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História (63)

Perseguição à Igreja Católica sob o regime chinês.

Albert Galter

Foi pelo ano de 1920 que a ideologia marxista-leninista foi introduzida na China por agentes a serviço da Rússia. No espaço de trinta anos conseguiu ela impor-se a cerca de meio bilhão de homens, graças à hábil inserção dos seus profetas no jogo dos acontecimentos nacionais, e ao proveito que eles tiraram da situação internacional criada no Extremo-Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Fundado em Shangai em 1921, o Partido Comunista Chinês precisou, pouco a pouco, o seu caráter revolucionário, com o auxílio da Missão de peritos industriais e militares russos que se achava na China desde 1920.

Quando Tchang Kai-Chek começou em 1927 a obra de reunificação interior do país, marchando contra o governo que sediava então em Nankin, os comunistas, aproveitando a guerra civil, formaram por seu lado um governo em Hankow e puseram à testa dele Mao Tsé-Tung (1928). (Continue a ler)

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

"Nosso Querido Reitor" - nota biográfica sobre o Pe. Henri Le Floch

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX 

Foi em 1853 que se inaugurou o Seminário Francês em Roma, tanto para elevar o nível intelectual e espiritual do clero quanto para promover o movimento ultramontano de adesão a Roma. Foi o Papa Pio IX que o aprovou em 1859, confiando-o perpetuamente à Congregação do Espírito Santo. A orientação romana e o favorecimento papal foram coroados em 1902 com sua conversão em Instituto de Direito Pontifício.

O Pe. Henri Le Floch (1862-1950) foi seu Reitor de 1904 a 1927. Nascido em 1862, natural da diocese de Quimper, formado pelos Padres espiritanos desde 1878 e ordenado sacerdote em 1886, atuou primeiro como professor de Seminário, depois como Diretor do Colégio de Beauvais em 1895, Superior do Escolasticado de Chevilly em 1900 e finalmente Reitor do Seminário Francês em Roma a partir de setembro de 1904. Conhecido por não ter qualquer envolvimento político, opunha-se fortemente, todavia, ao laicismo militante presente na França da época.

Durante seus 23 anos como Reitor, fortaleceu o Seminário, anteriormente desmoralizado por falta de liderança, aumentando o número de seminaristas de 100 para 209, ampliou os prédios, renovou a equipe e adotou a postura anti-modernista de São Pio X. Amigo de outras figuras anti-modernistas, adquiriu com o tempo uma posição de considerável importância em Roma como consultor de várias Congregações romanas, incluindo o Santo Ofício, o que lhe deu considerável influência sobre a escolha de bispos franceses.

Dom Marcel Lefebvre o conheceu em outubro de 1923 ao entrar no Seminário Romano. O Padre Superior havia reunido os seminaristas para lhes dar sua primeira palestra espiritual do ano. Aos 61 anos, Pe. Henri Le Floch já caminhava para o ocaso quanto à idade, mas não quanto a suas faculdades intelectuais. De estatura alta e exalando confiança, lembrava uma árvore frondosa na exuberância de sua plena maturidade. Pele corada e rosto largo, no qual as proeminentes sobrancelhas contrastavam com a finura de seu nariz e lábios, portava-se com nobre dignidade, trazendo um aspecto de firmeza em seus olhos azuis acinzentados. Sua natural seriedade era aliviada por um ar de bondade e um sorriso discreto, ainda que prontamente exibido. Deu sua palestra sem demonstrar qualquer afetação; era a dignidade e a afabilidade em pessoa. Além disso, havia ali uma mistura de extrema auto-confiança e total esquecimento de si mesmo: um servo da Igreja, um homem de doutrina verdadeira e católica. Obviamente era um teólogo, mas seu espírito, intuitivo e inquieto, alcançava grandes alturas sem ter de passar por todos os níveis do argumento teológico. Não que ele desprezasse a teologia como uma ciência racional, mas, em última análise, quase nunca a usava dessa maneira. Sua firmeza na Fé vinha acompanhada por uma profunda compreensão dos mais frutuosos conceitos teológicos.

“Eu sofria por não ver o reino de Deus estabelecido onde deveria estar.” O reino de Deus, diz São Gregório, é freqüentemente entendido na linguagem sacra como “a Igreja do tempo presente”. Pe. Le Floch admitia sofrer por isso, algo que o acompanhou por toda a vida. Mas enquanto era capaz de agir, enquanto podia combater, ele não apenas sofreu: agiu, lutou por essa causa, a única pela qual valia a pena consagrar seus esforços, sem poupar nada para si, tudo entregando pelo reino da Igreja. A Igreja é o único meio de salvação, mas não o entendamos apenas com referência à salvação eterna. Pe. Le Floch o entendia também em relação à salvação temporal. A Igreja é o único órgão autorizado da Revelação divina e possui o depósito das verdades que o Pai quis que conhecêssemos ao falar por meio de Seu Filho.

“O único homem pleno é o cristão…” O homem, tendo sido criado para ser cristão, não o sendo, não terá alcançado a plenitude de sua humanidade. Isso porque os valores humanos em si mesmos, a partir do pecado original, só podem ser plenamente acessíveis a todos, sem mistura de erro, no contexto dos valores cristãos e com a modificação interna operada por estes. Nem tudo isso é dogma, mas teologia certa, vigorosa e invencível, diante da qual cabe perguntar como o liberalismo pode se sustentar por um momento que seja na mente de um cristão, que não deve considerar nada tão precioso quanto a glória da Igreja. O erro do liberalismo consiste em pensar que, na presente ordem da sociedade humana, podemos abandonar a realidade da soberania da Igreja desde que a mantenhamos como um ideal, ainda que irrealista.

O jovem seminarista Lefebvre escreveu: “Dei-me conta de que, de fato, eu tinha um punhado de idéias erradas. Estava muito satisfeito por aprender a verdade, feliz em saber que estava errado, que tinha de mudar minha forma de pensar sobre certas coisas, especialmente ao estudar as encíclicas dos papas, que nos mostravam todos os erros modernos; aquelas encíclicas magníficas de todos os papas até São Pio X e Pio XI. Para mim foi uma completa revelação. Foi assim que nasceu silenciosamente em nós o desejo de conformar nosso juízo ao dos papas. Costumávamos dizer entre nós: Mas como os papas julgavam esses eventos, idéias, homens, coisas e épocas?”

Para Dom Marcel Lefebvre, “o Pe. Le Floch fez-nos entrar e viver na história da Igreja, nessa luta que os poderes perversos travam contra Nosso Senhor. Fomos mobilizados contra esse medonho liberalismo, contra a Revolução e as forças do mal que tentavam prevalecer sobre a Igreja, o reino de Nosso Senhor, os Estados católicos e toda a cristandade. Acho que toda a nossa vida como sacerdotes ― ou como bispos ― foi marcada por essa luta contra o liberalismo. Esse liberalismo era praticado por católicos liberais, pessoas de duas caras que se diziam católicos, mas que não suportavam ouvir toda a verdade, não queriam condenar o erro ou os inimigos da Igreja, não toleravam viver continuamente uma cruzada.”

Homem da verdade e da doutrina, o Pe. Le Floch também era, na força e integridade de sua vocação, um homem da Igreja. Quais seriam as convicções interiores que impulsionavam toda sua atividade? Como um homem da Igreja, colocava-se exclusivamente a seu serviço, defendendo apenas o que era diretamente de interesse dela. Preferia manter com determinação aquela atitude reservada que a Igreja, com raras exceções, impõe aos clérigos; ao longo de toda a sua vida, envolveu-se num único tipo de polêmica, a saber, a defesa da Santa Sé, de quem era, de acordo com o testemunho do Cardeal Secretário de Estado, “a caneta francesa”. Salvo essa única circunstância, trabalhava em silêncio, sem poder evitar que um crescente renome se lhe viesse associar, ao mesmo tempo em que não podia deixar de flagelar seu próprio coração com o desdém pela glória mundana. Extremamente reservado, tendia a mostrar-se cada vez menos e a desaparecer cada vez mais. Homens de seu calibre não se preocupam em parecer o que não são. Sabem muito bem que aquilo que são vale muito mais do que a imagem que poderiam construir de si mesmos. Mas o Pe. Le Floch não estava nem mesmo preocupado em parecer o que era.

“Era possível se enganar, e nós nos enganamos a princípio”, disse o Pe. Berto, futuro teólogo de Dom Marcel Lefebvre no Concílio Vaticano II. “Durante todo o meu primeiro ano no Seminário, perguntava-me como puderam colocar numa posição tão elevada um homem que, apesar de possuir uma presença nobre, parecia exercer tão pouco sua autoridade.” Pe. Berto compartilhou sua opinião com um colega seminarista que, ao ouvir essa bobagem, exclamou com espanto: “O que você está dizendo, meu amigo? Nada se faz aqui que não esteja de acordo com a vontade do Padre Superior. Só que não dá para ver.” Era algo tão discreto, de fato, que se poderia pensar que a instituição mantinha seu curso por conta própria, sendo que a verdade era completamente o contrário. A direção era mantida por uma mão tão firme e segura, com uma atenção tão vigilante, sem jamais deixar de prestar atenção ou fazer um movimento em falso, que a ação do piloto tornava-se tanto mais imperceptível quanto mais poderosa e bem ordenada. Por natureza e por graça, por intuição e por estudo, o Pe. Le Floch colocava acima de tudo a ordem, e a desordem abaixo de tudo. Em todas as coisas, era um homem de ordem: tão firme e inflexível ao comunicar seus pensamentos, quanto lhe eram estranhos todo desejo e toda necessidade de comunicar-se a si mesmo.

Sob o comando do Pe. Le Floch, o Seminário Francês permaneceu perfeitamente fiel ao papado sob São Pio X, Bento XV e Pio XI, particularmente quanto à condenação do modernismo social por este último, em 1922. O Pe. Le Floch deixou bem claro que aceitava a condenação da Action Française em dezembro de 1926, apesar de pessoalmente acreditar que a Igreja não devesse se envolver nessa política. Entretanto, sua renúncia em 1927 foi causada pela oposição pessoal do Papa Pio XI, baseada numa suposta conexão que teria com a Action Française, seguida por ataques de quatro professores e dez estudantes do Seminário. Viveu os 23 anos restantes de sua vida numa aposentadoria ativa.

Mons. Pucci, um padre italiano que tinha informações internas sobre as circunstâncias de sua remoção, logo escreveria: “Pio XI decidiu que o Pe. Le Floch, tendo servido por 20 anos sob um diferente arranjo político, não estava apto a servir sob o seu, ou a conduzir sua implantação.” Como se uma implantação desse tipo tivesse algo a ver com os estudos num Seminário! Volta e meia, entretanto, alguns seminaristas tiveram de fazer as malas porque o clima em Roma não lhes era propício. Foram por isso chamados de “Pro Action Française”, quando, na realidade, só não haviam conseguido lidar com a partida do Pe. Le Floch e com a nova atmosfera. Marcel Lefebvre permaneceu em Santa Chiara, não sem certa nostalgia pela perda de um grande líder, a quem ele sempre chamava com emoção de “nosso querido Reitor”.

(Angelus Press no. 444. Tradução: Permanência)

Bastião da fé - nota biográfica sobre o Cardeal Ottaviani

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

 

Alfredo Ottaviani (1890-1979) nasceu em Roma numa família humilde; o seu pai era padeiro. Estudou com os Irmãos das Escolas Cristãs, no Pontifício Seminário Romano e no Ateneu Santo Apolinário, onde recebeu os doutorados em filosofia, teologia e direito canônico. Foi ordenado sacerdote em março de 1916.

 

RESUMO BIOGRÁFICO

Logo foi nomeado professor de filosofia escolástica e direito público eclesiástico (sua matéria preferida) na Universidade Urbaniana e, depois, no Ateneu Jurídico Santo Apolinário. Tornou-se substituto na Secretaria de Estado e, em seguida, consultor da Suprema Congregação do Santo Ofício. Após dezessete anos de trabalho, em 1959, tornou-se o seu Pró-Prefeito – o posto de Prefeito era ocupado pelo próprio papa. Foi então consagrado bispo por João XXIII, tomando para si o lema episcopal Semper Idem – Sempre o mesmo – que refletia sua teologia conservadora.

Já como seminarista, Alfredo formou-se na luta contra os inimigos mais ferozes da Igreja, “a maçonaria e o hebraísmo reinam através do Ministro Sidney Sonnino”. Em 1937, Pio XI utilizou seus conhecimentos para escrever a encíclica Divini Redemptoris, contra o comunismo, em que o anatematizou como “intrinsecamente perverso”. Seus estudos políticos, que levaram à publicação de Institutiones juri Publici Ecclesiastici, fez dele arauto de Cristo Rei contra a corrente de John Courtney Murray e dos liberais. Abaixo, alguns dos seus ensinamentos de maior destaque no assunto:

 

“Tenho dito que, antes de tudo, o Estado tem o dever de professar a religião publicamente. Os homens unidos em sociedade não estão menos sujeitos a Deus do que como indivíduos, e a sociedade civil, não menos que o homem individual, é sujeita a Deus, sob o Qual, como seu Autor, ela se encontra unida, por cujo poder é preservada, por cuja bondade recebe o grande tesouro de bens que usufrui. Portanto, assim como não é lícito ao indivíduo deixar de cumprir seus deveres para com Deus e a religião pela qual Deus é adorado, tampouco os estados podem, sem grave ofensa moral, agir como se Deus não existisse ou furtar-se ao cuidado da religião, como se lhes fosse algo estranho ou de pouca importância.”

 

Pio XII preocupou-se muito quando percebeu os movimentos que alguns líderes da Igreja Latina faziam em direção ao comunismo, e também por causa das veredas que os neo-modernistas abriam na Igreja. O Papa convocou secretamente Ottaviani para a formação duma comissão preparatória de um futuro concílio ecumênico cuja meta seria “reafirmar vários pontos da doutrina católica ameaçados por erros, não apenas teológicos, mas também morais e filosóficos, e até mesmo sociológicos”. Mas, vendo que havia divisão na própria comissão, Pio XII interrompeu o projeto. O seu único resultado foi a vigorosa encíclica Humani Generis, de 1950, com a contribuição de Ottaviani, que condenou a Nova Teologia inaugurada  pelo  Pe. Henri de Lubac, no espírito de Teilhard de Chardin.

O Cardeal Ottaviani participou do conclave de 1963, que escolheu Giovanni Battista Montini, o Papa Paulo VI. Foi também Decano dos Cardeais durante o conclave, e como tal teve a honra de coroar com a tiara, em 30 de junho, o mesmo papa que a abandonaria. Esse foi o único conclave de que participou, uma vez que, em 1976, o limite de idade de oitenta anos já estava em vigor.

 

BATALHAS PRÉ-VATICANO II

Logo que Pio XII foi sepultado, começaram a circular os ventos de mudança. No início de 1962, Cardeal Ottaviani notificou o superior dos jesuítas de que o teólogo Karl Rahner fora posto sob quase-censura por Roma e não podia dar conferências nem escrever sem permissão. Poucos meses depois, João XXIII nomeou Rahner como perito do Concílio Vaticano II. A mesma estratégia foi adotada com Henri de Lubac e Yves Congar, que, apesar de suspeitos de neo-modernismo, também receberam do papa os títulos de peritos do Concílio.

As batalhas pré-conciliares inauguraram um novo tipo de concílio, com um poder triangular (Papa-Cúria-Concílio), uma vez que o papa, em segredo, era contrário à posição da Cúria e aberto às novidades dos teólogos de vanguarda. Ottaviani, que detinha o poder por trás da Cúria, logo se veria isolado e mal aceito. Acreditava que era seu dever afirmar a pureza e integridade da Doutrina a todo custo, a tempo e contratempo. O Cardeal Siri deixou o seu testemunho: “Nele [Ottaviani], a firmeza nas decisões expressava-se com os mais fortes acentos: a ninguém temia. Na defesa da Fé, seu temperamento o fazia muito combativo”.

Um dos debates acalorados ocorridos nas sessões do pré-Vaticano II tratou da salvação dos infiéis e do dogma Extra Ecclesiam: fora da Igreja não há salvação. Nessa subcomissão estava Monsenhor Fenton, amigo próximo de Ottaviani. Vários cardeais – Leger, Dopfner, Konig e Bea – fizeram várias mudanças substanciais. Ottaviani reagiu ferozmente contra a “perigosíssima” idéia de Bea, que dizia ser possível ser membro do Corpo Místico de Cristo sem ser membro da Igreja, o que colocaria em risco a doutrina da infalibilidade do Magistério da Igreja. Ele lembrou que “A Igreja Católica e o Corpo Místico de Cristo são a mesma coisa. Não há salvação fora da Igreja. O significado dessa tradicional frase está bem explicado na Carta do Santo Ofício ao Cardeal de Boston, em que trata da questão Feeney, que exagerara a força dessa frase. Porém, essa frase não deve agora ser reduzida à insignificância, a fim de tranqüilizar os que estão fora da Igreja.”

