofetada na mãe e a morte do pai.

Essa estranha tendência contrária à lei natural contraria o próprio interesse do homem, trabalha para seu rebaixamento e sua perdição. Não se poderia, pois, pensar que tal inclinação seja normal, e faça parte dos dinamismos da História.

Em nossos dias essa aberração anti-histórica, anti-humana, aparece claramente como obra de uma contracorrente atuante ao arrepio dos mais altos interesses humanos. Essa contracorrente, indecentemente atuante em nosso tempo, vem de movimentos históricos organizados, e reativados nos últimos quatro séculos, com os quais uma caravana de dementes oferece a miragem de um mundo melhor desde que lhes permitam reduzir a pó este mundo mal feito que recebemos de nossos pais.

Quando Largo Caballero tomou as rédeas da Revolução na Espanha em 1936, proclamou: “Nosotros no dejaremos pedra sobre pedra de esta España, que devemos destruir para rehacer la nuestra!”.

Este é o ideal central da Revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para então recrear ex-nihilo. Seus dirigentes são deuses.

Em nossos dias ganham destaque, na turbulência dos eventos, as linhas de contestação do Pai.

***

 

Ora, o Cristianismo é, essencialmente, a Religião em que Deus se revela como Pai. Desde o Antigo Testamento se vê, passo a passo, que a preparação do Advento do Senhor é uma tradição de pai para filho: “Escutai, filhos, a instrução de um pai (...) Eu também fui um filho para meu pai, um filho dócil junto de minha mãe...” (Prov. 4, 1-2). “Não despreza, filho, a correção de Javé, e não tenhas aversão por seus castigos, porque Javé castiga aquele que ama, como um pai castiga o filho predileto” (Prov. 3, 11). E em Isaías: “Vós, Javé, sois nosso Pai, nosso Redentor. Este é o vosso nome desde tempos imemoriais. Por que, Javé, permitis que andemos errantes longe de vossas vias, com o coração endurecido contra o vosso temor?” (Is.53, 16-17).

Mas é no Novo Testamento que ganha todo o esplendor a paternidade de Deus. Desde os abismos de sua vida íntima e trinitária, Deus é Pai, e toda a vida divina procede do Pai e volta ao Pai. Analogamente, para arremate perfeito da Criação, Deus quererá para si todas as criaturas, e muito especialmente quererá a volta daquela criatura feita à sua imagem e semelhança. E envia ao mundo seu Filho Unigênito para resgate dos homens que doravante tornados filhos adotivos no Sangue do Unigênito, possam dizer com pleno direito Abba Pai. E é o próprio Jesus, num dia memorável entre todos os dias, que ensina aos homens a língua com que devem falar a Deus: “Pai Nosso”. Nessas duas palavras estão concentrados todos os mandamentos, porque a primeira diz Pai, e dirige-se a Deus, enquanto a segunda diz nosso e derrama-se em torno de nossos irmãos.

O mundo moderno, nos seus pruridos revolucionários, é anticristão porque é todo orientado por uma soberba rejeição do Pai. E para maior escárnio inventaram uma fraternidade revolucionaria baseada na decapitação do Rei, já que não tinham à mão a própria cabeça do Pai que está no Céu. Não é por mero acaso que a Revolução Francesa escolheu a linguagem das decapitações. Não é por mero acaso, também, que os revolucionários, da nova Igreja, dita “progressista”, exaltam o ídolo do “jovem” liberado definitivamente do 4° Mandamento.

Nós sabemos que toda a grande tradição católica tirou do 4° Mandamento as lições relativas ao princípio de autoridade e de ordem social. E assim, a moderna contestação do 4° Mandamento, pregado abundantemente na era pós-conciliar, não apenas dissolve a família como também a pátria. Toda a noção de ordem, sem a qual não há sociedade politicamente organizada e orientada para o bem-comum, prende-se à fundamental relação Pai-Filho, que o revolucionismo quer destruir.

E é com infinita tristeza, com cansadíssima tristeza que vemos, mais uma vez, o espetáculo da degradação e da impotência dos novos Bispos, ou dos Bispos atualizados, que já não sabem mais nada do tema central de toda a Revelação. Agora mesmo, na nova reunião ou congresso dos Bispos americanos, falou-se no problema da família na América Latina, e logo surgiram frases estereotipadas: os pais precisam dialogar com os jovens, nós temos confiança no jovem, e outras do mesmo quilate. Terá a Igreja Católica perdido o seu diapasão e esquecido o 4° Mandamento, terão seus hierarcas perdido o gosto de dizer Pai, e o gosto de dizer “filho, inclina o ouvido e escuta as palavras de um Pai amoroso...?

