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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Gustavo Corção (209)

Brasil vitorioso

Gustavo Corção

 

Não, amigo, não me refiro ao futebol de cuja vitória já me expandi nesta coluna; refiro-me hoje a outra luta mais cruel, mais desleal, que o Brasil começou em 1964. O desmantelamento da quadrilha de Marighella, no ano passado, e o desmascaramento dos maus religiosos que desonravam a ordem dominicana foram os marcos da primeira vitória contra a conjuração terrorista que quer fazer o Brasil regredir aos tempos sombrios em que o comunismo chegou ao poder.

Os agentes da guerra revolucionária, obedientes a ordens emanadas de Havana, de Pequim ou de Paris, com assaltos de bancos, sequestros de embaixadores, conseguiram incomodar, inquietar a opinião pública. Em compensação alegraram e confortaram Dom Hélder Câmara que, em entrevista dada a L’Express, declarou sem a menor hesitação seu afeto e sua admiração por esses rapazes que assaltam bancos, sequestram embaixadores, matam policiais e sequestram aviões dispostos a matar o piloto e a sacrificar todos os passageiros. Dom Hélder só lamenta que seja pouco o dinheiro roubado aos bancos porque com ele seus rapazes não podem fazer frente ao Exército.

Ora, meu grito de triunfo, meu deslumbramento de hoje se refere à vitória da operação perfeita realizada por nossa Aeronáutica na semana passada. Foi realmente uma operação em que a organização perfeita e a bravura exemplar neutralizaram a chantagem sinistra que os perversos terroristas fazem com as vidas de mulheres, velhos e crianças. A dificuldade em que se acham as autoridades nas situações criadas pelos terroristas vem do receio de ser, não a causa, mas a ocasião de perdas de vidas inocentes. Mas essa delicadeza, esse temor, tem seus limites mormente quando se vê o crescendo insuportável da insolência dos criminosos. Desta vez já exigiam que lhes trouxessem dois cardeais, D. Jaime Câmara e D. Agnelo Rossi. Como? Amarrados? Encaixotados? E tudo em tempo marcado. E se um dos cardeais tivesse um enfarte? Os amigos de Dom Hélder Câmara não se embaraçam com tais escrúpulos. Sentem a delicadeza das autoridades e roncam grosso: “Ninguém deverá aproximar-se do nosso aparelho sem nosso prévio consentimento”,

O comandante do Caravelle foi perfeito; perfeito foi o Comandante da Base Aérea na resposta: “Não dialogo com terroristas”; e perfeitíssimas as operações subsequentes. Dirá alguém que bravos soldados da Aeronáutica puseram em risco a vida dos passageiros? Responderei que tinham o direito de fazer porque começaram por arriscar as próprias vidas quando forçaram a porta e entraram no avião. E a feliz combinação de bravura e organização nos deram a espetacular vitória que oferecemos ao mundo inteiro como exemplo.

É curioso. No dizer dos sociólogos e economistas somos subdesenvolvidos, somos atrasados, mas na luta contra a anarquia que envenena toda a civilização temos marcando mais pontos do que qualquer outro país. Em 1964 corremos com os comunistas que já estavam no poder. Um jornal comunista da cortina de ferro foi o único que nos homenageou: o redator fazia uma autocrítica e reconhecia que os comunistas no Brasil haviam subestimado a classe média. Não direi que foi só por isso que perderam, mas o fato é que o Brasil foi o único país do mundo que soube repelir o comunismo já instalado.

No sequestro do embaixador americano, em 24 horas tinham nossos policiais a casa descoberta e focalizada com teleobjetivas. Só não cercaram a casa e prenderam os sequestradores porque quiseram proteger a vida do embaixador. E o curioso é que, nessa ocasião, não ocorra a nenhum americano que os inimigos que aqui sequestram embaixadores são os mesmos que no Vietnam eles combatem. Ora, se no Vietnam eles combatem os comunistas com sacrifício de vidas americanas, porque não admitir que aqui os ajudemos a combater com risco de vida de um embaixador.

O que não é possível é admitir a progressão geométrica das concessões e dos diálogos com criminosos. No caso do embaixador alemão exigiram a libertação de presos, e a publicação de manifestos. No caso da semana passada exigem dois cardeais. Por que não o Papa? Essa questão de delicadezas e de salvar vidas já está a um milímetro da desonra. A um milímetro da exigência de todo o berçário imaginado por Nelson Rodrigues.

E foi essa brusca evidência que desencadeou a bravura e a operação perfeita do Galeão. O Brasil mais uma vez está de parabéns.

***

Mas há uma outra evidência que entra pelos olhos: a necessidade de uma fiscalização mais severa, e a punição dos responsáveis pela má fiscalização. Já sugeri aqui, tempos atrás, vários meios eletrônicos ou eletromagnéticos para detectar a presença de armas de material magnético. Tudo tem de ser feito para devolver à navegação aérea seu teor, já não digo de segurança, mas de decência. O que me choca especialmente é este paradoxo: justamente no momento em que a pessoa parece estar fruindo o creme de todo um apuro civilizacional, de repente, está ao rés da barbárie.

***

Não posso deixar de consignar neste mesmo artigo de júbilo o nosso triunfo diplomático na OEA. Nossa tese, que é a do bom-senso, saiu vencedora. Os países da América Latina começam a desconfiar de que devem ouvir o Brasil.

 

(O Globo, 09/07/1970)

Páscoa

Gustavo Corção

 

No torvelinho das horas e dos dias convém considerar, vez por outra, os marcos imóveis, os sinais da eternidade. Vale a pena parar a carreira dos sucessos e, com voz da poesia, perguntas às árvores espantadas, às pedras retraídas, às casas que ficam para trás com portões de ferrugem e janelas estremunhadas, se porventura entendem a avidez que nos impele, que nos compele a perseguir um bem que logo perde o sabor quando alcançado; se entendem essa fome que se muda em fastio ou náusea à medida que morde o momento que passa e que continua a ser insaciável para os sonhos de fumaça impossível. A árvore permanece, posto que aos ventos ofereça uma mobilidade cantante e dançante; a pedra permanece; o velho portão, malgrado a ferrugem, permanece. São essências tranquilas e bem ritmadas. A seu modo humilde imitam e refletem o imutável. Sendo o que são, com simplicidade robusta, trazem a marca daquele que é o que é. Nós, ao contrário, vivemos a fugir do que somos. Essência mais alta, feita à imagem e semelhança de Deus, fugimos de Deus quando buscamos o absoluto impossível no torvelinho das coisas. Nós, que deveríamos ser mais imóveis que as árvores, as casas e as pedras, para melhor contemplarmos as realidades que resistem aos ventos e à ferrugem, nós vivemos a correr, a fugir do que temos, a buscar o que nunca teremos e, sobretudo, a assistir à rápida decomposição dos amores conseguidos. Marta, Marta, de muitas coisas te ocupas, mas uma só é necessária... Vale, pois, a pena parar a dança das horas e considerar os marcos de eternidade.

E essa sabatina de contemplação e de imobilidade que a Igreja nos propõe agora no Domingo da Ressurreição. Amanhã e depois os cuidados voltarão a empunhar as manivelas da engrenagem: hoje estamos diante da pedra de Pedro, da Casa de Deus, da árvore do Crucificado. Amanhã e depois voltaremos à lida de nossa peregrinação, aos problemas do tempo, ao petróleo de Nova Olinda, aos candidatos à presidência e à vice-presidência, aos livros escritos sobre Machado de Assis, a tudo isso que será apenas vaidade das vaidades e perseguição do vento se não soubermos trazer para esses problemas dispersos o critério fundamental que os transfigura em caminhos de Deus.

