Skip to content

Gustavo Corção (172)

Ano novo?

À meia-noite do dia 31 acordei sobressaltado com o foguetório que festejava, a seu modo grosso e ruidoso, o nascimento da coisa nenhuma que se dá o nome de Ano Novo. Confesso que meu primeiro sentimento foi o de uma justíssima irritação, mas logo sobreveio um segundo sentimento de admiração diante de tão comovente e estúpida obstinação. Quê? Então ainda esperam alguma coisa das folhinhas e das órbitas planetárias? Ou inventaram mais uma vez um modo de fingir que inventaram? Porque na verdade fingidor não é só o poeta, nem é ele que quase merece este título como definição de seu absurdo modo de ser, não; fingidor é o mundo inteiro. Finge tão ruidosamente que chega a fingir que espera do Ano Novo o que ainda já dos dias só desespera. Pobre gente.

Os meninos se matam

A Carlos Drummond de Andrade

 

O moço que se matou, dizendo por escrito que era um “desajustado social”, na verdade matou-se porque se deixou convencer de que não existe na vida e no mundo lugar para a dor. Matou-se porque lhe disseram, com aquele vocábulo, e com a filosofia maldita que por trás dele se esconde, que o mundo não concede matrícula aos que choram. Insinuaram-lhe que tudo se reajusta, e acrescentaram que só depois dessa reajustagem pode uma alma se inserir. Ora, o moço viu que a primeira parte da história era falsa, porque nem tudo se reajusta, mas continuou a crer na segunda; e então, suicidou-se. Suicidou-se porque era um desajustado. Suicidou-se porque era uma excrescência na criação. Uma verruga no universo.

 

O valor do Concílio Vaticano II

Parece-nos claro que o valor principal de um Concílio Ecumênico só pode ser medido com um critério essencialmente católico, o da aplicação do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação das almas, e não com qualquer critério tirado do mundo e da história.

A revelação do homem

Não, caro leitor, não creio que possamos convenientemente definir e caracterizar as graves perturbações do mundo católico com as expressões condoídas que você usou em sua carta, tais como "lamentáveis divisões", "dolorosas divergências", "dissenções e polêmicas entre católicos". Tentarei expor aqui meu pensamento com a mesma objetividade e isenção de ânimo que sempre pus nas minhas obras de engenheiro: receptores de ondas curtas, amplificadores de freqüências acústicas, sistemas eletrônicos de ondas portadoras etc. etc. Essas pequenas obras que deixei esparsas e que me sobreviverão por algum tempo, como ainda sobrevivem, em funcionamento, aparelhos que construí para a Companhia Telefônica Brasileira em 1937, são meu obscuro testemunho de uma docilidade ao real com que quero viver e morrer. O título com que dou aulas de religião aos que para isto ainda me procuram é também uma docilidade ao que aprendi com os apóstolos e seus descendentes. Melhor coisa não possuo senão esta capacidade de bem identificar o evangelho deixado pelos evangelistas e difundido por Paulo.

Tribulações de um velho militante

Eles conseguiram este resultado: para um fiel que durante anos vai à missa todos os dias, à missa dominical, à missa do preceito ou do amor reduzido à prova mínima, tornou-se no sentido gaiato o verdadeiro "sacrifício" da missa. Parece aliás que o objetivo visado, cujas instruções parecem hoje mais centralizadas do que o governo da Igreja, é o de tornar tudo gaiato em torno da figura de Nosso Senhor. Ainda não tiveram a idéia de transformar a imobilidade terrível e doce do Crucificado numa espécie de polichinelo careteante a gesticulante em torno de articulações mecânicas cravadas nas Cinco Chagas. Lá chegarão, e com nihil obstat: e com entusiasmo.

 

A descoberta da Outra

Um leitor que se diz assíduo, numa longa conversa telefônica, estranhou o pós-conciliar. O leitor entende o termo como se significasse a mesma Igreja Católica, na era pós-conciliar. Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra. E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz idéia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem forma­da doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.

