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Category: ArtesConteúdo sindicalizado

A verdade do Evangelho no filme "A Paixão de Cristo"

Pe. Bertrand Labouche - FSSPX

 

[Nota da Permanência: o texto seguinte é a transcrição de uma conferência dada pelo autor em um evento da Permanência ocorrido muitos anos atrás, sobre o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]

“‘Quem a ti me entregou tem maior pecado’ (Jo 19, 11). Essa frase, em que Jesus relativiza a culpa de Pilatos, só aparece no Evangelho de João, o mais místico e peculiar dos quatro. Para os historiadores, as fontes mais fidedignas são os escritos de Mateus, Marcos e Lucas”, afirma Isabela Boscov na revista “Veja" de 03/03/04.

Dois outros versículos do Evangelho são postos em dúvida, senão negados, especialmente pelos judeus que até exigiram que fossem tiradas por serem anti-semitas: 

“Os seus não O receberam” (Jo 1, 11).

“Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos” (Mt 27,25). Aliás, Mel Gibson teve de aceitar, para acalmar os espíritos, que este versículo não aparecesse traduzido na tela, embora seja pronunciado em hebreu.

Estas objeções, dúvidas, críticas sobre um texto evangélico não dizem respeito diretamente ao realizador do filme “A Paixão de Cristo”, mas bem ao santo Evangelho. A polêmica não é cinematográfica mas exegética, quer dizer, trata da interpretação da Sagrada Escritura. 

Portanto, é oportuno reafirmar a autenticidade e a veracidade dos Evangelhos: 

• pela razão, por meio da apologética, que é a defesa racional da fé. 

• pela fé, que nos obriga a acreditar firmemente que o Autor da Sagrada Escritura é o próprio Deus, que não se pode enganar, nem enganar-nos. 

Estudaremos especialmente o evangelho de S. João, por ser o alvo principal de vários ataques a propósito do filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Mas é claro que a nosso argumentação valeria também para os sinópticos (Mt., Mc., Lc.)  (Continue a ler)

A inspiração

Henri Charlier

 

Quem pode conhecer a Deus? A razão só nos dá a conhecer Sua existência, Sua natureza em negativo e Seu espírito criador de tudo quanto há de bom e belo. Só conhecemos a parte que Ele comunica de Si – o amor. A cada qual seu quinhão, que é bem discreto, tão discreto que ficamos atordoados só em examiná-lo. Discorrer sobre ele então, nem pensar! Mas é justamente o que eu pretendo! Como enaltecer essa liberalidade de bens de que usa conosco?  Só falando podemos transmiti-la, e falando queremos mostrar que esquecemos o principal.

Cristianismo e poesia

Jackson de Figueiredo foi uma das fortes e brilhantes personalidades que constituem especial categoria de católicos brasileiros, em tudo distantes da vulgaridade perversa dos progressistas de nossos dias. Pode-se traçar uma linha dinástica ilustre, inteligente, batalhadora e fiel que liga por cima do tempo um Visconde de Cairu a um Carlos de Laet e vincula Jackson de Figueiredo a Gustavo Corção. Jackson foi o fundador do Centro Dom Vital, de onde saíram Gustavo Corção e vários amigos para fundar Permanência em 1968. 

A Redação

 

CRISTIANISMO E POESIA 1

“A tradição cristã aceita Orfeu como um dos símbolos do Cristo” 2, e o canto foi, desde os primeiros tempos do Cristianismo, a linguagem preferida do homem, que imitava os anjos do céu. E não podia ser de outra forma desde que, com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, surgira o novo homem, com mais luz nos olhos e por conseguinte mais amor no coração. Pode-se dizer que se havia, propriamente, inaugurado o reino da prece, ou, pelo menos, ela tinha tomado proporções tão grandiosas como jamais se concebera. O Filho de Deus descera à terra e demonstrara, pelo exemplo de seu sacrifício, o grande valor que tem a vida do homem aos olhos de seu Pai.

Desde então se sentia o homem em relação mais direta com o próprio céu, e a prece, desse outro plano de existência, a que subira, deixara de ser sinal de respeito e adoração unicamente, para ser também palavra amorosa; podia ser mais suavemente dita e mais claramente ouvida, tornar-se um colóquio mais intimo, mais confiante, com a Divindade.

Como não elevar-se também a poesia numa alma assim, como que criada de novo, tendo aos olhos um mundo novo a conquistar?

“O lirismo na sua mais alta concepção pode-se definir como a prece: é uma elevação da alma para Deus.” 3

E a poesia, ajustando-se à definição platônica, quando poderia irmanar-se com tanta força à prece como após o drama do Calvário? A dúvida humana não fora ali desiludida de si mesma? Não tocara as feridas que ela própria e a maldade tinham feito na humanidade de que se revestira o Criador dos mundos? A missão providencial da sua inteligência não foi ali, aos pés daquela Cruz, que ao homem se revelou na plenitude de uma luz descida do mais profundo mistério?

“Guarda, e guarda único da retidão natural, único capaz, com efeito, de disciplinar, sem destruir, as forças vivas do homem, como não atuar o Cristianismo em benefício da palavra literária, a qual jorra da conjugação mesma de todas essas forças? O Cristianismo mantém as potências humanas em sua harmoniosa atividade; já assim fica dito o que lhe pode dever a palavra literária. Se o pagão se conserva como nosso modelo pelo que imprimiu de força e ordem nas suas obras, conservando por isto mesmo algo de retidão, nisto reconhecemos, por um lado, o testemunho da alma naturalmente cristã, e de direito o fazemos porque o Cristianismo admite, depura, assegura e consagra tudo quanto de beleza real tem a musa profana.” 4

Se o sangue do Cordeiro curara a cegueira do indivíduo, foi porque a sociedade humana tomara, aos olhos deste, aspecto inesperado: foi esta a prova do milagre. A transmutação de todos os valores sociais se opera tão vivamente, que uma alma só não poderia ficar impassível ante a deslumbradora aurora que, a surgir dentre as ruínas de um mundo, e vinda de outro mundo, rompia as nuvens do imenso crepúsculo do paganismo.

Um autor pouco cristão disse uma vez que o santuário dos templos é o verdadeiro berço da poesia. 5

Ora, o Cristianismo sagrou a morada do homem e dela fez um só Templo grandioso; não despedaçaria nas mãos dos crentes a lira que se lhe consagrava. Antes, abençoou-a, e aos poetas do mundo novo ensinou a linguagem vibrante dos Apóstolos.

A poesia se faz então “um meio de glorificar a Deus, uma forma da prece” 6, e deixa, tanto quanto a ação daqueles homens, ver bem claro que a velha sociedade tinha de desaparecer, arrojada da terra pela onda do novo espírito, que fazia assim visível, palpável quase, uma divisão entre o tempo, que passara, obscuro e sinistro, às vezes, e a eternidade, que a fé revelava, imperativa, vitoriosamente. Porque, se o pagão vivera para o tempo, o cristão é o homem que vive para a eternidade.

O certo é que o ser essencialmente religioso que é o homem — e que até então como que se achava desterrado de si mesmo — entrara de novo na plena posse da sua natureza e da sua essência. Degradado pela queda, afastado cada vez mais pela força das suas paixões, das verdades reveladas pelo Deus criador e ordenador, só um pugilo de eleitos, a raça de Abraão, tinha noção clara do seu destino religioso, e a arte fora, até à suprema revelação do Calvário, o alimento mais puro da consciência humana em geral, sem que jamais, entretanto, pudesse satisfazê-la, porque, além do belo, a consciência deseja o bem, a Verdade, enfim, o bem e o belo no máximo esplendor da sua harmonia.

São de Ernest Hello estas profundas verdades: “Uma recordação ainda viva da unidade primordial domina a alta Antiguidade. A religião e a arte estão inteiramente unidas na vida dos primeiros homens. A religião e a arte vivem do mesmo ar, ambas coloridas pelos mesmos longínquos reflexos, ambas desonradas pelas mesmas torpezas.

“Entretanto a arte é mais fiel que a religião. Esta guarda dos fatos o que eles têm de falso, e se faz idolatria. A arte mantém-se mais perto da origem, mais perto do espírito, da tradição. Fala a religião de Júpiter, a arte de Prometeu. Dobra-se a religião aos instintos, aos erros, às paixões de cada cidade e de cada indivíduo. A arte conserva-se mais universal. A religião diverte o pagão com faunos e sátiros. Mantém-se a arte como que à parte, menos infiel à dor antiga e à antiga esperança da humanidade.

“É a religião mais degradada pelos caprichos do homem; a arte menos distante do coração.

“Ésquilo está mais em relação com a arte, Eurípides com a religião.

“A religião antiga excita as paixões. A arte é mais afligida e ferida por elas que propriamente dominada. O paganismo ri com um riso ignóbil. A arte conserva uma certa tristeza imperfeita mas nobre. É o refúgio das lágrimas do homem.” 7

Que é, porém, o Cristianismo senão a luz do céu que esclarece a tristeza do homem, e diz: — Nela persistes, porque erraste, mas certo de que dentro dela conquistarás a perfeita alegria —?

Que fez ele senão dar a divina significação das nossas lágrimas?

Foi assim, legitimamente, que a arte, “refúgio das lágrimas do homem”, também mergulhou nessa luz do eterno dia, que despontava.

Salva e até revigorada na sua essência, perdera, não resta dúvida, a riqueza das formas exteriores, que o paganismo lhe dera. Lentamente, porém, com segurança, o Cristianismo, que, antes do mais, busca acender o bem no coração dos homens, vai dotando-a de outras formas, vestindo-a do seu gênio prático, amoldando-a ao gênero de ação que requer a humanidade salva pelo batismo... Não lhe foi difícil achar os sinais meio apagados de uma tradição poética, que a arte propriamente cristã deveria também redimir. A poesia do Velho Testamento já se poderia chamar de poesia cristã, pois a realização das profecias também lhe dava, com o vigor da sublime verdade que se impunha, sabor de novidade, e, quando Santo Ambrósio introduziu no Ocidente o uso dos hinos durante o ofício público 8, já no Oriente ele era universal entre os cristãos 9.