Nas últimas sessões preparatórias do Concílio, dois cardeais se confrontaram no assunto da liberdade religiosa: Ottaviani e Bea. Ottaviani opunha-se à separação entre Igreja e Estado e à concessão de direitos iguais a todas as religiões, mas apoiava a tolerância religiosa. Dom Marcel Lefebvre, testemunha do conflito, contou que Ottaviani levantou-se e disse a Bea: “Eminência, não tendes direito a criar este esquema, porque é esquema teológico, e pertence portanto à Comissão Teológica”. E Bea, levantando-se, disse: “Licença. Tenho o direito de criar este esquema como Presidente da Comissão pela Unidade. Se há algo que importa à unidade é essa questão da liberdade religiosa”. E, encarando Ottaviani, adicionou: “E me oponho radicalmente a tudo que afirmais no seu esquema De Tolerantia Religiosa”. O debate se tornou tão inflamado que o Cardeal Ruffini teve de intervir, notando como ficara decepcionado por testemunhar uma “discussão tão séria”. Os confrontos se intensificariam ao longo dos debates sobre o assunto, até a adoção do esquema Dignitatis Humanae.

 

O FURACÃO VATICANO II

Ottaviani foi o líder dos conservadores da Cúria durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), apesar de quase cego. Além do assunto da liberdade religiosa, sua poderosa voz foi ouvida durante os debates sobre a liturgia e sobre as fontes da Revelação Divina.

O caso mais marcante da mudança de guarda e demissão da Cúria ocorreu em 30 de outubro de 1962, quando o Cardeal Ottaviani fez ardente apelo em defesa do antigo Rito Romano: “Não parece que estamos procurando causar pasmo, ou talvez escândalo entre o povo Cristão, ao introduzir mudanças em tão venerável rito, que foi aprovado há tantos séculos e nos é tão familiar? O rito da Santa Missa não deve ser tratado como tecido que é remodelado conforme os impulsos de cada geração.” Como passara em muito o limite de dez minutos, seu microfone foi cortado. Após tocar o microfone e verificar que fora desligado, o quase cego Ottaviani, humilhado, deixou cair o seu peso na cadeira e logo os aplausos estalaram na aula conciliar.

Durante o Concílio, a mídia freqüentemente encontrava em Ottaviani reações vivas nas tempestuosas sessões de trabalho. Certa vez, reagindo aos constantes clamores pela “colegialidade” dos bispos mais liberais, Ottaviani notou que a Bíblia registra apenas um exemplo dos Apóstolos agindo colegialmente – no Jardim do Getsêmani, quando “todos fugiram”. Nessa mesma matéria, outro embate histórico ocorreu com o Cardeal Frings, em 8 de novembro de 1963. Ottaviani defendeu o papado contra a Primazia Papal meramente honorária, proposta pela aliança liberal do Reno. “Quem quiser ser ovelha de Cristo deve ser apascentado por Pedro, o Pastor. Não são as ovelhas [os bispos] que devem guiar Pedro, mas Pedro deve guiar as ovelhas [os bispos] e os cordeiros.”

 

O DESMANTELAMENTO DO SANTO OFÍCIO

O Concílio Vaticano II não tinha ainda fechado as portas quando um motu proprio papal, Regimini Ecclesiae Universale, retirou da Congregação do Santo Ofício o título de “Suprema”, suplantando-a pela Secretaria de Estado. A partir daí, a política prevaleceria sobre a pureza da fé.

Ottaviani comentou a mudança: “Lembrem-se, esse é um dia negro na história da Igreja, porque essa mudança não afeta apenas o título, mas a substância. Com efeito, até agora, o princípio supremo do governo da Igreja foi a verdade revelada, cuja preservação e interpretação correta é confiada primeiro ao Papa, que usava a Suprema Congregação do Santo Ofício para esse propósito. Agora, temo que o critério decisivo para o governo da Igreja será o diplomático e o contingente. Posso ver que a Igreja sofrerá muito dano.”

Apesar de cego, tinha penetrante percepção dos eventos futuros. Em 1967, ofereceu sua renúncia, pois não desejava contribuir com o desmantelamento do Santo Ofício.

 

A ÚLTIMA BATALHA DE OTTAVIANI

Em 25 de setembro de 1969, Ottaviani, junto com Cardeal Bacci, redigiu veemente carta a Paulo VI em defesa de um estudo feito por um grupo de teólogos que, sob a direção de Dom Marcel Lefebvre, criticaram o Novus Ordo Missae, o qual viria à luz uns meses depois. Ottaviani escreveu o seguinte:

 

“O breve estudo crítico em anexo é o trabalho de um grupo seleto de teólogos, liturgistas e pastores de almas, e, ainda que breve, examina os elementos de novidade implícitos na Missa do Novus Ordo, aos quais podem se dar diferentes interpretações. Este estudo demonstra suficientemente que o Novus Ordo Missae representa, no todo e nos detalhes, um afastamento visível da teologia Católica da Missa como elaborada na Sessão XXII do Concílio de Trento, a qual, fixando permanentemente os ‘cânones’ do rito, erigiu uma barreira intransponível contra toda heresia que pretendesse minar a integridade do Mistério.

 

“As reformas recentes demonstraram amplamente que as novas mudanças na liturgia não podem ser feitas sem escandalizar os fiéis, que já mostram que essas mudanças são intoleráveis e diminuirão com certeza a sua fé. Em conseqüência, grande parte do clero passa agora por uma torturante crise de consciência, que vemos diariamente e em grande número. Temos certeza de que estas considerações, que se inspiram diretamente nas vozes vibrantes de pastores e do rebanho, encontrarão eco no coração paternal de Vossa Santidade, que está sempre tão profundamente atento às necessidades espirituais dos filhos da Igreja. No entanto, aqueles para quem as leis são feitas têm o direito, e mesmo o dever, de pedir ao legislador que ab-rogue leis comprovadamente danosas.”

O Cardeal Palazzini, em sua apresentação de Il Balluarto, explicou que a chave para ler a pessoa e o trabalho do Cardeal Ottaviani é que a verdade nos faz livres. “Ele sabe como perceber com excepcional agudeza e impressionante visão a desordem profunda e os amargos desenvolvimentos da novidade que começou a se infiltrar nos anos 1940 e que explodiu no Vaticano II. No curso do ano de 1965, Ottaviani escreveu no seu diário: ‘Peço a Deus que me permita morrer antes do fim desse Concílio. Assim, ao menos, morrerei católico.’”

Um teólogo anti-liberal

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

O HOMEM

O Cardeal Louis Billot (1845-1931), natural da Lorena, na França, entrou jovem para a Companhia de Jesus e logo foi nomeado professor de teologia. Em 1885, foi chamado a Roma pelo Papa Leão XIII para ensinar teologia dogmática na Universidade Gregoriana. Ao longo de 26 anos (1885-1911), foi professor sem páreo de gerações de estudantes eclesiásticos, futuros bispos e cardeais.

Leão XIII teve de lutar contra os que queriam remover o Pe. Billot de Roma. Para mantê-lo na Sé Romana, São Pio X em 1909 nomeou-o consultor do Santo Ofício, e em 1911, contrariando a tradição jesuíta de não aceitar dignidades, elevou-o a cardeal-diácono.

Em 12 de fevereiro de 1922, Pio XI foi coroado. O cardeal-diácono que devia coroar o novo pontífice estivera enfermo e o Cardeal Billot foi apontado para substituí-lo. Ao receber a tiara deste cardeal, o Papa Ratti não tinha idéia de que cinco anos depois teria que retirar das mesmas mãos o barrete cardinalício.

Em 1927, o Cardeal Billot “aposentou-se” para “preparar-se para a morte”. Essas foram as palavras no anúncio oficial, mas as verdadeiras razões foram outras, como veremos. Na verdade, a aposentadoria não foi nenhuma sinecura para o octogenário. Ocupou-se da republicação de suas obras, mantendo o vigor intelectual até o fim de sua vida, como evidenciado nas suas correspondências e conversas. Um “apaixonado por Deus, pela Igreja e por Cristo, Rei da França”, morreu no noviciado jesuíta de Galloro, aos 86 anos.

O Pe. Henri Le Floch, que foi reitor do Seminário Francês em Roma por 23 anos, posto que deixou três dias após a renúncia do cardeal, escreveu-lhe um tributo: Cardeal Billot, homem da Igreja, teólogo, professor, patriota, e defensor da verdade contra os erros do Liberalismo, Modernismo e Sillonismo. O título do livro revela o seu teor: Le Cardinal Billot, lumière de la théologie – Cardeal Billot, luz da teologia.

 

ATRITOS COM O GOVERNO DE PIO XI

Pio XI queria continuar os trabalhos do Concílio Vaticano I e consultou os cardeais sobre a conveniência da sua reconvocação. De acordo com as investigações do Pe. Giovanni Caprile, 26 respostas se conservam nos arquivos do Vaticano, e apenas duas foram negativas: as do Cardeal Andreas Frühwirth (1845-1933) e a do Cardeal Billot. Este argumentou que, por causa das dificuldades e perigos, a era dos concílios ecumênicos parecia terminada, sobretudo pelo risco de os modernistas se aproveitarem do concílio para “fazer a revolução, o novo 1789, objeto dos seus sonhos e esperanças”.

Como francês, Billot só pôde estar exasperado com a virada dos acontecimentos na França dos anos 1920. O núncio papal em Paris pareceu ter apoiado a coalizão maçônica da esquerda de Herriot-Blum. Alguns dias depois, em audiência, Pio XI reclamou amargamente a Billot:

— Eminência, vossos compatriotas votaram muito mal.

— Santidade, vosso núncio tudo fez para que isso acontecesse.

— O meu núncio? Meu núncio? Ele obedece às minhas ordens! É a minha política, minha política, minha política...

Noutro tópico, algumas páginas de Charles Maurras, líder do movimento monárquico Action Française, tiveram o privilégio invejável de serem reproduzidas no tratado De Ecclesia, do Cardeal Billot, sobre as relações entre as autoridades religiosa e secular. Vale aqui citar a opinião de Maurras sobre a democracia:

“Nosso profundo respeito pela nação nos obriga a dizer que, para resolver questões importantes e de interesse geral, as quais requerem anos de estudo, prática e meditação, basta considerar a voz dos incompetentes. E para ter êxito  nas escolhas mais delicadas, basta o sufrágio dos ignorantes... O governo do número tende à desorganização do país. Destrói à força tudo o que o tempera, o que por natureza é diferente: religião, família, tradições, classes, organizações de todos os tipos etc.”

O Cardeal Billot teve conhecimento direto da Action Française, a qual descreveu como “estimada pelos bons e temida pelos maus”. Ele teve de encarar o Cardeal Gasparri, Secretário de Estado, na véspera da condenação do movimento. O infeliz encontro foi o duelo de duas grandes mentes, o maior dos teólogos e o maior dos canonistas disputando sobre um movimento político. O canonista invocou apenas a “vontade superior”. Não há dúvida de que, no julgamento da Action Française, as obras pagãs de Charles Maurras não causaram tanta preocupação quanto seu espírito contra-revolucionário. Numa carta, Billot expressou seu pensamento: “Não é tanto o seu Chemin de Paradis ou Anthinée que eles odeiam, mas o seu anti-liberalismo, anti-democratismo, anti-republicanismo.”

Em 19 de setembro de 1927, o Cardeal Billot foi despido da púrpura que aceitara tomar somente por causa da ordem do seu venerado Pio X, tendo recebido em troca uma pequena estátua de Nossa Senhora; e em seguida aposentou-se. O cardeal, que nunca fora consagrado bispo, voltou a ser o Pe. Louis Billot da Companhia de Jesus.

 

PIO XII E O CARDEAL BILLOT

Pio XII, tão-logo eleito, levantou a excomunhão que pesara sobre a Action Française e os seus membros.

Em 1º de Outubro de 1939, em audiência especial, o Pe. Le Floch apresentou o seu trabalho sobre o Cardeal Billot a Pio XII, que muito o apreciou. Da mesma forma, na alocução pelo quarto centenário da Universidade Gregoriana, em 18 de outubro de 1953, Pio XII mostrou ter o cardeal em boa memória, pois entre tantos professores da sua juventude, mencionou somente o seu nome.

“Para os mais velhos dentre vós, relembremos com alegria nossos professores, como Louis Billot, para nomear um que, com distinção de espírito e inteligência, nos estimulou a venerar os estudos sagrados e amar a dignidade do sacerdócio.”

A influência doutrinal do Cardeal Billot em Roma durou muitos anos após a sua morte. Eis um exemplo: a Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, de 8 de agosto de 1949, contra o Pe. Feeney sobre o batismo de água, foi reprodução quase literal de um artigo do cardeal publicado em Études.

 

TEÓLOGO ANTI-LIBERAL

Cardeal Billot foi um dos teólogos que viu mais claramente a maldade intrínseca do neoliberalismo resultante da Revolução. Falando do Sillon, o movimento político cristão que fora finalmente condenado por São Pio X devido aos seus princípios ideológicos, Billot explicou: “O cristianismo do Sillon baseia-se sempre no democratismo, e o cristianismo democrata, tratando-se de uma ideologia revolucionária, é uma distorção do Evangelho”.

Ninguém julgou melhor o liberalismo, o filho da Revolução, do que o “teológo de ferro”. Analisou a intrínseca discrepância deste para com os princípios de hierarquia e autoridade, trazendo à luz suas conseqüências sociais divisoras. No livro De Ecclesia, especialmente na seção sobre a relação entre Igreja e Estado, o Cardeal Billot golpeia a essência da Revolução Francesa, ao citar o Presidente Clemenceau: “Desde a Revolução, estamos em estado de revolta contra a autoridade humana, a qual destruímos com um só golpe em 21 de janeiro de 1793 [data do assassinato de Luís XVI]”. E num longo texto explica o ambiente histórico dessa luta hercúlea:

 

“Sem dúvida, a religião havia sido difundida por todo o corpo da sociedade, dos pés à cabeça. Toda a nossa civilização nasceu do cristianismo, e nela o clero detinha lugar proeminente na estrutura política; assim, em todos os lugares, as instituições civis e religiosas interligavam-se fortemente... Pode ver-se porque o ódio anti-religioso dos ímpios revolucionários teve como elemento necessário o ódio às instituições sociais, uma vez que, pela natureza delas, seria impossível divorciá-las da fé... Decretaram, portanto, que deviam ser tiradas pela raiz e completamente destruídas, para que o campo ficasse limpo para a nova ordem social e política, cujo primeiro e principal objetivo era destruir a religião por inteiro.

 

“O pretexto para instalar essa nova ordem era a liberdade; a sua lei era o contrato social; seu método, a demagogia; sua razão última, a criação de um Estado colossal e ateu... com poder ditatorial e absoluto para ditar o que é permitido ou proibido. Nesse Estado, o nome e o culto de Deus seria abolido para sempre... Esse é o fim para o qual tudo mais está ordenado como meio. Essa é a razão da destruição das famílias, da destruição das corporações, da destruição das liberdades municipais e das províncias – para que assim reste apenas uma só autoridade: o Estado ímpio... Esse é o objetivo, e não a liberdade civil. A liberdade é pretexto, é ídolo para seduzir o povo... deus oco que Satã vem criando para reduzir as nações a uma escravidão muito pior do que a da antigüidade.”

 

CONTRA OS CATÓLICOS LIBERAIS

O Cardeal Billot, portanto, pensou que a tarefa mais urgente era a de combater a revolução infiltrada entre os católicos, cujos frutos são “o anti-clericalismo jacobinista e o liberalismo pseudo-católico”. Com sua sólida formação doutrinal, ele não apenas evitou transigir com o liberalismo “católico”, mas considerava necessário “lutar contra esse grande mal dos nossos tempos que é querer agradar a Deus sem ofender o diabo, ou melhor, servir o demônio sem ofender a Deus”.

Escarneceu o liberalismo católico como a “mais perfeita e absoluta incoerência”. Esse tipo de “católico” quer professar ao mesmo tempo tanto o catecismo, com o qual crê que o homem foi feito para servir a Deus em todas as coisas, quanto a Declaração de Direitos do Homem de 1789, que quer o homem independente de Deus, e a esfera civil da religiosa. Os católicos liberais são incoerentes também quando aceitam os princípios católicos, mas rejeitam pô-los em prática. Crêem que, em princípio, a união da Igreja com o Estado é boa, mas na prática é sempre danosa à Igreja. Em suas mentes, a liberdade é a última instância, e todos sabemos que a liberdade, deixada por si só, inclina-se ao mal e à impiedade. O que se apresenta como remédio é, na verdade, a causa de todo o mal.

Um exemplo deve ser suficiente para ilustrar o método dos católicos liberais: Com respeito à religião, a posição católica é a de que há somente uma religião verdadeira e que o Estado deve adotá-la. Os liberais, no entanto, professam o indiferentismo, em que todas as religiões são iguais. Concluem que o pluralismo é a condição ideal para o Estado. O católico liberal, com espírito fraco e conciliador, aceita que a religião católica é verdadeira e deve dirigir as famílias e os indivíduos, mas rejeita a conclusão de que o Estado deve a ela submeter-se, e assim professa abertamente a liberdade religiosa.

O católico liberal, objeto da Ilusão Liberal (título de um livro de Louis Veuillot), em luta com sua incoerência, acaba sendo desprezado por Deus e pelos homens. Encarna em si mesmo o dualismo mencionado na Sagrada Escritura: “Se um edifica, e outro destrói, que proveito lhes resulta daqui senão trabalho? Se um ora, e outro amaldiçoa, de qual ouvirá Deus a voz?” (Eclesiástico 34, 28).

