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Gustavo Corção (175)

Deus marcou encontro conosco

     

O texto de Gustavo Corção que publicamos aqui é parte de um ciclo de conferências realizadas em Belo Horizonte na década de 1950. Apesar de não estar completo, não deixa de ser um exemplar importante das atividades do grande escritor católico, numa época em que Corção era requisitado para constantes palestras, entrevistas e artigos. Depois o mundo girou, os polos foram deslocados, os homens tornaram-se cúmplices da Revolução num mundo evolutivo e estagnado no nada. Já não lhes interessava a firmeza da verdade e da fé que Gustavo Corção guardou e ensinou até a morte.

Editora Permanência

 

 

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A Igreja do Céu

Gustavo Corção

 

“Em mim reside toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Sou como a roseira plantada à beira das águas”. Ofertório — Nossa Senhora do Rosário

Vale a pena, nestes meses de outubro e novembro, meditar muitas vêzes na Comunhão dos Santos, e especialmente na intercessão daqueles que povoam a Igreja do Céu; e vale a pena consagrar uma especial atenção ao culto de veneração que devemos à Virgem Santíssima, de cujas mãos recebemos as graças de seu Filho para nossa salvação.

Bem sabemos que os tempos são ingratos para esta forma de piedade, tão católica e tão comprovadamente boa. Quase devemos ter força de mártir se quisermos dizer alguma coisa sobre o nono artigo do Símbolo: “creio na Comunhão dos Santos”, e sobretudo se quisermos meditar aos pés de Nossa Senhora. Ai de nós!, o tempo em que vivemos gaba-se de ser comunitário em todos os sentidos, exceto neste que se refere à Comunhão dos Santos; e gaba-se de ser pacífico e fraterno em todos os sentidos, exceto neste que se refere à nossa Mãe. (Continue a ler)

As virtudes militares

A expressão é de Charles Péguy, que o mundo inteiro, por um monumental equívoco tomava por socialista, e que, para dar desmentido, morreu como herói na defesa da Pátria. Trago-a à tona da atualidade por causa do Chile, e da necessidade urgente que o mundo moderno tem desse precioso antibiótico.

Na semana passada assisti à missa celebrada pelo Cardeal D. Eugênio Salles na Igreja da Santa Cruz dos Militares, cuja irmandade festejava seu 350° aniversário. Quem fez a belíssima homília foi D. Antônio de Almeida Moraes, Arcebispo de Niterói, que, depois de uma preliminar alusão à efeméride festejada, ressaltou o papel de especial destaque representado nos evangelhos por um soldado romano. Todos conhecem a passagem (Mt. VIII,8 e Lc. VII,1) em que se aproxima de Jesus um centurião pedindo-lhe a cura de seu servo que estava paralítico, e quando Jesus promete ir, responde-lhe então o centurião:

— “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e meu servo se curará. Porque eu sou um subordinado, mas abaixo de mim tenho soldados e quando digo a um destes “—Vá”, ele vai, e quando digo a outro: “—Vem”, ele vem ; a outro: “—Faça isto”, ele faz. Ouvindo Jesus estas palavras, admirou-se e disse aos que o seguiam: — Em verdade vos digo que em todos os israelitas não encontrei quem falasse com tanta fé”.

Note-se antes de mais nada estas simples palavras: “E Jesus admirou-se”. No subseqüente elogio vê-se esta coisa que a muitos modernos parecerá assombrosa: o personagem que em todos os evangelhos recebeu o mais alto elogio de Jesus foi um militar romano, isto é, um militar da potência estrangeira imperialista que ocupava a Palestina. Além disso, cumpre ainda lembrar que a profissão de Fé do centurião se incorporará à Sagrada Liturgia, e será repetida em todas as missas do mundo até o fim dos tempos. Quem jamais terá merecido tamanha honra?

Para bem frisar o agrado com que Deus vê os soldados que encarnam na profissão a santa virtude da obediência, Dom Antônio lembrou ainda outro testemunho de um soldado romano. Estamos no momento em que culmina a obra de Jesus, mas para o mundo parece, ao contrário, consumar-se o seu fracasso:

“Era a hora sexta (12 horas) e as trevas cobriram toda a Terra até a hora nona. Escureceu-se o Sol, rasgou-se ao meio o véu do templo, e Jesus clamou: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito. E dizendo isto morreu.” (Lc. XXIII, 44).