Hoje é dia de Páscoa, dia em que a Igreja, com sinais moldados nas coisas peregrinas, e com o memorial da Ressurreição testemunhada pelos Apóstolos, compõe o quadro da vitória de Cristo, e nos deixa entrever o país de maravilhas que se estende pelo outro lado do espelho — o país da divina Esperança. A obra de Cristo, espécie de usinagem operada sobre a dor e a morte e, por conseguinte sobre o que constitui o máximo espanto do mundo, abre-se agora num estuário de glória. Assistimos durante a semana, à representação do drama onde se vê passar um Deus apaixonado. O Homem das Dores de Isaías é o mesmo do Cântico dos Cânticos. É o mesmo coração vulnerado. Mas agora o círio pascal está aceso para dar o tom à nossa vida como um diapasão de luz. São Bento ensina que a vida do monge deveria ser uma contínua quaresma. A nossa também. E a quaresma deveria ser paixão; e a paixão deveria ser morte; e a morte deveria ser páscoa. A transmutação que Deus espera de nós é uma transfiguração que vá deixando o que menos somos em favor do que verdadeiramente somos por natureza e do que somos chamados a ser pelos favores da graça. De claridade em claridade, se formos dóceis, iremos caminhando, por atalhos de dores, para o país do amor perfeito que tem bandeira de fogo em mastro de cera.

Parece-vos ingênuo — ó leitores tristes — o quadro da Sião gloriosa que a Igreja põe hoje diante de vossos olhos? Parece-vos estampa infantil a santa liturgia? Ou quem sabe até se tudo isso não vos sabe a costumes obsoletos, a cerimoniais que os etnólogos explicam, a ritos que as ciências do século superaram? Por vós, e por mim, receio que a simplicidade do quadro seja chocante e não consiga atravessar a sebe de nossas complicações. Nós somos complicados; Deus é simples. Nós somos adultos, envelhecidos; Deus é mais moço do que nós. Nós somos espertos, sinuosos, ardilosos; Deus escolheu para Si as figuras do cordeiro e da pomba. Diz-nos a fé que ali, na outra margem do Mar Vermelho, onde brilha o círio da vitória, os desenganos e as tribulações terão desenlaces de prodígio; que receberemos, em medidas de alqueires calcados, recalcados e transbordantes, o que não tivemos a audácia de pedir; que serão consertadas as contradições de nossos tristes amores; que a lágrima vira joia; que a chaga vira flor. Diz-nos a fé que naquele país de maravilhas, que se estende lá do outro lado do espelho, teremos paz.

Parece-vos ingênua — ó homens tristes! — a linguagem da fé? Parece-vos insípida a comida da esperança? E quem pergunta poderá se gabar de melhor sentir e de melhor servir? Não é a descrença que mais espanta. A descrença, se me permitem os apologistas, tem certa lógica na sua retração, no seu encolhimento, no seu propósito de não levar longe demais as investigações que terminariam em incêndio. A descrença, sob esse especial ponto de vista, é mais razoável, mais compreensível do que a crença imperfeita que se detém, que se encolhe, que se retrai quando nela, na fé, tudo pede expansão e consequência. Não nos espantemos, pois, da cegueira dos descrentes porque muito mais espantosa é a meia cegueira de nossa inconsequência. Talvez fosse melhor mudar de tom. A segurança da fé e a certeza da esperança seriam mais edificantes do que os titubeios da perplexidade. Talvez fosse melhor, nessa máxima festa, procurar pífaros e cítaras para cantar o júbilo de alma cristã no dia da Páscoa do Senhor, em vez de permitir ao velho coração um gemido de cansaço... Deus há de permitir que essa tristeza se converta em alegria e que a alguém aproveite o que a nós nos pesa. É privilégio seu: é ofício de seu Filho transformar a dor em salvação e a morte em vida.

 

(Diário de Notícias, 10/04/1955)

Machado de Assis e o Eclesiastes

Gustavo Corção

 

Num artigo do mês passado, sugeri a leitura de Machado de Assis a quem desejasse apurar o ouvido para o áspero e aflitivo timbre do Eclesiastes. Reciprocamente, sugiro hoje a leitura do livro atribuído a Salomão a quem desejar compreender um pouco melhor o famoso pessimismo de Machado de Assis. “No Eclesiastes há tudo para todos” dizia em 1895 o cronista da Semana. Haverá, pois, para os críticos uma chave que permita abrir os cofres secretos desse mesmo autor que em outra crônica, de 1893, escrevia: “Onde há muitos bens, há muitos que os coma, diz o Eclesiastes, e eu não quero outro manual de sabedoria”

São numerosas as passagens em que Machado se refere a esse manual de sabedoria tão adequado ao seu estilo, mas o que nos autoriza a dizer que o livro sagrado exerceu poderosa influência sobre o autor de Brás Cubas não é a frequência da citação. É antes a profunda, a misteriosa perspicácia com que Machado penetrou o espírito do angustiado Qohelet.

Naquele artigo de janeiro, se o leitor porventura ainda se lembra, seguíamos a hermenêutica traçada por sábios comentadores, pela qual o Eclesiastes seria um livro existencial, uma espécie de filosofia do absurdo, um manual de contrassenso escrito na pauta da limitação marcada pelos horizontes terrenos. Se a sorte do homem é o que se vê, sob o sol, então a vida é absurda. A forte estimulação desse livro consiste na confiança incondicionalmente posta na fé dos mandamentos. Esses, aconteça o que acontecer, não podem ser absurdos. Serão incompreensíveis como os sofrimentos de Jó e como o sacrifício pedido a Abraão. No dinamismo das propulsões negativas, ou melhor, do vácuo produzido por essa bomba pneumática, tira-se a conclusão: a sorte do homem não pode limitar-se ao que se vê. Ou ainda, do que se vê tira-se um prenúncio do que está escondido.

Os autores das modernas filosofias do absurdo optaram pelo absurdo. O que vale dizer que não optaram, que ficaram detidos, imobilizados, sem ímpetos para atravessar o espelho e entrar no mundo das maravilhas. Dessa paralisação da inteligência resulta um pessimismo real, profundo, desconsolado e cínico que não era, de modo algum, o pensamento de Machado de Assis. Melhor do que a maioria de nossos críticos viu o inglês que comentou a tradução de Brás Cubas e que assinalou o pessimismo estimulante do grande brasileiro.

Até seus últimos dias, na desolação da velhice e da viuvez, Machado de Assis conserva intacto o senso moral. Se nos romances parece ter atingido um cansaço de vida e um desconsolo supremo, aí está sua correspondência para nos mostrar o outro lado do homem que persiste em crer no homem e na realidade moral. E a explicação desse dualismo está no Eclesiastes, ou melhor, naquilo que falta ao Eclesiastes que é um livro onde o principal é justamente aquilo que falta: a descoberta da transcendência de nosso destino, a notícia da ressurreição. O princípio da complementariedade que tem tanta importância na física moderna, e que dá uma das regras capitais para a interpretação do Livro Santo, mostra-nos o desolado discurso de Qohelet como um sequioso apelo à outra metade da história que só muito mais tarde será revelada. O sábio louco diz “tenho sede” como o Cristo na Cruz, momentos antes da ressurreição. Sede de complemento, de completação, de consumação. Sede de solução.

Ora, há uma passagem onde se vê claramente que Machado de Assis compreendeu essa complementariedade dos mistérios de Cristo, e onde, ao Eclesiastes contrapõe o Sermão da Montanha. Em 25 de março de 1894, o cronista da Semana, disfarçando com guizos de frivolidade sua sabedoria, entra a descrever um Ofício da Paixão a que assistira. E termina assim a crônica com aquele seu ar de quem não sabe que está dizendo coisas enormes:

“Soou o cantochão. Chegou-me o incenso. A imaginação deixou-se-me embalar pela música e inebriar pelo aroma, duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atrás dela foi o coração, tornado à simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado, como nos dias em que rodeava a Galileia, e, abrindo os lábios, disse-me que a sua palavra dá solução a tudo.

— Senhor, disse eu então, a vida é aflitiva, e aí está o Eclesiastes que diz ter visto as lágrimas dos inocentes, e que ninguém os consolava.

— Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

— Vede a injustiça do mundo. “Nem sempre o prêmio é dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo se faz por encontro e casualidade”

— Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

— Mas é ainda o Eclesiastes que proclama haver justos, aos quais provêm males...

