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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Anônimo (225)

Introdução ao décimo domingo de Pentecostes

“Todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

A liturgia deste domingo procura inculcar no espírito dos fiéis o sentido justo da humildade cristã, que consiste em atribuir a Deus todo o bem verdadeiro e toda a santidade. Porque os nossos atos, com efeito, só poderão ser sobrenaturais, isto é, santos, se procederem do Espírito que Jesus enviou aos apóstolos no dia de Pentecostes, e que não cessa de conceder àqueles que humildemente lho pedem. Pelo que a obra da nossa santificação é inteiramente impossível, se tentarmos realizá-la sozinhos. É necessário reconhecer a nossa incapacidade, as nossas más tendências, toda esta gama de coisas mínimas e imponderáveis que não vemos e nos fazem apalpar tristemente a lama original da nossa natureza; é necessário, digo, reconhecer tudo isto, ser humildes, então, para sentirmos a necessidade de pedir e Deus ter ocasião de nos dar. Porque Deus conhece de longe os orgulhosos e vê de perto os humildes. O orgulho é, portanto, o maior inimigo das almas.

A Igreja desenvolve este pensamento, de modo tristemente realístico, nas lições do Breviário. Atália, depois de ter cometido os mais graves atentados contra o Deus de Jacó, de Abraão e dos Profetas e de ter levado o seu arrojo e o seu orgulho ao ponto de levantar no átrio do templo um altar a Baal, foi lançada por uma janela do seu palácio à rua e devorada pelos cães. E Joás, um pobre órfão, descendente de Davi, mas perseguido pela fúria de Atália, que procurava extinguir toda a família real para melhor assegurar a impunidade dos seus desvarios, foi alçado ao poder com 7 anos apenas e dele deixou a Escritura este belo elogio: “Joás praticou o que era justo diante de Deus”. É que há duas classes de homens, conforme diz Pascal: “Os santos que se julgam réus de todos os crimes e os pecadores que não encontram em si culpa alguma. Os primeiros são humildes e Deus glorifica-os; os segundos são orgulhosos e Deus abate-os e castiga-os”. “Deus, diz S. João Crisóstomo, verbera o orgulhoso. Ele submergiu o mundo, queimou Sodoma, destruiu o exército dos egípcios, porque, não tenhamos dúvida, foi Deus que feriu todos estes povos. Mas, direis vós, Deus é bom e é Pai. É, sem dúvida. Todavia, isto não são palavras vazias, mas fatos que não podemos negar. Ou não foi punido o rico que desprezou Lázaro? E as virgens loucas não foram repudiadas pelo esposo? O Senhor diz que sim! Ora pelo que o Senhor disse e fez no passado podemos prever o que fará no futuro. Tenhamos, portanto, sempre diante de nós o rio de fogo, as cadeias que rolam, as trevas, o ranger dos dentes e o verme que dilacera e que rói. Será o modo mais eficaz de cultivarmos a humildade que nos faz dizer com a Igreja: “Clamei pelo Senhor e Ele ouviu-me” (Intróito).

Defendei-me, Senhor, como a pupila dos olhos. Vós vedes, Senhor, o que é reto e justo (Gradual). Ao Senhor elevei a minha alma e n’Ele coloquei a minha esperança. Não me torneis, Senhor, objeto de irrisão para aqueles que me querem mal.

Meditemos, além disso, na grande lição do Evangelho, do fariseu e do publicano.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao nono domingo de Pentecostes

“Não conheceste o tempo da tua visita” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

A liturgia de hoje fala-nos dos castigos terríveis com que Deus há de punir os que renegam a Cristo. Perecerão todos. Nenhum deles entrará no Reino dos Céus. Pelo contrário, os que no meio das contrariedades e dos enganos do mundo permanecerem fiéis, serão arrancados das mãos dos inimigos e entrarão com o Senhor para a glória do seu reino. É o que nos sugerem as lições de Matinas. Elias era de Judá e habitava em Galaad. Por três vezes saiu o profeta do seu retiro para anunciar aos israelitas prevaricadores os castigos terríveis e iminentes com que a justiça divina os ameaçava por seus crimes. A primeira, por causa do escândalo de Acab e de Jezabel que tinham arrastado o povo à idolatria. A segunda, por causa dos 450 profetas de Baal, que ele fez condenar à morte. A terceira, finalmente ainda contra Jezabel. Por tudo isto, foi Elias perseguido e teve de fugir para o monte Horeb. Citado por Ocozias, filho de Jezabel, a comparecer na sua presença, fez vir fogo do céu sobre os emissários do rei, que morreram queimados. Foi, pois, como vemos, um paladino terrível dos direitos de Deus. Diz a Sagrada Escritura que foi elevado ao céu num carro de fogo.