Ora, neste instante em que talvez algum dos discípulos duvidassem da vitória de Cristo, nesse momento que convidava à descrença e à idéia de um malogro total, ergue-se a voz de um soldado romano que, glorificando a Deus, disse:

“Verdadeiramente este homem era justo. (...) Todos os seus conhecidos, e as mulheres que o haviam seguido desde a Galiléia, estavam à distância e contemplavam tudo isto.”

Imaginemos a cena: no centro da escuridão a Cruz entre as cruzes do bom e do mau ladrão; ao longe as mulheres fiéis, perto da Cruz,  Nossa Senhora, e do outro lado com os olhos volvidos ao céu o centurião da potência estrangeira é incumbido por Deus para nos representar com seu testemunho, e para os encorajar quando na vida nos parecer que o Sol escureceu, que a cortina do Templo se rasgou, e que, perdidos na escuridão, nós somos as mais desgraçadas das criaturas. Valha-nos nesta hora o santo soldado desconhecido que creu precisamente na escuridão da Fé.

É conhecida a história da conversão do santo Charles Foucauld, e sabida a influência instrumental regeneradora das virtudes militares na sua salvação e na sua santificação. É narrada por Jacques Maritain, numa de suas mais belas páginas, a conversão de Psichari, o neto de Renan, inimigo declarado do Cristianismo. Também esse transviado nas trevas do mundo, como Charles Foucauld, compreendeu, por uma fulgurante graça de Deus, que devia enquadrar-se numa casa de obediência, onde o centurião diz vai! e o soldado vai; diz vem! e o soldado vem! Com a cabeça raspada, nos serviços da cantina, no exercício da obediência, Ernest Psichari compreendeu que salvava o depósito da Fé de seu batismo.

Agora é numa revista ilustrada francesa (Paris Match, junho, 23,73) que vemos três belos moços na capa a nos sorrirem como os heróis das Cruzadas e os anjos das catedrais, e a nos dizerem para dar o sangue e a vida pela pátria”.

...Um desses moços, na entrevista dada à revista, disse que a decisão firme de escolher Saint-Cyr, e de tornar-se soldado da França, foi a desordem de 1968. Quando maior era a escuridão, quando todos sentiam desânimo, viera-lhe aquela inspiração: ele escolhia uma vida, um testemunho que enfrentasse aquela onda.

Vive-se uma vez só. Vivamos dignamente, vivamos com pureza, e assim ofereçamos todos os bens particulares, saborosos e legítimos, pelo serviço as Pátria, que é um símbolo do serviço de Deus.

Compreende-se assim o horror, o ódio que a torrente revolucionária e inimiga de Deus e do homem tem do soldado. Compreende-se o empenho com que sempre procuraram destruir e desmoralizar as virtudes militares. E também se compreende que, nesta hora de trevas em que vivemos, só se salvará a civilização, a decência e a grandeza da vida humana se se multiplicarem os moços capazes do testemunho da verdade dado pelo centurião diante da Cruz. Precisamos de moços que militem com votos monásticos ou com virtudes militares. Precisamos de opções vigorosas e verdadeiras. E é por isso que senti um calor de animação nova quando li as notícias do Chile, quando ouvi o sermão na Igreja da Santa Cruz dos Militares, e quando vi o sorriso dos moços de Saint-Cyr.

 

Revista Permanência, Novembro de 1973, N° 61.

A imortalidade

Gustavo Corção

 

A imortalidade de que se fala nas academias, ou nos comentários tecidos em torno de um grande morto, como acontece agora com Hemingway, é aquela que Augusto Comte chamava de imortalidade subjetiva, e que consiste na sobrevivência, não da pessoa, mas das obras e dos passos. Essa imortalidade comporta graus, conforme seja maior ou menor o rumor que o finado tenha feito em torno de si. Há nomes sonoros que ficam na lembrança dos povos por séculos e séculos, enquanto outras vidas mais leves, mais silenciosas e cinzentas logo se apagam, às vezes no próprio mundo familiar. Lembra-me aqui um amigo que morreu deixando um magro legado de ressonâncias. Tão obscuro, tão pouco conseqüente fora que até um dia aconteceu-me, encontrando a viúva, abrir a boca para perguntar notícias do Belmiro, já morto, mais morto do que um prego de caixão de defunto como dizia Dickens. Calei-me a tempo quando recapitulei rapidamente a história póstuma do amigo. Deixara filhos e viúva, mas por uma ironia da sorte a viúva recebeu uma herança, empregou-se num desses cargos em que se ganha muito e pouco se faz, como tantos há nesta República, e assim a família conheceu melhor padrão nos dias de luto. Um ano depois a viúva namorava um guapo peruano que acabou de apagar na memória de todos a lembrança fugaz do pobre Belmiro. Lembro-me de um pormenor curioso da história do apagamento do Belmiro: um dia, trazendo os filhos para o colégio, de automóvel, entrou de mau jeito, como aliás freqüentemente o fazia, e tirou um pedaço, um pequeno pedaço do pilar do portão. Ficou aquela marca discreta, de que, ao cabo de algum tempo, suponho, só eu conhecia a causa. E sempre que passava por ali, e que via o arranhão na alvenaria, evocava a figura de Belmiro. Um dia, veio um pedreiro, recompôs o pilar, e com essa pá de cal desapareceu o último vestígio interessante de uma vida vivida meio século.

