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História (57)

Perseguição à Igreja Católica sob o regime chinês.

Albert Galter

Foi pelo ano de 1920 que a ideologia marxista-leninista foi introduzida na China por agentes a serviço da Rússia. No espaço de trinta anos conseguiu ela impor-se a cerca de meio bilhão de homens, graças à hábil inserção dos seus profetas no jogo dos acontecimentos nacionais, e ao proveito que eles tiraram da situação internacional criada no Extremo-Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Fundado em Shangai em 1921, o Partido Comunista Chinês precisou, pouco a pouco, o seu caráter revolucionário, com o auxílio da Missão de peritos industriais e militares russos que se achava na China desde 1920.

Quando Tchang Kai-Chek começou em 1927 a obra de reunificação interior do país, marchando contra o governo que sediava então em Nankin, os comunistas, aproveitando a guerra civil, formaram por seu lado um governo em Hankow e puseram à testa dele Mao Tsé-Tung (1928). (Continue a ler)

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

Os papas na história do Brasil

Conferência de D. José Pereira Alves

A atuação criadora dos Papas na formação histórica da nossa catolicidade está documentada nos atos pontificais que demonstram a solicitude augusta dos Supremos Vigários de Cristo pela região brasílica, como se dizia nos primeiros tempos da nacionalidade. Eu não estou aqui para fazer uma história eclesiástica do Brasil. Venho corroborar uma afirmação: Os Sumos Pontífices são os grandes criadores e protetores da nossa Pátria Católica.

Basta-me mergulhar aqui e ali em nossa história para sentir o roçagar da sotaina branca do Papa. É a ação, é a vigilância do Pastor Universal a exercer-se soberana e benfazeja por toda parte.

No reinado de Dom João III, o Papa Júlio III pela Bula Super Specula Militantis Ecclesiae, de 28 de fevereiro de 1550, criou o Bispado do Brasil, com sede na Igreja de São Salvador da Região chamada Bahia de Todos os Santos, desligando a Terra de Santa Cruz da jurisdição do Bispo de Funchal. A nossa Diocese, sufragânea do Arcebispo de Lisboa, tinha cinquenta léguas pelo litoral e vinte pelo interior, mas ao Bispo foi outorgada jurisdição por todo o território brasileiro e ilhas adjacentes. Só cento e vinte e um anos depois, oito meses e quinze dias, foi a Bahia elevada à Arquidiocese, pelo Papa Inocêncio XI com a Bula Romani Pontificis Pastoralis Sollicitudo, de 16 de novembro de 1676. Foi o nosso primeiro Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, vigário geral na Índia quando nomeado Bispo do Brasil que mais tarde, naufragando na sua volta a Portugal, foi devorado com todos os seus companheiros pelos índios Caetés. Dizem que a terra onde foi supliciado o nosso primeiro Bispo nunca mais produziu coisa alguma.

O Santo Padre, na Bula criadora do Episcopado no Brasil, depois de referir-se à ação colonizadora de Portugal, às igrejas paroquiais e outros lugares sagrados já existentes à pregação apostólica dos missionários católicos, e à nobreza da cidade de São Salvador, plantada como uma cidadela titular dos fiéis de Cristo, de campos férteis e clima benigno, notável pelo progresso da gente e do comércio, atendendo à humilde súplica de seu caríssimo filho em Cristo, João Rei de Portugal e dos Algarves, desejoso de propagar a fé católica como os seus maiores, constitui a Região do Brasil na Hierarquia Católica, conferindo a São Salvador o ius civitatis e de Igreja Episcopal autônoma. Júlio III é considerado o criador da Igreja Brasileira, no sentido ortodoxo da expressão.

A terra brasílica, santificada pela benção de Jesus Cristo na Missa da Descoberta, percorrida pelas bandeiras missionárias das Ordens Religiosas; o Brasil cujos ventos já repetiam o nome de Jesus e o nome da Imaculada, já se podia sentar pela munificência paternal do Pontífice Romano, nas assembleias ecumênicas da Cristandade e ter o seu voto nos grandes conselhos da Igreja Universal.

Roma olhava com ternuras de mãe para a Igreja nascente da América portuguesa. Não queria, como se insinua na Bula histórica, que o progresso material das novas terras fosse desamparado pelas forças da Fé e do Espírito.

Super specula militantis Ecclesiae, meritis licet imparibus, divina dispositione locati da universas orbis provintias et loca, praesertim Omnipotentis Dei misericordia per Catholicos Reges et Principes ab infidelibus et barbaris nationibus recuperata, et acquisita aciem nostrae meditationis possi reflectimus et ut lucis ipsis dignioribus titulis decoratis plantetur radicibus Chistiana Religio et eorum incolae ac habitatores venerabilium praesulum doctrina et autctoritate suffulti proficiant semper in Fide et quod in temporalibus sunt adepti, non careant in spitualibus incremento, opem et operam libenter impendimus efficaces.

Na Bula em que o Papa Inocêncio XI eleva a Diocese baiana à metropolitana do Brasil e assim, definitivamente, estatui a autonomia eclesiástica de nossa pátria, vê-se o interesse, sente-se a solicitude pastoral com que a Santa Sé acompanha a nova catolicidade. Fala da cidade de São Salvador na Bahia de Todos os Santos com os mesmos elogios da Bula Juliana que criou o Bispado Nacional. Põe em relevo os suores e trabalhos dos reis católicos lusitanos em sujeitarem e desbravarem a terra e o selvagem. As guerras restauradoras contra os hereges holandeses e as missões abnegadas de vários religiosos e outros varões contra as trevas satânicas, a idolatria, o gentilismo e heresias outras, os templos suntuosos, mosteiros e asilos erguidos pela régia munificência, são lembrados no documento pontifical pela consideração do Pontífice — more vigilis Pastoris — como ele próprio afirma.

Várias de nossas capitais foram cidades por direito pontifício, como por exemplo Bahia, Olinda e São Paulo.

Elevou a Bispado a prelazia do Rio de Janeiro, criada por Gregório XIII em Bula de 19 de julho de 1576, o mesmo Papa Inocêncio XI, a 16 de novembro de 1676. O Pontífice chama a nossa grande metrópole de hoje civitas Sancti Sebastiani Brasiliensis Dioecesis in ea parte quae Rivus Ianuarii applelatur, sede de uma só Igreja Paroquial sob a invocação do mesmo São Sebastião. É cidade insigne, diz o Papa, pelo clima salubérrimo, pela população crescente, comércio, pelos mosteiros vários e pelos habitantes seus, nobres e letrados.

Com a Bula Ad Sacram Beati Petri Sedem da mesma data, é instituída a Diocese de Olinda. A Prelazia de Pernambuco devia a sua criação à Bula de Paulo V, de 15 de julho de 1614.

Na Bula de criação do Bispado de Pernambuco, como aliás nas outras, o Romano Pontífice sempre se revela movido pelo desejo de confirmar os débeis na Fé, de instruir os indigentes de doutrina, de chamar os íncolas do Bom Pastor que deu por eles a vida, de plantar novos seminários eclesiásticos. E para realizar estes grandes pensamentos de catolização brasileira, julgava conveniente a constituição de novos prelados. É sob essas apostólicas inspirações do Vaticano que se forma a hierarquia eclesiástica do Brasil, composta desta Trindade constelada: Bahia, São Sebastião do Rio de Janeiro e Olinda, glória avoenga da Igreja no Brasil.

O Bispado do Maranhão foi instituído pelo Papa Inocêncio XI, com a Bula de 30 de agosto de 1667, Super Universas Orbis Ecclesias, que por ser mais fácil ir a Lisboa do que à Bahia de Todos os Santos, segundo reza a Bula, sujeitou a nova diocese à metrópole portuguesa. São Luís tinha dois mil habitantes, fama de gente nobre, de muitas letras, homens de armas. Na criação da nova diocese o Papa acentua o mesmo desígnio apostólico: plantar novas sedes episcopais no campo da Igreja Militante, para que por estas novas plantações aumente a devoção popular, floresça o divino culto, sejam conferidos os Sacramentos da Igreja e se promova a salvação das almas. São expressões textuais do ato pontifício de Inocêncio XI. Durante o governo de Dom Frei José Delgarte, da Ordem da Santíssima Trindade da Redenção dos Cativos, quinto prelado maranhense, foi desmembrada do território do Maranhão a nova diocese do Grão Pará pela Bula Copiosus in Misericordia, de Clemente XII, em 4 de março de 1719, no reinado de Dom João V de Portugal, compreendendo a Guiana Francesa. Na Bula paraense, o Santo Padre se afigura no vértice da montanha a estender o seu olhar de Pastor aos confins do mundo, para prover as necessidades espirituais do imenso campo do Senhor. A solicitude do grande pai das almas se sente excitada pela visão das messes que hão de florir, da sua vastidão e dos ásperos e perigosos caminhos que os apóstolos hão de trilhar para promoverem a colheita, a criar igrejas episcopais que ele chama “novas fontes” e “novos pastores”. Desses novos mananciais se hão de abeberar os povos sedentos. É a linguagem do Pontífice.

A 6 de dezembro de 1745 o douto Bento XIV desmembra da Diocese do Rio de Janeiro as igrejas de São Paulo e Mariana e as prelazias de Goiás e Cuiabá, pela Bula Candor Lucis Aeternae. Tem-se vontade de traduzir e citar toda a Bula beneditina para tornar evidente o empenho e o espiritual açodamento com que o Santo Padre, movido dos mesmos sentimentos dos seus augustos predecessores, atende às súplicas do Rei, às preces e apelos de tantas regiões desamparadas, cujas vozes só depois de um ano podem chegar aos ouvidos do próprio Antístite. À Santa Sé, desde aqueles primeiros tempos, não escapa o problema da evangelização brasileira que só pode ter solução satisfatória pela divisão eclesiástica do imenso território.

Haec, ut percepimus, primum manus nostras levavimus ad eundem Unigenitum Dei Filium cuius vices, licet immeriti gerimus in terris, gratias enixe agentes de tam ferventi praefati Ioannis Regis, charissimi Filii Nostri, Filli vere in Christo charissimi, spiritu sibi coelis effuso: inde ad Pastoralem solicitudinem mostram respicientes, votis eiusdem Ioannis Regis catholica pietate dignis Nobis superius expositis, propensius ac celeriter annuimus.

A Bula divide a Diocese do Rio de janeiro em cinco partes para louvor e glória de Deus Onipotente, honra de Sua gloriosa Mãe Maria e de toda a corte celeste e exaltação da própria Fé Católica.

As prelazias de Goiás e Cuiabá foram elevadas à categoria de Bispado a 15 de julho de 1826 por Leão XII, com a Bula Solicita Catholic Gregis Cura, que vem animada dos mesmos intuitos apostólicos pela cristandade brasileira. O mesmo pontífice atendendo às preces de Monsenhor Francisco Correa Vidigal, ministro plenipotenciário do Primeiro Imperador do Brasil junto à Santa Sé, hilari animo sujeita à metrópole da Bahia as Dioceses do Pará e do Maranhão, até então sufragâneas do Patriarcado de Lisboa, pela Bula Romanorum Pontificum Vigilantia, de 5 de junho de 1827.

A Comissão da Assembleia Legislativa, encarregada de examinar essa Bula, mostra-se no seu parecer satisfeita, vendo de certo modo restituída a muito antiga autoridade dos metropolitanos... e diz que os bispos isolados, não reconhecendo outro superior que o Bispo de Roma, sendo tão difícil o recurso, e para muitos, impossível, podiam ser considerados quais monarcas absolutos.

Vê-se que a Comissão ignorava as Bulas de criação daquelas dioceses e que, portanto, sempre para elas existiu o direito metropolitano.

Monsenhor Vidigal comunicava ao Ministro dos Estrangeiros e corte das últimas amarras eclesiásticas a Portugal nestes termos: “Ilmo. e Exmo. Sr. tenho a honra de participar a Vossa Excelência que em conformidade das imperiais ordens, solicitei aqui a separação dos Bispados do Pará e do Maranhão, da sujeição do Patriarcado de Lisboa, como Metrópole, e que ficassem incorporadas na metrópole da Bahia, o que felizmente obtive, e nesta ocasião remeto a competente Bula, a qual vai no próprio original, juntamente com um transunto para ser enviado ao respectivo metropolitano, a fim de que este assim fique inteirado e comunique aos seus novos sufragâneos devendo ficar o original no arquivo do Império. A sua despesa foi de duzentos e noventa e oito escudos e vinte e cinco baiocos, moeda romana, cuja conta remeto também, inclusa. Deus guarde a Vossa Excelência. Roma, 15 de junho de 1827. Ilmo. e Exmo. Sr. Marquês de Queluz, Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, Monsenhor Vidigal”.

O Bispado do Rio Grande do Sul foi criado pela Bula Ad Oves Dominicas Pascendas, de 7 de maio de 1848, pelo saudoso amigo do Brasil, o Papa Pio IX, que se dignou de sagrar o segundo Bispo de Porto Alegre, Dom Sebastião Dias Laranjeiras. É o único Bispo brasileiro sagrado pelo Papa, honra insigne que se dignou a dar ao Brasil o único Pontífice que pisou terras brasileiras — o grande e imortal Pio IX. A cerimônia se realizou na Capela Sistina a 7 de outubro de 1860. Sentou-se o novo apóstolo do Brasil no solo pontifício, deu na presença do Pontífice a benção Papal e na mesa cedeu-lhe o Papa o lugar de honra. Ao despedir-se lhe disse: tome por modelo de suas ações ao Arcebispo da Bahia.

Ainda foi Pio IX que criou o Bispado Diamantino pela Bula Gravissimum Sollicitudinis de 6 de junho de 1854 e a diocese do Ceará pela Bula Pro Animarum Salute de 8 de julho de 1854, tendo como cidade episcopal Fortaleza, que nos mais antigos documentos eclesiásticos aparece no termo latino Arx ou In arce Seará.

Em 1741, escreve o meu pranteado antecessor Dom Agostinho Banassi, a Bula de Bento XIV dirigindo-se a vários bispos, incluía os do Brasil, onde declara os empenhos da Igreja na conversão dos índios e manifesta-se admirado de não haverem cessado todas as vexações, pelo que comina penas eclesiásticas neste sentido e afirma ter escrito a Dom João V para castigar a quem praticasse esses excessos. Era a grande voz romana mais uma vez a vibrar protetora do indígena perseguido.

Pouco tempo depois da descoberta da América, diz Vasconcelos, os naturais dessas regiões eram tidos por vários como não sendo homens. Havia quem os classificasse um pouco acima dos macacos. Doutrina que, espalhando-se pela nova Espanha, foi reprovada pela Bula Veritas Ipsa de Paulo III de 2 de junho de 1537. Assim concluía: “Em vista do que (ele, Santo Padre) determinava e declarava por autoridade apostólica, que os índios eram verdadeiros homens como os mais e não só capazes da Fé de Cristo, senão propensos a ela segundo chegava ao seu conhecimento; e, sendo assim, tinham todo o direito à sua liberdade, da qual não podiam nem deviam ser privados e tão pouco do domínio de seus bens, sendo-lhes livre lográ-los e folgar com eles, como melhor lhes parecesse, dado mesmo que ainda não estivessem convertidos. Pelo que os ditos índios e mais gentes só se haviam de atrair e convidar à Fé de Cristo com a pregação da palavra divina e com o exemplo da boa vida, sendo írrito, nulo, sem valor nem firmeza, todo o obrado em contrário da presente determinação e declaração apostólica”.

Em solene declaração pontifical — doutrina da religião, justiça, liberdade e caridade — recordada apostolicamente para o Brasil, foi defendida e praticada pelo missionário contra a cobiça dos aventureiros sem ideal, sem humanidade, sem cristianismo. Os Papas foram, pois, os grandes e desinteressados amigos de nossa Pátria. No começo da nacionalidade o Papado protege o caráter humano e a propriedade do índio; nos fins do segundo império, se ergue Leão XIII para advogar em nome de Cristo, pai de todos os homens, a liberdade da raça escrava.

“Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a mínima vacilação, a mais leve preocupação de torcer o ensinamento moral para adaptá-lo às circunstâncias políticas. Vi tão somente a consciência moral brilhando como um farol, como uma luz indiferente aos naufrágios dos que não se guiarem por ela”. Assim comentava o grande Nabuco a sua célebre entrevista com o iluminado Pontífice que, depois da Abolição, destina a Rosa de Ouro à Imperial Redentora dos escravos como testemunha eloquente de sua augusta benevolência pela Princesa e pelo Brasil livre.

Na colônia, no império e na república, o Brasil mereceu sempre uma atenção especial da Santa Sé: O reconhecimento dos privilégios apostólicos do Padroado no Brasil colonial, no Brasil monárquico e imperial, a concessão de favores excepcionais e graças em toda a nossa existência política e religiosa até os dias presentes, as seculares relações diplomáticas entre o Vaticano e a nossa pátria e a permuta constante de afetos filiais e cortesias internacionais mostram à evidência que o Papa é uma personagem viva da História Nacional. Que bela e numerosa é hoje a hierarquia eclesiástica no Brasil! A Santa Sé constelou a nossa pátria do Cruzeiro de cruzes peitorais. São dezesseis as províncias eclesiásticas. As dioceses, prelazias e prefeituras se contam por dezenas. A princípio houve, até dos católicos, quem se tomasse de espanto e receio pela multiplicação de tantas mitras. Não ficariam os bispos como uma espécie de Guarda Nacional? Hoje se vê que o bem, resultante desta milagrosa multiplicação do pão pastoral, é incalculável. Esqueciam-se eles de que, no feliz pensamento de São Francisco de Sales, uma só alma, remida pelo Sangue tem direito a um bispo. E no Brasil imenso, vagam dispersos, sem luz, sem amor, sem Cristo, milhares!

Roma, para distinguir a Terra da Santa Cruz, vestiu da amplíssima púrpura romana um dos seus grandes filhos — este velho servidor da pátria, orgulho do meu estado e honra da Igreja brasileira, o Eminentíssimo Cardeal Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro. A púrpura cardinalícia flameja para toda a América do Sul nas mãos do Brasil católico.

De primeira classe é a nossa Nunciatura Apostólica, cuja representação diplomática por varões claríssimos e de grande devoção pela pátria brasileira, chamam-se eles Barona, exaltado calorosamente pelo Barão do Rio Branco, Aversa, Gasparri, nosso grande amigo, Aloisi Masella, já bem da simpatia brasileira em pouco tempo, bem aqui representado pela bela figura de padre e diplomata de Monsenhor Egídio Lari, tão dedicados ambos aos interesses católicos do nosso amado Brasil. Tem sido eles portadores queridos da amizade paterna, delegados nobres do coração do Papa. E como não há amizade sem lágrima, o Papa também tem chorado por nossa causa, e nenhum chorou mais do que Pio IX, chorou quando viu nos cárceres do Brasil dois bispos brasileiros — o douto e apostólico Dom Macedo Costa e o insigne confessor e mártir Dom Vital, de santa memória, arcanjo da Igreja do Brasil.

Chorava pela religião a majestade daquele augusto Pontífice que recebia entre carinhos os meninos do Colégio Pio Latino, destinando ao seminário uma verba especial, para que nas quintas-feiras jamais faltassem doces para os filhos da América. Sublimidade e doçura de Pai!

Quando o Brasil entendeu que devia ser uma República e os seus primeiros estadistas, num momento de ilusão, que a República deveria ser, para infelicidade nossa, agnóstica, os Papas não perderam o amor pelo Brasil. Leão XIII pensou logo no seu batismo e, numa recepção vaticana diante do Arcebispo Dom Jerônimo Tomé, dizia, acarinhando uma criança brasileira: “Havemos de fazer o Brasil uma República bem católica”. E puxava pelo r...

Os Sumos Pontífices são os criadores e protetores da nossa catolicidade, eles que abençoaram os nossos primeiros missionários, educadores da nacionalidade, enviaram os nossos pastores, suscitaram os nossos seminários, restituíram os nossos claustros gloriosos, martelaram os inimigos descobertos ou ocultos da verdadeira religião, criaram as nossas catedrais e basílicas e mandaram coroar solenemente as imagens da devoção nacional como p. ex. a Milagrosa Conceição Aparecida, Rainha do Brasil. Eles que tem honrado os nossos governos e as datas grandes da pátria com mensagens, condecorações raríssimas e representações esplendidas, como a embaixada brilhantíssima do Centenário; eles que em cada discurso a qualquer peregrinação nacional deixam palpitar um grande amor pelo Brasil.

Muito melhor do que eu, os brasileiros que vão a Roma o sentem. E o nosso grande patrício que ali está, o Exmo. Arcebispo Dom Sebastião Leme neste longo encontro de uma hora, bem melhor poderá dar testemunho da ternura do Pontífice pela nossa terra, nossa gente, nossos destinos históricos. E também, nessa ocasião solene, o Papa sentiu, por um dos mais belos, dos mais ricos, dos maiores e melhores corações da nossa raça, quanto o Brasil quer bem ao Vigário de Jesus Cristo na terra.

Pois bem, senhores. Esta nobre e tradicional Paróquia da Glória se reuniu hoje no seu belo e majestoso santuário, para cantar a glória sacerdotal desse continuador da amizade pontifical ao Brasil, desse grande missionário que por abnegados e cultos visitadores apostólicos percorreu o litoral e o sertão brasileiro, dessa águia apocalíptica que, olhando fixamente o sol do futuro nacional, resolve a fundação do seminário brasileiro, auxiliando o próprio pontífice esse centro cultural da intelectualidade católica e sacerdotal da Pátria com um avultado donativo.

Amor com amor se paga. É verdade que o amor como disse Lacordaire, desce mais do que sobe. É maior o amor do Pai do que o do filho. Mas o Brasil quer que o mundo todo saiba que no seu peito há uma flor que não murcha: a gratidão. As homenagens de toda a pátria católica são homenagens filiais ao grande benfeitor da consciência nacional.

A Paróquia da Glória, pelos expoentes maiores da sua espiritualidade católica, de sua cultura católica, de sua graça cristã e de sua família religiosa e do seu povo fiel ao Cristo, ajoelha-se diante do Grande Sacerdote, puro e sublime na sua velhice de outro, branco na sua batina pontifical e na imaculada alvura de seu longo apostolado e pede-lhe a benção de Pai e Hierarca Supremo, a benção do amigo da nossa grande Pátria providencialmente católica, a benção suave e carinhosa do maior de todos os Padres, mas também do Padre que um dia no Vaticano, num gesto indescritível, beijou a bandeira trêmula do Brasil.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

O Apóstolo da Califórnia

Pe. William J. Slattery

O sacerdote que veio a estabelecer a Missão em San Diego em julho de 1769 não parecia destinado a se tornar o Apóstolo da Califórnia. Junípero Serra (1713-1784) media apenas 1,57m de altura, tinha já 56 anos de idade e sofria de asma. Além disso, sua perna esquerda vivia o tempo todo inflamada com enormes úlceras varicosas, causando-lhe também crescentes dores no peito. Era natural que o cirurgião Don Pedro Prat lhe recomendasse algum descanso para minorar aqueles incômodos, mas “descanso” era uma palavra que não se encaixava muito bem no vocabulário de Junípero Serra. Foi só quando o grande homem jazia morrendo, que lhe ouviram murmurar: “Agora irei descansar.”