(The Angelus no. 442. Tradução: Permanência)

O devotamento heroico dos padres a bordo do Titanic

Pe. Claude Pellouchoud

Antes da partida do Titanic, um funcionário católico do transatlântico testemunhou blasfêmias e provocações sacrílegas traçadas sobre o casco ou apenas pronunciadas1 por centenas de operários incumbidos da construção do navio; entre eles, muitos ímpios que zombavam dos colegas católicos. Ele escreveu aos seus parentes em Dublin: “Estou persuadido que o barco não aportará na América por conta das odiosas blasfêmias que cobrem seus flancos.” 2

Na noite de 14 a 15 de abril de 1912, no Oceano Atlântico Norte, após ter se chocado na proa a estibordo com um iceberg, este insubmersível rei dos mares foi a pique em menos de três horas. Ao Titanic faltavam desesperadamente botes de salva-vidas. Os 20 barcos de socorro presentes só podiam embarcar 1.178 pessoas, ou seja, a metade do total de passageiros (entre 2.201 e 2.228 estavam a bordo; o Titanic foi concebido para transportar 3.503 passageiros). Somente 711 escaparam. Entre 1.491 e 1.517 pessoas pereceram3, o que faz deste naufrágio uma das maiores catástrofes marítimas em tempos de paz. 

Essa noite fatal tornou-se uma das mais tristemente célebres, inspirando romances, canções, programas de TV, documentários e filmes4. “O relato da trágica travessia inaugural não cessa de apaixonar o grande público nos cinco continentes” 5, o Titanic representa e incarna, para a consciência dos nossos contemporâneos, um mito. Passado um século do drama, e depois das conclusões oficiais há muito terem sido apresentadas6, o Titanic permanece no fundo do Atlântico7 como um símbolo do castigo reservado àqueles que colocam a sua fé na tecnologia.

 

Três sacerdotes católicos a bordo

“Paradoxalmente, o Titanic, que não concluiu sua única viagem, é o transatlântico do qual mais se sabe com relação a passageiros e tripulação.” 8 A despeito da proliferação de publicações relativas a esse naufrágio, um fato foi muitas vezes ignorado. Menciona-se que se encontravam a bordo do transatlântico pastores protestantes de diferentes obediências, ou que o capitão Smith cancelou a simulação de resgate que interferiria no ofício religioso que ele próprio presidiu no salão principal, na primeira classe. Mas nunca lemos nada sobre os três padres que celebravam quotidianamente a missa a bordo do Titanic. 9

- O Reverendo Padre Thomas Roussel Byles, nascido em 26 de fevereiro de 1870, filho de um pastor de uma igreja congregacionalista, fora educado no Balliol College, Oxford, onde estudou matemática, história moderna e teologia. Durante os seus estudos, em 1894, converteu-se ao catolicismo e ingressou no seminário de St. Edmund College, em Ware, Hertfordshire, aí permanecendo até 1899. Em seguida partiu para Roma, onde terminou os seus estudos,  ordenando-se padre em 15 de junho de 1902. Desde 1905 era o reitor da igreja católica romana St. Hellen, em Chipping Ongar, Essex. Viajava a Nova York para celebrar o casamento do seu irmão William, igualmente convertido ao catolicismo, previsto para o dia 21 de abril de 1912.

- O Pe. Juozas Montvila, nascido em 3 de janeiro de 1885, ordenado  em 22 de março de 1908 e designado vigário em Lipskas, na diocese lituana de Seiny, onde atendia secretamente às necessidades espirituais dos Uniatas, havia sido detido e condenado pelo governo russo, que controlava a Lituânia. Não lhe sendo possível retomar esse trabalho pastoral em um futuro próximo, decidiu emigrar para Worcester, no estado norte-americano de Massachussetts, onde viviam seu irmão e muitos outros lituanos, em meio aos quais esse jovem padre, que mal tinha 27 anos, pretendia exercer o seu ministério.

- O Reverendo Padre Joseph Peruschitz, originário da Alta-Baviera, nasceu em 21 de março de 1871, recebendo no seu batismo o nome de Bento. Após ter estudado filosofia e teologia no liceu de Freising, pediu para ingressar no convento beneditino de Scheyern. A tomada de hábito se deu no dia 23 de agosto de 189410. Por ocasião dos seus votos temporários, em 1895, recebeu seu nome de religião: Joseph. Foi ordenado no dia 28 de abril de 1895. Por uma autorização particular, pronunciou os votos solenes pouco após sua ordenação. Embarcava em resposta a um chamado vindo da América do Norte para assumir a direção de um importante colégio dirigido por beneditinos suíços no Minnesota. Sua família ignorava tudo da sua viagem e Dom Joseph Peruschitz queria surpreendê-los pondo-os em face de um fait accompli por um telegrama enviado desde a sua chegada no novo continente.

 

Domingo de Quasimodo

Na manhã do dia 14 de abril, um domingo, o Padre Byles celebrou, na sala de jantar, a missa para os passageiros da segunda classe; em seguida, celebrou outra para os passageiros da terceira classe, dando o sermão em inglês e francês, enquanto o Padre Peruschitz continuava com um sermão em alemão e húngaro. De acordo com um artigo publicado no The Evening World, os dois padres pregaram sobre “a necessidade de ter ao alcance da mão um bote de reconforto religioso para o caso de naufrágio espiritual”.

Pouco antes da meia-noite, reinava no Titanic uma grande excitação. Enquanto massas de água se engolfavam no nível da praça de máquinas, senhoras elegantes bailavam em companhia de seus cavalheiros, admirando o céu estrelado. Quem, entre os passageiros, imaginava o que estava por acontecer? Poucos tomaram as advertências a sério — afinal, o navio era insubmersível! Quando os passageiros entenderam o que se passava, todos foram tomados de pânico; a tripulação distribuía coletes e encaminhava mulheres e crianças para os barcos salva-vidas.

De acordo com numerosos testemunhos, os padres Byles e Peruschitz estavam em “pé de guerra” para ajudar os outros. Temos poucos testemunhos acerca do terceiro padre, mas se sabe que o “jovem padre lituano, Juozas Montvilla, cumpriu sua missão até o fim”. Os três padres ajudaram os passageiros da terceira classe a subir as escadas até o lugar de embarque e a subir nos barcos salva-vidas. Consolavam-nos com boas palavras. Algumas senhoras não quiseram se separar dos seus esposos e preferiram morrer com eles. Quando não havia mais mulheres, permitiu-se que alguns homens subissem nos barcos.

 

Ficar com aqueles que iriam morrer

Por duas vezes, um membro da tripulação tentou convencer o padre Byles a tomar assento em um barco, mas ele recusou. No dizer dos sobreviventes, ao padre Peruschitz também foi oferecido um lugar, mas ele também recusou. Quando o último barco desceu, restavam ainda a bordo cerca de 1.500 pessoas que viam a morte se aproximar. Todos os três ministravam seus serviços sacerdotais, ouvindo confissões e rezando com os que não puderam escapar. Mais de uma centena de passageiros, aglomerados na extremidade de trás do convés do barco, foi ajudada por eles.

Na revista católica America, uma testemunha ocular deu o seguinte relato sobre a conduta dos padres enquanto o Titanic soçobrava:

“Quando a agitação alcançou o ápice, os católicos a bordo desejaram a assistência dos padres com máximo fervor. Dois padres incitaram aqueles que estavam condenados a morrer a pronunciar atos de contrição e a se preparar para o encontro com Deus. Rezavam o rosário e os outros respondiam. O barulho feito pelos que rezavam irritou alguns passageiros que ridicularizavam os que oravam e começaram a fazer um círculo ao redor deles. Os dois padres não pararam, dando a absolvição coletiva aos que iam morrer. Aqueles que tomaram assento nos barcos foram consolados com palavras comoventes. Algumas mulheres recusaram-se a separar-se de seus maridos, preferindo morrer ao lado deles. Finalmente, quando não havia mais mulheres na proximidade, alguns homens foram admitidos nos barcos. Ofereceram um lugar ao padre Peruschitz, mas ele recusou.”

Segundo outra testemunha ocular:

“Todos os sobreviventes com os quais nós conversamos relataram que, em meio a essa desgraça, houve um episódio extraordinário, surpreendente e consolador. O padre Peruschitz, assim como o padre Byles, levaram socorro incessante aos demais. Alguns passageiros, que não tinham percebido o perigo inicialmente, mas que tomaram consciência do que se passava posteriormente, ao ver os padres se aproximarem em meio a um tumulto terrível, rogaram com grande fervor a assistência e o apoio destes últimos.”

O fim estava cada vez mais perto. As águas do mar corriam em torrentes pelos salões. Às duas horas da manhã, muitos passageiros se ajoelhavam, choravam e confessavam os seus pecados.

Os dois homens de Deus se despendiam sem esmorecer para administrar a extrema unção e absolver os que estavam na água e, em breve, estariam em artigo de morte, e os que rezavam no navio e logo seriam engolidos pelo mar. Antes de as luzes do Titanic se extinguirem, a popa ergueu-se como um dedo apontado para o céu por efeito do contrapeso do casco despedaçado, e, com um estalido terrível, enquanto o padre Peruschitz e seu irmão no sacerdócio ainda distribuíam a absolvição geral, uma porta mergulhava nos abismos oceânicos.

Um jornal relatou mais tarde:

“Aqueles que, nas embarcações, testemunharam a desaparição do navio nas ondas, narraram que jamais esqueceram como os dois padres abençoavam, com suas mãos consagradas, a multidão que rezava ao seu redor.”

Eles iam e vinham em direção àqueles que estavam aos seus pés, a quem Deus deu a graça da conversão e que ofereciam a sua vida em sacrifício. Agnès Mac Goy declarou:

“Não se enxergava mais nada, mas não se ouviam gritos de desespero, gemidos ou apelos desesperados. Apenas vozes, completamente apaziguadas pela oração, repercutindo enquanto o navio afundava.”

Nesses últimos momentos do naufrágio do navio, o coral da capela da embarcação entoou e tocou com os instrumentos: “Mais perto de Vós, ó meu Deus, mais perto de Vós!

Os três padres e todos os ministros protestantes morreram no naufrágio. Os pastores, viajando com um ou muitos membros das suas famílias, cuidaram principalmente deles, instalando-os nos barcos salva-vidas e despedindo-se deles.

 

Memorial dos padres

No Brooklyn, o irmão do Rev. Pe. Byles, William Byles, não adiou o seu casamento com Katherine Russel. Outro padre celebrou a cerimônia. Um jornal do Brooklyn relata que os noivos voltaram a casa após o matrimônio, vestiram roupas de luto e retornaram à igreja para uma missa de réquiem. O casal partiu em seguida para uma curta lua de mel em Nova Jérsei.

Na igreja St. Helen de Chipping Ongar, os irmãos do padre Byles instalaram uma porta dedicada à sua memória com três vitrais representando São Patrício, o Bom Pastor e São Tomás de Aquino. No ângulo inferior direito do vitral de Santo Tomás, lê-se o seguinte: “Pray for the Rev. Thomas Byles, for 8 years Rector of this mission, whose heroic death in the disaster to S.S. Titanic April 15 1912 eamestly devoting his last moments to the religious consolation of his fellow passengers, this window commemorates.” (Rogai pelo Rev. Padre Thomas Byles, reitor desta missão por 8 anos, cuja morte heróica no desastre do Titanic em 15 de abril de 1912, consagrando com fervor seus últimos instantes a reconfortar religiosamente seus companheiros de viagem, é comemorada por este vitral.”

Uma placa modesta de mármore colocada em um dos deambulatórios do claustro de Scheyern, e quase não notada no meio de muitas outras, recorda a memória do Padre Peruschitz. Está gravado: “R.I.P: R.P. Josephus Peruschitz, O.S.B qui in nave ista Titanica die 15.IV.1912 pie se devovit aetatis anno 42. Sacerd. et profess. 17” (Que o Padre Peruschitz repouse em paz, ele que sobre o navio Titanic ofereceu sua vida piedosamente”)

O padre Juozas Montvila é considerado um herói na Lituânia e o seu processo de beatificação foi introduzido em Roma. A paróquia lituana que ele havia de fundar em Worcester, Massachusetts, foi criada finalmente no dia 13 de novembro de 1913.

(Le Rocher, tradução: Permanência)

  1. 1. “Nem mesmo Deus é capaz de afundar essa cidade flutuante”, declarava um marinheiro.
  2. 2.Cette lettre est conservée comme une relique”, testemunho do Pe. H. de Jackon, em Ecclesia, abril de 1952.
  3. 3. O número de pessoas a bordo e o balanço da catástrofe variam de fonte para fonte. O número exato das vítimas jamais foi estabelecido; apenas 337 corpos foram encontrados.
  4. 4. Notadamente, o sucesso de bilheteria de James Cameron, em 1997, reexibido em 3D por ocasião do centenário do naufrágio.
  5. 5. Gérard Piouffre, “Nous étions à bord du Titanic du 27 mars au 15 avril 1912”, First Histoire, 2012, p.3
  6. 6. Um grupo de peritos americanos ainda conduz uma pesquisa, reunindo-se uma vez ao ano.
  7. 7. Foi em 1985 que os destroços foram descobertos, a 700 km da costa de Terra Nova e Labrador, a 3.800 metros de profundidade.
  8. 8. Gérard Piouffre, loc. cit.
  9. 9. Testemunho da passageira de segunda-classe Ellen Toomey.
  10. 10. No claustro de Scheyern conserva-se o testamento manuscrito do padre, em escrita gótica. Um ato muito pessoal que Joseph Peruschitz redigira com tinta negra por ocasião da sua entrada no convento, em 14 de agosto de 1894.

Nota biográfica do Cardeal Merry del Val

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

O Papa São Pio X e Rafael Merry del Val: difícil imaginar duas personalidades mais diferentes. Aquele nasceu no interior da Venécia, no seio duma família humilde, que conheceu dificuldades e provavelmente até fome. Antes de ser eleito papa, passou a vida em reitorias rurais e chancelarias provinciais, distante da publicidade e dos centros de poder.

Merry del Val (1865-1930), por outro lado, veio duma das mais proeminentes famílias do continente, recebeu educação cosmopolita e poliglota, e foi familiar às embaixadas e círculos mais exclusivos das capitais européias. As vidas desses dois prelados, que pareciam destinadas a trilhar caminhos separados, cruzaram-se quase por acidente e acabaram tão ligadas que mesmo hoje é difícil separá-las.

 

DE FILHO DE EMBAIXADOR A EMBAIXADOR DO PAPA

De acordo com Pio Cenci, biógrafo de Merry del Val, o próprio Leão XIII o pôs na Academia dos Nobres Eclesiásticos, devido à sua linhagem nobre e suas habilidades lingüísticas, uma vez que dominava perfeitamente os principais idiomas europeus. Antes de se tornar sacerdote, o papa utilizou-o em missões diplomáticas na Inglaterra, Alemanha e Áustria. Na cúria pontifícia, que procurava tão esforçadamente retornar sua presença internacional após a perda do poder temporal em 1870, esse descendente dos ilustres ingleses Merry e da ainda mais ilustre casa espanhola Val foi um enviado de Deus.  A ascensão rápida de Merry del Val deveu-se, além dos antecedentes familiares, à sua sólida formação histórico-jurídica, sua capacidade inata de bem relacionar-se, e à sua prontidão, como Bento XV diria, para resolver problemas.

Após graduar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana, tornou-se figura de influência em Roma, especialmente na questão anglicana. Seu perfeito conhecimento do ambiente, as viagens freqüentes que fazia sobre o Canal da Mancha, e a estima do Cardeal Vaughan conferiram-lhe a autoridade necessária. Confiou-lhe Leão XIII com a espinhosa questão da validade das ordens anglicanas, e ele conduziu a Santa Sé à resposta negativa, dada oficialmente em setembro de 1896 com a bula Apostolicae Curae, da qual foi o principal arquiteto. Com base na prática estabelecida ao longo de trezentos anos, e numa exaustiva investigação histórica, Leão XIII confirmou a “nulidade” das “ordenações realizadas segundo o rito anglicano”, portanto negando que os seus bispos tenham a sucessão apostólica.

No ano seguinte, viajou para uma longa missão no Canadá como delegado apostólico. O jovem catolicismo canadense, dividido entre as tentações opostas de severidade e lassidão, pedia a ajuda de Roma. Merry del Val agiu com moderação, especialmente no problema das escolas católicas de Manitoba, e foi objeto de um reconhecimento público da parte do Papa na encíclica Affari Vos, de dezembro de 1897.

 

DE SECRETÁRIO DO CONCLAVE A SECRETÁRIO DE ESTADO

No tempo do conclave de 1903, reunido após a morte de Leão XIII, Merry del Val era bispo e presidente da Academia dos Nobres Eclesiásticos. Por um concurso de circunstâncias, foi promovido in extremis a secretário do conclave, na ocasião da morte do papa. Assim, embora não tivesse podido votar porque não era cardeal, teve de carregar a pesada carga de preparar e conduzir o mais difícil conclave dos últimos dois séculos.