Creio que a ninguém escapa o ridículo que sempre acompanha esta tal imortalidade subjetiva, mesmo quando a figura imortalizada é imponente e o traço deixado na casca do planeta é um pouco maior do que um risco na cal. Ainda outro dia estive a ruminar meditações deste tipo diante de uma estátua que o escultor concebera e realizara em atitude oratória e que, exposta ao aguaceiro, tinha um aspecto lamentável.

Entretanto, apesar dessa carga de ridículo, a humanidade se obstina em guardar as lembranças dos mortos, e nós mesmos, se nos sondarmos com lealdade, descobriremos um esquisito desejo de sobrevivência na memória dos outros. De que nos vale isto? De que me vale meu nome pronunciado aqui ou acolá, com tais ou quais atributos, se eu não estou aqui ou acolá, pessoalmente, sobrevivente?

O fato é que apesar dessa pobreza de significação pessoal, desse caráter acidental, a sobrevivência pelas obras corresponde a um profundo desejo de nosso ser. Ninguém quer passar a vida em branca nuvem. Ninguém quer morrer como o poeta disse que morrem os pássaros. Mas a verdade é que é esse instinto de sobrevivência, digamos horizontal, que nos impede a visão da outra imortalidade, a vertical, a que tem dimensões de eternidade e não dimensões de história, à qual também corresponde um grande anseio de nossa alma, que tem horror à morte, à idéia do aniquilamento da pessoa, e que se insurge em cada caso, diante de cada defunto, como se estivesse vendo um espetáculo de espantosa raridade. O caso é que a alma humana tem profundidades de inconsciência em dois sentidos. Diria até dois hemisférios, um voltado para a terra e outro voltado para o céu. Num desses hemisférios a idéia de imortalidade da alma brilha como uma estrela; no outro, entretanto, levantam-se obstáculos erguidos pelas exigências da sensibilidade. É por isso que nos parece fria e distante a consideração filosófica em torno do asssunto. Disse Edgar Poe que não custou muito a ver que jamais se convenceria de sua própria imortalidade se tivesse de acei­tar as demonstrações filosóficas. Pagando o seu tributo ao empirismo triunfante na atmosfera cultural de seu tempo, Edgar Poe diz brutalmente: «... he (the man) will never be so convinced by the mere abstractions which have been so long the fashion of the moralists of England, of France, and of Germany».

Que quer isto dizer? Será assim tão inoperante, tão pouco convincente a demonstração filosófica? Será a razão tão pobre ou tão fria diante da vida? Na verdade, estamos diante de um problema típico, ou melhor de um tratamento típico dado a um problema espiritual pelo empirismo, podendo ser este da espiritualidade e decorrente imortalidade da alma, ou o da existência de Deus. Quando alguém diz categoricamente que as demonstrações filosóficas não convencem intelectualmente, ele quer dizer que tais demonstrações não satisfazem à sensibilidade. Quer dizer que não sacia a fome, não apazigua o sexo, não tranqüiliza os nervos, não atende em suma a exigências que vêm de todo o dinamismo da sensibilidade. Seria pueril zombar de tais exigências e fazer parada de espiritualidade alambicada e inteiramente despreendida daqueles laços. Mas também é pueril pedir à inteligência um tipo de alimento que não lhe compete preparar. É claro, claríssimo, que ninguém se lembrará de ler uma página filosófica para o pai que chora diante do cadáver do filho. Mas também é claro que nesta mesma hora o pobre pai não entenderia uma demonstração de geometria. Será defeito da geometria? Ou será mais fácil pensar que a situação emocional, sensibilizada, responde pela mo­mentânea incapacidade?