É não só as Escrituras seriam origem dessa poesia cristã. Conta-nos Eusébio que no segundo século, tendo ensinado Ártemon que Jesus Cristo era apenas um homem, foi combatido por um escritor católico que, para refutar, lhe alegou a fé da Igreja contida em certos hinos compostos em época vizinha do Cristianismo 10.

E tão notável é o desenvolvimento da poesia cristã, desde os primeiros séculos paralelo, como nota Bayle 11, ao da arquitetura, que foi um poema, a História Evangélica de Juvenco, a primeira concordância que tiveram os cristãos dos quatro evangelhos 12. E não mentirá quem disser poder-se provar que a Igreja jamais se desviou da primitiva fé e sempre teve os mesmos dogmas, só com as citações tiradas dos poetas da primeira época da poesia cristã, que vai até o sexto século 13.

Também não seria difícil mostrar como o sobrenaturalismo cristão criou causas segundas, naturais, de uma bem maior importância para a arte, em geral, e para a poesia, em particular, na vida dos povos. De fato, como faz observar Ozanam, mediam-se ainda duas civilizações, a cristã e a dos pagãos, quando os bárbaros forçavam as portas do império. Mas uma invasão mais poderosa, de conseqüências muito mais importantes, já despedaçara todas as linhas delimitadoras no quadro da antiga ordem social. O Cristianismo elevara de nível a grande maioria dos homens, igualando na ordem do espírito pobres e ricos; pondo aqueles talvez ainda mais alto na ordem da caridade. “É esta invasão dos deserdados do mundo antigo, aqueles que a sociedade desprezava, que, a meu ver, prepara, antecede e ultrapassa muito, nas suas proporções”, diz o grande historiador, “a invasão dos bárbaros. É ela que já fez maior o auditório a que se dirigirá a palavra humana e que, por conseqüência, renovou a inspiração das letras.” 14

Ozanam mostra como a literatura cristã conquistou, por assim dizer, uma língua, e o que há de espantoso no caso é ser a língua conquistada o latim, “Cette vieille langue païenne que gardait les noms de ses trente mille dieux, cette langue souillée des impuretés de Pétrone et de Martial.”

A princípio “nada parece menos capaz de transmitir as idéias cristãs que essa velha língua latina, que, na sua primitiva aspereza, só parecia feita para a guerra, a agricultura e os processos” 15. Mas já a invasão dos costumes gregos a alterara no sentido das próprias formas gregas da expressão 16, e já em Cícero ela em plena maturidade, se mostra à altura “de qualquer esforço da inteligência humana, até os últimos degraus, que tocam o infinito” 17. A sua decomposição, porém, já se fazia ver a esse tempo de modo violento; o latim está a morrer quando o Cristianismo o salva 18, o Cristianismo, que fundiu os três gênios que dividiam a Antiguidade, a poesia do Oriente, a filosofia da Grécia e a ação de Roma 19.

Mas “para que a arte cristã se manifestasse foi preciso que a paz fosse dada à Igreja, que fosse permitido aos fiéis sair dos subterrâneos, mostrar-se à luz do dia, adorar em novos templos ao Deus desconhecido do velho mundo”. É o que se deu no 4º século com a vitória de Constantino 20, e o instrumento da reforma do latim, da completa cristianização do latim, é a primeira grande, imortal, incomparável obra de arte da fé católica, a Bíblia, a Vulgata de S. Jerônimo. É por isto que com tanto critério dizia Ozanam: “Tinham razão os nossos antepassados cobrindo de ouro a Bíblia e carregando-a em triunfo; este, primeiro dos livros antigos, é também o primeiro dos livros modernos; é, por assim dizer, o autor destes mesmos livros, pois das suas páginas saíram todas as línguas, toda a eloqüência, toda a poesia e toda a civilização dos novos tempos” 21.

E ao tempo dos últimos esforços de S. Jerônimo pode-se dizer que a arte cristã, principalmente a poesia, ficava perfeitamente caracterizada, tanto do ponto de vista do espírito, que a anima, como das suas formas exteriores. Nela transparece um novo simbolismo da natureza (que já em Prudêncio é tão vivamente cristão) 22, e não já da natureza envilecida, conspurcada pelos deuses imorais, mas da natureza digna de admiração e respeito, restaurada também em Jesus Cristo 23.

Se, como observa Hello, o sacrifício é a essência mesma da palavra, e a arte é dividindo-se que se manifesta 24, como não encontrar no Cristianismo o plano mais próprio ao seu desenvolvimento?

É certo que, fazendo-se mais popular, a arte, cristianizada, longo tempo conserva um rude sabor e uma ingenuidade que só a rude gente, o povo ingênuo, podia casar perfeitamente ao seu sentir. Mas, nessa mesma primitiva ingenuidade, nessa mesma rudeza, criava, pouco a pouco, a verdadeira poesia do espírito, as lúcidas arcangélicas asas com que Dante voará um dia do Inferno ao Paraíso.

* * *

“Se no naufrágio do mundo antigo a civilização pôde salvar-se”, afirma um escritor nosso contemporâneo e que nada tem de católico 25, “devemo-lo às ordens religiosas; foram a arca do futuro. Sem elas a humanidade talvez sofresse irreparável regressão, todo o progresso adquirido ficaria aniquilado, a história teria de ser recomeçada.

“Os frades foram, então, em verdade, o sal da terra, o escol que trabalha pela espécie e a dignifica. É fazer-lhes injustiça reduzi-los ao papel de escribas ou de copistas, de bibliotecários da cristandade.

“Não só os livros mas também os hábitos e as sementes da cultura nos foram transmitidos pelos religiosos. Graças a eles as tradições não ficaram sendo letra morta. As funções liberais, as aplicações da indústria não deixaram de ser exercidas. Onde quer que houvesse frades, houve prescrição contra a barbaria. As artes foram praticadas. Elevaram-se monumentos. A vida inteligente não sofreu interrupção.”

Mudadas as condições sociais do Ocidente, já no período que vai do fim do século XIII ao meado do século XVIII, observa também o mesmo historiador, o que também caracteriza a marcha da civilização é uma criação de novas ordens, o aparecimento das duas grandes Ordens Mendicantes. “Contemporâneas das grandes lutas empreendidas pelas Comunas para a conquista de suas liberdades, foram, a seu modo, uma reação contra os costumes da Igreja feudal.”

Este papel de Menores e Pregadores pode ser interpretado de diversos modos, e não estamos de pleno acordo com o escritor citado, mas a verdade é que, como ele, se pode dizer, sem medo de errar, que o caráter essencial dessa forma original do monaquismo é a “ação popular”.

“Ajunte-se”, diz ainda Gillet, “que as Ordens Mendicantes suscitaram durante três séculos, através de toda a Europa, um incalculável número de obras de arte, que são contemporâneas do movimento intelectual de que saiu a Renascença, e que estiveram assim associadas, numa medida ainda a precisar, a alguns dos mais graves acontecimentos de nossa vida moral, que produziram multidão de legendas, de heróicas ou poéticas figuras, a começar pelas de seus fundadores, S. Domingos e S. Francisco, figuras que fazem parte das mais caras lembranças, do tesouro espiritual conservado pela humanidade”, e poder-se-á avaliar quanto essas Ordens merecem ser estudadas atualmente na sua história e nas suas legendas. Também, confessa Gillet, os trabalhos modernos sobre o assunto “se multiplicaram a ponto de não se poderem enumerar nem mesmo os principais”.

Deve-se dizer, porém, que a maior causa deste reflorescimento de estudos de toda espécie sobre o monaquismo ocidental daquele período é a figura incomparável de São Francisco. Após a obra de Ozanam, nunca mais modernamente esmoreceu o ardor dos estudiosos em derredor daquela figura central da poesia cristã no Ocidente.

Mas ao debate provocado por Sabatier (um protestante) é que o grande santo deve o ter sido proclamado na própria Alemanha “o homem do dia”.

Desse debate não saiu, como se sabe, nem de leve ferida a excelsa glória do humílimo Francisco. O próprio Sabatier veio a ser depois prova, de não pequena valia, de quanto é difícil à ciência mais bem aparelhada negar seja o que for da maravilhosa vida do Irmãozinho da cinza. E a complexa literatura franciscana dos nossos dias, em que há de tudo, desde a delicadeza e a profundeza de um Joergensen até as blasfêmias e truanices dos Gómez Carrillo e outros cabotinos de renome, diz bem da glória de quem não mais desejou que refletir Jesus Cristo, e por isto mesmo pode, caridosamente, ainda sustentar muita glória legítima e muita glória de malandrins letrados e perversos.

Livros como os de Joergensen, Cherancé, Pardo Bazan, d’Armestad, Lafenestre, Gillet e tantos outros forçam, pelo menos, a esta confissão: não há figura histórica em todo o Ocidente que tenha conseguido interessar tanto a inteligência contemporânea como a do criador dos Frades Menores. Mas, se concordamos com Gebhart que é diminuí-lo não querer ver, da sua grandeza, senão o que suavemente se impõe do singular poeta e ingênuo apóstolo das “Fioretti”, estamos convictos de que o que mais concorreu mesmo para sua moderna e contemporânea popularidade (popularidade entre letrados, bem entendido, desde Gorres, Ozanam, Renan, Rio até Wizewa, Joergensen etc.) foi o lirismo essencial da sua evangelização, foi mais o piedosíssimo vulto de trovador popular do que a sua figura de organizador, de economista da pobreza. Porque, se fora esta a feição mais apreciada da sua vida, certo não merecerá ele mais louvores ou, pelo menos, mais interesse que S. Domingos, máscula, gigantesca personalidade, de cuja ação se pode afirmar que vale, só por si, como uma epopéia dessa ordenadora energia cristã, eternamente em luta com as paixões e as misérias do homem.

