Skip to content

Anônimo (220)

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II

    

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos.

O trabalho que a Permanência realiza há 50 anos procura denunciar os erros e publicar a Verdade, para que nossos leitores compreendam que, decididamente, Vaticano II não foi um concílio católico. Ele deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.

    

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.

    

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

Dois capítulos de "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'"

[Nota da Permanência: apresentamos a seguir dois capítulos do livro "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'". Trata-se de uma história real. A Sra. Marie de Sainte Hermine narra o que viu e viveu ao lado dos seus parentes durante a Guerra da Vendeia e o Terror Revolucionário. Um livro imperdível à venda na nossa livraria ]

 

Capítulo XXV

A prisão de Geneviève

Depois da batalha que entregou Fougères ao exército católico, a cavalaria vendeana, da qual o Marquês de Sérant e Jacques Bureau faziam parte, perseguiu vigorosamente os republicanos. Duas horas depois, ao regressarem ao povoado, cruzaram com o sr. Henri que saía pela estrada de Rennes para examinar as posições onde seria aconselhável estabelecer as tropas, caso o inimigo fizesse um retorno ofensivo. O Generalíssimo, de quem meu cunhado era então ajudante de ordens, lhe pediu que o acompanhasse com alguns cavaleiros para servir-lhe de escolta. Jacques Bureau, é claro, seguiu seu mestre.

A viagem do sr. de La Rochejaquelein continuou por várias horas, e Arthur só pôde retornar a Fougères tarde da noite.

Enquanto ele galopava pelo campo com o sr. Henri, Geneviève era tomada por uma mortal inquietude. Fazia muito tempo que a batalha havia terminado e o seu marido não havia retornado, ele que sempre voltava imediatamente para ela, depois de cada ação, para livrá-la de suas angústias!

Ansiosa, ela questionava todos os cavaleiros que encontrava; ninguém podia lhe dizer o que havia acontecido com o sr. de Sérant.

Sem poder aguentar mais, procurou Pierre Bureau. Meu cunhado lhe tinha dado a responsabilidade especial de zelar pela segurança de sua esposa; assim, o rapaz, fora dos dias de batalha, estava sempre a seu serviço. “Venha comigo”, disse-lhe ela, “o sr. de Sérant ainda não voltou e nem o seu irmão. Estou em uma inquietude mortal. Foi na direção de Avranches que eles perseguiram o inimigo: devo ir ao seu encontro”.

Pierre logo atrelou Fauvette e Mignon, e alguns minutos depois, Geneviève e seu pajem estavam deixando a cidade.

Vocês sabem que laços recíprocos de apego respeitoso e afeto maternal uniam o filho dos Bureau e a jovem Marquesa de Sérant. Há vários dias que ela procurava uma ocasião favorável para lembrar a esse jovem da horrível vingança que ele havia exercido contra Urbain, e tentar inclinar seu coração ao arrependimento.

Depois de alguns momentos de silêncio, ela lhe disse suavemente:

– Você sabia, meu amigo, que eu estava com muito medo por você durante a batalha de Laval?

– Verdade? minha senhora; e por quê?

– Porque, meu pobre jovem, você cometeu, há duas semanas, um grande pecado ao atentar uma atroz vingança ao seu inimigo... você pediu perdão ao bom Deus?

– Oh! sim, senhora marquesa. Veja, no primeiro momento, eu estava loucamente perdido. Eu dizia assim: “Foi bem-feito, mesmo assim... Você vingou o pai e Joséphine!”. E aí, depois, me remoeu a consciência. Então eu falava assim: “Mas se o bom Deus te pegasse, te levaria sei lá pra onde!”. E então os rapazes lá de casa quase deram as costas para mim! “Você não agiu como um bom cristão”, me disseram. “Isto é verdade”, eu disse a eles. Mas senhora, eu perdi a cabeça; eu via tudo vermelho, tudo vermelho... mas eu sinto muito por isso, agora! Então, quando vi que íamos pegar os Azuis de novo, disse: “Isso não; temos que nos limpar”. Daí que fui procurar o vigário de Liré, a senhora sabe muito bem, o padre Rochard, que veio para junto da gente, e eu falei tudo para ele... no momento, não sobrou nada. Não desejo isso para ninguém. Sem isso, veja bem, não estaria no pensamento de Deus de nos perdoar.

– Você fez bem, meu rapaz – respondeu Geneviève sorrindo com a ingenuidade da confissão. – Agora vou ficar tranquila em relação a você. Se você morrer, sua alma, pelo menos, será salva.

– Claro, minha senhora. Nos dias de hoje, é quase melhor ir para o bom Deus do que ficar por aqui, com tantas pessoas más que existem.

No entanto, nossos dois cavaleiros haviam avançado até o ponto em que a perseguição ao inimigo havia cessado e todas as suas buscas foram infrutíferas. Cada vez mais perturbada, minha irmã decidiu voltar para a cidade, na esperança de que seu marido tivesse voltado durante sua ausência.

Após alguns momentos ela cavalgou em direção a Fougères. De repente, enquanto ela seguia um caminho entre dois arbustos, balas assobiaram em seus ouvidos e clamores ecoaram à direita e à esquerda. Alguns segundos depois, uma dúzia de hussardos republicanos avançou, de sabre em punho, sobre a jovem e seu criado.

Pierre se defendeu com raiva e, sob seus furiosos golpes, quatro cavaleiros inimigos comeram terra; mas finalmente, sucumbindo ao número, o heroico rapaz, coberto de feridas, caiu por terra, morrendo. Os republicanos então se lançaram sobre Geneviève que, certamente, teria sofrido o mesmo destino, se não fosse a intervenção do oficial que comandava o destacamento e que obrigou seus soldados a recolocar o sabre na bainha. Então ele se aproximou da minha irmã, ajudando-a a desmontar: “Quem é você, cidadã?”, ele perguntou asperamente.

“Antes de responder, senhor”, respondeu Geneviève em tom suplicante, “rogo-lhe que me permita socorrer este jovem que acabou de dar sua vida para me defender”. Ela apontou para Pierre Bureau, que, estendido no meio da estrada, com o peito perfurado pelos golpes do sabre, estava a ponto de expirar. “Que seja!”, disse friamente o oficial.

Minha irmã apressou-se em tirar proveito da permissão e, correndo em direção ao ferido, levantou-o delicadamente nos braços, com a ajuda de um hussardo republicano e deitou-o na grama ao pé de um carvalho, a poucos passos de distância do lugar onde ele havia caído. O jovem vendeano parecia ter perdido a consciência.

– Você pode me ouvir, meu querido? – disse-lhe ela; sou eu, sua senhora, que estou perto de você para cuidar e curar você, se isso agradar a Deus.

Pierre abriu os olhos e olhou para Geneviève com uma expressão de amargo pesar:

– Oh! Perdoe-me, senhora marquesa – disse ele com esforço; desculpe por ter defendido a senhora tão mal e por deixá-la nas mãos desses miseráveis! O que vai pensar o Pai, lá em cima, quando descobrir que não consegui salvar minha boa senhora? Ele não ficará contente comigo!

– Deixa disso, meu pequeno Pierre, e pense apenas no bom Deus.

Mas a mesma preocupação ainda o obcecava. Geneviève então, entrando nos pensamentos ingênuos do jovem, disse sorrindo, para acalmá-lo:

– Se seu pai te repreende, diga-lhe de minha parte que você se comportou muito bem, que você me defendeu corajosamente e que ele pode se orgulhar de você. Está mais tranquilo agora?

– Oh! sim, senhora marquesa – disse o jovem ferido, que, com tal garantia, acalmou-se repentinamente.

– Você se arrepende de seus pecados, não é?

– Oh! lá, sim.

– Porque você ama a Deus de todo o coração?

– Com certeza, minha senhora.

– Você perdoa seus inimigos?

– Ah sim, para agradar ao bom Jesus.

– Vá então para o céu, meu filho; invejo o teu destino, porque todos os teus males vão acabar. Reze por nós lá em cima, para que Deus tenha misericórdia de nós também.

Pierre estava visivelmente abatido; a morte era iminente.

– Oh! senhora...  marquesa – sussurrou novamente; eu teria mesmo muito prazer em vê-la bem longe daqui... vou pedir isso ao bom Deus!

O jovem vendeano acabara de expirar. Geneviève fechou seus olhos; então, depois de ter dito uma curta e fervorosa oração junto ao cadáver, ela se levantou e aproximou-se do comandante republicano, que parecia muito comovido: “Eu vos agradeço, senhor”, disse-lhe ela.

O oficial azul olhou para ela com uma expressão de pena muito nítida. Era um velho capitão, de quarenta e cinco a cinquenta anos, cujo heroico bigode não conseguia esconder por muito tempo sua boa índole. Geneviève entendeu que não havia caído nas mãos de um inimigo cruel e essa constatação a tranquilizou um pouco.

A um sinal de seu líder, os hussardos afastaram-se e permaneceram distantes, fora da escuta; por isso foi em tom bastante ameno e, por assim dizer, paternal, que se deu o interrogatório.

– Qual é o seu nome, senhora? – O oficial perguntou suavemente.

A jovem não tinha nada a esconder; seu crime era evidente.

– Geneviève de Sérant – respondeu num tom digno e simples. O comandante estremeceu.

– Pobre jovem!... – Ele suspirou. – Perdoe-me, senhorita... ou senhora, visto esse nome familiar... – retomou depois de um momento. – Eu sou pai, você vê; tenho uma filha que deve ter a sua idade. Ela fica lá no Sul e teme muito pela vida do seu velho papai... eu queria te salvar, acredite; mas infelizmente! meus hussardos são patifes perfeitos que me denunciariam e eu entregaria a minha cabeça se deixasse você escapar. Aqui está tudo o que posso fazer: você montará em seu cavalo e nos seguirá até Rennes. Lá, vou entregá-lo ao Representante da Convenção, delegado para assuntos departamentais. Ele não é um homem tão ruim... ele já fez favores... a algumas pessoas... espero que ele poupe sua vida. Vou defender seu caso calorosamente, mas não há nada mais que eu possa fazer.

Geneviève agradeceu tristemente.

– Não quero que o senhor se exponha por mim, e rezarei a Deus para que recompense sua boa vontade.

Por ordem do capitão, os hussardos montaram a cavalo e se prepararam para partir. Geneviève subiu em Fauvette, cuja sela estava firmemente presa, à direita e à esquerda, à sela de dois cavaleiros. Mignon, o cavalo do pobre Pierre, foi mantido na coleira por um dos homens da escolta.

 

 

Capítulo XXVI

Pobre Geneviève

Eram cerca de cinco da tarde quando a tropa retomou a marcha. Por volta das oito horas ela chegou à aldeia de Sainte-Luce, situada a meio caminho entre Rennes e Fougères. O capitão Bernard – esse era o nome do oficial Azul – percebendo que sua prisioneira estava tomada pelo cansaço e pela dor, quis dar a ela um pouco de descanso. “Vamos passar a noite nesta aldeia”, disse ele, “e amanhã de manhã terminaremos nossa jornada”.

Os hussardos apearam e seu líder bateu à porta da casa mais próxima. Era a casa de uma corajosa camponesa chamada Jeanne Robin, que desde sua viuvez morava lá com o pequeno Jean-Marie, seu único filho, com mais ou menos dez anos. À primeira palavra que o senhor Bernard lhe disse, mostrou-se bastante disposta a dar comida e abrigo à vendeana, cuja tristeza e cansaço lhe estimularam sobremaneira a piedade.

Antes de deixar a prisioneira aos cuidados de sua anfitriã caridosa, o capitão lembrou-lhe que ela teria que partir cedo no dia seguinte porque ele deveria chegar a Rennes antes do meio-dia e acrescentou: “Sou obrigado a confiscar seus cavalos. Eles são boas presas. Mas não quero levá-los comigo; pois são animais magníficos e o representante certamente os atribuiria a si mesmo, embora eles sejam propriedade de meu regimento. Portanto, vou deixá-los nesta aldeia, e vou levá-los de volta depois de amanhã à noite, de passagem”.

Como essa declaração pareceu afetar Geneviève, ele continuou: “Claro que a senhora não vai viajar a pé; vai montar de garupa atrás de mim. Meu dever me obriga”, acrescentou retirando-se, “a colocar uma sentinela em cada uma das portas desta casa, na rua da aldeia e para o lado dos campos. Lamento, senhora, o rigor das instruções, mas não posso evitar”.

Esse capitão Bernard, que certamente não era um homem mau, sem dúvida tinha uma forte dose de ingenuidade. Sua prisioneira percebeu isso rapidamente e como ela não podia esperar que ele a entregasse pura e simplesmente em liberdade, dada a pusilanimidade de caráter do oficial azul, ela decidiu, ao menos, aproveitar-se da simplicidade do bom homem para tentar alertar Arthur do perigo que a ameaçava.

Assim que o sr. Bernard desapareceu, a viúva Robin, posta por Geneviève a par da situação, expressou-lhe, em palavras simples e comoventes, a simpatia que seu triste destino lhe inspirava. A excelente mulher apressou-se em preparar-lhe o jantar e a pôr à disposição o único quarto de seu pobre alojamento.

– Meu filho e eu dormiremos no sótão – disse ela; e como Geneviève se opunha, ela continuou:

– Estamos felizes por poder vos servir. Nós também somos monarquistas nesta aldeia; mas o que podemos fazer, quando há tantos iníquos ao nosso redor?

– Bem, minha boa amiga – exclamou Geneviève, muito feliz por ver sua anfitriã com tão boas disposições – talvez você possa me prestar um imenso serviço... seria para levar o quanto antes a Fougères, algumas palavras que escreverei a lápis, se não tiver tinta para me dar. É para meu marido que está no acampamento dos vendeanos (se ele ainda estiver neste mundo!). Você conhece alguém que aceitaria levar minha carta?

Jeanne Robin refletiu por alguns momentos e disse:

– Eu posso ajudá-la. Agora é impossível sairmos daqui; as sentinelas nos impediriam; mas amanhã de manhã, assim que vocês forem embora, meu pequeno Jean-Marie levará seu recado – e ela apontou para seu filho, um garotinho afável e esperto que estava sentado na lareira e olhando para a estranha com seus grandes olhos meio escondidos por uma floresta de cabelos loiros.

– Você tem certeza? – disse Geneviève; uma criança dessa idade ir tão longe!

– Acho que a senhora faria bem em aceitar mesmo assim – respondeu Jeanne Robin. – Meu Jean-Marie não é robusto; mas senhora! ele é um rapazinho que vale por dois – acrescentou ela com doce orgulho. – Se a senhora visse como ele conduz seu burro até o mercado de Saint-Aubin-du-Cormier! E depois, as crianças... não se presta atenção neles; passam para todo lado... não é, meu Jean-Marie? – continuou, se dirigindo ao lourinho que estava ouvindo com todos os seus ouvidos – não é verdade, meu menino, que você irá, no burro, a Fougères, levando uma carta da senhora para o marido?

– Sim, mamãe – respondeu a criança com voz clara e confiante.

– Você vai dizer assim....

– Diga-nos, por favor, senhora, o nome do seu marido.

– Marquês de Sérant – disse Geneviève. – Aliás, vou colocar o nome sobre o endereço, e a criança, se não souber ler, pode mostrar ao primeiro soldado da Vendéia que encontrar.

– Como quiser, senhora – respondeu a boa mulher; mas Jean-Marie não esquecerá o nome. É só ouvir alguma coisa e isso fica para sempre na sua cabeça. Vamos, Jean-Marie, diga à senhora o que você vai fazer amanhã de manhã, quando os soldados tiverem partido.

A criança se levantou; seus olhos azuis brilhavam de coragem e orgulho.