A filosofia é mais difícil do que todas as geometrias juntas, e para se tornar operante e convincente numa alma é preciso que essa alma trabalhe longamente para se desobstruir do empirismo. Assim, a idéia de imortalidade da alma, que vale a pena ser desempatada, tem de ser apresentada ao espírito muito antes da emoção, da perturbação, para que na hora oportuna ela tenha algum valor vital.

Vale à pena desempatar esse problema, e procurar entrever, através de nossos obstáculos, as novas dimensões da eternidade. A imortalidade verdadeira, pessoal, essencial, não se distribui pelas pessoas em graus proporcionados ao sucesso da vida. É ao contrário um atributo da alma espiritual, e portanto um denominador comum de toda a humanidade. E se assim é, segue-se que a sorte do homem, referida aos eixos da eternidade, deveria dominar todas as cogitações da vida terrena, e não estar relegada à categoria de assunto que serve para consolo nas câmaras ardentes e logo em seguida é esquecido. Vale à pena desempatar este pro­blema que nada tem de relativo. Ou somos dotados de alma espiritual ou não somos. Ou somos criaturas com vocação de eternidade, ou não somos. Uma das mais inacreditáveis contradições da condição humana é justamente a do pouco caso com que tratamos as coisas mais relevantes; mas ainda mais espantosa atitude é a daquele que se alegra com a divisão de opiniões em todos os assuntos, inclusive nesses de máxima relevância. E ainda mais incompreensível, nessa progressão geométrica de disparates, é o fato de passar por muito inteligente quem relativiza todas as categorias intelectuais e alegremente desiste de pensar.

Vale à pena tirar a limpo o x da sorte do homem; mas para isto temos de seguir um caminho inteiramente diverso do experimentalismo procurado por Edgar Poe, no conto de onde tiramos a passagem acima transcrita. O caminho da descoberta dos valores de eternidade é o da purificação e o da ascensão da inteligência e da vontade espiritual, e até o da renúncia de qualquer perpetuidade na memória do mundo. Na mente do santo, o mais vertical dos homens, tudo se refere à vida eterna que por sua vez se refere a Deus. Nós outros, por nossos pecados, por nossa gulodice de instantes de vida, pela impureza de nossos critérios, temos apenas lampejos, e às vezes nem a isso damos uma pequena parte de nossa atenção.

(Diário de Notícias 16/7/1961)

Regina sine labe originali concepta

[Nota da Permanência] Dentro das comemorações dos 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição (8 de dezembro de 1854), reproduzimos aqui um editorial da Revista Permanência (que eram escritos por Gustavo Corção). A espiritualidade mariana é sempre a mesma, católica, eterna. Já os desmandos e invenções dos modernistas estavam, naquela época, em sua fase de "destruições". Tudo o que era católico, tudo o que "cheirava a incenso", tudo o que era da Tradição, era simplesmente dilapidado, destruído, chutado, desprezado. Tábula rasa, era o lema dos progressistas. Depois virão outras fases que nos conduzirão à construção do monstro que hoje tenta nos devorar. Porque os modernistas instalados no Vaticano, quando toda a Tradição já estava destruída, construíram uma nova religião que tem uma carapaça pintada com "catolicismos", mas cujo conteúdo, tirado de Vaticano II, já não é mais católico. Este editorial pode parecer defasado na sua crítica aos progressistas, mas não é. O monstro cresceu mas é o mesmo daquela época. "Eis que o diabo, como um leão rugidor, vos cerca querendo vos devorar. Resisti-lhe fortes na Fé" (Ep. de S. Pedro)

V

VATICANO II
"SANTO DEUS! Esses mesmos autores de tal otimismo que tanto lisonjeiam o mundo e tantas vezes disseram quere acomodar as coisas da Igreja às exigências da mentalidade contemporânea, ao que parece, não se detiveram a bem observar o testemunho que ele — este bravo novo mundo — dá de si mesmo. Sim, depois de todas as conquistas da ciência e as mais inebriantes experiências de todas as liberdades, e de todas as perversidades, o espetáculo que vemos é o do planisfério de um imenso desespero.
 