“Elias, diz S. Agostinho, é a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi perseguido pelos judeus, do mesmo modo que o Salvador, o verdadeiro Elias, foi rejeitado e desprezado por eles. Elias separou-se do seu povo e Cristo abandonou a sinagoga e chamou para si os gentios”. Arrancou Deus a Elias das mãos e da conspiração dos ímpios e arrebatou-o aos céus num carro de fogo, do mesmo modo que libertou Cristo da expectativa dos seus inimigos e O fez subir ao céu no dia da Ascensão. O triunfo do Salvador sobre aqueles que O odiavam, figurado pelo triunfo de Elias, deve ser também o nosso triunfo. Mas para isso, temos de permanecer fiéis ao Senhor sob pena de incorrermos nos castigos que vieram sobre os judeus. S. Paulo no põe de guarda contra este perigo e convida-nos a meditar na história de nossos pais: “Porque tudo o que sucedeu com eles é figura do que há de vir e foi escrito para nossa instrução, para nós que vivemos no fim dos tempos”. No Evangelho os ensinamentos do Senhor, chorando sobre Jerusalém e expulsando do Templo os vendilhões, são ainda uma lição de fidelidade. Procuremos assimilar bem estes pensamentos do Ofertório, tão belos e tão sábios: “Os preceitos do Senhor são retos e dão alegria às almas: os seus juízos são mais suaves do que o mel puro dos favos. Por isso, ser-lhes-ei fiel”.

Do Evangelho: O Senhor prediz no Evangelho de hoje a destruição de Jerusalém, levada a efeito anos mais tarde pelos romanos. “Se esta cidade perjura, comenta S. Gregório, conhecesse o destino que a esperava, talvez tivesse chorado os seus crimes e recebido o Senhor. E a alma perversa choraria igualmente os seus pecados se conhecesse a desgraça terrível que a espera na outra vida”.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao oitavo domingo de Pentecostes

“Dá conta da tua administração” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

O Espírito Santo que circula, por assim dizer, nas veias da Igreja, circula igualmente nas veias de todos os fiéis e faz que possamos dizer com verdade: “Pai nosso que estais no Céu” e que esperemos participar com Jesus Cristo na herança de Deus. Mas para merecermos entrar um dia nos tabernáculos eternos, é necessário que cá na Terra vivamos realmente como filhos e que nos deixemos docilmente conduzir para onde nos levar o Espírito de Deus que deve orientar e informar toda a nossa vida. E aqui está aquela sabedoria cristã que a Igreja nos aconselha a pedir na oração da Missa e que o Evangelho louva e diz que, em matéria de espírito, ultrapassa a previdência dos filhos do século nas coisas da Terra.

As lições do Breviário continuam a falar-nos de Salomão. Empregou muito bem o grande rei a sua sabedoria em construir um templo digno da glória do Senhor. Foi a sua obra prima. Três anos gastou em juntar os materiais: as grandes pedras talhadas na montanha, as madeiras do Líbano e o ouro puríssimo que recamava os altares e o resto do Templo até os tetos, porque nada havia na Casa do Senhor que não fosse forrado a ouro. Quando a construção terminou, mandou celebrar as grandes solenidades da dedicação e nelas pronunciou a oração magnífica que a Bíblia nos conserva e que inspirou muitíssimos passos da liturgia da dedicação das Igrejas.

As partes cantadas da Missa de hoje resumem à maravilha os sentimentos que orientaram o grande monarca na construção da obra e na composição da oração: uma grande ideia da majestade de Deus e do respeito devido aos lugares santificados pela Sua presença, aliada a uma confiança inabalável na proteção divina e na imensa bondade do Senhor.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

O devotamento heroico dos padres a bordo do Titanic

Pe. Claude Pellouchoud

Antes da partida do Titanic, um funcionário católico do transatlântico testemunhou blasfêmias e provocações sacrílegas traçadas sobre o casco ou apenas pronunciadas1 por centenas de operários incumbidos da construção do navio; entre eles, muitos ímpios que zombavam dos colegas católicos. Ele escreveu aos seus parentes em Dublin: “Estou persuadido que o barco não aportará na América por conta das odiosas blasfêmias que cobrem seus flancos.” 2

Na noite de 14 a 15 de abril de 1912, no Oceano Atlântico Norte, após ter se chocado na proa a estibordo com um iceberg, este insubmersível rei dos mares foi a pique em menos de três horas. Ao Titanic faltavam desesperadamente botes de salva-vidas. Os 20 barcos de socorro presentes só podiam embarcar 1.178 pessoas, ou seja, a metade do total de passageiros (entre 2.201 e 2.228 estavam a bordo; o Titanic foi concebido para transportar 3.503 passageiros). Somente 711 escaparam. Entre 1.491 e 1.517 pessoas pereceram3, o que faz deste naufrágio uma das maiores catástrofes marítimas em tempos de paz. 

Essa noite fatal tornou-se uma das mais tristemente célebres, inspirando romances, canções, programas de TV, documentários e filmes4. “O relato da trágica travessia inaugural não cessa de apaixonar o grande público nos cinco continentes” 5, o Titanic representa e incarna, para a consciência dos nossos contemporâneos, um mito. Passado um século do drama, e depois das conclusões oficiais há muito terem sido apresentadas6, o Titanic permanece no fundo do Atlântico7 como um símbolo do castigo reservado àqueles que colocam a sua fé na tecnologia.

