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História (74)

Perseguição à Igreja Católica sob o regime chinês.

Albert Galter

Foi pelo ano de 1920 que a ideologia marxista-leninista foi introduzida na China por agentes a serviço da Rússia. No espaço de trinta anos conseguiu ela impor-se a cerca de meio bilhão de homens, graças à hábil inserção dos seus profetas no jogo dos acontecimentos nacionais, e ao proveito que eles tiraram da situação internacional criada no Extremo-Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Fundado em Shangai em 1921, o Partido Comunista Chinês precisou, pouco a pouco, o seu caráter revolucionário, com o auxílio da Missão de peritos industriais e militares russos que se achava na China desde 1920.

Quando Tchang Kai-Chek começou em 1927 a obra de reunificação interior do país, marchando contra o governo que sediava então em Nankin, os comunistas, aproveitando a guerra civil, formaram por seu lado um governo em Hankow e puseram à testa dele Mao Tsé-Tung (1928). (Continue a ler)

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

Terra da Santa Cruz

Gustavo Corção

 

O Brasil nasceu quando no mundo se abriam os engalanados portões de um novo humanismo contestatário e orgulhoso, que pretendeu ser o porta-estandarte de uma nova e brilhante civilização marcada pela maioridade do homem e pela senectude de Deus; nasceu quando a Europa ainda se enfeitava com as flores e os ouropéis da Rinacita e já se preparava para a passeata da Reforma, mas quis Deus que o berço esplêndido em que nascia uma das mais belas nações do mundo, talvez futuro exemplo de outras mais gloriosas e vetustas, merecesse a proteção de anjos tutelares e a marca indelével do Sinal da Santa Cruz.

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O povo brasileiro nasceu persignando-se, ajoelhando-se, e logo na primeira missa agradecendo a Deus e reconhecendo em Jesus Cristo o único Rei dos reis. Já no mesmo grande continente que tem nome glorioso e apocalíptico de Novo Mundo, que é pseudônimo do Céu, cantara a voz piedosa de Colombo: “Te Deum laudámus: te Dominum confítemur...”

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Mas é no Brasil, Terra de Santa Cruz, que em maior extensão e com maior constância se perpetuará ao longo de toda a sua história essa atitude fundamental de Ação de Graças e o hábito profundo, nem sempre santo, mas sempre humilde, de viver a presença de Deus.

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Não ignoro que o santo nome de Deus é mil vezes por segundo usado em vão em todo o ocidente; não ignoro que o nome de Deus tornou-se em francês, espanhol e português palavra vã, som, caco, sufixo sem a menor ressonância de eternidade, mas ouso crer que nos vasos capilares da alma brasileira ficou mais do que um hábito verbal, no que se revela quando o ignoto chofer de taxi, que emerge do desconhecido e logo mergulha no imenso anonimato, nos diz — “vai com Deus!”, como tantas e tantas vezes já ouvi. Creio que milhões de vezes por minuto se diz por todo esse imenso Brasil, “vai com Deus”. E creio que essa saudação ou forma de despedida seja mais do que um simples sinal de nossa cordialidade. Há de ser também um difuso e persistente sinal de consciência coletiva da presença de Deus, sem a qual a história dos povos desanda num sinistro espetáculo de circo ou num ensaio do inferno.

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Toda a história do Brasil é marcada por atos públicos da realeza de Cristo. Quando o Príncipe Regente, futuro D. João VI, aqui desembarcou, já com a lúcida intenção de abrir as portas e os portos de um novo império, seu primeiro cuidado foi o de promover um TE DEUM de Ação de Graças a que assistiu com toda a comitiva. Quatorze anos depois D. Pedro I determina que a independência seja sempre celebrada com esse hino sagrado, que mais tarde inspiraria Gonçalves Dias e seria a oração predileta de Joaquim Nabuco.