– Vou vigiar os soldados amanhã – disse ele com sua voz perolada – e assim que eles forem embora, vou pegar Coco e correr direto sem parar para Fougères. Lá perguntarei pelo Marquês de Sérant e entregarei a ele a carta que a senhora vai escrever.

– Perfeitamente! meu pequeno amigo – exclamou Geneviève, acariciando os cabelos louros de Jean-Marie; vejo que posso ter total confiança em você. Se não encontrar o Marquês de Sérant, pergunte pelo general, sr. de La Rochejaquelein, e entregue-lhe a minha carta... você se lembrará?

– Oh! Sim senhora.

– Veja! – continuou dirigindo-se à mãe – certamente foi o bom Deus que me enviou a vocês.

Reanimada pela esperança de se comunicar com o marido, minha irmã concordou em comer um pouco; depois começou a preparar seu bilhete e como a viúva Robin não tinha nem tinta nem papel para lhe oferecer, ela rasgou uma folha de sua caderneta e escreveu a lápis.

Reencontrei essa carta entre os papéis que minha irmã me deu no mesmo dia de sua morte. Quase não está legível agora; mas eu a transcrevi há muito tempo.

Sainte-Luce (esse é o nome desta pequena aldeia),

5 de novembro, I793: 10 horas da noite

"Meu amado Arthur,

É a sua pobre Geneviève quem lhe escreve, de um pequeno quarto de camponês, numa aldeia remota, mais ou menos a meio caminho entre Rennes e Fougères. Como fui parar aqui? Parece-me que estou sonhando... vou explicar-lhe tão brevemente quanto possível; pois, no momento em que você receber essas linhas, seu tempo será precioso.

Ah! meu amigo, estou falando com você... e nem sei se você ainda está neste mundo e se este pequeno bilhete vai alcançá-lo! Minhas lágrimas cobrem meus olhos e mal consigo distinguir os caracteres que traço.

Imagine que, nesta tarde, devorada pela angústia de não ter te visto voltar depois do combate, resolvi ir ao seu encontro com Pierre Bureau. Surpreendida, no caminho, pelos hussardos republicanos, sou sua prisioneira agora, depois de ter visto o heroico jovem que me acompanhava, morrer sob seus golpes enquanto me defendia. Diga a Jacques que ele cumpriu valentemente seu dever e que morreu em meus braços como um bom cristão. Agora os republicanos vão me levar a Rennes, para me entregar ao representante em missão naquela cidade. Eu serei levada para a casa dele. Parece que às vezes ele nos poupa. Se ele não estiver bem-disposto, a morte me espera. Mas tenha coragem, meu amigo e confie na bondade de Deus. Ele lhe dará, não duvide, os meios para me salvar. Sei que assim que receber minha carta, você correrá para libertar sua esposa com toda sua audácia tantas vezes manifestada. Queira Deus ajudá-lo a conseguir e nos reunir novamente neste mundo!

Um detalhe importante: levaram minha querida Fauvette; deixaram-na aqui com Mignon e os republicanos devem retomá-los em três dias, ao passar de novo pela aldeia. Como você pode precisar das pernas dela para me tirar das garras desses inimigos cruéis, tente, portanto, libertar este pobre animal também. Minha boa anfitriã, que me cobre de atenções maternais, estará esperando por você amanhã, o dia todo, na estrada e lhe mostrará onde os republicanos puseram nossos cavalos.

Adeus, meu querido, meu amado marido; eu sei que dor imensa você sentirá quando souber que sua pobre esposa está nas mãos de tais bandidos. Julgo sua aflição por aquilo que eu mesmo sinto. No entanto, não torne as coisas piores. Até agora não fui maltratada e o líder da tropa que me leva é um bom homem que parece lamentar muito ter-me levado. Vendo meu cansaço e minha tristeza, ele me concedeu esta noite para descansar um pouco. Este sr. Bernard me parece possuir uma dose pouco comum de simplicidade. Foi graças a esta qualidade, preciosa para nós, nessas circunstâncias, que pude saber por sua própria boca o lugar para onde deveria ser levada, a hora da nossa chegada a Rennes (onze horas da manhã, acredito), e os outros detalhes que lhe dou.

Recompensa, por favor, meu mensageiro (um menino de dez anos). Ele pegará a estrada para encontrá-lo, mas só amanhã, depois que partirmos para Rennes; porque temos duas sentinelas à nossa porta, e a criança seria presa e minha carta tomada, se tentasse sair nessa noite. Adeus, à Deus.

Sua Geneviève, desolada, que espera por você.

 

No entanto, Jeanne Robin exortava minha irmã a repousar, o que lhe era tão necessário.

– Vamos minha senhora! – dizia alegremente – deves dormir, e imediatamente. Acho que, na próxima noite, seu marido terá feito sua parte e que os dois galoparão, virando as costas para a cidade de Rennes. Amanhã – acrescentou ela – vou esperar o dia todo na minha porta, para ver o seu senhor chegar. Já sei que levaram seus animais para a casa do François, o pedreiro, a dois passos daqui. Esse homem é um dos nossos amigos. Ele nos devolverá quando quisermos. E depois rezarei terços o dia todo, para que a Santíssima Virgem a tire dessa situação.

Geneviève agradeceu efusivamente à excelente mulher e lhe disse:

– Eu gostaria muito de recompensar sua generosidade e a de Jean-Marie; mas os republicanos tiraram minha bolsa e minha maleta... não tenho mais nada.

– Dinheiro para isso! – exclamou a boa mulher; não diga mais nada sobre isso, minha senhora, senão ficarei inteiramente zangada. Vamos! boa noite e durma bem; o quarto é seu: eu ficarei lá em cima com o meu filho. Até amanhã!

O dia tinha sido tão cansativo que Geneviève, apesar das preocupações, logo adormeceu profundamente. Esse descanso lhe fez um grande bem, e agora ela estava fortalecida pela esperança da libertação. Ela conhecia a habilidade e o destemor de seu marido e de Jacques Bureau, e tinha certeza de que fariam prodígios para salvá-la.

Na manhã seguinte, depois de comer um pouco, ela se despediu da viúva Robin; depois, percebendo pela janela o capitão que viera buscá-la, se inclinou para o pequeno Jean-Marie, beijou-o na testa e disse-lhe: “Não se esqueça, meu pequeno, que minha vida e a felicidade do sr. de Sérant estão nas suas mãos”. Jean-Marie ergueu seu olhar límpido e profundo para ela. “Confie em mim, senhora”, disse ele gravemente.

Dois minutos depois, Geneviève montou atrás do capitão e o pelotão de hussardos tomou, a trote, o caminho para Rennes.

Eram cerca de onze horas quando as tropas chegaram aos portões da cidade. O capitão Bernard conduziu imediatamente sua prisioneira ao gabinete do Representante, na rua da Moeda. Pretendia pleitear, sem se comprometer muito, a causa da senhora de Sérant, a quem havia recomendado que não dissesse seu verdadeiro nome, nem seu título; por isso, quando soube que o membro da Convenção Nacional não estava em casa e que só voltaria bem tarde da noite, ficou muito desapontado. Não sabendo o que fazer com Geneviève, decidiu confiá-la ao porteiro do edifício, depois de ter tomado todas as precauções para tornar inútil qualquer tentativa de fuga. O medo do capitão Bernard servia de instrumento para vis empreendimentos, apesar de detestar os excessos da Revolução. Pessoas com esse caráter não eram raros naquela época. Existem menos hoje em dia?

Brutus Souriceau – esse era o nome do zelador a quem o oficial Azul entregara sua prisioneira – era um homem de cinquenta anos, talhado como Hércules e de aparência assustadora. Republicano feroz, abominava os aristocratas e frequentava assiduamente os jacobinos mais exaltados. O Representante da Convenção o encarregava sempre da custódia dos prisioneiros que mantinha temporariamente em seu domicílio e nunca se ouviu dizer que o formidável carcereiro tivesse deixado que ocorresse uma fuga.

Esse republicano austero tinha, porém, uma fraqueza: ele amava o suco da videira e quando se entregava a abundantes libações, o que não era absolutamente raro, desmaiava miseravelmente no local mesmo do combate, perto das garrafas, e, derrotado, dormia profundamente como uma pedra.

Depois da “diva” garrafa, o seu mais terno carinho ia para a sua esposa, a digna senhora Olympe, que, já viúva de um primeiro marido, não tinha ficado com o coração insensível aos suspiros do Hércules bretão e tinha-lhe dado sua mão, alguns meses antes, no frescor de suas cinquenta e duas primaveras. Mas a lua-de-mel tinha passado rapidamente e a amada esposa já sentia muitas vezes a força do braço conjugal. Além disso, nas horas em que a embriaguez reduzia seu senhor e mestre à sua mercê, o que normalmente acontecia sempre no último dia da semana, Olympe se vingava e conscienciosamente devolvia a seu querido Brutus os golpes e as feridas recebidas durante a semana. Na manhã seguinte, o bom homem acordava, com os olhos escurecidos e o nariz machucado. Mas, como não se lembrava de absolutamente nada do que lhe acontecera no dia anterior, Olympe, com ar ingênuo, descartava facilmente todas as suspeitas, e o bêbado naturalmente atribuía suas desventuras aos espinhos e às pedras do caminho.

A senhora Souriceau, que havia recebido uma certa educação na juventude, era, aliás, uma honesta mulher, cujo entusiasmo republicano não estava, nem de perto, em sintonia com o de seu marido; e era essa falta de harmonia que causava, na maioria das vezes, problemas ao casal.

No último dia da semana (no decadi), Olympe trabalhava como carcereira, no lugar do seu homem, ocupado então em correr pelos cabarés da cidade, e aproveitava seu poder efêmero para facilitar a vida dos presos daquele dia, sem chegar, porém, a dar-lhes a chave da prisão.

Para completar o retrato da mãe Souriceau, digamos que, tagarela aos excessos, ela contava histórias sem fim, protestando a cada instante, o quanto amava o silêncio: uma mania inocente compensada por suas boas qualidades. Infelizmente, o dia em que Geneviève chegou a Rennes não era o último dia da semana e seu feroz guardião desfrutava de todas as suas faculdades. A pedido do capitão Bernard, apressou-se em conduzir sua prisioneira a um quarto no terceiro andar, onde a trancou com uma fechadura dupla.

– Na gaiola, o lindo pássaro! – exclamou com um tom irônico, sacudindo seu molho de chaves ruidosamente – é caça para a guilhotina que o senhor nos trouxe, capitão! Não há perigo dela fugir – acrescentou –, a menos que ela tenha asas ou queira bater a cabeça no chão.

Antes de se retirar, o capitão Bernard, seguindo as indicações do carcereiro, colocou um soldado em sentinela na entrada do corredor, outro no meio da escada e um terceiro no pátio interno da casa. Depois, com a consciência tranquila, foi embora muito satisfeito consigo mesmo, amaldiçoando os excessos dos perseguidores e sentindo pena do destino de suas vítimas. O pobre homem realmente acreditava ter realizado um ato heroico e, meu Deus, talvez não estivesse totalmente errado, dado seu caráter medroso e excessivamente pacífico.

Sozinha no quarto que servia de prisão, Geneviève logo sentiu cair toda a sua energia e o horror de sua situação apareceu claramente aos seus olhos. Ela estava à mercê de um tirano cruel, que mandava suas vítimas para o cadafalso ou para a liberdade, dependendo do humor do momento. Ele deveria voltar para casa naquela mesma noite e, se estivesse mal-disposto, a entregaria ao carrasco no dia seguinte. Sem dúvida, ela esperava uma intervenção do marido para a noite seguinte: mas quanto agora parecia-lhe frágil essa esperança que a sustentara até então! Arthur havia recebido sua carta? Ele estaria em Rennes esta noite? E, sobretudo, como ele poderia alcançá-la e arrancá-la da fúria de seus inimigos? O sucesso agora parecia impossível para ela. Esta casa estava tão bem protegida! O Marquês de Sérant nem chegaria perto da sua masmorra e se perderia desnecessariamente tentando salvá-la. Oh! como ela se culpava por tê-lo chamado para ajudá-la! Não teria sido melhor ter se submetido ao seu destino com resignação, sem fazê-lo perecer com ela? E o que seria de seu pobre Louis, sem seu pai e sua mãe para protegê-lo?

Um profundo desânimo tomou conta da jovem. Deus, então, a havia abandonado! Qual era a utilidade, agora, de amá-Lo, orar e servi-Lo, se Ele nada fazia para libertar seus servos? Por que a deixou cair nas mãos daqueles miseráveis... ela que havia deixado tudo para garantir a salvação eterna de seu marido? Estaria ela presa, às vésperas de ser levada à morte, se esta Providência de que tanto falamos realmente cuidasse de nós? Ela se sentia invadida por tentações de blasfêmia e pensamentos de revolta contra a justiça de Deus. Por um momento, no limite de sua força e coragem, abriu a janela e seu olhar mergulhou nas pedras da calçada que dava para a sua cela. Atraída para o abismo, sentia um desejo horrível de acabar com seus tormentos, livrando-se da vida. Mas, de repente, a fé adormecida durante esta tempestade despertou em sua alma, e a pobre cativa, repelindo a tentação com horror, se ajoelhou, implorando a Nosso Senhor que a perdoasse por sua falta de confiança e submissão.

A oração restituiu-lhe a calma e a paz. Ela se rendeu inteiramente à vontade de Deus para a vida e para a morte, implorando-lhe armá-la contra todas as fraquezas do corpo e da alma.

Na angústia profunda em que se debatera há pouco, ela rejeitou os alimentos que lhe foram trazidos; mas quando triunfou sobre o terrível ataque do inferno e a ajuda divina tranquilizou sua alma, ela disse a si mesma que deveria conservar suas forças na expectativa do cansaço que logo teria que suportar, se Deus permitisse que seu marido conseguisse chegar a ela. Sem dúvida, era impossível prever que meios seriam utilizados para sua libertação; mas precisaria, em todo caso, de toda a sua energia para auxiliar a ação dos seus defensores. Feitas essas reflexões, decidiu comer, e quando recuperou as forças corporais, pôs-se a rezar com fervor.

Há imperfeições na Mãe de Deus?

Foi ninguém menos que um Doutor Católico, um Padre da Igreja, que identificou alguns fatos que atribuiu à Santíssima Virgem como imperfeições, durante o encontro do Menino Jesus no Templo e, também, nas Bodas de Caná. Trata-se de São João Crisóstomo.

Em sentido contrário, deve-se dizer que a Santíssima Virgem nunca cometeu a menor imperfeição. As razões explicando isso são inúmeras.

Primeiro, porque a Mãe de Deus não tinha a “fonte do pecado” – também chamada de concupiscência – que é uma das causas principais das imperfeições. Essa ausência está ligada à sua imunidade ao pecado original.

Além disso, a virgem das virgens possuía a virtude perfeita em razão da graça que lhe havia sido dada. Ela também estava destinada a ser um modelo de santidade, porque Nossa Senhora é a primeira dos redimidos: é conveniente que seja ela, que tem o primado na ordem da santidade, deveria incorporá-la em sua perfeição consumada

Finalmente, sua perfeita prudência sempre determinou sua atividade na maneira que estava mais conformada à vontade de Deus.

É por isso que Santo Tomás de Aquino não hesita em dizer que São João Crisóstomo foi longe demais em seu escrito. E, embora São Pio V tenha ordenado que fossem republicadas as obras do grande doutor, pediu que as passagens incriminadas não fossem incluídas.

 

A Mãe de Deus possuía impecabilidade

Mas a maior razão explicando a ausência de pecado e imperfeições em Maria é que ela era impecável.