 

Três sacerdotes católicos a bordo

“Paradoxalmente, o Titanic, que não concluiu sua única viagem, é o transatlântico do qual mais se sabe com relação a passageiros e tripulação.” 8 A despeito da proliferação de publicações relativas a esse naufrágio, um fato foi muitas vezes ignorado. Menciona-se que se encontravam a bordo do transatlântico pastores protestantes de diferentes obediências, ou que o capitão Smith cancelou a simulação de resgate que interferiria no ofício religioso que ele próprio presidiu no salão principal, na primeira classe. Mas nunca lemos nada sobre os três padres que celebravam quotidianamente a missa a bordo do Titanic. 9

- O Reverendo Padre Thomas Roussel Byles, nascido em 26 de fevereiro de 1870, filho de um pastor de uma igreja congregacionalista, fora educado no Balliol College, Oxford, onde estudou matemática, história moderna e teologia. Durante os seus estudos, em 1894, converteu-se ao catolicismo e ingressou no seminário de St. Edmund College, em Ware, Hertfordshire, aí permanecendo até 1899. Em seguida partiu para Roma, onde terminou os seus estudos,  ordenando-se padre em 15 de junho de 1902. Desde 1905 era o reitor da igreja católica romana St. Hellen, em Chipping Ongar, Essex. Viajava a Nova York para celebrar o casamento do seu irmão William, igualmente convertido ao catolicismo, previsto para o dia 21 de abril de 1912.

- O Pe. Juozas Montvila, nascido em 3 de janeiro de 1885, ordenado  em 22 de março de 1908 e designado vigário em Lipskas, na diocese lituana de Seiny, onde atendia secretamente às necessidades espirituais dos Uniatas, havia sido detido e condenado pelo governo russo, que controlava a Lituânia. Não lhe sendo possível retomar esse trabalho pastoral em um futuro próximo, decidiu emigrar para Worcester, no estado norte-americano de Massachussetts, onde viviam seu irmão e muitos outros lituanos, em meio aos quais esse jovem padre, que mal tinha 27 anos, pretendia exercer o seu ministério.

- O Reverendo Padre Joseph Peruschitz, originário da Alta-Baviera, nasceu em 21 de março de 1871, recebendo no seu batismo o nome de Bento. Após ter estudado filosofia e teologia no liceu de Freising, pediu para ingressar no convento beneditino de Scheyern. A tomada de hábito se deu no dia 23 de agosto de 189410. Por ocasião dos seus votos temporários, em 1895, recebeu seu nome de religião: Joseph. Foi ordenado no dia 28 de abril de 1895. Por uma autorização particular, pronunciou os votos solenes pouco após sua ordenação. Embarcava em resposta a um chamado vindo da América do Norte para assumir a direção de um importante colégio dirigido por beneditinos suíços no Minnesota. Sua família ignorava tudo da sua viagem e Dom Joseph Peruschitz queria surpreendê-los pondo-os em face de um fait accompli por um telegrama enviado desde a sua chegada no novo continente.

 

Domingo de Quasimodo

Na manhã do dia 14 de abril, um domingo, o Padre Byles celebrou, na sala de jantar, a missa para os passageiros da segunda classe; em seguida, celebrou outra para os passageiros da terceira classe, dando o sermão em inglês e francês, enquanto o Padre Peruschitz continuava com um sermão em alemão e húngaro. De acordo com um artigo publicado no The Evening World, os dois padres pregaram sobre “a necessidade de ter ao alcance da mão um bote de reconforto religioso para o caso de naufrágio espiritual”.

Pouco antes da meia-noite, reinava no Titanic uma grande excitação. Enquanto massas de água se engolfavam no nível da praça de máquinas, senhoras elegantes bailavam em companhia de seus cavalheiros, admirando o céu estrelado. Quem, entre os passageiros, imaginava o que estava por acontecer? Poucos tomaram as advertências a sério — afinal, o navio era insubmersível! Quando os passageiros entenderam o que se passava, todos foram tomados de pânico; a tripulação distribuía coletes e encaminhava mulheres e crianças para os barcos salva-vidas.

De acordo com numerosos testemunhos, os padres Byles e Peruschitz estavam em “pé de guerra” para ajudar os outros. Temos poucos testemunhos acerca do terceiro padre, mas se sabe que o “jovem padre lituano, Juozas Montvilla, cumpriu sua missão até o fim”. Os três padres ajudaram os passageiros da terceira classe a subir as escadas até o lugar de embarque e a subir nos barcos salva-vidas. Consolavam-nos com boas palavras. Algumas senhoras não quiseram se separar dos seus esposos e preferiram morrer com eles. Quando não havia mais mulheres, permitiu-se que alguns homens subissem nos barcos.

 

Ficar com aqueles que iriam morrer

Por duas vezes, um membro da tripulação tentou convencer o padre Byles a tomar assento em um barco, mas ele recusou. No dizer dos sobreviventes, ao padre Peruschitz também foi oferecido um lugar, mas ele também recusou. Quando o último barco desceu, restavam ainda a bordo cerca de 1.500 pessoas que viam a morte se aproximar. Todos os três ministravam seus serviços sacerdotais, ouvindo confissões e rezando com os que não puderam escapar. Mais de uma centena de passageiros, aglomerados na extremidade de trás do convés do barco, foi ajudada por eles.