Quem passou a vida inteira a ler e reler as palavras de Deus nas Sagradas Escrituras, ou as palavras dos santos na vida da Igreja, não reconhece a mesma Voz nesse linguajar das conferências e congressos episcopais. Mais depressa reconhece o sotaque do velho conhecido lobo.

 

II

Peço ao leitor a paciência de suportar a insistência com que bato na mesma tecla: o nervo de toda a subversão e de toda a agitação que se observa hoje no mundo católico, especialmente no clero, é o da contestação do Mandamento “honrarás pai e mãe”.

Acima mostramos que este é o eixo da Revolução anticristã que de século em século se avoluma. A frase conhecida de Lacroix: “la democratie est le meurtre du père”, aplica-se melhor à Revolução que, desde a Renascença e a Reforma, pretende trazer ao mundo um novo humanismo liberado do Cristianismo, e, portanto, voltado contra o Cristianismo. Como se não bastasse a contestação de Deus Pai, e o repúdio da tradição e do passado, em favor de um progresso sem entidade idêntica a si mesma e capaz de aperfeiçoar-se sem deixar de ser o que é, ainda inventaram os homens, nas instâncias psicológicas, uma idéia de paternidade opressiva que representasse a consciência moral. E assim, em todos os níveis, a idéia de paternidade é demolida para que o novo homem, filho sem pai, possa realizar sua liberação total.

Dentro do mundo católico, esse monstro produziu aberrações que nem sempre parecem diretamente ligadas ao grande ideal parricida. Uma dessas aberrações é a frenética promoção d’O JOVEM. À primeira vista parece simpática, otimista e esperançosa essa exaltação da juventude; melhor reflexão, todavia, revela sua falsidade, e então o que parecia auroreal e otimista torna-se lúgubre e até obsceno. Tomemos por exemplo a frase “eu tenho confiança no jovem” de que muitos Padres e Bispos não conseguiram escapar. Essa frase parece uma proposição inofensiva, um sorriso, uma amabilidade, uma generosidade; na verdade, porém, é uma frase destituída de sentido e carregada das mais dissolventes conotações. De início a proposição é tola porque o jovem, por definição, é algo que ainda não disse ao que veio e, portanto, é alguém de que só posso dizer que tenho esperanças ou inquietações, conforme os sinais que nele observo. Mas dizer que tenho arrematada confiança em quem ainda não deu provas, é dizer um nonsense. A rigor, dos jovens e aos jovens, só podemos dizer com propriedade e sinceridade que cresçam e apareçam.

Com verdadeiro amor só posso dizer aos moços que não tenham tanta jactância de suas imaturidades e que cuidem diligentemente de aprender duas coisas. Primeira – agradecer a Deus e aos homens o que encontraram feito: água nas bicas e no mar, frutos nas árvores e no prato. O primeiro sinal que me predisporá a ter confiança num moço será essa disposição de agradecer. O segundo será a visível disposição de continuar e prolongar o que encontrou.

Ora, a adulação, com que os padres progressistas cercam os moços, só pode produzir o resultado oposto a essas duas virtudes: sim, só pode produzir a fatuidade e a soberba.

Para agradar ao semideus moderno os padres progressistas não recuam diante das mais ousadas iniciativas. Uma delas é a de promoção de “encontros” em que se misturam, com forte densidade, os jovens dos dois sexos.

Pode à primeira vista parecer que esses “encontros” visam principalmente a destruir os tabus do 6° Mandamento. Também isto entra nas cogitações dos aduladores dos jovens, mas o principal objetivo visado é sempre o pai. O pai da Terra e o Pai do Céu.

A exaltação da autonomia dos jovens tende evidentemente a mostrar que qualquer ação normativa e educadora é contrária à liberação do jovem, e, portanto, é contrária ao espírito da nova Igreja, e do mundo novo. Num mundo em que os padres têm horror à paternidade e pervertem os moços tranqüilizando-os e estimulando-os na soberba e na jactância, é fácil prever o desamparo em que ficam os educadores. Em si nunca tal tarefa foi isenta de espinhos. Daí a insistência com que Deus revelou a necessidade de defender essa linha. Dificílima, porém, se tornará a tarefa quando a sociedade em torno da família conspira contra os pais e ainda mais árdua se torna quando, além de faltar o socorro da Igreja, os padres trabalham sofregamente na perversão da juventude. Os pais, transtornados, perdem o pé, e então o anti-pai triunfa e aponta-o como clara demonstração de impotência e de inutilidade. Acelerado o círculo vicioso chega-se ao ponto em que se torna impossível educar.