O primeiro encontro com o Cardeal Sarto aconteceu durante o conclave. A Áustria vetara a eleição do Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro e, após quatro dias, à sétima votação, escolheu-se para o papado, com o nome de Pio X, o relativamente desconhecido Patriarca de Veneza, Giuseppe Sarto. O jovem Merry del Val, que foi encarregado de buscá-lo e encorajá-lo a aceitar a nomeação, teve então uma primeira vista da santidade do “seu” Papa, que ele encontrou debruçado em oração diante do sacrário, rogando para que lhe afastasse a cruz do papado. Com o fechamento do conclave, Sarto pôde observar o prelado em ação e, assim, avaliá-lo. Dessa maneira, poucas horas após tornar-se Papa, Sarto informou-o, para sua completa surpresa, que decidira manter Mery del Val como Secretário de Estado interino. “Até agora não tenho ninguém”, conta-se que lhe teria dito calmamente. “Fique comigo. Depois veremos.”

Mas São Pio X, com sua aguda intuição, observou e analisou Merry del Val diariamente, e não demorou a entender que esse era o “homem de Deus” que a Providência colocara ao seu lado no Pontificado. Após período probatório de apenas dois meses, Pio X dissipou as dúvidas e, em 18 de outubro de 1903, nomeou-o Secretário de Estado e o fez cardeal. Abençoou-o e, com afeição paterna, lhe disse: “Aceite: é a vontade de Deus. Vamos trabalhar juntos e sofrer juntos por amor à Igreja”, ecoando dessa maneira o “coragem, Eminência” que Merry del Val sussurrara ao Cardeal Sarto poucos meses antes, encorajando-o a aceitar o Pontificado.

Pio X certamente levou em consideração outra qualidade de Merry del Val: sua vida de piedade. O louvor que o Papa Sarto lhe fez em 11 de novembro de 1903, dia em que recebeu o barrete de cardeal, é de uma linguagem tão incomum que merece ser citado na íntegra: “O bom perfume de Cristo, Sr. Cardeal, que espalhastes em todos os lugares, mesmo na vossa residência temporária, e os muitos trabalhos de caridade a que vos dedicastes no vosso ministério de sacerdote, principalmente na nossa cidade de Roma [ele subsidiou um grupo de jovens em Trastevere], granjeou para vós, com admiração, a estima universal.” Um Papa essencialmente religioso escolheu para si um Secretário de Estado com suas próprias características.

O novelista francês René Bazin louvou a decisão de Pio X, que “nomeando o Cardeal Merry del Val como Secretário de Estado, mostrou possuir as principais qualidades de um príncipe, que são conhecer os homens e saber escolher seus ministros para o bem do reino. Elevar de súbito o jovem prelado a tão alta posição exigiu coragem: mas Pio X reconheceu em Rafael Merry del Val um caráter extraordinário e uma inteligência superior.”

No primeiro Consistório, o Papa explicou aos cardeais que pessoalmente observara os seus “nobres dons de alma e caráter, sua notável prudência ao lidar com os assuntos da Igreja. Escolhi-o porque é um poliglota: nasceu na Inglaterra, foi educado na Bélgica, de nacionalidade espanhola, e vive na Itália; filho de diplomata, e ele mesmo um, está acostumado com os problemas das nações. Ele é muito modesto, um santo. Vem todas as manhãs e me informa de todos os assuntos do mundo. Nunca preciso adverti-lo de nada, e ele não conhece transigências”.

 

A CÚRIA DA IGREJA E A REFORMA DA IGREJA

Merry del Val movia-se graciosamente no mundo diplomático, era capaz de manejar problemas de política internacional, e compreendia a Cúria Romana perfeitamente. Alguém poderia dizer que o novo Secretário de Estado tinha tudo que faltava no papa. São Pio X costumava referir-se a Merry del Val como o “seu” Cardeal. Camille Bellaigue escutou do papa: “Separar-me do Cardeal Merry del Val? Preferiria separar-me da minha cabeça”. Em diversas ocasiões disse que “não podia agradecer suficientemente a Nosso Senhor por ter-lhe conferido tão precioso colaborador”.

A “política internacional” não foi tão primordial para São Pio X como o fora para Leão XIII. Ainda assim, o papa teve de lidar com várias crises internacionais que lhe exigiram toda a atenção e a de seu fiel colaborador, e a mais notável delas foi a dramática separação da Igreja e do Estado na França em 1905. Enfrentando óbvia chantagem, com um só golpe, a firmeza do papa limpou três séculos de galicanismo — a Igreja nacional — tornando o catolicismo francês novamente fiel a Roma. Merry del Val apoiou essa política com lealdade e convicção, tal como o fizera nas decisões de Pio X para reforma radical da Igreja: desde a supressão do direito de veto nos conclaves, seguindo com a reforma da Cúria, até a codificação do Direito Canônico.

A reforma da Cúria Romana, aprovada em 1908, embora visasse diretamente à expansão de seus poderes, fazia-o de tal modo que a Secretaria de Estado passava a ocupar o penúltimo lugar em relevo, dentre os cinco dicastérios romanos. O coração da Cúria de São Pio X não estava na Secretaria de Estado, ao contrário do que aconteceria sessenta anos mais tarde, na reforma de Paulo VI. O coração estava representado pelas onze congregações, sobretudo o Santo Ofício. Talvez por essa razão o papel de Merry del Val, diferentemente de qualquer dos seus antecessores ou sucessores, tenha coincidido com o do papa quase a ponto de se fundirem. Ao se dedicar pouco ou nada à política, mas sim a governar e renovar a Igreja, São Pio X extirpou da Secretaria de Estado muito da margem de manobra que fazia dela um agente autônomo, e estreitou sua vinculação ao papa.

Muito se tem escrito e muitos têm criticado a atitude decisiva do papa no combate ao modernismo, essa ameaça mortal que forjou uma crise interna na Igreja. Novamente, Merry del Val, mais que ninguém, teve o preciso entendimento da gravidade da situação, em que o rebanho universal corria o risco de gangrenar-se por toxinas internas. O anti-modernismo do cardeal precedia sua promoção ao cargo de Secretário de Estado. Ele se opôs à heresia do Americanismo, condenada por Leão XIII na Carta Apostólica de 1899 Testem benevolentiae. No mesmo ano, o prelado se pronunciou sobre outro livro, External Religion, do futuro modernista George Tyrrell, e escreveu ao Cardeal Vaughan sobre as heresias do cientista St. George Jackson Mivart. Ele prometeu a esse cardeal a aprovação pontifícia à sua carta pastoral conjunta, de 1900, que condenava o catolicismo liberal.

Logo que alcançou posição de autoridade como braço direito do Papa, Merry del Val escreveu ao Cardeal Ricardo de Paris o prefácio ao decreto do Santo Ofício que lançou cinco obras do Pe. Alfred Firmin Loisy no Índice de Livros Proibidos, e repudiou a sujeição imperfeita de Loisy. Escreveu a carta de 1904 que dissolveu a seção italiana da Opera dei Congressi, sujeitando o grupo leigo à autoridade da Igreja, em conformidade com os legítimos princípios de ação católica. Favoreceu similar subordinação à Igreja do partido do centro na Alemanha. Em 1910, ainda, participou na condenação papal ao movimento liberal francês Sillon.

Após a morte do Papa, o Cardeal Merry del Val manteve sua enorme devoção a Pio X: elaborou a petição que iniciou seu processo de canonização. No dia 20 de cada mês, o dia da morte do Papa, rezava missa pelo descanso da sua alma. Pediu que fosse sepultado “o mais próximo possível do meu amado pai e pontífice Pio X”. Quando morreu em 1930, seu corpo foi carregado por jovens de Trastevere à cripta de São Pedro e enterrado perto de Pio X. Lê-se a inscrição no mármore: Da mihi animas - Coetera tolle (“dá-me almas - leva o resto”), aplicação mística das palavras de Abraão, “Dá-me a mim as pessoas, e os bens torna-os para ti” (Gen. 14:21). Por requerimento do clero espanhol, sua causa de canonização foi iniciada em 1953. O processo informativo foi completado em 1956 e publicado em 1957. A causa, porém, pouco progrediu desde o Vaticano II.

(The Angelus no. 441. Tradução: Permanência)

México, da Independência aos Cristeros

Alain Sanders

 

Introdução

A guerra dos Cristeros (ou seja, dos “partidários do Cristo”) opôs, de 1926 a 1929, os peones mexicanos, mobilizados em peso contra um Estado ditatorial maçom e ferozmente anti-católico.

De início, a revolta dos camponeses, que reclamavam somente a liberdade de culto, foi pacífica. A resposta, porém, foi sangrenta. A partir de janeiro de 1927, não tiveram outra escolha a não ser pegar em armas. Grão-Mestre da maçonaria (grau 33), o presidente da época, Elías Calles, multiplica as perseguições: padres assassinados, moços católicos torturados até a morte, moças sequestradas ao sair da missa e abandonadas à soldadesca, aldeias metralhadas (notadamente, as dos Índios Yaquis, aliados dos Cristeros), criação de Colunas móveis, em tudo comparáveis às Colunas infernais lançadas contra a Vendeia católica etc.

Bem menos armados que os Federais (que dispunham de dezenas de aviões de combate e armamento pesado), os Cristeros fizeram, contudo, mais do que resistir: em Puerto Obispo, fizeram em pedaços as tropas do anticristo.

Em janeiro de 1929, os Cristeros (que se batizaram “Guarda Nacional”) ocupam a cidade de Manzanillo. Em abril, enviam ad patres oitocentos Federais. Por toda parte, lutam de igual para igual, quando não superam as tropas de um Estado em decomposição. No dia 19 de abril, os soldados de Cristo, conduzidos por generais que se tornaram legendários, Jésus Degollado, Victoriano Ramirez, José Reyes Vega, etc., ocupam a cidade de Tepatitlàn. Sentindo as mãos dos Cristeros pairando sobre seus pescoços, os maçons no poder viram-se obrigados a negociar (o que teve início em 1927, sob a iniciativa, nem sempre realista, do embaixador americano Dwight W. Morrow). Em 27 de junho de 1929, um acordo (arreglos) foi assinado. O culto católico foi novamente autorizado e a anistia concedida aos “rebeldes”. Um engodo: mais de seis mil combatentes serão assassinados em condições atrozes, e os que tentarem se defender, ameaçados de excomunhão pela Igreja!

Uma palavra justamente sobre a Igreja... Oficialmente, a Igreja mexicana (e não digo nada do Vaticano) jamais apoiou a rebelião. A imensa maioria dos 38 bispos mexicanos recusaram a resistência armada, pregando até “o respeito devido às autoridades”! Apenas três bispos clamaram pelo levante: dentre os quais Dom Gonzalez y Valencia (arcebispo de Durango) e Dom José Francisco Orozco y Jiménez (bispo de Guadalajara).

Não consigo ler sem serrar os punhos a declaração desesperada do comandante-em-chefe dos Cristeros, Jésus Degollado, a seus homens, renegados pelo episcopado quando estavam a dois passos da vitória:

“Sua Santidade o papa (...)  decidiu, por razões que nos são desconhecidas, mas que, como católicos, aceitamos, que o culto recomece sem que as leis sejam alteradas... Este arranjo (...) tirou de nós o que há de mais nobre, de mais santo em nossas bandeiras, no momento em que a Igreja declarou se resignar com o que obteve (...) Enquanto homens, sentimos uma satisfação que jamais nos poderão tirar: a Guarda Nacional não acaba vencida por seus inimigos, mas abandonada por aqueles mesmos que seriam os primeiros a receber os frutos de nossos sacrifícios e de nossa abnegação! Ave Cristo! Os que em vosso nome caminham para a humilhação, para o exílio e, talvez, para uma morte inglória (...), com amor fervente vos saúdam e aclamam, mais uma vez, Rei de nossa pátria!”

Sim, reconheço, é de chorar... e as beatificações e canonizações de 34 padres e leigos pronunciadas por João Paulo II tempos depois não me consolam.

Porém, para compreender este ódio anti-católico, é preciso remeter-se a bem antes. Mais exatamente, à declaração de independência do México, em 1821.

 

A Independência, Benito Juárez e a intervenção francesa (1821-1867)

“À frente de um exército valente, proclamei a independência da América Setentrional. Já é livre, mestra de si mesma, não reconhece nem depende da Espanha ou de qualquer outra nação.”

Assim foi, em 2 de março de 1821, a proclamação de Iturbide, soldado, nacionalista e libertador do México.

A história demonstrará que jamais uma proclamação tão resoluta fora tão falsa... Mas, antes de dizer o porquê, convém refrescar um pouco nossas memórias.

Nos tempos da proclamação de Iturbide, o México ocupava toda a América Central e subia até ao norte do que são hoje os Estados Unidos.

Os norte-americanos de então se alarmaram — eram 9.500.000 de habitantes contra 6.540.000 mexicanos, num território de 5.185.000 km² contra 5.118.000 km² para o México. Porém, foi a maçonaria quem mais se alarmou. País gigante, profundamente católico, o México, sob o motor da Igreja, que fomentava hospitais, escolas, obras sociais, era chamado a se tornar uma potência de primeira grandeza. Nele, a integração entre europeus e indígenas se fizera, sem maiores choques, sob a ação unificadora do catolicismo, e produzira um povo: o mexicano; e uma nação: o México.

A fim de tentar desmembrar esta nação católica, os norte-americanos empreenderam inicialmente uma série de operações assassinas. Elas foram vitoriosas. Principalmente, porque as tropas mexicanas eram comandadas por generais maçons.

Exemplos? São abundantes. O general Santa Anna que, feito prisioneiro pelos norte-americanos em 1838, foi devolvido por um navio da US Navy (Marinha dos EUA) e retomou a frente de seus soldados engajados contra os norte-americanos... O general Juan Álvarez, que bloqueou os reforços mexicanos esperados na Alta Califórnia1  e permitiu serem massacrados os Cadetes de Chapultepec, sem jamais intervir com sua cavalaria. O general Ampudia que, em plena batalha de Monterrey (1846), presenteou os agressores norte-americanos com 35 canhões...

Ao longo dos anos, as manobras maçônicas contra o México acentuam-se. Em 1861, o governo mexicano caiu graças ao apoio dado pelos norte-americanos ao partido liberal, sob as mãos de Benito Juárez, virulento maçom. O México saía então de uma guerra civil que visava à derrota do partido conservador e do general católico Miramón, que, aos 15 anos, sobrevivera ao massacre dos Cadetes de Chapultepec — de que acabamos de falar.

Com o país arruinado, Benito Juárez declarou estar impossibilitado de pagar os juros da dívida mexicana à Espanha, à Inglaterra e à França. No dia 8 de dezembro de 1861, esquadras navais destes três países — seis mil espanhóis, três mil franceses, oitocentos britânicos — deitam ferro em Veracruz 2. Rendendo-se às razões de Juárez, ingleses e espanhóis decidem retornar. Mas não os franceses.

É que Napoleão III, de volta após uma juventude bastante errante, julgava que os Estados Unidos da América um dia haveriam de se opor à Europa. Para tentar impedi-lo, o Imperador precisava:

1. De um México católico, amigo da França, territorialmente tão grande quanto os Estados Unidos.

2. Da vitória dos sulistas engajados numa guerra territorial contra o norte ianque.

Para poder ajudar os sulistas — estando todos os portos sulistas submetidos a um rigoroso bloqueio nortista — e possuir um governo mexicano pró-francês, era preciso primeiro tirar do poder o homem dos ianques, Benito Juárez.

Valendo-se da presença da esquadra naval francesa em Veracruz, os emissários de Napoleão III estabeleceram contato com os responsáveis do partido conservador exilado em Cuba, e lhes propuseram intervir com as tropas francesas. Politicamente, isto foi um grave erro, na medida em que permitiu a Juárez — que se beneficiava de uma enorme ajuda material norte-americana (armas, dinheiro) — apresentar-se como o campeão da soberania nacional.

Em todo caso, seis mil soldados franceses — e cem cantineiras — foram logo colocados sob as ordens do general mexicano Lorencez. Direção: Puebla, onde deveriam lançar-se contra 12 mil soldados de Juarez que não paravam de avançar.

Um obstáculo que não dobra Napoleão III, o qual, justificando sua política, declara:

“Não temos qualquer interesse em que os Estados Unidos se apropriem do Golfo do México e possuam o monopólio dos produtos do Novo Mundo. Ao contrário, se um governo durável se organizar no México com a ajuda da França, nós faremos a raça latina recuperar seu prestígio e iremos garantir a segurança de nossas colônias nas Antilhas e das de Espanha.”

Em 17 de outubro de 1862, o Corpo Expedicionário Francês, sob o comando do marechal Forey, e contando com 17.347 homens, ocupa Puebla e, depois, Zaragoza. Em Puebla, os soldados franceses, aclamados por imensa multidão, são recebidos como libertadores.

Benito Juárez acaba tendo de fugir e a junta de governo conservadora decide que o México será doravante uma monarquia moderada tendo, à sua frente, um príncipe católico. A escolha recai sobre Maximiliano da Áustria3.

A idéia parece hoje estapafúrdia, mas não era assim na época. Sobretudo porque muitos países, e não dos menores — Bulgária, Suécia, Grécia, Portugal, Romênia... — formaram sua casa real com príncipes estrangeiros.

Enquanto, por seu lado, Benito Juárez solicitava a intervenção militar dos Estados Unidos, a França seria traída por um maçom ativo, o seguinte chefe do Corpo Expedicionário Francês, o Marechal Bazaine.

Após entendimentos com Juárez, por intermédio das lojas maçônicas, Bazaine obrigou assim, no dia 15 de outubro de 1863, o Arcebispo Antonio de Labastida a vender os bens da Igreja para enfraquecer o catolicismo mexicano.