— Bem-aventurados os que são perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

E assim por diante. A cada palavra de lástima respondia Jesus com uma palavra de esperança. Mas já então não era Ele que me aparecia, era eu que estava na própria Galileia, diante da Montanha, ouvindo com o povo. E o Sermão continuava. Bem-aventurados os pacíficos. Bem-aventurados os mansos...”

Como se explica, pergunto eu, sem apelos ao acaso, essa aproximação que tem finuras de sutil hermenêutica. Nós outros, depois de ler muitos sábios exegetas, chegamos à essa mesma conclusão. Depois de vivermos longos anos no convívio dos Doutores, conseguimos entrever as escondidas intenções do antigo escritor inspirado. Machado de Assis achou aquilo sozinho, talvez na Rua do Ouvidor, na mesma onde teve notícia do 15 de novembro: “Disseram-me na Rua do Ouvidor que os militares proclamaram a República...”

Como se explica tal acuidade que faltou aos perseverantes exegetas que procuram no Eclesiastes não sei que filosofia do moderado meio termo? Como se explica a intuição que teve ele, Machado, na sede de complemento que é a negativa substância do grande livro? Se aqui lembramos ao leitor que o Sermão da Montanha é o programa dos ressurrectos, ou o manifesto que vinha dilatar os horizontes do humano destino, e dizer que muito mais existe do que tudo o que se vê sob o sol, então o contraponto que Machado improvisou ganha a majestade de uma grande lição espiritual. Como se explica isto?

O gênio, por si só, explica muita coisa. Mas no caso é preciso acrescentar ao gênio a ressonância íntima, a assimilação perfeita que só pode vir de uma profunda conaturalidade.  As almas irmãs se encontram por cima dos mares e das idades. Machado de Assis encontrou na Rua do Ouvidor o antigo judeu, e completou-lhe o discurso com aquele outro discurso que apesar da secura dos tempos não lhe fugira da alma.

Tudo isto prova que o pessimismo de Machado de Assis é de espécie totalmente diversa daquele moderno que leva à imobilização e ao cinismo. É o pessimismo condicional do Eclesiastes, é o “stimulating pessimism” que o inglês descobriu.  A miséria do homem presta-se às lágrimas ou ao riso. “Eu fosse ela preferia que rissem...”. Riu ele de tudo ou quase tudo, mas esse riso que a miséria das coisas e dos homens lhe ditava, trazia disfarçado o riso do fim dos tempos. E eu creio não estar forçando a simpatia se disser que há na obra de Machado de Assis, como no seu manual de sabedoria, uma escondida gata borralheira que sofre os prestígios do mundo à espera das transfigurações.

 

(Diário de Notícias, 13/02/1955)

A Igreja e seus inimigos

Gustavo Corção

Uma das características da camada exterior que desfigura a Igreja em nossos dias, e que se propõe ao mundo como figura verdadeira, modernizada, da Igreja de Cristo, é o impudente exibicionismo que faz dessa falsa Igreja uma “notícia” e quase sempre um escândalo; outro traço não menos deplorável da dita camada exterior é a incontinência verbal, é a tagarelice que se manifesta todos os dias em pronunciamentos, notícias, protestos; o terceiro traço desse make-up que desfigura a Igreja de Cristo é a infinita multiplicação de grupos quase microscópicos que falam engrossando a voz, num plural majestático, como faz agora a subentidade CIEC surgida em São Paulo nas chocadeiras da arquidiocese.

Nós, que conhecemos a Igreja sem essa hedionda desfiguração, que a conhecemos no tempo em que se podiam bem discernir as lições da Mãe e Mestra, mestra do valor da Palavra e mestra do valor do Silêncio, dificilmente podemos suportar sem gemidos de dor ou sem gritos de cólera o que fazem hoje os inimigos da Igreja, ou os amigos desses inimigos.

Não suponha o leitor que eu esteja aqui, romanticamente, imaginando alguma época em que a Igreja aparecia a nossos olhos transfigurada como um dia com a graça de Deus a veremos na Pátria verdadeira. Não julgue o leitor que eu ignore tão completamente não apenas a história da Igreja como também o mistério de sua paixão, e o mistério de nossa mediocridade que não deixa ver, senão na obscuridade da fé, o brilho de sua santidade interior. Nossa Mãe, nos mais gloriosos dias, teve sempre seu mato manchado por nossas faltas, e até rasgado pelas urzes dos caminhos que andou trilhando e por onde correu atrás das ovelhas tresmalhadas, sempre foi Rainha andrajosa por ser Pastora diligente, Mãe eternamente moça e eternamente afatigada.

Discorrendo sobre o Dom do Temor, que apesar do áspero e severo nome é o mais seguro amigo da doce e transluminosa Esperança, Santo Tomás ensina que o temor filial permanece no Céu, e cita estas admiráveis palavras de São Gregório: “Os próprios anjos do Céu, que sem cessar contemplam Deus, estremecem nessa contemplação, não de um tremor de medo ou pena, mas de um tremor de admiração”.

Analogamente eu diria que mesmo no céu a Igreja triunfante guardará o estremecimento de suas entranhas, que aqui na terra é de inquietação e de luta constante, mas lá, na Pátria, será o estremecimento de solicitude infinitamente agradecida e pacificada.

Mas aqui na terra a Igreja tem contra ela, não apenas o peso dos filhos ingratos, dos inúteis servidores, dos filhos pecadores, mas também INIMIGOS. Outro dia, deu-me vontade de escrever, se para tanto a vida sobejasse, um livro inteiro para glosar três linhas do Catecismo de Trento que hoje um cristianismo emasculado gostaria de ver apagadas, raspadas, recobertas de vaselina ou de talco, a fim de não arranhar as peles finas dos pacifistas que estão capitalizando omissões, capitulações, agachamentos, até que esse paiol exploda numa imaginária hecatombe em que as insânias de todos os intelectuais se multipliquem pela insuperável crueldade dos covardes.

Contra esse amolecimento geral vale a pena lembrar as três linhas do Catecismo de Trento: “A Igreja na terra se chama Militante porque está obrigada a sustentar uma guerra incessante contra os mais cruéis inimigos: o mundo, a carne e Satã.” Estava eu nessa disposição de espírito quando recebi a visita de um velho padre lituano que, por causa de um artigo que escrevi sobre a grande paixão do bom povo lituano, trazia-me de presente três pequenos devocionários com orações escritas nas várias línguas da Igreja martirizada pelo comunismo. Ora, logo à primeira página está o Sinal da Cruz que aprendi há mais de setenta anos com a mãozinha de três ou quatro anos guiada pela mão de minha mãe. E hoje, depois de tanta leitura, de tanto estudar e de tantos passos “vãmente derramados”, vejo no antigo e luminosíssimo sinal da evidência de uma figura de espada e escudo. Quem faz o “pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos” arma-se cavaleiro de Cristo e apronta-se para o bom combate.

***

Desviei-me da intenção primeira deste artigo, que visava a criticar uns editoriais de um protozoário eclesiástico chamado CIEC. Antes disso convém firmar algumas noções, ou pelo menos encaminhar nosso pensamento para uma clareira de são doutrina. Quando digo, com a Igreja, que temos de combater três cruéis inimigos, não se deve concluir que temos como inimigos da Igreja todos aqueles que combatemos. Descontados os claros e inequívocos casos que constituem no mundo de hoje anti-Igrejas, o fenômeno que combatemos quase todos os dias é o de uma entidade que quer ser Igreja, que quer ser neutra, que quer ser intermediária e que quer estar em excelentes termos com os inimigos declarados da Igreja.

Uma das tremendas dificuldades de nosso tempo reside precisamente nesta falta de nitidez, e na facilidade parva com que pessoas vagamente bem intencionadas passam a servir ao inimigo. Um dos mais brutais exemplos de nossos dias é o da complacência de uma parte tresloucada do clero com o comunismo ou o revolucionarismo, e a complacência do episcopado que, sem ser declaradamente inimigo da Igreja, acoberta esses inimigos e lança a confusão e descrédito em toda a Igreja.