Num período de 15 anos, apesar de todos os obstáculos interpostos pela saúde, por conquistadores ambiciosos e por um território ainda não mapeado, esse coração heróico e gênio organizador, ao mesmo tempo desbravador, colonizador e construtor de civilização, um dos maiores pioneiros a explorar o solo americano, trabalhando 18 horas por dia, cobriu milhares de milhas para fundar as Missões que um dia se tornariam as cidades da Califórnia.

 

O que a Califórnia deve a seu Apóstolo

E lá ia esse frágil e franzino padre, de sangue-quente, mancando cansado pelos caminhos ásperos, cruzando de cima a baixo Las Californias. Os que o acompanhavam, faziam-no alegremente, sabendo que ali estava um dos grandes da terra; não apenas uma vontade indomável, mas um coração de pura ternura, um homem que trazia paz ao justo, mas que cuspia fogo sacerdotal sobre políticos e soldados se desobedecessem ao seu aviso austero: “Fiquem longe dos índios.”

A Califórnia deve muito a seu Apóstolo e aos outros 146 sacerdotes que dedicaram suas vidas à fundação e ao desenvolvimento das primeiras cidades da região. Sessenta e sete desses padres viveram e morreram nas Missões, enquanto os outros, após seus dez anos de serviço, foram designados para outras tarefas ou tiveram de voltar à Espanha por motivo de saúde. Aquilo que o historiador protestante Herbert E. Bolton diz sobre o co-fundador da cidade de San Francisco poderia ser dito de todos aqueles padres:

“O Frei Palóu era um estudante dedicado, cristão devoto, discípulo leal, viajante incansável, missionário zeloso, firme defensor da fé, pioneiro engenhoso, bem-sucedido construtor de Missões, hábil administrador e historiador da Califórnia.”

Junípero Serra nasceu na Ilha de Majorca e entrou na Ordem franciscana aos 16 anos. Após sua ordenação, ensinou teologia e obteve fama como pregador influente. Em tudo isso, ansiava por ser um missionário no Novo Mundo. Foi só em 1749 que a Ordem permitiu que cruzasse o Atlântico em direção à cidade do México. Em 1767, começou a trabalhar na área da Baixa Califórnia, onde Missões haviam sido fundadas pela Companhia de Jesus.

Em 1769, viajou para a Alta Califórnia. Em San Diego, estabeleceu a primeira das 21 Missões que se alinhariam no chamado El Camiño Real, a estrada de 600 milhas (966 km) que ia desde San Diego no sul, passando pela Missão San Francisco Solano em Sonoma, até o norte. Numa rápida sucessão, seja pessoalmente ou sob sua supervisão, outras oito Missões foram estabelecidas: San Carlos Borromeo (1770), San Antonio de Padua (1771), San Gabriel Arcángel (1771), San Luís Obispo de Tolosa (1772), San Francisco de Asís (1776), San Juan Capistrano (1776), Santa Clara de Asís (1777) e San Buenaventura (1782). Seus companheiros padres fundaram depois mais 12 Missões. Em 1784, aos 70 anos de idade, após viajar 24.000 milhas, o Apóstolo da Califórnia morreu na Missão San Carlos Borromeo.

A cidade de San Diego já havia sido batizada em honra a San Diego de Alcalá em 1602, quando uma expedição de mapeamento, liderada por Sebastián Vizcaíno, parou naquela localidade para celebrar a Missa no dia da festa do santo. Entretanto, foi em 16 de julho de 1769 que o padre Serra plantou a cruz em Presidio Hill, fundando a Missão lado a lado com o posto militar que havia sido estabelecido ali três meses antes, tornando-a o primeiro assentamento europeu permanente na Costa do Pacífico dos Estados Unidos. Os colonos chegaram em 1774 e, entre altos e baixos, por volta de 1797 a Missão havia se tornado a maior da Califórnia, com uma população de mais de 1.400 pessoas.

O lugar onde hoje se encontra a cidade de Los Angeles foi observado com atenção pelo Pe. Juan Crespi, que, em 2 de agosto de 1769, escreveu em seu diário que o local tinha potencial para um belo assentamento. O padre era membro da expedição de Gaspar de Portola, que viajava pela Alta Califórnia procurando lugares adequados para Missões. A expedição entrou no que agora é Los Angeles através de Elysian Park e foi bem recebida por oito nativos americanos. O Pe. Crespi registrou em seu diário:

“Após viajar cerca de uma légua e meia através de uma passagem entre algumas colinas baixas, entramos num vale muito espaçoso, bem desenvolvido com choupos e amieiros, entre os quais corria um belo rio de norte para noroeste que, virando depois de uma colina íngreme, seguia para o sul.”

Apesar de terem experimentado três tremores de terra durante sua breve estadia, o consenso foi de que era um “lugar encantador” e que tinha “todos os requisitos para um grande assentamento”.

 

A Missão de San Gabriel

 

Em 1771, o Pe. Serra instituiu a Missão de San Gabriel Arcángel, próxima a Whittier Narrows, no que hoje é conhecido como San Gabriel Valley. Graças à recomendação do Pe. Crespi, o governador espanhol da Califórnia, Felipe de Neve, decidiu fundar um assentamento lá. Em 5 de setembro de 1781, 44 colonos, “Los Pobladores”, acompanhados por dois padres, quatro soldados da colônia e o Governador, estabeleceram a cidade chamada El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles del Río de Porciúncula. Dois terços desses colonos eram mestiços; um tributo à integração étnica promovida pelos sacerdotes católicos nas Américas.

O local da atual San Francisco foi descoberto em 1º de novembro de 1769 pelo Pe. Juan Crespi e Don Gaspar de Portola, acompanhados por um grupo de soldados, enquanto viajavam para o norte a partir de San Diego. De 6 a 11 de novembro, o grupo acampou em torno de uma sequóia gigante (palo alto), e o padre anotou em seu diário que lá havia “um ancoradouro muito grande e adequado.” Três anos depois, em 1772, o Pe. Crespi e o Tenente Pedro Fages seguiram viagem ao longo da costa leste da Baía de San Francisco: os primeiros homens brancos a caminhar pela região das atuais Oakland, Berkeley, Richmond, Hayward e San Leandro.

Em 29 de setembro de 1775, Juan Bautista Anza e o Pe. Pedro Font lideraram 200 colonizadores pioneiros no primeiro estágio de sua jornada de 1.600 milhas desde Sonora e Sinaloa até a Baía de San Francisco. Pe. Font, um catalão, era um homem de muitos talentos. Além de saber manusear a balestilha, instrumento que permitia aos viajantes determinarem sua latitude por meio de observações da altura do Sol, o padre também trouxe a música para alegrar o coração dos cansados viajantes nas noites californianas com o seu saltério, um tipo de harpa. Em Monterey, ele e Anza deixaram o grupo momentaneamente para irem além e selecionarem a localização exata para a Missão e para o Forte na Baía de San Francisco. Em 28 de março de 1776, o Presidio (Forte) foi fundado. Em 29 de junho, o Pe. Francisco Palóu e o Tenente José Joaquin Moraga fundaram a Missão de San Francisco. O assentamento ficou conhecido popularmente como Misión Dolores, devido ao riacho próximo chamado Arroyo de Nuestra Señora de los Dolores. Pedro Font escreveu o seguinte sobre o local escolhido para a Missão:

“Cavalgamos cerca de uma légua para o leste (desde o Presidio), um de nós na direção lés-sudeste, o outro na direção sudeste, passando por colinas cobertas por arbustos e por vales de uma terra agradável. Assim chegamos a duas lagoas e a vários mananciais de boa água, encontrando também muita grama, funcho e outras ervas salutares. Quando chegamos a um adorável riacho, o qual, por se tratar da Sexta-Feira da Paixão, chamamos de Arroyo de Los Dolores... nas margens do riacho... descobrimos muitas camomilas perfumadas e outras ervas, e muitas violetas selvagens. Próximo ao regato, o tenente plantou um pouco de milho e grão-de-bico para testar o solo, que para nós parecia adequado.”

A cidade que hoje se chama Ventura foi originalmente denominada San Buenaventura, em honra ao Doutor da Igreja do século XIII. Em 31 de março de 1782, o Pe. Junípero Serra fundou aquela Missão, na presença do Governador, Don Felipe de Neve, e do Tenente José Francisco de Ortega.

A cidade de Santa Barbara deve seu nome a Sebastián Vizcaíno, que, em 1602, deu-lhe esse nome em agradecimento à santa, por sua intercessão durante uma violenta tempestade. Em 4 de dezembro de 1786, o Pe. Fermin Lasuen, sucessor do Pe. Serra, fundou a “Rainha das Missões” numa área montanhosa, uma milha a nordeste do forte, com uma esplêndida vista para o vale e para as águas. Em torno dela, agrupou alguns tijolos de argila: o núcleo da futura cidade. Os padres também construíram um sofisticado sistema de fornecimento de água — ainda parcialmente em uso hoje em dia — com um aqueduto de pedra que levava água de um riacho represado nas colinas até a Missão, onde havia até um sistema filtragem para fornecer água potável.

 

A Conversão dos Nativos

Graças ao Pe. Junípero Serra, muitos nativos americanos vieram a conhecer e a amar Jesus Cristo. O padre procurou sempre, em meio a todas as limitações sócio-políticas da Espanha colonial e ao jeito de pensar típico da época, trazer apenas a verdade e a bondade para os nativos californianos. Um empreendimento sucedia a outro num transbordamento de ardentes esforços para oferecer àquele povo Missões que fossem auto-suficientes, nas quais eles estivessem protegidos dos colonizadores e prosperassem tanto materialmente quanto espiritualmente. Por volta de 1830, cerca de 40.000 católicos nativos americanos “possuíam quase 400.000 cabeças de gado, mais de 300.000 porcos, ovelhas e cabras, 62.000 cavalos, e fazendas que produziam mais de 120.000 alqueires de grãos; mais a produção de pomares, hortas, lagares, teares, lojas e forjas.”

O chefe dos Kechis em San Luis Rey contou a John Russell Barlett, um comissário do governo dos Estados Unidos que trabalhou na Califórnia no período entre 1850 e 1853, “que sua tribo era grande e o seu povo, feliz, quando os bons padres estavam ali para protegê-los. Que cultivavam o solo, ajudavam na criação de grandes rebanhos de gado, aprendiam a ser ferreiros e carpinteiros, assim como outros ofícios; que tinham abundância de comida, e eram felizes... Agora estavam dispersos, e ele não sabia por onde andavam, sem casa e sem protetores, passando fome e em condição miserável.”

 

A Formação de uma América Católica

Um exame dos feitos de Eusébio Kino, Júnipero Serra e outros padres pioneiros mostra não apenas como eles desbravavam a terra e fundavam assentamentos, mas também como contribuíram para a formação de uma cultura católica em extensas regiões do Canadá e dos Estados Unidos, o que desmente a quimera sobre as origens quase exclusivamente protestante e anglo-saxã dessas nações. A fundação do primeiro assentamento permanente inglês em Jamestown em 1607 e a chegada do navio Mayflower com os Peregrinos em 1620 certamente foram eventos importantes no início da colonização dos Estados Unidos. Mas no Sul e no Oeste, outra cultura sofisticada, e católica, já havia nascido com o estabelecimento da primeira cidade da nação, St. Augustine na Flórida (1565), seguida em 1608 por Santa Fe aos pés das Montanhas Sangre de Cristo.

Portanto, ainda que nos orgulhemos, por exemplo, da arquitetura colonial em Nova Inglaterra, não podemos deixar de nos encantar com as linhas puras dos edifícios brancos de estilo espanhol no Texas, Arizona, Novo México e Califórnia. Estes devemos aos católicos que os legaram à nação como uma herança que é tão caracteristicamente americana quanto a arquitetura colonial da Nova Inglaterra.

E o que uma mente livre de preconceitos pode pensar ao contemplar as amáveis Missiones da Califórnia? Certamente, em meio às limitações de tudo o que é humano, elas constituíram os empreendimentos mais efetivos em termos de integração racial na história dos Estados Unidos, onde os nativos americanos encontraram um oásis de segurança, e onde os padres preservaram o conhecimento das línguas nativas, estilos de vida e trabalhos manuais dos índios por meio de dicionários, gramáticas e histórias que compuseram.

O comissário do governo americano, John Russell Barlett, observou que as Missões da Califórnia conseguiram tanta coisa “não pela espada, nem por tratados, nem por presentes, nem pela ação de índios traidores, que sacrificariam seu próprio povo sem escrúpulo ou remorso em favor de seus ganhos vis... a Companhia de Jesus (e outras ordens religiosas) conseguiram mais resultado na melhoria das condições de vida dos índios, do que o governo dos Estados Unidos desde o estabelecimento do país.” O histórico do catolicismo na integração das raças das Américas, tanto do Norte quanto do Sul, é insuperável. Quanto mais cientes estivermos disso — e de tantas outras realizações de nossos antepassados católicos — mais vigorosamente ressoará em nossos corações o chamado para imitá-los no presente e no futuro.

(The Angelus, Julho-Agosto/2020, tradução: Permanência)

As Raízes Católicas dos Estados Unidos

Pe. William J. Slattery

Ainda que a maioria dos acadêmicos há muito ignorem o fato, desde o início do século XX importantes historiadores não-católicos têm se dedicado a reavaliar as raízes católicas da América do Norte. Entre eles esteve o eminente Herbert Eugene Bolton (1870-1953), intelectual da Universidade da Califórnia que, em 1932, tornou-se presidente da American Historical Association. Honrado com as mais altas condecorações por uma dezena de faculdades e universidades nos Estados Unidos e no Canadá, foi também aclamado internacionalmente, notavelmente por Pio XII, que em 1949 o nomeou “Cavaleiro de S. Silvestre”. Em cerca de 90 publicações, tais como Outpost of Empire (1931), Rim of Christendom (1936) e o discurso The Epic of Greater America, Bolton mostrou que os americanos só poderão entender sua identidade nacional por meio de uma visão holística de todo o contexto pré-colonial e colonial, particularmente das influências espanholas e francesas.

Um terço de seu The Colonization of North America – 1492-1783 é dedicado às expedições e assentamentos católicos que ocorreram antes que os Peregrinos do Mayflower1 desembarcassem em Plymouth em 1620. Seus escritos revelam o pensamento de alguém de fora do catolicismo que freqüentemente se surpreende e admira com vigor aqueles católicos que, com inteligência, ousadia, braços e suor, construíram sociedades regionais católicas que beneficiaram todas as raças norte-americanas. Com a habilidade de um mestre em história, Bolton, juntamente com o agnóstico Francis Parkman entre outros, revelou quão verdadeira foi a declaração de Leão XIII aos americanos: “Os nomes originalmente dados a tantas de suas cidades, montanhas, rios e lagos mostram e testemunham claramente o quanto suas origens foram profundamente marcadas com as pegadas da Igreja Católica.” Ao nos confrontarmos com esses fatos, descobriremos que também houve Pais Fundadores Católicos dos Estados Unidos e do Canadá.

 

Os Vikings católicos que chegaram em terra firme

A saga da presença católica na América do Norte começa em dois lugares: na Groenlândia (entre as brumas da história) e em algum lugar da costa oriental do nosso continente.

A Groenlândia foi colonizada por Érico, o Vermelho, com 14 embarcações de colonos no ano 985 d.C. Em 999, seu filho, Leivo, então com 19 anos, “homem grande e poderoso, de comportamento admirável, sábio e muito justo em todas as coisas”, passou um inverno na corte do Rei Olavo Tryggvason2. Persuadido pelo Rei, Leivo converteu-se à Fé católica. Voltou à Groenlândia na companhia de um padre e, lá chegando, no inverno de 1000-1001, contou à família sobre sua fé recentemente descoberta. Seu pai ficou furioso, mas sua mãe, Thjodhild, abraçou o catolicismo e fundou a primeira capela em Brattahlid, “e lá, ela e aqueles do povo que haviam aceitado o cristianismo, e foram muitos, ofereciam suas preces.” Leivo “logo começou a pregar o cristianismo e a Fé católica pela terra, comunicando a mensagem do Rei Olavo Tryggvason ao povo e dizendo-lhes quanta excelência e glória havia nessa Fé.”

Muitos groenlandeses se tornaram católicos no início do século XII. Em 1124, de acordo com a Saga de Einar Sokkesson, os católicos enviaram uma delegação, chefiada por Sokkesson, ao Rei Sigurdo, o Cruzado3, pedindo que lhes enviasse um bispo residente. O rei propôs Arnaldo, sacerdote da corte real, como primeiro bispo de Gardar (atual Igaliku). Arnaldo, apesar de seus protestos quanto a sua indignidade, foi consagrado pelo arcebispo de Lund, que recebera autoridade de Roma para nomear e consagrar bispos para a região. O novo bispo chegou à Groenlândia em 1126, após um ano na Islândia, e fundou a Diocese de Gardar, a primeiríssima diocese norte-americana.

A diocese floresceu nos 26 anos em que esteve sob a liderança de Arnaldo, uma vez que “o Bispo Arnaldo parece ter sido um típico prelado medieval, humilde e devoto em sua vida privada, mas zeloso e inflexível em qualquer matéria que se referisse aos direitos de seu ofício e de sua diocese.” Ao longo dos anos, os católicos nórdicos construíram cerca de 16 igrejas de pedra, entre elas a catedral de arenito em forma de cruz, de 25m de comprimento, por cujas ruínas ainda podemos caminhar, parar e rezar em mística comunhão com nossos antigos irmãos e irmãs Vikings, cheios de admiração por sua fé.

A Igreja cresceu por três séculos na terra dos fiordes de gelo, planícies floridas e incontáveis geleiras, sob a liderança dos bispos de Gardar, cuja linhagem ao longo dos séculos podemos rastrear nos registros dos arquivos do Vaticano. A população parece ter chegado a cerca de 10.000 pessoas no século XIV.

“No entanto, a alvorada é breve, e o dia muitas vezes não corresponde à sua promessa.” 4. Um declínio gradual tomou conta da Igreja Católica na Groenlândia, causado por questões políticas, econômicas e negligência eclesiástica, exacerbado pelo clima severo e pelo isolamento geográfico. Em 1448, o Papa Nicolau V, preocupado com os relatos de uma Groenlândia sem padres, escreveu que os groenlandeses “têm estado, conseqüentemente, durante estes últimos 30 anos, sem o conforto e o ministério de bispo ou padre, a não ser pela presença de alguns de disposição muito zelosa, e a grandes intervalos, e apesar dos perigos do mar furioso, que se aventuram a visitar a ilha e a administrar-lhes os sacramentos naquelas igrejas que os bárbaros deixaram de pé.” Uma carta do pontífice Bórgia, Alexandre VI (1492-1503), escrita em 1492, apesar de silenciar sobre as causas eclesiásticas e políticas, ainda assim soa um sinistro alarme, lembrando-nos de que o destino da Igreja em qualquer terra ou século depende grandemente das ações e omissões dos homens.

E então aconteceu a misteriosa colonização da costa oriental dos Estados Unidos e do Canadá. A evidência documental é bem insistente: várias fontes antigas narram que monges irlandeses fundaram ali em algum lugar um oásis cristão, que nas sagas islandesas e em suas Crônicas da Groenlândia é chamado Hvitramannaland (Terra do Homem Branco) ou Irland It Mikla (Irlanda Maior), localizado a Oeste no mar, próximo à boa Vinlândia. Durou pelo menos até o ano 1000 com uma ativa presença católica, como se deduz pela narrativa no Landnámabók do islândes pagão Ari Marsson, que, perdido em viagem, lá aportou em 983 e foi batizado.

A arqueologia tem confirmado recentemente que os Vikings tiveram um ou mais assentamentos nas praias orientais dos atuais Canadá ou Estados Unidos, próximos a Irland It Mikla. Leivo, filho de Érico, o Vermelho, em sua viagem de retorno da Noruega para a Groenlândia no ano 1000, saiu do curso e descobriu a área que os Vikings chamaram de “Vinlândia”. Por essa informação, somos gratos aos sóbrios relatos nas sagas de Thorfinn Karlsefni, preservadas em 28 manuscritos. No ano 1003, foi o próprio Karlsefni que fundou uma colônia em algum lugar na costa americana, que, entretanto, acabou após três anos devido a dissensões internas.

Mas existiram outros assentamentos duradouros na Vinlândia, como sabemos graças às descobertas feitas nos anos 1960 sobre uma comunidade nórdica em L’Anse aux Meadows em Newfoundland5. Arqueólogos dataram a idade desse assentamento em 1000 anos. Uma vez que provavelmente a população nórdica da Groenlândia era significativamente católica por volta do ano 1090, a presença católica na Vinlândia é uma hipótese razoável. Há também a insistente referência em seis diferentes pergaminhos das crônicas islandesas mencionando secamente que em 1121 “o bispo Érico partiu da Groenlândia para chegar à Vinlândia.” Érico não era um bispo da Groenlândia, mas um missionário, provavelmente da Noruega ou da Islândia, que tinha ido à Groenlândia para ordenar sacerdotes e exercer outras funções, e que, enquanto lá, decidiu seguir caminho até a colônia da Vinlândia. Nada mais se sabe sobre o misterioso prelado, e, considerando o que sabemos, ele pode ter passado o restante de sua vida edificando a Igreja Católica no continente norte-americano.

Portanto, historicamente podemos dizer que o século XI viu o primeiro altar estabelecido nas costas da Groenlândia e provavelmente também na Vinlândia; que embarcações vikings lançaram âncora, um sacerdote católico pisou em terra firme, fincou a Cruz, e o continente norte-americano ouviu a entoação das palavras sagradas da Missa Tradicional Católica e viu a hóstia branca ser erguida para abençoá-lo e reivindicá-lo para Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Rumo à Flórida, às Montanhas Rochosas e ao Álamo

Cinco séculos depois, outros católicos desembarcaram e se aventuraram pelos ermos, planícies, montanhas, rios e lagos do Novo Mundo, desde St. Augustine na Flórida até Los Angeles na Califórnia, desde o Álamo (“San Antonio de Valero”) no Texas até Le Détroit du Lac Érie6.

Ponce de Léon chegou à Flórida em 1513. Com efeito, o nome da região vem do fato de ter sido avistada pela primeira vez pelos espanhóis na Pascua Florida [Domingo de Páscoa]. Em setembro de 1540, a expedição de Francisco Vásquez de Coronado, da qual fazia parte o Pe. Juan de Padilla, já havia alcançado o Grand Canyon e as Montanhas Rochosas. Em 1542, enquanto estabelecia a primeira Missão católica nos Estados Unidos que conhecemos hoje, o Pe. Padilla foi crivado por flechas nas planícies do Kansas, tornando-se assim o proto-mártir da nação.