Quando em maio de 1864 Maximiliano e Carlota se instalaram no trono do México, o embaixador dos Estados Unidos na Áustria-Hungria informou aos Habsburgo: “Que Maximiliano não conte nem com a simpatia nem com o apoio dos Estados Unidos”. E expediram ao novo Imperador três lojas maçônicas: uma francesa, “Êmulos de Hiram”; uma alemã, “Eintrach”; e uma espanhola, “União fraternal”. Ingênuo e fraco — e certamente mantido ignorante dos verdadeiros fins da maçonaria — Maximiliano torna-se maçom.

Aconselham-no a vender a Baixa Califórnia aos Estados Unidos por 12 milhões de dólares. Ingênuo, mas não inteiramente idiota, Maximiliano recusa violentamente o ardil. Mas, quando lhe aconselham a montar um governo de coalização repleto de liberais e maçons, não soube se opor. E aceita até mesmo separar-se de seus dois mais fiéis defensores, os generais católicos Miramón e Márquez. Tampouco soube resistir (e com isto perdeu a simpatia dos conservadores e da Igreja) aos conselhos de tolerar no México o protestantismo e o judaísmo, religiões pouco representativas no país...

Quando Maximiliano sugeriu formar um exército imperial mexicano, Bazaine encarrega-se de quebrá-lo. É assim que ele envia sistematicamente jovens recrutas formados por um oficial austríaco, o conde von Thun, rumo a missões-suicidas, bem antes do fim de seu aprendizado. Nesse ínterim, Bazaine, marechal do exército francês, abastecia Benito Juárez com armas e munições. Em 1865, dois oficiais norte-americanos, Reed e Crowford, foram nomeados generais do exército de Juárez. Nas suas Memórias, o general nortista Sheridan revelará:

“Meu exército apoiava e estimulava os liberais mexicanos, fornecendo-lhes armas em abundância, permitindo-lhes instalar-se ao longo do Rio Bravo, do lado americano, a distâncias adequadas... Só do arsenal de Baton Rouge nós lhes enviamos trinta mil fuzis.”

As armas americanas? Excelentes carabinas Sharp, revólveres Colt de seis tiros, e muitas Remington. Enquanto isso, a cavalaria francesa usava pistoletes de um tiro com fecho de pederneira...

No início de 1866, desejando fugir do vespeiro mexicano, Napoleão III decide que, a partir de novembro daquele ano, as tropas francesas embarcariam para a França. Maximiliano pede então a seu irmão, o imperador Francisco José da Áustria-Hungria, que envie um Corpo Expedicionário. Francisco José promete dez mil homens. Mas, pressionado pelos Estados Unidos, envia somente uma pequena “legião austríaca” com mil voluntários. A Imperatriz Carlota viaja até o Vaticano para pedir ao Papa que venha em socorro do México católico. Em vão.

Quando tudo parecia perdido, três oficiais católicos — Miguel Miramón, Leonardo Márquez e Tomás Mejía (um puro índio otomi) — decidem formar in extremis três tropas para tentar salvar o Império.

Enquanto Bazaine deixava o México, antes tratando de explodir os depósitos de pólvora para que Maximiliano não pudesse se servir deles, o general nortista Sherman e soldados norte-americanos vinham dirigir o exército juarista.

Em 17 de fevereiro de 1867, Maximiliano declara:

“Tomo hoje o comando de nosso exército, coloco-me à sua frente. Há muito aguardava este dia. Agora, livre de todo compromisso, posso seguir meus sentimentos”.

No dia 19 de fevereiro ocorreu a batalha de Querétaro.

Nove mil Imperiais contra quarenta mil Juaristas. O primeiro assalto das tropas de Juárez foi repelido. Os soldados de Miramón matam mil Juaristas e aprisionam dezenas de soldados norte-americanos. Estando o México ameaçado por uma coluna Juarista conduzida pelo general Porfirio Díaz, o general Márquez teve de subtrair 2.200 homens aos defensores de Querétaro e correr para Puebla. Isolado no México, Márquez viu-se obrigado a conter os ataques das tropas de Díaz.

Em 27 de abril, Miramón derruba as forças juaristas e, conduzindo pessoalmente ataques abertos, recupera o terreno, víveres, munições e vinte canhões. Mas era tarde demais. Traídos pelo coronel López que, à frente do “Batalhão da Imperatriz”, entrega aos Juaristas o setor-chave do Convento de la Cruz (contra 12 mil pesos pagos pelo agente juarista Antônio Yablouski), os Imperiais foram derrotados.

Maximiliano, Mejía, Miramón foram condenados à morte. Maximiliano transmitiu uma mensagem a Juárez, de maçom para maçom, pedindo-lhe misericórdia. Porém, Maximiliano era apenas “grau 18”, pequeno nível “filosófico” destinado aos idiotas úteis. Seu pedido foi rejeitado. Maximiliano pediu então que morresse só, que fossem poupados os leais Miramón e Mejía. Isto também lhe foi negado.

No dia 19 de julho de 1867, os três homens foram fuzilados ao pé da montanha de Las Campunas.

O México tornou-se o quintal dos Estados Unidos. Presidente do México, Juárez recebeu das lojas maçônicas o título de “Meritorio de las Americas”. Seu primeiro ato oficial foi o de transformar a igreja da paróquia de São Francisco em templo protestante. Em seguida, começou a fazer concessões econômicas às empresas norte-americanas e, mais especialmente, ao magnata Jacob P. Lease. Benito Juárez morreu no dia 18 de julho de 1872.

 

Os segredos da Revolução mexicana (1910-1923)

Porfirio Díaz sucedeu Benito Juárez. Díaz, desejando dar ao México uma infraestrutura moderna, dedica-se a equipar o país: estradas de ferro, telégrafo, telefone, usinas de aço, hospitais, eletricidade, rede de esgoto, água potável encanada, estradas pavimentadas...

Para assegurar o poder, Díaz se rodeou de importantes maçons, como Francisco de Gochicoa, Grão Kadosh (“santo”, em hebreu...) do Rito Mexicano. Maçom iniciante, Porfirio Díaz julgava poder utilizar a maçonaria em seu proveito, pensava poder levá-la no papo.

Assim, quando os maçons pediam o fechamento desta ou daquela igreja, desta ou daquela escola católica, Porfirio Díaz nomeava uma “comissão de estudos” que enterrava o assunto. Ou fazia alguma oportuna indiscrição a sua esposa Carmen, católica fervorosa, que se incumbia de prevenir quem de direito. 

Não obstante, teve de ceder aos “Mestres”, que se opuseram que a encíclica Humanum Genus de Leão XIII fosse publicada e comentada — mesmo por padres — no México.

No dia 31 de agosto de 1895, Porfirio Díaz anunciou que abandonava, “por falta de tempo”, sua condição de “Grão-mestre da Grande Assembléia” (Grande Loja de Arksansas). Este “posto” foi então cedido a Manuel Lévi, deputado federal porfirista.

Pouco a pouco, as diferenças se acentuam entre a maçonaria e Don Porfirio, e este se torna alvo de críticas dos jornais a soldo dos maçons, O Combate e O Partido Liberal. E isto a ponto de ele escapar por pouco de um atentado, cuja origem não permite dúvida.

Ao mesmo tempo em que tomava distância das lojas maçônicas, Díaz começou a reconsiderar os interesses dos Estados Unidos no México, aonde o grande capital maçônico norte-americano se dirigia como a um país conquistado. A família Hearst (Hirsch, era seu verdadeiro nome) dispunha de três milhões de hectares; a exploração mineral estava nas mãos de Salomon e William Guggenheim; Rockefeller controlava todo o cacau ao sudeste do país; a indústria têxtil dependia do magnata Goblentz; todas as transações bancárias passavam pelo banco Kuhn-Loeb (que financiará Lênin, poucos anos mais tarde...).

Com discrição, Porfírio fechou contratos com os britânicos, e, principalmente, com a empresa de Lord Cowdray, incumbida de construir uma estrada de ferro ao longo do Istmo de Tehuantepec: Caminho que rivalizava diretamente com o Canal do Panamá, pois “economizava” 2.700 km aos navios, que poderiam descarregar suas mercadorias na costa do Pacífico, as quais seriam transportadas a outras embarcações na Costa do Atlântico, e vice-versa.

No dia 16 de outubro de 1909, “Mister” Taft, presidente dos Estados Unidos e maçom, veio censurar Don Porfirio:

“A estrada de ferro de Tehuantepec foi concluída. Isto implicará consequências que não podemos prever. É um ataque direto ao Canal do Panamá”.

O destino de Porfirio Díaz estava selado. O instrumento deste destino foi Francisco Madero, chefe do minúsculo “partido anti-reeleicionista”. Em 20 de novembro de 1910, Madero instalava-se em San Antonio (Texas) e conclamava o povo mexicano a levantar-se contra Díaz. Em vão. Mas Madero logo recebeu o apoio de um certo Ricardo Flores Magón. Perigoso ideólogo de extrema esquerda, refugiado nos Estados Unidos, Magón preconiza ações de agitprop nos povoados ao norte do México.

Logo, uma dezena de guerrilheiros do “general” Orozco aproximaram-se de Madero e Magón, assim como, poucos dias depois, uma figura pitoresca: Francisco “Pancho” Villa. Procurado pela polícia — por ter matado um vagabundo que abusara de sua irmã — Villa só tinha a ganhar com uma mudança de regime.

Uma vez formado este pequeno e heteróclito grupo, o bom “Mister” Taft lhes concedeu dinheiro, munições e carabinas Winchester 30-30, e, além disso, um conselheiro, o maçom Sommerfield.

Chefiando cinco mil revolucionários, Pancho Villa e Orozco vão, de início, atacar Ciudad Juárez, mal defendida por quatrocentos Federais. Declarando-se impressionado por esta conquista, os Estados Unidos reconhecem os guerrilheiros como “beligerantes” e concedem uma “embaixada” em Washington a seu representante, José Vasconcelos.

Em abril de 1911, os Revolucionários, aos quais se juntaram um “reformador agrário”, Emiliano Zapata, e seus 2.500 homens originários do Estado mexicano de Morales, dispunham de 14.500 homens, equipados de moderníssimos canhões norte-americanos “Blue Whistlers”.

As tendências políticas desta Revolução? Francisco Madero é um perfeito maçom; o “general” Orozco, um maçom “moderado”; José Vasconcelos, um oportunista a soldo da maçonaria americana; Pancho Villa, nacionalista sincero, representa a ala direita da Revolução; Emiliano Zapata, a ala esquerda não comunista.

O mais perigoso? Ricardo Flores Magón. No dia 29 de janeiro de 1911, com a ajuda de seu conselheiro norte-americano, o capitão Wilcox, ele se apodera de Mexicali. Seu fim confesso é formar uma república bolchevique na Baixa Califórnia. Ao seu lado, um outro esquerdista norte-americano, Carl Rhys Price, chefe da 2ª Divisão do Exército Liberal...

Moralmente esgotado — e ainda que seu regime não esteja ameaçado — Porfirio Díaz decide se exilar. Vai para a França, deixando nos cofres do Estado quase setenta milhões de pesos.

Porém, “Mister” Taft não está satisfeito. Insiste que o México adote o 6º item do plano maçônico estabelecido pelas lojas de Nova Orleans, no dia 4 de setembro de 1835: dissolução da propriedade territorial, seja grande, seja pequena.

Madero mal foi nomeado presidente da República, e Zapata e Orozco se rebelam contra ele. O erro de Madero, aos olhos do bom “Mister” Taft, foi ter autorizado a criação de um “partido católico” de oposição. Indignado pelas impertinências dos norte-americanos, Madero escolhe a guerra. Ataca militarmente Zapata e Orozco e freia as atividades subversivas da “Casa do Operário Mundial”, criada por Flores Magón e um comunista dos EUA, Samuel Gompers.

Os Estados Unidos alimentam então uma nova rebelião, dirigida pelo governador corrupto Venustiano Carranza e pelo general Mondragón. Em fevereiro de 1913, o embaixador dos EUA no México, Lane Wilson, chegará a ameaçar Madero com um desembarque de Marines.

Foi então que um general católico, nacionalista e obstinado, o general Victoriano Huerta, decide acabar com o regime molenga de Madero. Um putsch rápido. Duas balas na cabeça de Madero, e uma política sem concessões.

O drama do general Huerta é que ele não leva a sério a maçonaria, que considera uma reunião de esquisitões. Já os americanos, levam Huerta bem a sério. O presidente maçom Woodrow Wilson, que sucedeu o maçom Taft, recusa-se a reconhecer o governo Huerta. Relança, portanto, a rebelião de Venustiano Carranza, ajudada agora pelo “general” Obregón.

Enquanto Huerta decretava o fim definitivo da “Casa do Operário Mundial” e levava muitos agitadores marxistas ao exílio, dinheiro enviado pelos EUA reativava Pancho Villa, e agentes norte-americanos incitavam Zapata a pegar novamente em armas.

Uma última tentativa foi feita para com Huerta por uma comissão maçônica méxico-americana: “Entre na maçonaria e seu governo será reconhecido e ajudado”. Huerta recusa brutal e irrevogavelmente a oferta.

Wilson então ordena às companhias petrolíferas dos EUA que não paguem mais impostos ao governo mexicano, e a Huestaca Petroleum Company entrega setecentos mil pesos aos rebeldes. A guerra explode. Obregón ataca, com a ajuda da US Navy, a guarnição de Guaymas. Pancho Villa ocupa Torreón no dia 3 de outubro de 1913. Em seguida, ocupa Chihuahua, Ciudad Juárez e Ojinaga.

Rapidamente, Huerta retoma Torreón, dissolve o Congresso e aprisiona os deputados maçons. Tendo o presidente Wilson protestado oficialmente, Huerta encarrega seu primeiro-ministro de lhe responder, com esta instrução:

— Xinga muito, senhor ministro! (“Mientele la madre, señor ministro!)

Wilson ordena então a US Navy fornecer abertamente armas aos rebeldes pelo porto de Tampico. Huerta reforça a defesa do porto. No dia 21 de abril de 1914, quatro encouraçados dos EUA, dentre os quais o Prairie, bombardeiam Veracruz antes de enviar Marines ao assalto de uma cidade, na qual enfrentaram um punhado de Cadetes da Academia Real e alguns civis armados de revólveres...

Wilson, triunfante, declara:

— A velha ordem morreu para sempre!

No dia 15 de julho de 1914, o general Huerta anuncia sua demissão. Capturado pela polícia americana quando partia para o exílio, teve de se submeter a uma operação cirúrgica da qual não se recuperará. A esposa do embaixador norte-americano no México, Edith O’Saughnessy, acusará os médicos de terem-no deixado morrer.

Venustiano Carranza torna-se então presidente da República, e inicia uma série de perseguições religiosas. Um pastor protestante dos EUA, Francis R. Joyce, testemunha do abuso de freiras mexicanas em Veracruz, ouviu a seguinte resposta de Silliman, representante pessoal do presidente Wilson, a quem reclamara do incidente: “O que há de pior no México, após a prostituição, é a Igreja Católica. Ambas tem de desaparecer!”

Outro conselheiro de Wilson, John Lind, exclamou ao ouvir sobre o massacre de padres: “Excelente notícia! Quanto mais matam padres no México, mais fico contente!”. A loja mexicana “Guardiães da Liberdade” de El Álamo, escreveu a Carranza: “Todas nossas felicitações pelos esforços feitos para libertar o povo do pior dos abutres humanos: o catolicismo.”

E destruirão a estrada de ferro de Tehuantepec... O general Juan Andrew Almazán acusou Carranza de estar sob “a tutela dos plutocratas de Wall Street”, enquanto Zapata e Villa, partidários de Eulalio Gutiérrez, designado por 112 votos contra 21 como presidente no lugar de Carranza (que recusa-se a votar), reiniciam a guerrilha...

Zapata e Villa voam de vitória em vitória, e tomam conta do México. Porém, Carranza, exilado em Veracruz, possui um aliado de peso: Woodrow Wilson. Este inunda-o com armas e dinheiro.

Após ter reconquistado o México, em fevereiro de 1905, Carranza manda fuzilar 160 padres, reabrir a “Casa do Operário Mundial” e cria — dois anos antes da Guarda Vermelha russa — cinco “Batalhões Vermelhos”.

Opondo-se doravante diretamente aos Gringos4, Villa torna-se um homem acossado. Quer pelos homens de Carranza, quer pelas tropas dos EUA, que ele fora provocar, em 9 de março de 1916, até Columbus5. Seu colega de rebelião, Emiliano Zapata, tendo caído numa cilada preparada pelos soldados de Carranza, foi assassinado em 10 de abril de 1919.

Mas, o próprio Carranza acabou por desconfiar da maçonaria e dos bolcheviques, a ponto de reabrir as igrejas, interditar dois jornais de extrema esquerda e desarmar os “Batalhões Vermelhos”. Um acaso? Uma campanha de extrema violência foi lançada contra ele na imprensa... norte-americana. Fez-se mesmo correr o boato — os EUA estavam então engajados na Primeira Guerra Mundial — que as nações latino-americanas, mas sobretudo o México, preparavam-se para entrar em guerra contra os EUA em nome dos alemães...

