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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Pe. Dominique Bourmaud (16)

João Paulo II, um novo Paulo

Pe. Dominique Bourmaud - FSSPX

 

«Esperamos que a Providência conserve-nos por muito tempo a Paulo VI, mas o dia em que precisarmos de um Papa, eu já tenho o meu candidato: é Wojtyla. Só que isso é impossível, não tem a menor probabilidade!» -- De Lubac 1.

   

De Lubac tinhas seus motivos para apoiar a eleição de um cardeal polonês, cuja eleição surpreendeu muitas pessoas. Durante o conclave, estava presente, obviamente, o cardeal primaz Wyszynski, que encarnava a Igreja dos mártires. Mas ele não era nenhum papabile, porque denunciava muito abertamente a Igreja pós-conciliar, uma Igreja cujo credo tornou-se elástico e cuja moral fez-se relativista, uma Igreja mergulhada na penumbra, uma Igreja que havia fechado os olhos diante do pecado. Por outro lado, o cardeal Wojtyla era moderno e, mais ainda, um modernista de fato e de direito. O arcebispo de Cracóvia apoiava a edição polonesa da revista Communio e, uma vez eleito Papa, não tardaria em promover ao cardinalato os seus três fundadores, Ratzinger, De Lubac e Von Balthasar, embora este último tenha vindo a falecer na véspera de sua entronização. 

O padre Meinvielle, em um livro memorável escrito em 19702, anunciava a formação de uma dupla Igreja: a Igreja da promessa, que professaria a fé incorruptível de seu Fundador, e a Igreja da propaganda, a serviço da gnose cristã e progressista. O mesmo Papa poderia, inclusive, presidir ambas as Igrejas. Professaria a doutrina imaculada da fé, mas em seus atos equívocos sustentaria a Igreja da propaganda. Este livro, escrito no tempo de Paulo VI, descreve-o admiravelmente. Sob o pontificado de João Paulo II, não é necessário dizê-lo, a duplicidade e o engano sobre o depósito revelado tornou-se algo comum em Roma. Depois de esboçar uma rápida biografia do Papa, estudaremos seu verdadeiro pensamento. Deste modo estaremos em melhores condições para definir a finalidade do seu pontificado: o estabelecimento da religião universal. Se Paulo VI foi qualificado simplesmente de novo Moisés, João Paulo II é melhor qualificado como um segundo São Paulo, mas de um novo tipo. (Continue a ler)

  1. 1. De Lubac, Entretien autour de Vatican II, p. 48, em Courrier II, p. 123.
  2. 2. Meinvielle, De la Cábala al progresismo, conclusão.

A condenação do Modernismo por São Pio X

 

Apesar dos inevitáveis males que acompanham toda crise, o modernismo foi benéfico ao mostrar-nos um santo e um Papa em ação como nunca se tinha visto na história já maravilhosa da Igreja. São Pio X não só era um santo, mas um Papa santo, algo que o mundo não via há quatro séculos. Embora não ostentasse os títulos nobiliárquicos ou a consumada diplomacia de Leão XIII, São Pio X nada tinha de pequeno cura de aldeia obscurantista, como seus detratores tanto apreciavam descrevê-lo. Em um pontificado de pouco mais de dez anos, em meio às mais perigosas crises que a Igreja atravessava, esse veneziano conduzirá a barca de Pedro com mão de mestre. Será qualificado de retrógrado por ter feito ouvidos moucos às sereias modernistas que preconizavam o «Evangelho puro» e profetizavam que a Igreja deveria mudar ou morrer. E, não obstante, poucos pontífices terão merecido como ele o título de reformador, pelos enormes progressos que fez em campos tão diversos como os estudos eclesiásticos, o direito canônico, a Sagrada Bíblia e a liturgia. 

Teilhard de Chardin, o profeta do Cristo cósmico

[Capítulo XV do livro Cent ans de modernisme. Généalogie du Concile Vatican II (Editions Clovis, 2003) do padre Dominique Bourmaud, FSSPX.]

Falando estritamente, uma síntese de Teilhard parece fora de propósito numa recensão genealógica dos princípios modernistas, porque nosso protagonista não é filósofo, nem exegeta, nem propriamente teólogo. Porém, fazer o álbum da família neomodernista sem incluir Teilhard de Chardin seria expor-se a subestimar a popularidade do movimento nos círculos profanos. Se, no período das primeiras publicações teilhardianas, em 1927, o modernismo não passava de uma sombra, trinta anos depois, quando da morte de Teilhard, o vírus conquistara todos os níveis hierárquicos e infectara aos pensadores mais sutis, antes de ganhar Roma. O fenômeno teilhardiano age como um termômetro. É o ponto de referência, o critério definitivo que permite distinguir entre modernistas e católicos fiéis. Depois de um esboço do profeta e da sua visão, será preciso abordar as razões profundas de sua celebridade, de ordem científica e mística, para concluir com sua influência póstuma.  Leia mais

Paulo VI, o sepultador da Tradição

Nota da Permanência: Apresentamos a seguir um capítulo do livro “Cem anos de modernismo” (Cent ans de modernsime. Généalogie du Concile Vatican II, Editions Clovis, 2003) do padre Dominique Bourmaud, FSSPX.

Capítulo XXII

Há mais de um século que os Carbonários, a maçonaria italiana, tinham planejado destruir o papado:

“O trabalho que empreenderemos não é obra de um dia, nem de um mês, nem de um ano: pode durar vários anos, talvez um século; mas em nossas fileiras morre o soldado e a luta continua… O que devemos buscar e esperar, como os judeus esperam o Messias, é um Papa de acordo com nossas necessidades… E este pontífice, como a maioria dos seus contemporâneos, estará mais ou menos imbuído dos princípios humanitários que começaremos a pôr em circulação… Quereis estabelecer o reino dos escolhidos sobre o trono da prostituta da Babilônia? Que o clero marche sob o vosso estandarte, crendo sempre marchar sob a bandeira das Chaves Apostólicas… Estendei vossas redes… no fundo das sacristias, dos seminários, dos conventos… Tereis pregado uma revolução de tiara e capa pluvial, marchando com a cruz e a bandeira, uma revolução que não necessitará senão ser ligeiramente estimulada para atear fogo em todos os extremos da terra”[1].  Leia mais

"Um escritor irlandês e apóstolo de Cristo Rei" - nota biográfica do Pe. Denis Fahey

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

 

Em 3 de julho de 1883, veio ao mundo o homem que muitos consideram o Apóstolo do século XX para o Reinado Social de Cristo Rei, o Pe. Denis Fahey, nascido de uma família católica irlandesa verdadeiramente devota e num ambiente ― Golden, Condado de Tipperary ― repleto dos valores da verdadeira Fé. Em sua infância, certamente ouviu muitos relatos dos sofrimentos de seus ancestrais pela Fé católica, num passado não muito distante. Denis Fahey entrou na Congregação do Espírito Santo, que o desenvolveu em seus anos de formação.

 

A formação de um Apóstolo

Enviado para estudar em Roma, sua aguda inteligência floresceu; porém, mais importante ainda, sua fé na Igreja Católica como Corpo Místico de Cristo se aprofundou. O estudo da história, vista do ponto de vista da Fé, “que lança uma nova luz sobre tudo”, mostrou a Fahey o verdadeiro significado do mundo e do homem. Deus sabe bem como o homem deve funcionar. O homem só pode alcançar paz na Terra e felicidade eterna no Céu ao viver como Deus quis que vivesse como indivíduo e cidadão.

O secularismo, conforme definido no Webster’s Dictionary, propõe que a conduta moral deve ser determinada exclusivamente em vista do bem-estar social. É uma visão da vida baseada na premissa de que a religião e considerações sobre Deus e a vida futura devem ser excluídas. Seu outro nome é naturalismo, tão perigoso para as almas. Em seu livro The Kingship of Christ and Organized Naturalism,[1] o Pe. Fahey cita o Cardeal Pie: “Por onde quer que o sopro do naturalismo tenha passado, a própria fonte da vida cristã ressecou.” Não pode haver ilustração mais clara dessa verdade do que a agenda secular promovendo leis que introduziram o divórcio, o aborto e a sodomia em quase todos os países do Ocidente.

Trata-se do imemorial conflito entre Luz e Trevas, Bem e Mal, Cristianismo e Paganismo. O Pe. Fahey anteviu-o e lutou durante toda a sua vida para repelir o ataque a Cristo e à sua Igreja. Certa vez, numa palestra para os estudantes do Espírito Santo, comentando alguns ataques escandalosos que sofria da mídia, declarou: “Eu só disse o que ficaria feliz em dizer no Julgamento”. Esse destemido defensor dos direitos de Deus sabia ter bom humor. Seus estudantes têm carinhosas lembranças de seu mestre:

“Foi como professor de filosofia que a maioria de nós encontrou o Padre Fahey pela primeira vez. Sentíamos que estávamos diante de alguém que era grande porque era bom ― bom com a bondade de Deus. Tinha um raro senso de humor que se expressava freqüentemente com tiradas sobre si mesmo, mas nunca sobre os outros. Estava acostumado a receber muita correspondência da Inglaterra e dos Estados Unidos, grande parte dela de não-católicos, escritores de várias áreas da ciência social, que buscavam seu conselho e crítica. Certo dia, segurando um maço de tal correspondência, observou com sua voz aguda: ‘Eles dizem que o Padre Fahey tem uma abelha no boné,[2] mas agora vêm todos procurando por mel!!’”