 

A "igreja viva"

As notícias recentes, chegadas da Suíça, onde as "autoridades" eclesiásticas tentam bloquear a obra católica de Dom Marcel Lefebvre, e as notícias dos escândalos mais próximos de nós, praticados pelas próprias autoridades eclesiásticas da mesma "Igreja viva" que veementemente reprova a obra de Dom Lefebvre e fecha os olhos ou encoraja obras de reconciliação com a Maçonaria empreendidas em Salvador por Dom Avelar Brandão e os "abalizados" pronunciamentos de Dom Evaristo Arns sobre o sexo, todo esse amontoado de incompreensíveis contra-sensos nos indica que está chegando a hora das grandes dores. Ainda ontem, na Santa Missa, ouvimos o Apóstolo falar das dores do parto de toda a criação, misteriosa conseqüência cósmica das desordens trazidas pelo pecado dos Anjos e pelo pecado de Adão. Deus com a ajuda dos Anjos, de Nossa Senhora e de todos os Santos, no Céu, no Purgatório e aqui na Terra, governa o mundo e trabalha na restauração da ordem comprometida pelo mal que Ele permite para tirar das mesmas criaturas capazes do mal, uma riqueza de bem incomparavelmente maior do que o mal permitido. E agora a dor que punge a criação, diz São Paulo, será também vencida por uma alegria de maravilhosa desproporção. É compreensível a desmedida, a infinita desproporção entre o bem da vitória final e o mal consentido, porque o bem tem a medida do ser, e o mal não passa de uma lembrança do nada que está nos poros de toda a criatura composta de ser e não ser.

 

Livrai-nos Deus de nossos inimigos

Um leitor amigo telefonou-me hoje com palavras de compreensão e encorajamento. Graças a Deus não são poucos os telefonemas desta espécie. Mas hoje, creio que pela primeira vez senti a necessidade de assinalar a presença de uma posição prévia que freqüentemente marca essas manifestações sobre os conflitos em questão. Sim, hoje, numa espécie de retrospecção multiplicada, como se tivesse em mim acionado às avessas um computador, observo uma constante nessas comunicações de meus leitores amigos e correligionários. Muitos se queixam do público dilaceramento da Igreja, dos debates entre irmãos da mesma Fé que, no calor da controvérsia, podem chegar a ferir a Caridade e apresentar a triste figura da Igreja ferida em sua unidade. Não, caro leitor amigo e correligionário, os artigos de luta que venho mantendo em público, abertamente, sem nenhum disfarce e sem nenhuma precaução especial no arredondamento das frases, não tem por objeto as divergências dos Irmãos na Fé e sim as injúrias feitas à Igreja pelos seus INIMIGOS. Não sou eu quem pretende sondar o foro íntimo para dizer quem pertence à Igreja e quem está fora dela como inimigo a destruí-la; são eles mesmos que fazem questão de assim se caracterizarem, sem nenhum equívoco e de quase nos forçar a dar-lhes crédito. Escrevo sobre o que escrevem e falam, ou o que deles alardeiam os seus vastos meios de comunicação, e não hesito um segundo em dizer que aceito o combate e que me considero INIMIGO e não apenas um irmão na Fé, com amenas divergências.

 

"Novo Pentecostes"

É a última espetacular novidade religiosa que se espalha com grande sucesso no mundo inteiro. Num recorte recente de "Le Monde" lemos a notícia desse movimento cujo sucesso se contrapõe, na pena de Henri Fesquet, "ao declínio das grandes Igrejas" mais ou menos institucionalizadas. Esse movimento de origem protestante, nascido antes do século, cresceu agora rapidamente. O número de "Assembléias de Deus" que era de 264 em 1963 ultrapassa o número de 400 em 1972. Calcula-se em dez milhões o número de praticantes no mundo inteiro", diz "Le Monde"; e como era de esperar anuncia que o movimento já entusiasmou o mundo católico onde ganha o nome de "renovação carismática" e até reclama o mais ousado título de "novo pentecostes".

   

Há ou não há demolição?

A transcrição de um semanário paulista, publicada no JB, veio chamar-me a atenção para uma faceta da controvérsia católica esquecida pelas pessoas de bom senso, e posta em relevo, quase digo em indecente relevo, pelo referido semanário paulista. A primeira vista pode parecer que o jornalista que escreve no O Estado de São Paulo, O Globo, Correio do Povo, na Gazeta do Povo em Curitiba, e na A Tarde, de Salvador, não deveria perder seu tempo com as publicações inexpressivas que só servem para proporcionar aos próprios redatores o deleite semanal de ver suas frases em letras de forma.

 

AdaptiveThemes