Numa sociedade assim pervertida os jovens serão “os únicos juízes de seus atos”, como diz com toda ênfase e garbo um dos catecismos aprovados neste País pelas autoridades eclesiásticas que querem corrigir as distorções socioeconômicas das regiões menos favorecidas, mas não mostram nenhum empenho em evitar que os jovens sejam pervertidos por padres revolucionários.

E aqui torno a dizer que não ponho o acento tônico dessa perversão no 6° e sim no 4° Mandamento. Os desvios do 6° Mandamento podem-se explicar por fraquezas sensíveis que estão na linha da natureza das coisas: mas os desvios do 4° Mandamento são obra de um espírito de orgulho que está na origem de todos os desconcertos do mundo.

É horrível o espetáculo que o mundo católico, na área dita progressista, nos proporciona hoje. E a conseqüência não se faz esperar. Sim, senhores Bispos, é preciso ter sempre em mente que as coisas têm conseqüências. Se os jovens são arrancados à autoridade dos pais, cedo ou tarde terão de esbarrar em outro tipo de autoridade mais áspero. Tornados viciados, indisciplinados, revoltados, e eventualmente arrastados pelos agentes da subversão até a ação direta do terrorismo, os mesmos jovens adulados e caramelados pelos ávidos padres terão de esbarrar na repressão policial que é mais dura do que os pitos e conselhos do pai.

Eu não chego a dizer que os padres progressistas promotores de jovens tenham desde o início o desejo de transformar seus amiguinhos em criminosos, mas não hesito em pensar que é isto, precisamente, que o Demônio espera desses padres.

E agora que leio nos jornais que os senhores Bispos da América Latina concluíram que, para a restauração da família, é necessário que os pais entrem em diálogo com os filhos. Sim, diálogo, conversa, tolerância, mas não palavra de pai amoroso que quer o bem de seu filho. Para esse tipo de relacionamento entre pai e filhos não podemos contar com as reuniões episcopais.

 

 

Revista Permanência, setembro de 1973, n° 59, Ano VI.

Natal

Mudei eu ou mudou o Natal?” — perguntou Machado a seus botões que deixaram a pergunta famosa mas sem resposta. Por eles, ao longo do tempo sugeriram respostas várias em torno do eterno tema da não-eternidade das coisas, e creio que ninguém deu a única resposta aceitável: Não mudara o Natal nem mudara o homem. O Natal continua a ser o invariável, o inoxidável mistério da natividade de Jesus, o Natal embora engatado nas engrenagens das órbitas e dos calendários permanece imóvel, idêntico a si mesmo.

Também o homem não mudou na sua frágil versatilidade e assim permanece no incerto não permanecer, correndo atrás da própria sombra ou do próprio vento. E é aqui nesta coincidência de duas tão diversas permanências que reside toda a aflição do homem e todo o incompreensível mistério do Natal. Porque o Natal não muda para que o homem mude. Sim, esta é a primeira e fundamental mensagem do Natal trazida pelo Percursor. João Batista anunciava o advento do constante, do Permanente, do Imóvel, e chamava para que os homens mudassem.

Como assim? Então é preciso o profeta clamar para que o inquieto coração do homem mude de ritmo, de direção, de desejo? Não, em verdade ninguém precisa aconselhar o homem a ser cambiante e instável, por si mesmo ele não pára de dançar e mudar. Mas o que o Natal veio ensinar foi justamente a mudança do mudar. Sim, veio ensinar que não podemos parar, que não podemos interromper a conversão, a mudança de vida, a penitência ou metanóia ensinada pela voz que clamava no deserto. A permanência que o natal nos ensina é a permanente ascensão, a permanente conversão. Ou é a permanente e progressiva gestação do Menino Jesus que quer nascer em nós como nasceu no seio da Virgem sempre Virgem.