 

Firme pelo reinado de Cristo

Porque não aprovou o Artigo 44 da Constituição irlandesa de 1937, foi chamado de “antipatriótico” por muitos.[3] Mas, assinalando que sua desaprovação fluía dos princípios da doutrina social católica tão inevitavelmente quanto a água jorrava de uma fonte, o Pe. Fahey explicava: “Os papas colocaram a premissa maior, o Artigo 44 colocou a premissa menor ― e todos vieram em cima de mim porque tirei a conclusão!” O humor da situação era o humor de alguém versado em lógica. Como padre irlandês, entretanto, percebeu muito perspicazmente a infidelidade a Cristo contida no Artigo 44. Isso assombrava suas horas de vigília e perturbava seus breves momentos de repouso.

Profundamente irlandês como era, o Pe. Fahey tinha carinho por suas raízes em Tipperary. Os moradores locais falavam com afeto e orgulho justificado do “Padre Denis”. Seus sermões aos domingos, durante suas estadias temporárias em sua paróquia de origem, eram ansiosamente aguardados. Conhecia sua audiência e talvez por isso um de seus ouvintes pudesse prestar-lhe uma homenagem e fazer, ao mesmo tempo, uma importante distinção: “É um homem de Tipperary, o Padre Denis, e o hurling[4] está no seu sangue. Ele nunca nos atrasa no domingo da final em Munster[5] e não se incomoda em pedalar 25 milhas para estar, ele mesmo, presente lá!”

Forçado a escrever sua defesa, o Pe. Fahey nos dá uma visão interessante e reveladora sobre seus dias de estudante em Roma durante o pontificado de São Pio X:

“Estando em Roma, comecei a me dar conta mais plenamente do significado real da história do mundo como narrativa da aceitação e da rejeição do programa de Nosso Senhor para a ordem social. Costumava pedir permissão para ficar na Capela da Confissão[6] enquanto os outros estudantes iam passear pela Basílica. Gastava tempo lá percorrendo a história do mundo e prometia repetidamente a São Pedro que se eu tivesse a chance, ensinaria a verdade sobre o seu Mestre da forma como ele e seus sucessores, os romanos pontífices, queriam que fosse feito. Isso é o que tenho me esforçado para fazer e o que estou fazendo.”

Apesar de seus escritos serem, à primeira vista, tão variados, indo desde um tratado sobre oração mental até um livro sobre dinheiro, há continuidade e consistência entre eles. Desaprovou o Artigo 44 porque este não podia ser reconciliado com o ensinamento tradicional dos soberanos pontífices sobre os Direitos Sociais de Cristo Rei. Opôs-se à maçonaria porque esta sustentava uma oposição organizada e insidiosa à influência do Corpo Místico na sociedade. Expunha e deplorava as maquinações das Finanças Internacionais como uma perversão da ordem divina. Dinheiro nas mãos de uma pequena mas poderosa minoria, em vez de estar a serviço de uma vida familiar próspera, significava impor a milhões de pessoas condições iníquas e hostis à vida da Graça.

Além de seus deveres de sacerdote, professor e escritor, o Pe. Fahey engajou-se em considerável “ativismo”. Fundou a Maria Duce [“Com Maria Nossa Líder”], uma organização composta por clérigos e leigos de mentalidade semelhante, cujo propósito era combater o marxismo cultural que começava a se infiltrar e corromper a vida irlandesa. Detestada por modernistas até hoje, a Maria Duce empreendeu ações concretas para organizar protestos, petições políticas e para distribuir material escrito. Seu periódico mais incisivo, Fiat, dava nome aos bois e mantinha registros daqueles que buscavam poluir e destruir a vida tradicional irlandesa.

 

Desafiando a mídia em nome da Verdade

Por causa de seus livros, o Pe. Fahey ganhou seguidores internacionais, especialmente nos Estados Unidos, onde sua obra recebeu notoriedade por meio de sua associação com o Pe. Charles Coughlin, apresentador de rádio, que freqüentemente citava passagens de livros do Pe. Fahey em suas transmissões e nas páginas de sua publicação, Social Justice. Apesar de Pe. Coughlin ter interrompido seu popular programa de rádio em 1942 (mesmo ano, por coincidência, em que Pe. Fahey iniciou a Maria Duce), principalmente por causa de pressões das autoridades da Igreja devido a suas críticas à Administração Roosevelt e a seu suposto “anti-semitismo”, o Pe. Fahey continuou suas atividades mesmo com a crescente frieza dos eclesiásticos irlandeses em relação a seus empreendimentos.

Pe. Fahey entendeu melhor do que a maioria como o cinema, a televisão, o rádio, a música e a indústria gráfica eram usados pelos inimigos de Cristo Rei para subverter a sociedade. Valendo-se da Maria Duce, procurou enfrentar e se opor a esses meios de comunicação de massa. Seria quase impossível negar que a revolução cultural que varreu o Ocidente durante os anos 60 tenha sido produzida, em grande medida, pelas forças que controlavam a mídia. Esta, pela metade do século XX, já teria se tornado tão importante na formação da opinião, valores e costumes públicos quanto escolas, igrejas, academia e governos. Foram luminares como o Pe. Fahey e os papas pré-Vaticano II que entenderam e combateram o que estava acontecendo em sua própria época. Infelizmente, aquele combate se ausentou dos corações e mentes de muitos ocidentais que abandonaram a defesa de sua sociedade contra a investida dos marxistas culturais.

Ao examinar esses feitos, pode-se ficar tentado a pensar no Pe. Fahey como o perpétuo oponente, condenando isto, deplorando aquilo. Um estudo cuidadoso do homem e de seu ensinamento revela a lógica daquela oposição, a saber, sua inabalável lealdade a Cristo. Talvez sua maior desvantagem, humanamente falando, tenha sido sua sabedoria. Ele sabia demais! Alguns achavam que era anormal. Certo dia, ouviram-no dizer a respeito de um ataque recente: “Tenho estudado o problema por 40 anos e acontece que é possível que eu esteja certo apesar de tudo.” Havia se dado conta intimamente e quase visceralmente de que as idéias determinam o curso da história. Assim, penetrava sem esforço através da cortina de fumaça da propaganda política e via Satanás manobrando seus agentes para mais um ataque à vida divina da Graça.

 

O que podemos aprender com seu exemplo?

O que católicos tradicionais podem aprender com esse herói? Enquanto a Igreja pós-conciliar apresenta Cristo erroneamente como alguém “água-com-açúcar”, a Sagrada Escritura O revela freqüentemente como uma figura combativa. Seguindo os passos de seu divino Mestre, o Pe. Fahey era um lutador. Enquanto o mundo e mesmo homens da Igreja o contradiziam, ele continuava a batalha. Para ele, a idéia de ceder, sejam lá quais fossem as propostas sedutoras oferecidas, era anátema.

O Pe. Fahey entendia que, se Cristo não fosse o Rei dos corações, mentes e sociedades criadas pelo homem, a humanidade estaria, no fim das contas, condenada. Afligia-se por sua amada Irlanda ao vê-la afastar-se mais e mais da antiga Fé, e alertava que, se uma reversão espiritual não acontecesse, seus compatriotas seriam varridos pelas convulsões culturais que sobreviriam. O lamentável estado do catolicismo hoje na Ilha da Esmeralda só demonstra o quanto o padre estava certo. Hoje em dia, os que esperam fazer mais uma vez do ideal de Cristo Rei o caráter governante da sociedade precisam assumir a mentalidade do infatigável Pe. Fahey. Isso também exige que aprendamos esses princípios católicos e os defendamos como as muralhas da cidade.

(The Angelus, 447. Tradução: Permanência)

 

[1] “O Reino de Cristo e o Naturalismo Organizado”, obra não publicada em português. [N. do T.]

[2] “a bee in his bonnet”, expressão que significa que alguém fala sem parar sobre um assunto que considera muito importante. [N. do T.]

[3] No Artigo 44 da Constituição irlandesa de 1937, o Estado reconhecia uma indefinida “posição especial” da Igreja Católica “como guardiã da Fé professada pela grande maioria dos cidadãos”, mas reconhecia também “a Igreja da Irlanda, a Igreja Presbiteriana da Irlanda, a Igreja Metodista da Irlanda, a Sociedade Religiosa de Amigos na Irlanda, assim como as Congregações Judias e outras denominações religiosas existentes na Irlanda”. [N. do T.]

[4] Hurling é o esporte nacional da Irlanda, parecido com o hockey. [N. do T.]

[5] Geralmente no segundo domingo de julho. [N. do T.]

[6] Localizada no coração da Basílica de São Pedro, sob o altar-mor. [N. do T.]

"O monstro do tomismo" - nota biográfica do Pe. Garrigou-Lagrange

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

[Nota da Permanência: O leitor interessado encontrará neste site muitos artigos teológicos e espirituais do dominicano Garrigou-Lagrange, monstro do tomismo]

 

O Pe. Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964) nasceu no Sul da França, mas mudou-se freqüentemente, acompanhando as numerosas mudanças de posto de seu pai, como coletor de impostos. Após estudar medicina, ouviu o chamado divino e juntou-se à província dominicana de Paris, tendo estudado em Flavigny (atualmente Seminário Francês da FSSPX). Suas pesquisas o levaram a buscar estudos filosóficos na Sorbonne, Paris, e a estudar os escritores modernos. Seus interesses acadêmicos permitiram-lhe ser formado em encontros com mentes de primeira classe como o Pe. Ambroise Gardeil, o Pe. Norberto del Prado e Juan Arintero.