"Está nas caras, nos braços caídos. Nas pernas moles. Nos cabelos sujos e emaranhados. Nos olhos alucinantes. E está nos fatos, nos atos, nos costumes. Nos divórcios fáceis. No aborto legal. Na procura das evasões pelos psicotrópicos que são uma espécie de suicídio à prestação. As famílias se decompõem, a intemperança cresce dia a dia, prendendo os homens às coisas de barro e à coisinhas que inventaram. E por cima deste mundo de liberdade em decomposição, uma atmosfera de impostura feita pela primeira vez na história por uma "civilização" que, como principal exigência, quer a negação de Deus. Ora, Santo Deus! Diante de tal quadro vemos três mil bispos a aplaudir, a sorrir, a encorajar: estejam à vontade, cada um é senhor de sua sorte, estejam a gosto..."
(Um texto singular, O Globo, 3/9/77, sobre a GAUDIUM ET SPES)
 
VIDA CATÓLICA
Há no mundo uma coisa que poderíamos chamar de tom ou timbre católico: é uma voz que todos conhecemos, e cujo timbre se estende da súplica do mendigo à homilia do bispo. É um acento; um timbre; uma colocação; um sotaque que poucos anos de prática gravam de um modo inconfundível. É um modo de falar que sai naturalmente de um modo de pensar, e que se aprende em pouco tempo porque é o modo próprio e normal para essa raça de homens tocados pelo batismo."
("À Margem de um Discurso", A Ordem, Janeiro de 1947)
 
"O cristão é um espinho fincado à força no mundo. É um soldado do Cristo, do Senhor, do Imperador, portador da Sua cultura, autêntico representante onde quer que esteja, vivendo humilde e vitorioso, entre as formidáveis pressões do mundo e de Deus, na exinanição e na exaltação, defrontando todas as ondas com um ato positivo.
 
"É um mendigo (ele apregoa isso), um decepcionado em cada hora (ele bem o sabe); mas é um mendigo, um decepcionado que recebe cada dia o corpo de Deus."
(Decepções, editorial, A Ordem, Maio de 1942)
 
VIAGENS
"Disse atrás que Pascal explica a maior parte das viagens pelo desejo de buscar assunto e alimento para a vaidade. Viaja-se para obter um diploma, como o de bacharel; ou para aumentar o reservatório de temas. Viaja-se para voltar com carimbos na mala, e com vulcões na memória. Posso imaginar o aventureiro retilíneo que faça exceção, mas não duvido que o caso geral seja este de quem parte para voltar, para trazer a personalidade engrossada.
 
"Mas essa mesma idéia, como tudo que é do homem, tem duas faces. Acho belíssima essa voracidade do homem, e essa capacidade de trazer para casa, para a sala-de-estar, sob as espécies do assunto, as guerras, os terremotos e os ciclones. Por outro lado, porém, acho lúgubre essa avidez de engrossar por fora a ganga do eu, numa capitulação da maior das aventuras, que é a conquista de si mesmo, a descoberta de sua própria alma. Há duas iluminações na face de um Marco Polo: de um lado o brilho ensolarado da boa aventura; de outro a verde lividez do homem que foge de si mesmo."
(Lições de Abismo, 15a. edição, Agir, pág. 190) 
 
VISIBILIDADE DA IGREJA
"Ao contrário do que diziam os autores super-espirituais que chegaram a perturbar a grande Teresa d'Ávila, e que pretendiam ver na Ascensão de Cristo, e na descida do Espírito, uma manobra de Deus para nos livrar da visibilidade do seu Corpo, nós podemos dizer sem receio que Nosso Senhor se tornou ainda mais visível no seu Corpo Místico espalhado pelo mundo. A Igreja é de fato o alastramento universal do Salvador. O sangue derramado é agora estendido, e tinge o mundo inteiro numa prodigiosa iluminura. E a Igreja cresce, como cresce o dia, de "claridade em claridade".
("A Visibilidade da Igreja", A Ordem, Maio de 1951)
 
VOTO OBRIGATÓRIO
"Já que resolvemos abordar este desagradável assunto, é melhor que fique dito tudo que nos pesa. Voltemos pois à expressão "votar disciplinadamente". Em nossa opinião, essa fórmula é obscena [...]
 
"O voto é um ato (um ato moral) com que o cidadão exprime sua livre escolha para o governo da cidade. Faz parte da essência do voto, portanto, a sua liberdade, não sendo possível, disciplinadamente, namorar, casar, passear, entrar para um convento, amar os filhos, venerar os santos e adorar a Deus.
 
"Em compensação, é possível prevaricar disciplinadamente. Prevaricar aos sábados. Prevaricar com método. Porque nesses atos, em que a matéria submete o espírito, a férrea disciplina pode entrar tão bem como numa férrea ajustagem mecânica.
 