Mas S. Domingos, como diz Gillet, que cito ainda por insuspeito, “não fez o Cântico do Sol”. Não oferece essa inaudita mistura de sensibilidade e de paixão, de otimismo e de ternura, de requintada aristocracia e espírito popular que faz de S. Francisco — posta de lado a sua santidade (se isto é possível) — o mais maravilhoso poeta que jamais existiu.

Só a conversão de um homem como Joergensen já é título de glória singularíssimo na história moderna de um santo.

S. Francisco tinha de ser o santo desta época. Deus sabe que armas e que homens deve empregar a cada hora para reconduzir a criatura transviada ao seio da sua Igreja.

(Revista PERMANÊNCIA, 1981, novembro/dezembro, números 157/157.)

 

 

 

 

  1. 1. Este estudo, que faz parte do ensaio Durval de Morais e os Poetas de Nossa Senhora, é uma amostra das mais expressivas das virtudes intelectuais de Jackson de Figueiredo.
  2. 2. L. Veuillot, Mélanges, 3a. s., t. III.
  3. 3. Abbé A. Bayle, Étude sur Prudence, Paris, 1860
  4. 4. G. Longhaye S. J., Théorie des Belles-Lettres, Paris, 1920, p. 125.
  5. 5. Fabre d’Olivet, Les vers dores de Phytagore, p. 31.
  6. 6. Abbé A. Bayle, op. cit., 60.
  7. 7. Ernest Hello, L’Homme, cap. “L’art antique et la litterature ancienne”, 14a. ed., p. 328.
  8. 8. Bayle, op. cit., p. 20.
  9. 9. Bayle, op. cit., p. 21.
  10. 10. Bayle, op. cit., p. 21.
  11. 11. Bayle, op. cit., p. 5.
  12. 12. Bayle, op. cit., p. 13.
  13. 13. O autor que venho citando, no seu livro sobre Prudêncio, não faz esta asserção, mas eu próprio pude verificar das suas citações alguns edificantes exemplos.
  14. 14. Ozanam, op. cit., p. 125.
  15. 15. Ozanam, op. cit., p. 127.
  16. 16. Ozanam, op. cit., p. 127.
  17. 17. Ozanam, op. cit., p. 129.
  18. 18. Ozanam, op. cit., pp. 130-131.
  19. 19. Ozanam, op. cit., p. 131.
  20. 20. V. Bayle, op. cit., p. 2.
  21. 21. Ozanam, op. cit., p. 155.
  22. 22. Bayle, op. cit., p. 80.
  23. 23. Bayle, op. cit., pp. 82-83.
  24. 24. E. Hello, op. cit., livro III, p. 281: “Le son ne naît que pour mourir, et ne se posséde que pour se donner.”
  25. 25. Louis Gillet, Histoire Artistique des Ordres Mendiants, Paris, 1912.

A função da beleza na religião

A beleza desempenha importante papel no culto religioso. O ato mesmo de adoração à divindade encerra o desejo de envolver o culto com a beleza. Estigmatizar a preocupação com o belo no culto religioso como "esteticismo" — como fizeram recentemente, com crescente acrimônia, alguns católicos — é revelar uma concepção deformada do culto religioso e da natureza do belo.

É o que se vê claramente quando se considera a natureza do "esteticismo", em vez de se usar o termo apenas com slogan destruidor.

O esteticismo é uma perversão na maneira de considerar a beleza. O esteta saboreia coisas belas como quem saboreia vinho. Não as trata com o respeito e a compreensão do valor intrínseco que requer uma resposta adequada, mas como fontes de satisfação meramente subjetiva. Mesmo dotado de refinado bom gosto, mesmo que seja um notável connaisseur, o tratamento do esteta não pode fazer de maneira alguma justiça à natureza do belo. Acima de tudo, é indiferente a todos os demais valores inerentes ao objeto. Qualquer que seja o tema de uma situação, vê-o somente do seu ponto de vista da satisfação e do prazer estético. Não consiste sua falha em superestimar o valor da beleza, mas em ignorar os outros valores fundamentais, sobretudo os morais.

Tratar uma situação de um ponto de vista que não corresponde ao seu tema objetivo é sempre uma grande perversão. Por exemplo, é perverso que um homem trate de um drama humano que exige compaixão, simpatia e ajuda, como se fosse mero objeto de estudo psicológico. Fazer da análise científica o único ponto de vista em qualquer assunto é radicalmente antiobjetivo e até mesmo repulsivo; é desrespeitar e anular o tema objetivo. Além de ignorar qualquer ponto de vista que não seja o "estético" e qualquer outro tema que não seja o da beleza, o esteta também deforma a natureza real da beleza em sua profundidade e grandeza. Como já mostramos em outros livros, toda idolatria de um bem necessariamente exclui a compreensão de seu verdadeiro valor. A maior e mais autêntica apreciação de um bem somente é possível se o vemos em seu lugar objetivo na hierarquia dos seres, disposta por Deus.

Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso. Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o legítimo papel que lhe cabe desempenhar no culto e o desejo das pessoas religiosas em revestir de grande beleza tudo o que se refere ao culto divino. Esta apreciação justa da beleza é até um crescimento orgânico da reverência, do amor a Cristo, do ato mesmo de adoração.

Infelizmente alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à pobreza evangélica. É um erro grave e que parece freqüentemente inspirado em sentimento de culpa por terem eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciado os legítimos reclamos da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser graves, simples, despojadas de todos os adornos necessários.

Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antitético à pobreza evangélica do que a beleza — mesmo esta em sua forma mais exuberante. A noção funcionalista do que é supérfluo é muito ambígua, simples seqüela do utilitarismo. Contradiz as palavras do Senhor: Nem só de pão vive o homem. No livro Nova Torre de Babel, procuramos mostrar que a cultura é um bem superabundante, algo que necessariamente parece supérfluo à mentalidade utilitarista. Graças a Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente belos para ele. Diga-se o mesmo de Cura d'Ars, São João Batista Vianney.

Acontece um ridículo paradoxo quando, em nome da pobreza evangélica, são demolidas e substituídas as igrejas mais preciosas artisticamente — e a que custo! — por igrejas prosaicas e monótonas. Não é a beleza e o esplendor da igreja, a casa de Deus, que são incompatíveis com o espírito de pobreza evangélica e que escandalizam o pobre; são muito mais o luxo e o conforto desnecessários, hoje tão em voga. Se o clero deseja retornar à pobreza evangélica, deve reconhecer que em regiões como nos Estados Unidos e na Alemanha o clero possui os carros mais elegantes, as melhores máquinas fotográficas, os aparelhos mais modernos de TV. Beber e fumar muito é, certamente, oposto à pobreza evangélica; mas não, decerto, a beleza e o esplendor das igrejas.

De um lado, afirmar-se que as igrejas deveriam ser despojadas, porém, ao mesmo tempo, paróquias e campus de escolas católicas estão levantando feios edifícios para assuntos sociais, dotados de todo tipo de luxo desnecessário. Isto é feito em nome de problemas sociais e do espírito de comunidade. Até mesmo nos conventos verifica-se desenvolvimento análogo. Essas novas estruturas não são apenas opostas à pobreza evangélica; criam, também, uma atmosfera tipicamente mundana. Cadeiras reclináveis e tapetes espessos com maciez não muito saudável. Esses edifícios reúnem, artificialmente, três propriedades negativas: dispendiosos (o que diretamente se opõe à pobreza evangélica), feios e convidativos a concessões pessoais, típicas da degeneração que, hoje, ameaça os homens.

Por vezes os argumentos iconoclastas tomam outra feição. Ouve-se, ocasionalmente, algum vigário dizer que a missa é algo abstrato e que as igrejas, especialmente o altar, deveriam ser despojados. Na verdade, a Santa Missa é um mistério surpreendente e que transcende a toda compreensão pela só razão, mas não é, absolutamente, abstrato.

Abstrato é algo especificamente racional; opõe-se a real, concreto, individual. O mundo do sobrenatural, a realidade revelada, transcende o mundo da razão, mas não implica nenhuma oposição ao real e ao concreto. É, pelo contrário, realidade definitiva e absoluta, se bem que invisível. A Missa é, assim, um epítome da realidade concreta, do nunc (agora), pois o próprio Cristo se faz verdadeiramente presente.

A força e o impacto existencial da Sagrada Liturgia têm suas raízes exatamente no fato de não ser abstrato e dirigir-se não só à nossa inteligência ou simplesmente à fé, mas, sobretudo, de falar, de inúmeras maneiras, à totalidade da pessoa humana. Imerge o fiel na sagrada atmosfera do Cristo, pela beleza e esplendor sagrado das igrejas, pelo colorido e beleza das vestimentas, pelo estilo de linguagem e sublimidade musical do Cantochão. 

Católicos progressistas dizem, às vezes, que aqueles que combatem a iconoclastia, se ocupam do "inessencial".

De fato, não é essencial que seja bonita a igreja, onde se celebra a Santa Missa e distribui a Comunhão aos fiéis. São essenciais apenas as palavras que perfazem a transubstanciação. Sendo este o sentido da frase, nada objetaremos. Se o termo "inessencial" significar "sem significação", então se está querendo dizer que coisas como a beleza das igrejas, a Liturgia e a música são "triviais" e a acusação é completamente errada, porque existe uma relação profunda entre a essência de alguma coisa e sua expressão adequada. A respeito da Santa Missa esta observação é particularmente verdadeira.