 

Realizações intelectuais

Uma formação tão poderosa fez com que fosse escolhido para ministrar um curso sobre apologética no Instituto Angelicum de Roma aos 32 anos, cujo conteúdo veio a ser depois reunido num livro em latim, de dois volumes, intitulado De revelatione. Em seguida, foi chamado a ministrar cursos sobre dogma e alguns sobre filosofia, mas também deu aulas populares sobre teologia ascética e mística. Para o encanto de seus alunos, deu vários cursos de 1909 a 1960, mesmo quando já havia ultrapassado os 80 anos, mantendo grande entusiasmo. Seus cursos de teologia eram notáveis: abria amplos panoramas para os seus ouvintes e sabia como conectar os mestres da ciência especulativa com os da espiritualidade. Era uma mostra viva da harmonia entre as três sabedorias: filosófica, teológica e mística.

O Pe. Garrigou foi nomeado consultor do Santo Ofício em 1955. Longe de ser uma sinecura, esse trabalho lhe exigia esforço semanal de pesquisa sobre questões doutrinais nos arquivos secretos que lhe eram fornecidos pela Congregação. Desfrutou da mestria do Cardeal Ottaviani, particularmente sua arte na condução da discussão e na sumarização de questões, teses e argumentos. Amigo de grandes autores franceses, como Jacques Maritain e Henri Ghéon, Garrigou-Lagrange foi um escritor prolífico, cuja qualidade do ensino manteve-se sempre em pé de igualdade com a quantidade produzida. Além de inúmeros artigos para a Revue Thomiste e a revista Angelicum, escreveu 23 obras substanciais.

 

Um escritor espiritual

Além das obras em latim, que reúnem seus cursos formais de filosofia e teologia dados no Angelicum, os leitores podem se surpreender vendo muitos títulos sobre tópicos puramente espirituais. Aos muito famosos Les Trois âges de la vie intérieure, La Mère du Sauveur et notre vie intérieure e L’amour de Dieu et la croix de Jésus, junta-se uma obra menos conhecida intitulada De Sanctificatione sacerdotum secundum nostri temporis exigentias.

Foi no Angelicum, entre os anos 1909 e 1910, que conheceu Juan Gonzalez-Arintero, O.P., e leu sua Evolución mística. Arintero foi uma das figuras mais proeminentes do catolicismo na Espanha e participou da tentativa, no início do século XX, de restaurar a vida contemplativa à sua antiga glória. Juntamente com ele, Garrigou-Lagrange desempenhou um papel central em chamar a atenção para a natureza da contemplação e para nosso chamado universal, ainda que remoto, a ela. Num ponto mais controverso, sobre a natureza da contemplação, sua posição era muito clara: contemplação significava contemplação infusa, um conhecimento amoroso ou sabedoria que vem de Deus; um dom da presença amorosa de Deus, expressa tão claramente por São João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila e outros místicos.

Pode-se dizer sobre suas obras aquilo que ele mesmo escreveu no prefácio de seu De Christo Salvatore: que seu único objetivo era lançar luz a partir dos princípios formulados por Santo Tomás de Aquino. Tinha bons motivos para manter esse método conservador:

“Aqui, como em qualquer outro lugar, temos de nos mover do mais certo e conhecido para o menos conhecido, do fácil para o difícil. Por outro lado, se estudássemos de forma dramática e cativante os tópicos difíceis por suas antinomias, poderíamos terminar, como aconteceu com muitos protestantes, negando as verdades mais fáceis e certas. A história da filosofia e da teologia mostra que freqüentemente é isso que acontece. Temos de destacar também que, se nas coisas humanas, onde o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, estão misturados, a simplicidade é superficial e nos expõe ao erro, nas coisas divinas, ao contrário, onde há apenas verdade e bem, a simplicidade une-se perfeitamente à profundidade e à elevação, chegando mesmo a, sozinha, ser capaz de conduzir a essa elevação.”

 

Garrigou e Maritain

Os dominicanos enviaram o Pe. Garrigou a Paris, para estudar na Sorbonne. Foi no curso de filosofia de Henri Bergson, provavelmente no Collège de France, que conheceu Jacques Maritain. Este, por sua vez, é único entre os tomistas, por se tratar de um convertido; filósofo existencialista em sua juventude, foi seu encontro com o tomismo que o atraiu para a Igreja. Em geral, Maritain foi um sólido filósofo tomista. Mesmo Garrigou, inquestionavelmente um dos melhores tomistas do século passado e diretor espiritual de Maritain durante certo tempo, tece-lhe elogios por suas obras filosóficas.

Não fica claro quando a amizade que havia unido esses homens começou a rachar. A divisão quanto à condenação da Action Française em 1926 foi provavelmente um ponto de partida. Maritain, que havia se envolvido com o socialismo na juventude, tendia a apoiar os revolucionários espanhóis contra Franco e, na França, Charles de Gaulle em vez de Pétain. Essas visões políticas opostas aumentaram o atrito. Quando compreendeu a posição liberal de seu amigo, Garrigou-Lagrange aconselhou-o a deixar as questões políticas de lado e a se dedicar à sua especialidade, a filosofia tomista. Na época de Humanismo Integral, em que Maritain defendia a liberdade religiosa como um direito humano natural, a amizade tinha acabado. Diz-se que quando Maritain, o convertido, tentou persuadir o super-tradicional Garrigou-Lagrange sobre a democracia, este se indignou e disse algo como: “Agora você resolveu dar lição a nós, que somos católicos há séculos, sobre uma nova doutrina social católica?!?” Maritain esperou que Garrigou pedisse desculpas, mas ele nunca o fez.

Há um livro que resume o relacionamento entre os dois famosos tomistas, chamado The Sacred Monster of Thomism (O Monstro Sagrado do Tomismo), de Richard Peddicord; deve, porém, ser lido com cuidado, pois o autor é bem “maritainiano” em sua abordagem política.

 

Combate ao neomodernismo

Durante sua longa vida, o Pe. Garrigou sempre viu o modernismo como o inimigo número um. Explica a revista L’Ami du Clergé: “Ele considerava uma questão de consciência refutar o modernismo e todas as suas aplicações. Seria falso crer que fosse naturalmente beligerante... mas tinha um tal amor pela Verdade que não podia vê-la ameaçada sem partir para a luta com toda a sua coragem e o seu talento.” Foi isso que o motivou a escrever um livro em defesa da Fé e da filosofia perene, Le sens commun, e também Dieu, son existence et sa nature.[1]

Marcel de Corte, o grande filósofo belga do século XX, foi salvo dos disparates modernistas pelos escritos de Garrigou: “Continuei a crer porque vi que me era impossível abandonar a Fé sem negar ao mesmo tempo esse realismo que a minha raça havia depositado na profundeza mais íntima de meu ser.” De Corte continua com um severo diagnóstico do pensamento moderno:

“Está chegando o tempo em que a única filosofia que será excluída da sociedade cristã será aquela que comandou, por mais de mil anos, seu desenvolvimento intelectual. A filosofia dos intelectuais cristãos de hoje é tudo o que se pode querer, menos grega e tomista: parece que os panfletos relativos à ‘filosofia’ imanente e à mitologia da evolução universal submergiram quase todas as mentes. É necessário ter uma alma de ferro para caminhar sozinho na antiga estrada real do pensamento tradicional católico. Hoje, é o realismo, a metafísica do senso comum, a firme adesão à evidência e aos primeiros princípios dos seres e do pensamento que são corpos estranhos, inassimiláveis e até perigosos nas estruturas sociais do catolicismo presente. Não nos surpreendamos. Como disse o Cardeal de Retz: ‘É uma constante que todos queiram ser enganados’.”

Ao lidar com o neomodernismo, Garrigou ficou em evidência ao escrever La synthèse thomiste, com um apêndice, La nouvelle théologie où va-t-elle?,[2] que concluía com estas fortes palavras:

“Não consideramos que os escritores que acabamos de descrever tenham abandonado a doutrina de Santo Tomás; eles nunca aderiram a ela, nunca a entenderam realmente. Essa observação é dolorosa e preocupante. Como tal maneira de ensino poderia formar algo além de céticos? De fato, eles não propõem qualquer alternativa à doutrina de Santo Tomás. Aonde vai a nova teologia? Aonde, senão descendo a ladeira do ceticismo, da fantasia e da heresia?”

Após ter aparecido na revista Angelicum, esse artigo foi recebido com sarcasmo e insultos, o que revela que o autor acertou em cheio. Em sua defesa, escreveu outros artigos, como L’immutabilité des vérités définies et le surnaturel e Le Monogénisme n’est-il nullement révélé, pas même implicitement?.[3] Como se pode ver, eles iriam formar a base para a encíclica Humani Generis de Pio XII, que foi um syllabus de erros neomodernistas.