E isto no s devolve à intenção primeira desta artigo, que era o de denunciar uma estupidez crassa que a tal entidade paulistana CIEC atribui à Igreja. Mas vejo que cheguei ao limite do papel, e deixo para sábado a supracitada denúncia. Nesse meio tempo o CIEC poderá fazer uma autocrítica.

(O Globo, 18/3/71)

Santos Missionários, orai por nós

Gustavo Corção

 

Amanhã, 3 de dezembro, a Igreja comemora a festa de São Francisco Xavier, o admirável companheiro de Santo Inácio de Loyola, que levou ao grau heroico o cumprimento do preceito de Jesus: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei; e eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20).

No século XVI quando o medievo compacto, côncavo e mediterrâneo, se expandia e se abria, convexo e atlântico para a conquista do orbe, e a descoberta do Novo Mundo do Ocidente e do antiquíssimo e oculto mundo do Oriente, a Igreja viveu um estranho e dilacerante paradoxo: perdia sua força de critério supremo sobre toda uma civilização mais do que milenar, em favor de um novo humanismo ainda cristão, mas já arrogante e inebriado com suas conquistas. Por outro lado, entretanto, nos mesmos dias em que perdia sua substância em torno de Roma, o Cristianismo era levado ao mundo inteiro, diluído, mas também dilatado, às vezes mais humano do que divino, mais épico do que evangélico, mais cobiçoso do que caridoso. Mas nesse mesmo processo de enfraquecimento e de difusão com perda de densidade, surgiu na história da Igreja, um dos mais belos aspectos de santo heroísmo — o dos missionários que terão não somente a função de difundir o Evangelho, como também a complementar função de contrariar, de certo modo, o expansionismo dos brutais conquistadores. E não há de ser mero acaso esta a palavra de Jesus que primeiro vulnerou e converteu o coração de Francisco Xavier: “De que vale ao homem ganhar o universo se perde a sua alma?”.

Ardendo de zelo pela conversão das almas, Francisco Xavier cruza este santo empenho com aquele outro que leva seus contemporâneos à conquista do mundo com a finalidade de espalhar por toda a parte os sinais da Salvação.

Séculos atrás, num paradoxo semelhante, coube às ordens religiosas, isto é, aos homens enclausurados, aos homens com votos de estabilidade, a tarefa aventurosa de cristianizar os bárbaros e dilatar as terras da Cristandade.

Agora, ao século XVI caberá aos missionários pagar com heroica dedicação, com zelo de santa caridade, o preço do arrogante humanismo que o “velho de aspecto venerando” tão severamente estigmatizou:

“Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama! ”

São Francisco Xavier deu-se todo à obra de evangelizar na Índia e no Japão, e de suas humildes e obscuras conquistas pode-se dizer, com mais seguro fundamento:

“(que) entre gente remota edificaram

Novo reino, que tanto sublimaram”

Pio X declarou São Francisco Xavier padroeiro principal das Missões. Outra padroeira de todas as missões é Santa Teresinha do Menino Jesus, que nunca saiu do Carmelo de Lisieux, mas logo depois de morta fez inúmeros milagres no mesmo Japão onde também abundantemente os semeou o companheiro de Santo Inácio. A Igreja é toda ela estruturada com paradoxo, que são verdades crucificadas.

* * *

Seria o caso de nos determos aqui a refletir longamente, pausadamente, sobre o que, em verdade, em verdade, quis dizer Jesus em Mateus (28, 19-20). À primeira vista parece dirigir-se mais a Vasco da Gama do que a Santa Teresinha e mesmo a São Francisco. Há no versículo um inevitável preceito de difusão; mas é mister observar que não há nenhum anúncio de bom sucesso para o empreendimento. E se houvesse aí estaria a história para desmentir Jesus. O mundo inteiro está salpicado de sinais de Cristianismo, está marcado, mas não está conquistado, não está ocupado pelos soldados de Cristo. Longe disso. E até se pode dizer que os missionários fazem uma obra de antemão condenada ao fracasso, ao naufrágio, à imersão no espesso mundo das coisas materiais. Enganou-se então Jesus quando nos propôs empreendimento tão acima de nossas forças? Na verdade, parece-me que, desde aquele santo instante em que pronunciou o preceito, Jesus já sabia que, sendo tudo desproporcionado na história da salvação, desproporcionado seria o cumprimento de tal preceito. E efetivamente desproporcionadíssimo tem sido.

Muitos estão e estarão sempre a dever muitíssimo a tão poucos. Hoje lembremo-nos do ardente jesuíta que bem sabia o valor da salvação de uma só alma, e adivinhava que a cada uma que no imenso Oriente ganhava para Deus, correspondiam milhares e milhões de outras que em torno das paróquias tranquilas deixavam de cair no nadir dos infernos. Lembremo-nos hoje de São Francisco Xavier como quem se apega a um dos poucos que ouviu e entendeu totalmente a palavra de Deus. E roguemos ao Bom Jesus que vincule ao nosso espesso, pesado e ingrato corpo a uma esquírola de osso da tíbia que está em Roma, ou de alguma costela que está enterrada em Goa; e assim, no dia da Ressurreição nossa inércia, nossa resistência, nossa ingratidão, será elevada e nós mesmos seremos imantados e incompreensivelmente arrebatados. Sabemos que não somos dignos, mas se disserdes uma só palavra Senhor, nossa alma se salvará. Mas é preciso que alguém ouça com a devida atenção essa palavra que nós mal ouvimos; e foi para isso que anteontem tivemos Santa Teresinha, e ontem tivemos São Francisco Xavier a trabalhar por nós.  

No dia de trevas em que Ele viveu toda uma infinita solidão entre os homens, Jesus disse que estaria conosco até o fim do mundo. De vários modos cumpre dia a dia sua promessa. E um desses modos é a presença exemplar com que Ele escalona nossos caminhos. Hoje tomou o nome e os traços de São Francisco Xavier que no século completou com sua parte a Paixão de Cristo nas Índias, no Japão, e no céu continua a função missionária na Terra, ao lado de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face. Apeguemo-nos a eles. Santos missionários, orai por nós.

(O Globo, 02/12/1971)

O Sagrado Coração de Jesus

Gustavo Corção

 

Como vimos no artigo anterior, todas as fontes visíveis da salvação para a vida eterna nasceram do Coração vulnerado de Jesus. E agora é no coração do Coração de Jesus que todos nós, tão sobrecarregados, devemos procurar alívio, paz e doutrina que nos norteie para a Casa do Pai.

A consciência mais viva do culto do Coração de Jesus nos aparece com a manifestação revelada a Lutgarda d’Aywières, que esperava sentada o moço com quem iniciara um namoro quando de repente viu diante de si a figura de Jesus a lhe mostrar o peito vulnerado e o sangue fresco e a lhe dizer: “Não procures mais os agrados de um vão amor. Olha, vê, contempla para sempre o que deves amar e porque deves amá-lo”. “Hic jugiter contemplare quid diligas, et cur diligis”.

A jovem Lutgada tornou-se monja beneditina e hoje, embora esquecida, permanece na galeria dos santos canonizados que a Igreja nos propõe como primeiros degraus da imitação de Cristo. Santa Lutgarda, ora por nós.

Um século mais tarde é no mosteiro beneditino de Helfta, em Saxe, que uma grande e sábia abadessa chamada Gertrude de Hackeborn (1231-1292) teve perto dela uma irmã Matilde, e foi nesse mosteiro tão santamente preparado que ambas tiveram a alegria de receber outra Matilde e outra Gertrude que se tornaram grandes santas, famosas pela intimidade que tiveram com o Coração de Jesus.

No fim de sua vida, Matilde, que não tinha a educação apurada das monjas, e só escrevia, e mal, em baixo-alemão, deixou esta página de um diálogo que teve com o Senhor Jesus:

— Dize-me o que me trazes tu, minha rainha.

— Senhor, trago-vos uma joia maior do que as montanhas, mais vasta que o mundo, mais profunda que o mar, mais alta do que as nuvens e mais bela do que o Sol, mais rica do que todas as estrelas, e mais pesada do que a terra inteira.