O modo como é apresentado esse mistério, sua visível manifestação, desempenha papel definido e não pode ser considerado sujeito a mudanças arbitrárias, apesar de ser incomparavelmente mais importante aquilo que se expressa do que sua expressão. Se bem que o tema efetivo da Missa seja tornar presente o mistério do Sacrifício de Cristo na Cruz e o Mistério da Eucaristia, deve-se dar grande peso à atmosfera sagrada criada pelas palavras, ações, acompanhamento musical e igreja onde se celebra. nada disso pode ser considerado de interesse meramente estético.

Contrapõe-se a todo esse menosprezo gnóstico do conteúdo e da forma externa o princípio especificamente cristão de que as atitudes espirituais devem encontrar também expressão adequada na conduta do corpo, nos seus movimentos e no estilo de nossas palavras. A Liturgia inteira está penetrada desse princípio. Analogamente, o salão e o edifício onde se desenrolam cerimônias sagradas devem irradiar uma atmosfera que lhe corresponda. É certo que a realidade dos mistérios nada sofre se a sua expressão for inadequada. Há, contudo, um valor específico em dar-lhe expressão adequada.

Como se erra, portanto, ao considerar a beleza das igrejas e da Liturgia como coisas que nos podem distrair e afastar do tema real dos mistérios litúrgicos para algo superficial! Quem diz que igreja não é museu e que o homem realmente piedoso é indiferente a essas coisas acidentais, apenas revela sua cegueira à magnífica função desempenhada pela expressão adequada (e bela). Em última análise, trata-se de uma cegueira à própria natureza humana. Mesmo que essas pessoas se proclamem "existencialistas", continuam muito abstratas. Esquecem que a beleza autêntica encerra mensagem específica de Deus, que nos eleva as almas. Como dizia Platão: "À vista da beleza, crescem asas às nossas almas". Mais ainda: da beleza sagrada relacionada à Liturgia nunca se afirma que seja temática, como nas obras de arte; pelo contrário, como expressão, têm a função de servir. Longe de obnubilar ou de se substituir ao tema religioso da Liturgia, ajuda a torná-lo fulgurante.

Valor não é sinônimo de "ser indispensável". O princípio básico da superabundância em toda a criação e em todas as culturas manifesta-se, exatamente, nos valores não indispensáveis a certa finalidade ou tema. A beleza da natureza não é indispensável à economia da natureza. Nem a beleza da arquitetura é indispensável para nossas vidas. Mas, o valor da beleza, na natureza e na arquitetura não é diminuído pelo fato de ser um dom, que de muito transcende a mera utilidade. Desse modo, a beleza é importante não só quando é ela mesma o tema (caso da obra de arte), mas também quando a serviço de outro tema. Destacar que a Liturgia deve ser bela não é colorir religião com tratamento estético. A aspiração pela beleza, na Liturgia, nasce do sentido do valor específico que se apóia na adequação da expressão.

A beleza e a sagrada atmosfera da Liturgia são algo não só precioso e valioso por si mesmo (na qualidade de expressões adequadas dos atos religiosos de adoração), mas são, também, de grande importância para o desenvolvimento espiritual das almas e dos fiéis. Repetimos: aqueles que, no movimento litúrgico, têm insistido na afirmação de que orações e hinos cansativos denominam o ethos religioso dos fiéis, apelando para o que no interior humano está longe do que é religioso, lançam-no em uma atmosfera que obscurece e embaça o semblante de Cristo. É de enorme importância a beleza sagrada para a formação do verdadeiro ethos do fiel. No livro Liturgia e Personalidade, falamos em detalhe da função profunda da Liturgia em nossa santificação, sem sacrifício de ser o culto de Deus seu tema central. Na Liturgia louvamos e agradecemos a Deus, associamo-nos ao sacrifício e à prece do Cristo. Convidando-nos a orar a Deus com o Cristo, a Liturgia exerce papel fundamental em nossa transformação em Cristo. Esse papel não se restringe ao aspecto sobrenatural da Liturgia. Integra, também, sua forma, a sagrada beleza que toma corpo nas palavras e na música da Santa Missa ou do Ofício Divino. Desprezar esse fato é sinal de grande primitivismo, mediocridade e falta de realismo.

Um dos maiores objetivos do movimento litúrgico tem sido o de substituir orações e hinos inadequados por textos sagrados das preces litúrgicas oficiais e pelo Canto Gregoriano. Assistimos, hoje, a uma deformação do movimento litúrgico quando muitos tentam substituir os sublimes textos latinos da Liturgia por traduções nativas, com gírias. Chegam mesmo a mudar, arbitrariamente, a Liturgia no intuito de "adaptá-la aos nossos tempos". O Canto Gregoriano vai dando lugar, na melhor hipótese, à música medíocre, quando não ao jazz ou ao rock and roll. Essas grotescas substituições empanam o espírito de Cristo incomparavelmente mais do que o fizeram certos tipos antigos e sentimentais de devoção. Esses eram inadequados. Aqueles, além de inadequados, são antitéticos à sagrada atmosfera da Liturgia. É mais do que uma deformação; isso lança o homem em uma atmosfera tipicamente mundana. Apela no homem para algo que o torna surdo à mensagem de Cristo.

Mesmo quando se substitui a beleza sagrada, já não pela vulgaridade profana, mas por abstração neutra, incorre-se em sérias conseqüências para as vidas dos fiéis, pois, como indicamos, a Liturgia católica se dirige à personalidade total do fiel. O fiel não é atraído ao mundo de Cristo apenas por sua crença ou por símbolos estritos. São levados a um mundo mais alto pela beleza do altar, pelo ritmo dos textos litúrgicos, pela sublimidade do Canto Gregoriano ou por músicas verdadeiramente sacras, tais como a Missa de Mozart ou de Bach. Até mesmo o perfume do incenso tem função significativa, nesse sentido. O emprego de todos os canais capazes de introduzir-nos no Santuário é profundamente realista e profundamente católico. É autenticamente existencial e realiza função notável em ajudar-nos a elevar nossos corações.

Se é verdade que considerações de cunho pastoral poderão recomendar como desejável o uso do vernáculo, o Latim da Missa — na missa silenciosa, dialogada e, especialmente, cantada com o Gregoriano — jamais deveria ser abandonado. Não se trata de guardar o latim de Missa por certo tempo até que os fiéis se habituem à missa em vernáculo. Como a Constituição da Sagrada Liturgia claramente determina, é permitido o uso do vernáculo, mas a Missa em Latim e o Canto Gregoriano conservam toda sua importância. Foi essa a intenção do motu proprio de São Pio X, que afirmou ser o Latim da missa, como o Canto Gregoriano, responsável também pela formação da piedade dos fiéis, através da atmosfera sagrada e única gerada por sua dicção. Assim, os anseios de muitos católicos e do movimento Una Voce não se dirigem contra o uso do vernáculo, mas contra a eliminação da Missa em Latim e do Canto Gregoriano. Eles apenas estão pedindo que se cumpra, realmente, a Constituição da Sagrada Litugia.

Contudo, certos católicos de hoje manifestam o desejo de mudar a forma exterior da Liturgia, adaptando-a ao estilo de vida de nossa época dessacralizada. Esse desejo denota cegueira com relação à natureza da Liturgia, bem como ausência de respeito reverencial e gratidão pelos dons sublimes de dois mil anos de vida cristã. Acreditar que as formas tradicionais podem ceder o lugar a algo melhor é dar provas de uma ridícula auto-suficiência. E esse conceito é particularmente incongruente nos que acusam a Igreja de "triunfalismo". De um lado, eles consideram falta de humildade a Igreja proclamar que Ela só é detentora da plena revelação divina (em vez de perceber que essa proclamação se fundamenta da natureza da Igreja e decorre de sua missão divina). De outro lado, demonstram ridículo orgulho quando simplesmente assumem que nossa época moderna é superior às anteriores.

Podem-se ouvir, hoje, razões de protesto declarando, por exemplo, que o texto do Glória e de outras partes da Missa estão repleto de expressões cansativas de louvor e glorificação a Deus, quando deveriam fazer mais referências a nossas vidas. É um contra-senso que revela como tinha razão Lichtemberg ao dizer que, se fosse dado a um macaco ler as epístolas de São Paulo, ele veria sua própria imagem refletida nelas. Admiram-se os nossos "teólogos" modernos não apresentarem, dentro em breve, uma nova versão do "Pai Nosso", como o fez Hitler. O "Pai Nosso" claramente enfatiza o primado absoluto de Deus, tão distante da mentalidade típica moderna. Um único pedido diz respeito ao bem-estar terrestre: "o pão nosso de cada dia"... O restante diz respeito ao próprio Deus, a seu Reino, a nosso bem-estar eterno.

 

(Extraído de "Cavalo de Tróia na Cidade de Deus". Publicado em PERMANÊNCIA, Nos. 142-143 Set-Out. 1980)

A atual decadência da língua literária

Se é certo que ainda há muito escritor cuidadoso e cioso da boa linguagem, também é tristemente certo que há hoje em dia, mormente na nova geração, um descaso completo pela língua literária, uma lamentável ignorância do que seja escrever bem. Talvez por isso mesmo tenha sido aceita com tanta facilidade, em certos meios, a idéia de “língua brasileira”.

Sim: é preciso que se tenha coragem de dizer a verdade, que é aquela mesma tão luminosamente definida pelo velho Rui, que, depois de um eclipse, volta hoje à cena mais vivo do que nunca. Para muitos a tal “língua brasileira” seria aquele “surrão amplo, onde cabem à larga, desde que o inventaram para sossego dos que não sabem a sua língua, todas as escórias da preguiça, da ignorância e do mau gosto, rótulo americano daquilo que o grande escritor lusitano tratara por um nome angolês. Lá encontrará o ouvido vernáculo todos os estigmas dessa degeneração, em estado coliquativo, do idioma em que escreveram no Brasil Gonçalves Dias, Francisco Lisboa e Machado de Assis”. (Réplica. Imprensa Nacional, Rio, 1904, n° 22, págs. 45-46).