Em 21 de maio de 1542, braços fortes sob mantos cobertos de poeira já haviam carregado a cruz na marcha mais longa até então já feita no continente americano, uma vez que sacerdotes acompanharam a expedição de De Soto através da Geórgia, pelas Carolinas, através do Tennessee, Alabama e Mississippi, prosseguindo pelo Arkansas e Oklahoma, Texas e Louisiana. “Se os padres que acompanharam De Soto”, escreve o historiador John Gilmary Shea, “tiveram a chance de rezar a Missa, a marcha do Santíssimo Sacramento e do Preciosíssimo Sangue através do continente foi completa.” De qualquer forma, padres já haviam pregado a Fé em ambos os lados do Mississippi, já cristianizado desde 1519 com o esplêndido nome de “Río del Espíritu Santo”.

O dia 8 de setembro de 1565 ouviu o Pe. Francisco López de Mendoza Grajales oferecer o Santo Sacrifício na fundação da cidade mais velha da nação, St. Augustine na Flórida. Dentro de 100 anos, os incansáveis missionários da região estabeleceram mais de 40 assentamentos para cerca de 26.000 nativos americanos. Os assentamentos chegavam ao norte até St. Catherine’s Island na costa da Geórgia, e recebiam nomes como Ascension, Our Lady of the Rosary e St. Joseph.

Em 1598, nove anos antes de os ingleses desembarcarem em Jamestown, dez frades franciscanos chegaram com Juan de Oñate e colonos espanhóis ao Novo México, que chamaram de Santa Fe. Lá construíram San Gabriel, o primeiro assentamento permanente na área.

Em 1691, Damian Massenet, capelão franciscano de uma expedição ao interior do Texas, acampou na localidade que atualmente é a cidade de San Antonio, cristianizando o novo assentamento com o nome do santo do dia, Antônio de Pádua. O ano 1718 viu a fundação da primeira Missão, “San Antonio de Valero” (mais conhecida hoje como o Álamo). O fundador da Missão de San José foi o Venerável Antonio Margil, popularmente conhecido como “o Padre Voador”, que viajava freqüentemente a pé cerca de 50 milhas por dia, e que deu início a centenas de Missões numa vida de atividades sem descanso, indo das florestas tropicais da Costa Rica até o leste do Texas e as fronteiras da Louisiana.

Entre os pioneiros no Centro-Oeste e no Oeste estavam padres como Francisco Garcés, que, em 1775, liderou os primeiros homens brancos de que se tem registro que entraram em Nevada. No mesmo ano, em Utah, os padres Escalante e Dominguez seguiram o rio que fluía através do Spanish Fork Canyon, chamando-o Río de Aguas Calientes (atualmente o Spanish Fork River). Em 24 de setembro, avistaram o lago e o amplo vale de Nuestra Señora de los Timpanogotiz (atualmente Lago e Vale Utah), que descreveram como “o local mais agradável, belo e fértil em toda a Nova Espanha.”

No século XIX, católicos eram geralmente homens da fronteira, de uma forma ou de outra. Entre eles são notáveis o Pe. Pierre-Jean De Smet, o Apóstolo das Montanhas Rochosas, Pe. Ravalli em Montana e Idaho, e Pe. Lucien Galtier em Minnesota, que construiu uma capela de toras de madeira dedicada a São Paulo em 1841, em torno da qual a cidade de mesmo nome (St. Paul) se desenvolveu.

 

Em direção a Quebec e à América Setentrional e Ocidental

Um exemplo claríssimo de “colonialismo católico”, radiante em sua pureza inicial, foi a fundação do que agora é a cidade de Montreal, na província de Quebec. A inspiração nasceu no coração de um leigo francês conhecido por sua vida de oração mística, Jérome de Dauversière, que estava convencido de que deveria fundar uma Missão na região superior do Rio St. Lawrence. Graças à fervente fé de Paul Chomedey de Maisonneuve, um soldado, e os esforços de 35 franceses que queriam estabelecer um centro de evangelização para os nativos americanos, o projeto decolou. Antes de zarparem, esses bravos homens e mulheres reuniram-se sob o grande Pe. Jean-Jacques Olier, na Catedral de Notre Dame, para consagrarem a si mesmos e seu projeto à Bem-Aventurada Virgem Maria. Ao chegarem ao destino, em maio de 1632, deram a seu assentamento o nome de “Ville Marie” (atualmente Montreal), cantaram o Veni Creator Spiritus e passaram o primeiro dia em adoração ao Santíssimo Sacramento.

Aquilo era o catolicismo em ação: nobres homens e mulheres dedicados a trazer tudo o que fosse bom, verdadeiro e santo a seus próximos na América do Norte, mesmo que isso significasse abandonar sua amada terra e seus parentes na Europa. A pureza de seus motivos e de sua conduta foi uma fragrância sempre presente na história dos outros católicos que fundaram o que se tornou a então intensamente católica terra de Quebec.

Notáveis entre eles foram os “Black Robes7, os padres e irmãos da Companhia de Jesus. Desde o início do século XVII, alguns dos mais admiráveis jovens da França cruzaram o Atlântico para derramar sua vida na América do Norte.

Sua primeira sede foi em Quebec, de onde os jesuítas se espalharam para inaugurar territórios de Missão entre os Hurons em Ontário, Michigan e Ohio; com os Iroquois de Nova Iorque e os Abnakis no Maine; entre os Chippewas, Algonquins e Ottawas no Wisconsin e em Michigan; com os Illinois; e finalmente, entre os Creeks e outras tribos na Louisiana.

O desbravador jesuíta mais famoso foi Jacques Marquette (1635-75). Descrito por seu superior como um homem de “comportamento maravilhosamente gentil”, causou profunda impressão nos nativos americanos, o que é compreensível, pois além de seu natural encanto, aos 38 anos de idade já havia aprendido seis dialetos nativos durante seu trabalho com os Illinois, os Pottawatomis, os Foxes, os Hurons, os Ottawas, os Mackinacs e os Sioux. Sua conduta deixava transparecer um amor excepcionalmente sensível por Deus. Parkman fala de maneira tocante da devoção do padre francês à Imaculada Conceição, em cuja honra nomeou a última Missão por ele fundada, sete semanas antes de sua morte “entre as florestas”.

Em 1673, ele e Louis Jolliet, juntamente com cinco companheiros, partiram de St. Ignace (Michigan) em canoas de casca de bétula em atendimento ao apelo de alguns índios, entre os quais alguns Illinois, que tinham vindo até o padre para pedir-lhe que visitasse sua terra natal próxima a um grande rio. Lançando seus remos nas águas, viajaram mais de 2.000 milhas através do ermo, tornando-se os primeiros europeus a ver e mapear a parte norte do Mississippi, que descobriram desembocar no Golfo do México e não — como se tinha pensado até então — no Pacífico em algum lugar da Califórnia. Em sua jornada, passaram o inverno de 1674 na área que agora é Chicago. Bancroft, escrevendo sobre esses jesuítas, exclama com admiração: “Não se dobrou um cabo, ou se entrou por um rio, mas um jesuíta liderou o caminho.”

Todos os católicos norte-americanos podem reivindicar filiação espiritual dos mártires Isaac Jogues (1607-1646), Jean de Brébeuf (1593-1649) e seus companheiros. Os Hurons chamaram Brébeuf de “Echon”, que significa “árvore que cura” ou “aquele que leva o fardo pesado”, seja porque lhes trazia remédios ou porque o padre, de forte compleição, geralmente carregava mais do que sua parte da carga nas jornadas, ou talvez por ambas as razões. Em 16 de março de 1649, os Iroquois capturaram Jean de Brébeuf e Gabriel Lalemant perto de Georgian Bay. O relato de suas mortes não é para os de coração fraco. Seus captores os amarraram a estacas, arrancaram-lhes o escalpo e os mutilaram, jogaram água fervente sobre seus corpos e aplicaram fogo, colares e machadinhas incandescentes sobre suas peles. Nem um único grito escapou dos lábios de Brébeuf. Os Iroquois, espantados com tamanha super-humana coragem, arrancaram-lhe depois o coração e o comeram, esperando receber algo de seu espírito.

Foi a consumação heróica de uma saga de 15 anos repleta de atos de heroísmo diário, como ele mesmo, de maneira resignada e com um toque de humor, escreveu numa carta de 1636 aos ardentes jovens jesuítas na França que esperavam juntar-se a ele: “Quando forem até os Hurons... vocês chegarão numa época do ano em que as pulgas os manterão acordados durante quase toda a noite. E esse pequeno martírio, para não falar dos mosquitos, biriguis, e outros de mesma linhagem, dura geralmente não menos que três ou quatro meses do verão.”

 

Os Católicos e os Nativos Americanos

As crônicas do Novo Mundo dos séculos XV a XIX abrem uma janela para uma paisagem repleta de padres que simplesmente são figuras maiores que suas próprias vidas: homens que aplicaram suas mentes aguçadas, corações nobres e corpos incansáveis como escudos para a dignidade dos nativos americanos. Eles não devem ser esquecidos jamais. Como em qualquer situação envolvendo homens pecadores, sempre haverá sombras. Entretanto, a verdade que resplandece é que graças a sacerdotes católicos, que abandonaram família, amigos, conforto e cultura para viver com e para os povos do Novo Mundo, a integração racial por meio do casamento, e não a segregação, tornou-se a norma nas Américas, ao menos onde os políticos não bloquearam os esforços da Igreja, como aconteceu na América do Norte anglo-saxã.

Historiadores protestantes e outros intelectuais são críticos da colonização anglo-saxã da América e às vezes chamam a atenção para o quão diferente foi a abordagem católica. C. S. Lewis observou: “Os ingleses... se contentaram com a colonização, que concebiam principalmente como um sistema social de fornecimento de saneamento básico, um alívio para ‘pessoas necessitadas que agora preocupam o império britânico’ e ‘que passam os dias cuidando dos enforcamentos’.” Quão diferente eram os católicos! Como observou o historiador John Tracey Ellis, ao comentar sobre os missionários espanhóis (embora o mesmo pudesse ser dito também dos franceses e dos portugueses):

“Havia um elemento de compaixão pelo pele-vermelha como filho de Deus, na forma de pensar dos missionários espanhóis, que estava completamente ausente na atitude da maioria dos colonos ingleses ao longo da costa do Atlântico. O que inspirava os extraordinários sacrifícios dos missionários, era a convicção de que o índio tinha uma alma digna de ser salva. Isso, e apenas isso, explica a persistência obstinada com a qual os missionários seguiam em frente diante de repetidos reveses e tragédias, tais como o assassinato do Frei Juan de Padilla, seu proto-mártir, nas planícies do Kansas em 1542. Como explicar de outra forma o fato de tantos sacerdotes altamente dotados, como o jesuíta tirolês, Eusébio Kino, e o franciscano de Majorca, Junípero Serra, ambos homens treinados na universidade, terem abandonado seu ambiente cultural para dedicarem suas vidas ao crescimento moral e espiritual desses povos selvagens?”

A cena profundamente tocante, descrita pelo historiador Francis Parkman, de padres jesuítas cuidando dos doentes entre os Hurons, que sofriam de uma epidemia de varíola, repetiu-se milhares de vezes pelas Américas do Norte e Latina:

“Mas quando os vemos, no sombrio fevereiro de 1637 e nos ainda mais sombrios meses subseqüentes, indo a pé de uma vila infectada até a outra, perambulando pela neve encharcada, sob florestas nuas e gotejantes, ensopados pelas chuvas incessantes, até avistarem ao longe através das tempestades as habitações agrupadas de algum vilarejo bárbaro; quando os vemos entrando um após o outro nessas infelizes moradas de miséria e escuridão, e tudo para um único fim, o batismo dos enfermos e moribundos... devemos admirar o zelo abnegado com que o fizeram.”

Não é possível superestimar a importância do que todo esse heroísmo sacerdotal conseguiu. Uma nova raça — os mestiços — passou a existir, nascidos dos casamentos entre católicos europeus e nativos americanos. Sob o ensinamento e a vigilância de tantos sacerdotes, os colonizadores espanhóis, franceses e portugueses reconheceram a igual dignidade dos nativos. Não era só uma questão de discursos floridos, mas de ações concretas. Qual ação poderia ter sido mais concreta do que os milhares de casamentos realizados pelos padres entre europeus e nativos americanos? Eles os casavam, batizavam seus filhos e os educavam. Então vinha a Igreja coroando e selando sua dignidade ao elevar alguns dos nativos ao mais alto grau no catolicismo — o de santo canonizado — como ocorreu com o mulato São Martinho de Porres — a quem todos os católicos, seja negro, mulato ou branco, papa ou camponês, dobram o joelho como a heróis, e rezam como a intercessores.

Se ao menos permitissem à Igreja fazer o mesmo na América Anglo-Saxônica, como ela fez na América Latina! As realizações da Igreja na América Latina apresentam-se como um contraste com a história das relações entre os nativos americanos e os colonizadores no Norte, onde a Igreja, num contexto sócio-político freqüentemente hostil ao catolicismo, foi impedida em seus esforços de evangelização e promoção da integração. É um tanto doloroso lembrar o grau de anti-catolicismo nos Estados Unidos, que impediu a Igreja de levar a cabo sua missão. Mesmo nas 13 colônias, católicos quase não eram tolerados desde o início do século XVIII, apesar do fato de a colônia católica em Maryland, fundada por Lord Baltimore, ter acolhido todos os grupos cristãos. O decreto de 1704 do Parlamento de Baltimore, proibindo os católicos de ensinar, ou mesmo de rezar a Missa em público, causa indignação até os dias de hoje.

Os próprios nativos geralmente reconheciam os benefícios das Missões e, com poucas exceções, amavam os sacerdotes católicos com quem tinham contato. Um relato enviado ao centro missionário da Igreja em Roma (Propaganda Fide) em 1821 dizia: “Eles têm uma grande veneração pelos Black Robes (assim chamam os Jesuítas). Contam como os Black Robes dormiam no chão, expunham-se a todo tipo de privação e não pediam dinheiro.”

Um convicto protestante escocês, Alexander Forbes, apesar de bastante crítico às Missiones em alguns aspectos, mesmo assim dizia:

“A melhor e mais inequívoca prova da boa conduta dos padres franciscanos encontra-se na ilimitada afeição e devoção invariavelmente a eles demonstrada pelos índios que lhes estão sujeitos. Estes os veneram, não apenas como a amigos e pais, mas com um grau de devoção que se aproxima da adoração. Por ocasião das remoções que aconteceram nos últimos anos por causas políticas, a aflição dos índios em se separarem de seus pastores foi extrema. Suplicaram que lhes fosse permitido seguir os padres em seu exílio, com lágrimas e lamentações, e com todas as demonstrações de verdadeiro pesar e irrestrita afeição. De fato, se alguma vez já existiu exemplo mais perfeito, em justiça e propriedade, na comparação do padre e seus fiéis com um pastor e seu rebanho, é no caso de que estamos tratando.”

A diferença católica devia-se à visão de mundo católica. Esta foi sumarizada pelas primeiras palavras no registro de viagem de um dos primeiros exploradores da América do Norte, um leigo protestante convertido ao catolicismo, Samuel de Champlain (1567-1635): “A salvação de uma única alma vale mais do que a conquista de um império.”

(Angelus Press, Julho/2020 - tradução: Permanência)

  1. 1. Assim são chamados os imigrantes ingleses puritanos que partiram da Inglaterra em setembro de 1620 a bordo do navio Mayflower, rumo aos Estados Unidos. [N. do T.]
  2. 2. Olavo I da Noruega (960-1000). [N. do T.]
  3. 3. Sigurdo I da Noruega (1090-1130). [N. do T.]
  4. 4. J. R. R. Tolkien, O Silmarillion, p. 124, Martins Fontes, 2002.
  5. 5. Extensa ilha na costa leste do Canadá. [N. do T.]
  6. 6. “O estreito do Lago Erie”, de onde vem o nome da cidade de Detroit. [N. do T.]
  7. 7. Literalmente “Túnicas Pretas”. [N. do T.]

De Deus não se zomba: a erupção da Montanha Pelée

Pe. N.-P

Eis a narração do drama que sucedeu em 8 de maio de 1902 na Martinica: a erupção da Montanha Pelée1 destruíra num piscar d’olhos a cidade de Saint-Pierre, e matou 40.000 almas das 100.000 com que a ilha contava nessa data. Ao visitar as ruínas da cidade, imaginamos qual não fora a violência do cataclismo.

Os partidários do P.A.C.S. 2 e doutras abominações modernas (aborto etc.) lucrariam se meditassem neste acontecimento, pois que há muito tempo já dizia o profeta Oséias: “Quem semeia vento, colhe tempestade” (Os. 8, 7); mais perto de nós escrevia São Paulo aos Gálatas: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba” (Ga. 6, 7).

Não acreditemos na obsolescência das palavras eternas, só porque Deus se cala. “Retarda-se a pena, porque Deus é bom – escreveu Joseph de Maistre em Os adiamentos da justiça divina – mas ela é certa, porque Deus é justo.”

Parece que essas verdades permitem a boa compreensão da terrível catástrofe de 8 de maio de 1902.

Depois de visitar, em Saint-Pierre o pequeno museu que reúne alguns objetos e fotografias da cidade após a destruição, perguntei a uma jovem antilhana morena que me servia de guia se os habitantes da Martinica não consideravam o cataclismo como um castigo. Sem hesitações respondeu-me ela que sim. Perguntei-lhe então qual seria a provável causa do castigo. Essa moça, de cerca de trinta anos, disse-me que a religião era desprezada e os ministros dela insultados, e acrescentou que durante o carnaval de 1902 parece que haviam matado um padre.

 

Sinais premonitórios

A Montanha Pelée é um maciço que ocupa o nordeste da Martinica, e cujo ponto culminante, Morne le Croix, antes da erupção tinha 1350m de altitude.

Havia dois séculos que as duas crateras deste local estavam inativas: o lago das Palmas, na vertente atlântica, e o fosso da Lagoa Seca, batizado em oposição ao lago sempre cheio, na vertente oposta desta mesma serrania. Em 5 de agosto de 1851 a cratera da Lagoa Seca dera sinais de vida: jatos de fumo e cinzas foram lançados a no máximo cem metros de altura.

Em 1902, a partir do mês de fevereiro, um cheiro forte de enxofre se sentiu, em primeiro lugar, ao redor da vila de Rivière Blanche. As serpentes e os pássaros abandonaram os flancos da montanha; os bois e as ovelhas arrebentavam as amarras quando os levavam a pastar nas encostas da Montanha Pelée; amiúde os cães latiam durante a noite.

Apareceram fumarolas pouco abaixo do cume; os objetos prateados cobriram-se duma tingidura azulada que se espalhava em raias.

Tais fenômenos duraram até sexta-feira, 25 de abril. Naquele dia, entre sete e oito horas da manhã, escutou-se um estrondo subterrâneo, logo seguido dum abalo. Duas horas depois, uma fina cinza azulada, cheirando a enxofre, começou a cair sobre a vila do Prêcheur. Ao meio-dia, de novo, a terra tremeu duas vezes.

Na segunda-feira, 28 de abril, ouviu a montanha rugir, enquanto colunas de vapor escapuliam dele. O débito do córrego Branco aumentou até chegar a triplicar o volume habitual.

Na véspera, em Saint-Pierre, acontecia o primeiro turno das acirradas eleições legislativas. As paixões estavam exacerbadas e a febre política ocupava os espíritos mais que o crescimento insólito dum rio vizinho ou a presença ameaçadora dumas nuvens de cinza que, demais a mais, ainda não haviam atingido Saint-Pierre. Os resultados do primeiro turno auguravam a vitória dos “republicanos”. Decerto os antigos moradores se lembravam desses fenômenos, já ocorridos há 51 anos: a montanha cuspira uma cinza inofensiva e voltou a dormir sem mais histórias.

Les Colonies, a principal folha socialista de Saint-Pierre, publicava em suas colunas de 30 de abril, na pluma do Sr. Hurard, seu diretor anticlerical:

Para nós, ilhéus da Martinica, abril foi duplamente trágico. Nós vimos duas erupções: uma nos espíritos e outra na Montanha Pelée; uma eleitoral e outra física; uma nos discursos, na propaganda, no rum, no dinheiro e nos boletins eleitorais, e outro da coluna de cinzas... Que a montanha se contente em fumaçar e lançar cinza, porém, com mil demônios!, que ela não se ponha a tremer! Os corações trepidariam e dançariam também, mas seria por causa do tremor... Para nós essa cinza é um poema: ele já está escrito em nossa imaginação e, se nós o escrevêssemos, o intitularíamos “A Cinza do Vulcão”. E que labaredas não poríamos entre as cinzas!

A Montanha Pelée, ao notar que os bons costumes foram embora daqui, quis simplesmente nos pregar uma peça. Querido abril, já que vais repousar, dorme bem! E tu, maio, sê bem-vindo!

O mês de maio acordou em meio a um espetáculo desolador. A paisagem estava recoberta de cinzas, nenhum pássaro havia nas árvores, reinava silêncio absoluto... De tempos em tempos, um estalido seco anunciava a queda dum galho, vencido pelo peso das cinzas. Enormes colunas escuras escapavam da montanha.

Na manhãzinha de 2 de maio os rugidos se multiplicaram e, por volta de 16h, uma coluna de vapor bem preta, intumescida e sulcada de raios, apareceu no pico da montanha. As cinzas continuavam a cair e, pela primeira vez, Saint-Pierre ficava recoberta.

Na madrugada de 2 para 3 de maio os habitantes da localidade de Morne Rouge acordaram no meio da noite por conta da mistura duma espécie de canhonaço subterrâneo, um tremor de terra e um estrondo altíssimo, tudo acompanhado dum como que ronco contínuo, semelhante ao rugido do leão. Todos saíram das casas. A montanha estava coroada dos raios que partiam da cratera. O pânico tomou conta dos habitantes, que se precipitaram para a igreja; os confessionários foram tomados de assalto. A mole de gente ficou lá, esperando a morte, até de manhã.

Debaixo duma chuva de cinzas, que espalhava um forte odor de enxofre, conta Mons. Parel, quis eu visitar Sainte-Philomène, o Prêcheur e Morne Rouge, que são as localidades mais próximas do vulcão. Esses três povoados estavam cheios de camponeses que fugiam das montanhas em direção ao litoral; as igrejas, abertas desde a véspera, não se esvaziavam; os curas não paravam de batizar, confessar e alimentar a coragem do povo descontrolado.

Em 3 de maio o governador Luís Mouttet deixou Fort-de-France a fim de examinar a situação pessoalmente. Quando chegou a noite, ele já estava tranqüilo, em razão das informações recebidas: o vulcão não se manifestava há meio século, não convém se alarmar além do necessário!

A “Sociedade de Ginástica” de Saint-Pierre, que havia organizado para o domingo uma grande excursão à montanha, refrescava a memória dos sócios nestes termos, numa nota publicada na imprensa:

Quem nunca foi aproveitar o panorama magnífico que se oferece aos olhos do espectador admirado, a 1300 m de altitude; quem deseja ver a bocarra por onde está escapando – nestes últimos dias – um fumo espesso que está metendo medo nas pessoas das vilas do entorno, tem de aproveitar esta ocasião especial. Se fizer bom tempo, os excursionistas vão passar um dia muito agradável, do qual lembrarão por muito tempo...