— E como se chama essa joia, ó filha, imagem de minha divindade, honrada por minha humanidade, ornada pelo Espirito Santo? Que joia me trazes?

— Senhor, a joia que vos ofereço se chama: alegria de meu coração. Arranquei-a do mundo, guardei-a comigo recusada a todas as criaturas, mas agora já não aguento carrega-la. Onde devo depositá-la Senhor?

— A alegria de teu coração não pode pousar senão no meu Coração divino que bate em peito de homem. Somente aí serás consolada e abrasada por meu Espírito.

Gertrude recebeu os mesmos favores do céu, e deixou-os consignados no Arauto do Amor divino, que foi um registro de toda a vida espiritual do mosteiro, mais do que história de sua própria alma. E vemos brilhar, no mais belo dos séculos, essa casa religiosa que o Coração de Jesus visitou com tanta intimidade.

Na família franciscana encontramos, ainda no século XIII, Margarida de Cortone e Ângela de Foligno que viveram a fundo a devoção da chaga aberta sobre o Coração de Jesus.

No século XIV, tão agitado e perturbado, arrefece a lembrança do Coração de Jesus, mas no meio das tormentas do Cisma vê-se passar a figura inflamada de Catarina de Sena, e ouve-se sua voz inesquecível a gritar que segue um rastro de Sangue. Ao seu próprio confessor ela escreve dizendo seu ardente “desejo de vê-lo sufocado, afogado no doce Sangue do Filho de Deus” e acrescentando: “Quero vê-lo inserido no flanco aberto do Filho de Deus, esse flanco que é um jarro aberto cheio de odor e até capaz de perfumar o pecado. Ali repousa a doce esposa num leito de Sangue e Fogo. Ali se vê e se manifesta o segredo do Coração do Filho de Deus. Nesta botelha de tampa perfurada se dessedenta e se inebria todo desejo enamorado, e ela nos dá alegria, nos ilumina o entendimento, nos enche a memória que aí se satura, a tal ponto, que já não poderá mais reter, entender e amar outra coisa que não seja o doce e bom Jesus, sangue e fogo, amor sem preço”

Nos tempos modernos é João Eudes (1601-1680) que retoma a devoção do Coração de Jesus associando-o ao Coração de Maria. Mas é Margarida Maria Alacocque (1647-1690) quem dará ao mundo o que chamaríamos de “mensagem” do Sagrado Coração. De 27 de dezembro de 1673 a 21 de julho de 1675, Margarida Maria é cumulada de revelações e é incumbida da difusão universal dessa devoção, que deverá ter suas práticas mensais, e festa anual celebrada com solenidade litúrgica. As dificuldades dessa difusão eram enormes para uma religiosa enclausurada, mas é preciso que o mundo inteiro possa escutar os queixumes e os pedidos de reparação de um Coração divino vulnerado por nossas ofensas, e por nós apaixonado.

A Igreja, porém, é vagarosa; e é melhor que o seja porque, se aos seus missionários convém correr como escravos de Deus e dos pobres, à Igreja hierárquica convém o vagar majestoso dos reis.

Dois séculos passaram até que Pio IX, em 1856, estendesse o culto do Sagrado Coração à Igreja Universal. Gradativamente o culto atingiu os mais altos graus da solenidade ritual. Leão XIII, em 1899, por instigação da irmã Maria Droste zu Vischering, do Bom Pastor de Porto, consagrou o gênero humano ao Coração de Jesus, com uma bela fórmula que se recomendava à recitação pública. Pio XI, em 1928, inseriu a festa no ciclo do temporal e concedeu-lhe uma oitava privilegiada.

Associou-se ao culto do Sagrado Coração a prática da comunhão em cada primeira sexta-feira do mês. E assim se vê que a Igreja solicitamente multiplicou os modos de nos unirmos melhor ao Coração de Jesus. Santa Catarina de Sena fez a experiência mística da troca de corações. São João Evangelista, o discípulo tão amado, teve o privilégio de reclinar-se no peito de Jesus e ouvir o seu Coração. A Virgem Santíssima de cujo coração nascera Jesus, “guardava todas aquelas palavras no seu coração” e, portanto, abrira para todo o gênero humano o caminho de volta ao Paraíso, que é o Coração de Jesus.

E a sorte do mundo depende essencialmente da presença catalisadora da Igreja, e da presença, na Igreja, de um pequeno rebanho que seja o sal do mundo e que se mantenha unido, consciente e fervorosamente unido ao Coração de Jesus.

Sem isto o mundo conhecerá dias de crueldade e de degradação inimagináveis, ainda que os ativistas multipliquem seus programas sociológicos e seus pronunciamentos temporais. Nosso torturado e transviado mundo não precisa de padres e bispos que se ocupem de problemas temporais com esquecimento do “único necessário”; e por mais forte razão não precisa de padres e bispos que, nos problemas sociais e políticos, correm atrás das mais perversas soluções. Há muita gente cuidando da máquina do mundo, e por isso precisamos de uns poucos que deem o testemunho de outra ciência e outra sabedoria que transbordam do Coração de Jesus. “Cor Jesu, in quo sunt omnes thesauri sapientiae et scienciae, miserere nobis”.

 

(O Globo, 26/06/71)

Terra da Santa Cruz

Gustavo Corção

 

O Brasil nasceu quando no mundo se abriam os engalanados portões de um novo humanismo contestatário e orgulhoso, que pretendeu ser o porta-estandarte de uma nova e brilhante civilização marcada pela maioridade do homem e pela senectude de Deus; nasceu quando a Europa ainda se enfeitava com as flores e os ouropéis da Rinacita e já se preparava para a passeata da Reforma, mas quis Deus que o berço esplêndido em que nascia uma das mais belas nações do mundo, talvez futuro exemplo de outras mais gloriosas e vetustas, merecesse a proteção de anjos tutelares e a marca indelével do Sinal da Santa Cruz.

*   *   *

O povo brasileiro nasceu persignando-se, ajoelhando-se, e logo na primeira missa agradecendo a Deus e reconhecendo em Jesus Cristo o único Rei dos reis. Já no mesmo grande continente que tem nome glorioso e apocalíptico de Novo Mundo, que é pseudônimo do Céu, cantara a voz piedosa de Colombo: “Te Deum laudámus: te Dominum confítemur...”

*   *   *

Mas é no Brasil, Terra de Santa Cruz, que em maior extensão e com maior constância se perpetuará ao longo de toda a sua história essa atitude fundamental de Ação de Graças e o hábito profundo, nem sempre santo, mas sempre humilde, de viver a presença de Deus.

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Não ignoro que o santo nome de Deus é mil vezes por segundo usado em vão em todo o ocidente; não ignoro que o nome de Deus tornou-se em francês, espanhol e português palavra vã, som, caco, sufixo sem a menor ressonância de eternidade, mas ouso crer que nos vasos capilares da alma brasileira ficou mais do que um hábito verbal, no que se revela quando o ignoto chofer de taxi, que emerge do desconhecido e logo mergulha no imenso anonimato, nos diz — “vai com Deus!”, como tantas e tantas vezes já ouvi. Creio que milhões de vezes por minuto se diz por todo esse imenso Brasil, “vai com Deus”. E creio que essa saudação ou forma de despedida seja mais do que um simples sinal de nossa cordialidade. Há de ser também um difuso e persistente sinal de consciência coletiva da presença de Deus, sem a qual a história dos povos desanda num sinistro espetáculo de circo ou num ensaio do inferno.

*   *   *

Toda a história do Brasil é marcada por atos públicos da realeza de Cristo. Quando o Príncipe Regente, futuro D. João VI, aqui desembarcou, já com a lúcida intenção de abrir as portas e os portos de um novo império, seu primeiro cuidado foi o de promover um TE DEUM de Ação de Graças a que assistiu com toda a comitiva. Quatorze anos depois D. Pedro I determina que a independência seja sempre celebrada com esse hino sagrado, que mais tarde inspiraria Gonçalves Dias e seria a oração predileta de Joaquim Nabuco.