A estima que Pio XII sentia por Garrigou-Lagrange levou-o a escrever por ocasião do 80º aniversário deste:

“Uma razão mais forte leva-nos a oferecer nossas congratulações e felicitações àqueles que, por seus talentos e ciência, realçam o nome católico e obtêm um merecido favor de nossa parte... Estamos bem cientes da eminente piedade com que cumpres teus deveres religiosos, do renome que tens adquirido a serviço da filosofia tomista e da teologia sagrada, essa teologia que tens ensinado por cinqüenta anos, quarenta e oito deles nesse refúgio romano da sagrada doutrina chamado Angelicum. Temos sido freqüentemente testemunhas do talento e zelo com que tens, por palavra e por escritos, defendido e salvaguardado a integridade do dogma cristão.”

(The Angelus, 445. Tradução: Permanência)


[1] “O senso comum” e “Deus, sua existência e sua natureza”. [N. do T.]

[2] A síntese tomista, com seu apêndice “Aonde vai a nova teologia?” (Ver em http://permanencia.org.br/drupal/node/881) . [N. do T.]

[3] “A imutabilidade das verdades definidas e o sobrenatural” e “O Monogenismo não é de forma alguma revelado, nem mesmo implicitamente?”. [N. do T.]

"Nosso Querido Reitor" - nota biográfica sobre o Pe. Henri Le Floch

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX 

Foi em 1853 que se inaugurou o Seminário Francês em Roma, tanto para elevar o nível intelectual e espiritual do clero quanto para promover o movimento ultramontano de adesão a Roma. Foi o Papa Pio IX que o aprovou em 1859, confiando-o perpetuamente à Congregação do Espírito Santo. A orientação romana e o favorecimento papal foram coroados em 1902 com sua conversão em Instituto de Direito Pontifício.

O Pe. Henri Le Floch (1862-1950) foi seu Reitor de 1904 a 1927. Nascido em 1862, natural da diocese de Quimper, formado pelos Padres espiritanos desde 1878 e ordenado sacerdote em 1886, atuou primeiro como professor de Seminário, depois como Diretor do Colégio de Beauvais em 1895, Superior do Escolasticado de Chevilly em 1900 e finalmente Reitor do Seminário Francês em Roma a partir de setembro de 1904. Conhecido por não ter qualquer envolvimento político, opunha-se fortemente, todavia, ao laicismo militante presente na França da época.

Durante seus 23 anos como Reitor, fortaleceu o Seminário, anteriormente desmoralizado por falta de liderança, aumentando o número de seminaristas de 100 para 209, ampliou os prédios, renovou a equipe e adotou a postura anti-modernista de São Pio X. Amigo de outras figuras anti-modernistas, adquiriu com o tempo uma posição de considerável importância em Roma como consultor de várias Congregações romanas, incluindo o Santo Ofício, o que lhe deu considerável influência sobre a escolha de bispos franceses.

Dom Marcel Lefebvre o conheceu em outubro de 1923 ao entrar no Seminário Romano. O Padre Superior havia reunido os seminaristas para lhes dar sua primeira palestra espiritual do ano. Aos 61 anos, Pe. Henri Le Floch já caminhava para o ocaso quanto à idade, mas não quanto a suas faculdades intelectuais. De estatura alta e exalando confiança, lembrava uma árvore frondosa na exuberância de sua plena maturidade. Pele corada e rosto largo, no qual as proeminentes sobrancelhas contrastavam com a finura de seu nariz e lábios, portava-se com nobre dignidade, trazendo um aspecto de firmeza em seus olhos azuis acinzentados. Sua natural seriedade era aliviada por um ar de bondade e um sorriso discreto, ainda que prontamente exibido. Deu sua palestra sem demonstrar qualquer afetação; era a dignidade e a afabilidade em pessoa. Além disso, havia ali uma mistura de extrema auto-confiança e total esquecimento de si mesmo: um servo da Igreja, um homem de doutrina verdadeira e católica. Obviamente era um teólogo, mas seu espírito, intuitivo e inquieto, alcançava grandes alturas sem ter de passar por todos os níveis do argumento teológico. Não que ele desprezasse a teologia como uma ciência racional, mas, em última análise, quase nunca a usava dessa maneira. Sua firmeza na Fé vinha acompanhada por uma profunda compreensão dos mais frutuosos conceitos teológicos.

“Eu sofria por não ver o reino de Deus estabelecido onde deveria estar.” O reino de Deus, diz São Gregório, é freqüentemente entendido na linguagem sacra como “a Igreja do tempo presente”. Pe. Le Floch admitia sofrer por isso, algo que o acompanhou por toda a vida. Mas enquanto era capaz de agir, enquanto podia combater, ele não apenas sofreu: agiu, lutou por essa causa, a única pela qual valia a pena consagrar seus esforços, sem poupar nada para si, tudo entregando pelo reino da Igreja. A Igreja é o único meio de salvação, mas não o entendamos apenas com referência à salvação eterna. Pe. Le Floch o entendia também em relação à salvação temporal. A Igreja é o único órgão autorizado da Revelação divina e possui o depósito das verdades que o Pai quis que conhecêssemos ao falar por meio de Seu Filho.

“O único homem pleno é o cristão…” O homem, tendo sido criado para ser cristão, não o sendo, não terá alcançado a plenitude de sua humanidade. Isso porque os valores humanos em si mesmos, a partir do pecado original, só podem ser plenamente acessíveis a todos, sem mistura de erro, no contexto dos valores cristãos e com a modificação interna operada por estes. Nem tudo isso é dogma, mas teologia certa, vigorosa e invencível, diante da qual cabe perguntar como o liberalismo pode se sustentar por um momento que seja na mente de um cristão, que não deve considerar nada tão precioso quanto a glória da Igreja. O erro do liberalismo consiste em pensar que, na presente ordem da sociedade humana, podemos abandonar a realidade da soberania da Igreja desde que a mantenhamos como um ideal, ainda que irrealista.

O jovem seminarista Lefebvre escreveu: “Dei-me conta de que, de fato, eu tinha um punhado de idéias erradas. Estava muito satisfeito por aprender a verdade, feliz em saber que estava errado, que tinha de mudar minha forma de pensar sobre certas coisas, especialmente ao estudar as encíclicas dos papas, que nos mostravam todos os erros modernos; aquelas encíclicas magníficas de todos os papas até São Pio X e Pio XI. Para mim foi uma completa revelação. Foi assim que nasceu silenciosamente em nós o desejo de conformar nosso juízo ao dos papas. Costumávamos dizer entre nós: Mas como os papas julgavam esses eventos, idéias, homens, coisas e épocas?”

Para Dom Marcel Lefebvre, “o Pe. Le Floch fez-nos entrar e viver na história da Igreja, nessa luta que os poderes perversos travam contra Nosso Senhor. Fomos mobilizados contra esse medonho liberalismo, contra a Revolução e as forças do mal que tentavam prevalecer sobre a Igreja, o reino de Nosso Senhor, os Estados católicos e toda a cristandade. Acho que toda a nossa vida como sacerdotes ― ou como bispos ― foi marcada por essa luta contra o liberalismo. Esse liberalismo era praticado por católicos liberais, pessoas de duas caras que se diziam católicos, mas que não suportavam ouvir toda a verdade, não queriam condenar o erro ou os inimigos da Igreja, não toleravam viver continuamente uma cruzada.”

Homem da verdade e da doutrina, o Pe. Le Floch também era, na força e integridade de sua vocação, um homem da Igreja. Quais seriam as convicções interiores que impulsionavam toda sua atividade? Como um homem da Igreja, colocava-se exclusivamente a seu serviço, defendendo apenas o que era diretamente de interesse dela. Preferia manter com determinação aquela atitude reservada que a Igreja, com raras exceções, impõe aos clérigos; ao longo de toda a sua vida, envolveu-se num único tipo de polêmica, a saber, a defesa da Santa Sé, de quem era, de acordo com o testemunho do Cardeal Secretário de Estado, “a caneta francesa”. Salvo essa única circunstância, trabalhava em silêncio, sem poder evitar que um crescente renome se lhe viesse associar, ao mesmo tempo em que não podia deixar de flagelar seu próprio coração com o desdém pela glória mundana. Extremamente reservado, tendia a mostrar-se cada vez menos e a desaparecer cada vez mais. Homens de seu calibre não se preocupam em parecer o que não são. Sabem muito bem que aquilo que são vale muito mais do que a imagem que poderiam construir de si mesmos. Mas o Pe. Le Floch não estava nem mesmo preocupado em parecer o que era.

“Era possível se enganar, e nós nos enganamos a princípio”, disse o Pe. Berto, futuro teólogo de Dom Marcel Lefebvre no Concílio Vaticano II. “Durante todo o meu primeiro ano no Seminário, perguntava-me como puderam colocar numa posição tão elevada um homem que, apesar de possuir uma presença nobre, parecia exercer tão pouco sua autoridade.” Pe. Berto compartilhou sua opinião com um colega seminarista que, ao ouvir essa bobagem, exclamou com espanto: “O que você está dizendo, meu amigo? Nada se faz aqui que não esteja de acordo com a vontade do Padre Superior. Só que não dá para ver.” Era algo tão discreto, de fato, que se poderia pensar que a instituição mantinha seu curso por conta própria, sendo que a verdade era completamente o contrário. A direção era mantida por uma mão tão firme e segura, com uma atenção tão vigilante, sem jamais deixar de prestar atenção ou fazer um movimento em falso, que a ação do piloto tornava-se tanto mais imperceptível quanto mais poderosa e bem ordenada. Por natureza e por graça, por intuição e por estudo, o Pe. Le Floch colocava acima de tudo a ordem, e a desordem abaixo de tudo. Em todas as coisas, era um homem de ordem: tão firme e inflexível ao comunicar seus pensamentos, quanto lhe eram estranhos todo desejo e toda necessidade de comunicar-se a si mesmo.