O Concílio de Trento, na Sessão VI, Cânone 23, afirma: “Se alguém disser que... em sua vida, [um homem] pode evitar todos os pecados, até mesmo os veniais, exceto por um privilégio especial de Deus, como a Igreja sustenta em relação à Santíssima Virgem: seja anátema”

De sua parte, Santo Tomás reconhece a confirmação na graça em razão da adequação à Mãe de Deus. Impecabilidade consiste em não poder pecar em razão de uma capacidade interior. Ela se distingue da confirmação na graça, que é manter o estado de graça até a morte, em outras palavras, não cometer pecado mortal: essa graça se explica pela ajuda externa de Deus. Mas a impecabilidade requer uma causa interna no sujeito, que evita o pecado.

Isso é, claramente, o caso do Verbo Encarnado, Jesus Cristo: é uma impossibilidade a pessoa divina cometer um pecado. No caso do homem-Deus, a visão beatífica e a virtude perfeita são acrescidas à personalidade divina.

A impecabilidade também existe, em grau menor, nos que já foram salvos: inundados pela luz da glória, eles não podem mais pecar. Seria impossível possuir a visão beatífica e pecar.

Em grau menor, a impecabilidade advém da grande dificuldade de pecar que resulta do dom de uma graça especial. Ela inclina tanto uma pessoa ao bem que se torna quase impossível romper com ele. Deus deu uma assistência especial a Sua Mãe, que removeu de todas as causas do pecado.

Essa doutrina permite uma compreensão mais profunda dessas palavras magníficas do Papa Pio IX em Ineffabilis Deus: “fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender”.

Introdução ao sexto domingo da Epifania

“Revelarei coisas que ficaram ocultas desde a criação do mundo”

 

Paramentos verdes

 

Deus, diz S. Paulo, falou-nos pelo seu Filho, a quem constitui herdeiro de tudo, e o qual, sendo o esplendor da glória do Pai e a figura da sua substância e conservando tudo por meio da sua palavra, quis operar a purificação dos pecados, e está agora sentado à direita de Deus. A nenhum dos anjos disse Deus: “Tu és meu Filho, hoje mesmo te gerei”. E quando O enviou ao mundo, disse: “Que os anjos todos O adorem”. O Apóstolo, comenta S. Atanásio, declara Jesus superior aos anjos para evidenciar a diferença que existe entre a natureza de Filho e a de criaturas. A Missa de hoje revela igualmente a divindade de Cristo, tão claramente expressa no Ofício de Matinas, como acabamos de ver. É Deus, porque revela as coisas ocultas em Deus e que o mundo ignora. A sua palavra é divina, porque tem o condão de apaziguar a tempestade das paixões e é capaz de produzir na alma de quem a receber maravilhas de fé, de esperança e de caridade. A Igreja é também divina. Pega em raiz divina, na palavra do Senhor, e está admiravelmente figurada nas três medidas de farinha que a força expansiva do fermento leveda, e no grão de mostarda, a mais pequenas das sementes, que em breve se torna árvore frondosa onde as aves do céu gostam de nidificar.

Meditemos com frequência o Evangelho para que nos penetre e transforme, e para que se torne, na nossa alma e na nossa vida, árvore frondosa a vergar de frutos de santidade. Desta maneira trabalharemos eficazmente no alargamento do Reino de Deus.

Do Evangelho: Pelo homem que semeia, se entende geralmente, diz S. Jerônimo, o Salvador que semeia nas almas a palavra de Deus, a semente prodigiosa do Evangelho. Neste mundo que se desagrega, falta esta semente e parece que o semeador divino já recolheu. Na imensa lavra só andam sombras a envolver de névoa as ervas daninhas do campo solitário. É preciso chamar, chamar pelo dono do campo, que venha e mande semeadores, semeadores de vida nova, semeadores do Evangelho e de mais nada.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao quinto domingo depois da Epifania

“Enquanto dormiam, veio o inimigo e semeou a cizânia”

 

Paramentos verdes

A nossa vocação à Fé é uma graça. Fomos chamados por misericórdia a fazer parte do Corpo Místico do Senhor, e é necessário agora, em virtude deste procedimento do Senhor para conosco e da nossa própria natureza renovada de membros de Cristo, é necessário, digo, que usemos da misericórdia com todos. Esta caridade perfeita é difícil, sem dúvida. Supõe a perseverança e o esforço continuado e faz-nos muitas vezes deixar sangue no caminho, porque o Reino de Deus na terra está em via de consumação. Ainda não é perfeito. E entre o trigo louro da seara que ondeia em vagas inebriantes de bondade, lá aparece o joio, que nos morde com fereza indomada de pragana estéril. Mas não nos compete arrancá-lo. Não. Transformá-lo em trigo, sim. E podemo-lo fazer se o regarmos com o sangue da nossa dor e da nossa caridade. Às vezes há joio, que o é, por falta de quem lhe dê sangue.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

 

Mártires na U.R.S.S e na Europa Oriental

A Rússia e os países do Leste Europe foram os principais teatros do confronto entre o Cristianismo e o comunismo. Mas, a ideia que fazemos desses episódios é, em geral, muito vaga. É certo que os horrores dos gulags acabaram por se tornar conhecidos no Ocidente, mas o marxismo lançou mão de muitas outras armas para arrancar a crença dos corações, como veremos em seguida. Tentaremos também descobrir a história da Igreja Católica na União Soviética, largamente ocultada pela Igreja Russa cismática. Finalmente, nós nos voltaremos para alguns personagens que ilustram magnificamente a alma católica desses povos (Cardeal Mindszenty etc).

 

1. As armas do comunismo contra a religião

1.1 - Leis e medidas administrativas

Após a revolução de 1917, aprovou-se um conjunto de leis e decretos. A partir de 1918, eles vão seguir um itinerário marcado pelo retrocesso e pela restrição, alegando a “liberdade de consciência”, a “liberdade de profissão religiosa” (1929) e, em seguida, a “liberdade de culto religioso” (1936). Toda essa legislação oficial, no entanto, era freqüentemente “esquecida" pelas autoridades, que invocavam toda sorte de crimes para condenar aqueles que ainda ousavam crer em Deus e praticar a religião. A essas leis fundamentais somam-se as numerosas medidas administrativas referidas em instruções secretas, além de ordens dadas em viva-voz pelos representantes do governo, sem que houvesse oficialmente qualquer linha escrita. Essa confusão jurídica permitia a cada um julgar segundo o seu alvitre, em detrimento dos cristãos.

Com a nova coleção de leis que se seguiu à revolução de 1918, o governo se dedicou inicialmente a destruir a família a fim de melhor destruir a ordem social existente, e substitui-la por uma versão plenamente comunista. Uma vez que as famílias preparam os cidadãos de amanhã, era importante suprimir a influência dos pais “reacionários” sobre os filhos, de modo a torná-los verdadeiros militantes do Partido. Nesse preciso momento, dispensava-se a coerência na política familiar. Seguindo as necessidades econômicas ou demográficas, as leis poderiam ser adaptadas, mas sempre em vistas de um mesmo fim: a conquista da sociedade pelo governo soviético, e o triunfo da causa do Partido. A estrutura familiar era visada em três pontos:

— O próprio laço do matrimônio: a partir de 1918 o casamento religioso foi abolido, apenas o registro civil era legal. Do mesmo modo, o concubinato ou a poligamia foram legalizados, e o divórcio, autorizado e simplificado.

— A “liberação” da mulher: “O sucesso de uma revolução depende do nível de participação das mulheres” dizia Lenin. Como a mulher é a base da família, todos os meios serão empregados para tirá-la de casa e impedi-la de cumprir a missão de mãe. Era preciso “liberar a mulher da escravidão do marido e dos afazeres domésticos”, considerados por Lenin como uma “escravidão, um jugo embrutecedor, humilhante, eterno, exclusivo”. O aborto foi legalizado em 1920, e a contracepção encorajada. “As mulheres devem ser retiradas da reprodução para servirem à produção”, afirmava Alexandra Kollontaï1. Percebe-se a estima que tinham pelas mulheres! Para que a mãe pudesse ser emancipada e fosse trabalhar como os homens, abriam creches e jardins de infância. Os trabalhos domésticos ainda a esperavam em casa, ao retornar do trabalho.

— Os filhos: “A criança pertence à sociedade, não aos pais” (Nikolai Bukharin). Por conseguinte, a criança devia sair da sua família para ser educada pela sociedade. A escola tornou-se obrigatória, dos 7 aos 18 anos. Claro que a escola era monopólio do Estado e, portanto, ateia e violentamente antirreligiosa. A criança era assim instrumentalizada ao serviço do Partido.

Quando julgaram que todos os laços que uniam a família haviam sido suficientemente destruídos (laços entre os esposos e entre pais e filhos), o governo mudou a política. É verdade que, a partir de 1936, a economia e a demografia conheceram uma situação catastrófica na esteira dessa política. Lançou-se uma campanha em favor da família numerosa; proibiram novamente o aborto antes de tornarem a legalizá-lo em 1955. Concederam-se ajudas e recompensas às mães de famílias numerosas. A maternidade se tornou um dever, “uma função social” da mulher". Balançando ao sabor das leis e das propagandas, a família se transformou numa ferramenta nas mãos do Partido para moldar a nova sociedade soviética ateia.

No que se refere ao culto, as igrejas e os locais de culto tiveram de ser registrados nas instâncias governamentais, mas muitas vezes foram para a clandestinidade. Todos os padres precisavam de uma “permissão de ministério”, que lhes era retirada no primeiro passo em falso. Todo padre que exercesse o sacerdócio clandestinamente, sem essa autorização, sujeitava-se a uma condenação penal. Era-lhe interdito o exercício do ministério em domicílio e, se fosse autorizado a visitar as famílias, não poderia falar com elas sobre religião! Os confiscos das propriedades e a supressão das obras da Igreja Católica se multiplicaram, com o objetivo de abafar o apostolado.

O balanço apresentado na seguinte tabela é eloquente2:

 

 

1939

1953

Paróquias

6.930

1.200

Igrejas, capelas

10.321

1.500

Seminários

18

Todos fechados

Casas religiosas

1.019

Todas fechadas

Escolas

20.316

Todos requisitados ou nacionalizados

Hospitais, orfanatos

1.520

Todos requisitados

Livrarias, editoras

70

Todos requisitados ou nacionalizados

Publicações

110

Todas suprimidas

Associações católicas

3.000

Todas suprimidas

Construções e terrenos

 

Todos confiscados

 

 

 

 

 

No que se refere à juventude, a legislação era ainda mais restritiva. Desde 1921, o ensino religioso foi dificultado aos menores de 18 anos. A partir de 1929, proibiu-se levar crianças aos ofícios religiosos e de reuni-las para recreações ou para qualquer outra atividade. Em 1932, proscreveu-se o ensino de religião às crianças, salvo pelos próprios pais, o que impedia os padres ou qualquer outra pessoa de dar aulas de catecismo. Reputava-se uma perversão o ensino religioso dispensado às crianças.

Finalmente, proibiu-se a posse de “literatura clandestina” e sobretudo a colaboração na sua edição, ou seja, todos os quatro Evangelhos, os livros espirituais, as revistas católicas ou todo registro de conotação religiosa.

 

1.2. A doutrinação

A segunda arma poderosíssima de que o Estado dispunha para neutralizar e para eliminar toda influência religiosa era a doutrinação, sob todas as formas e em todos os domínios. A despeito de todas as formas de propaganda pela mídia, pela imprensa, pelos slogans publicitários, o Estado criou um ambiente que fez do comunismo o único horizonte visível e possível. Desde a infância, o cidadão era envolvido pelo sistema soviético.

 

  • A Escola

A partir dos sete anos, a escola é obrigatória, mas muitas vezes é a partir do ingresso numa creche aos três anos, e mais tarde numa universidade, que as crianças são moldadas segundo a concepção materialista e ateia dos comunistas. Em todas as classes se lecionava um curso especial, o “Diamat”, ou seja, materialismo-dialético. Trata-se objetivamente de um curso de doutrinação comunista. Ainda assim, todas as matérias do programa devem igualmente difundir tais princípios — foi sobretudo na disciplina de história que a realidade era transformada sem escrúpulos para denegrir a Igreja e todo seu passado. Como qualquer outra fonte de informação estava proibida, esses meios eram terrivelmente eficazes.

A todo momento na vida da escola ou nas demais atividades, exigem que a criança ou o adulto faça um juramento de ateísmo ou de militância comunista.

A título de exemplo, [apresentamos] esta circular do ano de 1980/1981:

 

Conteúdo do trabalho:

  1. Identificar os filhos dos crentes: organizar o controle das famílias religiosas;
  2. Fiscalizar as atividades religiosas no setor;
  3. Esgotar as possibilidades de educação ateia durante o curso de biologia, química, geografia, astronomia, matemáticas, ciências sociais, literatura e nos demais ramos;
  4. Atrair os professores para a propaganda do ateísmo;
  5. Criar um conselho de educação ateia;
  6. Estabelecer um ciclo de conferências e de discussões sobre assuntos relacionados ao ateísmo;
  7. Organizar círculos de trabalho denominados “o jovem ateu”;
  8. Organizar manhãs e tardes de discussão sobre ateísmo;
  9. Discutir sistematicamente os filmes… Criar jornais murais sobre a temática ateia;
  10. Criar um stand permanente - “Ciência e Religião” - na biblioteca da escola.

 

  • Associações de juventude

Muito embora a associação não fosse obrigatória, os jovens eram muitas vezes associados à força, e a não participação era considerada um ato antissocial, com possíveis consequências para toda a família. Ademais, essas organizações tinham o monopólio de todas as recreações. Quem não fizesse parte delas estava excluído de todos programas, de todo lazer;  de fato estava excluído da sociedade. Essas organizações eram, com efeito, um “noviciado” para a entrada no Partido. Os pequeninos podiam fazer parte das “Octobriens”; em seguida, de 9 a 14 anos, dos “Jovens Pioneiros” e, de 14 a 28 anos, da “Juventude Comunista”, comumente chamados de “Komsomols”. Finalmente, tornavam-se membros do Partido.

 

- Os lazeres

Muitas das atividades envolvendo crianças e adultos – para além das noites em família ou entre amigos, que eram muito estimadas - são um monopólio mais direto ou menos direto do Partido. Acima de tudo, o Estado entende que não há lazeres inúteis ou “gratuitos”, pois um lazer deve ser cultural, palavra que subentende propaganda comunista. Criaram-se, assim, vários tipos de clubes e centros de cultura, museus e bibliotecas, espetáculos… Todos mostram as maravilhas da sociedade soviética ou o horror da religião. Um bom cidadão deve freqüentar, ao menos de tempos em tempos, um clube e assistir a conferências, se não o reputavam por “individualista” — o que é perigoso numa sociedade socialista — transformando-se então em objeto de vigilância. Ninguém estava ao abrigo dessa propaganda ao serviço da doutrina comunista. Onde quer que se esteja, a voz do partido sempre se faz ouvir.

 

1.3. A repressão

Aos comunistas não faltavam meios de pressão, ou de repressão, aptos a dobrar as vontades mais obstinadas, prontos para se usarem naqueles que resistirem à doutrinação.

Num primeiro momento, tentam a intimidação. Os meios não faltam: a delação entre vizinhos ou colegas é um dever, a fim de identificar os cristãos e os controlar. Na escola, os professores também possuem o dever de assinalar todo comportamento “antissocial”, e muitas vezes passam “pseudo-questionários sociológicos” que são, na verdade, questões para saber se as crianças têm pais que creem em Deus, que vão à Igreja e, sobretudo, que ensinam tudo isso aos seus filhos! Eles questionam em seguida, mais precisamente, os pais e as crianças, na escola ou na KGB, para tentar lhes dissuadir, mostrando-lhes os males que isso acarretará aos seus filhos. Para quem resistir a essa primeira intimidação, ameaça-se com sanções. Em seguida, aplicam-se as primeiras sanções, como a demissão, multas (que muitas vezes ultrapassam a metade do salário). Os que professam a crença em Deus praticamente são privados do acesso à universidade. As crianças podem ser tiradas dos seus pais se for julgado que eles exercem sobre elas uma má influência em razão da sua conduta antissocial.