*   *   *

Com a vitória do Brasil sobre o comunismo, em abril de 1964, consagrou-se de modo espetacular e milagrosa a vitória de Cristo Rei — vitória que não nos cansamos de agradecer e admirar, e que o mundo na sua especializada estupidez para o que há de admirável no Reino de Cristo e para o que há de detestável no comunismo não se cansa de denegrir — porque o comunismo, como se tornou evidente no sangrento episódio do México e na sangrenta guerra civil espanhola, foi sempre adivinhado como especial inimigo pelos milhares de mártires que morreram gritando: Viva Cristo Rei!

Não é de admirar que logo o primeiro governo nascido dessa miraculosa intervenção, por decreto do presidente Humberto Castelo Branco, de 19 de novembro de 1965 e depois pela lei n° 9110 de 22 de setembro de 1966 tenha instituído o Dia Nacional de Ação de Graças a ser celebrado na quarta quinta-feira de novembro. 

*   *   *

Santo Ambrósio, bispo de Milão, para combater os últimos remanescentes do arianismo, quis ganhar o coração do povo com hinos religiosos que alcançaram grande sucesso. À heresia que destronava Cristo e negava sua divindade, o povo respondia cantando louvores à Trindade. O TE DEUM que lhe é atribuído, segundo F. Cayré A. A., é posterior e pertence a Nicetas de Remesiana; mas a ideia ambrosiana está de pé.

Combatamos os inimigos da Igreja cantando os hinos litúrgicos que trazem ao coração do povo os grandes mistérios da Fé. E no dia 23 do corrente, quinta-feira, (hoje) compareçamos à Igreja da Candelária, às 18 horas, para assistir à comemoração do Dia Nacional de Ação de Graças, celebrada por Sua Eminência Reverendíssima o Sr. Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Salles, com a presença do Sr. Presidente da República e Senhora, Emílio Garrastazu Médici, do Sr. Ministro de Estado da Justiça e Senhora, Alfredo Buzaid, e demais autoridades, e rezemos a Deus para que o povo brasileiro, bem conduzido por seus pastores e seus governantes, aliados nessa obra de louvor a Deus, saiba opor uma invencível resistência à onda de perversão que quer contestar a Realeza de Cristo.

 

(O Globo, 25/11/1971)

O massacre de Katyn

Gustavo Corção

 

Há uma certa faceta de humor negro na ingenuidade com que os jornais da semana passada publicaram, como sensacionais, as declarações de um judeu, Abraão Vidro, difundidas por um jornal de Israel, sobre o já tristemente famoso massacre de Katyn. Ou então haverá mais um exemplo da universal conjuração organizada para inocentar os comunistas dos crimes de guerra. Há realmente uma misteriosa conspiração que não somente exalta o papel dos comunistas na guerra como também esquece seus crimes mais clamorosos.

No caso presente o obscurantíssimo autor destas mal traçadas linhas pode lembrar que anos atrás já escreveu nestas mesmas colunas sobre o horroroso massacre de 12.000 oficiais poloneses fuzilados pelos russos em abril de 1943, e enterrados no bosque de Katyn. É portanto bem antiga a novidade da declaração sensacional de Abraão Vidro, mas nunca é demais insistir nas façanhas praticadas pelos soviéticos na II Guerra.

Mais recentemente, no decurso dos estudos que andei fazendo para um livro que está quase terminado, descobri num livro de René Pellerin, intitulado Un écrivain nommé Brasilach, não apenas a maravilhosa figura de Robert Brasillach como também sua reportagem verdadeiramente sensacional publicada em 9 de julho de 1943, no hebdomadário Je suis Partout, com o título J’ai vu les fosses de Katyn.

Nesse tempo a França estava parcialmente ocupada pelos alemães e em estado de armistício assinado pelo Marechal Pétain. Brasillach combatera corajosamente em defesa de sua pátria, mas logo após o armistício e a liberação dos primeiros prisioneiros voltou a Paris e abertamente aceitou o governo de Vichy, que todos os bispos da França apoiaram, e repeliu sempre, como escritor, o fantasioso governo da França Livre que na verdade só existiu para efeitos publicitários, para acrescentar à cruz de Winston Churchill a Cruz de Lorena, e para trazer um bálsamo ilusório às chagas do patriotismo francês tão duramente humilhado. Lembro estas coisas para frisar que a posição de Brasillach era perfeitamente admissível e normal, embora o mundo inteiro tenha sido condicionado durante anos para achar que traía a França quem ficasse com Pétain e desprezasse De Gaulle.

Mas voltemos ao bosque de Katyn que Brasillach viu e cheirou. Sim, cheirou. Mais da metade do artigo publicado em Je suis Partout se detém no intolerável cheiro que o tomara de chofre como primeira e inesquecível impressão. O chofer do carro em que viajava prevenira-o e fizera este reparo: depois da primeira visita a Katyn passara dois dias sem conseguir comer. E era um homem rude, que fizera a guerra.

“Cheiro maciço, cheiro negro e azedo, inesquecível cheiro de carniça. Algo de ainda vivo e animal longamente apodrecido naquela terra que não devora logo os cadáveres. Eles lá estão, apertados, compactos, e deles sobe esta coisa que poderíamos delimitar em seus contornos, que quase poderíamos pegar e sentir o seu peso.... Ah! Eu gostaria de fazer um pouco desse cheiro atravessar a fumaça do incenso e chegar às narinas dos arcebispos bolchevizantes...”

Brasillach pagará caro por esse artigo imprudentemente escrito em 1943. O moço transbordante de vida generosa, o poeta admirável e o admirável patriota que vivera sempre enfrentando a morte, na guerra espanhola e depois na guerra contra Hitler em defesa de sua pátria, nunca soube agasalhar-se e precaver-se. Quando a derrota de Hitler se delineava claramente, e finalmente quando De Gaulle recebeu, dos norte-americanos, Paris libertada e intacta, numa bandeja, e agradeceu aos russos, e mais tarde conseguiu convencer o tolo mundo inteiro de que fora ele próprio o libertador de Paris, Brasillach esteve sempre a denunciar o impostor e a caricaturar a Resistance onde se iniciou o concubinato dos católicos com os comunistas.

Seus amigos tentaram convencê-lo da necessidade de fugir para a Suíça. Providenciaram todos os papéis, mas Brasillach não quis deixar sua mãe, sua irmã, não quis deixar a França. Consentiu em esconder-se, mas aquela raça de franceses que, no dizer de Bernanos, não conseguiram mortos estrumar a terra que vivos não souberam defender, pôs em prática um infalível expediente para pegar Brasillach: prenderam sua mãe, como refém. No dia seguinte, Brasillach apresentava-se e era preso, e logo condenado como traidor da pátria pelos comunistas, judeus e democrata-cristãos comunizantes.

*  *   *

É preciso lembrar o bosque de Katyn onde os soviéticos deixaram um sinal que será encoberto, apagado, mas inexoravelmente de tantos em tantos anos voltará para esclarecer não apenas o martírio da Polônia, como também para relembrar o que aconteceu num governo francês comuno-católico: 110.000 franceses foram sumariamente condenados como colaboracionistas, e executados. Muitos por terem recusado atos de sabotagem de serviços públicos exigidos por grupos da Resistance. Entre esses 110.000 franceses assassinados durante a Épuration brilhará sempre a figura de Robert Brasillach que, em face da morte, na prisão de Fresnes, deixou escritos poemas de peregrina beleza, com que a verdadeira França respondia à França do pacto franco-soviético. Sim, no mesmo ano que Brasillach morria fuzilado como traidor, os intelectuais de gauche cantavam hinos à U.R.S.S. que os libertara, e Georges Bidault dirigia a Mesdames et Messieurs um discurso em que comunicava o pacto franco-soviético, simétrico daquele que anos atrás Molotov e Ribbentrop assinaram.

E o Tribunal de Nuremberg? Ah! Sim. Houve um tribunal de Nuremberg contra os crimes de guerra. É preciso lembrar o Tribunal de Nuremberg; é preciso relembrar que na primeira sessão desse tribunal, com a cumplicidade dos norte-americanos, ingleses e franceses, e sob A PRESIDÊNCIA DE UM GENERAL SOVIÉTICO, foi escamoteado e arquivado o dossiê do Massacre de Katyn.