Na revista católica America, uma testemunha ocular deu o seguinte relato sobre a conduta dos padres enquanto o Titanic soçobrava:

“Quando a agitação alcançou o ápice, os católicos a bordo desejaram a assistência dos padres com máximo fervor. Dois padres incitaram aqueles que estavam condenados a morrer a pronunciar atos de contrição e a se preparar para o encontro com Deus. Rezavam o rosário e os outros respondiam. O barulho feito pelos que rezavam irritou alguns passageiros que ridicularizavam os que oravam e começaram a fazer um círculo ao redor deles. Os dois padres não pararam, dando a absolvição coletiva aos que iam morrer. Aqueles que tomaram assento nos barcos foram consolados com palavras comoventes. Algumas mulheres recusaram-se a separar-se de seus maridos, preferindo morrer ao lado deles. Finalmente, quando não havia mais mulheres na proximidade, alguns homens foram admitidos nos barcos. Ofereceram um lugar ao padre Peruschitz, mas ele recusou.”

Segundo outra testemunha ocular:

“Todos os sobreviventes com os quais nós conversamos relataram que, em meio a essa desgraça, houve um episódio extraordinário, surpreendente e consolador. O padre Peruschitz, assim como o padre Byles, levaram socorro incessante aos demais. Alguns passageiros, que não tinham percebido o perigo inicialmente, mas que tomaram consciência do que se passava posteriormente, ao ver os padres se aproximarem em meio a um tumulto terrível, rogaram com grande fervor a assistência e o apoio destes últimos.”

O fim estava cada vez mais perto. As águas do mar corriam em torrentes pelos salões. Às duas horas da manhã, muitos passageiros se ajoelhavam, choravam e confessavam os seus pecados.

Os dois homens de Deus se despendiam sem esmorecer para administrar a extrema unção e absolver os que estavam na água e, em breve, estariam em artigo de morte, e os que rezavam no navio e logo seriam engolidos pelo mar. Antes de as luzes do Titanic se extinguirem, a popa ergueu-se como um dedo apontado para o céu por efeito do contrapeso do casco despedaçado, e, com um estalido terrível, enquanto o padre Peruschitz e seu irmão no sacerdócio ainda distribuíam a absolvição geral, uma porta mergulhava nos abismos oceânicos.

Um jornal relatou mais tarde:

“Aqueles que, nas embarcações, testemunharam a desaparição do navio nas ondas, narraram que jamais esqueceram como os dois padres abençoavam, com suas mãos consagradas, a multidão que rezava ao seu redor.”

Eles iam e vinham em direção àqueles que estavam aos seus pés, a quem Deus deu a graça da conversão e que ofereciam a sua vida em sacrifício. Agnès Mac Goy declarou:

“Não se enxergava mais nada, mas não se ouviam gritos de desespero, gemidos ou apelos desesperados. Apenas vozes, completamente apaziguadas pela oração, repercutindo enquanto o navio afundava.”

Nesses últimos momentos do naufrágio do navio, o coral da capela da embarcação entoou e tocou com os instrumentos: “Mais perto de Vós, ó meu Deus, mais perto de Vós!

Os três padres e todos os ministros protestantes morreram no naufrágio. Os pastores, viajando com um ou muitos membros das suas famílias, cuidaram principalmente deles, instalando-os nos barcos salva-vidas e despedindo-se deles.

 

Memorial dos padres

No Brooklyn, o irmão do Rev. Pe. Byles, William Byles, não adiou o seu casamento com Katherine Russel. Outro padre celebrou a cerimônia. Um jornal do Brooklyn relata que os noivos voltaram a casa após o matrimônio, vestiram roupas de luto e retornaram à igreja para uma missa de réquiem. O casal partiu em seguida para uma curta lua de mel em Nova Jérsei.

Na igreja St. Helen de Chipping Ongar, os irmãos do padre Byles instalaram uma porta dedicada à sua memória com três vitrais representando São Patrício, o Bom Pastor e São Tomás de Aquino. No ângulo inferior direito do vitral de Santo Tomás, lê-se o seguinte: “Pray for the Rev. Thomas Byles, for 8 years Rector of this mission, whose heroic death in the disaster to S.S. Titanic April 15 1912 eamestly devoting his last moments to the religious consolation of his fellow passengers, this window commemorates.” (Rogai pelo Rev. Padre Thomas Byles, reitor desta missão por 8 anos, cuja morte heróica no desastre do Titanic em 15 de abril de 1912, consagrando com fervor seus últimos instantes a reconfortar religiosamente seus companheiros de viagem, é comemorada por este vitral.”

Uma placa modesta de mármore colocada em um dos deambulatórios do claustro de Scheyern, e quase não notada no meio de muitas outras, recorda a memória do Padre Peruschitz. Está gravado: “R.I.P: R.P. Josephus Peruschitz, O.S.B qui in nave ista Titanica die 15.IV.1912 pie se devovit aetatis anno 42. Sacerd. et profess. 17” (Que o Padre Peruschitz repouse em paz, ele que sobre o navio Titanic ofereceu sua vida piedosamente”)

O padre Juozas Montvila é considerado um herói na Lituânia e o seu processo de beatificação foi introduzido em Roma. A paróquia lituana que ele havia de fundar em Worcester, Massachusetts, foi criada finalmente no dia 13 de novembro de 1913.