Sob o comando do Pe. Le Floch, o Seminário Francês permaneceu perfeitamente fiel ao papado sob São Pio X, Bento XV e Pio XI, particularmente quanto à condenação do modernismo social por este último, em 1922. O Pe. Le Floch deixou bem claro que aceitava a condenação da Action Française em dezembro de 1926, apesar de pessoalmente acreditar que a Igreja não devesse se envolver nessa política. Entretanto, sua renúncia em 1927 foi causada pela oposição pessoal do Papa Pio XI, baseada numa suposta conexão que teria com a Action Française, seguida por ataques de quatro professores e dez estudantes do Seminário. Viveu os 23 anos restantes de sua vida numa aposentadoria ativa.

Mons. Pucci, um padre italiano que tinha informações internas sobre as circunstâncias de sua remoção, logo escreveria: “Pio XI decidiu que o Pe. Le Floch, tendo servido por 20 anos sob um diferente arranjo político, não estava apto a servir sob o seu, ou a conduzir sua implantação.” Como se uma implantação desse tipo tivesse algo a ver com os estudos num Seminário! Volta e meia, entretanto, alguns seminaristas tiveram de fazer as malas porque o clima em Roma não lhes era propício. Foram por isso chamados de “Pro Action Française”, quando, na realidade, só não haviam conseguido lidar com a partida do Pe. Le Floch e com a nova atmosfera. Marcel Lefebvre permaneceu em Santa Chiara, não sem certa nostalgia pela perda de um grande líder, a quem ele sempre chamava com emoção de “nosso querido Reitor”.

(Angelus Press no. 444. Tradução: Permanência)

Bastião da fé - nota biográfica sobre o Cardeal Ottaviani

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

 

Alfredo Ottaviani (1890-1979) nasceu em Roma numa família humilde; o seu pai era padeiro. Estudou com os Irmãos das Escolas Cristãs, no Pontifício Seminário Romano e no Ateneu Santo Apolinário, onde recebeu os doutorados em filosofia, teologia e direito canônico. Foi ordenado sacerdote em março de 1916.

 

RESUMO BIOGRÁFICO

Logo foi nomeado professor de filosofia escolástica e direito público eclesiástico (sua matéria preferida) na Universidade Urbaniana e, depois, no Ateneu Jurídico Santo Apolinário. Tornou-se substituto na Secretaria de Estado e, em seguida, consultor da Suprema Congregação do Santo Ofício. Após dezessete anos de trabalho, em 1959, tornou-se o seu Pró-Prefeito – o posto de Prefeito era ocupado pelo próprio papa. Foi então consagrado bispo por João XXIII, tomando para si o lema episcopal Semper Idem – Sempre o mesmo – que refletia sua teologia conservadora.

Já como seminarista, Alfredo formou-se na luta contra os inimigos mais ferozes da Igreja, “a maçonaria e o hebraísmo reinam através do Ministro Sidney Sonnino”. Em 1937, Pio XI utilizou seus conhecimentos para escrever a encíclica Divini Redemptoris, contra o comunismo, em que o anatematizou como “intrinsecamente perverso”. Seus estudos políticos, que levaram à publicação de Institutiones juri Publici Ecclesiastici, fez dele arauto de Cristo Rei contra a corrente de John Courtney Murray e dos liberais. Abaixo, alguns dos seus ensinamentos de maior destaque no assunto:

 

“Tenho dito que, antes de tudo, o Estado tem o dever de professar a religião publicamente. Os homens unidos em sociedade não estão menos sujeitos a Deus do que como indivíduos, e a sociedade civil, não menos que o homem individual, é sujeita a Deus, sob o Qual, como seu Autor, ela se encontra unida, por cujo poder é preservada, por cuja bondade recebe o grande tesouro de bens que usufrui. Portanto, assim como não é lícito ao indivíduo deixar de cumprir seus deveres para com Deus e a religião pela qual Deus é adorado, tampouco os estados podem, sem grave ofensa moral, agir como se Deus não existisse ou furtar-se ao cuidado da religião, como se lhes fosse algo estranho ou de pouca importância.”

 

Pio XII preocupou-se muito quando percebeu os movimentos que alguns líderes da Igreja Latina faziam em direção ao comunismo, e também por causa das veredas que os neo-modernistas abriam na Igreja. O Papa convocou secretamente Ottaviani para a formação duma comissão preparatória de um futuro concílio ecumênico cuja meta seria “reafirmar vários pontos da doutrina católica ameaçados por erros, não apenas teológicos, mas também morais e filosóficos, e até mesmo sociológicos”. Mas, vendo que havia divisão na própria comissão, Pio XII interrompeu o projeto. O seu único resultado foi a vigorosa encíclica Humani Generis, de 1950, com a contribuição de Ottaviani, que condenou a Nova Teologia inaugurada  pelo  Pe. Henri de Lubac, no espírito de Teilhard de Chardin.

O Cardeal Ottaviani participou do conclave de 1963, que escolheu Giovanni Battista Montini, o Papa Paulo VI. Foi também Decano dos Cardeais durante o conclave, e como tal teve a honra de coroar com a tiara, em 30 de junho, o mesmo papa que a abandonaria. Esse foi o único conclave de que participou, uma vez que, em 1976, o limite de idade de oitenta anos já estava em vigor.

 

BATALHAS PRÉ-VATICANO II

Logo que Pio XII foi sepultado, começaram a circular os ventos de mudança. No início de 1962, Cardeal Ottaviani notificou o superior dos jesuítas de que o teólogo Karl Rahner fora posto sob quase-censura por Roma e não podia dar conferências nem escrever sem permissão. Poucos meses depois, João XXIII nomeou Rahner como perito do Concílio Vaticano II. A mesma estratégia foi adotada com Henri de Lubac e Yves Congar, que, apesar de suspeitos de neo-modernismo, também receberam do papa os títulos de peritos do Concílio.

As batalhas pré-conciliares inauguraram um novo tipo de concílio, com um poder triangular (Papa-Cúria-Concílio), uma vez que o papa, em segredo, era contrário à posição da Cúria e aberto às novidades dos teólogos de vanguarda. Ottaviani, que detinha o poder por trás da Cúria, logo se veria isolado e mal aceito. Acreditava que era seu dever afirmar a pureza e integridade da Doutrina a todo custo, a tempo e contratempo. O Cardeal Siri deixou o seu testemunho: “Nele [Ottaviani], a firmeza nas decisões expressava-se com os mais fortes acentos: a ninguém temia. Na defesa da Fé, seu temperamento o fazia muito combativo”.

Um dos debates acalorados ocorridos nas sessões do pré-Vaticano II tratou da salvação dos infiéis e do dogma Extra Ecclesiam: fora da Igreja não há salvação. Nessa subcomissão estava Monsenhor Fenton, amigo próximo de Ottaviani. Vários cardeais – Leger, Dopfner, Konig e Bea – fizeram várias mudanças substanciais. Ottaviani reagiu ferozmente contra a “perigosíssima” idéia de Bea, que dizia ser possível ser membro do Corpo Místico de Cristo sem ser membro da Igreja, o que colocaria em risco a doutrina da infalibilidade do Magistério da Igreja. Ele lembrou que “A Igreja Católica e o Corpo Místico de Cristo são a mesma coisa. Não há salvação fora da Igreja. O significado dessa tradicional frase está bem explicado na Carta do Santo Ofício ao Cardeal de Boston, em que trata da questão Feeney, que exagerara a força dessa frase. Porém, essa frase não deve agora ser reduzida à insignificância, a fim de tranqüilizar os que estão fora da Igreja.”

Nas últimas sessões preparatórias do Concílio, dois cardeais se confrontaram no assunto da liberdade religiosa: Ottaviani e Bea. Ottaviani opunha-se à separação entre Igreja e Estado e à concessão de direitos iguais a todas as religiões, mas apoiava a tolerância religiosa. Dom Marcel Lefebvre, testemunha do conflito, contou que Ottaviani levantou-se e disse a Bea: “Eminência, não tendes direito a criar este esquema, porque é esquema teológico, e pertence portanto à Comissão Teológica”. E Bea, levantando-se, disse: “Licença. Tenho o direito de criar este esquema como Presidente da Comissão pela Unidade. Se há algo que importa à unidade é essa questão da liberdade religiosa”. E, encarando Ottaviani, adicionou: “E me oponho radicalmente a tudo que afirmais no seu esquema De Tolerantia Religiosa”. O debate se tornou tão inflamado que o Cardeal Ruffini teve de intervir, notando como ficara decepcionado por testemunhar uma “discussão tão séria”. Os confrontos se intensificariam ao longo dos debates sobre o assunto, até a adoção do esquema Dignitatis Humanae.

 

O FURACÃO VATICANO II

Ottaviani foi o líder dos conservadores da Cúria durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), apesar de quase cego. Além do assunto da liberdade religiosa, sua poderosa voz foi ouvida durante os debates sobre a liturgia e sobre as fontes da Revelação Divina.