Quando as ameaças e as primeiras sanções não surtem efeitos, começam as prisões e condenações3.

- Campos de trabalho: os regimes podem ser mais rigorosos ou menos rigorosos, mas, em todo caso, os campos de trabalho são sempre muito duros moral e fisicamente. As visitas são restritas ou interditas. As cartas, quando autorizadas, são todas censuradas. Os presos devem alcançar metas de trabalho diário que são muitas vezes desumanas. As autoridades lhes roubam o alimento ou lhes fornecem comida estragada. Do salário depositado desconta-se uma parcela tão grande, que não lhes sobra quase nada, sem contar todas as penalidades suplementares que podem ser infligidas sob pretexto de má-conduta, metas não alcançadas etc.

- Prisões: o regime nas prisões é ainda mais severo que nos campos de trabalho. A saúde deteriora-se rapidamente por falta de alimentação e de exercícios físicos.

- A pena de morte direta (por execução) ou indireta (em conseqüência dos maus tratos) atingiram duramente as fileiras católicas. O balanço humano é pesado e difícil de estimar. No tocante aos padres católicos no território russo (em 1939) e nos países satélites (Polônia, Países Bálticos, Sub-Carpatos…), fez-se a seguinte estimativa, referente ao período de 1917 a 19454:

Assassinados ou executados

352

Mortos em prisão ou desaparecidos

2.600

Deportados ou condenados

1.700

Escaparam

930

Escondidos, dispersos

1.250

 

 

 

Em 1978, não sobravam mais que 1.575 padres, dos 9.624 que existiam em 1917. Os bispos foram o alvo principal: na Rússia, um foi assassinado, seis foram presos, 12 deportados, mortos no exílio ou expulsos, cinco condenados a trabalhos forçados, dez expulsos da sua diocese5.

Entre 1917 e 1950, Roma estima que mais de 10.000 padres e que 50 bispos foram executados ou aprisionados6. As condenações diretas ou indiretas de fiéis chegam a centenas de milhares.

- Mudança de endereço: muitas vezes se impunha a realocação no interior em complemento à pena dos que voltavam dos campos de trabalhos forçados ou da prisão. O exilado era obrigado a viver em determinado lugar, onde em geral o encarregavam de um trabalho. Regularmente, devia comparecer no comissariado para demonstrar que estava ali. As cartas, as visitas e as correspondências não sofriam limites e, oficialmente, não estavam sob censura, a não ser decidissem por um controle mais estrito...

- Hospitais psiquiátricos: De longe, era a pior das penas. Para não serem obrigados a julgar ou a justificar a detenção, as pessoas “incômodas" eram internadas como loucas; via-se a fé religiosa como um sinal de anormalidade psicológica. A internação poderia se estender por anos, ou mesmo por toda a vida. O uso de medicamentos fortíssimos e de maus tratos causavam estragos psíquicos e intelectuais por vezes irreversíveis. Aqueles que deixavam esses hospitais carregavam frequentemente até o fim da vida sequelas, quando não perdiam para sempre a sanidade.

 

2. Pequena história da perseguição7

 

2.1. Primeiros confrontos

Como explicar a presença de católicos na Rússia? A maior parte das comunidades de rito latino originaram-se das sucessivas partilhas da Polônia, que resultaram na incorporação de milhões de católicos latinos na Rússia tsarista8. A esses últimos somaram-se os greco-católicos, isto é, os uniatas que guardavam orgulhosamente as características russas do rito oriental. Eram menos numerosos, mas na maioria das vezes mais ativos.

A conversão ao catolicismo representava riscos maiores que o cisma grego: o ortodoxo incorria na pena do artigo 58.10 (“agitação antissoviética”); que dizer do católico que poderia ser ainda condenado pelos artigos 58.1a (“traição), 58.3 (“relação com um Estado estrangeiro”), 58.6 (“busca de informações em benefício de um país estrangeiro”)?

Os soviéticos estenderam progressivamente o campo geográfico da perseguição, à medida da sua expansão territorial. De 1917 a 1939, os bolcheviques almejaram suprimir a Igreja Católica do território sob seu controle, a saber, da Rússia e de porções da Ucrânia e da Bielorrússia (mas não na região oeste, que estava sob jurisdição polonesa). Paralelamente, esforçaram-se por desacreditar a Igreja Católica em todo o mundo por meio da propaganda. Durante a segunda guerra mundial, ampliaram o campo de ação (oeste da Ucrânia e da Bielorrússia e países bálticos), sempre atuando sobre a opinião pública, notadamente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, que queriam persuadir de que o Kremlin não tinha nenhuma animosidade contra a religião, uma vez garantida a segurança soviética. Após a guerra, a perseguição estendeu-se aos países satélites da URSS, onde a Igreja Católica tinha grande influência (principalmente na Polônia).

Os marxistas dividiam-se quanto aos meios a serem adotados para alcançar o fim de extirpar a religião católica: a ala “direita” queria proceder de modo mais “indulgente”, através da reeducação; os trotskistas preferiam o ataque violento.

Em abril de 1919, Dom de Ropp (arcebispo) foi detido. Os comunistas irritavam-se principalmente por dois motivos: Roma clamara pela segurança da família imperial antes da execução dos Romanov, e o Papa Bento XV exprimira seu juízo sobre as perseguições contra a Igreja cismática russa. O início da guerra russo-polonesa dos anos 1919-1920 tornou a situação ainda mais trágica. Desde 1918, Dom O’Rourke, vigário geral da diocese de Minsk, escrevia a Monsenhor Ratti (futuro Pio XI), Visitador Apostólico para a Rússia: “Aqui, a população católica foi sistematicamente esmagada pelos bandos de soldados russos bolcheviques: famílias inteiras, não importando o sexo ou a idade, foram assassinadas9.”

Em 1920, os mosteiros foram fechados (o tsar iniciara esse movimento). Os católicos apoiaram a ação militar polonesa destinada a restaurar as fronteiras históricas da Polônia com a Rússia, na esperança de obter o fim das perseguições. Com as mudanças de fronteira, resultantes do tratado de Riga, o número total de católicos sob domínio bolchevique subiu para 1.160.000, ou seja, 331 paróquias com 400 padres.

Em 1921, não se obteve nenhuma concessão no terreno religioso durante as negociações da NPE10. Muitas igrejas foram fechadas entre 1921-1922. Em 26 de dezembro de 1921, um decreto proibiu a educação religiosa de crianças com menos de 14 anos, o que representou um obstáculo considerável ao apostolado. Os cursos de ateísmo passaram a ser lecionados desde o jardim de infância. Os bolcheviques tiraram proveito da fome de 1922 para atacar a religião, alegando que os males se deviam à concentração de bens nas mãos da Igreja. Roma tentou se opor ao confisco de objetos sacros, em seguida propôs pagar pela restituição dos bens confiscados, mas foi em vão.

Apesar da missão católica organizada por Roma contra a fome na Rússia, o Kremlin não se desarmou. No fim de novembro de 1922, Dom Jan Cieplak foi informado de que o clero católico de Petrogrado seria julgado por atividade contrarrevolucionária. Em dezembro de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas e lacradas, salvo uma única que era mantida por um padre francês (a França precisava ser tratada mais diplomaticamente). Em março de 1923, iniciou-se um processo contra os católicos latinos que não aceitavam a lei de separação entre a Igreja e o Estado, começando o confisco violento dos bens da Igreja. Dom Cieplak foi julgado juntamente com uma dezena de padres latinos, como o Pe. Fedorov11 e M. Balachev, redator da revista Slovo Istini (A Palavra da Verdade). O processo terminou com a condenação à morte de Dom Cieplack (pena comutada para dez anos de prisão em regime severo, após pressões romanas) e de seu vigário geral, Mons. Boudkevitch, executado na noite de Páscoa (1o. de abril de 1923) na prisão de Sokolniki. A sua morte edificou as testemunhas: “No lugar da sua execução, ele fez o sinal da cruz, abençoou o verdugo e seus assistentes, em seguida voltou a cabeça para o muro e pôs-se a rezar em voz baixa. O tiro do algoz interrompeu a oração do padre.” 12 Ele foi a primeira vítima da Igreja Católica latina na nova Rússia bolchevique. Muitas sentenças de morte e encarceramentos de sacerdotes (3 a 10 anos) seriam pronunciados. Os bens foram confiscados. Após a expulsão de Dom Cieplak, não havia mais nenhum bispo católico na Rússia, apesar da URSS contar com mais de um milhão de fiéis. Os 200 padres remanescentes eram, na sua maioria, de origem polonesa. Diante dessa situação difícil, Roma tentou estabelecer uma hierarquia secreta13. A reação contra a nova hierarquia foi rápida: Mons. Skalski, administrador apostólico, figura influente entre os poloneses na Ucrânia soviética, foi condenado a dez anos de prisão.

No início do século XX, foi constituída uma comunidade de católicos oriunda da ortodoxia, guardando integralmente a especificidade russa do rito oriental, em particular um grupo de religiosas da Ordem Terceira dominicana dirigida por Anna Ivanovna Abrikossova. Em setembro de 1922, o Pe. Abrikossov, incumbido do grupo, foi expulso com mais de 200 cientistas e filósofos. De 12 a 16 de outubro de 1923, prenderam a comunidade de religiosas dominicanas e muitos padres. Uma delas havia oferecido a vida pela salvação do povo russo. Em 19 de maio de 1924, a maior parte dos padres foi condenada a dez anos de reclusão nas diversas prisões dispersas, as irmãs a cinco anos, que em seguida também seriam relegadas a outras prisões afastadas das suas famílias14. No tempo da morte de Lenin (janeiro de 1924), restava mais de um milhão de católicos e 127 padres, dos quais 116 dispersos e 11 em prisão15.

 

2.2. As repressões de 1931

Em fevereiro de 1931, ocorreram na URSS muitas prisões de católicos de rito latino ou oriental, abrangendo clero e leigos. Entre as vítimas, destacaram-se muitos convertidos como Victoria Lvovna Bourvasser, uma judia convertida.

Muito inteligente e conhecedora de idiomas, mas mimada pelos pais, ela caíra no ateísmo militante. É daí que o Bom Deus a retirou para transformá-la numa católica humilde, fervorosa, que comungava diariamente com lágrimas, desejando sofrer para reparar seus erros e testemunhar seu amor por Nosso Senhor. O Bom Deus lhe dera a graça de morrer pela fé. (…) Abandonaram-na doente, sofrendo de modo atroz, na cela, e quando quiseram conduzi-la à enfermaria, era já tarde demais: ela morreu nos corredores16.

Um outro exemplo:

Na prisão de Boutyrki, uma pequena judia convertida, Anna Roubachova, que praticamente não dorme, espanta todas suas companheiras de cela por seu espírito de oração (ela reza noite e dia), e pela sua coragem. Uma outra judia, Melle Sapojnikova é igualmente um modelo de força, enquanto antes, quando era livre, era bem preguiçosa: a graça é proporcionada às necessidades. As moças sequestradas eram submetidas a penas de três a dez anos em campos de concentração. Muitas lá morriam. O motivo da condenação era o seguinte: “A maioria das associadas do grupo organizaram uma ordem monástica ilegal de São Domingos. Elas reuniam-se em diferentes apartamentos, entretinham conversas antissoviéticas sobre questões políticas e econômicas, praticavam com as pessoas de seu convívio uma agitação contrarrevolucionária. 17

Os católicos latinos também viraram alvos. Prenderam-nos em abril por espionagem e ação contrarrevolucionária. A principal ação do grupo latino era a difusão da oração “Rússia padecente”, da devoção à Santa Teresinha do Menino Jesus e de determinadas orações pela salvação da Rússia. Esse apostolado lhe acarretou a deportação por três anos. Uns cinquenta fiéis foram exilados: eram simples trabalhadores ou organizadores de procissões, muitas vezes velhos. “O fim de todos eles será a morte miserável no exílio ou nas novas prisões. 18” As condições do interrogatório desafiam as forças morais: “Irmã Jacinta (Anna Zolkina), uma jovem freira de 25 anos, torturada por questões infames, sucumbiu a um terrível ataque de nervos.” Liberada em 1941, foi condenada no mesmo ano a cinco anos no gulag.

As irmãs dominicanas continuaram o seu apostolado nos campos. Formavam grupos para difundir o ensinamento católico. No verão de 1935, no campo de Bamlag, elas redigiram uma carta que manifesta a sua intrepidez: “Pelo espírito, nós somos fortes. Nem os campo de concentração, nem os órgãos da NKVD poderão desviar do caminho verdadeiro os filhos fiéis da única Igreja Católica. Mesmo aqui nós nos esforçaremos para ganhar recrutas valorosos para a Igreja Católica.”

 

2.3. Os prisioneiros católicos de Solovki

No campo de prisioneiros situado nas ilhas Solovki (Mar Branco) viviam 20.000 homens em condições assustadoras: clima polar, fome, prisioneiros fuzilados em grupos…19

Muitos padres (uns vinte ao mesmo tempo) viviam aí detidos. As missas começavam a meia-noite e se sucediam até as 7 horas da manhã. Um armário baixo servia de capela, nele só se conseguia celebrar de joelhos. Os guardas jamais se deram conta de nada. Por causa do novo calendário com a semana de cinco dias, foi-lhes exigido trabalhar aos domingos: “Fuzilem-nos agora mesmo, mas não violaremos o mandamento de Deus.” Quiseram obrigá-los a tirar o hábito eclesiástico: “No trabalho nos vestiremos como os demais, mas na cela usaremos a sotaina.” Para socorrer os doentes, os padres pediam para ser levados com eles e os confessam nos corredores, falando com os doentes às vistas de todos. A paciência dos prisioneiros é testada até aos últimos limites: o bispo católico Bolesas Sloskans escreveu do arquipélago, onde viveu de 1928 a 1930, aos seus pais: “Eu vos peço do mais profundo da minha alma: não permitais que a vingança ou a exasperação tome conta do vosso coração. Se o permitirmos, não seremos mais católicos verdadeiros, e sim fanáticos. 20

Em 1932, instaurou-se contra esses sacerdotes um processo “por formação de grupo antissoviético,  por se dedicarem à agitação antissoviética, cumprindo ritos religiosos e celebrações litúrgicas”. Esses duros tratamentos muitas vezes culminavam com a morte. O campo de prisioneiros teve necessidade de abrigar novos prisioneiros para serem trocados com a Polônia e, sobretudo, para dar continuidade aos trabalhos iniciados: a escavação do canal Báltico/Mar Branco e a linha ferroviária Leningrado/Murmansk, o canal Moscou, Volga, Don.

A perseguição aos católicos se estendeu a toda a Rússia Européia: Leningrado, Kiev, Odessa, Rostov do Don… Os católicos alemães do Volga, que estavam sob a direção do Pe. Kappès, tornaram-se o novo alvo a ser abatido. Os sacerdotes mantiveram-se firmes nos seus postos para responder às necessidades dos fiéis. Os testemunhos são eloquentes: “Os padres conservaram-se heroicamente ao lado do seu rebanho. Relatamos fatos mostrando que, apesar da repressão do poder, do terror e das execuções, apesar da perseguição contra a fé, os padres não fugiram, mas permaneceram no posto. Os padres receberam a morte das mãos dos bolcheviques com a oração nos lábios, submeteram-se a torturas e fuzilamentos.” A colheita foi abundante: “Muitos católicos alemães foram condenados à morte, recebendo a sentença com firmeza e com uma fé inflexível. 21

Dom Bathélzmy Remov, convertido secretamente ao catolicismo em 1932, e nomeado secretamente por Pio XI como bispo auxiliar de Mons. Neveu, foi condenado à morte em 1935 por causa da sua conversão. Os membros do grupo católico que surgira ao seu redor foram condenados em abril do mesmo ano e executados sem um novo processo em 1937.