(Le Rocher, tradução: Permanência)

  1. 1. “Nem mesmo Deus é capaz de afundar essa cidade flutuante”, declarava um marinheiro.
  2. 2.Cette lettre est conservée comme une relique”, testemunho do Pe. H. de Jackon, em Ecclesia, abril de 1952.
  3. 3. O número de pessoas a bordo e o balanço da catástrofe variam de fonte para fonte. O número exato das vítimas jamais foi estabelecido; apenas 337 corpos foram encontrados.
  4. 4. Notadamente, o sucesso de bilheteria de James Cameron, em 1997, reexibido em 3D por ocasião do centenário do naufrágio.
  5. 5. Gérard Piouffre, “Nous étions à bord du Titanic du 27 mars au 15 avril 1912”, First Histoire, 2012, p.3
  6. 6. Um grupo de peritos americanos ainda conduz uma pesquisa, reunindo-se uma vez ao ano.
  7. 7. Foi em 1985 que os destroços foram descobertos, a 700 km da costa de Terra Nova e Labrador, a 3.800 metros de profundidade.
  8. 8. Gérard Piouffre, loc. cit.
  9. 9. Testemunho da passageira de segunda-classe Ellen Toomey.
  10. 10. No claustro de Scheyern conserva-se o testamento manuscrito do padre, em escrita gótica. Um ato muito pessoal que Joseph Peruschitz redigira com tinta negra por ocasião da sua entrada no convento, em 14 de agosto de 1894.

Introdução ao sétimo domingo de Pentecostes

“Pelos frutos se conhece a qualidade da árvore” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

As lições do Breviário terminam hoje a história de Davi e começam a de Salomão. Ao ascender ao trono de seu pai, Salomão pediu a Deus que lhe desse a sabedoria necessária para discernir o bem do mal e conduzir o seu povo no caminho da justiça. E Deus respondeu-lhe: “Porque só isto Me pedes, porque nem Me pedes vida longa e venturosa, nem riqueza, nem a morte dos inimigos, mas apenas inteligência para praticar a justiça, farei o que tu queres. Dar-te-ei, pois, um coração tão sábio e inteligente como nunca existiu nem existirá sobre a Terra. E dar-te-ei mais isto que não Me pediste: terás glória e riqueza a tal ponto que não se achará nenhum semelhante a ti em todos os séculos passados. E se andares nos meus caminhos e guardares os meus mandamentos como fez o teu pai Davi, Eu prolongarei os teus dias”. E a promessa de Deus cumpriu-se. Salomão foi um monarca poderoso e sábio, cuja aliança era desejada pelos povos vizinhos. Rei pacífico, Salomão é figura de Cristo, o Príncipe da paz, proclamado pelas nações; sábio entre os sábios, prenuncia o Filho de Deus, a Sabedoria encarnada, que viria estabelecer definitivamente a separação do bem e do mal e guiar o seu povo nos caminhos do Altíssimo.

Melhor que Salomão, ensinou Jesus a sabedoria verdadeira que nos legou no Evangelho e na palavra da sua esposa, a Igreja. E é necessário, é absolutamente indispensável para entrarmos no Reino dos Céus, seguir e amar com inteireza esta doutrina. A Epístola e o Evangelho são que o dizem: “Não é aquele que diz Senhor, Senhor, quem entrará no Reino dos Céus, mas o que fizer a vontade de Deus”. E S. Paulo procura convencer-nos da mesma verdade e da necessidade para todos impreterível de pertencer a Cristo sem reservas e de lhe ser fiel até à morte. E neste ponto, Davi e Salomão são para nós ainda uma lição ao mesmo tempo terrível e consoladora. Salomão não perseverou, foi infiel ao Senhor e a sua glória, ainda que deslumbrante, não tardou a diluir-se no vácuo donde se erguera. Faltou-lhe a consistência. Davi, não obstante o seu pecado terrível, é maior, porque chorou amargamente, e foi tão sincera a sua conversão que a sua piedade inspira ainda hoje a piedade das almas santas. Peçamos a Deus que nos conduza no caminho da Sua justiça e que aparte de nós tudo o que nos pode causar dano e nos conceda tudo o que nos pode servir de auxílio.

 

Da Epístola: os pecados da carne e do espírito têm por salário a vergonha e levam à morte eterna. A virtude tem por recompensa a santidade já neste mundo e a vida eterna no outro.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao sexto domingo de Pentecostes

Comeram todos e ficaram saciados” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

Um grande pensamento domina toda a liturgia de hoje: a necessidade de destruir o pecado por meio dum arrependimento sincero e de pedir a Deus a graça de não recair nele. É no Batismo que morremos para o pecado e é na Eucaristia que encontramos aquela energia que nos permite caminhar sem desfalecer no caminho da virtude. A Igreja impregnada ainda do pensamento destes dois sacramentos que conferiu aos fiéis na Páscoa e no Pentecostes, continua a falar-nos deles neste tempo. As lições de Matinas contam-nos, com efeito, o caso lamentável de Davi, em que este poderoso monarca sucumbiu às insinuações malignas da serpente, demonstrando que todo o homem, qualquer que seja o grau de dignidade ou virtude a que tenha ascendido, conserva sempre a lama original de que Deus o formou.