O caso mais marcante da mudança de guarda e demissão da Cúria ocorreu em 30 de outubro de 1962, quando o Cardeal Ottaviani fez ardente apelo em defesa do antigo Rito Romano: “Não parece que estamos procurando causar pasmo, ou talvez escândalo entre o povo Cristão, ao introduzir mudanças em tão venerável rito, que foi aprovado há tantos séculos e nos é tão familiar? O rito da Santa Missa não deve ser tratado como tecido que é remodelado conforme os impulsos de cada geração.” Como passara em muito o limite de dez minutos, seu microfone foi cortado. Após tocar o microfone e verificar que fora desligado, o quase cego Ottaviani, humilhado, deixou cair o seu peso na cadeira e logo os aplausos estalaram na aula conciliar.

Durante o Concílio, a mídia freqüentemente encontrava em Ottaviani reações vivas nas tempestuosas sessões de trabalho. Certa vez, reagindo aos constantes clamores pela “colegialidade” dos bispos mais liberais, Ottaviani notou que a Bíblia registra apenas um exemplo dos Apóstolos agindo colegialmente – no Jardim do Getsêmani, quando “todos fugiram”. Nessa mesma matéria, outro embate histórico ocorreu com o Cardeal Frings, em 8 de novembro de 1963. Ottaviani defendeu o papado contra a Primazia Papal meramente honorária, proposta pela aliança liberal do Reno. “Quem quiser ser ovelha de Cristo deve ser apascentado por Pedro, o Pastor. Não são as ovelhas [os bispos] que devem guiar Pedro, mas Pedro deve guiar as ovelhas [os bispos] e os cordeiros.”

 

O DESMANTELAMENTO DO SANTO OFÍCIO

O Concílio Vaticano II não tinha ainda fechado as portas quando um motu proprio papal, Regimini Ecclesiae Universale, retirou da Congregação do Santo Ofício o título de “Suprema”, suplantando-a pela Secretaria de Estado. A partir daí, a política prevaleceria sobre a pureza da fé.

Ottaviani comentou a mudança: “Lembrem-se, esse é um dia negro na história da Igreja, porque essa mudança não afeta apenas o título, mas a substância. Com efeito, até agora, o princípio supremo do governo da Igreja foi a verdade revelada, cuja preservação e interpretação correta é confiada primeiro ao Papa, que usava a Suprema Congregação do Santo Ofício para esse propósito. Agora, temo que o critério decisivo para o governo da Igreja será o diplomático e o contingente. Posso ver que a Igreja sofrerá muito dano.”

Apesar de cego, tinha penetrante percepção dos eventos futuros. Em 1967, ofereceu sua renúncia, pois não desejava contribuir com o desmantelamento do Santo Ofício.

 

A ÚLTIMA BATALHA DE OTTAVIANI

Em 25 de setembro de 1969, Ottaviani, junto com Cardeal Bacci, redigiu veemente carta a Paulo VI em defesa de um estudo feito por um grupo de teólogos que, sob a direção de Dom Marcel Lefebvre, criticaram o Novus Ordo Missae, o qual viria à luz uns meses depois. Ottaviani escreveu o seguinte:

 

“O breve estudo crítico em anexo é o trabalho de um grupo seleto de teólogos, liturgistas e pastores de almas, e, ainda que breve, examina os elementos de novidade implícitos na Missa do Novus Ordo, aos quais podem se dar diferentes interpretações. Este estudo demonstra suficientemente que o Novus Ordo Missae representa, no todo e nos detalhes, um afastamento visível da teologia Católica da Missa como elaborada na Sessão XXII do Concílio de Trento, a qual, fixando permanentemente os ‘cânones’ do rito, erigiu uma barreira intransponível contra toda heresia que pretendesse minar a integridade do Mistério.

 

“As reformas recentes demonstraram amplamente que as novas mudanças na liturgia não podem ser feitas sem escandalizar os fiéis, que já mostram que essas mudanças são intoleráveis e diminuirão com certeza a sua fé. Em conseqüência, grande parte do clero passa agora por uma torturante crise de consciência, que vemos diariamente e em grande número. Temos certeza de que estas considerações, que se inspiram diretamente nas vozes vibrantes de pastores e do rebanho, encontrarão eco no coração paternal de Vossa Santidade, que está sempre tão profundamente atento às necessidades espirituais dos filhos da Igreja. No entanto, aqueles para quem as leis são feitas têm o direito, e mesmo o dever, de pedir ao legislador que ab-rogue leis comprovadamente danosas.”

O Cardeal Palazzini, em sua apresentação de Il Balluarto, explicou que a chave para ler a pessoa e o trabalho do Cardeal Ottaviani é que a verdade nos faz livres. “Ele sabe como perceber com excepcional agudeza e impressionante visão a desordem profunda e os amargos desenvolvimentos da novidade que começou a se infiltrar nos anos 1940 e que explodiu no Vaticano II. No curso do ano de 1965, Ottaviani escreveu no seu diário: ‘Peço a Deus que me permita morrer antes do fim desse Concílio. Assim, ao menos, morrerei católico.’”

Um teólogo anti-liberal

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

O HOMEM

O Cardeal Louis Billot (1845-1931), natural da Lorena, na França, entrou jovem para a Companhia de Jesus e logo foi nomeado professor de teologia. Em 1885, foi chamado a Roma pelo Papa Leão XIII para ensinar teologia dogmática na Universidade Gregoriana. Ao longo de 26 anos (1885-1911), foi professor sem páreo de gerações de estudantes eclesiásticos, futuros bispos e cardeais.

Leão XIII teve de lutar contra os que queriam remover o Pe. Billot de Roma. Para mantê-lo na Sé Romana, São Pio X em 1909 nomeou-o consultor do Santo Ofício, e em 1911, contrariando a tradição jesuíta de não aceitar dignidades, elevou-o a cardeal-diácono.

Em 12 de fevereiro de 1922, Pio XI foi coroado. O cardeal-diácono que devia coroar o novo pontífice estivera enfermo e o Cardeal Billot foi apontado para substituí-lo. Ao receber a tiara deste cardeal, o Papa Ratti não tinha idéia de que cinco anos depois teria que retirar das mesmas mãos o barrete cardinalício.

Em 1927, o Cardeal Billot “aposentou-se” para “preparar-se para a morte”. Essas foram as palavras no anúncio oficial, mas as verdadeiras razões foram outras, como veremos. Na verdade, a aposentadoria não foi nenhuma sinecura para o octogenário. Ocupou-se da republicação de suas obras, mantendo o vigor intelectual até o fim de sua vida, como evidenciado nas suas correspondências e conversas. Um “apaixonado por Deus, pela Igreja e por Cristo, Rei da França”, morreu no noviciado jesuíta de Galloro, aos 86 anos.

O Pe. Henri Le Floch, que foi reitor do Seminário Francês em Roma por 23 anos, posto que deixou três dias após a renúncia do cardeal, escreveu-lhe um tributo: Cardeal Billot, homem da Igreja, teólogo, professor, patriota, e defensor da verdade contra os erros do Liberalismo, Modernismo e Sillonismo. O título do livro revela o seu teor: Le Cardinal Billot, lumière de la théologie – Cardeal Billot, luz da teologia.

 

ATRITOS COM O GOVERNO DE PIO XI

Pio XI queria continuar os trabalhos do Concílio Vaticano I e consultou os cardeais sobre a conveniência da sua reconvocação. De acordo com as investigações do Pe. Giovanni Caprile, 26 respostas se conservam nos arquivos do Vaticano, e apenas duas foram negativas: as do Cardeal Andreas Frühwirth (1845-1933) e a do Cardeal Billot. Este argumentou que, por causa das dificuldades e perigos, a era dos concílios ecumênicos parecia terminada, sobretudo pelo risco de os modernistas se aproveitarem do concílio para “fazer a revolução, o novo 1789, objeto dos seus sonhos e esperanças”.

Como francês, Billot só pôde estar exasperado com a virada dos acontecimentos na França dos anos 1920. O núncio papal em Paris pareceu ter apoiado a coalizão maçônica da esquerda de Herriot-Blum. Alguns dias depois, em audiência, Pio XI reclamou amargamente a Billot:

— Eminência, vossos compatriotas votaram muito mal.

— Santidade, vosso núncio tudo fez para que isso acontecesse.

— O meu núncio? Meu núncio? Ele obedece às minhas ordens! É a minha política, minha política, minha política...

Noutro tópico, algumas páginas de Charles Maurras, líder do movimento monárquico Action Française, tiveram o privilégio invejável de serem reproduzidas no tratado De Ecclesia, do Cardeal Billot, sobre as relações entre as autoridades religiosa e secular. Vale aqui citar a opinião de Maurras sobre a democracia:

“Nosso profundo respeito pela nação nos obriga a dizer que, para resolver questões importantes e de interesse geral, as quais requerem anos de estudo, prática e meditação, basta considerar a voz dos incompetentes. E para ter êxito  nas escolhas mais delicadas, basta o sufrágio dos ignorantes... O governo do número tende à desorganização do país. Destrói à força tudo o que o tempera, o que por natureza é diferente: religião, família, tradições, classes, organizações de todos os tipos etc.”