A verdadeira participação do Natal é essa em que, de uma incomparável maneira, realizamos no mesmo ato uma imitação de Cristo e uma imitação de Maria. Tudo o mais, ainda que multipliquemos todos os recursos da humana ternura, será de festa de solidariedade humana, será data planetária, será efeméride, mas não é Natal. Sem a dócil obediência de Maria não há receptividade para o nascimento de Jesus em nós. O solene Natal cantado pela Igreja, com ressonâncias de todos os séculos, com ecos dos brados de João Batista e do cântico de Maria, só deseja de nós o trabalho, a conversão que nos torne mais humildes e mais puros, ou mais filhos de Maria, para termos com ela parte do prodigioso mistério que nos torna de algum modo mães de nosso Pai.

Tudo isto resolve as arrumações habituais do mundo, e é para revolvê-las, para trazer a mais revolucionária notícia de uma outra ordem, de uma nova dimensão, que a Igreja anuncia a vinda do Senhor como outrora, João Batista anunciou.

É terrível pensar que o mundo inteiro, em grossa e maciça maioria, mesmo nos povos que se dizem cristãos, fizera do Natal de Jesus e Maria uma festividade espessa e grosseira. Por isso mesmo o clamor litúrgico de nossa Mãe tem, nos tempos que correm, o patético timbre do grande anunciador da mudança essencial, da única que entre tantas e tantas reviravoltas, não queremos fazer.

Quem és?” perguntaram a João, filho de Zacaria. Disse-lhes ele: “Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai os caminhos do Senhor”.

E aí está: o Natal não muda, para que nós mudemos o nosso vão mudar.

 

PERMANÊNCIA, N° 62, Dezembro de 1973.

Mundo, mundo...

Gustavo Corção

Entre os belos Cantos Eucarísticos do grande poeta místico que foi Santo Tomás de Aquino, vêm-nos à memória estes versos.

Solum expertus potest scire

quid sit Jesum diligere

Traduzimos, sem sabermos traduzir o sabor original: “Somente aqueles que o experimentaram podem saber o que seja o amor de Jesus”. Ou, “somente os que por experiência sabem...”.

Todos os mestres místicos ensinaram que a contemplação infusa é uma “quase experiência de Deus”. Por que “quase”? Este termo parece restritivo, e portanto impróprio para definir a mais alta de todas as aventuras da alma humana, a subida do Carmelo ou do Calvário, nas pegadas de um Deus que por nós se deixou crucificar. É por isso mesmo, aliás, que nunca poderemos encontrar termos próprios para exprimir a sobrenatural aventura. A linguagem dos místicos é inevitavelmente hiperbólica, antitética e metafórica; e é aqui, mais do que na poesia, que se aplica o que disse Rimbaud: que tentava dizer o indizível.

No caso em questão, Santo Tomás ousa empregar o termo “experimentar” quando canta, mas seus discípulos, quando tentam explicar o canto de maior linguagem especulativa, recuam diante do termo que traz sobre si uma pesada carga de conotações empíricas e carnais. E até ensinam que na subida do Caminho da perfeição o desejo de experiências sensíveis, sejam elas embora feitas do mais piedoso afeto, constituem pedras de tropeço, e até às vezes atrasos e retrocessos, porque nelas a alma se demora e se compraz no sabor e nas consolações de tal afeto. Ora, não foi este o exemplo que Jesus nos deixou na subida do Calvário. A subida mística só se fará se deixarmos para trás o lastro de terra e de carne, e se, corajosamente, aceitarmos a purificação da noite dos sentidos. Daí se explica a reserva dos mestres quando falam mais na pauta especulativa do que naquela da “experiência” ou “superexperiência” vivida na união com Deus.

* * *

Mas agora, caído em mim de tais alturas que tanto desejara ter alcançado, e das quais só ouso falar com ciência de empréstimo e de desejo, imagino o leitor a interpelar-me: — A que vêm todas essas considerações em torno da experiência mística, e dos cantos eucarísticos de Santo Tomás, quando falávamos da agonia da Espanha, e esperávamos comentários das efervescências nacionais em torno da denúncia em boa hora levantada por Dom Sigaud sobre a infiltração comunista na CNBB?