Uma nova rebelião — desta vez enquadrada por Obregón e Plutarco Calles — explodiu. Carranza, obrigado a deixar o México, foi liquidado durante sua fuga. Obregón torna-se presidente no dia 1º de dezembro de 1920 e Calles, primeiro-ministro. Ao saber da novidade, o general Murguía — o “vencedor” de Pancho Villa — rebela-se, alegando que Calles, descendente de judeus espanhóis, não poderia governar o povo mexicano.

A guerrilha de Murguía dura dois anos, e o general termina sua carreira perante um pelotão de execução, em 31 de outubro de 1922. Era o acerto de contas da maçonaria. No dia 20 de julho de 1923, Pancho Villa foi assassinado, sob ordem de Plutarco Calles, alguns dias após ter feito declarações bastante anti-comunistas...

Os Cristeros, os chouans6 do México (1926-1930)

No dia 14 de novembro de 1921, o bolchevique Juan Esponda, membro da CROM (Confederação Regional Operária Mexicana), veio colocar um buquê de flores aos pés da imagem da Virgem de Guadalupe, na Basílica da Cidade do México. No buquê havia dinamite.

Descoberto pelos fiéis, foi protegido do linchamento pela polícia. De noite, por falta de provas — havia contudo mais de cem testemunhas... — soltaram-no.

Isto, e as campanhas da comunista espanhola Belén de Sarraga7 e do “Grande Luminar” Ramirez, contra o Cristo-Rei do Cerro Cubilete, e o resto — isto foi sob Obregón.

No dia 1º de dezembro de 1924, Plutarco E. Calles lhe sucede. Com ele, o ódio a Cristo não terá limites. Ao lado de Calles, Aarón Sáenz, ministro das Relações Internacionais; Moisés Sáenz, irmão do precedente e vice-ministro da Educação; Luís Morones, ministro da Indústria e secretário-geral da CROM; um conselheiro americano, o denominado Habermann, além de agentes da GPU soviética8; o mestre da Grande Loja mexicana, Jorge Hirschfeld; etc.

Mestre maçom (grau 33), Calles tentou inicialmente quebrar a Igreja Católica no México por intermédio do Padre Pérez, proclamado pelo governo “Patriarca da Igreja Católica mexicana”... Este Padre Pérez, maçom da loja “Amigos da Luz” de Oaxaca, não conseguiu convencer ninguém.

Então, Calles fez votar uma lei: os padres não poderiam doravante oficiar se não fossem casados. Isto não funcionou melhor. Assim, no dia mesmo em que recebia com grande pompa Alexandra Kollontay, primeira embaixadora soviética no México, fechou dezenas de igrejas e escolas católicas, ao passo que duzentos padres e cinquenta freiras foram exiladas para a Guatemala. Ao mesmo tempo, Calles oferecia cem mil pesos a uma pouco expressiva denominação protestante e permitia a abertura — graças a subvenções estatais — de duzentos colégios da mesma denominação...

No dia 12 de maio de 1926, Dom Caruana, o novo núncio apostólico, foi expulso. Isto provocará a seguinte reação da parte do Arcebispo de Baltimore, Michael Curley:

“Calles continua a perseguir a Igreja no México pois sabe que tem a aprovação de Washington. Nosso governo armou os assassinos a soldo de Calles. Nossa amizade o encorajou na sua nefasta empresa: destruir a idéia de Deus dos corações de milhares de mexicanos”.

No dia 28 de maio de 1926, Calles recebe de Luis M. Rojas, Grande Comandante do Rito Escocês no México, a medalha maçônica do mérito. Uma recompensa e um encorajamento a seguir em frente.

No Yucatán, as pias de água benta são proibidas por “razões higiênicas”. Em Querétaro, a polícia abre fogo contra os católicos, e dois são mortos. Muitas moças são detidas na saída da missa, encarceradas com criminosas comuns e prostitutas, e freqüentemente violadas. No México, o chefe da polícia, Roberto Cruz (sic), esbofeteia publicamente uma moça conhecida por sua militância católica. No dia 26 de julho, dois policiais à paisana assassinam um velho comerciante, José Farfán, porque afixara na sua loja os dizeres: “Viva Cristo-Rey!”.

No sul dos Estados Unidos, um general aposentado, Francisco Estrada, decide que é hora de reagir. Valendo-se de quinhentos homens armados de metralhadoras e carabinas Winchester 30-30, sete caminhões e de três aviões bi-planos, Francisco Estrada parte para o México. Jamais o alcançará: ele e seus homens serão detidos e encarcerados pelo FBI...

Na sua edição de dezembro, 1926, a revista maçônica norte-americana The New Age, observa: “A Igreja Católica perverte os mexicanos há quatrocentos anos. O mérito de Calles é tê-los libertado da ignorância e superstição. É por esta razão que pode contar com nossa simpatia e com o apoio da América do Norte”.

Decididos a não se deixar matar como cordeirinhos, os católicos se organizam. Sob a conduta de Luis Navarro, dois mil moços armados se levantam prontos para uma insurreição, marcada para o dia 1º de janeiro de 1927.

Enquanto esperam a data, e apesar das perseguições — sete moços católicos, torturados pela polícia até a morte, são mortos à la dundum9 — os membros da UCM (União dos Católicos Mexicanos) e da ACJM (Associação Católica da Juventude Mexicana) trabalham na semi-clandestinidade.

Logo, os Cristeros — assim chamados por causa de seu grito de guerra, “Viva Cristo Rey!” — entram em ação. Em León, 3 de janeiro de 1927, guiados por seu chefe, Anacleto González Flores, ex-professor, quase conquistam a cidade. Mas Flores é capturado e torturado até a morte.

Na província de Sonora, milhares de índios Yaquis juntam-se aos Cristeros. A represália é sangrenta: suas aldeias são metralhadas pela aviação mexicana.

Enrique Gorostieta, antigo Cadete do Colégio militar, sucede Flores. Mas os Cristeros não têm dinheiro nem aviões, e seu armamento é, para dizer o mínimo, inusitado (rifles de caça, algumas carabinas, revólveres de pólvora negra, calibres dos mais diversos: 30-30, 32-20, 38 etc.).

Para combatê-los, Calles constitui cem Colunas móveis, em tudo comparáveis às Colunas infernais, assassinas de vendeanos10.

Em junho de 1927, os Cristeros somam 18 mil combatentes. A logística no campo é assegurada pelas Brigadas Juana de Arco, compostas de mulheres e moças. Sob as aparências de comércio, transportam, escondidos sob tomates, sabonetes e tortillas, cartuchos e munições.

No fim do ano 1927, os Cristeros já contam com trinta mil homens: vinte mil “regulares” e dez mil guerrilheiros de “tempo-parcial”. Os combatentes do “general” Navarro — sete mil homens — estão equipados com excelentes armas Mauser, subtraídas ao exército.

Ao passo que a revolta cristera cobre 17 províncias do México, Calles recebe dos EUA 13 aviões de combate [que são] imediatamente utilizados contra os Cristeros, o que não impede os Cristeros de fazer em pedaços — seiscentos mortos — os Federais em Puerto Obispo.

Enquanto combatia os “soldados de Deus”, Calles sonha com sua reeleição. Em 1927, acelera a imigração de dez mil judeus. Em 1928, acolhe noventa mil. Todos serão naturalizados mexicanos, mal tendo pisado o solo mexicano.

Nos EUA, os jornalistas Frank Tannenbaum, Walter Lipmann e Ernest Gruening lançam uma campanha em defesa de Calles. Ela será contrabalançada pelo apoio dado aos Cristeros pelos católicos do Brasil11, Chile, Argentina, Colômbia, Uruguai e Canadá.

Chegam as eleições. Ao arrepio da Constituição, Calles pretende se reeleger. Sentindo que a cólera popular crescia, propõe como candidato seu cúmplice, Obregón. Este tampouco poderia se eleger, visto que já fora presidente...

Ameaçado por um motim militar, Calles manda fuzilar os generais Gómez e Serrano, que desejavam criar um partido contra a dupla Calles-Obregón. Em seu delírio, manda seus homens dinamitarem a estátua do Cristo-Rei do Cerro Cubilete. Em seguida, anula as eleições e faz com que seja eleito seu fantoche, o advogado Portes Gil, reservando para si o cargo de Ministro da Defesa no novo governo.

Em 1929, Portes Gil, Calles e Obregón haviam conseguido esta façanha de mobilizar contra si:

- Os Cristeros;

- A rebelião militar do general Escobar (trinta mil homens);

- O Partido da Direita Nacional, criado por José Vasconcelos, antigo ministro de Calles, enojado pela sanha anti-católica deste.

Em janeiro de 1929, os Cristeros — que se batizaram “Guardam Nacional” – ocupam a cidade de Manzanillo. Em abril, nocauteiam oitocentos Federais.

Uma vez mais, devido às habilidades do embaixador norte-americano no México, Dwight Morrow (afiliado ao ramo maçônico Misrachi), os EUA enviam cinqüenta aviões para Calles e lhe concedem um empréstimo de 25 milhões de dólares.

Mas, nos EUA, uma surpresa divina: as eleições levaram ao poder, no início de 1929, um novo presidente, Hoover. Ora, Hoover não era maçom. Esquecida por algum tempo do México, a maçonaria consagra então todas suas forças contra este inconveniente Hoover. A continuação da história é bem conhecida: veio a terrível crise de 1929, e foi substituído pelo maçom Franklin D. Roosevelt (grau 33).

Ao fim de negociações secretas com o Vaticano, um acordo foi assinado, segundo o qual Portes Gil pôde anunciar cinicamente que as leis impostas por Calles não eram anti-religiosas mas... que haviam sido mal compreendidas.

Os Cristeros estavam — apesar da morte em combate de Gorostieta, em 2 de junho de 1929 — a dois passos da vitória. Pressionado pela Liga de Defesa das Liberdades Religiosas, o general em chefe dos Cristeros, Jesús Degollado, anunciou a seus homens, com voz de choro:

“Sua Santidade, o Papa, por intermédio do Excelentíssimo Núncio Apostólico, dispôs, por razões que nos são desconhecidas, mas que, como católicos, aceitamos, que o culto recomece sem que a lei seja modificada... Este acordo (...) tirou de nós o que  havia de mais nobre, de mais santo em nossa bandeira, desde o momento em que a Igreja declarou se resignar com o que conseguira...

Por conseguinte, a Guarda Nacional assume a responsabilidade pelo conflito...

Enquanto homens, possuímos uma alegria que jamais poderão nos tirar: a Guarda Nacional não sucumbiu vencida por seus inimigos, mas abandonada por aqueles que seriam os primeiros a receber os frutos de nossos sacrifícios e de nossa abnegação...!

Ave Cristo! Nós que por vós marchamos para a humilhação, para o desterro e, talvez, para uma morte inglória [...] com nosso mais fervoroso amor vos saudamos e, mais uma vez, vos aclamamos Rei de nossa Pátria! Viva Cristo Rei! Viva Santa Maria de Guadalupe!”.

Seis mil Cristeros, que depuseram armas depois deste apelo, foram assassinados em seguida. Durante os combates, os Cristeros tiveram “apenas” 4.797 mortos...

Pouco depois, a Direita Nacional, de José Vasconcelos ganhará as eleições. Mas Portes Gil (que, durante uma festança, teria gritado: “A luta não começa hoje. A luta é eterna. A luta começou há vinte séculos”) as anulou. No dia 14 de fevereiro de 1930, 23 pessoas próximas a Vasconcelos só não foram assassinadas porque ele partiu rápido para o exílio.

Tendo, sem dúvida, servido o bastante, Calles foi assassinado por um general bolchevique, Lázaro Cárdenas. Sob a sua direção — e as de Salomon Schreimbaum (vindo da Lituânia) e de Max Schachman (vindo de Nova York) — o comunismo instalou-se no México.

A Universidade Operária do México foi confiada a Isaac Libenson, no dia 8 de fevereiro de 1935: Lá eram formados os quadros sindicais-marxistas.

Em 1938, Cárdenas estatiza o petróleo mexicano, o que hoje é apresentado como uma medida “nacionalista”. Tratava-se, com efeito, de prejudicar, segundo pleitos dos EUA, os ingleses (que então dispunham das Honduras britânicas, a atual Belize). Não apenas os Mexicanos depositaram 170 milhões de dólares em indenizações aos EUA, mas, a partir de então, os americanos deram um jeito de impor o seu preço ao petróleo “nacional” mexicano...

Tranquilamente, mas à surdina, as perseguições religiosas, conduzidas pelos “Camisas vermelhas”, recomeçaram, mas sem grandes entusiasmos. É preciso dizer que, nos EUA, Roosevelt e a maçonaria precisavam das igrejas para mobilizar a todos contra a Itália e a Alemanha, em prol de uma “cruzada” em nome dos “direitos humanos”, bem como dos “valores cristãos” de milhões de homens.

Em nossos dias, o Partido Nacional-Revolucionário de Calles, atualmente chamado de Partido Revolucionário Institucional (PRI), continua a ter cada vez mais peso.

É de se admirar que o México tenha sido pró-sandinista? Que Tomás Borge, ex-ministro de interior da Nicarágua vermelha, passe aí um auto-exílio dourado (enquanto aguarda que seu amigo, Humberto Ortega, chefe do exército sandinista, retome o poder)? Que a imprensa e a televisão sejam lá tão servis quanto as nossas? Que as autoridades da Guatemala tenham muitas vezes denunciado o governo mexicano, que permite que a guerrilha esquerdista guatemalteca tenha suas bases no sul do México (província do Yucatán)? Que o exército seja menosprezado, sem influência, e não conte com mais de cem mil homens, para um país de 70 milhões de habitantes, enquanto a polícia (civil e sindical) conta com mais de duzentos mil homens? É de se admirar? Talvez não...

(Tradução: Permanência. Mexique de l’Indépendance aux Cristeros, Atelier Fol’fer, 2014)

  1. 1. [N. do T] Nos tempos da colonização espanhola, Alta Califórnia era o nome dado ao território mais ou menos equivalente ao atual estado norte-americano da Califórnia; a Baja California é nome atual do estado mais setentrional do México, cuja capital é Mexicali.
  2. 2. [N. do T] Veracruz é o nome de um dos 31 estados mexicanos.
  3. 3. [N. do T] Maximiliano I, Imperador do México, nutriu na juventude uma forte paixão por D. Maria Amélia, filha de Dom Pedro I, com quem pretendia se casar. Primo-irmão de Dom Pedro II, tentou sem maiores resultados aproximar-se, a fim de formar uma vigorosa aliança entre México e Brasil.
  4. 4. O termo “gringo”, pejorativo, remonta à guerra méxico-americana de 1836. Os soldados americanos marchavam entoando a canção, “Green grow the lilacs” ... as primeiras sílabas “grin-grou” tornaram-se “gringo”.
  5. 5. [N. do T] Columbus é uma cidade do estado do Novo México, EUA.
  6. 6. [N. do T] O autor refere-se aos camponeses da Vendeia (França) que, com heroísmo, pegaram em armas contra um governo que se opunha à sua Fé. Sobre o assunto, recomendamos o artigo publicado em PERMANÊNCIA, “A Guerra da Vendeia”, escrito por Jean de Viguérie, nº 266, tempo de Pentecostes 2012.
  7. 7. [N. do T] Maçom, espírita e ávida leitora de Bakunin, viajou pela América Latina, dando conferências as mais subversivas, dirigindo e contribuindo para periódicos, fundando associações como, no México, a Federación Anticlerical Mexicana.
  8. 8. [N. do T] GPU ou OGPU é o nome do antigo serviço secreto soviético.
  9. 9. [N. do T] As balas dundum, inventadas no final do século XIX, foram projetadas para se expandir e fragmentar durante o impacto. Elas se estilhaçam dentro do corpo do indivíduo atingido provocando dores lancinantes.
  10. 10. [N. do T] As colunas infernais, comandadas pelo general Louis-Marie Turreau, receberam a ordem de marchar pela Vendeia e matar a todos, mulheres e crianças incluídos.
  11. 11. [N. do T] O nosso Jackson Figueiredo (fundador do Centro Dom Vital), escrevendo na Gazeta de Notícias, foi talvez a mais veemente voz da nossa imprensa contra a odiosa política de Calles. Seus artigos causaram tamanho mal-estar, que o embaixador mexicano escreveu pedindo a pronta demissão de Jackson de Figueiredo ao presidente do país, o Sr. Arthur Bernardes. Este, porém, ignorou completamente o pedido dos mexicanos.

    Reunimos os textos de Jackson de Figueiredo – talvez pela primeira vez desde sua publicação em 1926 – no site da Revista Permanência: http://www.permanencia.por.vc/revista/historia/Dossie/jackson.htm 

Os papas na história do Brasil

Conferência de D. José Pereira Alves

A atuação criadora dos Papas na formação histórica da nossa catolicidade está documentada nos atos pontificais que demonstram a solicitude augusta dos Supremos Vigários de Cristo pela região brasílica, como se dizia nos primeiros tempos da nacionalidade. Eu não estou aqui para fazer uma história eclesiástica do Brasil. Venho corroborar uma afirmação: Os Sumos Pontífices são os grandes criadores e protetores da nossa Pátria Católica.

Basta-me mergulhar aqui e ali em nossa história para sentir o roçagar da sotaina branca do Papa. É a ação, é a vigilância do Pastor Universal a exercer-se soberana e benfazeja por toda parte.