É preciso que se diga a verdade. E aqui estou para dize-la, arrostando embora a pecha de ridículo, de carranca, de purista hors siècle, de gramaticóide.

Os que me conhecem, e principalmente os meus alunos, sabem que sou fundamentalmente antipurista, antigramático. Sabem que mantenho, nos limites das minhas fracas possibilidades, uma luta sem tréguas contra a “gramatiquice”, as “pífias regrinhas gramaticais” o falso conhecimento da língua. E acho mesmo, como logo adiante se verá, que grande parte da decadência da língua literária entre nós se deve à ação ruinosa dos maus gramáticos, dos charlatães, dos pseudo-sabedores da língua, dos filólogos das Arábias.

Mas propugno pelo cultivo da boa linguagem. Pela renovação dos métodos de estudo da gramática. Pela lição dos textos. Pelo atento e amoroso exame dos bons modelos.

E é por isso que, embora fugindo um pouco do meu assunto, vou aqui deter-me um instante a analisar algumas das causas da decadência da língua literária, e a apontar aquilo que me parece remédio para o mal.

 

2. Tenho para mim que à ação conjugada de quatro fatores se deve a atual e principalmente a atualíssima decadência da língua literária em nosso meio.

Já salientei que entre os jovens é que mais alarmante se mostra a situação. Realmente, é por parte dos moços mal saídos da adolescência que se vai encontrar um absoluto desinteresse pelas coisas da linguagem e uma gravíssima deficiência no conhecimento da língua literária.

Pois bem; para esse estado de coisas concorrem, como acabamos de dizer, quatro grandes causas: A) O clima espiritual da época; B) A decadência do ensino secundário; C) Métodos defeituosos empregados no ensino da língua nacional; D) A influência das más leituras.

 

A) O CLIMA ESPIRITUAL DA ÉPOCA

3. O ambiente espiritual do nosso tempo é, em geral, de horror ao esforço, de imediatismo, de falta de sólida e madura preparação para a vida. A grande arma de vitória é a improvisação e a grande virtude, a audácia.

Uma perigosa filosofia do êxito fácil, conjugada com a filosofia do conforto, insinuou-se profundamente entre a nossa mocidade, alterando a concepção geral da vida, pela subestima dos valores éticos e privativamente humanos. Daí aquele horror ao esforço, a fuga à reflexão, a ausência de formação longa e fecunda. Daí uma atitude de espírito excessivamente independente, desrespeitadora dos valores morais essenciais e das autoridades naturais ou constituídas. Daí um obscurecimento da noção profunda de “dever”, entendido como uma necessidade moral, como uma fidelidade do homem a si mesmo, um corolário da sua Personalidade. Substituiu-se esse conceito verdadeiro pela idéia de “dever” imposição exterior, a que se satisfaz por atos externos, superficiais, formais, faltos de toda substância moral, pois eles serão sonegados, falsificados ou defraudados quando falte o olho policial. É o espírito farisaico que se generaliza, a ética de aparências. Donde decorre e se alastra com pavorosa rapidez uma mentalidade de “sabotagem”. Há uma forte tendência para desumanizar o trabalho, procurando cada qual tirar, na atividade que exerce, o máximo de proveitos, lícitos ou ilícitos (aliás é esta uma distinção que se vai esmaecendo!), e dar o menos possível de sua pessoa. Nada de trabalho entendido como dever moral e muito menos como obra de arte, em que o homem é pessoa cônscia de sua dignidade, e artista cioso de sua criação.

Não quero exemplificar para não ferir suscetibilidades, mas não se terá dificuldade em colher amostras.

Há dias, no interior, visitava eu a oficina de um velho marceneiro siciliano, habilíssimo no seu ofício, em que atingiu invejável perfeição. E, admirando a finura do lavor e o impecável acabamento de um guarda-roupa, lamentei que tão belo espécime se destinasse a pessoa da roça. Respondeu-me o artífice, na sua meia-língua: “Mas a obra é muito mais minha do que do freguês”.

Estranhei e me alegrei de encontrar num homem rude tão bela concepção do trabalho, concepção essa que vai ficando anacrônica, mas que precisa de reviver a todo preço. No caso citado, a mentalidade corrente aplicaria o aforisma “para quem é bacalhau basta”.

Pois bem: é essa falsa mentalidade, que se vai generalizando a ponto de constituir a “atmosfera” da nossa época a primeira responsável pela decadência da língua literária.

Alguém poderia achar quixotesca esta última sentença. Mas não o é. Tal decadência é apenas um sintoma, ou, se quiserem, um dos muitos efeitos daquela grande causa. Escrever bem exige observação atenta, meticulosa, estudo, reflexão, planejamento, e, depois, retoque, polimento. Tudo isso briga com o espírito da época.

 

B) A DECADÊNCIA DO ENSINO SECUNDÁRIO

4. A decadência do ensino secundário é em parte uma das conseqüências do mal que acabamos de denunciar e, ao mesmo tempo, uma das causas eficientes do descalabro da língua literária.

Realmente, o nosso ensino secundário está em nível muito baixo. Eu diria mesmo que todas as deficiências da nossa cultura se prendem diretamente a essa fonte.

A nossa educação secundária de há muito vem faltando à sua verdadeira finalidade, qual seja o desenvolvimento harmônico das faculdades, a cultura geral básica, a formação humanística.

O fato é que os alunos passam pelo ginásio e dele saem quase sempre apenas com um leve verniz, a reminiscência de alguns nomes menos comuns, que eles não sabem bem para que servem; saem intelectualmente “inocentes”. Não tiveram interesse de aprender, de assimilar conhecimento, e realmente não aprenderam.

Está claro que fato em tese e de um modo geral, havendo, para consolo, honrosas exceções.

O problema é extremamente complexo e não cabe aqui analisa-lo. Basta dizer que sua solução depende: do Governo, dos diretores de estabelecimentos, dos professores, dos pais, e dos alunos.

5. Do Governo, por meio de uma legislação adequada.

Felizmente foi posta por terra a lei Campos, que pretendeu fazer do curso secundário um bazar enciclopédico, e se implantou no lugar a Reforma Capanema, a lei orgânica do ensino secundário, código modelar, enformado nos melhores princípios, sadio, equilibrado. Muito se pode esperar dessa benéfica reforma, que veio recolocar o ensino secundário no seu verdadeiro lugar; mas tudo depende da execução.

É necessário que não se lhe traía o espírito, que não se cumpra apenas nas formalidades exteriores, que ela não seja vítima do farisaísmo e daquela “sabotagem” de que atrás falávamos. Quid lege sine moribus? Ainda que seja perfeita a lei, de nada servirá, se a defraudam.

Portanto, o primeiro passo está dado, mas isso pode não significar coisa nenhuma. Ademais, a reforma é muito recente e ainda não se poderiam apreciar seus frutos.

6. Não é raro encontrarem-se diretores de estabelecimentos para quem o ginásio ou o colégio é apenas uma indústria rendosa, uma fábrica de bacharéis ou licenciados, onde a aprovação no fim do ano é garantida. Falta-lhes a esses diretores aquele idealismo, aquela consciência da imensa responsabilidade que lhes pesa sobre os ombros, o devotamento sacerdotal e paterno à causa da educação e do ensino.

7. O professorado constitui outro problema sério. Carecem os mestres muita vez da necessária formação intelectual, da vocação magisterial e de consciência moral esclarecida.

Muitos professores se improvisam. Tomam a disciplina que lecionam como um “bico” e por isso, às vezes, ensinam qualquer matéria. Não são especialistas. Autodidatas, apressados, falece-lhes a sólida formação cultural, que lhes dará segurança e profundeza de conhecimentos e orientação didática. É verdade que esse mal depende 95% da ausência, que tivemos até bem pouco, de um instituto superior de cultura desinteressada, especializado na formação de professores. São as Faculdades de Filosofia e Letras, que só neste último decênio começaram a aparecer, sendo que o estabelecimento-padrão, a Faculdade Nacional de Filosofia, entrou a funcionar em 1939. e já vão produzindo seus bons frutos esses estabelecimentos, que cumpre multiplicar pelo Brasil afora, mas sem se desvirtuarem. É preciso que essas Faculdades nunca percam a noção de importância transcendente de sua missão no Brasil.

Porém, não é somente a formação intelectual e a especialização científica que faltam a muitos professores. Falta-lhes ainda a vocação magisterial, o que é fruto daquela improvisação e daquele tomar o magistério como “bico”. O professor não se interessa, não tem a necessária atitude paternal para com os alunos, não se integra na sua profissão. É também professor. E daí a ausência de consciência moral: aulas não preparadas, aulas “matadas”, provas e trabalhos escolares corrigidos a trouxe-mouxe, aprovação sistemática dos alunos. O menos trabalho possível.

Sei de um professor de Português que, após a realização das provas parciais de sua matéria, passou pela secretaria do colégio e levou as provas para casa, para corrigi-las. Mais de cem. No seu gabinete abre os envelopes e vai lançando as notas: 9 e 10 alternadamente. Pronto o serviço, recolheu de novo as provas aos respectivos invólucros e foi almoçar. Eis se não quando lhe telefonam do colégio, dizendo que lhe deram por engano as provas de História da Civilização.

— Ah! é?, diz o nosso homem. Eu não reparei bem... Agora já dei as notas.

Mas se há essas deficiências por parte de certos elementos do professorado, é força reconhecer que esse professorado também tem sido vítima.

Salários baixos, vida cara, não podem os professores só com o magistério ou só com uma disciplina atender às suas responsabilidades econômicas. Daí a multiplicação de atividades, ou a sobrecarga das aulas, que impede uma execução perfeita da função magisterial. É certo que já veio a lei da remuneração condigna, mas toda lei pode ser fraudada e, de qualquer modo, muita coisa ainda se deve fazer em benefício da classe professoral.