* * *

Na verdade, leitor, tudo o que toca nossa Santa Religião tem aquela marca antitética da Cruz. O belo canto eucarístico de Santo Tomás nos veio por antítese da matéria ingrata que se impõe à nossa consciência como dever de testemunho. O fato é que daquele canto de amor (somente quem o provou sabe o sabor que tem o amor de Jesus) veio-nos, num contraste abismal, a idéia horrível da “experiência” que o mundo vem fazendo, e a cujas infinitas conseqüências o mundo dia a dia se entrega com uma apavorante submissão: a experiência do mal erigido em sistema ou se quiserem, a experiência do ódio de Satã. É verdade que somente no inferno terão as almas perdidas a ciência mais exata do que seja o ódio de Satã. Mas o fato é que aqui, na terra, neste belo planeta azul que talvez seja o único habitado por seres racionais, capazes de louvar a Deus, e capazes de recusar seus dons, a humanidade já teve várias amostras daquele ódio, e várias vezes já assistiu ao espetáculo da maldade erigida da glorificação. O mundo encheu-se de saber, de saborear os horrores de que recentemente foram capazes os nazistas em torno de uma idéia; o mesmo mundo encheu-se de saber, de experimentar os horrores praticados pelos anarquistas e comunistas em torno de uma idéia.

Houve tempo em que, com raríssimas exceções, o mundo inteiro julgou que Hitler e seus companheiros tinham atingido a máxima crueldade jamais praticada oficialmente e sistematicamente por um regime; atrás da aparatosa e triunfal crueldade do nazismo, seu cúmplice monstruoso esteve agachado, eclipsado, taciturno e ignorado.

Tenho para mim que tais maldades organizadas e coletivas ultrapassam as forças humanas e não são praticáveis sem a ajuda de Satã; não dispondo, porém de um meio de medir, em unidades satanométricas, o grau de satanismo em cada caso, não sei qual dos dois monstros foi em si mesmo o pior, mas hoje não hesito em declarar que, para o mundo, e para o desenrolar do século o comunismo foi e continua a ser a pior das experiências políticas feitas e ainda descaradamente proposta aos homens. Como se explica então que tal hedionda evidência não seja reconhecida universalmente? A razão de tal cegueira, que é cômica numa nação rica, forte e engenhosa, como os Estados Unidos, e que é trágica sem deixar de ser cômica nas hierarquias eclesiásticas, talvez esteja nos quatro ou cinco séculos de humanismo liberal, mais ou menos integral, que afastou de Deus uma humanidade voltada e fechada sobre si mesma. Ora, os homens que se afastam e se tornam insensíveis às “experiências” do amor de Deus, no mesmo passo se tornam insensíveis àquelas do Demônio: e por isso serão capazes de abrir os braços ao comunismo com o entusiasmo que se observa nas Conferências Episcopais, e são capazes de aplaudir o humanismo ateu com a ardorosa e declarada simpatia que, para nossa infinita tristeza, ficou registrada entre os pontos notáveis deste brilhante século em que os homens demonstraram tão extraordinária faculdade nas experiências dos átomos... E é em nome dessa Ciência que dia a dia se acelera a desintegração de um mundo que já foi cristão.

 

O GLOBO — 23/04/1977

As virtudes militares

A expressão é de Charles Péguy, que o mundo inteiro, por um monumental equívoco tomava por socialista, e que, para dar desmentido, morreu como herói na defesa da Pátria. Trago-a à tona da atualidade por causa do Chile, e da necessidade urgente que o mundo moderno tem desse precioso antibiótico.

Na semana passada assisti à missa celebrada pelo Cardeal D. Eugênio Salles na Igreja da Santa Cruz dos Militares, cuja irmandade festejava seu 350° aniversário. Quem fez a belíssima homília foi D. Antônio de Almeida Moraes, Arcebispo de Niterói, que, depois de uma preliminar alusão à efeméride festejada, ressaltou o papel de especial destaque representado nos evangelhos por um soldado romano. Todos conhecem a passagem (Mt. VIII,8 e Lc. VII,1) em que se aproxima de Jesus um centurião pedindo-lhe a cura de seu servo que estava paralítico, e quando Jesus promete ir, responde-lhe então o centurião:

— “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e meu servo se curará. Porque eu sou um subordinado, mas abaixo de mim tenho soldados e quando digo a um destes “—Vá”, ele vai, e quando digo a outro: “—Vem”, ele vem ; a outro: “—Faça isto”, ele faz. Ouvindo Jesus estas palavras, admirou-se e disse aos que o seguiam: — Em verdade vos digo que em todos os israelitas não encontrei quem falasse com tanta fé”.

Note-se antes de mais nada estas simples palavras: “E Jesus admirou-se”. No subseqüente elogio vê-se esta coisa que a muitos modernos parecerá assombrosa: o personagem que em todos os evangelhos recebeu o mais alto elogio de Jesus foi um militar romano, isto é, um militar da potência estrangeira imperialista que ocupava a Palestina. Além disso, cumpre ainda lembrar que a profissão de Fé do centurião se incorporará à Sagrada Liturgia, e será repetida em todas as missas do mundo até o fim dos tempos. Quem jamais terá merecido tamanha honra?