 

2.4.O grande terror de 1937

O assassinato do secretário do Partido Comunista, provavelmente por instigação de Stalin, foi o início de um período de terror que lhe permitiu, entre 1935 a 1938, eliminar todos os seus adversários em etapas sucessivas. 50.000 suspeitos foram deportados para os Montes Urais e para a Sibéria. Essa nova etapa foi desencadeada por um ato pessoal de Stalin, sob a forma de uma resolução da seção do Politburo (2 de julho de 1937). A ordem transmitida a todos os níveis da direção do partido foi de tornar a prender todos os ex-detentos, os koulaks22, os ministros de culto e os prisioneiros políticos, “a fim de fuzilar imediatamente os elementos mais incômodos sob forma de medida administrativa das troikas contra eles.” Determinou-se um prazo de quinze dias para que se preparasse a lista das pessoas a serem fuziladas ou exiladas. Foi uma hecatombe: 300.000 vítimas foram lançadas nas fossas comuns de Severnoye Butovo (20.762 das quais apenas no período de 8 de agosto a 19 de outubro de 1938) 23. “A máquina de extermínio não saciava sua sede de sangue (…) em diversas regiões, os secretários do Partido, aos quais havia sido atribuído uma meta de execuções, pediam por telegrama autorização de Stalin para aumentar o número estabelecido. 24” Isso foi concedido: para a região de Omsk, o número de execuções subiu de 3.000 para 8.000. A maior parte dos padres presos ou exilados foram executados na ocasião. Muitos poderiam salvar as vidas renunciando ao sacerdócio, como lhe propunham os juízes. No entanto, a fidelidade dos padres encorajava os fiéis à perseverança: um grupo de paroquianos escreveu ao seu padre detido no arquipélago Solovki: “Nós também recordamos do senhor na Santa Comunhão e rezamos fervorosamente pelo senhor… No momento, estamos todos dispersos, como no trecho das Escrituras: ‘Fere o pastor e serão dispersas as ovelhas’… Nós perseveraremos até o final em nome de Deus, e com o Coração de Jesus, e imploramos vossas orações e vossa santa benção. 25

O incitamento à renúncia do sacerdócio tomava formas dissimuladas: “Os antigos servidores do culto (sem distinção de religião) que rompessem com a religião e com as organizações religiosas, renunciando por isso mesmo ao seu estado, com a condição de que o fizessem em público no lugar de seu serviço ou pelo jornal do lugar onde exerciam o culto, eram inscritos na Bolsa de Trabalho e registrado na qualidade de desempregados26.”

O acusador tinha o cuidado de privar os católicos da glória do martírio, negando-lhes a condenação por religião, pretextando em vez disso [a participação em] uma organização terrorista ligada a país estrangeiro. As vítimas provêm de todos os meios sociais, sobretudo do clero de origem alemã, polonesa e das terciárias regulares dominicanas, mas também de russos de origem que haviam abraçado o catolicismo de rito oriental. Os leigos representavam o maior número. Os prisioneiros eram enviados aos charcos de Pinega, ao Ural do Norte ou do Sul, às estepes do Cazaquistão, às terras insalubres da embocadura do Ob (Obdorsk, atualmente Salekhard), ou ao deserto, infernal no verão, gelado no inverno, da Ásia Central, aos campos de prisioneiros dispersos no Arquipélago do Gulag: dezenas de milhares, reputados como elementos socialmente incômodos, foram assim mortos no esquecimento.

No final dos anos 1930, retornam os assassinatos de padres e leigos. A invasão da Rússia pelas tropas alemães acarretará a ordem de extermínio nos campos de prisioneiros. As mesmas armas de antes são utilizadas: exílio, trabalhos forçados, detenções em regime severo… As religiosas que já haviam sido condenadas tornam a sê-lo. As mais longevas são três religiosas que viveram nas cadeias comunistas por mais de trinta anos27. A grande maioria dos 20 ou 30 mil católicos da região de Vladivostok pereceram durante a coletivização dos anos 1930.

 

2.5. A extensão territorial de 1941

No início de 1941, os territórios anexados contavam, por um lado, com mais de seis milhões de católicos romanos (com 12 dioceses, 1.740 igrejas e 2.300 padres), e por outro, com 3,5 ou 4 milhões de greco-católicos (sendo 2.000 sacerdotes). Em todas as dioceses dos países anexados em 1939-1940, o clero foi detido, os bens eclesiásticos confiscados, as escolas, mosteiros e seminários proibidos, a religião suprimida da educação, e toda publicação religiosa interdita. A guerra obrigará a alguns recuos temporários da parte da URSS, para obter em troca algumas concessões do Ocidente.

 

2.6. O pós-guerra e a guerra fria28

Com a anexação dos Países Bálticos, da Galícia, da Bessarábia e da Transcarpátia, mais de 12 milhões de fiéis ficaram sob as botas soviéticas. A Igreja era vista como um obstáculo maior à sovietização dos povos recém conquistados. Em 1945-1946, os uniatas foram obrigados a se fundirem [com a Igreja Ortodoxa Russa].

Na Lituânia, após a retirada dos alemães, os cinco bispos se tornaram as primeiras vítimas29. Em 1945, de um total de 1470 padres, apenas 741 estavam livres, os demais foram deportados para a Sibéria. 400.000 lituanos, 200.000 letões30 e a mesma quantidade de estonianos foram enviados para a Sibéria, boa parte dos quais era de católicos. Stalin fundou assim uma Cristandade na Sibéria! As prisões voltaram a ocorrer de forma maciça em 1948-1949.

A propaganda recrudesceu após a guerra: a Igreja era acusada de ter se aliado à Alemanha nazista, de ser inimiga dos eslavos, de apoiar o imperialismo, de ser um centro de política reacionária, um bastião do obscurantismo, vil inimiga do comunismo e de estar "à serviço de Wall Street”. No leste europeu, o modelo de perseguição de antes de 1940 foi retomado, sendo adaptado às circunstâncias. Grandes figuras erguiam alto o estandarte católico: os cardeais Wyszinski, August Hlond e Adam Stefan Sapieha,

Na Polônia, o Cardeal Wyszinski aceitou iniciar negociações sobre a nacionalização dos bens para reduzir as pressões. Em junho de 1950, no entanto, acusaram-no de ter violado o acordo de abril de 1950, e os padres foram presos. Em 1953, o governo pretendeu impor a aprovação estatal a todas as decisões eclesiásticas. A tensão só aumentava.

Na Hungria, em 1950, o primaz Dom Joszeph Gröz negociou a submissão durante o encarceramento do Cardeal Mindszenty. Foi tudo em vão, pois as prisões continuaram; ele foi detido em 1951 e condenado a treze anos de prisão. A perseguição se generalizou, com prisões e confiscos. O Pe. Beran, figura anti-nazista de Praga, cabeça da Igreja Católica na Tchecoslováquia, será preso em 1948.

Na Iugoslávia, em 1945, uma onda de perseguições atingiu os padres e bispos. Dom Stepinac foi condenado a dezesseis anos de prisão. O clero em peso foi condenado à prisão ou à morte.

Com o início da ‘desestalinização’, concederam-se alguns alívios: por exemplo, as liberações de 1954-1955. Mais tarde, em 1958, o governo comunista lançou uma campanha violenta contra a religião para erradicá-la de uma vez por todas, e assim foi até 1964. Todas as comunidades tiveram de ser fichadas, os bispos foram banidos, impedidos de cumprir suas obrigações. As prisões acentuaram-se em 1961. Impuseram-se quotas para fixar o número de seminaristas. Por que esse retorno ao passado? Porque a ‘desestalinização’ favoreceu o anti-comunismo que buscavam erradicar.

Concluiremos esta parte com alguns exemplos mais recentes tomados da Lituânia.

 

2.7. Os católicos lituanos

A Lituânia era um dos países mais católicos da URSS. Enquanto a população era submetida às mesmas perseguições que ocorriam por toda a parte na União Soviética, os católicos se organizaram de maneira clandestina e foram muito ativos. O seu número, a sua unidade e, sobretudo, a sua determinação, permitiu-lhes exercer pressão sobre o governo. O clero e os fiéis não hesitaram em fazer um apostolado ativo e a intervir perante as autoridades, sem temor de represálias. Exerceram uma atividade a um tempo pública e clandestina. Todas as congregações religiosas foram obrigadas à total clandestinidade, assim como os jovens que se preparavam ao sacerdócio. Mas, muitas vezes, os padres viam-se obrigados a exercer um ministério clandestino para completar o seu restrito ministério público. Assim, secretamente, preparavam as crianças para a primeira Comunhão e para o sacramento da Confirmação, visitavam os doentes nos hospitais, pois os padres não tinham o direito de ir até lá… Quando a resistência clandestina é bem organizada, é difícil de ser percebida. Eles chegaram ao ponto de lançar clandestinamente um jornal católico, a “LKB Kronika” (Crônica da Igreja Católica na Lituânia).

Nijolé Sadunaité, uma lituana, foi condenada em 1975 a três anos de trabalhos forçados num campo da Mordóvia, e a três anos de exílio na Sibéria. Ela já estava então há um ano sob a mira da KGB por ter encontrado um advogado para defender o Pe. Antanas Seskevicius, acusado de ter ensinado catecismo a crianças. Um dia, no entanto, denunciada pela vizinha, foi surpreendida pela milícia tcheco-soviética enquanto fazia cópias de um número da “LKB Kronika”, e foi presa. Enquanto sua casa era revistada, Nijolé rezava o terço com uma amiga que lhe visitara. Sua serenidade deixou a polícia pouco a vontade. Seu processo lhe ofereceu uma tribuna para denunciar o sistema de opressão soviética no tocante à religião: ela assinalou, entre outras coisas, a interdição de os moribundos nos hospitais serem assistidos por um padre, mesmo quando pediam, recordou a campanha de difamação lançada contra a Igreja, o Papa, os bispos, os padres e os fiéis. Aos que debochavam da religião, dizia que não se debocha do que não se conhece.

Eis alguns trechos do seu “diário”:

“A tranquilidade da minha consciência importa mais que a liberdade, mais que a própria vida.

“Continuem a promulgar tantas leis quanto quiserem; mas, guardai-as para os senhores mesmos. É preciso distinguir entre o que foi escrito pelo homem, e o que foi pedido por Deus. O tributo a César só pode ser a sobra do tributo devido a Deus.

“A KGB dispõe de todos os meios para quebrar […] suas vítimas […] mas não sabem que a pessoa mais débil, depois de se apoiar em Cristo, torna-se indomável.

“Sofrer por Cristo é o sinal certo de uma predileção especial.”

O Pe. Antanas Seskevicius, condenado muitas vezes por ter ensinado o catecismo às crianças, exortava nos sermões que os fiéis respondessem com caridade e oração às injustiças e ao ódio. Já Nijolé Sadunaité disse: “Eu compreendi que os sofrimentos da prisão, aceitos em favor deles [os soviéticos], terminaria por tocar os seus corações e consciências. Ah, se houvesse mais gente pronta para subir o Gólgota e a morrer por eles!”

 

3. As forças da Resistência católica

 

3.1. A unidade da Igreja

A Igreja ortodoxa é uma igreja nacional, portanto ligada ao governo. Ainda que, oficialmente, a separação entre a Igreja e o Estado tenha sido decretada em 1918, o Estado controlava os ortodoxos afastando os líderes incômodos e trocando-os por gente maleável, submissa ao poder.

Isso não era possível com a Igreja Católica, pois os católicos, ao contrário, submetiam-se ao Papa e a Roma. Como a autoridade estava fora do país, ela não podia ser manipulada pelo governo. O Estado não tinha nenhuma ingerência sobre ela. Fora a repressão, nada poderia lesar os católicos. Mesmo se eles fossem afastados da sua autoridade, o Estado não poderia influenciá-los desde dentro, por causa da fidelidade à hierarquia católica. O Estado deveria, então, contentar-se com uma vigilância externa, em que muito lhe escapava.

 

3.2. O papel da família católica

A família é a célula de base da sociedade, é por ela que se pode transmitir a Fé. Os padres por si sós tinham um campo de ação restrito por serem monitorados. Assim, as famílias católicas constituíram-se em “pequenas igrejas domésticas”, pequenas ilhotas de cristandade no meio de um oceano de ateísmo.

O Estado era capaz de controlar as atividades visíveis dos católicos, mas não conseguia controlar cada família, apesar da veemência com que se dispunha ao combate: “Os fatos mostram que a família é o principal reduto para a preservação do espírito religioso. Não podemos admitir que gente cega e estúpida eduque seus filhos à sua própria imagem e os deformem.” (Illitchev)

Enfim, sentimos muito orgulho de causar tão grande embaraço a quem dispõe de tantos recursos. Mas a força bruta nada pode quando Deus vela por seus filhos. Como tão bem reconhecem os nossos inimigos, é pela família que a Fé se transmite. Os filhos, vendo os pais rezarem e defenderem a  Fé, seguem o  exemplo. E são os pais os mais capacitados para ensinar o catecismo aos  filhos. A família é o meio de transmissão por excelência. Os comunistas que querem se imiscuir na família para construir a sociedade soviética sabem o que fazem. E para esse fim — como cheios de ódio reconhecem  — a família cristã é um obstáculo.

Um dos personagens mais importantes da família é a “babuska”, a avó, que vive na família e toma conta dos filhos enquanto os pais estão fora. Ela exerce, portanto, uma influência muito grande sobre os filhos, que lhe pedem para contar as histórias da Bíblia, a vida de Nosso Senhor, e também cantar os cânticos tradicionais. Muitas vezes, os filhos recordarão o que lhes ensinava a “babuska” muito depois dela já ter partido.

 

3.3 A oração e o apostolado pelo exemplo

Num país onde a “propaganda religiosa” foi proibida, pareceria que todo projeto de apostolado seria impensável. Dado que os católicos deviam viver na semi-clandestinidade, não havia movimentos ou organizações apostólicas. Poderíamos, portanto, pensar que a missão da Igreja estava como que hibernando, aguardando por dias melhores. Não deveria contentar-se em  assegurar a sobrevivência dos católicos existentes? Mas uma Igreja não missionária ainda seria católica, ou seja, destinada a se difundir universalmente? Por essa razão, e a despeito das perseguições e das ameaças que sempre pesavam sobre os seus membros, os católicos continuavam a trabalhar pela difusão da Igreja,resultando por vezes num renascimento espiritual do país. Apesar de toda a propaganda, são cada vez mais numerosos os que buscam um sentido para sua vida num mundo onde todas as referências foram suprimidas, e que se voltam para Deus a fim de completar o seu vazio. Surgem até mesmo vocações: ordenam-se padres nos campos de prisioneiros. Qual é a explicação desse desenvolvimento em condições tão desfavoráveis?