A curiosidade e o entusiasmo dos voluntários esfriaram após a erupção que aconteceu durante a noite. Adiou-se a excursão sine die. O domingo, dia 4 de maio, foi relativamente calmo.

Às nove horas celebrou-se a missa; no sermão o Pe. Maury, exortando os paroquianos à penitência, exclamou:

O fogo e a lava estão lá, meus irmãos, o fogo e a lava estão lá... Deus os sustenta sobre as vossas cabeças, pronto para derramá-los sobre vós, se não vos converterdes nem fizerdes penitência!

Na segunda-feira, 5 de maio, por volta de meio-dia e meia, um rio de lama negra e incandescente, com uns doze metros de altura, saiu da cratera e, como uma avalancha, num piscar d’olhos deslizou pela montanha e cobriu a Destilaria de rum Guérin, as quintas dos proprietários e os pavilhões de empregados. Somente a chaminé da usina, qual mastro de navio fantasma, ainda permaneceu visível por algumas horas em meio ao mar de lama que engolira cento e cinqüenta pessoas.

No momento da avalancha o mar, como que assustado, se retirou da enseada de Saint-Pierre. Logo em seguida, as vagas retornaram, já agora como montanhas, e invadiram a cidade, espalhando a consternação. Os habitantes começaram a fugir para os lugares altos, mas vinte minutos depois tudo retornara à ordem.

A comoção atingiu aqui o auge. Algumas famílias partiram em direção à ilha de Santa Lúcia, muitos outros em direção a outras comunidades onde parentes e amigos podiam recebê-los provisoriamente...

As autoridades se esforçaram em declarar às pessoas que não havia motivos de preocupação!

Atendendo a um pedido do prefeito o governador Mouttet e o coronel Gerbault, ambos acompanhados das esposas, foram à ilha e permaneceram em Saint-Pierre, o que lhes custaria a vida.

A “Comissão Científica” que o governador nomeou declarara na véspera do desastre para toda a cidade de Saint-Pierre, ao cair da noite e ao som dos tambores “... que a posição relativa das crateras e dos vales, ambos desembocando no mar, permite afirmar que a segurança de Saint-Pierre não corre riscos.”

As autoridades afixaram essa consulta solene em Fort-de-France três horas após o desastre! O criador zomba da ciência dos homens. O futuro só a Deus pertence.

Na tarde desse dia de 7 de maio o capitão dum barco italiano ancorado na enseada teve melhor inspiração: apressou-se ele em buscar seus papéis, que estavam com o contratante que o mandara retornar ao dia seguinte: “Pois sim! Eu vou é embora”, respondeu ele, e apontando a Montanha Pelée acrescentou: “Na Itália, quando a gente vê o Vesúvio fumaçar desse jeito, todo mundo trata de fugir rapidinho!”... No dia seguinte os quatrocentos barcos que estavam ancorados na enseada, exceto um, foram incendiados e engolidos.

A folha Les Colonies, no seu número de 7 de maio, quarta-feira – o derradeiro, que havia de encerrar a sua carreira – escrevia: “... A emigração de Saint-Pierre fica a cada momento mais intensa... Os vapores da Cia. Girard estão sempre lotados. A média de passageiros da linha Fort-de-France, que era de 80 por dia, elevou-se para 300 nestes últimos três dias. Confessamos que não entendemos a razão do pânico. Onde poderíamos ficar melhor do que em Saint-Pierre?”

Apesar dos discursos confiantes, escreveu uma testemunha, muitos tinham medo, e foi com terror que viram a noite chegar. Para aumentar a apreensão, a cidade inteira se viu mergulhada nas trevas, pois a luz elétrica, por causa dos fenômenos magnéticos que procediam do vulcão, não estava funcionando.

Estamos a algumas horas da catástrofe. Depois de tantos sinais premonitórios (tremores de terra, chuva de cinzas e de lapíli, cheiro de enxofre, água quente nos rios, ressecamento súbito do lago das Palmas, destruição da usina Guérin...), é espantoso que os habitantes de Saint-Pierre não fizessem uma idéia mais justa do perigo a lhes ameaçar. A montanha não parou de dar avisos convincentes.

Por que não evacuaram a cidade?

É difícil responder em nome de todos, declarou uma testemunha, pois evidentemente cada um reagia segundo o seu temperamento.

Sem dúvida, muitos achavam que teriam tempo de fugir das lavas, caso o vulcão se enfurecesse de todo. Pensavam outros que o derrame do imenso rio de lama acalmara o vulcão e a crise já havia passado.

Algumas pessoas, com medo dum maremoto, procuravam fugir para os “lugares altos”. A causa desse temor foi a erupção da ilha de Cracatoa: o vulcão do distrito de Sonde havia quicado como uma bomba gigantesca e provocado um extenso maremoto.

Abandonar a casa era decerto expô-la à pilhagem e arriscar-se à ruína.

Para um bom número de pessoas, as crianças, as pessoas dependentes, os doentes e os enfermos certamente foram um obstáculo à fuga.

Seria demasia pensar que o espetáculo assustador desse monstro furioso provocava uma espécie de fascinação? Não é impossível.

Enfim as eleições que sempre inflamavam a ilha fizeram naquele ano a temperatura social subir a graus jamais vistos; o segundo turno do escrutínio deveria acontecer no domingo seguinte, a 11 de maio. Para que houvesse eleitores, o povo teria de permanecer na cidade, por isso convinha tranqüilizá-lo; o relatório da comissão científica decerto contribuiu para isso!

 

A catástrofe

Em 8 de maio de 1902, após uma noite de tormenta e rugidos surdos, Saint-Pierre acordou tarde nesse que era o dia da Ascensão. Bulcões negros e compactos obscureciam o céu.

O vapor “Rubi”, que zarpou às 6.30h em direção a Fort-de-France, foi tomado de assalto por inúmeros viajantes. Ele foi literalmente invadido por ondas humanas que se dependuravam em todas as partes do navio. Vários habitantes, assustados com a noite que acabavam de passar, resolveram partir.

Os carrilhões soaram em todos os campanários, conclamando os fiéis para os primeiros ofícios da Ascensão.

De repente se escutou um estrondo terrível. Era 7.50h, a hora fatal que ficou inscrita no relógio encontrado no hospital dos Padres de São João de Deus. Um barulho, comparável ao de centenas de apitos que silvassem ao mesmo tempo, preencheu o ar, e uma nuvem vaporífera, intumescida, espessa, negra e sulcada de raios resvalou do vulcão entreaberto, e num piscar d’olhos precipitou-se por sobre a cidade – cobrindo-a, sufocando-a e abrasando-a – e deslizou até ao mar, onde se dilatou e inchou em forma de montanha de cinzas e fogo.

Depois de passar pela cidade, a nuvem parou bruscamente ao se deparar com um vento violento em sentido contrário. Foi só então que se pôde vislumbrar o véu negro e impenetrável duma fumaça opaca que cobria a infeliz cidade e donde a intervalos jorrava milhares de labaredas.

Na hora fatal o telefonista de Fort-de-France, Sr. Lodéon, estava já havia algumas horas conversando com seu colega de Saint-Pierre, quando de repente este se calou ao começar a pronunciar uma palavra; naquele instante, enquanto todas as campainhas do escritório se puseram a soar, o Sr. Lodéon sentiu de súbito um violento choque elétrico e ouviu um estertor de agonia e o barulho dum enorme colapso. A comunicação estava interrompida – e por uma boa razão!

Estava terminada a obra de destruição. Setenta segundos bastaram para apagar Saint-Pierre do mapa.

Daí então uma chuva de cinzas finas amortalhou o drama. A cidade era toda um braseiro, com muros derruídos e calcinados, e um pasmoso acúmulo de cascalhos e árvores carbonizadas. Nenhum dos 40.000 habitantes que viveram o drama escapou, mas foram queimados, asfixiados, destroçados e eletrocutados num instante.

As fotos da cidade destruída nos remetem imediatamente às de Hiroshima após a bomba atômica. Dá-nos a impressão que um gigantesco sopro devastara Saint-Pierre: a estátua de Nossa Senhora do Bom Porto, protetora dos marinheiros, foi encontrada a vários metros de sua base. Pesava ela a ninharia de 5 toneladas e costumava ficar a 5 km da cratera!

Sob efeito do calor, um dos sinos da catedral se deformou deveras. Exposto no museu do vulcão, talvez seja o objeto que provoque a maior impressão, ajudando-nos a imaginar a força do cataclismo; este sino, que pesa uma tonelada, parece que o esmagou um “punho de ferro”!

Só um dos 400 barcos que estavam na enseada no momento do cataclismo – o Roddam – escapara do desastre. Temos o relato dum dos passageiros da embarcação:

Quando a coluna de fogo e lava se abateu sobre a cidade, elevou-se um grande clamor de gritos de desespero e angústia. Este clamor lúgubre e pungente foi tão imenso que chegou a ultrapassar em volume o estrépito da inundação e o rugido do vulcão.

Víramos uma mole de gente se precipitar na praia, mas os desgraçados não conseguiam correr por muito tempo dentro do fogo que os envolvia – eles caíam como moscas; e quem conseguia chegar até a beira do mar, onde as pessoas acreditavam estar em segurança, foi num átimo engolido e arrastado por um imenso lamaceiro. Além disso, a inundação começou a ferver e as pobres vítimas eram ao mesmo tempo afogadas e assadas.

Dez toneladas de cinza incandescente cobriram a embarcação, apesar da distância que a separava da costa. Ela chegou a Santa Lúcia num estado lamentável; a bordo só se via mortos e moribundos: não houve um sequer que não tivesse sofrido queimaduras.

Mas por que seria um castigo o drama de 8 de maio de 1902?

Nestes últimos tempos o filme Titanic suscitou inúmeros artigos, porém nenhum deles jamais mencionou as inscrições blasfemas riscadas no casco durante a construção; jamais mencionou que a destruição do navio antes do término da primeira viagem poderia ser a resposta divina aos ataques dos homens.

Do mesmo modo, não se encontrará mencionada em nenhuma obra recente ou folhetos informativos uma explicação semelhante para a erupção de 1902, contudo ela persiste na mente dos anciões, e até os nem tão anciões já ouviram falar dela – como prova a guia antilhana da visita ao museu do vulcão...

 

A espada de fogo

Durante o ano precedente à catástrofe que acabamos de relatar aconteceram no Convento de Livramento presságios sinistros, sinais assustadores, pressentimentos e intuições dolorosas.

Nove meses antes da erupção duas irmãs que residiam em Saint-Pierre viram – no mesmo dia, embora estivessem separadas – uma espada de fogo pairar acima da cidade, como se impedida por mão invisível. Amedrontadas ambas se perguntavam, cada uma para si só, qual o significado daquilo... Como estivessem consternadas, elas guardaram o segredo até a hora da recreação. Então uma delas disse às irmãs reunidas: “Oh! Eu vi uma coisa extraordinária e assustadora!” A outra religiosa, testemunha do prodígio, lhe ripostou: “Duvido, cara irmã, que tenhas visto algo de mais extraordinário e assustador do que eu.” Instadas pelas intrigadas religiosas a se explicarem, ambas revelaram a visão claríssima duma espada de fogo pairando acima da cidade de Saint-Pierre.

Na mesma época se passou um fato extraordinário em Morne Rouge, numa outra casa da comunidade. Por vários dias seguidos “uma de minhas irmãs e eu – conta a Irmã Margarida Maria – encontramos os baldaquinos de nossas camas cobertos de grandes manchas vermelhas semelhantes a sangue. Trocaram-se as cortinas três vezes e três vezes se reproduziu o mesmo fenômeno: o baldaquino duma das camas estava particularmente manchado. A comunidade ficou estupefata. ‘Qual o sentido desse fato estranho?’, perguntavam-se as religiosas umas às outras... talvez seja prenúncio de martírio. “Pessoalmente, se considerarmos o crescimento progressivo da perseguição religiosa, vejo nisso um presságio de massacre...”

Ainda no convento de Livramento, em Morne Rouge, durante os três meses que precederam o cataclismo, escutavam-se de noite pelos corredores soluços, suspiros e orações; nos dias gordos do carnaval esses fenômenos se reproduziram até durante o dia: em vários pontos do convento se percebiam sons de soluços. Na Terça-Feira Gorda, no momento em que a comunidade fazia as orações de reparação na igreja, a Reverenda Madre Superior, que em razão duma doença ficara numa das salas da comunidade, escutou um choro à porta. O gemido foi tão forte que ela mandou a religiosa que lhe cuidava verificar se havia alguém no corredor... mas não encontrou ninguém.

Ainda há relatos de outros fatos misteriosos: uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que exibia um semblante alegre, sem mais assumiu uma expressão melancólica; num convento de religiosas ouvia-se o estridor de pratos quebrando-se; um lampião começou do nada a saltitar.

Um castigo... para punir qual crime?

Quando perguntei isso, a jovem guia do acanhado museu de que já falei não me respondeu:

- “para os brancos por causa da escravidão...”. Aliás, este ano festejamos os 150 anos da abolição da escravidão;

- nem “para punir os costumes licenciosos”. As uniões ilegítimas, é verdade, eram de longe as mais numerosas e a rua das “mulheres-damas”, muito freqüentada. A última instrução do Mons. de Cormont foi um comovido apelo aos diocesanos, a fim de lhes exortar à regularização das uniões ilegítimas e ao respeito da lei do casamento.

Não, ela mencionou sem pestanejar os pecados contra a religião.

Na obra de Louis Garoud, Três anos na Martinica, lê-se o seguinte:

...Nem as saturnais romanas nem as bacanais gregas jamais ofereceram um espetáculo semelhante; nunca na festa dos loucos, na Idade Média, exibiram-se tais mostras de exultante depravação. A imaginação não pode conceber semelhantes loucuras humanas nem delírio tão contagiante...

Saint-Pierre, classificada como a 101ª cidade da França no quesito de luxo e conforto, alimentava todos os vícios que os deleites podem engendrar. A fé não era tão-somente ignorada mas desprezada e insultada em público por um grupelho instigado pela “loja” de Saint-Pierre, poderosa e militante que era.

Algumas testemunhas afirmam que o Mons. de Cormont teve de encurtar a procissão de Corpus Christi do ano anterior [à catástrofe] devido às pedras e aos insultos lançados sobre o cortejo!

Mons. de Cormont teve de deixar a Martinica alguns meses antes da catástrofe para que se acalmassem os ânimos. Com efeito, suscitou-se uma vivíssima polêmica, pois ele queria promover um de seus novos párocos, ao passo que um mais antigo ambicionava o cargo... e cada qual com seus partidários!

Quando Mons. de Cormont estava partindo, certas pessoas - incitadas pela franco-maçonaria – chegaram a lhe jogar pedras. O prelado se voltou para eles e disse: “Vós nos lançais pedras, o vulcão lhas devolverá”. Isso aconteceu em 10 de abril!

No livro Peregrinação fúnebre às ruínas de Saint-Pierre U. Moerens escrevera a pág. 60:

Uma imprensa violentíssima e ímpia se esforçou em descristianizar esta terra desgraçada. Com uma visão estreita e um espírito intolerante, os responsáveis pela missão de dirigir a opinião pública eram infatigáveis – por qualquer ou sem nenhum motivo – em disseminar a blasfêmia e em lançar o desprezo sobre tudo o que havia de mais respeitável e sagrado.

A obra dos sectários deu frutos. Mas ao que parece foi a profanação ignóbil da Sexta-Feira Santa, em 28 de março de 1902, que provocara a cólera de Deus.

A partir do testemunho dum martinicano, ela foi noticiada com o título de “O Cristo no Vulcão”, em 5 de setembro de 1902, num dos maiores jornais parisienses:

Foi em 28 de março deste ano, Sexta-Feira Santa. Nossa alegre cidade colonial acordou neste lusco-fusco tão calmo e cheio de frescura das manhãs dos trópicos. Atrás das varandas entreabertas a gente percebe as donas de casa que se apressam em pôr tudo em ordem para irem à igreja. O sol sobe suavemente no horizonte. Chega a hora do almoço, e as pessoas vão quebrar o jejum, mas ao estilo créole3: bacalhau com arroz.  Entrementes um grupo barulhento vai em direção a um dos principais hoteis da cidade, onde preparavam um festim. São eles os representantes do livre-pensamento que, a fim de provar sua independência de espírito, vão promover uma comezaina com as comidas mais gordurosas e suculentas, em contraste com a abstinência universal. Eles abriram e esvaziaram rapidamente inúmeras garrafas, e quando já estavam bastante avinhados, a banda diabólica começou a andar pelas ruas da pequena capital, vociferando palavras sujas e ridicularizando a imagem do Cristo que estavam carregando.

Ei-los já fora da cidade, a caminho da montanha. Diante deles a elevação se erguia majestosa, com seu pico irregular se destacando contra o fundo azul do céu; por catorze vezes, em meio a blasfêmias infames, a tropa se detivera para parodiar a Via Crucis e achincalhar as cenas da Paixão, que naquele momento a Igreja pesarosa cantava. E eles continuam a subir, mais e mais excitados, inventando a cada trecho da caminhada mais blasfêmias horríveis. Finalmente chegam ao cume... Contornam o lago de águas tranqüilas e vão até a boca escancarada do vulcão e ali, numa sarabanda infernal, entre berros e momices, atiraram no fundo do abismo a imagem Daquele que, havia dezenove séculos, morrera na cruz para resgatar as almas dos condenados. No dia da Ascensão, entre estertores de morte e gritos de espanto, o vulcão respondia aos escarnecedores do Cristo e remetia a cruz aos céus.

Com efeito, no ano de 1902 o dia 8 de maio, quinta-feira, caia no dia da Ascensão... Acaso?

É claro, os livre-pensadores não tinham nenhum interesse na história: consideraram-na uma invenção dos católicos, uma fábula que hoje em dia já ninguém conta.

Verdade ou fábula?

Mélanie, a criança que viu Nossa Senhora em La Salette, autenticou esse triste acontecimento, ante a interrogação do Pe. Combe.

- Tu já sabias que iria acontecer a catástrofe?

- Sim, [respondeu Mélanie].

- Foi a aparição de 1846 que te alertou?

- Não [responde ela].

Convinha lhe tirar essa informação [insiste o Pe. Combe], mas ela se limitava a responder ou sim ou não.

- Tu viste bem a erupção, fala.

- Ah, padre! Eu estava lá.

Na sexta-feira, dia 16 de maio de 1902, anota o Pe. Combe:

Percebi no fogareiro, entre os papéis a queimar, uma carta de participação do falecimento da Sra. X, em cujo verso Mélanie escrevera a previsão dos vindouros castigos da Martinica:

“Nós não roubamos mas compramos e arrancamos das mãos de Deus. Ele não vai se contentar em advertir as criaturas racionais, às quais outrora dera tantas provas de amor; mesmo quando sua justiça exige de sua glória a vingança da misericórdia ultrajada, o bom e divino mestre trata de advertir com certa discrição sobre sua justiça. Ele há de enviar tremores de terra incomuns. É o que fará nas Antilhas Francesas. Durante uns seis dias haverá pequenos abalos entremeados dalguns grandes. Infelizmente os homens têm ouvidos e não escutam. Enfim, no dia 8 de maio, o fogo devorador cairá sobre uma das principais cidades da Martinica, Saint-Pierre, e a devorará e cobrirá de cinzas e de todos os tipos de destroços. Para além da destruição da cidade, outras três localidades também terão vítimas, afora os prejuízos materiais. O fogo não se recolherá à sua caverna: doze dias após o cataclismo, Fort-de-France e outras cidades também hão de chorar.”

- Escreveste esta meditação no dia 8, antes da erupção [pergunta-lhe o Pe. Combes]? Até aqui, só a cidade de Saint-Pierre foi destruída; já se fala de 30.000 vítimas.

- Pois são 40.000 [responde Mélanie].

- Já que previste a destruição de Saint-Pierre, podes me dizer o nome dessas localidades que vão compartilhar o mesmo destino [indagou o Pe. Combes]?

- Curbet ou Curbá, é algo assim [respondeu Mélanie].

Por ocasião duma nova catástrofe, que vitimou cerca de mil pessoas, os jornais (Le Pèlerin, de 14 de setembro de 1902) divulgaram – depois duma pesquisa feita no local – que a catástrofe do mês de maio já se estimava em 40.000 mortos.

Na quinta-feira, dia 22 de maio, anotou o Pe. Combe:

Eu desejava uma predição cuja anterioridade se provasse materialmente, e eis que meu desejo se cumpre: um telegrama chegou hoje de manhã: “Os cabogramas oficiais sobre a erupção de 19 e 20 de maio são mui sucintos, não obstante sabe-se que a vila de Carbet, situada na costa a poucos quilômetros de Saint-Pierre, foi em parte destruída.”

Fui até ela perguntar: - Que crimes terríveis, além da impureza, puderam atrair sobre a população – considerada catolicíssima – um semelhante flagelo?

Ela me contou que “na Sexta-Feira Santa passada, uma imagem de Cristo de cerca de um metro foi arrastada com uma corda pelas ruas de Saint-Pierre, e logo depois pela montanha vertente acima, até que a chutaram dentro duma fenda”.

- Esse sacrilégio foi obra duma multidão de homens e mulheres, para que atraísse a maldição de Deus sobre toda a região [raciocina o Pe. Combe].

- Somente duns poucos [explica Mélanie], mas os demais habitantes não os detiveram, e um grupo de crianças os seguia. Aquela vertente da montanha desmoronou no dia da Ascensão. Como Deus pode infligir tal castigo? está pensando o Sr. Isso lá é justiça? Nos tempos de fé verdadeira, também aconteciam profanações. A diferença era que as profanações eram apontadas, o poder civil condenava com rigor essas pessoas; já outras eram punidas de modo miraculoso. No caso da Martinica, a profanação foi pública, e a permitiram; até as crianças iam atrás do cortejo; entre a Sexta-Feira Santa e a Quinta-Feira da Ascensão, alguém teve notícias de que se fizeram orações de reparação ou de que o clero houvesse organizado procissões e penitências públicas para desarmar a cólera de Deus? [Ver: A Aparição da Virgem Santíssima, de M.-H Bourgeois – fita cassete nº 4b.]

Depois da destruição de Saint-Pierre, ainda tiveram de esperar dois dias antes que se pudesse pôr os pés sobre a cinza ardente que recobria o solo da cidade destruída. (Esse fato torna inconcebível a sobrevivência dum prisioneiro numa cela, como afiançavam ser o caso de Louis-Auguste Cyparis, que o circo Barnum durante anos exibiu como atração: “O homem que escapou de Saint-Pierre”.)

Um detalhe do testemunho das primeiras pessoas que se aventuraram a pisar na ilha parece confirmar que o cataclismo era um castigo da impiedade:

No meio do caos da ruína, já não reconheciam a geografia da cidade, que lhes era contudo bem familiar. Em todo lugar se amontoavam cadáveres carbonizados e putrefatos, exalando um odor pestilento que viciava o ar... Na catedral um confessionário ainda estava de pé – intacto. Não longe dali, num pano de muro, um cartaz mal fora chamuscado pelo fogo, ao passo que os demais em redor estavam completamente carbonizados: “Cristo no pelourinho! A Virgem no estábulo!”, dizia a inscrição assustadora, pois o espetáculo que se oferecia aos olhos afigurava-se a resposta a essa blasfêmia.