Queria Davi casar-se com Betsabé, esposa dum dos oficiais do exército. Para o conseguir enviou o seu marido Urias que andava em campanha para um lugar perigoso onde o risco de morte era iminente. Urias efetivamente morreu e Davi casou-se com Betsabé, de quem teve um filho. Mandou então o Senhor o profeta Natan a dizer-lhe: “Ó Rei, havia na cidade dois homens, um rico outro pobre. O rico tinha ovelhas e manadas de bois em grande número, o pobre não tinha coisa alguma senão uma ovelhinha que ele comprara e criara e que tinha crescido em sua casa juntamente com seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do seu mesmo copo e dormindo no seu regaço. Ele lhe queria como filha. Como, pois, um forasteiro viesse ver o rico, não querendo este tocar nas suas ovelhas nem nos seus bois, para dar um banquete àquele forasteiro tomou a ovelhinha do pobre e preparou-a para dar de comer ao hóspede”. Davi indignado exclamou: “Por Deus, que tal homem é merecedor de morte” E tornou Natan: “Pois és tu esse homem. Tinhas todas as donzelas de Israel para escolheres como esposa e violentaste a mulher de Urias. Por isso, Deus suscitará da tua própria casa a desgraça contra ti” Então, Davi, arrependido, exclamou: “Ai de mim que pequei contra o Senhor” E tornou-lhe Natan: “Por causa do teu arrependimento o Senhor perdoou-te. Não morrerás. Mas serás castigado e o filho de Betsabé perecerá”. Passado algum tempo o pequeno morria e Davi oprimido pela dor ia prostrar-se no templo diante de Jeová.

Davi, comenta S. Ambrósio, não pôde tolerar o peso do pecado que o oprimia e sem dilação confessou diante do Senhor o seu crime. A generalidade dos homens não faz assim. Onde se encontra hoje um indivíduo um pouco mais rico que os seus vizinhos, que se não agaste como de coisa indigna da sua considerada posição, se o confessor o repreender e aconselhar a meter-se por caminhos mais retos e mais santos! Mas os santos do Senhor que ardem por avançar nas apertadas sendas de Deus, se lhes acontece de cair, levantam-se com mais ardor para a carreira e, estimulados pela vergonha da queda, redobram de coragem no combate para ressarcir, e sempre com vantagem, o inadvertido lapso.

A Missa completa perfeitamente as instruções do Breviário. Na Epístola, S. Paulo recorda-nos, e com que insistência, que, uma vez mortos para o pecado no Batismo, devemos viver a vida nova, a vida que é sem pecado e vem de Deus. E se pecarmos, se tivermos a grande desgraça de nos despojar dessa vida nova, então vamos aos pés de Deus implorar o seu perdão (Gradual), para continuarmos a louvá-lO em torno do seu altar (Comunhão). E Deus não deixará de ouvir a nossa prece e de firmar os nossos passos na vereda dos seus mandamentos, porque Ele diz que é coragem, escudo e guia para o seu povo. O Evangelho, finalmente, aponta-nos a fonte divina onde devemos beber a força de que precisamos para seguir o Senhor até o Céu sem desfalecer pelo caminho.

A multiplicação dos pães é com efeito figura da Eucaristia, que é viático para todos nós, não apenas no fim da vida quando se empreende a viagem para além, mas durante a vida toda. Ela aperfeiçoa a graça do Batismo, dando-nos força para não cair, e alentando e desenvolvendo a vida de Deus em nós até desabrocharmos na plenitude perfeita da pátria para onde vamos.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao quinto domingo de Pentecostes

“Vai primeiro conciliar-te com o teu irmão” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

A liturgia deste domingo ensina-nos o modo como devemos perdoar as injúrias e, como no anterior, tem aqui esta doutrina dois elementos por base: a história de Davi que continua a ler-se no Breviário e um passo da Epístola de S. Pedro cuja festa se celebra nesta altura. Esta semana era até chamada outrora, por este motivo, a dos Apóstolos 1.

Logo que Davi derrotou Golias, Israel triunfante vitoriava os soldados e cantava: “Saul matou mil e Davi dez mil”. Saul irritou-se com isto e a inveja mordeu-lhe o coração. “Mil eu e dez mil Davi, dizia. Então será Davi mais do que eu? Que lhe falta senão ser rei?”

E desde esse dia, nunca mais o pôde ver com bons olhos, como se adivinhasse que Davi fora escolhido por Deus. A inveja fê-lo criminoso. Por duas vezes tentou mata-lo e por outras tantas Davi evitou o golpe. Então mandou-o para a guerra, na esperança de que lá morreria. Davi, porém, regressou vitorioso à frente do exército. Saul desesperou e entrou de persegui-lo abertamente. Um dia que andava a procura-lo desceu para repousar a uma caverna tenebrosa onde Davi se ocultara; desceu e dormiu. Disse então a Davi um dos seus companheiros: “Eis o rei; o Senhor entregou-o nas tuas mãos. É sem dúvida o momento de o matares”. “Não, respondeu Davi. Não permita Deus que eu desrespeite jamais o que recebeu a unção santa”.

E contentou-se de lhe cortar a orla do manto e de lha mostrar de longe quando o dia rompeu. Então Saul chorou e disse: “O meu vassalo Davi é melhor do que eu”. Surpreendeu-o ainda outra vez Davi em pleno sono, com a lança à cabeceira e apenas lhe pegou nela e na taça, Saul abençoou de novo Davi sem, no entanto, deixar de o perseguir. Mais tarde os filisteus recomeçaram a guerra e os Israelitas foram derrotados. Suicidou-se Saul, lançando-se sobre a própria espada. Davi, longe de se alegrar com a morte do rei, rasgou as vestes e chorou amargamente e mandou cortar a cabeça ao amalecita que se atribuía o pretendido mérito de matar o monarca e lhe trouxera a notícia com a coroa. “Montanhas de Gelboé, exclamou, que nem o orvalho nem a chuva descem jamais sobre vós, que vistes tombar os heróis de Israel, Saul e Jonatas, tão amáveis e tão belos durante a vida e que a morte não pôde separar”.