 

(O Globo, 31/07/1971)

O cristianismo que não morrerá

Gustavo Corção

As reflexões que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se cansarem de o sentir tão incôngruo em relação ao curso da história, e daí tirarem a intenção de afeiçoá-lo àquele andamento.

A crise de nossos dias, a mais ampla e profunda de toda a história da Igreja, começou por um propósito de aggiornamento. O cristianismo estava envelhecido, a Igreja esclerosada, e o bravo mundo moderno passou a interessar-se prodigiosamente por sua renovação. Reformas... reformas... reformas... O pastor anglicano John Robinson, que andou por aqui a fazer conferências, escreveu um volume inteiro para explicar que hoje, na era espacial, não é possível ter a mesma idéia de Deus “fora de nós” tida e mantida pelos antigos. Eis o que diz na tradução portuguesa esse tipo bem representativo de nossa época: “Enquanto não tinham sido explorados, ou era possível explorar (por meio de radiotelescópios, se não com foguetões) os últimos recantos do Cosmos, ainda se podia localizar Deus mentalmente nalguma terra incógnita. Mas agora parece não haver lugar para Ele, não apenas na estalagem, mas em parte alguma do universo: é que já não há lugares vazios.”

É difícil, em tão poucas linhas, dizer mais densa coleção de asneiras sobre a presença de Deus que, para esse notável anglicano, ao que se vê, sempre esteve no limbo das primeiras imagens infantis. O reverendo (que o Prof. Cândido Mendes Almeida importou quando por aqui é abundantíssimo o similar nacional), fascinado por leituras de vulgarizações, e esquecido da presença de Deus em todas as coisas como causa primeira, e como sustentador de todas as existências, pensa que o homem já explorou todos os recantos do universo!

O leitor encontrará no livro Progresso e Progressismo, AGIR, p. 130, e seguintes, considerações mais desenvolvidas sobre o autor anglicano e sua obra Honest to God que foi best-seller em vários idiomas.

No momento quero deter a atenção do leitor diante deste bonzo “a atualidade” que tem mais adoradores do que todos os Budas do oriente. Passou pelos seminários, pelas salas de capítulo, pelos claustros mais serenos e austeros um frenesi de atualização, um furor indecente de se prosternarem todos diante de um Hoje tornado suprema divindade. Ninguém percebe, nem tenta demonstrar as vantagens da substituição de tais fórmulas por tais outras. Não são mais claras, não são mais belas, mas são reformadas e nisto consiste sua suprema nobreza.

***

Há mil maneiras de tentar banalizar o cristianismo. A mais ampla mas também mais humilde e mais triste é aquela produzida pelo fato de não sermos santos, ou de serem tão poucos os que realizam desde já, aqui e agora, ao menos em algumas cintilações, a maravilhosa e permanente novidade que é Cristo Jesus; mas a mais espessamente estúpida é aquela que, não vendo a supernal, a transcendental Novidade, quer submeter o cristianismo à tirânica frivolidade das pequeninas coisas novas com que o homem tece e borda sua frágil atualidade que já nasce em processo de envelhecimento.

Nunca se falou com tanto garbo no “mundo moderno” e em suas terríveis exigências, mas ninguém se dá ao cuidado de especificar essa modernidade, nem ao cuidado de esconder suas espetaculares misérias. Ninguém, evidentemente, contestará que os veículos hoje são muito mais rápidos do que o cavalo de Carlos Magno, ou o burrico que São Bernardo montou para ir aonde o chamavam, e onde confundiria o bom mas trêfego Abelardo. Eu não preciso fazer malabarismos de imaginação para rever a figura do Santo abade de Claraval, e para imaginar as santas cogitações com que se preparava para defender a Sagrada Doutrina enquanto o bom burrico o ia levando no mesmo doce ritmo com que um outro irmão burro mil anos atrás levara ao Egito, Nossa Senhora e o Menino Jesus. O que preciso fazer esforço para imaginar é o quadro atualizado de um São Bernardo a sair de seu mosteiro, num Fusca a 120 quilômetros por hora. Não digo que seja impossível. Metafisicamente é possível que um grande santo de hoje dirija um carro; mas tudo parece contraindicar que esse veículo possa proporcionar ao hipotético santo o mesmo lazer para a meditação, como também tudo leva a crer que a velocidade do veículo não possa modificar o bom fundamento da argumentação que venceria Abelardo.

Curioso progresso! O que hoje se vê todos os dias são revoadas de Abelardos, e de sub-Abelardos, que a mil quilômetros por hora atravessam os oceanos para se reunirem em congressos, sínodos, conferências, onde serão propostas mil pequenas e efêmeras renovações por dia. E é com esse frenético ativismo que querem atualizar o Cristianismo; e é com essa submissão ao século que querem vitalizá-lo. Depressa se desencantam de correr e voar, e então, para reduzir o Cristianismo a um puro humanismo, resolvem anunciar a morte de Deus.

Mas o menino Jesus, no mesmo ritmo lento de outrora, continua a nascer virginalmente todas as manhãs nas almas submissas, e continua a ressuscitar triunfalmente todas as manhãs para deixar em nós o anúncio de nossa própria ressurreição. E nisto pomos todo o fervor de nossa Fé: passarão os impérios, as máquinas do mundo, mas esse cristianismo sempre pequenino, manso, único e eterno não passará.

(O Globo, 14/8/71)

Lei-Ming-Yuan

Gustavo Corção

 

Nesses dias andei pela China. Mais precisamente e graças ao livro de Chanoine Jacques Leclercq (Vie du Père Lebbe — Casterman, 1955), fiz na minha poltrona uma viagem no espaço e no tempo, e andei pela China de quarenta anos atrás, tentando acompanhar, como me permitissem as pernas da imaginação a incrível, a fabulosa trajetória do personagem meteórico que no Ocidente se chamou Vicente Lebbe, e que milhões de chineses, com amor e veneração chamaram Lei-Ming-Yuan, que quer dizer trovão-que-canta-ao-longe.

Vicente Lebbe foi padre lazarista e missionário da China. Sua grande originalidade consistiu em levar a sério, alegremente, o fato de ser lazarista e o fato de ser missionário. Mas a sua suprema originalidade consistiu em levar a sério a China. Foi sempre o que Chesterton chamava “um super-vivo”. Direto como um pássaro, autêntico como uma flor, ágil como um gato, o Pe. Lebbe, em quarenta anos de lutas, de contrariedades, de perseguições, de trabalhos, de perigos nas viagens e nas guerras, guardou intacto o fogo que nos retratos se vê brilhar, com invencível alegria, nos seus olhos de menino.

Foi aos onze anos no colégio da Bélgica que sua alma, num pulo, tomou a resolução definitiva. Tinham-lhe indicado a leitura da vida do bem-aventurado Jean Gabriel Perboyre, lazarista, morto na China em 1840 como testemunha de Cristo. Terminada a leitura, o menino exclamou: “serei lazarista, e missionário na China”. Doze anos mais tarde, vencendo uma série de preconceitos e de hábitos eclesiásticos, e graças ao inesperado apoio de um velho bispo, embarca, ainda seminarista, para o país dos seus sonhos. Durante a viagem vai aprendendo o chinês. Chegará a falar tão bem o idioma, e a conhecer tão intimamente os costumes e os hábitos chineses que mais tarde só saberão pelas feições que ele é um estrangeiro. Coisa que aliás o magoava. “Não olhem para o meu nariz, mas para o coração que é chinês”.

Em outubro de 1901 ordena-se padre e escreve à família anunciando que agora é padre chinês da Igreja na China. E nos cartões de sua ordenação imprime o conselho de Paulo a Timóteo: “Tu vero labora...”