Uma coluna de 300m de altura permaneceu erguida sobre o pico do vulcão durante vários anos, mas com o tempo se esboroou e desapareceu. À noite ela ficava “incandescente”, o que não deixava de ser impressionante. Não seria o dedo de Deus assinalando a justiça divina: “Quem semeia vento, colhe tempestade’?

Nos dias 16 e 20 de maio novas erupções fizeram novas vítimas: alguns curiosos e sobretudo saqueadores que como urubus vinham despojar os cadáveres de seus bens. Após o dia 20 de maio encontraram-se algumas pessoas mortas, deitadas sobre um saco cheio de pratarias que se dispuseram a carregar; havia um outro sobre um cadáver, de quem parecia estava arrancando uma jóia!...

A erupção do dia 20, fortíssima, teve um efeito sanitário: ela sepultou os cadáveres, evitando assim o desenvolvimento de epidemias.

A última erupção devastadora foi a de 30 de agosto de 1902, que destruiu a vila de Morne Rouge, fazendo 2000 vítimas. A igreja foi totalmente destruída mas, em meio às ruínas, os sobreviventes encontraram meio enegrecida a estátua de Nossa Senhora do Livramento miraculosamente conservada. Ela permaneceu de pé e intacta sobre o pedestal, que não ficou abalado.

Desde então, os martinicanos fazem, no dia 30 de agosto, uma procissão solene em honra de sua padroeira.

Durante a tempestade, contemple a estrela, invoque Maria.

 

  1. 1. Litteris: Montanha Pelada ou Descascada [N. do T.]
  2. 2. O Pacto Civil de Solidariedade (Pacte civil de solidarité ou tão-somente P.A.C.S.) é um contrato de união civil entre dois adultos (de mesmo sexo ou sexos opostos) que regula a vida em comum de ambos, conferindo a cada membro direitos e responsabilidades, embora com força obrigante menor que a do casamento. [N. do T.]
  3. 3. A expressão créole se refere às culturas ou línguas mistas, nascidas do contato entre os europeus (neste caso, franceses), os africanos e a população local. {N. do T.]

A verdadeira face das cruzadas

Jacques Heers

Estes homens, certamente, acreditavam em Deus, e não iam para o combate sem rezar e colocar-se sob a proteção de Cristo e da Virgem, e dos seus santos protetores. Eles queriam-se como milícia de Cristo. Suportavam pesadas penas e ganhavam batalhas contra inimigos bem mais numerosos, enquanto proclamavam que os anjos estavam a seu lado, mostrando-lhes o caminho e apoiando-lhes nos piores momentos. Mas não era uma “guerra santa”, uma “guerra de religiões”. Os cruzados não iam exterminar o islã ou converter os muçulmanos, pela boa razão de que, nessa época, ninguém ou quase ninguém tinha a mínima idéia desse islã. Nenhuma das narrações da primeira Cruzada, escritas por homens que estavam no local e não por compiladores, fala de muçulmanos ou de maometanos. Para eles, os inimigos são os sarracenos, à semelhança dos piratas mouros do Mediterrâneo, ou sobretudo os babilônios e assírios, os persas e os partos, ou outros povos “bárbaros” da Antiguidade. As crônicas referem-se à História antiga do Oriente.

Guerra da conquista? Nada disso. É verdadeiramente curioso continuar-se a falar desta Cruzada como se os cristãos tivessem a caçar povos aí instalados desde sempre. É esquecer que as terras da Palestina e da Síria, berços do cristianismo, estiveram durante séculos sob a autoridade dos imperadores de Constantinopla, focos notáveis da civilização cristã. Jerusalém, Antióquia e Alexandria foram sedes de patriarcas da Igreja de Cristo. É esquecer, além disso, que os imperadores de Constantinopla tinham, mais de cem anos antes dos cruzados, conduzido os seus exércitos à reconquista destes países: Alepo foi retomada em 962, Antioquia em 969 e João Tsimiscis (imperador de 969 a 975) só parou diante de Trípoli, após ter reconquistado Beirute. Os turcos, vindos de muito longe, expulsaram as guarnições imperiais, mas é bom lembrar que quando os francos, em 20 de outubro de 1097, se apresentaram de Antióquia, estes turcos eram donos da cidade havia apenas catorze anos. Em relação a Espanha dizemos Reconquista, mas em relação ao Oriente aceitamos que nos imponham a terminologia e a idéia de uma simples conquista, açambarcamento de terras nas quais outros viviam em seu pleno direito.

 

Uma aventura espiritual

Intolerância? É preciso ser-se mau observador para acusar de intolerância os homens do passado, cristãos bem entendido, enquanto nós vivemos, aparentemente satisfeitos, num tempo em que todas as formas de escrita e de pensamento são submetidas a um controle cada vez mais severo. Certamente que se proclama a intolerância como detestável, mas dela só são acusados os homens livres que ousam manifestar as suas próprias convicções, e levam a insolência até à sua defesa contra-ataques odiosos. Os “intolerantes” são os dissidentes, apontados a dedo, agredidos, excluídos. Não são os guardiões estipendiados do templo, que não suportam a mínima resistência aos seus esquemas, nem a mínima crítica aos seus discursos sempre “conformes”, de um conformismo risível. Observemos a vida atual, antes de falar de tempos que não queremos sequer conhecer verdadeiramente e tentar compreender.

A Cruzada de 1095-1099 foi, primeiramente e antes de tudo uma aventura espiritual. Para pesquisar as origens e analisa-la, as teses materialistas visaram longe. Invocar a sede de conquista, ou a procura de novos espaços e a busca de especiarias, era de bom tom há cinqüenta anos, época em que o materialismo histórico era imposto nas universidades francesas. Os tempos, enfim, mudaram e sabemos que nenhuma destas afirmações pode ser seriamente defendida. Simples reflexões de bom senso deitam-nas a perder. Os camponeses dos anos mil eram, sem dúvida, mais numerosos que outrora. Freqüentemente, dividiam as suas heranças e procuravam novas terras de lavoura. Mas ir tão longe para isso, a idéia não se agüenta. Iniciava-se precisamente o arroteamento das grandes florestas da Germânia, da Europa central e do sudoeste francês. A secagem e beneficiação dos pântanos tinham apenas começado. Porque, então, afrontar tantas fadigas e tantos perigos, para se estabelecerem em terras longínquas, das quais se sabia, no dizer dos peregrinos que regressavam, serem áridas na maior parte, próprias para a vida pastoril semi-nômade, totalmente contrária à sua maneira de viver e de trabalhar? Negligenciar as terras próximas para ir tão longe, onde tudo teria de ser construído de novo ou reconstruído?

Ainda se lê, num ou noutro manual de ensino, que os “grandes mercadores” italianos foram os instigadores desta Cruzada, com o fim de trazer do Oriente as especiarias a preço mais baixo. Mas é falso: genoveses, venezianos e pisanos não participaram nas primeiras expedições; intervieram mais tarde, como guerreiros, com os seus cavalos e as suas máquinas de guerra, e não como mercadores. A Terra Santa não era muito de seu interesse. Estabelecidos em Constantinopla, onde beneficiavam-se de privilégios fiscais, e no Cairo, onde os negociantes se alojavam nos fondouks, já se encontravam no verdadeiro coração dos grandes tráficos do Oriente. A costa da Síria e da Palestina não ofereciam, nem de longe, os mesmos recursos; à margem das rotas das grandes caravanas, estes países não possuíam, então, nem culturas exóticas (cana-de-açúcar, algodão) nem manufatura de artigos de luxo. Para terminar, face a Constantinopla, a Damasco, Bagdá e Cairo, Jerusalém fazia, neste particular, figura de aldeia.

 

Historiadores sectários

Grandes senhores, apressados na fundação de principados sem vastos territórios e em cidades de sonho? São imagens forjadas de fio a pavio, para ilustrar a tese de historiadores sectários, entretidos a maldizer o cristianismo e o feudalismo. Os chefes dos cruzados, os das primeiras levas e os que se seguiam com reforços, não eram de nenhuma maneira cavaleiros andantes, filhos segundos ou excluídos da grei, à procura de pousada, obrigados a correr a louca aventura. Godofredo de Bulhões, duque da Baixa-Lorena, era senhor de bons feudos e castelos, no meio de ricas terras. Raimundo de Saint-Gilles, conde de Tolosa, sem contestação o mais ativo dos “barões”, o que reuniu maior número de homens de armas e gastou maiores somas, era, depois do rei, o mais poderoso príncipe do reino, nunca contestado ou ameaçado. A sua partida privou-o de uma magnífica herança, e morreu na Terra Santa antes de ter podido conquistar Trípoli.

A Cruzada, em 1095, respondia ao desejo dos fiéis de ver o túmulo de Cristo e aí rezar. É certo que as crônicas da época falam de “francos” e de “cristãos”, sempre qualificando-os como “peregrinos”. Os homens reuniam-se e armavam-se porque sabiam que os peregrinos que iam à Palestina o faziam com risco de vida, suportando duras humilhações e pesadas taxas que aumentavam a cada ano. A peregrinação foi, desde o princípio, o centro de todas as preocupações e iniciativas e os cruzados, na sua maioria, só queriam libertar a cidade santa, visitar os lugares de Cristo, da Virgem e dos Apóstolos, rezar e regressar à casa. Com Godofredo de Bulhões ficou apenas um punhado de cavaleiros. A construção de praças fortes, e a defesa do reino latino de Jerusalém contra os ataques dos egípcios ou dos turcos, só foi possível pela chegada de novos peregrinos, que participavam nos combates e nos trabalhos e depois partiam.

 

Peregrinos nas Cruzadas

Mais que uma Cruzada, correto seria, já para 1096-1099, dizer as Cruzadas, expedições que reuniram gente de diferentes origens, que não partiram juntas nem seguiram os mesmos caminhos. Falar de cristãos “de todo o Ocidente” respondendo ao apelo de Urbano II, é mera figura de estilo. A Cruzada foi pregada pelo Papa apenas em algumas partes do reino de França, principalmente em Auvergne e no Languedoc, mas não em Paris nem na Ile-de-France. A pregação não se estendeu a Alemanha e ao Norte da Itália, dada a querela existente entre o Papa e o imperador germânico, que apoiava ainda um anti-papa cismático. Além das quatro Cruzadas promovidas pelas pregações do Papa, dos legados e dos bispos (exércitos dos lorenos, dos normandos de Normandia e dos normandos do Sul da Itália, chefiados por Raimundo Saint-Gilles) deve mencionar-se uma outra Cruzada, dita da “gente humilde”. Esta foi fruto de pregações menos controladas, feitas por eremitas e monges errantes, por vezes em ruptura com o pregão das Cruzadas, que invocavam o Apocalipse e clamavam o extermínio dos impuros. Tal levou essa pobre gente, lançada numa longa e miserável caminhada, obrigada a comprar víveres por alto preço, à invasão das cidades, principalmente na Renânia, e a massacrar os seus burgueses, judeus ou não, denunciados como culpados. Tudo isto apesar da intervenção dos bispos locais, que tentavam protege-los.

Os exércitos dos “barões” são mal conhecidos e fazemos deles, geralmente, uma idéia errada. De fato, falar de “exércitos” é já um erro, porque faz pensar em tropas de homens aguerridos, armados e prontos para o combate. Os textos mostram coisa diferente: consideráveis multidões de pobres sem quaisquer meios, sem armas e sem experiência, freqüentemente acompanhados pelas suas mulheres e filhos, conduzidos e protegidos por uma milícia de cavaleiros pouco numerosa. Todos os testemunhos são concordes e os próprios historiadores muçulmanos, mais tarde, o reconhecem: não se tratava de verdadeiros exércitos, mas, realmente, de multidões heteróclitas. Eram milhares, talvez várias dezenas de milhares, de peregrinos expostos a todas as adversidades, à fome e às doenças. Conduzi-los, esperar e organizar a sua reunião antes de empreender a caminhada, reabastece-los de água e víveres, todas estas responsabilidades pesaram na condução desta multidão, aventurada para tão longe dos locais da partida.

Esta gente sofreu, no decurso dos meses e dos anos, de fome e de sede, de expectativa e de miséria. Na tarde da vitória, Jerusalém conquistada, invadiram as casas, pilharam tudo que encontraram, massacraram os habitantes. Hoje, a História retém esses massacres para cobrir de vergonha toda a empresa e tornar responsável (ora, pois!) a Igreja. Quer-se uma vez mais que peça perdão, e arrependida, confesse a sua culpa? Insistir deste modo, isolando o acontecimento, é falsear o debate, porque estes massacres são atrozes, revoltam os nossos sentimentos, mas são, todavia, vulgares nessa época... como em muitas outras. Deu-lhes origem a guerra de cerco, exarcebando as paixões e os ódios entre inimigos que se observavam e injuriavam durante muito tempo. Pode-se citar, no decorrer dos séculos, um grande número de cidades conquistadas pela força e que ficaram indenes? Menos de um ano antes dos cruzados, em 26 de agosto de 1098, os muçulmanos egípcios assenhorearam-se da mesma cidade de Jerusalém e massacraram todos os turcos, assim como uma grande parte dos habitantes seus aliados ou cúmplices.

Os nossos historiadores moralistas, sempre prontos a descrever em detalhes os atos de crueldade atribuídos aos homens dos tempos “medievais”, aos seus senhores, seus padres e monges, dizem alguma vírgula do saque de Cápua, em 24 de julho de 1501, pelos exércitos do rei Luís XII? E do saque de Roma pelos huguenotes alemães, os espanhóis e as tropas do contestável de Bourbon, que em 1517 puseram a cidade a fogo e sangue? E não foi no decorrer de uma Cruzada, durante a “noite da Idade Média”, mas na época da “Renascença”, tempos ditos de luz, de liberdade e de progresso. 

 

(Traduzido pela Semper, revista da Fraternidade Sacerdotal São Pio X n° 41, Maio-Junho de 1999, Lisboa.)

1517 d.C. - A Catástrofe protestante

“Mesmo se derramássemos todo o Rio Elba em lágrimas, não seria o suficiente para lamentar os desastres da Reforma: é um mal sem solução”. Por mais estranho que pareça, essas palavras não foram ditas por um católico, mas por Filipe Melâncton, amigo de Lutero e um dos principais realizadores da Reforma. O próprio Lutero, pouco antes de morrer, escreveu sobre a mágoa que sentia a respeito do caos e da proliferação das seitas propagadas por seus ensinamentos: 

“Devo confessar que minhas doutrinas produziram muitos escândalos. Não posso negá-los, e isso me assusta, especialmente quando minha consciência traz-me a lembrança de que destruí a situação na qual a Igreja se encontrava, calma e tranquila, sob o papado”.

Se até mesmo alguns líderes protestantes chegaram a ter essa percepção sobre a Reforma, não espanta que os católicos a vejam como uma verdadeira catástrofe. O historiador Paul Johnson chamou-a de “uma das maiores tragédias da história, e a tragédia central do cristianismo”. Ela foi uma catástrofe e um castigo para a Cristandade; um desastre levado até as últimas conseqüências, pois foi o apogeu de uma série de castigos sem precedentes, desatrelados no curso dos dois séculos anteriores.

Duzentos anos antes de Lutero pregar suas famosas teses em 1517, o primeiro dos castigos que demoliriam a civilização medieval já havia sido lançado: a grande fome de 1315 a 1322, que causou muitas mortes no norte da Europa, onde algumas áreas tiveram uma taxa de mortalidade de 10%. No mesmo século, houve sete outras grandes fomes no sul da França.

Desastres ainda piores vieram em seguida. Menos de trinta anos depois, a Peste Negra, a maior pandemia que o mundo já viu, tirou a vida de milhões. Iniciou-se a Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra, e o papado enfrentava uma série de adversidades, entre elas o Papado de Avignon, o Grande Cisma do Ocidente e a heresia do conciliarismo (que reivindicava para os concílios uma autoridade maior que a do papa). Como se já não bastasse, um novo grupo muçulmano, os turcos otomanos, invadiu o sudeste da Europa em 1354.

Por que Deus parecia estar punindo a Europa de Santo Tomás de Aquino e São Luís, de São Gregório VII, São Francisco de Assis e tantos outros grandes santos católicos? É claro que historiadores seculares negam que os desastres dos séculos XIV, XV e XVI tenham sido castigos divinos. Para eles, as coisas na história simplesmente acontecem, sem qualquer plano ou desígnio superior. Mudanças climáticas ocorrem periodicamente, guerras simplesmente estouram, epidemias podem se espalhar a qualquer momento. Para eles, o trabalho do historiador consiste apenas em analisar e registrar os acontecimentos e não buscar neles algum significado transcendente. O historiador católico, porém, vê a história como a ação de Deus no mundo em que Ele se encarnou. Para isso, Deus utiliza-se de instrumentos humanos, e nem sempre é fácil notar de que modo e em que lugar opera a Sua mão. 

Mas podemos examinar as pistas. Com efeito, desastres e catástrofes aparentam ser respostas de Deus a ações imorais. Por isso, enquanto o historiador secular considera a catastrófica dissolução da civilização medieval como um mero fenômeno interessante, eu me inclino a considerá-la um castigo. Mas um castigo contra o quê, visto que a era precedente parecia tão dedicada às coisas de Deus e à Sua Igreja?

 

A frieza

São Francisco de Assis já havia notado algo errado em sua época, o começo do século XIII. Apesar da impressão que se tem do século XIII como uma época fervorosamente devota, Francisco a via como uma nova “era do gelo” para a espiritualidade. “A caridade”, dizia ele, “congelou”.

Como é possível, no século em que o Papa Inocêncio III ordenara a internação gratuita dos pobres nos hospitais de todas as grandes cidades, no período em que até mesmo reis e duquesas se dispunham a cuidar dos doentes, em que se fundaram novas ordens para pregar, ensinar, curar e redimir prisioneiros? 

É evidente que São Francisco, ao utilizar a palavra “caridade”, não se referia somente aos trabalhos de misericórdia corporal — embora estivesse profundamente empenhado neles — mas pensava antes de tudo naquele terno amor por Deus, ordenado pelo que Nosso Senhor chama de “o primeiro e maior” dos mandamentos. Era o amor a Deus que havia esfriado. (Vale a pena observar que Dante, ao escrever na entrada do século XIV, representou as punições dos recantos mais profundos do inferno não com o tradicional fogo, mas com gelo).

A coleta da Festa dos Estigmas de São Francisco de Assis, em 17 de setembro (Missal Tridentino), se refere a esse crescente esfriamento:

Senhor Jesus Cristo, que no meio da indiferença do século Vos dignastes, para reacender os nossos corações no fogo da Vossa caridade, gravar na carne do bem-aventurado Francisco os estigmas da Vossa paixão, concedei-nos, por seus merecimentos e intercessão, a graça de sempre levar a cruz e produzir frutos dignos de penitência.

Outro sinal desse esfriamento espiritual é o fato de que o Quarto Concílio de Latrão, em 1215, viu-se obrigado a exigir o recebimento da Sagrada Comunhão ao menos uma vez por ano, sob pena de pecado mortal. O fato de que a expressão central da devoção católica — sem mencionar o inefável privilégio — precisasse ser transformada em obrigação em vez de ser naturalmente considerada uma alegria, mostra-nos uma vez mais como o fervor religioso havia diminuído. É claro que Deus não responde ao pecado somente com castigos, ele também envia graças especiais. Aqui, encontramos Deus se revelando de maneira extraordinária a duas almas santas desse mesmo século: Ele deu à bem-aventurada Juliana de Liège a missão de promover a Festa de Corpus Christi, para reviver a devoção ao Santíssimo Sacramento; e a Santa Gertrudes, no final do século, Ele revelou o Seu Sagrado Coração.

 

A sociedade medieval e o desenvolvimento do comércio

A questão permanece: o que causou essa diminuição do fervor e o crescimento da frieza, mesmo no século que parece ser o mais católico de todos? Alguns culpam as heresias que colocavam em dúvida a verdadeira presença de Cristo na Eucaristia. Todavia, a maioria delas havia fracassado e não trouxe muitos danos, embora tenha sido necessário o uso de grande força militar para reprimir a bizarra seita dos cátaros, que florescia no sul da França e em partes da Áustria e Itália. O ensinamento cátaro de que toda matéria era produzida por um espírito maligno atacava implicitamente o culto ao Corpo de Cristo no Santíssimo Sacramento. No século XIII, contudo, as heresias ainda não tinham a grande influência que viriam a ter mais tarde dentro da Cristandade; ainda não chegara o seu momento. As heresias medievais, portanto, não foram a causa principal do crescimento da frieza, tampouco a corrupção que existia em certas áreas do clero.

Logo, deve haver outro elemento envolvido no enfraquecimento da fé e do amor na Idade Média Plena, e o ambiente no qual São Francisco cresceu nos dá uma pista dele. Seu pai era um próspero comerciante de tecidos e residia numa movimentada cidade-Estado, num tempo em que a atividade comercial crescia por toda a Europa. Por si só, isso não foi algo ruim. Comerciantes e associações de artífices operavam sob princípios cristãos, prestando serviços sociais aos seus membros, regulando a qualidade do trabalho, pagando salários dignos e cobrando preços justos. Gradualmente, porém, aumentava a complexidade dos negócios e o individualismo dos comerciantes; no século XIII, ganhar dinheiro tornou-se uma preocupação muito maior do que nos séculos anteriores.

Um medievalista francês observou que embora o povo do começo da Idade Média pudesse ser ganancioso, ao cobiçar terras, prestígio, poder, entre outras coisas, o que ele vê no período final da Idade Média é diferente. É o crescimento da avareza: o amor pelo dinheiro. Enquanto a cultura dos negócios crescia rumo ao que por vezes se chama protocapitalismo, os corações católicos se mostravam cada vez mais divididos entre Deus e o mundo. Um mercador do século XV escreve no topo do seu livro de contabilidade: “Em nome de Deus e do lucro”. Como observa outro historiador da Idade Média Tardia: “Começou-se a manter dois tipos de condutas: uma voltada para o lucro e a outra voltada para Deus”.

Nosso Senhor afirma claramente: “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Daí a pobreza radical esposada por São Francisco: Deus enviara um santo que dizia aos católicos o que estava errado e o inspirara a lhes ensinar o remédio. Ao que parece, os ensinamentos de São Francisco não foram suficientemente praticados. A ordem franciscana cresceu rapidamente, e as massas ouviam os frades pregarem. Governantes santos como Isabel da Hungria e Luís de França entraram para a Ordem Terceira franciscana. Porém, tudo indica que esse grau de conversão não satisfez os pedidos de Nosso Senhor.