O Cardeal Billot teve conhecimento direto da Action Française, a qual descreveu como “estimada pelos bons e temida pelos maus”. Ele teve de encarar o Cardeal Gasparri, Secretário de Estado, na véspera da condenação do movimento. O infeliz encontro foi o duelo de duas grandes mentes, o maior dos teólogos e o maior dos canonistas disputando sobre um movimento político. O canonista invocou apenas a “vontade superior”. Não há dúvida de que, no julgamento da Action Française, as obras pagãs de Charles Maurras não causaram tanta preocupação quanto seu espírito contra-revolucionário. Numa carta, Billot expressou seu pensamento: “Não é tanto o seu Chemin de Paradis ou Anthinée que eles odeiam, mas o seu anti-liberalismo, anti-democratismo, anti-republicanismo.”

Em 19 de setembro de 1927, o Cardeal Billot foi despido da púrpura que aceitara tomar somente por causa da ordem do seu venerado Pio X, tendo recebido em troca uma pequena estátua de Nossa Senhora; e em seguida aposentou-se. O cardeal, que nunca fora consagrado bispo, voltou a ser o Pe. Louis Billot da Companhia de Jesus.

 

PIO XII E O CARDEAL BILLOT

Pio XII, tão-logo eleito, levantou a excomunhão que pesara sobre a Action Française e os seus membros.

Em 1º de Outubro de 1939, em audiência especial, o Pe. Le Floch apresentou o seu trabalho sobre o Cardeal Billot a Pio XII, que muito o apreciou. Da mesma forma, na alocução pelo quarto centenário da Universidade Gregoriana, em 18 de outubro de 1953, Pio XII mostrou ter o cardeal em boa memória, pois entre tantos professores da sua juventude, mencionou somente o seu nome.

“Para os mais velhos dentre vós, relembremos com alegria nossos professores, como Louis Billot, para nomear um que, com distinção de espírito e inteligência, nos estimulou a venerar os estudos sagrados e amar a dignidade do sacerdócio.”

A influência doutrinal do Cardeal Billot em Roma durou muitos anos após a sua morte. Eis um exemplo: a Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, de 8 de agosto de 1949, contra o Pe. Feeney sobre o batismo de água, foi reprodução quase literal de um artigo do cardeal publicado em Études.

 

TEÓLOGO ANTI-LIBERAL

Cardeal Billot foi um dos teólogos que viu mais claramente a maldade intrínseca do neoliberalismo resultante da Revolução. Falando do Sillon, o movimento político cristão que fora finalmente condenado por São Pio X devido aos seus princípios ideológicos, Billot explicou: “O cristianismo do Sillon baseia-se sempre no democratismo, e o cristianismo democrata, tratando-se de uma ideologia revolucionária, é uma distorção do Evangelho”.

Ninguém julgou melhor o liberalismo, o filho da Revolução, do que o “teológo de ferro”. Analisou a intrínseca discrepância deste para com os princípios de hierarquia e autoridade, trazendo à luz suas conseqüências sociais divisoras. No livro De Ecclesia, especialmente na seção sobre a relação entre Igreja e Estado, o Cardeal Billot golpeia a essência da Revolução Francesa, ao citar o Presidente Clemenceau: “Desde a Revolução, estamos em estado de revolta contra a autoridade humana, a qual destruímos com um só golpe em 21 de janeiro de 1793 [data do assassinato de Luís XVI]”. E num longo texto explica o ambiente histórico dessa luta hercúlea:

 

“Sem dúvida, a religião havia sido difundida por todo o corpo da sociedade, dos pés à cabeça. Toda a nossa civilização nasceu do cristianismo, e nela o clero detinha lugar proeminente na estrutura política; assim, em todos os lugares, as instituições civis e religiosas interligavam-se fortemente... Pode ver-se porque o ódio anti-religioso dos ímpios revolucionários teve como elemento necessário o ódio às instituições sociais, uma vez que, pela natureza delas, seria impossível divorciá-las da fé... Decretaram, portanto, que deviam ser tiradas pela raiz e completamente destruídas, para que o campo ficasse limpo para a nova ordem social e política, cujo primeiro e principal objetivo era destruir a religião por inteiro.

 

“O pretexto para instalar essa nova ordem era a liberdade; a sua lei era o contrato social; seu método, a demagogia; sua razão última, a criação de um Estado colossal e ateu... com poder ditatorial e absoluto para ditar o que é permitido ou proibido. Nesse Estado, o nome e o culto de Deus seria abolido para sempre... Esse é o fim para o qual tudo mais está ordenado como meio. Essa é a razão da destruição das famílias, da destruição das corporações, da destruição das liberdades municipais e das províncias – para que assim reste apenas uma só autoridade: o Estado ímpio... Esse é o objetivo, e não a liberdade civil. A liberdade é pretexto, é ídolo para seduzir o povo... deus oco que Satã vem criando para reduzir as nações a uma escravidão muito pior do que a da antigüidade.”

 

CONTRA OS CATÓLICOS LIBERAIS

O Cardeal Billot, portanto, pensou que a tarefa mais urgente era a de combater a revolução infiltrada entre os católicos, cujos frutos são “o anti-clericalismo jacobinista e o liberalismo pseudo-católico”. Com sua sólida formação doutrinal, ele não apenas evitou transigir com o liberalismo “católico”, mas considerava necessário “lutar contra esse grande mal dos nossos tempos que é querer agradar a Deus sem ofender o diabo, ou melhor, servir o demônio sem ofender a Deus”.

Escarneceu o liberalismo católico como a “mais perfeita e absoluta incoerência”. Esse tipo de “católico” quer professar ao mesmo tempo tanto o catecismo, com o qual crê que o homem foi feito para servir a Deus em todas as coisas, quanto a Declaração de Direitos do Homem de 1789, que quer o homem independente de Deus, e a esfera civil da religiosa. Os católicos liberais são incoerentes também quando aceitam os princípios católicos, mas rejeitam pô-los em prática. Crêem que, em princípio, a união da Igreja com o Estado é boa, mas na prática é sempre danosa à Igreja. Em suas mentes, a liberdade é a última instância, e todos sabemos que a liberdade, deixada por si só, inclina-se ao mal e à impiedade. O que se apresenta como remédio é, na verdade, a causa de todo o mal.

Um exemplo deve ser suficiente para ilustrar o método dos católicos liberais: Com respeito à religião, a posição católica é a de que há somente uma religião verdadeira e que o Estado deve adotá-la. Os liberais, no entanto, professam o indiferentismo, em que todas as religiões são iguais. Concluem que o pluralismo é a condição ideal para o Estado. O católico liberal, com espírito fraco e conciliador, aceita que a religião católica é verdadeira e deve dirigir as famílias e os indivíduos, mas rejeita a conclusão de que o Estado deve a ela submeter-se, e assim professa abertamente a liberdade religiosa.

O católico liberal, objeto da Ilusão Liberal (título de um livro de Louis Veuillot), em luta com sua incoerência, acaba sendo desprezado por Deus e pelos homens. Encarna em si mesmo o dualismo mencionado na Sagrada Escritura: “Se um edifica, e outro destrói, que proveito lhes resulta daqui senão trabalho? Se um ora, e outro amaldiçoa, de qual ouvirá Deus a voz?” (Eclesiástico 34, 28).

(The Angelus no. 442. Tradução: Permanência)

Nota biográfica do Cardeal Merry del Val

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

O Papa São Pio X e Rafael Merry del Val: difícil imaginar duas personalidades mais diferentes. Aquele nasceu no interior da Venécia, no seio duma família humilde, que conheceu dificuldades e provavelmente até fome. Antes de ser eleito papa, passou a vida em reitorias rurais e chancelarias provinciais, distante da publicidade e dos centros de poder.

Merry del Val (1865-1930), por outro lado, veio duma das mais proeminentes famílias do continente, recebeu educação cosmopolita e poliglota, e foi familiar às embaixadas e círculos mais exclusivos das capitais européias. As vidas desses dois prelados, que pareciam destinadas a trilhar caminhos separados, cruzaram-se quase por acidente e acabaram tão ligadas que mesmo hoje é difícil separá-las.

 

DE FILHO DE EMBAIXADOR A EMBAIXADOR DO PAPA

De acordo com Pio Cenci, biógrafo de Merry del Val, o próprio Leão XIII o pôs na Academia dos Nobres Eclesiásticos, devido à sua linhagem nobre e suas habilidades lingüísticas, uma vez que dominava perfeitamente os principais idiomas europeus. Antes de se tornar sacerdote, o papa utilizou-o em missões diplomáticas na Inglaterra, Alemanha e Áustria. Na cúria pontifícia, que procurava tão esforçadamente retornar sua presença internacional após a perda do poder temporal em 1870, esse descendente dos ilustres ingleses Merry e da ainda mais ilustre casa espanhola Val foi um enviado de Deus.  A ascensão rápida de Merry del Val deveu-se, além dos antecedentes familiares, à sua sólida formação histórico-jurídica, sua capacidade inata de bem relacionar-se, e à sua prontidão, como Bento XV diria, para resolver problemas.

Após graduar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana, tornou-se figura de influência em Roma, especialmente na questão anglicana. Seu perfeito conhecimento do ambiente, as viagens freqüentes que fazia sobre o Canal da Mancha, e a estima do Cardeal Vaughan conferiram-lhe a autoridade necessária. Confiou-lhe Leão XIII com a espinhosa questão da validade das ordens anglicanas, e ele conduziu a Santa Sé à resposta negativa, dada oficialmente em setembro de 1896 com a bula Apostolicae Curae, da qual foi o principal arquiteto. Com base na prática estabelecida ao longo de trezentos anos, e numa exaustiva investigação histórica, Leão XIII confirmou a “nulidade” das “ordenações realizadas segundo o rito anglicano”, portanto negando que os seus bispos tenham a sucessão apostólica.