Em primeiro lugar, a oração; não apenas a assistência aos ofícios religiosos, quando havia um lugar de culto próximo, mas também o rosário recitado em família. A oração em família é um exemplo para as crianças, que não hesitavam até mesmo em rezar discretamente na escola. Um dia uma professora arrancou o terço das mãos de uma aluna e, arrebentando-o, jogou na lata de lixo. A menina respondeu com altivez: “Tenho dez dedos na mão para substituir as contas do terço, e continuarei a rezar o terço entre as aulas, no meu quarto ou mesmo em viagem…” Crianças pequeninas começavam a rezar e não tinham medo de fazê-lo porque viam os seus pais rezando, e achavam tudo natural. A oração é a arma do combate espiritual, sobretudo no cárcere, onde as condições eram desumanas, e o desespero assaltava as almas. Quantas vezes os católicos, rezando abertamente nas celas, obtiveram a conversão de outros prisioneiros, quando não dos próprios guardas, tocados por esses crentes supostamente perigosos para a segurança do Estado, que os perdoavam e rezavam por eles!

Os “Amigos da Eucaristia” foi uma forma inteiramente clandestina de apostolado de oração, desenvolvido em 1969. Os membros se reuniam em discretas comunidades de oração, mas era sobretudo pelo vínculo interior da oração eucarística e mariana que os membros se “reencontravam” em comunhão. O seu compromisso consistia em meia-hora de adoração eucarística.

A segunda forma de apostolado que jamais poderá ser tirada de um católico é o exemplo. Os católicos eram admirados até mesmo pelos seus inimigos, por causa da vida exemplar que levavam. No seio de uma sociedade completamente decadente, minada pelo alcoolismo, violência, insegurança e toda forma de vício, só os católicos levavam uma vida virtuosa. A cada dia precisavam professar a sua fé em palavras mas sobretudo em atos, para não viverem uma vida hipócrita, ocultando a fé: eles se recusavam a participar das organizações para a juventude, e a ir às conferências, ao passo que iam aos ofícios religiosos… A experiência mostra que a união de católicos intrépidos obrigou muitas vezes as autoridades locais a moderar a sua repressão. Por suas réplicas de bom senso e sua atitude irrepreensível, mas sempre respeitosa com as autoridades, embora manifestassem reprovação, levavam muitas vezes os seus interlocutores a refletirem. Eis o exemplo de um pai de família discutindo com um professor que lhe explicava o mal que a religião fazia às crianças ao lhes impedir o acesso aos estudos superiores: “Não é verdade, a religião não é nociva, respondeu o pai. Agora que a religião é calcada aos pés, as crianças não mais respeitam os professores, fumam, xingam, embriagam-se e vivem uma vida licenciosa. Aí estão os frutos do ateísmo!” 

*

Esta síntese sobre a história dos católicos em face do flagelo comunista confirma a triste realidade das palavras do Papa Pio XI acerca da peste negra:

 

“Lá onde o comunismo pôde se afirmar e dominar (…) ele se esforçou por todos os meios para destruir (e o proclama abertamente) a civilização e a religião cristãs até os seus fundamentos, para apagar toda lembrança dela do coração dos homens, especialmente da juventude. Os bispos e os padres foram banidos, condenados a trabalhos forçados, fuzilados e assassinados de modo desumano; os simples leigos, porque defenderam a religião, tornaram-se suspeitos, foram maltratados, perseguidos e arrastados à prisão e levados aos tribunais.”

“A graça de Deus foi abundante na alma desses discípulos de Cristo, acuados pelos inimigos de Deus. A refinada técnica de que o comunismo se valeu nesse terrível confronto o transformou num dos maiores perigos do século XX: “Dentro da zona de influência bolchevique-comunista, o uso refinadíssimo dos meios técnicos e legais de que o poder arbitrário do governo dispunha, quando desejava destruir a Igreja, deu azo a que as perseguições que ela ali sofreu fossem as piores que já se conheceram. 31

Em complemento à análise desses erros, a atitude constante dos poderes comunistas é a confirmação do antagonismo irredutível entre o catolicismo e o comunismo! Sim, “o comunismo é materialista e anticristão: ainda que os chefes comunistas às vezes declarem por palavras que não atacam a religião, eles se mostram, de fato, seja pela doutrina, seja pelos atos, hostis a Deus, à verdadeira religião, e à Igreja de Cristo32”. A Igreja de Cristo não pode capitular jamais: ela “não pensa em abandonar sem luta o terreno ao inimigo declarado, o comunismo ateu. Esse combate se travará até o fim, mas com as armas do Cristo! 33”, nos preveniu Pio XII.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF, Gentilly, 2017, pp. 52-76.)

  1. 1. Militante feminista soviética (1872-1952).
  2. 2. Peter Babris, Silent churches, Persecutions of religions in the soviet dominated areas, Research publisher, Illinois, 1978, p. 164.
  3. 3. Sobre esse tema, o leitor poderá consultar os escritos de Soljenítsin (Arquipélago Gulag e outros) ou o Livro Negro do Comunismo.
  4. 4. Peter Babris, op. ct., p. 162-163.
  5. 5. Ibidem., p. 164.
  6. 6. Documentos pontificais de Sua Santidade Pio XII, 1950, Éditions de l’oeuvre Saint-Augustin, p. 622-23. Em 1950, as estimativas eram as seguintes:

    • Na URSS, todos os bispos (8) e todos os padres (300) foram assassinados, deportados ou exilados.
    • Na Sibéria, não havia mais bispos nem padres que pudessem exercer livremente o seu ministério em todo o território. Ademais, encontram-se centenas de milhares de católicos bálticos, poloneses, alemães, ucranianos etc, deportados ou prisioneiros.
    • Na Ucrânia, todos os bispos (8) foram deportados e três deles já haviam morrido na prisão. Estima-se que mais de 35.000 padres foram executados ou enviados para a Sibéria.
    • Na Lituânia, seis bispos foram presos ou exilados, 400 a 500 padres foram caçados. De uma população de 1.750.000 católicos, metade foi enviada para a Sibéria por motivações religiosas.
    • Na Letônia, os dois bispos foram exilados e, de 120 padres, 33 foram deportados. Ainda restam entre 300 e 400 mil católicos.
    • Na Estônia, o único bispo foi preso e 50 padres foram executados ou deportados. Há cerca de 10.000 católicos.
    • Na Polônia, de um total de 24 milhões de habitantes, 75% eram católicos. Mais de 1.000 padres foram executados ou encarcerados.
    • Na Alemanha havia na zona oriental três bispos e dois ou três administradores apostólicos, cerca de 400 padres e mais de dois milhões de católicos.
    • Na Tchecoslováquia, de 14.726.000 habitantes, 70% eram católicos. Todos os bispos (12) eram monitorados e, de um total de 7.000 padres, mais de 1.500 estavam presos.
    • Na Hungria havia seis milhões de católicos numa população de nove milhões. Desde a entrada das forças soviéticas, um bispo foi assassinado; o cardeal Mindzsenty foi preso, e mais de 500 padres foram mortos ou exilados.
    • Na Bulgária não havia mais que 6.000 católicos. A maior parte dos padres — uns 30 — ainda estão livres, mas não podem mais exercer o seu apostolado.
    • A Romênia conta com mais de 3 milhões de católicos numa população de 18 milhões. Doze bispos estão presos, um único ainda estava em liberdade. Todos os padres, em número de 1.500, foram executados ou estavam encarcerados.
    • A Iugoslávia era uma país com uma população de 16 milhões de habitantes e 5 milhões de católicos; dois bispos foram assassinados, três haviam sido encarcerados ou exilados. Mais de 250 padres foram assassinados e 400 estavam presos ou exilados.

    Na Albania havia mais de 100.000 católicos numa população de 10 milhões de habitantes. Dois bispos haviam sido fuzilados e os demais estavam encarcerados. Praticamente não existiam mais padres, enquanto outrora eram mais de cem.

  7. 7. J. Dunn Ashgate, The Catholic Church and Russia, Dennis Texas University, 2004, p. 73.
  8. 8. Pedro, o Grande, permitira a seu conselheiro militar, o Gal. Patrick Gordon (1635-1699) católico fervoroso, construir para si e sua família a primeira igreja católica de Moscou, dedicada a São Pedro e São Paulo. Depois dele, em 1789, Catarina II autorizou a comunidade francesa de Moscou a construir sua própria Igreja (São Luís dos Franceses). Um apelo foi feito pela Nova Rússia aos camponeses vindos da Alsácia para que fincassem raízes nas bordas do Volga e do Mar Negro.
  9. 9. Citado em R. Morozzo Della Rocca, Le nazioni non muoiono, op. cit., p. 116.
  10. 10. Nova Política Econômica: política econômica instituída pela Rússia bolchevique de 1921 a 1925, introduzindo uma relativa liberalização econômica.
  11. 11. Ele foi condenado no dia 21 de março de 1922 “não apenas pelo que fez, mas também por aquilo que poderia fazer” (!), Silent Churches, p. 166.
  12. 12. A. Judin, Le sorti del cattolicesimo russo, cit, p. 91.
  13. 13. Dom Miguel D’Herbigny, a pedido de Pio XI.
  14. 14. Antoine Wenger, Catholiques en Russie d’après les archives du KGB, 1920-1960; Desclée de Brouwer, 1998.
  15. 15. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 82.
  16. 16. Antoine Wenger, op. cit., p. 39.
  17. 17. Ibidem, p. 43.
  18. 18. Carta do Pe. Neveu, 14 de setembro de 1931, citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 57.
  19. 19. Descrito por Soljenitsin, O Arquipélago Gulag, t. 2, c. 2. “As ilhas Solovki são o reino dos desgraçados. Acima dos ásperos muros da catedral, sobre o revestimento fresco, fora desenhada a silhueta gigantesca de uma cidade contemporânea, com chaminés que fumegam, guindastes e aviões que sobrevoam, dominada por uma grande estrela vermelha de cinco pontas. Na cidade, foi pintado meticulosamente com tinta vermelha o slogan: ‘Viva o trabalho livre e alegre’” (testemunho de Olga Jafa, deportada, citada em J. Brodskij, Solovki, Le isole del martirio. Da monastero a primo lager sovietico, Milan 1998, p. 22). Em 1920, o mosteiro que havia ali foi transformado num campo de concentração para os prisioneiros da guerra civil. Em 1923, tornou-se um “campo de destinação especial”. De 1920 a 1939, acolheu mais de um milhão de prisioneiros. Os bolcheviques desejam transformar um dos santuários do “obscurantismo" num lugar de reeducação: “Durante cinco séculos, os Solovki obscureceram o espírito do povo. Hoje, ergue-se aqui um campo de concentração onde são reeducados os cidadãos que cometeram crimes… O eco dos sinos das ilhas Solovki foi extinto. Uma nova vida despertou”, citado em Brodskij, op. cit. p. 132.
  20. 20. I. Osipova, Se il mondo vi odia… Martiri per la fede nel regime sovietico, Milano, 1997, p. 100.
  21. 21. Antoine Wenger, op. cit., p. 102.
  22. 22. Modo pejorativo de se referir na Rússia aos fazendeiros, possuidores de terras, rebanho e ferramentas, que assalariavam camponeses para o trabalho.
  23. 23. Cf. o historiador Milchakov em Vetrchernaïa Moskva, 26 de fevereiro de 1991.
  24. 24. Antoine Wenger, op. cit., p. 156-157.
  25. 25. I. Osipova, op. cit., p. 137.
  26. 26. Cf. Texto secreto do Comitê Central (30 de agosto de 1930), citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 163.
  27. 27. Irmã Filomena Eismont (1924-1955), Irmã Antonina (Kouznetsova) (1924-1956), Irmão Margarida (Raïssa Ivanovna Krylevskaïa) (1924-1955).
  28. 28. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 136-156.
  29. 29. Um deles foi preso e morreu em outubro de 1946 em condições não esclarecidas (Dom Borisevicius); três foram presos e condenados a trabalhos forçados na Sibéria, no final de 1946; o outro morreu no cárcere, perto de Moscou (Dom Reinys, novembro de 1953).
  30. 30. No final de 1945, a Letônia não tinha mais que dois padres e três igrejas (eram 1.671 antes da chegada dos soviéticos).
  31. 31. Pio XII, Carta ao episcopado alemão, 15 de fevereiro de 1954.
  32. 32. Pio XII, Decreto do Santo Ofício sobre o comunismo, 1o. de julho de 1949.
  33. 33. Pio XII, Discurso aos participantes do II Congresso Mundial para o apostolado dos leigos. 5 de outubro de 1957.

Introdução ao vigésimo segundo domingo de Pentecostes

 “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

Os judeus, submetidos ao império romano, deviam pagar anualmente a César um tributo que lhes era tanto mais odioso quanto lhes feria diretamente o espírito de domínio universal de que Israel acreditava ter recebido a promessa. De maneira que, se Jesus respondesse à pergunta capciosa dos rabinos que deviam pagar o tributo, indispunha o povo contra Ele; se respondesse que não, seria condenado pela autoridade de Roma. Julgavam-se, portanto, de posse dum meio que lhes permitiria prender o Redentor. Jesus, porém, com infinita sabedoria, sem procurar de modo nenhum furtar-se ao astuto dilema, aproveitou a ocasião para nos dar uma lição magnífica dos nossos deveres cívicos e religiosos. De quem é esta imagem e inscrição? Perguntou Ele aos judeus. De César, responderam. À autoridade humana, que governa com o poder que lhe vem de Deus, devem-se os tributos materiais, o acatamento às suas leis justas. A Deus deve-se amor, serviço e adoração, tributados de corpo e alma. Deve-se, de justiça, o culto litúrgico. Somos moeda cunhada por Deus à Sua imagem. E Deus reclama essa moeda como César a sua.

Da Epístola: O dom da perseverança vem de Deus. E o Apóstolo pede-o a Deus para os Filipenses a quem dirigem esta carta, a fim de que, carregados de boas obras, deem glória a Deus e possam esperar confiadamente o Salvador quando pela noite e à maneira de ladrão os vier chamar.

Do Evangelho: Se ainda estamos presos aos bens de César, diz S. Hilário, não nos podemos lamentar da obrigação de lhe dar o que lhe pertence. Mas é necessário dar também a Deus o que Lhe pertence por inteiro, quer dizer, consagrar-Lhe o nosso corpo, a nossa alma e a nossa vontade.

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Os mártires de Espanha

“Santa Espanha, na extremidade da Europa concentração de Fé,

quadrado e massa dura, e da Virgem Mãe trincheira,

Última parada de Santiago, que só onde a terra acaba se refreia,

Pátria de Domingo e de João, de Francisco o Conquistador e de Teresa,

Arsenal de Salamanca, pilar de Zaragoza, raiz ardente de Manresa,

Inquebrantável Espanha, recusa perpétua do meio-termo…”1

 

 

Quem mais do que a Espanha, com efeito, deu à cristandade filhos corajosos e filhas ardorosas? Quem como Espanha resistiu a sete séculos de pressões do islã? Quem dobrou o espaço geográfico da civilização e da cristandade pela descoberta do Novo Mundo?

Em 1930, a Espanha contabilizava 20.000 monges, 60.000 religiosas, 31.000 padres para vinte e três milhões de habitantes. As escolas católicas escolarizavam 600.000 crianças. As instituições científicas católicas financiavam vastos setores da ciência espanhola, notadamente em história, matemática e astronomia. Era impossível falar de cultura na Catalunha sem citar as organizações intelectuais dos jesuítas, capuchinhos e beneditinos de Montserrat. Fiel à sua história, a Espanha entregou à cristandade muitos mártires e exemplos de heroísmo durante a guerra civil de 1936 e os eventos que a precederam. Eis os fatos.

 

1. O desencadeamento da Guerra Espanhola.

Após um atentado em Paris contra o Rei de Espanha Alfonso XIII, um alto dignatário maçom lhe propôs a posse tranquila de seu trono caso se afiliasse à seita. “Antes de ser rei, sou católico”, respondeu indignado o monarca. Dois anos mais tarde, em 30 de maio de 1919, acompanhado de seus homens de governo, consagrou a nação espanhola ao Sagrado Coração de Jesus, em ação de graças por ter sido preservada da Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918. Assim ele assinou o seu ato de condenação2.