É difícil acreditar que essa crescente preocupação com lucro não teve efeitos sobre a vida espiritual dos habitantes cada vez mais ocupados das cidades do século XIV. O amor pelo dinheiro talvez não impeça que uma alma ame a Deus, mas pode facilmente destruir o ardor espiritual, o gosto pela contemplação, pelas devoções e o zelo pelos trabalhos de caridade. As crônicas nos contam que mesmo depois da Peste Negra, as pessoas não se tornaram menos avarentas, muito pelo contrário. As heresias que brotaram naquele momento, de algum modo, causaram mais danos e fincaram raízes mais fortes nas mentes do que as heresias anteriores; as ideias heterodoxas de John Wycliffe na Inglaterra e Jan Hus na Boêmia duraram bastante nos seus países de origem. Tudo isso, além dos problemas que prejudicaram o papado e neutralizaram sua resistência aos males da época, havia debilitado as almas dos católicos comuns, tornando-os mais vulneráveis aos heresiarcas do século XVI.

 

Subversão do pensamento

Quanto aos intelectuais, muitos haviam sido influenciados ao longo dos séculos XIV e XV pelas novas ideias de Guilherme de Ockham, cuja filosofia do nominalismo subverteu a grande síntese escolástica entre fé e razão, ao destruir sua fundação filosófica no realismo aristotélico. Ockham defendia que a mente humana é capaz de conhecer coisas individuais, mas não conceitos universais (defendidos pelos realistas), ou seja, não se pode conhecer Deus pela natureza; algo que é verdadeiro pela fé não o deve ser pela razão, e vice-versa. Esses são apenas alguns pontos de um amplo e complexo pensamento, mas eles já indicam uma mudança radical na mentalidade: da confiança dos medievais e clássicos no uso da mente, para o pessimismo teológico e filosófico. 

A perda de confiança na possibilidade de que a razão pudesse demonstrar a existência de Deus, e a ideia das “duas verdades” (uma de fé e outra da razão) geraram incerteza teológica e até mesmo futilidade. O nominalismo tornou-se popular entre círculos reformistas; é até possível que tenha sido o motivo de Lutero se voltar inteiramente contra a razão: “A razão é a prostituta, sustentáculo do Diabo”, escreve ele. “O Batismo deve eliminá-la”. 

O Renascimento do final do século XV e do século XVI desferiu o derradeiro golpe na estrutura cambaleante da civilização medieval. O individualismo, já alimentado pela nova cultura dos negócios, tornou-se um verdadeiro culto para escritores como Pico della Mirandola, que glorificava o homem de uma maneira nunca antes vista em cultura alguma, incluída aí a dos gregos e romanos. Outros exaltavam o “indivíduo heroico”, enquanto Maquiavel, com o seu infame mote “os fins justificam os meios”, conseguiu ser o mais imoral de todos os que estavam determinados a manter sua posição e poder. As ideias desses homens representavam a antítese do pensamento medieval, que valorizava a coletividade em vez do individualismo, a humildade em vez do orgulho e a moral católica em todas as áreas.

 

A revolta seguinte

Esses elementos não representam as causas inevitáveis do desastre conhecido como Reforma Protestante, mas contribuíram para favorecer sua emergência. A frieza espiritual, a preocupação excessiva com os afazeres mundanos, o individualismo, a exposição a diversas noções heréticas e a corrupção generalizada do pensamento (o que prejudicou a relação entre fé e razão): todos esses elementos contribuíram para deixar as mentes confusas e as almas indefesas perante o tsunami que estava prestes a atingi-las. 

Aqui já podemos notar a diferença entre essa análise e a versão convencional sobre as origens da Reforma. O mito da Reforma é descrito da seguinte maneira: No século XVI, a Igreja Católica havia se tornado mundana e corrupta. O clero era imoral, os mosteiros eram fossas de iniquidade e se praticava a compra e venda de coisas santas. A situação era intolerável por toda parte, todos sentiam que alguma medida precisava ser tomada. Havia uma insatisfação generalizada contra a Igreja Católica, e um grande anseio por uma religião mais simples, fiel aos Evangelhos e que colocasse as pessoas em contato direto com Deus. Por fim, um corajoso padre alemão, Martinho Lutero, revoltado com a venda de indulgências, indignou-se e protestou publicamente. Esse foi o começo de uma grande renovação do cristianismo, inevitável e historicamente necessária.

A maioria dos protestantes, evidentemente, tem aceitado esse enredo, e até mesmo historiadores católicos aceitaram partes dele, talvez intimidados com a difusão universal do mito nos livros didáticos e nas universidades. A verdade, porém, é muito diferente.

Em 1991, a Oxford University Press publicou uma revisão do assunto feita por Euan Cameron intitulada The European Reformation. É um resumo excelente e erudito sobre a Reforma, e inclui uma investigação das pequenas seitas e das práticas religiosas do povo comum. Contribuiu muito para desmantelar os elementos do mito reformista. A respeito da afirmação de que a corrupção no clero inflamou entre o povo um clamor generalizado por reforma, Cameron diz o seguinte:

Antes do ano 1500, padres extravagantes ou libertinos vinham sendo reprimidos em sermões havia pelo menos 150 anos. São Bernardo de Claraval, já no ano 1150, escrevia severamente contra a avareza no clero. A respeito de vícios e ambições políticas, João XII (955-964) ultrapassou facilmente o Papa Alexandre VI. Se os problemas eram antigos, também eram as críticas. Mas, os agitadores “reformistas” do ano 1500 pensavam que sua época era um tempo de declínio catastrófico, precedida por séculos de primordial piedade. É preciso que esse mito seja visto somente como mais um clichê.

Uma abordagem como essa traz novos ares para os estudos sobre a Reforma. Males existiam e sempre existiram. Os católicos comuns não esperavam que o homem — com sua natureza corrompida — fosse perfeito, e não mudariam da indignação com as “maçãs podres” dentro do clero para a ideia de que a própria Igreja devia ser fragmentada. Não há evidências de que a maioria dos católicos sequer quisesse que a Igreja ensinasse algo que já não fizesse antes. Muitos estavam conscientes da necessidade de reformas institucionais, para garantir, por exemplo, que os bispos fizessem seu trabalho adequadamente e que os padres fossem corretamente educados. Com efeito, o Quinto Concílio Geral de Latrão, realizado de 1512 a 1517, incluiu entre os diversos temas a serem discutidos a necessidade de reformas. O seu foco principal, porém, foram as questões políticas urgentes, e o seu trabalho foi dificultado pelas rivalidades entre alguns participantes. Talvez tenha sido uma última chance dada à Igreja para que respondesse com vigor à apatia e ao materialismo dentro do clero; pouco depois, naquele mesmo ano de 1517, era tarde demais, pois Lutero havia entrado em cena.

Ao analisar as origens da Reforma, é preciso lembrar também que grande parte da Europa não cedeu às suas ideias. Onde a Reforma de fato ocorreu, observa Cameron, o seu êxito estava ligado à prática de submeter o dogma ao debate público. Em lugar da verdade revelada por Deus, convidavam-se as pessoas a escolher aquilo em que desejavam acreditar. Nessas áreas, contudo, a religião misturou-se com a política. O historiador Carlton Hayes diz: “O protestantismo foi o aspecto religioso do nacionalismo”. Segundo Cameron: “A Reforma deu a muitos grupos da Europa as primeiras lições sobre o comprometimento político com uma ideologia universal. No século XVI, a religião se tornou política de massa”. 

 

Três “reformistas”: Lutero, Calvino e Henrique VIII

Não discutirei aqui em detalhes as posições teológicas dos fundadores das três novas religiões criadas na Reforma. Além da falta de espaço, seria inútil falar sobre a “posição teológica” de um homem como Henrique VIII. As principais novidades ensinadas pelos heresiarcas se encontram em diversas obras católicas conceituadas. Em todo caso, minha preocupação é menos com as complexidades teológicas do movimento herético do que com a questão de por que ele obteve sucesso. Irei simplesmente apontar algumas características do novo ensinamento protestante que parecem ter agravado o enfraquecido estado espiritual em que grande parte da Cristandade já se encontrava: esfriamento da devoção a Deus, a Nossa Senhora e à Santa Eucaristia, preocupação excessiva com dinheiro e aumento do individualismo. Até mesmo o abuso que levou Lutero a apregoar publicamente suas novas ideias religiosas — que ele já havia desenvolvido — era o tipo que interessava à sua época: a venda de indulgências.

 

A questão das indulgências

Essa afronta causou escândalo na época, e embora o Papa Leão X (Giovanni di Lorenzo de Médici) a tivesse ordenado, algumas autoridades da Igreja não a permitiam em suas dioceses. Leão — que queria dinheiro para a construção da nova basílica de São Pedro — e um arcebispo alemão endividado com jogos reuniram forças para implantar a venda de indulgências (reduções das punições temporais decorrentes do pecado, inclusive os pecados dos indivíduos que estão no purgatório). O famoso verso citado por Tetzel, “Assim que soa a moeda no fundo do cofre, sai do purgatório a alma que sofre”, talvez seja um pouco exagerado, mas sintetiza o objetivo da campanha: venda por atacado de benefícios espirituais em troca de dinheiro.

Esse tipo de comércio imoral não era algo novo; há um vendedor de indulgências trabalhando de modo semelhante nos Contos de Cantuária, obra de Geoffrey Chaucher, do final do século XIV. O mais interessante é a razão de esse comércio estar ativo naquele momento. Não se pode imaginar a venda de indulgências sendo tão lucrativa sem que houvesse uma economia florescente e uma mentalidade receptiva da parte das classes endinheiradas. É certo que o comerciante, não propenso a adquirir as indulgências mediante orações e boas obras, e sem tempo para rezar por seus parentes falecidos, viu o mercado de indulgências como uma bênção. Dinheiro, tinha-o; tempo livre, não. Mais tarde, quando Lutero dizer-lhe que não existe a necessidade de indulgências e que, portanto, ele poderia guardar seu dinheiro, o comerciante ficará ainda mais feliz.

 

As ideias de Lutero se adaptam a uma era comercial e individualista

Podemos agora examinar as ideias de Lutero no contexto de sua época. A sua afirmação de que “somente a fé” é necessária para a salvação, por exemplo, casou bem com a época, ao livrar-se da necessidade daquelas penosas boas obras. (Lutero não disse que não se devia fazer boas obras; na verdade, ele disse que se devia fazê-las; mas é natural ao homem concluir que, se algo não é estritamente necessário para a salvação, pode ser deixado de lado). Lutero também disse que “o cumprimento dos deveres temporais é a única maneira de agradar a Deus”. Essa perda na ênfase da contemplação e da vida espiritual provavelmente contribuiu para o fechamento dos mosteiros e conventos na Alemanha e para a concentração em objetivos seculares, entre eles o comércio. Isso soou bem aos ouvidos dos burgueses do Sacro Império Romano-Germânico, e se adaptou bem ao espírito da época. Devemos relembrar que desde a Idade Média reis e autoridades se esforçavam incansavelmente para controlar as terras da Igreja dentro do império. Não é de admirar que seus descendentes tenham se encantado ao ver esses valiosos territórios, que seus ancestrais tanto haviam cobiçado, desprotegidos e sem poder de reação.

Outro ponto que casou bem com a época e que seduziu mentes cada vez mais individualistas foi o princípio de que somente a Bíblia era a regra de fé e que cada indivíduo podia interpretá-la sozinho.

Como observa um autor moderno, “o mandato divino de decidir o que era verdade e o que era heresia passou da Igreja — a quem pertencia — para o indivíduo”.

 

A teologia de Calvino prepara o terreno para os negócios

O pregador francês João Calvino concordava com Lutero em muitos pontos, mas enfatizou a doutrina que se tornaria seu cartão de visitas: a Predestinação Absoluta. Calvino acreditava que, desde a eternidade, Deus havia determinado algumas almas ao Céu e outras ao Inferno, e nada que um indivíduo fizesse poderia mudar sua sentença eterna. Era horrível ter de conviver com uma ideia como essa, e os primeiros calvinistas freqüentemente se angustiavam com a noção de que talvez estivessem condenados e que não podiam fazer nada a respeito.

A teoria, porém, fora de algum modo abrandada pela ideia de que se o indivíduo fosse um dos “eleitos”, sabê-lo-ia mediante alguns sinais de Deus. Acreditar nos ensinamentos calvinistas seria um desses sinais, assim como se comportar bem; mas o sinal mais seguro, porque mais objetivo, seria o de que os negócios mundanos da pessoa estavam melhorando. Isso se inspira no modo como Deus lidava com os hebreus no Antigo Testamento, recompensando-os com prosperidade material quando eles O agradavam.

 

Henrique VIII promove o cisma da Inglaterra

Diferentemente de Lutero e Calvino, Henrique VIII não pretendia criar uma nova teologia; ele queria apenas um divórcio, mas o papa não queria concedê-lo. 

Quando fez de si mesmo o chefe da Igreja na Inglaterra, rompendo com Roma, ele primeiramente criou um cisma, e não uma nova igreja. Contudo, mesmo antes de morrer, depois de ter passado por mais dois divórcios e ter executado duas esposas, seus colegas de ideologia protestante haviam começado a introduzir mudanças na liturgia católica.

Durante o reinado do sucessor de Henrique, surgiu a Igreja da Inglaterra. Era uma nova seita protestante que costurara remendos católicos com diversas ideias heréticas e uma forte associação à coroa e aos deveres patrióticos. Mais tarde, alguns calvinistas — sempre radicais e militantes — se tornaram muito influentes no país, a ponto de, no século XVII, conseguirem implantar uma revolução e executar o rei legítimo (Carlos I). Essa influência calvinista afetaria a sociedade e a economia tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, onde rebeldes puritanos fundaram as primeiras colônias da Nova Inglaterra em 1620 e 1630. As ideias calvinistas inglesas contribuiriam para moldar a perspectiva americana sobre a vida política, social e econômica. 

 

Os resultados

Conhecemos bem os resultados da Reforma. Criaram-se novas religiões hostis a Roma e, geralmente, submissas às novas monarquias sob as quais haviam emergido. A Cristandade foi fragmentada de modo irreversível, e a Igreja perdeu grande parte da Europa, a qual conseguira unificar a duras penas durante a Alta Idade Média. Os santos da Contrarreforma conseguiram recuperar alguns desses territórios e reformar os abusos na administração eclesiástica, mas grande dano já havia sido causado e grande parte da Civilização Ocidental permaneceria infestada com ideias protestantes. O Padre Frederick Faber, um convertido do anglicanismo, analisou diversos efeitos da mentalidade protestante nos católicos da Inglaterra do século XIX. “É difícil”, observa ele, “viver entre icebergs e não sentir frio”.

Em um de seus livros, ele aponta um dos resultados mais prejudiciais da convivência dos católicos com os descrentes:

As Sagradas Escrituras comparam a vida a uma terra cansada (...) Assim é com a religião. Não podemos viver entre descrentes e, ao mesmo tempo, gozar da brilhante vida espiritual dos que vivem nos tempos e regiões de fé. Os que passam a vida numa espécie de Éden doméstico, que deixariam senão com pesar, e convivem em demasia com os que não são filhos da Igreja, logo são prejudicados por estas relações, desde que vivam em paz com aqueles a quem nunca deveriam cessar de tentar converter. A fé, bem como a santidade, debilita-se e fenece no convívio de tal sociedade, cuja atmosfera não lhes é conveniente. Daí originam-se tantas opiniões estranhas sobre a facilidade da salvação para os hereges, indo até a baixeza de considerar a bondade de qualquer doutrina como medida de verdade. E bondade, entenda-se, não para com Nosso Senhor e a Sua Igreja, mas para com os que não estão ligados a Ele ou a Ela. 

Quem, hoje em dia, não tem na família ao menos um descrente, com o qual ninguém quer discutir, para não ter que perturbá-lo com incômodas questões religiosas?

O processo de mudança da civilização católica da Idade Média até a fragmentação do mundo cristão no século XVI pode se resumir da seguinte maneira: a cobiça e a mundanidade primeiro produziram indiferença às coisas de Deus, e o amor por Nosso Senhor esfriou. Quando nem sequer os numerosos santos que Deus enviou no século XIII puderam tocar os corações dos cristãos na medida que Ele desejava, a Europa sofreu os castigos da fome, da peste e da guerra. Conseqüentemente, os homens cresceram piores e não melhores. Até mesmo os papas foram punidos com cismas e heresias. O castigo seguinte, muito pior, foi a difusão de erros filosóficos e teológicos em toda a Cristandade por heresiarcas carismáticos e obstinados, pregadores de falsas doutrinas e ódio à Igreja.

Esse processo continua até hoje. Com efeito, o julgamento privado alcançou sua conclusão lógica no culto do homem moderno: a partir do conceito “todo homem é um papa” durante a Reforma, para a ideia de que “todo homem é seu próprio rei” no período revolucionário seguinte, chegando ao atual “todo homem é seu próprio deus”. É verdade que a Igreja da Contrarreforma, cuja ponta de lança foi o Concílio de Trento, reformaria abusos e conseguiria grandes vitórias. Papas exemplares a lideraram, e ela recebeu a graça de ser auxiliada por vários santos. O número total das legiões de almas que ela não pôde recuperar na Europa talvez tenha sido compensado pela conversão de milhões no Novo Mundo.

Entretanto, muito do que se perdeu nunca mais foi recuperado. A Igreja, no mundo moderno, tem permanecido na defensiva, e todos nós fomos afetados pela mudança do clima intelectual originariamente introduzido pela mentalidade protestante. 

 

Fonte: Dez datas que todo católico deveria conhecer, Castela Editorial, 2013.

Tradução de Gabriel Galeffi Barreiro

 

 

Os mártires irlandeses no século XVII

Matthew Brutton

[Nota da Permanência] Recomendamos a leitura do artigo “Os Mártires irlandeses do Século XVI”, do mesmo autor, traduzido e publicado na Revista Permanência 271.

 

A perseguição que se iniciou no reinado de Henrique VIII na Inglaterra se estendeu pela Irlanda e continuou até o século XVIII. Neste estudo, o leitor deve levar em consideração um aspecto particular da história da Irlanda: enquanto, em outros países, as autoridades e a população, ou aderiam todos ao protestantismo, ou permaneciam todos católicos, a Irlanda enfrentava a difícil posição de ser governada por estrangeiros cismáticos e heréticos, enquanto o povo permanecia católico. Assim, os irlandeses sofreram uma intensa perseguição que buscava abalar a perseverança na fé que São Patrício, no século V, lhes havia transmitido. Todos os meios foram empregados, desde restrições legais até brutalidades físicas, mas os Irlandeses deram mostras de um heroísmo exemplar.

Após um breve resumo histórico, apresentaremos os principais mártires da primeira metade do século XVII. Em seguida, deter-nos-emos mais particularmente no período em que o puritanismo (um ramo do calvinismo) tomou o poder, e veremos os mais importantes mártires tanto dessa época quanto da época seguinte.

A Irlanda do século XVII

No início do século XVII, a Irlanda mais uma vez estava em guerra contra a Inglaterra. Uma dessas guerras trouxe numerosas vitórias para os irlandeses; no entanto, o resultado final foi a derrota da Irlanda, e o exílio dos líderes e de muitas famílias nobres. Seguiu-se então uma época de dominação completa e tirânica dos ingleses sobre os irlandeses. Uma das primeiras medidas do governo Inglês foi a expulsão de milhares de católicos de suas terras, principalmente do norte da Irlanda, e o estímulo à vinda de colonos protestantes, ingleses ou escoceses, a quem se deram essas terras. Os protestantes permanecem no norte do país até os dias de hoje1.

Enquanto continuavam as perseguições contra os católicos, iniciou-se uma nova rebelião irlandesa, em 1642, com a particularidade de que, desta vez, a Igreja é que a organizava. O Papa a apoiou e chegou a enviar o núncio João Batista Rinuccini, arcebispo de Fermo. Infelizmente, a insurreição foi derrotada.

Após o assassinato do rei Carlos I, em 1649, instaurou-se um novo governo na Inglaterra, controlado pelos protestantes puritanos, cujo líder era Oliver Cromwell. Juntamente com seus companheiros, Cromwell nutria um intenso ódio contra os católicos irlandeses. Perseguiu-os, até 1660, numa das mais terríveis perseguições da história da Igreja.

Carlos II, filho de Carlos I, subiu então ao trono. Durante os reinados de Carlos II, Jaime II e Maria II, as perseguições continuaram e a lista de mártires aumentou. O último foi o Fr. Gerald Fitzgibbon O.P., em 1691. A partir de então, as perseguições físicas cessaram; no entanto, ainda vigoravam as leis severas contra o clero e os católicos.

 

Os primeiros mártires

Dom Cornelius O’Devany

O primeiro mártir que apresentamos é Cornelius O’Devany, bispo da diocese de Down e Connor. Originário do norte da Irlanda, tornou-se franciscano aos vinte anos e foi designado bispo aos quarenta e nove, por Gregório XIII, em 1582. Capturaram-no em 1611 e o julgaram em Dublin sob falsos pretextos, sofrendo denúncias de testemunhas perjuras. Ao final, seus adversários lhe acabaram revelando as verdadeiras intenções e disseram que lhe poupariam a vida se abandonasse a religião católica e abraçasse o anglicanismo. A estas palavras, ergueu a voz e chamou todos os cristãos para testemunharem que ele preferia morrer em defesa da sua fé católica.

De volta à prisão, passou o tempo meditando e rezando, até o dia da execução, em 1º de fevereiro, na festa de Santa Brígida, patrona da Irlanda. Quando o conduziam à morte, junto com outro padre, Patrick O’Lochran, disse a este último: “Venha, meu caro companheiro, nobre soldado de Cristo, imitemos o máximo possível a morte daquele que levaram ao patíbulo como um cordeiro ao abatedouro”. Em seguida, inclinando-se e beijando a trave posta sobre o cavalo que o carregava, montou e percorreu as ruas até o cadafalso. No percurso, a multidão de católicos invadia as ruas e, de joelhos, pedia-lhe a bênção, o que causou grande indignação do representante do rei. 

Quando o bispo chegou ao local onde estava montado o cadafalso, pediu ao algoz que executasse seu companheiro antes dele, pois temia que ele, vendo-o morto, perdesse a coragem. O carrasco lhe recusou a graça, mas Patrick O’Lochran tranqüilizou o prelado.

No momento em que Dom Cornelius se aproximou do cadafalso, os gritos da multidão se intensificaram. Por três vezes rezou: primeiro, pela multidão presente; segundo, pela cidade de Dublin e por todos os católicos do reino, para que servissem a Deus fiel e piedosamente; finalmente, rezou pela conversão dos heréticos. No instante em que o enforcaram, a multidão lançou um grito de angústia. Houve em seguida um profundo silêncio.

Morto, o rosto ainda lhe brilhava. Os algozes lhe cortaram a cabeça, retiraram as entranhas e deitaram fogo nelas. Ele foi enterrado junto com o outro padre na igreja de São Tiago de Kilmainham2

 

Pe. Peter O’Higgin O.P.

Até 1649, contam-se pelo menos cento e nove mártires, cujos arquivos ainda existem. Entre eles, há um arcebispo, três bispos, dezessete franciscanos, nove dominicanos, três jesuítas, três cistercienses e três carmelitas. 