Para bem frisar o agrado com que Deus vê os soldados que encarnam na profissão a santa virtude da obediência, Dom Antônio lembrou ainda outro testemunho de um soldado romano. Estamos no momento em que culmina a obra de Jesus, mas para o mundo parece, ao contrário, consumar-se o seu fracasso:

“Era a hora sexta (12 horas) e as trevas cobriram toda a Terra até a hora nona. Escureceu-se o Sol, rasgou-se ao meio o véu do templo, e Jesus clamou: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito. E dizendo isto morreu.” (Lc. XXIII, 44).

Ora, neste instante em que talvez algum dos discípulos duvidassem da vitória de Cristo, nesse momento que convidava à descrença e à idéia de um malogro total, ergue-se a voz de um soldado romano que, glorificando a Deus, disse:

“Verdadeiramente este homem era justo. (...) Todos os seus conhecidos, e as mulheres que o haviam seguido desde a Galiléia, estavam à distância e contemplavam tudo isto.”

Imaginemos a cena: no centro da escuridão a Cruz entre as cruzes do bom e do mau ladrão; ao longe as mulheres fiéis, perto da Cruz,  Nossa Senhora, e do outro lado com os olhos volvidos ao céu o centurião da potência estrangeira é incumbido por Deus para nos representar com seu testemunho, e para os encorajar quando na vida nos parecer que o Sol escureceu, que a cortina do Templo se rasgou, e que, perdidos na escuridão, nós somos as mais desgraçadas das criaturas. Valha-nos nesta hora o santo soldado desconhecido que creu precisamente na escuridão da Fé.

É conhecida a história da conversão do santo Charles Foucauld, e sabida a influência instrumental regeneradora das virtudes militares na sua salvação e na sua santificação. É narrada por Jacques Maritain, numa de suas mais belas páginas, a conversão de Psichari, o neto de Renan, inimigo declarado do Cristianismo. Também esse transviado nas trevas do mundo, como Charles Foucauld, compreendeu, por uma fulgurante graça de Deus, que devia enquadrar-se numa casa de obediência, onde o centurião diz vai! e o soldado vai; diz vem! e o soldado vem! Com a cabeça raspada, nos serviços da cantina, no exercício da obediência, Ernest Psichari compreendeu que salvava o depósito da Fé de seu batismo.

Agora é numa revista ilustrada francesa (Paris Match, junho, 23,73) que vemos três belos moços na capa a nos sorrirem como os heróis das Cruzadas e os anjos das catedrais, e a nos dizerem para dar o sangue e a vida pela pátria”.

...Um desses moços, na entrevista dada à revista, disse que a decisão firme de escolher Saint-Cyr, e de tornar-se soldado da França, foi a desordem de 1968. Quando maior era a escuridão, quando todos sentiam desânimo, viera-lhe aquela inspiração: ele escolhia uma vida, um testemunho que enfrentasse aquela onda.

Vive-se uma vez só. Vivamos dignamente, vivamos com pureza, e assim ofereçamos todos os bens particulares, saborosos e legítimos, pelo serviço as Pátria, que é um símbolo do serviço de Deus.

Compreende-se assim o horror, o ódio que a torrente revolucionária e inimiga de Deus e do homem tem do soldado. Compreende-se o empenho com que sempre procuraram destruir e desmoralizar as virtudes militares. E também se compreende que, nesta hora de trevas em que vivemos, só se salvará a civilização, a decência e a grandeza da vida humana se se multiplicarem os moços capazes do testemunho da verdade dado pelo centurião diante da Cruz. Precisamos de moços que militem com votos monásticos ou com virtudes militares. Precisamos de opções vigorosas e verdadeiras. E é por isso que senti um calor de animação nova quando li as notícias do Chile, quando ouvi o sermão na Igreja da Santa Cruz dos Militares, e quando vi o sorriso dos moços de Saint-Cyr.

 

Revista Permanência, Novembro de 1973, N° 61.