No ano seguinte, viajou para uma longa missão no Canadá como delegado apostólico. O jovem catolicismo canadense, dividido entre as tentações opostas de severidade e lassidão, pedia a ajuda de Roma. Merry del Val agiu com moderação, especialmente no problema das escolas católicas de Manitoba, e foi objeto de um reconhecimento público da parte do Papa na encíclica Affari Vos, de dezembro de 1897.

 

DE SECRETÁRIO DO CONCLAVE A SECRETÁRIO DE ESTADO

No tempo do conclave de 1903, reunido após a morte de Leão XIII, Merry del Val era bispo e presidente da Academia dos Nobres Eclesiásticos. Por um concurso de circunstâncias, foi promovido in extremis a secretário do conclave, na ocasião da morte do papa. Assim, embora não tivesse podido votar porque não era cardeal, teve de carregar a pesada carga de preparar e conduzir o mais difícil conclave dos últimos dois séculos.

O primeiro encontro com o Cardeal Sarto aconteceu durante o conclave. A Áustria vetara a eleição do Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro e, após quatro dias, à sétima votação, escolheu-se para o papado, com o nome de Pio X, o relativamente desconhecido Patriarca de Veneza, Giuseppe Sarto. O jovem Merry del Val, que foi encarregado de buscá-lo e encorajá-lo a aceitar a nomeação, teve então uma primeira vista da santidade do “seu” Papa, que ele encontrou debruçado em oração diante do sacrário, rogando para que lhe afastasse a cruz do papado. Com o fechamento do conclave, Sarto pôde observar o prelado em ação e, assim, avaliá-lo. Dessa maneira, poucas horas após tornar-se Papa, Sarto informou-o, para sua completa surpresa, que decidira manter Mery del Val como Secretário de Estado interino. “Até agora não tenho ninguém”, conta-se que lhe teria dito calmamente. “Fique comigo. Depois veremos.”

Mas São Pio X, com sua aguda intuição, observou e analisou Merry del Val diariamente, e não demorou a entender que esse era o “homem de Deus” que a Providência colocara ao seu lado no Pontificado. Após período probatório de apenas dois meses, Pio X dissipou as dúvidas e, em 18 de outubro de 1903, nomeou-o Secretário de Estado e o fez cardeal. Abençoou-o e, com afeição paterna, lhe disse: “Aceite: é a vontade de Deus. Vamos trabalhar juntos e sofrer juntos por amor à Igreja”, ecoando dessa maneira o “coragem, Eminência” que Merry del Val sussurrara ao Cardeal Sarto poucos meses antes, encorajando-o a aceitar o Pontificado.

Pio X certamente levou em consideração outra qualidade de Merry del Val: sua vida de piedade. O louvor que o Papa Sarto lhe fez em 11 de novembro de 1903, dia em que recebeu o barrete de cardeal, é de uma linguagem tão incomum que merece ser citado na íntegra: “O bom perfume de Cristo, Sr. Cardeal, que espalhastes em todos os lugares, mesmo na vossa residência temporária, e os muitos trabalhos de caridade a que vos dedicastes no vosso ministério de sacerdote, principalmente na nossa cidade de Roma [ele subsidiou um grupo de jovens em Trastevere], granjeou para vós, com admiração, a estima universal.” Um Papa essencialmente religioso escolheu para si um Secretário de Estado com suas próprias características.

O novelista francês René Bazin louvou a decisão de Pio X, que “nomeando o Cardeal Merry del Val como Secretário de Estado, mostrou possuir as principais qualidades de um príncipe, que são conhecer os homens e saber escolher seus ministros para o bem do reino. Elevar de súbito o jovem prelado a tão alta posição exigiu coragem: mas Pio X reconheceu em Rafael Merry del Val um caráter extraordinário e uma inteligência superior.”

No primeiro Consistório, o Papa explicou aos cardeais que pessoalmente observara os seus “nobres dons de alma e caráter, sua notável prudência ao lidar com os assuntos da Igreja. Escolhi-o porque é um poliglota: nasceu na Inglaterra, foi educado na Bélgica, de nacionalidade espanhola, e vive na Itália; filho de diplomata, e ele mesmo um, está acostumado com os problemas das nações. Ele é muito modesto, um santo. Vem todas as manhãs e me informa de todos os assuntos do mundo. Nunca preciso adverti-lo de nada, e ele não conhece transigências”.

 

A CÚRIA DA IGREJA E A REFORMA DA IGREJA

Merry del Val movia-se graciosamente no mundo diplomático, era capaz de manejar problemas de política internacional, e compreendia a Cúria Romana perfeitamente. Alguém poderia dizer que o novo Secretário de Estado tinha tudo que faltava no papa. São Pio X costumava referir-se a Merry del Val como o “seu” Cardeal. Camille Bellaigue escutou do papa: “Separar-me do Cardeal Merry del Val? Preferiria separar-me da minha cabeça”. Em diversas ocasiões disse que “não podia agradecer suficientemente a Nosso Senhor por ter-lhe conferido tão precioso colaborador”.

A “política internacional” não foi tão primordial para São Pio X como o fora para Leão XIII. Ainda assim, o papa teve de lidar com várias crises internacionais que lhe exigiram toda a atenção e a de seu fiel colaborador, e a mais notável delas foi a dramática separação da Igreja e do Estado na França em 1905. Enfrentando óbvia chantagem, com um só golpe, a firmeza do papa limpou três séculos de galicanismo — a Igreja nacional — tornando o catolicismo francês novamente fiel a Roma. Merry del Val apoiou essa política com lealdade e convicção, tal como o fizera nas decisões de Pio X para reforma radical da Igreja: desde a supressão do direito de veto nos conclaves, seguindo com a reforma da Cúria, até a codificação do Direito Canônico.

A reforma da Cúria Romana, aprovada em 1908, embora visasse diretamente à expansão de seus poderes, fazia-o de tal modo que a Secretaria de Estado passava a ocupar o penúltimo lugar em relevo, dentre os cinco dicastérios romanos. O coração da Cúria de São Pio X não estava na Secretaria de Estado, ao contrário do que aconteceria sessenta anos mais tarde, na reforma de Paulo VI. O coração estava representado pelas onze congregações, sobretudo o Santo Ofício. Talvez por essa razão o papel de Merry del Val, diferentemente de qualquer dos seus antecessores ou sucessores, tenha coincidido com o do papa quase a ponto de se fundirem. Ao se dedicar pouco ou nada à política, mas sim a governar e renovar a Igreja, São Pio X extirpou da Secretaria de Estado muito da margem de manobra que fazia dela um agente autônomo, e estreitou sua vinculação ao papa.

Muito se tem escrito e muitos têm criticado a atitude decisiva do papa no combate ao modernismo, essa ameaça mortal que forjou uma crise interna na Igreja. Novamente, Merry del Val, mais que ninguém, teve o preciso entendimento da gravidade da situação, em que o rebanho universal corria o risco de gangrenar-se por toxinas internas. O anti-modernismo do cardeal precedia sua promoção ao cargo de Secretário de Estado. Ele se opôs à heresia do Americanismo, condenada por Leão XIII na Carta Apostólica de 1899 Testem benevolentiae. No mesmo ano, o prelado se pronunciou sobre outro livro, External Religion, do futuro modernista George Tyrrell, e escreveu ao Cardeal Vaughan sobre as heresias do cientista St. George Jackson Mivart. Ele prometeu a esse cardeal a aprovação pontifícia à sua carta pastoral conjunta, de 1900, que condenava o catolicismo liberal.

Logo que alcançou posição de autoridade como braço direito do Papa, Merry del Val escreveu ao Cardeal Ricardo de Paris o prefácio ao decreto do Santo Ofício que lançou cinco obras do Pe. Alfred Firmin Loisy no Índice de Livros Proibidos, e repudiou a sujeição imperfeita de Loisy. Escreveu a carta de 1904 que dissolveu a seção italiana da Opera dei Congressi, sujeitando o grupo leigo à autoridade da Igreja, em conformidade com os legítimos princípios de ação católica. Favoreceu similar subordinação à Igreja do partido do centro na Alemanha. Em 1910, ainda, participou na condenação papal ao movimento liberal francês Sillon.

Após a morte do Papa, o Cardeal Merry del Val manteve sua enorme devoção a Pio X: elaborou a petição que iniciou seu processo de canonização. No dia 20 de cada mês, o dia da morte do Papa, rezava missa pelo descanso da sua alma. Pediu que fosse sepultado “o mais próximo possível do meu amado pai e pontífice Pio X”. Quando morreu em 1930, seu corpo foi carregado por jovens de Trastevere à cripta de São Pedro e enterrado perto de Pio X. Lê-se a inscrição no mármore: Da mihi animas - Coetera tolle (“dá-me almas - leva o resto”), aplicação mística das palavras de Abraão, “Dá-me a mim as pessoas, e os bens torna-os para ti” (Gen. 14:21). Por requerimento do clero espanhol, sua causa de canonização foi iniciada em 1953. O processo informativo foi completado em 1956 e publicado em 1957. A causa, porém, pouco progrediu desde o Vaticano II.

(The Angelus no. 441. Tradução: Permanência)

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