8. Os pais, por sua vez, têm não raro larga culpa no cartório. Querem que os filhos passem. De qualquer maneira. Há muitos que exigem, nesse sentido, “garantia” por parte do estabelecimento. Se os filhos logram más notas ou são reprovados, esses cidadãos se enfurecem contra os professores e às vezes os ameaçam de pancada. Ou tentam o suborno, quando têm a nobreza do dinheiro. Se algum professor me lê, que diga dos seus momentos difíceis diante de pais furiosos com a “injúria”, com a “perseguição” que sofreram seus filhos.

9. Finalmente, os alunos são vítimas de todo esse estado de coisas, mas também são bastante culpados. O adolescente de hoje não tem em geral o mínimo interesse de aprender, a fome de saber. Sua preocupação máxima, e quase sempre única, na aula é descobrir e “gozar” o ridículo do professor. Pôr-lhe um apelido azado. Atucanar- lhe a paciência com mil diabruras e insolências, reduzi-lo à condição de Polícia Especial ou, antes, de domador de feras. Realmente é dificílimo ensinar a uma classe onde 80% dos alunos não prestam a mínima atenção, olham atrevidos para o mísero professor, vozeiam, molequeiam, distraem a atenção dos outros 20% que escutariam o mestre!

Esses rapazes (com meninas e coisa em geral vai melhor) não só não ouvem as aulas como não estudam nada. Chegam absolutamente crus ao exame. Já me aconteceu, examinando Latim num quarto ano, encontrar alunos que não sabiam o número das declinações.

E na Faculdade Nacional de Filosofia me aparecem provas onde se escreve intelequitual (intelectual), onde se diz que “comessem é particípio do verbo edere” (textual), onde se emprega a forma corrobóem por corroboram, onde se grafa cearence com “c”, onde se comete toda a sorte de solecismos, e principalmente, onde se redigem frases sem sentido. Nas provas orais aparecem alunos que, argüidos de propósito a esse respeito, se mostram incapazes de conjugar verbos, que não distinguem um advérbio de uma preposição, etc. e isso nos cursos de Letras!

Reproduzo, aqui, para documentar, a resposta a uma questão dada em trabalho de estágio da primeira série de Letras Clássicas. Era a questão: “Explicar brevemente o desaparecimento dos casos no Latim Vulgar hispânico”. E a resposta: “O Latim era uma língua muito sintética por isso que se caracterizava pelo seu analitismo. A 5a declinação absorveu a 2a e a 4a absorveu a 1a: fructus, us, dies, ei.”

Aí está! Com pessoas que saem do ginásio ou do colégio nessas condições, o que é que se pode fazer? O que é que deles se pode esperar? E em que estado se há de encontrar a língua literária na cabeça e na pena de tais cidadãos?

Não é natural que, tendo-lhes chegado aos ouvidos que se deve escrever como se fala, que é preciso proclamar a independência da “língua brasileira”, não é natural que aceitem eles sem restrições e sem mais exame idéia tão grata?

C) OS MÉTODOS DEFEITUOSOS NO ENSINO DA LÍNGUA NACIONAL

10. Entre as causas da decadência, que vimos analisando, da língua literária se há de dar o devido lugar aos métodos viciosos que se têm empregado no ensino da mesma.

Refiro-me sobretudo à “gramatiquice”. O Brasil foi durante muito tempo o paraíso dos gramáticos e por aí afora pulularam as brigas por questiúnculas gramaticais.

Herdamos e desenvolvemos a concepção do dogmatismo gramatical e mantivemos a tradição do “purismo” caturra do século XVIII.

A “gramática” era entendida como um conjunto de “preceitos” mais ou menos apriorísticos, decretados pela autoridade suprema dos gramáticos, os “grilos da língua”, como espirituosamente lhes chamou Monteiro Lobato.

E estes senhores eram no geral o que há de mais intransigente e caprichoso. Suas preferências e gostos pessoais é que decidiam o que está certo e o que está errado. Principalmente o que está errado. Porque a gramática, no fundo, era para eles a ciência e a arte de encontrar “erros” nos escritores, de classe ou não.

Assim sendo, erigiram um monumento gramatical feito principalmente de proibições, manietando e sufocando a grande liberdade de construção e de formas da língua portuguesa.

Destarte se criou um ambiente altamente propício às “brigas de gramáticos”, de todas as castas e valores. Desde os maiorais até os pequenos grandes sabedores de arrabalde e os “filólogos de Interior”, como os denomina um amigo meu. Uma vez que o argumento único em matéria de linguagem era o de autoridade, nada mais fácil do que levantar e manter uma polêmica de gramatiquice.

Um plumitivo qualquer empregava uma forma ou construção x. por exemplo, colocava “errado” um pronome. Outro plumitivo, às vezes da política local contrária, lançava-lhe em rosto publicamente a falta. Punha-se então a campo, para defender-se, o nosso homem. Citava os autores x, y e z que achavam que podia dizer daquela maneira. E aproveitava a oportunidade para descobrir e apontar três erros no artigo-libelo do adversário. Defesa deste, de envolta com novos ataques e caçada de novos “gatos”: tudo baseado na autoridade dos gramáticos. E assim por diante, até aquilo descair em pura ofensa pessoal.

Agora, imagine-se: um estudante aprendeu a sua gramática dogmaticamente e não raro pelo sistema do “decoreba”, como se diz na gíria escolar. Sim: muitos professores de Português passavam “para a próxima aula” um trecho da gramática, da página tal à pagina qual, para trazer de cor. Um aprendizado seco, material e brutal. Ninguém poderia saber a razão dos preceitos: é porque é. Ou, quando muito, porque o autor do livro diz que é.

Pois bem: esse conhecimento adquirido ficou estéril. Na melhor das hipóteses, o bom estudante ficou com a cabeça cheia de fórmulas vãs, um complicado código de proibições. Na maioria dos casos, aquele formulário “entrou por um ouvido, saiu pelo outro e acabou-se a história”. A menos que não pudesse sair porque o som não atravessa o vácuo...

Depois, cá fora, o ex-estudante, que já se tomou de forte antipatia pela gramática, lê ou tem notícia de várias brigas, em que os dois adversários provam que têm razão. Então, o homem passa-se da antipatia ao desdém: “Ora, que vão bugiar todos esses sujeitos. O melhor é escrever como me der na telha...”

11. Felizmente, já se vem processando há tempo no Brasil uma salutar e eficiente reação contra esse triste estado de coisas. A filologia científica fez auspiciosamente sua inauguração entre nós com João Ribeiro, com o grande Mário Barreto, com Silva Ramos, e continuou esplendida nas mãos de um Sousa da Silveira, de um Said Ali, de um Augusto Magne, de um Otoniel Mota, de um Cláudio Brandão, etc., brilhante geração essa que, para gáudio de todos nós, já suscitou outra representada pelos Serafim Silva Neto, Silvio Elia, Rocha Lima, Matoso Câmara Junior, Ismael Lima Coutinho, etc., “novos” de quem se pode esperar muita coisa.

Agora já se tem de gramática uma concepção justa e verdadeira, a só compatível com a orientação científica dos estudos lingüísticos. Hoje se entende que a gramática é a sistematização dos fatos da língua literária contemporânea. Assim sendo, a gramática não pode constituir-se em código de proibições. É uma apresentação dos fatos da língua, abonada sempre pela única autoridade respeitável, a dos bons escritores, esses homens que têm o senso e a intuição do gênio e da beleza da língua.

Surgiu então uma nova literatura gramatical, em que nos habituamos a ver uma exposição serena e agradável do estado atual e das tendências da língua, tudo ilustrado por farta documentação haurida nos bons modelos: Novos Estudos da Língua Portuguesa, de Mário Barreto, Lições de Português, de Sousa da Silveira, Dificuldades da Língua Portuguesa, de Said Ali, etc.

E daí uma renovação nos métodos de ensino. Gramática, sim, mas nos novos moldes, amena, obediente aos fatos, às realidades da língua, traçando normas onde elas têm lugar, denunciando “tendências” e mostrando liberdade de formas e de construções, onde for o caso. Mas, além da gramática, e de muito mais aplicação do que ela, os textos. Estudo e comentários de textos, onde se procura ressaltar e mostrar ao aluno a beleza e justeza da expressão e onde, a propósito de tal palavra, de tal forma ou de tal construção, se tecem considerações e se ministram ensinamentos relativos a fatos análogos. Interesse motivado. Aprendizagem vitalizada e assimilada. Gramática por partes. Português pelos textos.

12. Mas desgraçadamente, apesar dessa vitória da filologia sobre a gramatiquice, esta última, nos nossos dias, tenta uma contra- ofensiva, para usar a linguagem da época. Porque ela não tinha morrido, não tinha capitulado. Apenas tinha “encurtado as frentes’ e vinha sofrendo bombardeios na retaguarda e nas linhas de abastecimento, sendo que muitas de suas baterias tinham sido “reduzidas ao silêncio”.

Mais, eis que irrompeu agora num setor, com bastante potencial em homens e materiais. Refiro-me aos “textos para corrigir”, moderno processo de aprendizagem (?) da língua. O método só por si é condenável, e pior se tornou porque se fez dele quartel-general da gramatiquice.

13. Pretendo, em ocasião oportuna, examinar detidamente os inconvenientes pedagógicos do novo sistema. Mas não quero deixar de, a respeito, dizer duas palavrinhas.

Como acentuei, o método em si me parece condenável, porquanto não será por meio de um processo negativo que se há de aprender a escrever. Depois de ler, estudar, examinar, bisbilhotar mil frases erradas, quais os bons modelos que terá na consciência e no subconsciente um cidadão? Poder-se-á esperar dele graça, leveza, independência, originalidade de estilo?