Nas eleições municipais de 1931, elegeram-se 21.150 vereadores monarquistas contra 5.875 republicanos, mas 41 das 50 capitais de província votaram a favor dos republicanos. O rei, não querendo uma guerra civil, partiu em exílio como se a Espanha rural, largamente majoritária, não contasse. No dia 14 de abril, a república foi proclamada e reconhecida pelos governos maçônicos do mundo inteiro.

Desde o início do novo regime, o Comitê Revolucionário se tornou o governo provisório. Ele compreendia republicanos conservadores, liberais, socialistas, nacionalistas-regionalistas, e se beneficiava do apoio tácito dos partidos mais à esquerda. A hierarquia da Igreja aconselhava obediência às novas instituições, uma vez que o governo prometera uma “Igreja livre num Estado livre”, no entanto ela via com desconfiança a chegada ao poder de políticos que eram, em sua maioria, maçons e anticlericais.

O cardeal Segura, arcebispo de Toledo e primaz de Espanha, lançou um grito de alerta numa carta pastoral:

“Se nos mantivermos tranqüilos e negligentes, se permitirmos que a apatia e a timidez tome conta de nós, se deixarmos as portas abertas àqueles que procuram destruir nossa religião, ou se esperarmos que o triunfo de nossas convicções seja assegurado pela benevolência do inimigo, então não teremos mais direito de lamentar quando a amarga realidade nos fizer compreender claramente que a vitória esteve ao alcance de nossas mãos, mas que não soubemos combater como guerreiros intrépidos preparados para morrer gloriosamente3.”

Os acontecimentos lhe deram razão!

No dia 9 de dezembro de 1931, por atos oficiais do governo, teve início uma verdadeira perseguição religiosa. A nova constituição proclamou a separação entre a Igreja e o Estado, a autonomia regional para a Catalunha e o País Basco, a introdução do matrimônio civil. Muitas leis e decretos entraram em vigor por mera aplicação da Constituição; a Companhia de Jesus foi dissolvida e seus bens foram confiscados. As instituições religiosa não poderiam mais exercer nem o comércio, nem a indústria, nem a agricultura, nem o ensino. Igrejas, capelas, imóveis e mobiliário foram nacionalizados4. “O local ou os locais até o presente consagrados ao culto serão convertidos em armazéns coletivos, mercados públicos, bibliotecas populares, casas de banho ou de higiene pública etc. conforme as necessidades de cada cidade”,  enunciava a liga atéia no programa de um dos comitês provinciais.

De 1931 a 1933 multiplicam-se os atentados contra as pessoas (300 mortos e 2000 feridos em um ano), enquanto ocorriam greves, incêndios de igrejas e de conventos, e perseguição religiosa. O povo espanhol reagiu a essa apostasia das leis republicanas nas eleições de dezembro de 1933, que marcaram a derrota completa dos revolucionários e o triunfo dos católicos que Gil Robles havia reunido numa poderosa federação (CEDA).

Mas a política de moderação, de liberalismo e de reformas sociais do novo governo permitiu que as “esquerdas" fragmentadas se reagrupassem e se armassem: o governo perseguiu e aprisionou os anarquistas, mas deixou livre os comunistas e socialistas que, após um breve período de censura, reabriram seus centros de propaganda em maio de 1935 para começar a reconquistar o terreno e preparar o retorno ao poder. Lançando mão de métodos comunistas, Largo Caballero, o “Lenin espanhol” conseguiu, com efeito, reunir todas as forças da Revolução, que totalizavam mais de um milhão de homens em setembro de 1934. No final do ano, um cargueiro soviético desembarcou nas Astúrias trazendo 70 caixas com armas e munições. Em outubro de 1934, Madri, Oviedo, Barcelona se rebelaram ao mesmo tempo. No País Basco e na Catalunha o movimento assumiu feições separatistas. Durante dez dias, os rebeldes produziram violências inacreditáveis: incêndios, pilhagens, assassinatos (2.000 a 3.000 mortes ao todo).

Nas eleições de 16 de fevereiro de 1936, os partidos da ordem obtiveram no total do país 200.000 votos a mais do que a Frente Popular (coligação de republicanos, socialistas, comunistas e sindicalistas). Essa última, devido ao recorte bizarro de circunscrições e às fraudes nos boletins de votos, verificadas em muitos lugares, conseguiu eleger alguns candidatos a mais. Desse modo, as Cortes puderam ser formadas com maioria da Frente Popular, cujo primeiro gesto foi a abrir as prisões. Condenados de direito comum eram liberados e armados enquanto a guarda civil e o exército eram desestruturados por meio da destituição dos chefes. No campo, trabalhava-se ativamente para manter e aumentar a miséria dos pequenos negócios de que a classe média vivia, a fim de estimular a miséria e o ódio que fornecem à propaganda revolucionária um terreno promissor.

Desencadeou-se uma campanha de perseguição religiosa que superou as anteriores em amplitude e crueldade. De fevereiro a julho de 1936, 411 igrejas foram destruídas ou profanadas e cerca de 3.000 atentados de natureza política e social foram cometidos.

Em 18 de julho de 1936, o levante do general Franco marcou o início da contrarrevolução e da guerra civil espanhola, que deixaria 600.000 mortos e cujas operações militares durariam 32 meses. Após a queda de Barcelona, as tropas franquistas vitoriosas expeliram as forças republicanas para a França e entraram em Madri em fevereiro de 1939.

 

1.1 A Espanha vermelha

O primeiro disparo da guerra civil ocorreu no dia 13 de julho de 1936, por volta das 4 da manhã, quando as forças marxistas de Madri assassinaram o deputado monarquista Calvo Sotelo. Dois dias antes ele havia pronunciado nas Cortes uma acusação tão esmagadora contra a Revolução e seus males que a deputada comunista Dolores Ibaruri não se conteve e gritou: “Esse homem falou pela última vez.” O assassinato de Calvo Sotelo, executado pelos revolucionários e decidido pela maçonaria, é um exemplo do que seguirá. O Pe. Turquet, que Léon de Poncins definiu como “provavelmente o maior conhecedor espanhol de questões maçônicas” revelara que uma condenação fora levada a Madri por Augusto Barcia, “grão-mestre do supremo conselho maçônico” e ministro dos assuntos estrangeiros da Frente Popular.

A revista secreta da maçonaria, Chaîne de l’Union, declarou que o objetivo perseguido na Espanha, após a supressão da monarquia que entravava o caminho dos maçons, “era de fazer desaparecer para sempre o pernicioso poder clerical romano” 5. A perseguição religiosa foi inspirada pela maçonaria que, por ódio à religião, preparava os caminhos para Moscou.

 

1.2. Infiltração anarquista e marxista na Espanha

Ao longo do segundo terço do século XIX, as idéias comunistas e anarquistas penetraram a Espanha. Por volta de 1870, a Internacional6 contava já com mais de 80.000 afiliados. No final do século, Barcelona havia se tornado uma das capitais mundiais do anarquismo. Nos tempos da monarquia, os revolucionários amavam repetir que não haveria paz nem justiça para os povos até que o último monarca fosse enforcado nas tripas do último monge em praça pública.

Os anarquistas atuavam apenas no domínio dos sindicatos trabalhistas. Eles detestavam a política e não intervinham nas eleições. Apesar dos atentados terroristas que promoviam, eram considerados então como incapazes de causar uma perturbação social das massas. Mas, ao se apoderarem de organizações trabalhistas e ao consolidar sua influência por meio da violência terrorista, botaram as mãos na alavanca que lhes permitiu chegar ao poder. Em 1931, a Espanha abrigava cerca de um milhão de anarquistas ligados à CNT (Confederação Nacional do Trabalho). Esta organização sindical era dominada pela FAI (Federação Anarquista Ibérica) que abrangia cerca de 10.000 membros militantes, verdadeiros profissionais da desordem, que tomaram a iniciativa de incendiar igrejas e conventos, praticar assassinatos, estupros, somados a crueldades totalmente inéditas.

As primeiras infiltrações comunistas na Espanha começaram com o estabelecimento de uma seção ibérica do partido comunista em 1920. A contar dessa data, os comunistas absorveram todas as demais correntes revolucionárias em razão da maior capacidade de organização metódica. Em 1932, infiltraram maciçamente a UGT (União Geral dos Trabalhadores, socialistas nas mãos da maçonaria) e conseguiram fundar a CGTU (Confederação Geral do Trabalho Unitário). A partir dessa data, apesar da superioridade numérica dos anarquistas, são os comunistas que utilizam meios brutalmente autocráticos, que levaram à conquista do território espanhol.

A revolução comunista foi dirigida, organizada e financiada pelo Kominterm7 com somas exorbitantes. A Rússia remeteu para a Espanha setenta e nove agitadores profissionais bem como 70 caixas de armas e munições, enquanto a Comissão Nacional de unificação marxista organizava a formação de milícias revolucionárias em todas as cidades espanholas.

Em 16 de maio de 1936, o representante da URSS se reuniu com os delegados espanhóis da 3a. Internacional na Casa del Pueblo, em Valência. Eles decidiram “incumbir um dos setores de Madri de eliminar as personalidades políticas e militares que poderiam vir a desempenhar um papel importante na contrarrevolução.” Para esse fim, estabeleceram “listas negras” nas quais os bispos e os padres figuravam em primeiro lugar. “Durante esse tempo, desde Madri até as aldeias mais remotas, as milícias revolucionárias recebiam instruções militares e eram copiosamente armadas, ao ponto de contar com 150.000 soldados de assalto e 100.000 soldados de resistência8 no início da guerra.”

“O núcleo dessa brigada (as Brigadas Internacionais que vieram em ajuda dos republicanos contavam com 60.000 homens) se constituía de quinhentos ou seiscentos enviados da Rússia", escreveu Krivitsky9. "Em todos países estrangeiros, Reino Unido inclusive, o recrutamento para as brigadas era organizado pelos partidos comunistas locais e suas filiais. Entre eles havia informantes para caçar espiões, eliminar homens cuja opinião política não fosse estritamente ortodoxa, vigiar as leituras e conversas. Com efeito, todos os comissários políticos das Brigadas internacionais e, mais tarde, da maior parte do exército republicano, eram comunistas a toda prova. 10

Sem dúvida, muitos dos atos condenáveis foram responsabilidade de grupos que agiam por conta própria no meio da impunidade geral. No entanto, muitos outros atos foram fruto do planejamento das organizações comunistas, socialistas e anarquistas, que possuíam sua polícia, seus tribunais e suas prisões, e puseram em prática os métodos mais avançados, inspirados pelos agentes de segurança soviéticos11. Notadamente, desde o motim, em toda a zona governamental, multiplicam-se as “Tchekas”. Em Madri, era possível enumerar mais de 200, logo suplantadas pelo SIM (Servicio de Información Militar), cujos procedimentos se assemelham aos do GPU12 e do NKVD13. A tortura era aí organizada conforme os princípios médico-científicos. As sevícias seguiam uma gradação ardilosa: privação do sono, confinamento em prisões tão diminutas que a vítima não podia ficar de pé nem sentada, leito inclinado de forma que o prisioneiro caia imediatamente ao dormir14.

A Rússia se imiscuiu nas forças governamentais, penetrou no seu comando e, mesmo conservando o governo da Frente Popular, trabalhou para a instauração do regime comunista por meio da derrubada da ordem estabelecida. "A obra destruidora se realizou aos gritos de ‘Viva a Rússia’, à sombra da bandeira da internacional comunista15.”

 

1.3 As razões religiosas da oposição

Evocamos acima as razões dessa oposição entre o comunismo e a Igreja Católica. Esse conflito pertence a esse quadro. “A guerra espanhola se reduz ao choque entre o espiritualismo, cujo campeão mais firme era a religião, e o materialismo, cujo defensor mais enérgico era o comunismo ateu.” 16

Os dirigentes revolucionários não se escondem. Em Moscou se realizou o congresso dos ateus, do qual participam 1.600 delegados pertencentes a 46 nações. Seu fim era recolher informações sobre os progressos realizados entre as nações no que se refere à destruição da crença em Deus. Jesús Hernández, ministro do governo espanhol de Largo Caballero, enviou a esse congresso o seguinte telegrama: “Vossa luta contra a religião é também a nossa luta. É nosso dever fazer da Espanha uma terra de ateus militantes. A luta será difícil, pois neste país as massas reacionárias são numerosas e se recusam absolutamente a aceitar a cultura soviética. Nós transformaremos todas as escolas da Espanha em escolas comunistas.”

Largo Caballero, líder comunista, bradava: “Não deixaremos pedra sobre pedra nesta Espanha. Temos de refazê-la nossa.” Este é bem o slogan satânico da revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para reconstruir o mundo ex nihilo. Ainda mais claro é este discurso da deputada Margarita Nelken: “Nós queremos uma revolução, mas a revolução russa não pode nos servir de modelo, pois temos necessidade de chamas gigantescas que possam ser vistas por todo o planeta, e vagas de sangue que tornem o oceano vermelho.” Mesmo o quotidiano de Barcelona “Solidaridad Obrera” escrevia em 26 de julho de 1936: “Não há muitas igrejas e conventos ainda de pé; mas, com muito custo, apenas duzentos padres e monges foram postos fora de circulação. A hidra religiosa não está morta. Convém levar isso em conta e não perder de vista essa realidade em face dos nossos próximos objetivos.” 17

Não eram apenas bravatas. A destruição dos lugares de culto ou ao menos do seu mobiliário foi sistemática e contínua. No curto intervalo de um mês, todas as igrejas tornaram-se inúteis ao culto, enquanto os padres eram mortos sem processo, no mais das vezes à queima-roupa: as igrejas eram incendiadas por serem casa de Deus, e os padres eram sacrificados por serem ministros de Deus.

“Contamos os mártires aos milhares. […]

"O ódio a Jesus Cristo e a Virgem Maria chegou ao cúmulo, e nas centenas de crucifixos apunhalados, nas imagens da Virgem bestialmente profanadas, nos pasquins de Bilbao em que se blasfemava sacrilegamente da Mãe de Deus, na infame literatura das trincheiras vermelhas em que se ridicularizam os divinos mistérios, na reiterada profanação das imagens sagradas, podemos adivinhar o ódio do inferno, encarnado em nossos infelizes comunistas18.”

 

2. A Espanha católica

2.1. O alcance da destruição

É impossível, em toda a Espanha, separar a história da fé católica da história da criação artística. Durante séculos, essas duas histórias se confundiram. Ao desejo de acabar com esses monumentos por conta do seu caráter religioso juntou-se o desejo de sumir com eles por causa de seu aspecto histórico, visto que representavam épocas radiantes e constituíam tipos de civilização que, como tais, o marxismo quer destruir. É impossível fazer o inventário dos monumentos destruídos e das maravilhas artísticas desaparecidas. E não se contentaram em atacar os lugares de culto público. Os oratórios e os objetos religiosos privados, imagens, pinturas, livros, foram sistematicamente destruídos. Jamais talvez na história das perseguições religiosas um caso semelhante tenha acontecido: em poucos meses, uma região católica havia séculos viu desaparecer de seu solo todo símbolo religioso, sem contar a supressão e a dissolução das publicações católicas, das bibliotecas paroquiais, dos centros de cultura instalados nos estabelecimentos católicos, bem como o incêndio e a dispersão de bibliotecas conventuais. Todos os monastérios e todos os conventos foram incendiados, destruídos, fechados ou entregues para outros usos19.