No reinado de Dom João III, o Papa Júlio III pela Bula Super Specula Militantis Ecclesiae, de 28 de fevereiro de 1550, criou o Bispado do Brasil, com sede na Igreja de São Salvador da Região chamada Bahia de Todos os Santos, desligando a Terra de Santa Cruz da jurisdição do Bispo de Funchal. A nossa Diocese, sufragânea do Arcebispo de Lisboa, tinha cinquenta léguas pelo litoral e vinte pelo interior, mas ao Bispo foi outorgada jurisdição por todo o território brasileiro e ilhas adjacentes. Só cento e vinte e um anos depois, oito meses e quinze dias, foi a Bahia elevada à Arquidiocese, pelo Papa Inocêncio XI com a Bula Romani Pontificis Pastoralis Sollicitudo, de 16 de novembro de 1676. Foi o nosso primeiro Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, vigário geral na Índia quando nomeado Bispo do Brasil que mais tarde, naufragando na sua volta a Portugal, foi devorado com todos os seus companheiros pelos índios Caetés. Dizem que a terra onde foi supliciado o nosso primeiro Bispo nunca mais produziu coisa alguma.

O Santo Padre, na Bula criadora do Episcopado no Brasil, depois de referir-se à ação colonizadora de Portugal, às igrejas paroquiais e outros lugares sagrados já existentes à pregação apostólica dos missionários católicos, e à nobreza da cidade de São Salvador, plantada como uma cidadela titular dos fiéis de Cristo, de campos férteis e clima benigno, notável pelo progresso da gente e do comércio, atendendo à humilde súplica de seu caríssimo filho em Cristo, João Rei de Portugal e dos Algarves, desejoso de propagar a fé católica como os seus maiores, constitui a Região do Brasil na Hierarquia Católica, conferindo a São Salvador o ius civitatis e de Igreja Episcopal autônoma. Júlio III é considerado o criador da Igreja Brasileira, no sentido ortodoxo da expressão.

A terra brasílica, santificada pela benção de Jesus Cristo na Missa da Descoberta, percorrida pelas bandeiras missionárias das Ordens Religiosas; o Brasil cujos ventos já repetiam o nome de Jesus e o nome da Imaculada, já se podia sentar pela munificência paternal do Pontífice Romano, nas assembleias ecumênicas da Cristandade e ter o seu voto nos grandes conselhos da Igreja Universal.

Roma olhava com ternuras de mãe para a Igreja nascente da América portuguesa. Não queria, como se insinua na Bula histórica, que o progresso material das novas terras fosse desamparado pelas forças da Fé e do Espírito.

Super specula militantis Ecclesiae, meritis licet imparibus, divina dispositione locati da universas orbis provintias et loca, praesertim Omnipotentis Dei misericordia per Catholicos Reges et Principes ab infidelibus et barbaris nationibus recuperata, et acquisita aciem nostrae meditationis possi reflectimus et ut lucis ipsis dignioribus titulis decoratis plantetur radicibus Chistiana Religio et eorum incolae ac habitatores venerabilium praesulum doctrina et autctoritate suffulti proficiant semper in Fide et quod in temporalibus sunt adepti, non careant in spitualibus incremento, opem et operam libenter impendimus efficaces.

Na Bula em que o Papa Inocêncio XI eleva a Diocese baiana à metropolitana do Brasil e assim, definitivamente, estatui a autonomia eclesiástica de nossa pátria, vê-se o interesse, sente-se a solicitude pastoral com que a Santa Sé acompanha a nova catolicidade. Fala da cidade de São Salvador na Bahia de Todos os Santos com os mesmos elogios da Bula Juliana que criou o Bispado Nacional. Põe em relevo os suores e trabalhos dos reis católicos lusitanos em sujeitarem e desbravarem a terra e o selvagem. As guerras restauradoras contra os hereges holandeses e as missões abnegadas de vários religiosos e outros varões contra as trevas satânicas, a idolatria, o gentilismo e heresias outras, os templos suntuosos, mosteiros e asilos erguidos pela régia munificência, são lembrados no documento pontifical pela consideração do Pontífice — more vigilis Pastoris — como ele próprio afirma.

Várias de nossas capitais foram cidades por direito pontifício, como por exemplo Bahia, Olinda e São Paulo.

Elevou a Bispado a prelazia do Rio de Janeiro, criada por Gregório XIII em Bula de 19 de julho de 1576, o mesmo Papa Inocêncio XI, a 16 de novembro de 1676. O Pontífice chama a nossa grande metrópole de hoje civitas Sancti Sebastiani Brasiliensis Dioecesis in ea parte quae Rivus Ianuarii applelatur, sede de uma só Igreja Paroquial sob a invocação do mesmo São Sebastião. É cidade insigne, diz o Papa, pelo clima salubérrimo, pela população crescente, comércio, pelos mosteiros vários e pelos habitantes seus, nobres e letrados.

Com a Bula Ad Sacram Beati Petri Sedem da mesma data, é instituída a Diocese de Olinda. A Prelazia de Pernambuco devia a sua criação à Bula de Paulo V, de 15 de julho de 1614.

Na Bula de criação do Bispado de Pernambuco, como aliás nas outras, o Romano Pontífice sempre se revela movido pelo desejo de confirmar os débeis na Fé, de instruir os indigentes de doutrina, de chamar os íncolas do Bom Pastor que deu por eles a vida, de plantar novos seminários eclesiásticos. E para realizar estes grandes pensamentos de catolização brasileira, julgava conveniente a constituição de novos prelados. É sob essas apostólicas inspirações do Vaticano que se forma a hierarquia eclesiástica do Brasil, composta desta Trindade constelada: Bahia, São Sebastião do Rio de Janeiro e Olinda, glória avoenga da Igreja no Brasil.

O Bispado do Maranhão foi instituído pelo Papa Inocêncio XI, com a Bula de 30 de agosto de 1667, Super Universas Orbis Ecclesias, que por ser mais fácil ir a Lisboa do que à Bahia de Todos os Santos, segundo reza a Bula, sujeitou a nova diocese à metrópole portuguesa. São Luís tinha dois mil habitantes, fama de gente nobre, de muitas letras, homens de armas. Na criação da nova diocese o Papa acentua o mesmo desígnio apostólico: plantar novas sedes episcopais no campo da Igreja Militante, para que por estas novas plantações aumente a devoção popular, floresça o divino culto, sejam conferidos os Sacramentos da Igreja e se promova a salvação das almas. São expressões textuais do ato pontifício de Inocêncio XI. Durante o governo de Dom Frei José Delgarte, da Ordem da Santíssima Trindade da Redenção dos Cativos, quinto prelado maranhense, foi desmembrada do território do Maranhão a nova diocese do Grão Pará pela Bula Copiosus in Misericordia, de Clemente XII, em 4 de março de 1719, no reinado de Dom João V de Portugal, compreendendo a Guiana Francesa. Na Bula paraense, o Santo Padre se afigura no vértice da montanha a estender o seu olhar de Pastor aos confins do mundo, para prover as necessidades espirituais do imenso campo do Senhor. A solicitude do grande pai das almas se sente excitada pela visão das messes que hão de florir, da sua vastidão e dos ásperos e perigosos caminhos que os apóstolos hão de trilhar para promoverem a colheita, a criar igrejas episcopais que ele chama “novas fontes” e “novos pastores”. Desses novos mananciais se hão de abeberar os povos sedentos. É a linguagem do Pontífice.

A 6 de dezembro de 1745 o douto Bento XIV desmembra da Diocese do Rio de Janeiro as igrejas de São Paulo e Mariana e as prelazias de Goiás e Cuiabá, pela Bula Candor Lucis Aeternae. Tem-se vontade de traduzir e citar toda a Bula beneditina para tornar evidente o empenho e o espiritual açodamento com que o Santo Padre, movido dos mesmos sentimentos dos seus augustos predecessores, atende às súplicas do Rei, às preces e apelos de tantas regiões desamparadas, cujas vozes só depois de um ano podem chegar aos ouvidos do próprio Antístite. À Santa Sé, desde aqueles primeiros tempos, não escapa o problema da evangelização brasileira que só pode ter solução satisfatória pela divisão eclesiástica do imenso território.

Haec, ut percepimus, primum manus nostras levavimus ad eundem Unigenitum Dei Filium cuius vices, licet immeriti gerimus in terris, gratias enixe agentes de tam ferventi praefati Ioannis Regis, charissimi Filii Nostri, Filli vere in Christo charissimi, spiritu sibi coelis effuso: inde ad Pastoralem solicitudinem mostram respicientes, votis eiusdem Ioannis Regis catholica pietate dignis Nobis superius expositis, propensius ac celeriter annuimus.

A Bula divide a Diocese do Rio de janeiro em cinco partes para louvor e glória de Deus Onipotente, honra de Sua gloriosa Mãe Maria e de toda a corte celeste e exaltação da própria Fé Católica.

As prelazias de Goiás e Cuiabá foram elevadas à categoria de Bispado a 15 de julho de 1826 por Leão XII, com a Bula Solicita Catholic Gregis Cura, que vem animada dos mesmos intuitos apostólicos pela cristandade brasileira. O mesmo pontífice atendendo às preces de Monsenhor Francisco Correa Vidigal, ministro plenipotenciário do Primeiro Imperador do Brasil junto à Santa Sé, hilari animo sujeita à metrópole da Bahia as Dioceses do Pará e do Maranhão, até então sufragâneas do Patriarcado de Lisboa, pela Bula Romanorum Pontificum Vigilantia, de 5 de junho de 1827.

A Comissão da Assembleia Legislativa, encarregada de examinar essa Bula, mostra-se no seu parecer satisfeita, vendo de certo modo restituída a muito antiga autoridade dos metropolitanos... e diz que os bispos isolados, não reconhecendo outro superior que o Bispo de Roma, sendo tão difícil o recurso, e para muitos, impossível, podiam ser considerados quais monarcas absolutos.

Vê-se que a Comissão ignorava as Bulas de criação daquelas dioceses e que, portanto, sempre para elas existiu o direito metropolitano.

Monsenhor Vidigal comunicava ao Ministro dos Estrangeiros e corte das últimas amarras eclesiásticas a Portugal nestes termos: “Ilmo. e Exmo. Sr. tenho a honra de participar a Vossa Excelência que em conformidade das imperiais ordens, solicitei aqui a separação dos Bispados do Pará e do Maranhão, da sujeição do Patriarcado de Lisboa, como Metrópole, e que ficassem incorporadas na metrópole da Bahia, o que felizmente obtive, e nesta ocasião remeto a competente Bula, a qual vai no próprio original, juntamente com um transunto para ser enviado ao respectivo metropolitano, a fim de que este assim fique inteirado e comunique aos seus novos sufragâneos devendo ficar o original no arquivo do Império. A sua despesa foi de duzentos e noventa e oito escudos e vinte e cinco baiocos, moeda romana, cuja conta remeto também, inclusa. Deus guarde a Vossa Excelência. Roma, 15 de junho de 1827. Ilmo. e Exmo. Sr. Marquês de Queluz, Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, Monsenhor Vidigal”.

O Bispado do Rio Grande do Sul foi criado pela Bula Ad Oves Dominicas Pascendas, de 7 de maio de 1848, pelo saudoso amigo do Brasil, o Papa Pio IX, que se dignou de sagrar o segundo Bispo de Porto Alegre, Dom Sebastião Dias Laranjeiras. É o único Bispo brasileiro sagrado pelo Papa, honra insigne que se dignou a dar ao Brasil o único Pontífice que pisou terras brasileiras — o grande e imortal Pio IX. A cerimônia se realizou na Capela Sistina a 7 de outubro de 1860. Sentou-se o novo apóstolo do Brasil no solo pontifício, deu na presença do Pontífice a benção Papal e na mesa cedeu-lhe o Papa o lugar de honra. Ao despedir-se lhe disse: tome por modelo de suas ações ao Arcebispo da Bahia.

Ainda foi Pio IX que criou o Bispado Diamantino pela Bula Gravissimum Sollicitudinis de 6 de junho de 1854 e a diocese do Ceará pela Bula Pro Animarum Salute de 8 de julho de 1854, tendo como cidade episcopal Fortaleza, que nos mais antigos documentos eclesiásticos aparece no termo latino Arx ou In arce Seará.

Em 1741, escreve o meu pranteado antecessor Dom Agostinho Banassi, a Bula de Bento XIV dirigindo-se a vários bispos, incluía os do Brasil, onde declara os empenhos da Igreja na conversão dos índios e manifesta-se admirado de não haverem cessado todas as vexações, pelo que comina penas eclesiásticas neste sentido e afirma ter escrito a Dom João V para castigar a quem praticasse esses excessos. Era a grande voz romana mais uma vez a vibrar protetora do indígena perseguido.

Pouco tempo depois da descoberta da América, diz Vasconcelos, os naturais dessas regiões eram tidos por vários como não sendo homens. Havia quem os classificasse um pouco acima dos macacos. Doutrina que, espalhando-se pela nova Espanha, foi reprovada pela Bula Veritas Ipsa de Paulo III de 2 de junho de 1537. Assim concluía: “Em vista do que (ele, Santo Padre) determinava e declarava por autoridade apostólica, que os índios eram verdadeiros homens como os mais e não só capazes da Fé de Cristo, senão propensos a ela segundo chegava ao seu conhecimento; e, sendo assim, tinham todo o direito à sua liberdade, da qual não podiam nem deviam ser privados e tão pouco do domínio de seus bens, sendo-lhes livre lográ-los e folgar com eles, como melhor lhes parecesse, dado mesmo que ainda não estivessem convertidos. Pelo que os ditos índios e mais gentes só se haviam de atrair e convidar à Fé de Cristo com a pregação da palavra divina e com o exemplo da boa vida, sendo írrito, nulo, sem valor nem firmeza, todo o obrado em contrário da presente determinação e declaração apostólica”.

Em solene declaração pontifical — doutrina da religião, justiça, liberdade e caridade — recordada apostolicamente para o Brasil, foi defendida e praticada pelo missionário contra a cobiça dos aventureiros sem ideal, sem humanidade, sem cristianismo. Os Papas foram, pois, os grandes e desinteressados amigos de nossa Pátria. No começo da nacionalidade o Papado protege o caráter humano e a propriedade do índio; nos fins do segundo império, se ergue Leão XIII para advogar em nome de Cristo, pai de todos os homens, a liberdade da raça escrava.

“Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a mínima vacilação, a mais leve preocupação de torcer o ensinamento moral para adaptá-lo às circunstâncias políticas. Vi tão somente a consciência moral brilhando como um farol, como uma luz indiferente aos naufrágios dos que não se guiarem por ela”. Assim comentava o grande Nabuco a sua célebre entrevista com o iluminado Pontífice que, depois da Abolição, destina a Rosa de Ouro à Imperial Redentora dos escravos como testemunha eloquente de sua augusta benevolência pela Princesa e pelo Brasil livre.

Na colônia, no império e na república, o Brasil mereceu sempre uma atenção especial da Santa Sé: O reconhecimento dos privilégios apostólicos do Padroado no Brasil colonial, no Brasil monárquico e imperial, a concessão de favores excepcionais e graças em toda a nossa existência política e religiosa até os dias presentes, as seculares relações diplomáticas entre o Vaticano e a nossa pátria e a permuta constante de afetos filiais e cortesias internacionais mostram à evidência que o Papa é uma personagem viva da História Nacional. Que bela e numerosa é hoje a hierarquia eclesiástica no Brasil! A Santa Sé constelou a nossa pátria do Cruzeiro de cruzes peitorais. São dezesseis as províncias eclesiásticas. As dioceses, prelazias e prefeituras se contam por dezenas. A princípio houve, até dos católicos, quem se tomasse de espanto e receio pela multiplicação de tantas mitras. Não ficariam os bispos como uma espécie de Guarda Nacional? Hoje se vê que o bem, resultante desta milagrosa multiplicação do pão pastoral, é incalculável. Esqueciam-se eles de que, no feliz pensamento de São Francisco de Sales, uma só alma, remida pelo Sangue tem direito a um bispo. E no Brasil imenso, vagam dispersos, sem luz, sem amor, sem Cristo, milhares!

Roma, para distinguir a Terra da Santa Cruz, vestiu da amplíssima púrpura romana um dos seus grandes filhos — este velho servidor da pátria, orgulho do meu estado e honra da Igreja brasileira, o Eminentíssimo Cardeal Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro. A púrpura cardinalícia flameja para toda a América do Sul nas mãos do Brasil católico.

De primeira classe é a nossa Nunciatura Apostólica, cuja representação diplomática por varões claríssimos e de grande devoção pela pátria brasileira, chamam-se eles Barona, exaltado calorosamente pelo Barão do Rio Branco, Aversa, Gasparri, nosso grande amigo, Aloisi Masella, já bem da simpatia brasileira em pouco tempo, bem aqui representado pela bela figura de padre e diplomata de Monsenhor Egídio Lari, tão dedicados ambos aos interesses católicos do nosso amado Brasil. Tem sido eles portadores queridos da amizade paterna, delegados nobres do coração do Papa. E como não há amizade sem lágrima, o Papa também tem chorado por nossa causa, e nenhum chorou mais do que Pio IX, chorou quando viu nos cárceres do Brasil dois bispos brasileiros — o douto e apostólico Dom Macedo Costa e o insigne confessor e mártir Dom Vital, de santa memória, arcanjo da Igreja do Brasil.