A grande lição de caridade se depreende destas considerações e compreendemos agora a escolha do Evangelho e da Epístola que nos pregam ambos o dever impreterível de perdoar. “Sede, pois, unânimes na oração e não deis mal por mal, nem ultraje por ultraje”, diz a Epístola. “Se apresentares a tua oferta no altar, diz o Evangelho, e te lembrares de que o teu irmão tem contra ti alguma coisa, deixa diante do altar a oferta e vai reconciliar-te primeiro com o teu irmão”. A comunhão da Missa exprime os sentimentos de Davi ao apoderar-se da cidade de Sião e mandar colocar nela a Arca do Senhor. Isto foi a recompensa da sua invencível caridade, dessa virtude indispensável para que o culto tributado a Deus pelo homem no seu templo santo Lhe seja verdadeiramente agradável. A Epístola e o Evangelho salientam que é sobretudo quando nos reunimos para orar que mais nos devemos unir. E o melhor meio para alcançar esta virtude é o amor de Deus e o desejo veemente dos bens eternos e daquela felicidade que reina na corte do Deus vivo, onde se não entra senão pela porta estreita da renúncia e da abnegação cristã.

 

Da Epístola: A caridade é a virtude cristã por excelência porque, quando se pratica, põe em ação todas as demais virtudes. E então se a exercemos com aqueles que nos perseguem pela fé, torna-se a mais perfeita apologia do Cristianismo.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. As Missas destes primeiros domingos remontam a S. Gregório Magno.

Introdução ao terceiro domingo de Pentecostes

“Ele a procura até a encontrar” Evangelho

 

Paramentos verdes

 

A liturgia de hoje canta os tesouros insondáveis da misericórdia divina para com os homens. Como Jesus, que não veio chamar os justos senão os pecadores, o Espírito Santo, que continua a ação benéfica e redentora de Cristo entre os homens, estabelece o Reino de Deus na alma pecadora. É o que a Igreja nos diz no Breviário e no Missal. Senão, vejamos. Dizem as lições de Matinas que os israelitas depois da morte de Heli se submeteram a Samuel e que, estando este já velho, lhe pediram um rei. Ora, havia então na tribo de Benjamin um jovem chamado Saul que era o mais belo e o mais forte de Israel. E aconteceu que, andando à procura do gado que perdera, se dirigiu a Rama, onde se encontrava Samuel, e lhe perguntou se sabia dizer do paradeiro das reses. Disse-lhe o profeta que já tinham sido encontradas; e sabendo do Senhor que era aquele o escolhido para reinar em Israel, derramou-lhe sobre a cabeça o óleo da unção e disse-lhe: O Senhor te ungiu para cabeça da sua herança e tu salvarás o seu povo das mãos do inimigo. Diz São Gregório que Saul, que fora enviado pelo pai à procura dos muares perdidos, é figura de Jesus Cristo que foi mandado também pelo Pai celeste à procura das ovelhas extraviadas. E o é ainda também pelo fato de receber a unção real para libertar o povo, do mesmo modo que Jesus Cristo, o ungido por excelência, veio libertar-nos do poder do demônio, que continua a rodear-nos como leão rugidor. Daqui, sem dúvida, a escolha do Evangelho e da Epístola de hoje. O Evangelho é o da ovelha perdida e do bom pastor, que deixa as noventa e nove no deserto e vai procura-la pelas fragas e algares das ilusões da vida e a reconduz aos ombros para a segurança e fartura do aprisco. A Epístola expõe, por sua vez, os perigos a que as ovelhas do Senhor andam continuamente expostas. Vigiai, diz S. Pedro, porque o diabo inimigo rodeia-vos como leão rugidor, resisti-lhe inabaláveis na fé. E este aviso anda, evidentemente, sempre acompanhado da certeza de que Deus é o nosso protetor e de que não nos poderá faltar se O invocarmos. E lembrando-nos de Saul e do fim que teve por se ter orgulhado contra o Senhor e desobedecido às suas leis, façamos da nossa miséria motivo para pedir a Deus “sem o qual nada é santo”, que leve a cabo em nós a sua obra de misericórdia, a fim de que guiados por Ele não percamos os bens eternos pelo engano dos temporais.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao segundo domingo de Pentecostes

Trazei aqui os pobres, os estropiados...” Evangelho

 

Paramentos brancos

 