"Há evidentemente, uma louvabilíssima disciplina, se por tal entendermos o cumprimento de certas regras da vida comum, como encolher as pernas no bonde, não soltar urros no cinema e não cuspir dos sobrados. Neste caso é possível votar disciplinadamente: trata-se então de chegar cedo ao posto, com seus papéis em ordem, de não ficar meia hora dentro da cabine indevassável e de não entreter com algum mesário conhecido uma inoportuna conversação sobre o calor ou o preço dos gêneros. A esse conjunto de pequenas e preciosas virtudes, filhas da justiça, chamaremos de boa educação e respeito; mas não temos grande relutância em aceitar a denominação de disciplina, se quiserem.
 
"O que relutamos em aceitar é que, disfarçada com o mesmo nome, a disciplina tente penetrar no íntimo dos atos que só valem quando são livres. Um destes é o voto. Voto é voto. É opção; é escolha; é, enfim, um desses atos em que o homem mais fortemente, e com todo agrado de Deus, imprime a marca de seu espírito.
 
"A muitos parecerá que a escolha de um senador seja mesquinha ou ridícula, comparada à escolha de uma esposa, de uma ordem monástica, ou de um Papa. Atrevemo-nos a fazer um paralelo entre todas as eleições, afirmando uma grande piedade por esse desdenhado campo dos atos humanos que estão pedindo santificação. Não achamos a política ridícula e mesquinha senão na medida dos seus erros; como não achamos ridícula a fidelidade e respeito de um esposo por uma pobre mulher que tenha perdido seus encantos; como não achamos ridícula a vigília à cabeceira de um doente; como não achamos indigno do Evangelho e da solicitude cristã nenhum ato humano que seja tentado na linha da justiça.
 
"O voto, por definição, não pode ser disciplinado. Quem receia tão nervosamente o clima da liberdade, ou não observou que todas as modernas formas da tirania apregoam a disciplina; ou então deseja a disciplina precisamente porque deseja a tirania. Deseja uma tirania que lhe seja favorável, e que neutralize e destrua a tirania que lhe é desvantajosa.
 
"Por isso, deveria ser lançado à execração pública quem jamais se atrevesse a pronunciar essa enormidade: votar disciplinadamente. Quem agita essa bandeira não crê no voto; não crê na política de fundamento moral; não crê em senado, deputado e vereador; não crê em democracia; não crê no direito natural, no direito das gentes, nas raízes do direito positivo; não crê na justiça; não crê, simplesmente, na justiça."
(Editorial de A Ordem, março de 1947)

T

TOLERÂNCIA
"A grande doença de nossa época, e principalmente de nosso país, é a da insensibilidade moral travestida em bondade. Todos toleram tudo, e depois se espantam com o antinômico resultado dos vagões de gases."
(Pode-se transigir em religião?, A Ordem, Fevereiro de 1954)
 
"Ah! essa caridade assim definida, eu a vomito! A que aprendi, e tão mal sirvo, soa como bronze e queima como fogo. É paciente, sem dúvida, conforme diz o apóstolo, mas é paciente quando está em jogo o seu próprio interesse, e impetuosa, terrível, colérica, quando vê a injustiça triunfar, quando vê nos postos de mando os que deviam estar na cadeia, quando vê o bem comum mal servido, quando vê o pobre humilhado, o inocente ferido, e sobretudo, sobretudo! quando vê o culpado engrandecido."
(Caridade e caridade, in Dez Anos)
 
"Há inúmeras situações humanas em que a solução acertada é um meio termo. Assim acontece quando, por exemplo, queremos regular o uso dos bens materiais; e assim também acontece quando devemos navegar entre escolhos. Seria, entretanto um erro gravíssimo supor que a boa solução está sempre no meio termo ou na bissetriz. Costuma-se hoje criticar, apostrofar as pessoas que em certas situações de dilema tomam posições extremadas ou radicais. Há também inúmeros casos em que o acerto está num extremo e não no meio. A integridade e a totalidade da Fé estão nesse caso.
 
"A Fé divina constituirá para nós a mais bela e adamantina intolerância; ou a maior das exigências feitas aos homens. Seria insustentável se Deus mesmo, para tanto, não nos desse a força interna, a virtude teologal, visão obscura, mas certa, semente de vida eterna, mas já eternidade diante de Deus. E para nós é especialmente grato lembrarmo-nos de que aparelho, de que obra, nos vêm essa energia espiritual — a Cruz de nosso Salvador."
(Curso de Religião, Cadernos Permanência, 1979)
 
"A propósito de maus e bons mosteiros, escreveu assim o abade de Solesmes: "Um mau mosteiro não é aquele em que os monges cometem muitas faltas; é aquele em que as faltas não são punidas". E eu creio firmemente que o próprio São Bento não diria melhor. Realmente, onde alguns monges cometem muitas faltas pode-se dizer que existem diversos maus monges; mas onde essas faltas não tem conseqüências, são todos que se tornaram maus, sim, maus por indiferença à linha divisória entre o bem e o mal, maus por negação da ordem moral, e sobretudo maus por indiferença ao mal que causa o mal praticado impunemente.
 