Em segundo lugar, porque os remanescentes da gramatiquice viram no novo método uma boa ocasião para se manifestarem, aí se instalaram com armas e bagagens. E então “correção de textos” passou a significar aplicação da bitola gramatical vieux style a trechos dados. E vai-se revivendo toda aquela série de preceitos arbitrários, de fantasias e invencionices, todo aquele código de supostos erros, que já devia, depois de tão luminosos estudos a propósito, estar posto de lado. Volta à cena: não se pode começar frase por porém, não se pode usar o quê interrogativamente, apiede- se é forma errada, que se deve corrigir para apiade-se, não se pode colocar o pronome aqui ou ali, porque tal ou qual palavra o atrai, não se pode empregar o gerúndio com função atributiva, é galicismo o emprego desnecessário de um indefinido, não se pode deixar o verbo no singular tendo por sujeito um dos que, não se deve empregar o sufixo eria, estão errados tais e tais usos do infinito pessoal, e sei eu lá quantos outros preceitos insustentáveis.

O resultado de tudo isso é que o discente, após ter sofrido durante algum tempo a aplicação do método, não só não toma conhecimento das belezas e riquezas da língua, como principalmente perde toda a segurança, toda a confiança no seu sentimento da linguagem. Fica com a obsessão do erro. Quer encontra-lo por toda a parte. Não sente firmeza em nada, em matéria de linguagem.

Já tenho feito dois tipos de experiência em indivíduos intoxicados pelo método. Ora entrego-lhes textos certos, mas sem brilho, frases chãs mas corretas. O sujeito da experiência então fica tateando hesitante na caça aos erros. Acaba descobrindo ressonâncias, cacófatos, hiatos, achando que tal palavra não está bem empregada, censurando a ordem dos termos, etc. outras vezes, dou aos envenenados frases de grandes autores: Camões, Herculano, Garret, Machado, Bilac, etc. Neste caso, é freqüente descobrirem-se erros, impropriedades, anfibologias, solecismos, etc. mas tudo feito às tontas, sem firmeza ou convicção: o cidadão denuncia um defeito aqui, desdiz-se imediatamente; vê outro ali, arrepende-se, volta atrás; adianta que lhe parece isso ou aquilo, não diz coisa com coisa. Percebe-se bem que há uma infinidade de “normas” e “tabus” a flutuar-lhe no espírito, chamados à cena pela memória.

Pelos frutos se conhece a árvore. Se tais são os frutos do método de “textos para corrigir”, penso que se deveria abandona-lo de vez.

14. A “gramatiquice” e os falsos métodos de ensino sacrificaram gerações e gerações de estudantes, que, entrados na vida, deram de mão à gramática e à língua literária, passando a escrever como melhor lhes soubesse e votando mesmo antipatia a tudo que lhes parecesse trabalho de estilo, forma cuidada, busca de expressão, — qualidades essas havidas por ridículas e vitandas.

D) A INFLUÊNCIA DAS MÁS LEITURAS

15. Fazendo conjunto com a série de causas que acabamos de analisar, concorrem finalmente para a atual decadência da língua literária entre nós as más leituras.

Os maus escritos, maus no sentido de mal redigidos, pululam, são livros, originais e principalmente traduzidos, são jornais, são revistas, que veiculam solecismos e barbarismo de toda a sorte, e pela reincidência continuada geram o “hábito”, formando neste e naquele ponto um falso sentimento de linguagem.

Como acima lembrávamos, são as boas leituras as melhores formadoras do senso lingüístico e, por isso mesmo, são as más leituras um dos mais poderosos elementos de deformação lingüística.

Diz-se que Machado de Assis jamais lera uma gramática, e no entanto foi aquele primoroso escritor. Porque leu muito os bons autores. E os leu bem, isto é, com inteligência, observação e critério.

Nos nossos dias já não se lêem os mestre do estilo, ou quando se lêem, será pelo enredo, não se lhes presta atenção à frase lapidar, à justeza de expressão, ao aprimoramento lingüístico. Lêem-se por cima, saltando-se páginas. Mas, ainda assim, são muito poucos os livros bem escritos que merecem a honra da leitura hoje em dia. O que se vê é uma extraordinária avidez pelos romances policiais e de aventuras e pelos romances de outros gêneros, sempre estrangeiros e quase sempre pessimamente traduzidos. Numa linguagem abaixo da crítica. Pejada de solecismos, peregrinismos e destampatórios de toda a ordem.

O nosso “Diário de Notícias”, jornal tão simpático, vem mantendo há bastante tempo uma seção muito útil e digna dos maiores aplausos: “À margem das traduções”. Aí se analisam, com a espontânea colaboração de muitos e atilados leitores, os disparates e tolices que enxameiam esse mundo de traduções feitas na perna, que andam por aí. Outro dia, um colaborador que se assina A.P.R. chamava a atenção, entre muitas coisas, para um que traduziu “general Staff”, isto é, Estado-Maior geral, por “General Staff”, como se se tratasse de um militar altamente graduado.

O fato é que essas traduções, no geral, exercem uma ação ruinosa no que diz ao cultivo da língua literária, não só com perpetrarem a cada passo as maiores barbaridades de linguagem, como também por serem vazadas, de ponta a ponta, num estilo pobre, terra-a-terra, cheio de expressões forçadas, com termos mal empregados, numa ordem monótona e invariavelmente direta.

Essa redação vai ficando no subconsciente e, pela falta de boas leituras, toda a vez que os indivíduos viciados por tais defeitos topam casualmente, em algum escrito, com construções apuradas ou com um vocabulário menos trivial, embora ajustado ao caso, não entendem, ou tacham de extravagante o autor, arcaizante, pernóstico e sei lá que mais.

Não me refiro a estilo rococó, que também eu acho detestável, mas a bom estilo, preciso, claro, elegante, harmonioso.

Os jornais, principalmente agora, com o noticiário de guerra transmitido para cá em Espanhol ou em Francês, os jornais, digo, estão pondo em curso uma série de espanholismos e galicismos ridículos. Assim, por exemplo, é curial ler-se, no serviço telegráfico, que “a aviação aliada seguiu bombardeando a retaguarda inimiga”, quando em Português se diz continuou bombardeando; tem-se notícia, de vez em quando, de que o Oitavo Exército, por ex., “desferiu um ataque desde um ponto situado a Noroeste de Ravena”, quando em Português se diz de. Outro dia li eu que no Quartel- General aliado em Paris “se descartava a hipótese de que os alemães tentassem resistir em tal parte”. A princípio estranhei; mas depois vi que se tratava de expressão écarter l’hypothèse, “afastar a hipótese”. E assim por diante.

16. As causas de decadência da língua, que vimos de analisar per summa capita, mais de uma vez se causam reciprocamente. Assim, as deficiências do curso secundário são frutos do ambiente geral de dissipação e amoralismo; os maus livros são frutos da própria decadência da língua e contribuem poderosamente, por seu turno, para agrava-la.

17. Procurei denunciar esse mal, com a só intenção de colaborar, com as minhas débeis forças, no seu combate.

Já se desenha no horizonte uma reação contra esse funesto descaso pela língua literária e é de esperar que ela produza seus frutos no seu tempo.

Tudo tem a sua hora.

 

(Constitui este artigo a III parte do capítulo VIII — “A Língua Literária” — do livro A Língua do Brasil (Português ou Brasileiro), que se acha no prelo. Na primeira parte, refutando a opinião dos que defendem a “língua brasileira” acenando para a existência de um bilingüismo entre nós, demonstramos, ser natural, em todo país civilizado, a dicotomia língua literária e língua popular, diversa uma da outra. Na segunda parte, assentado que a língua literária, culta, como tal aceita entre nós é a portuguesa, fazemos um histórico dessa língua literária no Brasil. Nesta terceira parte, estudam-se as causas da atual decadência da língua literária.

Coleção Brasileira de Divulgação, Série III Filologia n° 2, Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Saúde, 1946.)

Visita a uma exposição

Quando me recomendaram visitar a exposição Brasil 500 anos - Arte Barroca, realizada no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, alertaram-me para alguns detalhes que poderiam me desagradar. Fui e saí chocado com o que vi, e principalmente com o que ouvi.
 
A exposição, realizada com todo o requinte da modernidade, agrupa um impressionante acervo de estátuas barrocas, todas religiosas, cada uma delas merecendo do visitante alguns bons momentos de olhar contemplativo, silencioso, para poder assimilar na lentidão de nossas parcas almas, a grandeza do que estes grandes homens fizeram antes de nós.
 
Mas toda essa impressionante grandeza é jogada no chão, achatada, pela parvoíce, pela pequenez, pela submissão ao modismo (que é falsa cultura), dos curadores. E quando digo que é achatada, não falo apenas no sentido figurado,  mas até fisicamente, pois inventaram uma entrada e saída onde somos forçados a nos abaixar, talvez para procurar nos nossos intestinos algum traço dos tempos dos macacos!
 
Quando entramos na primeira sala temos a impressão que a mostra será excelente. Uma naveta de carregar incenso litúrgico, de prata, pequenina como é, enche literalmente a sala toda. É aqui que devemos nos abaixar e vai tudo por água abaixo. Na sala seguinte um ambiente escuro ornado por centenas de paus, troncos lisos, formando um cenário com pretensões ecológicas ou lá o que seja, abriga aqui e ali algumas estátuas barrocas. Esse cenário passaria desapercebido não fosse a sonorização, que nos lança de supetão, não no ambiente barroco e católico do século XVII ou XVIII, mas num sincretismo religioso pseudo-ecumênico, onde os sons misturam gregoriano com batuque do candomblé, o berimbau com as cordas de uma viola da gamba. E isso não é uma sucessão de músicas diferentes, mas uma mixagem que joga nossa alma num liquidificador espiritual, de onde só sentimos uma única sensação: ir embora o mais rápido possível. E só não saímos correndo de verdade porque as imagens são belíssimas e merecem o esforço e o sacrifício.
 