A Igreja fixou a celebração da festa do Corpo de Deus na 5ª feira que segue o primeiro domingo depois de Pentecostes. Uma coincidência feliz colocou-a entre dois domingos, cuja Epístola e o Evangelho nos falam da misericórdia de Deus e do dever da caridade fraterna que daí deriva para todos os homens. No Evangelho do segundo domingo lemos que o Reino dos Céus é semelhante a um banquete nupcial.[1] E nada pode simbolizar melhor, com efeito, a Sagrada Eucaristia, que é o banquete por excelência da união das almas com Jesus Cristo, seu esposo, e com todos os membros do Corpo Místico. No Breviário, a história de Samuel, destinado por Deus para guarda da arca do Senhor e Sacerdote do Altíssimo, harmoniza-se perfeitamente com a liturgia Eucarística. Naquele tempo, diz o Breviário, a palavra do Senhor fez-se rara e não havia visões em Israel, porque Heli era orgulhoso e fraco e os seus filhos infiéis e desleixados no serviço do Senhor. Então o Senhor manifestou-se a Samuel, menino ainda, e anunciou-lhe o castigo que estava reservado à casa de Heli. E não tardou muito que a arca fosse violada pelos filisteus e que Heli e os seus dois filhos morressem. A censura mais amarga com que a Sagrada Escritura repreende Heli é por haver colocado os seus interesses particulares e a solicitude das coisas materiais acima do interesse e da solicitude das coisas do espírito. Comentando a parábola do banquete, S. Gregório tem observações de fina penetração psicológica, quando, depois de notar que o homem é naturalmente inclinado a arrastar o coração pelas alegrias da terra, constata que, sempre que o faz, não tarda a sentir o tédio; ao passo que basta que prove as do espírito para nunca mais delas se saciar e crescer continuamente em si o desejo delas. E depois continua o santo: provai e vede como o Senhor é bom. Não lhe podereis conhecer a suavidade se o não provais. Mas tocai com o paladar do coração o alimento da vida, para que, verificando quanto é bom e suave, o possais realmente amar como convém. O homem quando pecou no Paraíso, perdeu o direito e o prazer destas delícias, e saiu de lá, quando fechou a boca ao alimento das suavidades eternas. De onde, nascidos neste exílio amargo, viemos já com fastio e ignoramos o que devemos desejar. O que é necessário é escutar o apelo do Evangelho de hoje e desprendermo-nos dos bens da terra para nos prendermos aos do Céu. A Eucaristia ser-nos-á um poderoso e indispensável meio. Procuremos evitar o orgulho e o amor das coisas da terra e, solidamente firmados no amor de Deus, poderemos crescer dia a dia na prática duma vida toda celeste e pura.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

 


[1] - Esta Missa já existia com todas as suas partes antes de ser instituída a Festa do Corpo de Deus.

Por que seguimos usando a liturgia reformada de 1962?

Pe. Nicholas Maria, C.SS.R.

 

Por que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X continua usando a liturgia reformada de 1962? Por que ela não retorna às práticas mais tradicionais dos Papas São Pio V ou São Pio X?

 

Uma tradição litúrgica (neste caso, a do rito romano) é como uma planta ou árvore viva; ela cresce, desenvolve-se, é podada, adaptada, reformada e revigorada. O problema da revolução litúrgica após o Vaticano II é que ela tentou cortar as raízes e destruir a planta e substitui-la por algo totalmente estranho à fé católica, o Novus Ordo Missae de Paulo VI, que “representa, tanto no conjunto quanto nos detalhes, um afastamento impressionante da Teologia católica da Missa” 1.

Ao manter-se fiel à última reforma claramente ortodoxa do rito romano antes dessa revolução, Dom Lefebvre não adentrou um debate especulativo (permitido, porém inconsequente) entre liturgistas quanto aos méritos de um Missal tradicional sobre o outro. Em vez, ele se considerava vinculado – talvez com alguma inconveniência – àquilo que a autoridade legítima havia realizado e que não era manifestamente pecaminoso:

“O princípio básico do pensamento e da ação da Fraternidade na dolorosa crise que a Igreja atravessa é o princípio ensinado por São Tomás de Aquino na Suma Teológica (II, II, q. 33, a.4): que ninguém pode se opor à autoridade da Igreja, exceto em caso de iminente perigo à fé. Ora, não há perigo à fé na liturgia dos Papas Pio XII e João XXIII, enquanto há um grande perigo à fé na liturgia do Papa Paulo VI, que é inaceitável” 2

E, novamente, ele escreveu em 1988:

“Desde sua fundação, a Fraternidade usa a edição de 1962 dos livros litúrgicos, pois eu os aceitei desde o momento em que surgiram em 1962, e porque a Fraternidade foi fundada em 1969 e aprovada em 1970. Essa nova edição não era nenhum novo Ordo Missae, mas uma nova edição do Ordo de São Pio V e de São Pio X com mudanças insignificantes. O calendário passou por uma mudança mais considerável na época, algumas das quais são, sem dúvidas, mais felizes, e outras, porém, controversas. Para que a uniformidade prevaleça na Fraternidade, porém, decidimos usar a edição de 1962, bem como seu calendário, pois consideramos as vantagens maiores que as desvantagens. [...] Cremos, com razão, que a edição de 1962 do Ordo Missae corresponde integralmente ao Ordo de São Pio V e de São Pio X. A pretensão de enxergar diferenças essenciais entre a edição de 1962 e o Ordo de São Pio V e de São Pio X manifesta uma mentalidade formalista e jansenista.”

  1. 1. Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae, Cardeais Ottaviani e Bacci et al., 25-09-1969.
  2. 2. Dom Marcel Lefebvre, Carta aos Amigos e Benfeitores Americanos, 28-04- 1983.
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