Outra coisa a ser tomada ao pé da letra. E do mesmo apóstolo dos gentios tira o Pe. Lebbe as diretrizes da ação missionária. “Sim, sendo livre fiz-me escravo a fim de ganhar o maior número. Fui judeu como os judeus para ganhar os judeus, com os sujeitos à lei, eu que não estou sujeito à lei, sujeitei-me a fim de ganhar os que estão sujeitos à lei; e com aqueles que estão sem lei, como estivesse eu sem lei, embora esteja submetido à lei de Deus e ao Cristo, tornei-me sem lei para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me fraco para com os fracos ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos a fim de salvar a todos...” (1Cor 9, 20-22)

Mas logo ao desembarcar Vicente Lebbe começa a descobrir com assombro que os missionários europeus não parecem muito apegados ao exemplo paulino. Descia a escada do navio, lépido e esperançoso, quando ouviu um padre mais velho dizer-lhe que entregasse a mala a um coolie. Um missionário não devia carregar a própria mala.... Mais tarde, em Na-Kia-Chwang, onde seria ordenado, observa que os padres chineses não comem à mesa dos europeus. E em tudo o mais, o que é chinês é desprezível e subalterno para a superior raça branca que fazia o favor de trazer a civilização e o Evangelho.

Vicente Lebbe, via com seus próprios olhos, que nesse tempo sofriam longa e cruel enfermidade, via, concretizado, brutalmente corporificado, espessamente realizado, o secular equívoco de uma civilização fundada no orgulho e no direito da força. E com maior tristeza esbarrava com o equívoco ainda mais grave: o da vinculação que insidiosamente se estabelecera entre os estatutos dessa civilização e os costumes dos homens da Igreja. Sob o falacioso pretexto de coordenação de esforços para a prática do bem, tantas vezes invocado pelos que aspiram ao conforto de uma religião oficializada, os padres missionários franceses se comportavam como meros funcionários a serviço dos superiores interesses do Protetorado. Provavelmente julgavam que essa subordinação era vantajosa para a pregação do Evangelho, e que outra não era a doutrina relativa às autoridades constituídas e à união da Igreja com o Estado. E assim a Cruz de Cristo chegava aos chineses acompanhada da bandeira francesa, e às vezes protegida pelos canhões. Custa a entender que alguém escolhesse a espinhosa vocação missionária sem nela incluir uma fraterna ternura pelos povos a que se levava o Evangelho. Custa a crer que não lhes ocorresse a ideia da transcendência da Igreja, ou até a ideia mais chã de que, para um chinês, pode haver uma dignidade e um brio de ser chinês. Mas é com essas coisas dificilmente críveis que se desenrolou, através dos séculos, a história trágica da Igreja. A grande, a permanente tentação é a da vinculação da Igreja, aos quadros temporais, é a da recusa da transcendência de sua vocação.

Comentando a recente e vergonhosa história do colonialismo na China, o cônego Leclercq diz sem rebuços:

“Foi a França que interveio a favor das missões e obteve em 1846 um edito de tolerância. Desse dia em diante os missionários tornaram-se clientes da França. Já a guerra do ópio se assinalava por vantagens concedidas às missões. Toda a história das relações entre a China e o Ocidente será doravante marcada pela predominância da força (...). As missões se prendem nessa engrenagem (...). A confusão entre a religião cristã e a política europeia se torna inextrincável. Os missionários aproveitam a força da Europa, e armazenam os ódios...

Mas a maior parte dos missionários não vê nisso algum mal. Bons europeus eles acreditam ingenuamente na superioridade de tudo que é europeu (...). Juntava-se a isto o nacionalismo, produto do século XIX. A França tinha assumido o protetorado das missões, aliás sem ouvir a Santa Sé.

A maior parte dos missionários eram franceses e sentiam-se inclinados a favorecer a política expansionista de seu país, tudo fazendo para que vingasse na China, o amor pela França e o conhecimento da língua francesa, e ao mesmo tempo, o amor pelo Cristo e o conhecimento da religião”.

Mas adiante o cônego Leclercq não hesita em dizer: “Depois de tudo o que dissemos, o que espanta é que ainda existam cristãos na China, e que ainda se observem conversões, e até que muitos cristãos chineses tenham um fervor que raramente se encontra na Europa”.

Ora, é nesse enorme mundo tão maltratado pela chamada civilização cristã, é nesse imenso mundo de expectativas decepcionadas que desembarca em 1901, um pobre magricela, doente, quase cego, com a ideia de ser chinês entre os chineses, para ganhar os chineses. Com paciência fremente, com benignidade candente, com obediência sobrenatural em grau heroico, o Pe. Lebbe começa a mais espantosa vida de que já ouvi falar. Dia a dia realiza uma entrega, uma doação, um desgaste que nos deixa atônitos. “Le Père Lebbe se despense! ” ... diz simplesmente o cônego Leclercq. Seria melhor, talvez, dizer, que o Pe. Lebbe se queima, se incendeia, e corre a China incendiando e queimando.

Seria ainda melhor, talvez, dizer que ele se gasta numa combustão mais profunda, como o urânio nos reatores nucleares, para frisar a colossal desproporção entre a energia que produz e a magra energia que a alimenta. Lendo essa vida espantosa, percorrendo nas páginas do livro a progressão geométrica dos feitos, chegamos a pensar que o conhecido e austero tratadista de Direito Natural perdeu a noção da medida, ou perdeu a razão. Quando, porém, se considera o nome e o veredito que merece o autor, então... então vêm-nos a impressão arrebatadora de uma divina loucura. Dir-se-ia que o Pe. Lebbe foi designado para compensar sozinho, com a única força da Graça entre tantos espinhos na carne, o himalaia de erros, de omissões, de tolices, de burrices, de perversidades semiconscientes e de crueldades voluntárias de quatro séculos de civilização. Dir-se-ia que Deus deixou o Pe. Lebbe aprender depressa o chinês, e providenciou quem lhe desse uma velha bicicleta, para que ele assim armado, com sua magreza e sua pobreza, pagasse a dívida atrasada, a dívida terrível contraída pelas grandes nações do mundo ocidental; para que ele sozinho com a força da Graça, devolvesse às missões a comprometida transcendência, e à civilização colonizadora a perdida dignidade; para que ele, com seu rabinho e seu longo cachimbo, neutralizasse de algum misterioso e insondável modo o horror da guerra do ópio, só comparável em hediondez aos horrores produzidos pelos regimes autoritários.

Toda a obra do Pe. Lebbe na China, de que tentaremos dar um esboço em outro artigo, girou em torno da universalidade da Igreja e do direito dos chineses formarem sua Igreja. Sua ideia fixa, que viu realizada através de um milhão de dificuldades, era a de ver constituído o episcopado chinês. Os prudentes mandavam informações contrárias a Roma. Ameaçavam com o cisma. Gabavam a vantagem do paternalismo, mas o Pe. Lebbe teve a alegria, no fim da vida, de ver sagrados seis bispos chineses, seis bispos escolhidos por ele, nomeados com um pedaço de lápis que ele depois guardou como relíquia.

Vê-se em tudo o que nos conta o cônego Leclercq que a vida do Pe. Lebbe tem o mais autêntico e clássico espírito paulino, e ao mesmo tempo a melhor marca da atualidade.

Como São Paulo, o Pe. Lebbe combate, com as santas armas da paciência e da obediência, os privilegiados que se julgam donos dos evangelhos.

Como São Paulo, choca-se com os corações circuncisos que tem desprezo pelos gentios, ou que, na melhor das hipóteses, vê nos chineses alguma coisa a ser cuidada, do alto, com benevolente paternalismo. E as cenas que o cônego Leclercq descreve no seu livro, a cada instante nos transportam para os séculos da Igreja-Mártir, ou para os claros dias dos Atos dos Apóstolos. Com uma pequena diferença apenas. Aqueles que todos os dias, com um só coração se reuniam no templo, e partindo o pão com júbilo e simplicidade, louvavam a Deus, e cujo número o Senhor cada dia aumentava por onde passava o Pe. Lebbe, eram um pouco diferentes dos que cercavam Pedro e Paulo: tinham os olhos oblíquos e pele dourada...   

 

 

(Diário de Notícias, 06/10/1957)

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