As outras salas são ornadas com uma espécie de campo florido, composto de bolas de papel colorido fixados no alto de pontas de vergalhão. Se já não é mais a ecologia, não saberia dizer o que quiseram representar; o fato é que a pobreza do cenário nada tinha de religioso, de espiritual, o que era necessário para bem apreciar obras de arte religiosa de um tempo revoluto. Senti muitas saudades da Mostra dos Espanhóis.
 
Duas coisas mantinham-se como na sala anterior: a beleza sem par da estatuária e o distúrbio mental e espiritual causado pela mistura das músicas.
 
Ao nos aproximarmos do fim, entramos numa sala onde foram expostas as pratarias cinzeladas e o ouro cintilante dos objetos litúrgicos. Belíssimos. A curiosidade dessa vez fica por conta da forma como são expostas as peças. Andamos sobre um piso de vidro blindex e as peças ficam debaixo do vidro. Invenção apenas desnecessária e "modernosa", se não tivessem tido o mau-gosto (já não é o primeiro) de expor uma imagem de Jesus Cristo crucificado, debaixo dos nossos pés! Para quê? Só para dar o gostinho aos infiéis de dizer que "pisaram" em Cristo? Pois é o que os curadores dessa exposição fizeram com a desfiguração do Barroco Brasileiro que ali criaram. E digo isso levado pelo choque que senti ao entrar na última sala. Ali estava estampada a razão de ser daquela música sincretista e irracional: a última sala é dedicada à macumba, às imagens da macumba; e no fundo dela, uma parede inteira com a foto do Cristo coberto de plástico que a afronta, o sacrilégio e o desrespeito dos carnavalescos levaram para o Carnaval alguns anos atrás. Nessa eu não fiquei. Mas entendi o porquê daquela música: a grande mensagem da mostra Barroco Brasileiro é de nos fazer crer que a continuação da arte religiosa brasileira encontra-se na macumba, e que a cultura desse povo é o carnaval!
 
Dizem que cada povo tem o governo que merece. Pois também é verdade dizer que cada povo tem a cultura que merece. E a cultura da barbárie é falsa cultura, como o culto dos demônios e dos espíritos é falso culto. E se essa é a cultura do Brasil de  hoje, então não existe mais cultura no Brasil.
 
Foi o que procurei dizer numa carta que deixei aos curadores, lá no museu. Carta que certamente não será lida. E se for, não mudará nada, pois os homens não querem mais conhecer a verdade e desconhecem que o Belo é o eterno esplendor da Verdade que é Deus.
 


A bofetada

Um filme, um evento, um impressionante acontecimento que sacode o mundo e que nos faz pensar num caleidoscópio de nuances e cores variadas. Hoje eu queria lhes falar deste filme como numa conversa. Amanhã estaremos reunidos para conferências e exposições mais aprimoradas, mais estudadas, de modo a tirarmos o melhor proveito para a nossa Semana Santa, para as nossas almas.
 
Hoje eu queria apenas comentar o que temos lido e ouvido para já irmos entendendo um pouco mais sobre este terremoto.
 
Consideremos, antes de mais nada, que o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, ecoa como um brado ensurdecedor, como um grito da humanidade que já não agüenta mais viver nesta mortal indiferença diante do Sangue derramado por Nosso Senhor para nos salvar. Basta! Chega!
 
E de onde vem este brado, de onde nos chegam estes ecos? Do mais mundano lugar da terra; da pátria do cinema pornográfico, do cinema revolucionário, principalmente do cinema milionário que paga para ter todos os pecados e assim beber o sangue dos inocentes; do campo de sangue da violência brutal, gratuita e agitadora das almas. É da usina construída para decompor a família, a boa conduta, a honestidade e a decência que se lança um grito que alcança os confins da terra. E se este trovão atravessa a terra, se este relâmpago é "visto de oriente a ocidente" , não podemos dizer que ele seja um gemido insignificante. Ele tem volume, ele tem peso, ele tem autoridade.
 
Autoridade de quem sabe o que é cinema; peso de quem é consagrado nas telas; volume de quem pôs a mão no bolso para pagar a conta! Forte dessas prerrogativas este homem venceu as montanhas do ódio, da calúnia, do desprezo, abrindo passagem como outrora o próprio Cristo abriu no meio dos fariseus que não ousaram por as mãos sobre Ele; forte da simplicidade do pobre, da sensatez do sábio, da esperteza da serpente, este homem do mundo mundano gritou e disse: "esta é a minha fé; nisso eu acredito"... "por nossos pecados, pelos pecados de todos nós é que Jesus sofreu tal martírio... a mão que segura o cravo, na hora da crucifixão é a minha própria mão, para mostrar que eu me ponho em primeiro lugar como culpado da morte de Cristo".
 
E enquanto estas coisas eram ditas, enquanto o mundo pasmava diante desse testemunho de fé, aqui ao nosso lado, aos pés do Cristo Redentor do Corcovado, milhares de mundanos do mundo pagão, do mundo podre, desfilava e dançava na festa da carne, da bestialidade, dos gestos obscenos, para aplauso do mundo inteiro: "o maior espetáculo da terra", anunciam os marqueteiros do pecado. E chegam ao Rio milhares e milhares de turistas para pagar a conta do sonho da orgia.
 
Só este contraste já seria suficiente para nos fazer pensar e meditar: o planeta inteiro esquecido do Sangue de Jesus, dançando e cantando como no tempo da Arca de Noé.... e o corajoso filme sacudindo o mundo para lhes mostrar....
 
Para mostrar o quê?
 
É aí que está o mais surpreendente: para mostrar que Cristo morreu por nós e que nós devemos pensar nisso, devemos nos lembrar sempre, que estamos na Quaresma e no tempo da Paixão para que ao menos durante seis semanas estes acontecimentos de dois mil anos espetem nosso coração com a lança, machuquem nosso corpo como o de Jesus flagelado, atravessem a nossa carne que ainda sacode no gozo do pecado, como os cravos atravessaram o corpo virginal do Salvador.
 
Mas esse anúncio vigoroso da Quaresma, do jejum, da penitência, não tinha que partir de outras pessoas? Onde estão os bispos católicos que já não ensinam mais que se não morrermos com Cristo não seremos ressuscitados com Ele? O que fazem estes modernos doutrinadores de um evangelho adocicado, esmaecido, afeminado? Ah! sim. Estão reunidos num Concílio, já tinha esquecido. Estão perdidos no tempo e no espaço, vagando pelas ilusões de um falso cristianismo onde tudo é amor mesmo sem ordem, tudo é perdão, mesmo sem arrependimento; onde todos já estão salvos, sabendo ou não, querendo ou não. Vivem dessa ilusão com os homens de toda a terra já completamente entorpecidos por um século de liberdades e liberalidades. Tudo pode, o homem é livre e nada há que o possa impedir de fazer o que ele quer. Nada há que limite sua vontade todo-poderosa. Nem o pai, nem a pátria, nem Deus.
 
Ei-los, os bispos, aqueles que deveriam ser os sucessores dos Apóstolos, que enchem a boca para pregar a Nova Religião de Vaticano II. Eis a ridícula imagem que lhes resta viver quando do fim do mundo, do fundo do poço ressoa um grito que atinge em cheio o seu rosto. Uma bofetada!
 
É assim que eu defino este filme, A Paixão de Cristo. Uma real bofetada em muita gente:
 
Você quer carnaval? - slapch! Veja a carne rasgada pela flagelação!
Você quer sexo seguro? - slapch! Olhe bem para o rosto desta Virgem Dolorosa!
Você quer missa-refeição? - slapch!! Veja a Cruz levantada, o Coração aberto, o Sangue e a água!

Você quer ecumenismo? - slapch! slapch! Veja, aprenda que só a Cruz de Jesus pode congregar todos os povos e todas as línguas numa única fé, num único rebanho. Aceite esta lição vinda de um homem simples, comum, do cinema, do fundo do poço. Só a verdadeira fé católica é caminho de salvação e as falsas religiões são obra do demônio.
 
Ah! O sagrado chicote com que Jesus expulsou os vendilhões do templo foi posto nas mãos de um homem comum para esbofetear estes falsos levitas. São eles os maiores incriminados pela Paixão de Cristo. São as autoridades que vivem de Vaticano II que há quarenta anos falsificam e desfiguram a Esposa de Cristo.
 
Não, os incriminados não são os judeus. Os judeus de hoje só receberam do filme uma mensagem de verdadeiro amor fraterno; mensagem vinda dos irmãos que abriram a alma à Fé no Messias, Jesus Cristo, nosso Deus Encarnado, e que na oração que brota da fé esperam com sinceridade o retorno do filho pródigo, o retorno do filho mais velho para a Casa do Pai, o retorno de Esaú vindo encontrar-se com Jacó (Gênesis, 32).
 
 

O castigo da peste espiritual: reflexões sobre o eclipse da arte sagrada.

Abril 26, 2010 escrito por admin

Capela contra os hereges
 
No balneário de Trescore, na entrada do vale Cavallina, mirando para Bérgamo, acha-se a antiqüíssima quinta dos Suardos, nobre e religiosíssima família do lugar. Os primos Giovani Battista e Maffeo erigiram, em fins do século XV, uma igrejinha de devoção na parte mais freqüentada da imensa propriedade.
 
Os dois nobres chamaram o já então célebre pintor Lorenzo Lotto, da grande escola veneziana, para que pintasse um afresco em suas paredes, e o instruíram sobre os temas que havia de retratar. Em particular, o artista recebeu o encargo de figurar primorosamente, e da maneira que depois veremos, os feitos dos santos, para assim robustecer a fé do povo contra as heresias luteranas e calvinistas, que negavam seu culto, e que por aquela época se difundiam na dita região por obra dos exércitos germânicos e suíços que a percorriam de alto a baixo.

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