A imortalidade

Gustavo Corção

 

A imortalidade de que se fala nas academias, ou nos comentários tecidos em torno de um grande morto, como acontece agora com Hemingway, é aquela que Augusto Comte chamava de imortalidade subjetiva, e que consiste na sobrevivência, não da pessoa, mas das obras e dos passos. Essa imortalidade comporta graus, conforme seja maior ou menor o rumor que o finado tenha feito em torno de si. Há nomes sonoros que ficam na lembrança dos povos por séculos e séculos, enquanto outras vidas mais leves, mais silenciosas e cinzentas logo se apagam, às vezes no próprio mundo familiar. Lembra-me aqui um amigo que morreu deixando um magro legado de ressonâncias. Tão obscuro, tão pouco conseqüente fora que até um dia aconteceu-me, encontrando a viúva, abrir a boca para perguntar notícias do Belmiro, já morto, mais morto do que um prego de caixão de defunto como dizia Dickens. Calei-me a tempo quando recapitulei rapidamente a história póstuma do amigo. Deixara filhos e viúva, mas por uma ironia da sorte a viúva recebeu uma herança, empregou-se num desses cargos em que se ganha muito e pouco se faz, como tantos há nesta República, e assim a família conheceu melhor padrão nos dias de luto. Um ano depois a viúva namorava um guapo peruano que acabou de apagar na memória de todos a lembrança fugaz do pobre Belmiro. Lembro-me de um pormenor curioso da história do apagamento do Belmiro: um dia, trazendo os filhos para o colégio, de automóvel, entrou de mau jeito, como aliás freqüentemente o fazia, e tirou um pedaço, um pequeno pedaço do pilar do portão. Ficou aquela marca discreta, de que, ao cabo de algum tempo, suponho, só eu conhecia a causa. E sempre que passava por ali, e que via o arranhão na alvenaria, evocava a figura de Belmiro. Um dia, veio um pedreiro, recompôs o pilar, e com essa pá de cal desapareceu o último vestígio interessante de uma vida vivida meio século.

Creio que a ninguém escapa o ridículo que sempre acompanha esta tal imortalidade subjetiva, mesmo quando a figura imortalizada é imponente e o traço deixado na casca do planeta é um pouco maior do que um risco na cal. Ainda outro dia estive a ruminar meditações deste tipo diante de uma estátua que o escultor concebera e realizara em atitude oratória e que, exposta ao aguaceiro, tinha um aspecto lamentável.

Entretanto, apesar dessa carga de ridículo, a humanidade se obstina em guardar as lembranças dos mortos, e nós mesmos, se nos sondarmos com lealdade, descobriremos um esquisito desejo de sobrevivência na memória dos outros. De que nos vale isto? De que me vale meu nome pronunciado aqui ou acolá, com tais ou quais atributos, se eu não estou aqui ou acolá, pessoalmente, sobrevivente?

O fato é que apesar dessa pobreza de significação pessoal, desse caráter acidental, a sobrevivência pelas obras corresponde a um profundo desejo de nosso ser. Ninguém quer passar a vida em branca nuvem. Ninguém quer morrer como o poeta disse que morrem os pássaros. Mas a verdade é que é esse instinto de sobrevivência, digamos horizontal, que nos impede a visão da outra imortalidade, a vertical, a que tem dimensões de eternidade e não dimensões de história, à qual também corresponde um grande anseio de nossa alma, que tem horror à morte, à idéia do aniquilamento da pessoa, e que se insurge em cada caso, diante de cada defunto, como se estivesse vendo um espetáculo de espantosa raridade. O caso é que a alma humana tem profundidades de inconsciência em dois sentidos. Diria até dois hemisférios, um voltado para a terra e outro voltado para o céu. Num desses hemisférios a idéia de imortalidade da alma brilha como uma estrela; no outro, entretanto, levantam-se obstáculos erguidos pelas exigências da sensibilidade. É por isso que nos parece fria e distante a consideração filosófica em torno do asssunto. Disse Edgar Poe que não custou muito a ver que jamais se convenceria de sua própria imortalidade se tivesse de acei­tar as demonstrações filosóficas. Pagando o seu tributo ao empirismo triunfante na atmosfera cultural de seu tempo, Edgar Poe diz brutalmente: «... he (the man) will never be so convinced by the mere abstractions which have been so long the fashion of the moralists of England, of France, and of Germany».