Chorava pela religião a majestade daquele augusto Pontífice que recebia entre carinhos os meninos do Colégio Pio Latino, destinando ao seminário uma verba especial, para que nas quintas-feiras jamais faltassem doces para os filhos da América. Sublimidade e doçura de Pai!

Quando o Brasil entendeu que devia ser uma República e os seus primeiros estadistas, num momento de ilusão, que a República deveria ser, para infelicidade nossa, agnóstica, os Papas não perderam o amor pelo Brasil. Leão XIII pensou logo no seu batismo e, numa recepção vaticana diante do Arcebispo Dom Jerônimo Tomé, dizia, acarinhando uma criança brasileira: “Havemos de fazer o Brasil uma República bem católica”. E puxava pelo r...

Os Sumos Pontífices são os criadores e protetores da nossa catolicidade, eles que abençoaram os nossos primeiros missionários, educadores da nacionalidade, enviaram os nossos pastores, suscitaram os nossos seminários, restituíram os nossos claustros gloriosos, martelaram os inimigos descobertos ou ocultos da verdadeira religião, criaram as nossas catedrais e basílicas e mandaram coroar solenemente as imagens da devoção nacional como p. ex. a Milagrosa Conceição Aparecida, Rainha do Brasil. Eles que tem honrado os nossos governos e as datas grandes da pátria com mensagens, condecorações raríssimas e representações esplendidas, como a embaixada brilhantíssima do Centenário; eles que em cada discurso a qualquer peregrinação nacional deixam palpitar um grande amor pelo Brasil.

Muito melhor do que eu, os brasileiros que vão a Roma o sentem. E o nosso grande patrício que ali está, o Exmo. Arcebispo Dom Sebastião Leme neste longo encontro de uma hora, bem melhor poderá dar testemunho da ternura do Pontífice pela nossa terra, nossa gente, nossos destinos históricos. E também, nessa ocasião solene, o Papa sentiu, por um dos mais belos, dos mais ricos, dos maiores e melhores corações da nossa raça, quanto o Brasil quer bem ao Vigário de Jesus Cristo na terra.

Pois bem, senhores. Esta nobre e tradicional Paróquia da Glória se reuniu hoje no seu belo e majestoso santuário, para cantar a glória sacerdotal desse continuador da amizade pontifical ao Brasil, desse grande missionário que por abnegados e cultos visitadores apostólicos percorreu o litoral e o sertão brasileiro, dessa águia apocalíptica que, olhando fixamente o sol do futuro nacional, resolve a fundação do seminário brasileiro, auxiliando o próprio pontífice esse centro cultural da intelectualidade católica e sacerdotal da Pátria com um avultado donativo.

Amor com amor se paga. É verdade que o amor como disse Lacordaire, desce mais do que sobe. É maior o amor do Pai do que o do filho. Mas o Brasil quer que o mundo todo saiba que no seu peito há uma flor que não murcha: a gratidão. As homenagens de toda a pátria católica são homenagens filiais ao grande benfeitor da consciência nacional.

A Paróquia da Glória, pelos expoentes maiores da sua espiritualidade católica, de sua cultura católica, de sua graça cristã e de sua família religiosa e do seu povo fiel ao Cristo, ajoelha-se diante do Grande Sacerdote, puro e sublime na sua velhice de outro, branco na sua batina pontifical e na imaculada alvura de seu longo apostolado e pede-lhe a benção de Pai e Hierarca Supremo, a benção do amigo da nossa grande Pátria providencialmente católica, a benção suave e carinhosa do maior de todos os Padres, mas também do Padre que um dia no Vaticano, num gesto indescritível, beijou a bandeira trêmula do Brasil.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

O Apóstolo da Califórnia

Pe. William J. Slattery

O sacerdote que veio a estabelecer a Missão em San Diego em julho de 1769 não parecia destinado a se tornar o Apóstolo da Califórnia. Junípero Serra (1713-1784) media apenas 1,57m de altura, tinha já 56 anos de idade e sofria de asma. Além disso, sua perna esquerda vivia o tempo todo inflamada com enormes úlceras varicosas, causando-lhe também crescentes dores no peito. Era natural que o cirurgião Don Pedro Prat lhe recomendasse algum descanso para minorar aqueles incômodos, mas “descanso” era uma palavra que não se encaixava muito bem no vocabulário de Junípero Serra. Foi só quando o grande homem jazia morrendo, que lhe ouviram murmurar: “Agora irei descansar.”

Num período de 15 anos, apesar de todos os obstáculos interpostos pela saúde, por conquistadores ambiciosos e por um território ainda não mapeado, esse coração heróico e gênio organizador, ao mesmo tempo desbravador, colonizador e construtor de civilização, um dos maiores pioneiros a explorar o solo americano, trabalhando 18 horas por dia, cobriu milhares de milhas para fundar as Missões que um dia se tornariam as cidades da Califórnia.

 

O que a Califórnia deve a seu Apóstolo

E lá ia esse frágil e franzino padre, de sangue-quente, mancando cansado pelos caminhos ásperos, cruzando de cima a baixo Las Californias. Os que o acompanhavam, faziam-no alegremente, sabendo que ali estava um dos grandes da terra; não apenas uma vontade indomável, mas um coração de pura ternura, um homem que trazia paz ao justo, mas que cuspia fogo sacerdotal sobre políticos e soldados se desobedecessem ao seu aviso austero: “Fiquem longe dos índios.”

A Califórnia deve muito a seu Apóstolo e aos outros 146 sacerdotes que dedicaram suas vidas à fundação e ao desenvolvimento das primeiras cidades da região. Sessenta e sete desses padres viveram e morreram nas Missões, enquanto os outros, após seus dez anos de serviço, foram designados para outras tarefas ou tiveram de voltar à Espanha por motivo de saúde. Aquilo que o historiador protestante Herbert E. Bolton diz sobre o co-fundador da cidade de San Francisco poderia ser dito de todos aqueles padres:

“O Frei Palóu era um estudante dedicado, cristão devoto, discípulo leal, viajante incansável, missionário zeloso, firme defensor da fé, pioneiro engenhoso, bem-sucedido construtor de Missões, hábil administrador e historiador da Califórnia.”

Junípero Serra nasceu na Ilha de Majorca e entrou na Ordem franciscana aos 16 anos. Após sua ordenação, ensinou teologia e obteve fama como pregador influente. Em tudo isso, ansiava por ser um missionário no Novo Mundo. Foi só em 1749 que a Ordem permitiu que cruzasse o Atlântico em direção à cidade do México. Em 1767, começou a trabalhar na área da Baixa Califórnia, onde Missões haviam sido fundadas pela Companhia de Jesus.

Em 1769, viajou para a Alta Califórnia. Em San Diego, estabeleceu a primeira das 21 Missões que se alinhariam no chamado El Camiño Real, a estrada de 600 milhas (966 km) que ia desde San Diego no sul, passando pela Missão San Francisco Solano em Sonoma, até o norte. Numa rápida sucessão, seja pessoalmente ou sob sua supervisão, outras oito Missões foram estabelecidas: San Carlos Borromeo (1770), San Antonio de Padua (1771), San Gabriel Arcángel (1771), San Luís Obispo de Tolosa (1772), San Francisco de Asís (1776), San Juan Capistrano (1776), Santa Clara de Asís (1777) e San Buenaventura (1782). Seus companheiros padres fundaram depois mais 12 Missões. Em 1784, aos 70 anos de idade, após viajar 24.000 milhas, o Apóstolo da Califórnia morreu na Missão San Carlos Borromeo.

A cidade de San Diego já havia sido batizada em honra a San Diego de Alcalá em 1602, quando uma expedição de mapeamento, liderada por Sebastián Vizcaíno, parou naquela localidade para celebrar a Missa no dia da festa do santo. Entretanto, foi em 16 de julho de 1769 que o padre Serra plantou a cruz em Presidio Hill, fundando a Missão lado a lado com o posto militar que havia sido estabelecido ali três meses antes, tornando-a o primeiro assentamento europeu permanente na Costa do Pacífico dos Estados Unidos. Os colonos chegaram em 1774 e, entre altos e baixos, por volta de 1797 a Missão havia se tornado a maior da Califórnia, com uma população de mais de 1.400 pessoas.

O lugar onde hoje se encontra a cidade de Los Angeles foi observado com atenção pelo Pe. Juan Crespi, que, em 2 de agosto de 1769, escreveu em seu diário que o local tinha potencial para um belo assentamento. O padre era membro da expedição de Gaspar de Portola, que viajava pela Alta Califórnia procurando lugares adequados para Missões. A expedição entrou no que agora é Los Angeles através de Elysian Park e foi bem recebida por oito nativos americanos. O Pe. Crespi registrou em seu diário:

“Após viajar cerca de uma légua e meia através de uma passagem entre algumas colinas baixas, entramos num vale muito espaçoso, bem desenvolvido com choupos e amieiros, entre os quais corria um belo rio de norte para noroeste que, virando depois de uma colina íngreme, seguia para o sul.”

Apesar de terem experimentado três tremores de terra durante sua breve estadia, o consenso foi de que era um “lugar encantador” e que tinha “todos os requisitos para um grande assentamento”.

 

A Missão de San Gabriel

 

Em 1771, o Pe. Serra instituiu a Missão de San Gabriel Arcángel, próxima a Whittier Narrows, no que hoje é conhecido como San Gabriel Valley. Graças à recomendação do Pe. Crespi, o governador espanhol da Califórnia, Felipe de Neve, decidiu fundar um assentamento lá. Em 5 de setembro de 1781, 44 colonos, “Los Pobladores”, acompanhados por dois padres, quatro soldados da colônia e o Governador, estabeleceram a cidade chamada El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles del Río de Porciúncula. Dois terços desses colonos eram mestiços; um tributo à integração étnica promovida pelos sacerdotes católicos nas Américas.

O local da atual San Francisco foi descoberto em 1º de novembro de 1769 pelo Pe. Juan Crespi e Don Gaspar de Portola, acompanhados por um grupo de soldados, enquanto viajavam para o norte a partir de San Diego. De 6 a 11 de novembro, o grupo acampou em torno de uma sequóia gigante (palo alto), e o padre anotou em seu diário que lá havia “um ancoradouro muito grande e adequado.” Três anos depois, em 1772, o Pe. Crespi e o Tenente Pedro Fages seguiram viagem ao longo da costa leste da Baía de San Francisco: os primeiros homens brancos a caminhar pela região das atuais Oakland, Berkeley, Richmond, Hayward e San Leandro.

Em 29 de setembro de 1775, Juan Bautista Anza e o Pe. Pedro Font lideraram 200 colonizadores pioneiros no primeiro estágio de sua jornada de 1.600 milhas desde Sonora e Sinaloa até a Baía de San Francisco. Pe. Font, um catalão, era um homem de muitos talentos. Além de saber manusear a balestilha, instrumento que permitia aos viajantes determinarem sua latitude por meio de observações da altura do Sol, o padre também trouxe a música para alegrar o coração dos cansados viajantes nas noites californianas com o seu saltério, um tipo de harpa. Em Monterey, ele e Anza deixaram o grupo momentaneamente para irem além e selecionarem a localização exata para a Missão e para o Forte na Baía de San Francisco. Em 28 de março de 1776, o Presidio (Forte) foi fundado. Em 29 de junho, o Pe. Francisco Palóu e o Tenente José Joaquin Moraga fundaram a Missão de San Francisco. O assentamento ficou conhecido popularmente como Misión Dolores, devido ao riacho próximo chamado Arroyo de Nuestra Señora de los Dolores. Pedro Font escreveu o seguinte sobre o local escolhido para a Missão:

“Cavalgamos cerca de uma légua para o leste (desde o Presidio), um de nós na direção lés-sudeste, o outro na direção sudeste, passando por colinas cobertas por arbustos e por vales de uma terra agradável. Assim chegamos a duas lagoas e a vários mananciais de boa água, encontrando também muita grama, funcho e outras ervas salutares. Quando chegamos a um adorável riacho, o qual, por se tratar da Sexta-Feira da Paixão, chamamos de Arroyo de Los Dolores... nas margens do riacho... descobrimos muitas camomilas perfumadas e outras ervas, e muitas violetas selvagens. Próximo ao regato, o tenente plantou um pouco de milho e grão-de-bico para testar o solo, que para nós parecia adequado.”

A cidade que hoje se chama Ventura foi originalmente denominada San Buenaventura, em honra ao Doutor da Igreja do século XIII. Em 31 de março de 1782, o Pe. Junípero Serra fundou aquela Missão, na presença do Governador, Don Felipe de Neve, e do Tenente José Francisco de Ortega.

A cidade de Santa Barbara deve seu nome a Sebastián Vizcaíno, que, em 1602, deu-lhe esse nome em agradecimento à santa, por sua intercessão durante uma violenta tempestade. Em 4 de dezembro de 1786, o Pe. Fermin Lasuen, sucessor do Pe. Serra, fundou a “Rainha das Missões” numa área montanhosa, uma milha a nordeste do forte, com uma esplêndida vista para o vale e para as águas. Em torno dela, agrupou alguns tijolos de argila: o núcleo da futura cidade. Os padres também construíram um sofisticado sistema de fornecimento de água — ainda parcialmente em uso hoje em dia — com um aqueduto de pedra que levava água de um riacho represado nas colinas até a Missão, onde havia até um sistema filtragem para fornecer água potável.

 

A Conversão dos Nativos

Graças ao Pe. Junípero Serra, muitos nativos americanos vieram a conhecer e a amar Jesus Cristo. O padre procurou sempre, em meio a todas as limitações sócio-políticas da Espanha colonial e ao jeito de pensar típico da época, trazer apenas a verdade e a bondade para os nativos californianos. Um empreendimento sucedia a outro num transbordamento de ardentes esforços para oferecer àquele povo Missões que fossem auto-suficientes, nas quais eles estivessem protegidos dos colonizadores e prosperassem tanto materialmente quanto espiritualmente. Por volta de 1830, cerca de 40.000 católicos nativos americanos “possuíam quase 400.000 cabeças de gado, mais de 300.000 porcos, ovelhas e cabras, 62.000 cavalos, e fazendas que produziam mais de 120.000 alqueires de grãos; mais a produção de pomares, hortas, lagares, teares, lojas e forjas.”

O chefe dos Kechis em San Luis Rey contou a John Russell Barlett, um comissário do governo dos Estados Unidos que trabalhou na Califórnia no período entre 1850 e 1853, “que sua tribo era grande e o seu povo, feliz, quando os bons padres estavam ali para protegê-los. Que cultivavam o solo, ajudavam na criação de grandes rebanhos de gado, aprendiam a ser ferreiros e carpinteiros, assim como outros ofícios; que tinham abundância de comida, e eram felizes... Agora estavam dispersos, e ele não sabia por onde andavam, sem casa e sem protetores, passando fome e em condição miserável.”

 

A Formação de uma América Católica

Um exame dos feitos de Eusébio Kino, Júnipero Serra e outros padres pioneiros mostra não apenas como eles desbravavam a terra e fundavam assentamentos, mas também como contribuíram para a formação de uma cultura católica em extensas regiões do Canadá e dos Estados Unidos, o que desmente a quimera sobre as origens quase exclusivamente protestante e anglo-saxã dessas nações. A fundação do primeiro assentamento permanente inglês em Jamestown em 1607 e a chegada do navio Mayflower com os Peregrinos em 1620 certamente foram eventos importantes no início da colonização dos Estados Unidos. Mas no Sul e no Oeste, outra cultura sofisticada, e católica, já havia nascido com o estabelecimento da primeira cidade da nação, St. Augustine na Flórida (1565), seguida em 1608 por Santa Fe aos pés das Montanhas Sangre de Cristo.

Portanto, ainda que nos orgulhemos, por exemplo, da arquitetura colonial em Nova Inglaterra, não podemos deixar de nos encantar com as linhas puras dos edifícios brancos de estilo espanhol no Texas, Arizona, Novo México e Califórnia. Estes devemos aos católicos que os legaram à nação como uma herança que é tão caracteristicamente americana quanto a arquitetura colonial da Nova Inglaterra.

E o que uma mente livre de preconceitos pode pensar ao contemplar as amáveis Missiones da Califórnia? Certamente, em meio às limitações de tudo o que é humano, elas constituíram os empreendimentos mais efetivos em termos de integração racial na história dos Estados Unidos, onde os nativos americanos encontraram um oásis de segurança, e onde os padres preservaram o conhecimento das línguas nativas, estilos de vida e trabalhos manuais dos índios por meio de dicionários, gramáticas e histórias que compuseram.

O comissário do governo americano, John Russell Barlett, observou que as Missões da Califórnia conseguiram tanta coisa “não pela espada, nem por tratados, nem por presentes, nem pela ação de índios traidores, que sacrificariam seu próprio povo sem escrúpulo ou remorso em favor de seus ganhos vis... a Companhia de Jesus (e outras ordens religiosas) conseguiram mais resultado na melhoria das condições de vida dos índios, do que o governo dos Estados Unidos desde o estabelecimento do país.” O histórico do catolicismo na integração das raças das Américas, tanto do Norte quanto do Sul, é insuperável. Quanto mais cientes estivermos disso — e de tantas outras realizações de nossos antepassados católicos — mais vigorosamente ressoará em nossos corações o chamado para imitá-los no presente e no futuro.

(The Angelus, Julho-Agosto/2020, tradução: Permanência)