"Ora, esse princípio elementar, essa decorrência imediata da Caridade, ou essa exigência primeira da lei moral, não somente está em desuso como também em descrédito. Ninguém corrige, ninguém pune. Nas famílias, nas dioceses, nas universidades, na sociedade civil (...) E quando se esboça um pequeno movimento de reação e de virilidade, surgem logo os bons moços a gritar contra o "terrorismo cultural", ainda que reconheçam, como Tristão de Ataíde, que se trata de um "terrorismo suave".
 
"Depois, o bom moço recebe abraços dos patifes, é elogiadíssimo pelos corruptos, recebe telegrama dos apóstatas, e cartas efusivas dos blasfemos. E o bom moço fica contente consigo mesmo e com o mundo, porque a forma mais alta da caridade é a tolerância, como me escreve um imbecil, ou algum interessado em pensão de moças."
(Impunidades, O Globo, 16/09/65)
 
“É impossível, no convívio dos homens, sempre dizer sim e nunca dizer não. Há situações em que o sim é a expressão triste de um grande egoísmo e o não, a forte manifestação de ardente amor. A caridade nem sempre agrada e a prudência só é autêntica se aliada à força. Se em casa os pais não sabem dizer não ao filho e à filha desde a terna infância, mais tarde certamente irão dizer a eles vítimas do tóxico e do amor-livre um sim entristecido.”
(Editorial Permanência)
 
"Reconheço que usei expressões que a muitos parecerão excessivas e que corri os inevitáveis riscos de quem escreve com amor. Mas ainda não consegui encontrar um tom avaselinado quando vejo o incêndio lavrar na Cidade de Deus, e quando está em jogo o Sangue de nosso Salvador."
(Cavalos, Avestruzes e Cães Cegos, O Globo, 5 de Março de 1970)
 
TRABALHO
"Uma errônea filosofia, em reação a outra não menos errônea, afirma em nossos dias o "primado do trabalho", não apenas no contrato de trabalho entre os operários e empregadores, mas em todas as situações da vida, como se o homem tivesse nascido para trabalhar, e viva para trabalhar em vez de trabalhar para viver como diz o bom-senso e a reta filosofia [...] É fácil compreender que estaremos irremediavelmente perdidos, como pessoas, se concedermos esse primado do trabalho pelo qual seríamos essencialmente, antes de mais nada, um animal produtor. Não [...] o homem trabalhar "para"... descansar "para"... para o quê? Para ser dono de si mesmo, fazer o que lhe agrada, amar, meditar, rezar e tudo o mais que não é "trabalho" nem "lazer", que não é divertimento nem descanso, mas plenitude de vida, ainda que a manifestação seja a mais humilde.
 
"[...] E é para isto que existem as refinarias de petróleo, as usinas siderúrgicas, os computadores eletrônicos, mesmo porque, se não tiverem esta serventia, não terão nenhuma."
(A Volta para Casa, 23/08/64)

S

 

SÉCULO XX
"O que sou eu principalmente? O habitante do século XX não sabe responder a essa pergunta, e conseqüentemente não sabe se deve andar ou parar, se deve sentar-se para estudar, se deve deitar-se e deixar a vida correr, se deve virar de cabeça para baixo como os palhaços, se deve cair de quatro como os imbecis, se deve erguer a cabeça, ou se deve dobrar o joelho. O mundo em que vivemos é a projeção de todas estas perplexidade dos "eus" que já não sabem o que são."
(A Crise de autoridade e o Democratismo, Permanência, junho de 1969 )
 
"Em nome de um otimismo confiante nos recursos humanos, na ida à Lua e nos transplantes de corações logo rejeitados, em nome de um novo humanismo que ousa dar o qualificativo de novo ao capricho inconstante dos homens, em nome do nada e da vaidade das vaidades, perseguição de vento, o caudal de erros se alargou neste estuário de disparates que inunda o mundo e produz na Igreja devastações incalculáveis. Que nome daremos ao mal deste século? 
 
"Este: DESESPERANÇA.
 