Pio XI descreveu a trágica situação da Espanha sob a dependência do governo republicano na sua encíclica Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937:

"Até em países, onde — como sucede na Nossa amadíssima Espanha — não conseguiu ainda a peste e o flagelo comunista produzir todas as calamidades dos seus erros, desencadeou contudo, infelizmente, uma violência furibunda e irrompeu em funestíssimos atentados. Não é esta ou aquela igreja destruída, este ou aquele convento arruinado; mas, onde quer que lhes foi possível, todos os templos, todos os claustros religiosos, e ainda quaisquer vestígios da religião cristã, posto que fossem monumentos insignes de arte e de ciência, tudo foi destruído até os fundamentos! E não se limitou o furor comunista a trucidar bispos e muitos milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas, alvejando dum modo particular aqueles e aquelas que se ocupavam dos operários e dos pobres; mas fez um número muito maior de vítimas em leigos de todas as classes, que ainda agora vão sendo imolados em carnificinas coletivas, unicamente por professarem a fé cristã, ou ao menos por serem contrários ao ateísmo comunista. E esta horripilante mortandade é perpetrada com tal ódio e tais requintes de crueldade e selvajaria, que não se julgariam possíveis em nosso século.”

De 1934 a 1939, 20.000 igrejas ou conventos foram pilhados e destruídos em nome da liberdade de consciência. São 13 os bispos assassinados, padres 4.052, religiosos 2.338 e religiosas 270; ou seja, 6.773 consagrados aos quais se deve acrescentar 248 seminaristas e cerca de 80.000 leigos católicos de todas as idades e condições20. Entre esses milhares de padres, religiosos, bispos, monges e outros eclesiásticos, não se sabe de nenhum exemplo de apostasia.

 

2.2. O exemplo dos mártires

- A resistência do Alcazar

No final de 1936, o mundo inteiro seguiu com estupor a resistência do Alcazar de Toledo. Essa fortaleza de guerra foi tomada nos primeiros meses do alzamiento21 por milhares de combatentes insurgidos e um outro milhar de pessoas, que se compunha de velhos, mulheres e crianças. A primeira reação do governo republicano, quando soube que os insurgentes haviam se apoderado do lugar, foi chamar ao telefone o coronel José Moscardó Ituarte, chefe nacionalista da guarnição. O coronel Moscardó, com efeito, havia se abrigado no Alcazar de Toledo no meio de uma tal confusão geral que não pode trazer consigo a mulher e os filhos. Doña Maria se refugiara na casa do Tenente-coronel Tuero, mas foi descoberta em 22 de julho de 1936 pelos republicanos. Doña Maria conseguiu fugir com o pequeno Carmelo, mas seu filho Luís de 17 anos seguia prisioneiro.

No dia seguinte, o chefe dos milicianos de Toledo chamou ao telefone o coronel Moscardó para lhe anunciar que seu filho estava nas suas mãos.

“— Damos dez minutos para você se render — disse — senão, ele será fuzilado.

— O senhor não é nem um soldado nem um cavaleiro. Se fosse, saberia que a honra de um militar não cede diante da ameaça.

— O senhor me responde assim porque não crê na minha ameaça. Fale com seu filho… Aqui Moscardó!

— Alô… papai?

— Como você está, meu filho?

— Nada de particular, papai. Dizem que vão me fuzilar se o senhor não se render. Que devo fazer?

— Você sabe como penso. Se é certo que vão fuzilá-lo, recomende a sua alma a Deus, erga um pensamento a Espanha e outro a Cristo Rei.

— É fácil, papai. Farei as duas coisas… Um beijo forte, papai.

— Adeus, meu filho. Um beijo bem forte.”

O Alcazar resistirá por setenta dias a um ataque formidável, que fez chover sobre a célebre fortaleza 3.300 obuses de 155mm, 3.000 obuses de 105mm, e 3.500 de 75mm. Num único dia, 450 bombas de 50kg foram lançadas de avião. 1.900 homens sitiados passaram dias terríveis sob um trovão de fogo. 82 morreram. Dois bebês nasceram nas ruínas! No dia 28 de setembro de 1936, após a liberação do forte destroçado, a promoção do coronel Moscardó e uma missa de ação de graças, o novo general Moscardó foi embora no meio das aclamações, estava triste e recurvado. Ele se recordava do martírio de Luís, e deu a entender também que lhe custava enormemente entregar a fortaleza à Espanha num tal estado…22

 

— Ceferino Jiménez Malla

Ceferino Jiménez Malla foi fuzilado pelos republicanos espanhóis na noite de 2 de agosto de 1936, com 75 anos de idade, no cemitério de Barbastro, em Aragão, com muitas outras vítimas. Ele foi preso pelos milicianos comunistas no início da guerra civil, acusado de ter escondido um padre e de ter resistido à prisão pelos milicianos. Após três semanas de prisão, Ceferino foi tirado de cela; os milicianos ordenaram que largasse o terço que carregava consigo a fim de rezar. Ele usava o rosário ostensivamente e rezava na frente de todos. Recusou-se com vigor a entregar o terço e foi fuzilado por esse motivo. Diante do pelotão comunista, ele estreitou o terço contra o peito e gritou: “Viva el Cristo Rey!”. Ceferino Jiménez Malla morreu mártir e confessor da fé23.

 

— Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz

Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz tinham, respectivamente, 24, 26 e 27 anos quando roubaram as suas vidas. Sabino e Florencio tinham pronunciado seus votos definitivos na Sociedade de Maria, em 1934, e Joaquín em 1935, manifestando por escrito nessa ocasião a sua adesão à Nossa Senhora e a firme vontade de servi-la até o fim. Durante a sua prisão, Sabino teve o gesto tocante de dizer “adeus" ao zelador, mesmo sabendo ter sido denunciado por ele, manifestando assim seu desejo de perdoar. Sobre os seus corpos torturados foram encontrados crucifixos, medalhas e mesmo um certificado de batismo, prova do seu desejo de professar a fé até o fim, apesar dos riscos incorridos24.

 

— Os irmãos do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri e os padres Agostinianos de Escorial.

Um irmão sobrevivente do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri, testemunhou: “Os milicianos se obstinaram em nos fazer renegar a fé. Separaram os mais moços para seguirem mais à vontade seu plano sinistro. Cada uma de nossas recusas era seguida de torturas.” O irmão Santiago Angel, F.S.C, prisioneiro também, viu passarem as futuras vítimas que os milicianos conduziam para a execução. “Eles se afastavam, escreveu ele25, pacificados, calmos, fortes. Na sua atitude adivinhava-se a têmpera das suas almas, que se lançavam para a morte sublime que lhes era infringida por serem religiosos.”

Quando o cortejo chegou ao local de execução, o Pe. Avelino Rodriguez, provincial dos Agostinianos, pediu aos milicianos que lhe deixassem se despedir de seus confrades e lhes absolver. Isso foi-lhe concedido. Ele abraçou um a um os seus companheiros de suplício que, de joelhos, receberam a absolvição, em seguida, clamou26: “Sabemos que nos matam por sermos católicos, padres ou religiosos. Nós vos perdoamos de todo coração. Viva Cristo Rei! Viva a Espanha!”

 

— Antonio Molle Lazo27

Antonio Molle Lazo trabalhava na estação de Xérès (antigo nome de Jerez de la Frontera), cidade com uns cem mil habitantes. Sua caridade inesgotável e a distinção de suas maneiras lhe granjearam a simpatia de seus colegas. Os socialistas, contudo, conseguiram do governo a dispensa de todos os que não partilhassem das suas idéias.

Sem se desconcertar, Antonio procurou trabalho em outra parte. Estudou a organização e os métodos dos seus adversários, exprimindo sua dor ao ver os inimigos de Deus demonstrando mais entusiasmo na busca de seu ideal de ódio do que certos católicos na defesa da Religião: “Os socialistas, tão numerosos, e nós, católicos, tão poucos! Que vergonha!” dizia ele. No entanto, redobrando a coragem, instava seus colegas a se confessarem e a comungarem aos domingos.

A todos os que se escusavam alegando, seja a distância, seja as vexações dos adversários, ele respondia: “Não é longe até Xérès… se nos jogarem pedras, que mal pode nos fazer? É preciso sofrer algo por Jesus Cristo, talvez nosso exemplo conduzirá outros até a santa mesa […] e nós teremos esse ganho!” Quando foi pego pelos vermelhos, eles quiseram obrigá-lo a gritar: “Viva o comunismo!”

— Viva Cristo Rei, foi a sua resposta.

Cortaram-lhe uma orelha.

— Blasfeme o nome de Deus.

— Não. Viva Cristo Rei!

Cortaram-lhe a outra orelha.

— Blasfema!

— Jamais!

Cortaram-lhe o nariz.

— Viva Cristo Rei!

Sem conseguir alcançar o seu fim, e não podendo suportar o seu olhar límpido, furaram-lhe os olhos. Cortaram várias vezes a sua língua, mas ele gritava:

“Viva Cristo Rei! Podem me matar, mas Cristo triunfará!”

Estendendo os braços em forma de cruz, ele mesmo deu a ordem de sua execução, gritando: “Viva Cristo Rei”.

 

Conclusão

Há uma corrente de satanismo na história, paralela ao catolicismo e em perpétua luta contra ele.

Esse ódio misterioso é de uma essência diferente e superior a todos os demais ódios que encontramos ao longo da história, que, por ferozes e culpáveis que sejam, movem-se sempre por razões estritamente humanas, tais como a inveja, o orgulho, o rancor, a vingança. Não tem esse caráter permanente, não se relacionam sempre com um mesmo objeto que, por sua vez, jamais lhe deu causa, segundo a palavra mesma de Cristo: “Odiaram-me sem motivo”.

Pelo fato de os demais ódios se relacionarem a algo determinado e preciso, a causas tangíveis cujo peso corresponde ao do efeito, eles não têm esse caráter assustador de um surto de histeria que faz pensar imediatamente, queiram ou não, na possessão demoníaca. Cristo a definiu com estas palavras: “Essa é a vossa hora, e o poder das trevas.” O ódio ao catolicismo tem em si um elemento que ultrapassa a razão e está fora do ponderável, corresponde a uma crise misteriosa cujo campo não é o corpo, mas o espírito28.

Malynski descreve assim a guerra que se desenrolou sobre o solo espanhol, uma luta que ultrapassa largamente as fronteiras desse país. “É uma etapa nova e talvez decisiva da luta entabulada entre a Revolução e a Ordem”, “uma luta internacional em um campo de batalha nacional; o comunismo produziu na península uma batalha formidável da qual dependeu a sorte da Europa”, pode-se escrever de modo muito apropriado. O povo espanhol foi “enfeitiçado por uma doutrina de demônios”, pois “é impossível pretender que entre o clero católico e a alma popular tenha havido divergências ou a menor oposição. A alma popular, consciência imanente da tradição e continuação histórica do passado, certamente não tem nada em comum com a agitação plebéia nem com os sindicatos de terroristas.” Esse ódio à religião e às tradições patrióticas veio da Rússia e enganou o povo espanhol. Para prová-lo, no momento de morrer, condenados pela lei, os comunistas espanhóis em sua maioria se reconciliaram com o Deus de seus pais. Menos de 20% morreram na impenitência final nas regiões do norte e menos de 10% nas regiões do sul29.

Mas essa destruição sistemática de tudo o que constituía o patrimônio religioso e cultural da Espanha fez florescer toda uma falange de mártires.

 

Ah! Muitos se figuram que seus pés marcharão ao céu por um caminho fácil e complacente.

Mas, de repente, eis a questão apresentada, eis a intimação e o martírio!

O céu e o inferno foi posto nas nossas mãos, e temos quarenta segundos para escolher.

Quarenta segundos? É demasiado! Espanha irmã, Espanha santa: tu já escolheste.

Onze bispos, dezesseis mil sacerdotes assassinados e nenhuma apostasia sequer.

[…] A terra concebeu nas suas profundas entranhas, e a Retomada já começou.

[…] E tudo, quando foi derramado, os anjos respeitosamente recolheram e transportaram para o interior do Véu! 30

 

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, tradução: Permanência)

  1. 1. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne.
  2. 2. Esse fato foi relatado num artigo de La Croix dos anos 1930, citado em Ir. A. Joaquin, Nos Martyres d’Espagne, F.S.C., Ed. Saint-Rémy, 2008, p. 25.
  3. 3. Cardeal Segura, carta pastoral de 31 de maio de 1931; citado por Lucien Thomas, L’Action Française devant l ‘Église, p. 29; Cf. Gustavo Corção, Le siècle de l’enfer, Ed. Sainte Madeleine, 1995, p. 292.
  4. 4. Arnaud Imaz, La guerre d’Espagne revisitée, Economica, 1993, p. 11.
  5. 5. Le Nouvelliste de Lyon, 23-X-1936, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 28.
  6. 6. Associação internacional que agrupava trabalhadores para ações de transformação da sociedade. A 1a. Internacional, fundada em Londres em 1864, desapareceu após 1876 por causa da oposição entre marxistas e anarquistas. A 2a. foi fundada em Paris em 1889 e se manteve fiel à social-democracia, e desapareceu em 1923. A 3a. Internacional comunista, ou Kominterm, fundada em Moscou em 1919  reúne ao redor da Rússia Soviética, e depois, da URSS, a maior parte dos partidos comunistas. Ela foi suprimida em 1943 por Stalin.  
  7. 7. (1919-1943). Ele representa durante a primeira parte do século XX, em escala internacional, o movimento comunista alinhado com a URSS. Era dirigido pelo Partido comunista da União Soviética.
  8. 8. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  9. 9. O general W.G. Krivitsky era, na época, chefe do departamento de informação soviético na Europa Ocidental.
  10. 10. Trecho de Lecture et Tradition no. 271.
  11. 11. Cf. Ministerio de Justicia, La dominación roja en España, Causa general, Madr, 1943. Citado em La guerre d’Espagne revisitée, Arnaud Imatz, Economica, 1993, p. 47.
  12. 12. Segundo nome da polícia de Estado da União Soviética entre 1922 e 1934. Constituída a partir da Tcheka.
  13. 13. Terceiro nome da polícia de Estado da União Soviética, entre 1934 e 1946. Sucedeu ao GPU.
  14. 14. Cf. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964; o autor relata muitas atrocidades cometidas pelos vermelhos, das quais foi testemunha ocular. Cf. Lecture et Tradition no. 271 que publicou trechos do livro.
  15. 15. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  16. 16. La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  17. 17. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964, citado em Lecture et Tradition no. 271, p. 17.
  18. 18. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  19. 19. Conforme La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  20. 20. Conforme o livro do Pe. Calasanz BAU, S. P., Rapport présenté à la Sacré Congrégation des rites en vue de la béatification et canonisation des Serviteurs de Dieu massacrés en Espagne, Roma, 1953, p. 641, 507 e 654, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 35.
  21. 21. O “levante" espanhol do qual Franco tomou a direção em 1936.
  22. 22. Sobre a história da resistência do Alcazar, ler o relato de Brasillach, Les cades de l’Alcazar, 1936, Plon.
  23. 23. Pelayo, La Vanguardia, 23 de março de 197, p. 47. Citado em Lecture et Tradition no. 269-270.
  24. 24. José Maria Salaverri, Morts pour le Christ, S.M., D.F.R., 2007.
  25. 25. Los Hermanos de las Escuelas Cristianas en el Movimiento Nacional, Ed. Buflo, Marqués de Mondéjar, 32, Madrid.
  26. 26. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  27. 27. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  28. 28. Malynski, La guerre occulte, citado por Léon de Poncins, Contre révolution, abril de 1939 (Lecture et Tradition no. 271).
  29. 29. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  30. 30. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne. Tradução literal.