Entre esses, destacamos o Pe. Peter O’Higgin. Ele era prior do convento de Nass, no sudoeste de Dublin e foi preso pelos heréticos. Um mensageiro, vindo em nome do Vice-Rei, assegurou-lhe que o libertariam caso abandonasse a religião católica. O padre contentou-se em responder:

Estou hoje a ponto de ser conduzido ao patíbulo e todo mundo sabe muito bem que a natureza humana não aceita a morte voluntariamente. Não estou cansado da vida a ponto de querer antecipar a morte, a não ser que a necessidade me obrigue. O Vice-Rei dignou-se enviar-me uma promessa escrita de próprio punho, pela qual me concede a escolha livre e total entre a vida e a morte, para que, por amor à vida, eu abandone minha religião. 

Pouco depois, no momento da execução, a mensagem do Vice-Rei foi-lhe novamente apresentada e ele a segurou, sorrindo. Os heréticos rejubilaram pensando que ele abandonaria sua religião, mas o padre subiu os degraus do patíbulo ainda mais alegre e à multidão dos católicos presentes disse:

Caros irmãos, membros da Santa Igreja Católica Romana. Desde que caí nas mãos destes heréticos aqui presentes, suportei a fome, os insultos e a prisão em lugares sombrios e repugnantes. Não sabia por que padecia tais penas e se iria receber a coroa do martírio; pois não é a pena, mas a causa dela que faz os mártires. O Deus Todo-Poderoso, que protege os inocentes e dispõe de todos com doçura, conduziu as coisas de modo que hoje eu fosse condenado por professar a religião católica, quando na verdade me acusam de crimes contra as leis deste reino. Eis a prova autêntica de minha inocência, uma carta assinada pelo Vice-Rei oferecendo-me a vida e ricas recompensas se eu abandonar a religião católica. Que Deus e os homens sejam testemunhas de que rejeito firmemente e sem hesitação tais ofertas e que voluntariamente e com alegria entro neste combate professando a fé.

Ele lançou a carta a um amigo e pediu ao algoz que procedesse à execução. Enfim, num profundo suspiro, disse: Deo gratias, e morreu.

 

A Irlanda durante o governo dos puritanos: o período mais negro da sua história

Desolação geral

Em 1641, de uma população de 1.466.000 habitantes, 1.240.000 eram católicos; em 1659, restavam apenas 420.0003. Como em todo período de guerra, é difícil saber em detalhes o que acontece com as populações. Sabe-se, no entanto, que 60.000 irlandeses foram vendidos como escravos por Cromwell, 40.000 fugiram para o continente e 20.000 se refugiaram nas ilhas escocesas4. Quanto aos outros, morreram à espada, de fome ou peste.

A fome na Irlanda não aconteceu por acaso, mas foi uma política deliberada dos governantes ingleses, que já havia sido experimentada durante o reinado de Elizabete I (1558 – 1603). Uma carta do vice-governador da Irlanda revelava: “O Sr. William Parsons aconselhou o governador a queimar o trigo e a matar cada homem, mulher ou criança”. A peste foi consequência da grande fome. Como declarou um membro do governo de Elizabete I: “tudo sucedeu para que os irlandeses acabassem devorando uns aos outros5”.

O exemplo mais notável desse massacre legalizado foi uma lei de 1664, promulgada pelo parlamento inglês, que estipulava: “Não haverá misericórdia para um irlandês ou papista nascido na Irlanda6”. Em um panfleto político da época, que convocava uma expedição militar contra os irlandeses, podia-se ler: 

Rogo-vos que a expedição levante-se contra eles com um coração ardente de vingança e que vossas mãos estejam ávidas de sangue. Não temo dizer a todos que me leem: Bem-aventurados aqueles que os recompensarem como merecem, e maldito os negligentes em executar esta obra do Senhor! Maldito seja quem retiver a espada; sim, maldito quem não banhar a espada em sangue irlandês7.

Os motivos desse ódio eram, sobretudo, de ordem religiosa. Um autor da época escreve:

Na verdade, por diversas vezes os magistrados (puritanos) assinalaram à burguesia católica que eles desejavam protegê-los, que todas as aflições cessariam se eles consentissem em renunciar ao Soberano Pontífice e, sobretudo, à missa 8

O Dr. John Lynch, arquidiácono de Tuam, historiador da época e testemunha das atrocidades, descreve o estado da Irlanda ao final do período:

Invejamos frequentemente as condições de vida de outras nações europeias que vivem em paz umas com as outras. Cada um vive em sua própria vinha e sob a própria figueira, já nós estamos famintos e miseráveis; os colonos tomaram posse de nosso país e nos tornamos estrangeiros. Nas cidades européias, constroem-se majestosos monumentos que sobem aos céus; quanto a nós, nenhuma casa é construída e as que existiam hoje são ruínas. Nesses países, os lugares sagrados são ornados com zelo, enquanto os nossos são destruídos, profanados e utilizados como tribunais ou para fins sacrílegos.

Os filhos dos europeus recebem boa educação, que é proibida em nosso país. Lá, os clérigos são honrados, mas aqui, são prisioneiros, ou estão escondidos nas florestas, nos porões ou nos pântanos. A lei universal da Igreja isentou da escravidão quem professasse a religião católica, mas os súditos irlandeses são arrancados dos braços das esposas e filhos pelos abutres do Estado, e deportados e vendidos como escravos para as Índias. Assim, os filhos dos irlandeses se transformaram em presas, as mulheres são levadas, as cidades destruídas, e os vasos sagrados profanados; os próprios irlandeses se veem reprimidos pelas outras nações... O inimigo infligiu toda espécie de injúria sobre os irlandeses; não fomos poupados de nenhuma maldade ou sofrimento 9.

 

A perseguição de Oliver Cromwell

Como a Irlanda, que tanto contribuiu para a Igreja, caiu num estado de tanta aflição?

Como já dissemos, a guerra, que começou em 1642, terminou por volta de 1648 ou 1649. Nesta época, o partido dos puritanos adquiria cada vez mais poder. Em 30 de janeiro de 1649, esse partido executou Carlos I. Dois meses mais tarde, Oliver Cromwell tornou-se o comandante geral. Foi com esse título que chegou à Irlanda em 14 de agosto do mesmo ano, dizendo a seus soldados que os irlandeses “deveriam ser tratados como os cananeus do tempo de Josué”.

A campanha militar durou perto de um ano. Cromwell sitiou e destruiu as cidades de Drogheda (norte de Dublin) e de Wexford (extremo sudeste da Irlanda). Exigiu então que, se os habitantes das outras principais cidades prezassem suas vidas, deveriam render-se e aceitar a seguinte condição: “Em cada local onde a autoridade do parlamento se estabelecesse, a missa não seria tolerada”. Sitiou, em seguida, diversas cidades do sul, entre as quais Waterford, New Ross, Cork, Kilkenny e Clonmel. Em 1651, as cidades de Limerick (sudoeste) e de Galway (oeste) caíram por sua vez sob o jugo de Cromwell.

Derrotadas, as tropas irlandesas deixaram o país. Os puritanos, já não encontrando nenhuma oposição militar, viram-se livres para decretar o primeiro édito de perseguição contra os católicos. Cromwell ordenou que todos os clérigos, seculares e regulares, deveriam, sob pena de traição, deixar o reino em vinte dias e, caso voltassem, sofreriam os confiscos e penas impostos ao tempo da rainha Elizabete, ou seja, seriam “enforcados, e ainda vivos seriam decapitados e esquartejados; as entranhas seriam retiradas e queimadas, e a cabeça exposta em praça pública”. Quem ousasse abrigar um clérigo estaria sujeito “ao confisco da propriedade e à morte imediata”. 

Dr. William Burgatt, contemporâneo da perseguição, escreveu:

Em 1649, contavam-se vinte e sete bispos, dos quais quatro eram metropolitanos. Em cada catedral havia dignitários e cônegos: cada paróquia tinha seus párocos; contava-se também grande quantidade de outros padres e numerosos conventos. Mas quando Cromwell, com extrema crueldade, perseguiu o clero, todos foram dizimados. Mais de trezentos sacerdotes, dos quais três bispos, foram executados à espada ou enforcados. Mais de mil foram exilados, entre os quais se encontravam todos os outros bispos, exceto um, o bispo de Kilmore que, devido à idade e enfermidades, não pôde deixar a ilha. Desta forma, privaram a Irlanda de seus bispos, coisa nunca vista há muito séculos, desde que recebemos a luz da fé católica. 

Não contentes, os puritanos confiscaram as propriedades da aristocracia irlandesa que permanecera na ilha. Todos os que não renunciaram à fé católica tiveram de entregar dois terços de suas terras. Pelo menos cinco milhões de hectares foram divididos entre os soldados puritanos; a uma grande parte da nobreza restou apenas vagar em busca de alimento, sendo obrigados inclusive a bater à porta das casas dos antigos locatários.

Decretaram-se ainda outras leis: quem não se dirigisse ao templo protestante no domingo deveria pagar uma multa de trinta pence; as crianças irlandesas foram declaradas propriedades da república, de forma que levaram muitas delas para que se instruíssem no protestantismo; além disso, todo irlandês que se distanciasse da região onde se registrara, por mais de uma milha (1,6 Km), sem passaporte, ou que participasse de alguma reunião, estava sujeito à pena de morte.

Os católicos foram excluídos das administrações públicas, a não ser que tivessem prestado o juramento de supremacia (juramento que definia a “Igreja da Inglaterra como autoridade suprema em domínio religioso”).

Em 1654, para impedir definitivamente que os irlandeses voltassem a se rebelar, os puritanos ordenaram que se deportassem os católicos para o oeste da ilha, onde as terras eram extremamente pobres, e que renunciassem a seus títulos de propriedade. Durante esse êxodo, milhares morreram de fome e enfermidades; alguns chegaram até mesmo a cometer suicídio. Instalaram-se guaritas de soldados a algumas milhas umas das outras, a pretexto de segurança, mas na verdade elas serviam de óbice para que os padres não se reunissem aos exilados.

Os puritanos então tentaram encontrar ingleses dispostos a ocupar as propriedades abandonadas, mas somente os mais pobres da sociedade aceitaram, pois as notícias dos horrores cometidos contra os irlandeses tinham chegado à Inglaterra.

Esses crimes hediondos não escaparam do castigo divino. Três meses depois de se estabeleceram na Irlanda, os 200.000 colonos sofreram uma invasão de vermes: as parasitas lhes infestaram os corpos, os cabelos, as barbas e os vestidos, enquanto nenhum irlandês foi atingido. Mais de 180.000 colonos morreram dessa epidemia e de outras doenças. 

Finalmente, em 1666, houve um grande incêndio em Londres. Muitos londrinos interpretaram o acontecimento como um castigo do céu, em razão do tratamento infligido aos irlandeses.

 

Mártires numerosos

As perseguições suscitaram numerosos mártires, para a maior glória da Igreja. De 1649 a 1660, contam-se mais de oitenta e seis, dos quais dois eram bispos, dezessete dominicanos, e vinte e um franciscanos.

 

Dom Albert Terence O' Brien

Um dos mártires mais célebres foi o bispo Albert Terence O’Brien. Ele era o provincial dos dominicanos da Irlanda. Em 1644, Urbano VIII o nomeou bispo da diocese de Emly. Em 1651, a cidade de Limerick (sudoeste da Irlanda) foi sitiada pelos puritanos. Os habitantes lutaram corajosamente e demonstraram grande piedade e confiança em Deus. Os puritanos ofereceram 40.000 moedas de ouro ao bispo se ele deixasse a cidade e parasse de lutar ao lado dos fiéis, ao que ele recusou. Quando a cidade caiu, ele foi capturado, acorrentado e levado à praça pública. Caminhou com alegria até o patíbulo e, muito calmamente, volveu-se em direção a seus amigos católicos, que estavam aos prantos em meio à multidão, e disse-lhes:

Guardai firmemente a fé católica e seus mandamentos. Não murmureis contra o que a Providência de Deus permite, e assim salvareis as almas. Não choreis por mim, mas rezai sobretudo para que nesta última prova eu possa, pela constância e firmeza, obter o céu como recompensa 10.

Em seguida, invadido por um espírito profético, condenou a ferocidade dos heréticos, declarou que a vingança divina lhes puniria os crimes e anunciou ao algoz, Henri Ireton, grande perseguidor dos católicos, que ele estaria diante do tribunal do justo Juiz em oito dias. A profecia cumpriu-se ao pé da letra: no oitavo dia, atingido pela peste, Ireton morreu gritando: “Sangue! Sangue! Quero mais sangue!” Antes de morrer, teve uma visão do bispo mártir, que era tão palpável que ele desviou os olhos para não vê-lo11.

Fixaram a cabeça decapitada do bispo na ponta de uma estaca, no alto de um castelo, de onde por muito tempo viam-se pequenas gotas de sangue fresco caírem. A pele e a carne permaneceram intactas, sem dúvida um sinal da pureza virginal de sua vida. 

 

São Vicente de Paulo e os católicos perseguidos da Irlanda

Antes de darmos continuidade à história dos mártires, ressaltemos a relação entre São Vicente de Paulo e a Irlanda. Este santo tinha uma afeição particular à Igreja perseguida da Irlanda. Contribuía sem cessar auxiliando os exilados e sobretudo os eclesiásticos que se refugiavam na França. Dava-lhes abrigo, paramentos e vestimentas. Como dizia um bispo irlandês, “Deus o suscitou neste tempo de perseguição para ser a salvação de nosso país12”. 

Naquela época, os religiosos de São Vicente de Paulo também estavam presentes na Irlanda, especialmente em Limerick, onde ajudavam os cidadãos nas necessidades espirituais e temporais. O texto a seguir é de uma carta que São Vicente escreveu ao superior da Ordem na Irlanda, incitando seus filhos missionários a defrontar os perigos que os ameaçavam:

Vós vos consagrastes a Deus, a fim de que, em meio aos perigos, permaneçam inquebrantáveis neste país, expondo-vos à morte para serem caridosos com o próximo... Vós agistes como verdadeiros filhos de nosso Pai adorável, a quem dou infinitas graças por ter produzido em vós esta caridade soberana, que é a perfeição de todas as virtudes. Rogo-lhe que vos cumuleis desta caridade até o final, de modo que, praticando-a sempre e em todo lugar, possais vertê-la no coração daqueles que a desejam. 

Vendo que vossos companheiros têm boas disposições para ficar, apesar dos perigos da guerra e das calamidades, somos da opinião de que eles assim devem fazer. Como conhecer a intenção de Deus para eles? Certamente, Ele não concede tal disposição em vão. Meu Deus, como vossos julgamentos são insondáveis! Eis uma das missões mais frutuosas que já tivemos, talvez uma das mais necessárias, e Vós vos detendes misericordiosamente nesta cidade penitente, e fazeis cair vossa mão ainda mais pesada sobre ela, acrescentando-lhe às penúrias da guerra, as calamidades da peste. Mas tudo isso é feito para a colheita dos eleitos, para a colheita do bom trigo no celeiro eterno. Nós adoramos vossos caminhos, oh Senhor13

Quando a cidade de Limerick finalmente caiu nas mãos dos puritanos, os mártires deram testemunho da obra consumada por seu clero. 

 

Thomas Stritch

Abelly, que acabamos de citar, relata ainda o martírio do chefe da cidade de Limerick, Thomas Strich.

Saindo de um retiro espiritual, ele recebeu as chaves da cidade, depositou-as diante da estátua da Santíssima Virgem rogando-Lhe que colocasse a cidade sob sua proteção, enquanto que em sua honra todos as corporações marchavam em procissão até a igreja. Ele pronunciou um discurso edificante diante de toda a assembleia, encorajando-a a permanecer inviolavelmente unida a Deus, à Igreja e ao Rei, aceitando oferecer a vida para uma tão justa causa.

Deus aceitou a oferta, e quando a cidade foi tomada, ele recebeu a coroa do martírio, juntamente com outros três companheiros com quem fizera o retiro espiritual. Todos os quatro caminharam para a morte não apenas com coragem mas também alegria. Antes da execução, dirigiram-se para a multidão e, comovendo até os heréticos, declararam diante do céu e da terra que davam as vidas pela propagação e defesa da fé católica. O exemplo heroico encorajou os outros católicos a permanecerem na fé e a enfrentarem as perseguições, antes de faltarem à fidelidade que deviam a Deus14

Quando São Vicente de Paulo soube da quantidade de mártires de Limerick, exclamou: “O sangue desses mártires não será esquecido diante de Deus, e cedo ou tarde produzirá uma colheita abundante de catolicidade”.

Foi exatamente o que aconteceu. No decorrer dos séculos XIX e XX, a Irlanda ofereceu um grande número de vocações para a Igreja (fato que Dom Lefebvre ressaltou quando a Irlanda recebeu pela primeira vez um padre da Fraternidade São Pio X15).

 

Pe. James Wolf, O.P.

Outro mártir foi o padre James Wolf, da Ordem dos Pregadores, também originário de Limerick. Ausente no momento em que sitiavam a cidade, soube que os eclesiásticos da cidade tinham sido condenados à morte ou banidos. Voltou, então, secretamente, para administrar os sacramentos aos fiéis.

Os heréticos prenderam-no enquanto celebrava a missa. Em poucas horas o condenaram à morte e o conduziram ao local de execução. Professou a fé em público e exortou aos católicos que perseverassem na fé de seus pais. Aos pés do cadafalso, exclamou com alegria: “Fomos considerados cativos diante de Deus, dos anjos e dos homens; mas Deus assim o permite para sua glória e alegria dos anjos, apesar dos murmúrios dos homens”. Em seguida foi enforcado, e recebeu a recompensa eterna16

 

Dom Oliver Plunkett

É preciso finalmente mencionar Oliver Pluncket.

Ele fizera os estudos de teologia em Roma, onde passou quase vinte anos. Em 1669, foi nomeado arcebispo de Armagh, diocese do norte da Irlanda. Aí exerceu o ministério com muita perseverança e fidelidade, em condições muitas vezes difíceis.

Tendo repreendido alguns padres, estes o acusaram de preparar um complô para derrubar o poder dos protestantes na Irlanda. Prenderam-no então em 1679, na Inglaterra. Na prisão, rezava continuamente e jejuava três ou quatro vezes por semana. Em 1681, compareceu diante do tribunal e foi condenado, apesar da evidente falsidade das acusações.

O conde de Essex enviou uma petição a Carlos II na tentativa de obter a anistia do bispo, mas o rei respondeu-lhe: “Que o sangue dele caia sobre sua cabeça e não sobre a minha!”

No dia 1º de julho, em Tyburn, o bispo foi enforcado. Eis suas últimas palavras: 

“Mostrei suficientemente, acredito eu, que sou inocente desse complô ou conspiração, e gostaria agora, se for possível, de me desculpar dos crimes cometidos contra os mandamentos da Majestade Divina, que por tantas vezes transgredi, e dos quais me arrependo de todo o coração. Se ainda vivesse mil anos, fá-lo-ia com a firme resolução e a forte intenção, por vossa santa graça, oh Deus, de nunca mais vos ofender. Suplico a vossa Majestade Divina, pelos méritos do Cristo, e a intercessão de sua bem-aventurada Mãe e de todos os anjos e santos, que perdoe meus pecados e me alcance o repouso eterno17.

Recitou em seguida o salmo Miserere Mei e outras orações fervorosas. Depois de enforcado, as entranhas e o coração foram retirados e lançados ao fogo. A cabeça ainda se conserva em Drogheda, ao norte de Dublin.

 

Conclusão

A Inglaterra não manifestou arrependimento nem mostrou sinal de conversão. Ao contrário, ainda durante muitos anos continuou a perseguir os católicos, tanto irlandeses quanto ingleses.

Os acontecimentos do século XVII na Irlanda e seus inumeráveis mártires, dos quais só apresentamos aqui algumas figuras, são um exemplo e um encorajamento em nosso próprio combate pela proteção da fé. A perseverança dos irlandeses e os numerosos milagres que acompanharam as perseguições sofridas ajudam-nos a permanecer firmes na certeza de que Deus jamais abandona aqueles que continuam fiéis a Ele. 

(tradução: Permanência - com autorização do autor)

  1. 1. [N. da T.] O norte da ilha é hoje a Irlanda do Norte, país integrante do Reino Unido, e é protestante, ao contrário da República da Irlanda, que compreende todo o resto da ilha, é independente e católica.
  2. 2. ROTHE, David. Analecta Nova et Mira de Rebus Catholicorum in Hibernia pro fide et religione gesti, Colônia, 1616-1619, p. 456 e Historiae Catholicae Iberniae, pág. 298. Disponível em www.archive.org .
  3. 3. Catholic World, vol. VIII, 1869, pág. 849.
  4. 4. Ibid.
  5. 5. Dominicus de Rosario O’ DALY, A History of the Geraldines, 1655, vol. II, pág. 350.
  6. 6. Pe. Francis Patrick MORAN, Historical sketch of the persecutions suffered by the Catholics of Ireland under the rule of Cromwell and the Puritans, 1862, pág. 3.
  7. 7. H. DE CHAVANNES DE LA GIRAUDIÈRE et HUILLARD, L’Irlande, son origine, son histoire et sa situation présente, 1867, Bréholles, pág. 148. Um livro francês, em geral considerado bom, mas que carece de um julgamento acertado sobre as revoluções irlandesas do final do século XVIII (ancestrais do moderno I.R.A e do Sinn Fein), que receberam auxílio do Diretório da França e exibiam em suas bandeiras a divisa “Liberty or Death” (Liberdade ou Morte, emprestada da França).
  8. 8. MS. Status Rei Cath. in Hibernia hoc anno 1654, no Colégio Irlandês de Roma.
  9. 9. Historical sketch…, pág. 120.
  10. 10. MURPHY S.J., Our Martyrs, 2010, pág. 338.
  11. 11. Duffy’s Hibernian Magazine, volume V, Jan-Jun 1864, pág. 259, disponível em Google books.
  12. 12. Historical Sketch…, pág. 52.
  13. 13. ABELLY, Vie de saint Vincent, pág. 212.
  14. 14. Ibid, págs. 218-219.
  15. 15. História da FSSPX pelo Pe. Ramon ANGLES (www.sspx.org/sspx_faqs/a_short_history_of_the_sspx-part-3.html).
  16. 16. Our Martyrs, pág. 345.
  17. 17. Our Martyrs, pág. 346

Os mártires irlandeses do século XVI

Matthew Bruton

O martírio dos católicos irlandeses estende-se por um período de mais de 150 anos. Neste modesto estudo, trataremos dos martírios do século XVI. Nesse lapso de tempo, mais de 300 irlandeses deram a vida em nome da fé. O governo de Londres derramou indiscriminadamente o sangue dos mártires, dentre os quais se contam oito bispos e arcebispos, incluídos os dois bispos da principal sé episcopal da Irlanda. Os métodos de tortura eram crudelíssimos, como bem veremos. Porém, examinamos antes de tudo o contexto político e religioso.