"Ei-lo, o mal de nosso tormentoso e turbulento século que ousou horizontalizar as promessas de Deus transformadas em promessas humanas. Que ousou tentar a secularização do Reino de Deus que não é deste mundo. Ei-los os escavadores do nada a construir em baixo-relevo, en creux, a nova torre de Babel. Esperantes às avessas, eles querem fazer revoluções niilistas, querem voltar ao zero, querem destruir, querem contestar, rejeitar, querem niilizar. E se chamam "progressistas". 
 
"No século anterior as agressões e traições convergiram contra a Fé, como se viu na crise modernista que São Pio X represou. Tremo de pensar que o próximo século será o do desamor. Perguntando ao mar, às árvores, ao vento, o que querem esses homens que se agitam e meditam coisas vãs, parece-me ouvir uma resposta de pesadelo. Eles querem produzir uma sinarquia, uma espécie de unanimidade, uma espécie terrível de paz e bem-estar. Qual? 
 
"Querem chegar ao PECADO TERMINAL.
 
(...) 
 
"Que fazer? Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sabendo que lutamos não somente contra a carne e o mundo, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez e pela perversidade de seus levitas, o mundo se tornará por um milênio espantosamente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpido e cruel. 
 
"Roguemos pois a Deus, com todas as forças; desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos, Senhor, ainda neste século, um reforço de grandes santos, de grandes soldados que queiram dar a vida, no sangue ou na mortificação de cada dia, pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extrema miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor! 
 
"É preciso lutar; e sobretudo não desanimar quando nos disserem que o inimigo cerca a Cidade de Deus com cavalos e carros de combate. Ouçamos Eliseu: "Não tenhais medo porque os que estão conosco são muito mais fortes do que os que estão contra nós". E elevando a voz Eliseu exclamou: "Senhor, abri-lhes os olhos para que eles vejam. E abrindo-lhes os olhos o Senhor, eles viram, em torno de Eliseu, a montanha coberta com cavalos de guerra e carros de fogo". (II Reis, VI,16) 
(O Século do Nada, Conclusão)
 
SINCERIDADE
"Uma das mais monstruosas deformações de nosso tempo é a que faz da SINCERIDADE a suprema virtude. Ora, a sinceridade não chega a ser uma virtude; é necessária mas não é bastante para a integridade do ato moral. Será, materialiter, uma meia-virtude.
 
"Se definirmos a sinceridade como uma concordância entre a consciência e o ato exterior, ação ou palavra, podemos facilmente mostrar que os grandes celerados da humanidade foram sinceros. Hitler, por exemplo, foi um modelo de sinceridade e de autenticidade. Durante a guerra, evidentemente, teve de mentir e enganar o inimigo; mas antes da guerra disse em palavras dispersas, e no livro que imprimiu, tudo o que contava fazer, e que fez.
 
"Raskolnikoff foi levado a assassinar uma velha por um ditame da sinceridade. Convenceu-se a si mesmo de que sua vida era um bem infinitamente superior ao da vida de uma pobre velha, e com este sistema instalado e transformado em instância última de sua consciência, concluiu que podia matar a velha rica e usurária.
 
"A sinceridade só será boa se vier acompanhada da clara notícia de que precisa um complemento. Normalmente, a consciência é a regra próxima do agir humano, e, portanto, sua consulta é boa e necessária. Mas não é o bastante. É preciso que a consciência se reconheça incompleta e dependente, e obrigada a procurar sempre a regra exterior que vem de Deus, ou pela revelação, para a vida sobrenatural, ou pela experiência humana, e pelos ensinamentos da Igreja, para a lei natural.
 
"A consciência moral que não sabe e não sente que está obrigada a uma regra exterior, ou que julga ter atingido sua plenitude quando prescinde dessa regra e se basta, na verdade atingiu o ponto mais baixo da humana monstrificação. Quando o homem quer ser sua própria lei e seu próprio Deus, só consegue aproximar-se dos modelos atrás citados."
(Editorial da revista Permanência n° 7, abril de 1969, Ano II)
 

SOCIALISMO

“Dizem alguns intelectuais que o mundo marcha para o socialismo: e dizem-no alegremente. Talvez tenham razão: o mundo marcha para o socialismo como eu, ele e você marchamos em passos desiguais para a mesma terra que nos alimentou, e no fim se alimentará de nós. Se ao menos enunciassem a idéia em toada de marcha fúnebre, teriam mais lógica, e até certa graça tarjada de preto” (Jornal do Brasil, As verdades de Gustavo Corção, 7/7/78)
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