Que quer isto dizer? Será assim tão inoperante, tão pouco convincente a demonstração filosófica? Será a razão tão pobre ou tão fria diante da vida? Na verdade, estamos diante de um problema típico, ou melhor de um tratamento típico dado a um problema espiritual pelo empirismo, podendo ser este da espiritualidade e decorrente imortalidade da alma, ou o da existência de Deus. Quando alguém diz categoricamente que as demonstrações filosóficas não convencem intelectualmente, ele quer dizer que tais demonstrações não satisfazem à sensibilidade. Quer dizer que não sacia a fome, não apazigua o sexo, não tranqüiliza os nervos, não atende em suma a exigências que vêm de todo o dinamismo da sensibilidade. Seria pueril zombar de tais exigências e fazer parada de espiritualidade alambicada e inteiramente despreendida daqueles laços. Mas também é pueril pedir à inteligência um tipo de alimento que não lhe compete preparar. É claro, claríssimo, que ninguém se lembrará de ler uma página filosófica para o pai que chora diante do cadáver do filho. Mas também é claro que nesta mesma hora o pobre pai não entenderia uma demonstração de geometria. Será defeito da geometria? Ou será mais fácil pensar que a situação emocional, sensibilizada, responde pela mo­mentânea incapacidade?

A filosofia é mais difícil do que todas as geometrias juntas, e para se tornar operante e convincente numa alma é preciso que essa alma trabalhe longamente para se desobstruir do empirismo. Assim, a idéia de imortalidade da alma, que vale a pena ser desempatada, tem de ser apresentada ao espírito muito antes da emoção, da perturbação, para que na hora oportuna ela tenha algum valor vital.

Vale à pena desempatar esse problema, e procurar entrever, através de nossos obstáculos, as novas dimensões da eternidade. A imortalidade verdadeira, pessoal, essencial, não se distribui pelas pessoas em graus proporcionados ao sucesso da vida. É ao contrário um atributo da alma espiritual, e portanto um denominador comum de toda a humanidade. E se assim é, segue-se que a sorte do homem, referida aos eixos da eternidade, deveria dominar todas as cogitações da vida terrena, e não estar relegada à categoria de assunto que serve para consolo nas câmaras ardentes e logo em seguida é esquecido. Vale à pena desempatar este pro­blema que nada tem de relativo. Ou somos dotados de alma espiritual ou não somos. Ou somos criaturas com vocação de eternidade, ou não somos. Uma das mais inacreditáveis contradições da condição humana é justamente a do pouco caso com que tratamos as coisas mais relevantes; mas ainda mais espantosa atitude é a daquele que se alegra com a divisão de opiniões em todos os assuntos, inclusive nesses de máxima relevância. E ainda mais incompreensível, nessa progressão geométrica de disparates, é o fato de passar por muito inteligente quem relativiza todas as categorias intelectuais e alegremente desiste de pensar.

Vale à pena tirar a limpo o x da sorte do homem; mas para isto temos de seguir um caminho inteiramente diverso do experimentalismo procurado por Edgar Poe, no conto de onde tiramos a passagem acima transcrita. O caminho da descoberta dos valores de eternidade é o da purificação e o da ascensão da inteligência e da vontade espiritual, e até o da renúncia de qualquer perpetuidade na memória do mundo. Na mente do santo, o mais vertical dos homens, tudo se refere à vida eterna que por sua vez se refere a Deus. Nós outros, por nossos pecados, por nossa gulodice de instantes de vida, pela impureza de nossos critérios, temos apenas lampejos, e às vezes nem a isso damos uma pequena parte de nossa atenção.

(Diário de Notícias 16/7/1961)

Regina sine labe originali concepta

[Nota da Permanência] Dentro das comemorações dos 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição (8 de dezembro de 1854), reproduzimos aqui um editorial da Revista Permanência (que eram escritos por Gustavo Corção). A espiritualidade mariana é sempre a mesma, católica, eterna. Já os desmandos e invenções dos modernistas estavam, naquela época, em sua fase de "destruições". Tudo o que era católico, tudo o que "cheirava a incenso", tudo o que era da Tradição, era simplesmente dilapidado, destruído, chutado, desprezado. Tábula rasa, era o lema dos progressistas. Depois virão outras fases que nos conduzirão à construção do monstro que hoje tenta nos devorar. Porque os modernistas instalados no Vaticano, quando toda a Tradição já estava destruída, construíram uma nova religião que tem uma carapaça pintada com "catolicismos", mas cujo conteúdo, tirado de Vaticano II, já não é mais católico. Este editorial pode parecer defasado na sua crítica aos progressistas, mas não é. O monstro cresceu mas é o mesmo daquela época. "Eis que o diabo, como um leão rugidor, vos cerca querendo vos devorar. Resisti-lhe fortes na Fé" (Ep. de S. Pedro)

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