Em 1533, Henrique VIII da Inglaterra se casou em segredo, como se sabe, com Ana Bolena, tanto assim que, naquela ocasião, ele foi intimado a comparecer diante do Tribunal Romano para que respondesse à queixa da rainha Catarina. Catorze meses depois, o papa Clemente VII declarava a validade do casamento dele com a rainha Catarina e pronunciava sentença que o excomungaria, caso não obedecesse ao decreto. O rei já se decidira a rejeitar a autoridade papal, tomando neste sentido a iniciativa de aprovar várias leis no parlamento. A Irlanda, então, era alvo das reivindicações da coroa inglesa, apesar de esta na verdade controlar apenas a região limítrofe da capital, Dublin.

Na segunda metade do século XVI, aconteceram numerosas revoltas, dentre as quais algumas foram de tal vulto que chamaram a atenção e o apoio dos papas da época: a revolta da família Geraldine em 1546, a de Shaun O’Neill em 1561, a do Deão de Desmond em 1579 e enfim, a mais bem-sucedida de todas, a de Hugh O’Neill no começo de 1595.

Após Henrique três soberanos governaram a Inglaterra; foram eles Eduardo VI (1547-1553), Maria Tudor, filha de Henrique VIII (1553-1558), e Elizabeth Iª (1558-1603). Eduardo e Maria continuaram ambos a política de Henrique VIII, que era atacar a religião católica. Maria reconduziu o país à religião verdadeira, mas por pouco tempo1.

A primeira ação legal que Henrique VIII tentou empreender, a fim de implantar a nova religião na Irlanda, ocorreu em 1º de maio de 1537, quando o parlamento da Irlanda, sediado em Dublin, aprovou uma lei que incluía o seguinte parágrafo:

§ 5. O rei, seus herdeiros ou sucessores, reis de Inglaterra e senhores de Irlanda, serão admitidos e reconhecidos nesta terra como os únicos chefes supremos de toda a Igreja da Irlanda.

Na sessão seguinte, proclamou-se:

§ 1. Qualquer pessoa que por escrito, pregação, ensino ou ato semelhante, sustentar a autoridade e a jurisdição dos bispos de Roma ou de seus mandatários, incorrerá para cada delito na pena de praemunire.

§ 4. Os titulares de ofícios, laicos ou eclesiásticos, a partir de agora renegarão com juramento o bispo de Roma e sua jurisdição, e reconhecerão o rei como o único chefe supremo da Igreja de Inglaterra e de Irlanda.

§ 6. Qualquer pessoa, requisitada a prestar o sobredito juramento e recusando-se obstinadamente a fazê-lo, será punida de morte, além de sofrer as demais penas previstas em caso de alta traição.

O nosso primeiro mártir foi um padre chamado John Travers, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, doutor em teologia, que escrevera em anonimato um tratado célebre, cujo título era: Da Autoridade do Romano Pontífice, em que provava claramente que a primazia de Henrique VIII era pura ficção. Os delegados do rei o prenderam e custodiaram na torre de Londres durante quatro meses. Submetido à tortura, mas sempre intransigente, foi declarado culpado de alta traição. Em 20 de julho de 1535, com as mãos amarradas para trás e a corda ao pescoço, conduziram-no até o lugar da execução, que ficava sobre uma grade. Quando alcançou o alto da escada que o levava até ao patíbulo, ele exortou à assistência, de todo o coração, a fim de que rezasse com ardor a Deus – refúgio dos pecadores – para a conversão e salvação do Rei e de todos os heréticos que o seguiam.

Em seguida, bradou:

Não foi por um crime, caros cristãos, que me tiraram da Irlanda, a minha terra natal, mas sim porque professei a fé católica, com que me alimentei no seio maternal, a exemplo dos meus avós. Está próxima a hora da minha morte, que certamente me abrirá as portas da vida eterna. Declaro que sou padre da Igreja Católica e Apostólica, e foi com estes três dedos (mostrou três dedos da mão direita) que escrevi a obra sobre a autoridade do Romano Pontífice.

Após o pronunciamento, ao comando do oficial, ele foi enforcado, depois baixado ao solo, para que morresse esquartejado. Aconteceu então algo extraordinário: os verdugos arremessaram a mão direita e as entranhas dele ao fogo e, enquanto as outras partes se reduziam a cinzas, viram que os três dedos que mostrara sobre o cadafalso permaneciam na mesma posição em meio às chamas, e assim os encontraram inteiros e ilesos, como se nunca tivessem sido queimados. Eles ficaram intactos durante muito tempo após a morte do padre2.

Os próximos a sofrer o martírio foram os Trinitários de Adare, em Limerick, no sudoeste do país. Era Irmão Roberto o superior do convento. Quando se publicaram os decretos reais, ele os lera e, após reunir a comunidade que então contava com quarenta e dois membros, declarara que o rei era herege e cumpria não aquiescer com o crime. Causou ele uma tal impressão nos ouvintes que todos declararam que estavam prontos a perder a vida na defesa da fé católica. Ao saberem que o convento estava prestes a ser saqueado, eles distribuíram os bens aos pobres e esconderam os vasos sagrados e os ornamentos do altar. 

Quando os hereges chegaram, ofereceram altos cargos e benefícios ao Irmão Roberto, que os recusou, proclamando a sua devoção à fé católica. Nenhuma agressão, disse ele, afastá-los-ia, ele e a comunidade, dos princípios da verdade. Eles reconheciam tão-somente o Vigário de Cristo como Cabeça da Igreja; e no que respeitava ao Rei da Inglaterra, não o consideravam sequer membro da Santíssima Igreja, mas Chefe da Sinagoga de Satanás.

Assim que terminou o discurso, um oficial herético puxou a espada e de um só golpe separou a cabeça e o corpo do santo homem. Os outros membros da comunidade foram presos, alguns morreram em decorrência dos ferimentos, ao passo que outros foram assassinados ou enforcados em segredo3.

Enquanto isso, acontecia uma reunião dos diretores da ordem na casa principal dos Trinitários em Dublin, com a finalidade de discutir as medidas a serem tomadas ante o iminente perigo. Eles declararam que o rei era um manifesto herege e, depositando as esperanças na Santíssima Trindade, resolveram-se a dar a vida em prol da verdade. Mal terminara a conferência quando chegaram as notícias do que acabava de ocorrer em Adare. Irmão Teobaldo, o antigo Provincial, exclamara: “A Santíssima Trindade abençoou a nossa ordem com um bom começo, assegurando-nos assim que a graça há-de acompanhar-nos até o fim”.

Pouco tempo depois, os delegados reais chegaram a Dublin. O Provincial e o Irmão Teobaldo dirigiram-se ao povo; este último foi de imediato abatido, porque o consideravam artífice da resistência. Capturaram o Provincial e arrastaram-no pelas ruas; ele repetia aos berros a sua lealdade à fé católica. Os juízes advertiram os algozes para que cumprissem o dever e, por isso, com uma machadada puseram termo à vida do Provincial. Abriram-lhe as costelas e arrancaram-lhe o coração; já o corpo, arremessaram-no sobre um monte de estrume. Mas quando caiu a noite, os católicos vieram e resgataram os membros espalhados, a fim de enterrá-los. Os outros religiosos do convento conheceram destino semelhante. O triunfo desses gloriosos mártires aconteceu nos dias 25 e 26 de fevereiro de 1539.

Entre os demais soldados da fé mortos sob a tirania de Henrique VIII, há-de incluir-se os dezesseis franciscanos do condado de Monaghan, ao norte, e os cinqüenta cistercienses de Dublin – porém vejamos com mais detalhes o martírio do bispo de Limerick, Cornelius O’Neill. Era ele de ascendência nobre e de humildade e caridade notáveis. Exercera diferentes funções, dentre as quais a de Provincial da Ordem Trinitária. Quando o rei o consultou sobre o divorciar-se de sua legítima esposa, Cornelius ficou do lado da rainha. O rei irritou-se muitíssimo e prometeu vingança.

Ao tomar conhecimento das ameaças, o bispo convocou a comunidade trinitária e a ela falou nestes termos: “Um mau começo destes não chegará a bom fim. O rei e o reino estão perdidos. A Igreja Católica está em perigo iminente e a heresia há-de ganhar terreno entre nós, a não ser que o poder de Deus nos proteja.” Aconselhara à comunidade a venda do monastério e a distribuição do preço da venda aos pobres; aconselhara também às demais ordens religiosas e ao clero secular sob a sua jurisdição a venda dos bens. Quando soube do assassinato dos religiosos de Adare, convocou toda a fraternidade e, entoando solenemente o Te Deum, implorou com ardor à Santíssima Trindade para que lhes desse a coragem e força de imitar os irmãos que lhes precederam no martírio.

Próximo à festa de São João, o bispo Cornelius pregou na catedral ante uma grande audiência. Ele fez uma exposição acerca das provas da fé católica e da legitimidade da autoridade do papa; declarou que as ordens do rei eram heréticas e que ele, seus conselheiros e quem o obedecesse estavam anatematizados. Os representantes do rei hesitaram em agredirem-no dentro da igreja, porém mais tarde, durante a noite, dirigiram-se até a casa do bispo. Eles foram recebidos e disseram que o bispo devia obediência ao rei sob pena de morte imediata. Lançando-se ao solo e elevando os olhos ao céu, exclamou Cornelius: “Senhor, hoje Vos ofereci o sacrifício incruento do Corpo de Jesus Cristo, meu Senhor. Acolhei agora o sacrifício da minha vida, em honra e glória de Vosso Nome.” E fitando uma imagem da Santíssima Virgem, orou: “Sancta Trinitas, unus Deus, miserere nobis”. Após o quê, o algoz, com um só golpe de espada, separou-lhe a cabeça e o corpo4. Em seguida, os representantes do rei capturaram os religiosos que estavam na casa e os mataram. No dia seguinte, os quarenta e seis religiosos restantes, que recusaram prestar juramento, também foram assassinados. Mais seis conventos da ordem, a exemplo dos já mencionados, demonstram idêntica fortaleza moral.

Saltemos alguns anos até o momento em que Elizabeth chega ao poder. Esse episódio funesto aconteceu em 17 de novembro de 1558. Ela envia o conde de Sussex como deputado à Irlanda, ordenando-lhe “regulamentar o culto a Deus, segundo o modelo do culto da Inglaterra, e editar as prescrições mais recentes.” Em 1560, indiferente às leis de Felipe e Maria, o parlamento irlandês declarou o que segue:

§ 8. Todos os arcebispos, bispos e demais ministros eclesiásticos e juízes temporais, bem como oficiais e pessoas que recebam estipêndio de sua Alteza neste reino, prestarão juramento e declararão que sua Majestade, seus herdeiros e sucessores, são os únicos governantes supremos do reino, em assuntos espirituais e temporais.

§ 12. Qualquer pessoa que por escrito, impresso, ensino, pregação, declaração, ato, com conhecimento de causa e premeditação, sustentar de moto próprio a autoridade e a jurisdição de qualquer príncipe estrangeiro, prelado, etc., e seus auxiliares, será, na primeira infração, despojado de todas as posses e bens, e, se as posses e bens não alcançarem o montante de 20£, será aprisionado por um ano sem possibilidade de liberdade sob fiança e perderá todas as benesses e dignidades; na segunda infração, incorrerá na pena de praemunire; na terceira infração, será punido de morte como em caso de alta traição.

O primeiro mártir do governo de Elizabeth foi, em 1569, um franciscano chamado Daniel O’Dullian, do convento de Youghal, ao sul5. Sob as ordens do senhor deputado, o capitão Dudal e suas tropas o levaram à Porta da Trindade, amarram-lhe as mãos às costas e, ligando aos seus pés grandes pedras, ergueram-no por cordas três vezes, do solo até ao alto da torre, e o deixaram lá certo tempo. Após padecer vários golpes e torturas, penduraram-no de ponta cabeça a um moinho próximo ao mosteiro. Assim pendurado não murmurou, antes repetia as orações como bom cristão, quer em voz alta, quer em voz baixa. Enfim, os soldados receberam ordens de usarem-no como alvo; para que os sofrimentos fossem mais longos e cruéis, os artilheiros não deveriam atingir a cabeça ou o coração mas, quanto lhes aprouvesse, qualquer outra parte o corpo. Depois que muitas balas já o haviam atingido, alguém, num ato de cruel piedade, carregou a espingarda com duas balas e a descarregou no coração do mártir. Ele morreu em 22 de abril.

Dermot O’Mulrony e dois irmãos da mesma ordem foram os próximos a sofrerem o martírio, em 1570, no condado de Tipperary6. Em 21 de março soldados ingleses sitiaram o convento, de tal modo que ninguém conseguiria escapar. Os três subiram ao campanário da igreja e suspenderam a escada. Os soldados atearam fogo, a fim de incendiar a torre da igreja; foi então que o santo homem, baixando a escada, desceu voluntariamente para salvar a igreja; ao apoiar o pé no primeiro degrau, benzeu-se e entoou o salmo Miserere. Os soldados, que não se comoveram com a cena, socaram-no e machuram-no até que finalmente lhe golperam a cabeça. Viu-se então uma coisa extraordinária: quando lhe cortaram a cabeça, não escorreu do corpo sequer uma gota de sangue. Ao presenciarem o fato, os soldados esquartejaram o corpo, mas o sangue mesmo assim não escorrera.

Antes de contar os padecimentos de um dos mais eminentes mártires irlandeses, o arcebispo Dermot O’Hurley, de Cashel, em 1584, mencionemos de passagem alguns dos mártires mais notáveis desse intervalo de quinze anos. O primeiro é o arcebispo de Cashel, Maurice Gibon. Ele morreu na prisão em Cork, em 6 de maio de 1578, após recusar-se de prestar juramento. Outro mártir é Hugh Lacy, bispo de Limerick. Henrique VIII foi o primeiro a prendê-lo, e depois Elizabeth, quando o bispo contava 60 anos, porque recusava-se a prestar juramento. Ele morreu em decorrência dos maus tratos, em 26 de março. Nesse mesmo ano, soldados ingleses mataram dois franciscanos no interior do mosteiro, que se situava no condado de Mayo; eram eles os irmãos Phelim O’Hara e Henry Delahyde; o primeiro mataram diante do altar-mor do mosteiro, após o haverem despido.

Nesse mesmo ano, muitos foram os bispos martirizados. Edmund Tanner, bispo de Cork, foi o primeiro, morrendo na prisão de Dublin, após padecer cruéis torturas. O segundo foi Patrick O’Hely, bispo de Mayo. Alguns minutos antes da morte, profetizou o falecimento do chefe do condado, que era um impiedoso perseguidor dos católicos. Três dias depois, uma doença acometeu o homem que, às portas da morte, declarou que a doença era um castigo de Deus, porque matara o bispo. O semblante do bispo e dos mártires conservava uma expressão de calma e contentamento, durante os catorze dias em que os corpos ficaram dependurados. De mais a mais, exalava dos corpos um perfume de odor agradável7.

Agora examinaremos a vida e o martírio do arcebispo de Cashel, Dermot O’Hurley8. Nascido em Limerick, onde o pai ganhava o pão como criador de gado, ele estudara teologia e direito canônico em Lovaina, onde obteve o doutorado nessas duas matérias. Quando o nomearam arcebispo de Cashel em 1581, empreendeu uma viagem até à Irlanda.

Ele aportou ao norte de Dublin e dirigiu-se a Slane, ao célebre condado de Meath. Ali residiu em segredo na casa do proprietário do lugar, cujo nome de família era Flaming. Ele não queria que o vissem em público, nem à mesa, nem em conversas com ninguém, porém aos poucos começara a participar das refeições e a falar com os membros da família. Aconteceu de um dia um dos membros do Conselho Privado (que reunia os conselheiros da rainha Elizabeth), chamado Robert Dillon, foi jantar com a família. Quando estavam sentados à mesa, a conversa tomou um rumo que deu azo a uma interessante discussão; durante o colóquio, algumas palavras do bispo revelaram erudição. Imediatamente Robert Dillon começou a desconfiar de que se tratava de um sacerdote católico disfarçado e contou o fato ao tesoureiro do condado. A família deu-se conta do ocorrido e recomendou ao arcebispo a fuga. Porém, mais tarde, os ingleses ameaçaram Flaming e o obrigaram a atrair o bispo. Assim, Flaming persuadiu o prelado a retornar a Dublin, para que pudesse provar a inocência. Lá então o interrogaram, mas como os ingleses não conseguissem provar nada contra ele, após diversos processos, em primeiro lugar trataram de torturá-lo, para enfim executá-lo.

Os carrascos imaginaram para ele uma crudelíssima forma de tortura. Puseram-lhe os pés e as penas em botas repletas de azeite, prenderam-lhe os pés no pelourinho e atiçaram fogo embaixo. O azeite, aquecido nas chamas, infiltrara-se na planta dos pés e nas pernas, excruciando-os de modo que pedaços de pele despegaram-se das carnes e porções de carne, dos ossos expostos. O calor das labaredas devorou o corpo do bispo, que não obstante exsudava suor frio. Muitas foram as vezes que gritava: “Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim”.

Certa tortura chegou a tal ponto que ao fim o bispo ficara imóvel. O torturador, com medo de o haver matado – o que seria exceder as ordens recebidas – buscou um médico para reanimá-lo. Depois de duas semanas, o bispo melhorou um pouco, após o que os ingleses intentaram diversos meios de convencê-lo a abandonar a fé; propuseram-lhe altos cargos, e até mesmo a sua irmã levaram para que o persuadisse a deixar a luta, mas não conseguiram nada. Como um novo governador estivesse prestes a assumir o cargo, o titular decidira que era melhor encerrar o assunto, procedendo à execução. Em 29 de junho de 1584, ele foi enforcado. Conta-se que muitos milagres aconteceram sobre a sua sepultura. 

As leis então vigentes ainda não eram satisfatórias aos olhos dos protestantes, por isso um édito do governo inglês declarou o seguinte:

A partir de agora, se um padre for descoberto, será ipso facto culpado de alta traição; por isso, seja ele em primeiro lugar enforcado, e então, depois de o baixarem ainda vivo ao solo, decapitado, estripado e queimado; seja a sua cabeça pendurada num poste e exposta em lugar público e freqüentado. Se alguém receber ou sustentar um padre, sejam os seus bens confiscados e a pessoa enforcada sem piedade.

Já no ano seguinte, sobreveio o martírio de Richard Creagh9, arcebispo da principal sé episcopal da Irlanda, Armagh. Oriundo de Limerick, ele se estabeleceu primeiro como comerciante mas pouco tempo depois se decidiu a abraçar o sacerdócio. Estudou em Lovaina e mais tarde retornou a sua terra natal para administrar os seus concidadãos. Deixou-os após algum tempo e foi morar em Roma, onde conheceu o Papa Pio V, que o nomeou arcebispo. Por duas vezes meteram-no em prisão, e por duas vezes conseguiu escapar.

A terceira vez foi a última. Conduzido a Londres, levantaram falsas acusações contra ele, inclusive um bispo apóstata. A reclusão foi longa e no mais das vezes dura. Apesar disso, aproveitou o tempo para ajudar os outros sacerdotes aprisionados, aconselhando-os à prática da virtude e instruindo-os em temas sagrados. Certa vez o diretor da prisão tentou persuadi-lo a escutar o sermão de um herege, e como recusasse, arrastaram-no à força. Mas assim que o pregador começou a atacar a fé católica, o arcebispo Creagh interrompeu-o para contraditá-lo. Depois de numerosas e vivazes trocas de palavras, finalmente reconduziram o arcebispo de volta à cela.

Os seus raptores chegaram à conclusão de que não poderiam convencê-lo a abjurar a fé, a despeito de todas as tentativas. Dessa forma, certo dia envenenaram um pedaço de queijo, que lhe deram a comer. Sem nenhum temor, ele o comeu de boa vontade mas logo notou o que lhe prepararam. Logrou chamar a tempo um padre na cela vizinha, fez a derradeira confissão e entregou o espírito em 14 de outubro.

Falta ainda mencionar o Padre Walter Fernan, que morreu em 12 de março de 1597. Levado pelos hereges a Dublin, foi preso e forçado a ficar de pé durante quarenta horas sem dormir. Então o flagelaram, esfregaram sal e vinagre nas feridas, e depois lhe perguntaram se queria prestar o juramento de supremacia. Respondeu o padre com firmeza que preferia morrer a prestar um juramento que mencionasse uma mulher na qualidade de chefe da Igreja, porquanto São Paulo dissesse que a mulher deveria permanecer em silêncio na igreja. Enquanto o estripavam, exclamava Pe. Fernan: “Senhor, eu encomendo a minha alma às Vossas mãos” e entregou o espírito a Deus.

 

Conclusão

Que é possível concluir deste pequeno estudo dos mártires irlandeses do séc. XVI? Antes de tudo, que os ingleses eram agressivos: eles não conheceram limites nem medidas, ante um povo que era católico, na tentativa de lhes extirpar a antiga religião. Eram permitidos todos os métodos de tortura e ataques contra igrejas. Nem a hierarquia da Igreja se respeitou, vide os bispos assassinados. Em segundo lugar, que todas as regiões do país, de norte a sul e de leste a oeste, foram atingidas. Enfim, que foi total o ataque contra a fé e a população da Irlanda. E a situação não melhorou com o passar dos anos. Apesar de tudo, o povo irlandês permaneceu católico e, tal qual aconteceu em outros países, a perseguição não extinguira a chama da fé mas ao contrário a alimentou.

 

Para quem queira aprofundar-se:

MURPHY S.J., Our Martyrs, Sealy, Bryers & Walker, 2010.

Myles O’REILLY B.A, Memorials of those who suffered for the catholic faith in Ireland in the 16th, 17th and 18th centuries, Burns, Oates & Co., 1868. 

 

Com a aprovação do autor - Tradução: Permanência

  1. 1. Para uma história geral da Irlanda consultar HAVERTY, Martin, The History of Ireland, Ancient and Modern, Dublin, 1860 e D’ALTON, Rev E. A., History of Ireland from the Earliest Times to the Present Day, 1907.
  2. 2. BRIDGEWATER John, Historia Ecclesiae Catholicae in Anglia adversus Calvino-papistas et Puritanos sub Elizabetha Regina 1583-1594
  3. 3. Vide MORAN, Cardinal Francis Patrick, History of the Catholic Archbishops of Dublin since the Reformation, Dublin, 1864, p. 23
  4. 4. MORAN, Cardinal Francis Patrick, Ibid, p 26
  5. 5. Vide MORAN, Cardinal Francis Patrick, Specilegium Ossoriense, Vol III, p. 41
  6. 6. BRUODIN, Rev. Pe. Anthony O.S.F., Propugnaculum Catholicae Veritas, Catalogus Martyrum Hibernorum pro defensione Catholicae fidei occisorum regnantibus Henrico VIII, Eduardo VI, Elizabetha, et Jacobo, Libraria Franciscana, Merchants Quaym Dublin, 1669, p. 454.
  7. 7. Bruodin, Rev. Pe. Anthony O.S.F., Ibid, p. 432.
  8. 8. Vide Rothe, David, Bispo de Ossory, Analecta Nova et Mira de Rebus Catholicorum in Hibernia pro fide et religione gestis., Colônia, 1616-1619, p. 423.
  9. 9. Roathe, David, Ibid, p. 465.
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