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Com a vitória do Brasil sobre o comunismo, em abril de 1964, consagrou-se de modo espetacular e milagrosa a vitória de Cristo Rei — vitória que não nos cansamos de agradecer e admirar, e que o mundo na sua especializada estupidez para o que há de admirável no Reino de Cristo e para o que há de detestável no comunismo não se cansa de denegrir — porque o comunismo, como se tornou evidente no sangrento episódio do México e na sangrenta guerra civil espanhola, foi sempre adivinhado como especial inimigo pelos milhares de mártires que morreram gritando: Viva Cristo Rei!

Não é de admirar que logo o primeiro governo nascido dessa miraculosa intervenção, por decreto do presidente Humberto Castelo Branco, de 19 de novembro de 1965 e depois pela lei n° 9110 de 22 de setembro de 1966 tenha instituído o Dia Nacional de Ação de Graças a ser celebrado na quarta quinta-feira de novembro. 

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Santo Ambrósio, bispo de Milão, para combater os últimos remanescentes do arianismo, quis ganhar o coração do povo com hinos religiosos que alcançaram grande sucesso. À heresia que destronava Cristo e negava sua divindade, o povo respondia cantando louvores à Trindade. O TE DEUM que lhe é atribuído, segundo F. Cayré A. A., é posterior e pertence a Nicetas de Remesiana; mas a ideia ambrosiana está de pé.

Combatamos os inimigos da Igreja cantando os hinos litúrgicos que trazem ao coração do povo os grandes mistérios da Fé. E no dia 23 do corrente, quinta-feira, (hoje) compareçamos à Igreja da Candelária, às 18 horas, para assistir à comemoração do Dia Nacional de Ação de Graças, celebrada por Sua Eminência Reverendíssima o Sr. Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Salles, com a presença do Sr. Presidente da República e Senhora, Emílio Garrastazu Médici, do Sr. Ministro de Estado da Justiça e Senhora, Alfredo Buzaid, e demais autoridades, e rezemos a Deus para que o povo brasileiro, bem conduzido por seus pastores e seus governantes, aliados nessa obra de louvor a Deus, saiba opor uma invencível resistência à onda de perversão que quer contestar a Realeza de Cristo.

 

(O Globo, 25/11/1971)

O massacre de Katyn

Gustavo Corção

 

Há uma certa faceta de humor negro na ingenuidade com que os jornais da semana passada publicaram, como sensacionais, as declarações de um judeu, Abraão Vidro, difundidas por um jornal de Israel, sobre o já tristemente famoso massacre de Katyn. Ou então haverá mais um exemplo da universal conjuração organizada para inocentar os comunistas dos crimes de guerra. Há realmente uma misteriosa conspiração que não somente exalta o papel dos comunistas na guerra como também esquece seus crimes mais clamorosos.

No caso presente o obscurantíssimo autor destas mal traçadas linhas pode lembrar que anos atrás já escreveu nestas mesmas colunas sobre o horroroso massacre de 12.000 oficiais poloneses fuzilados pelos russos em abril de 1943, e enterrados no bosque de Katyn. É portanto bem antiga a novidade da declaração sensacional de Abraão Vidro, mas nunca é demais insistir nas façanhas praticadas pelos soviéticos na II Guerra.

Mais recentemente, no decurso dos estudos que andei fazendo para um livro que está quase terminado, descobri num livro de René Pellerin, intitulado Un écrivain nommé Brasilach, não apenas a maravilhosa figura de Robert Brasillach como também sua reportagem verdadeiramente sensacional publicada em 9 de julho de 1943, no hebdomadário Je suis Partout, com o título J’ai vu les fosses de Katyn.

Nesse tempo a França estava parcialmente ocupada pelos alemães e em estado de armistício assinado pelo Marechal Pétain. Brasillach combatera corajosamente em defesa de sua pátria, mas logo após o armistício e a liberação dos primeiros prisioneiros voltou a Paris e abertamente aceitou o governo de Vichy, que todos os bispos da França apoiaram, e repeliu sempre, como escritor, o fantasioso governo da França Livre que na verdade só existiu para efeitos publicitários, para acrescentar à cruz de Winston Churchill a Cruz de Lorena, e para trazer um bálsamo ilusório às chagas do patriotismo francês tão duramente humilhado. Lembro estas coisas para frisar que a posição de Brasillach era perfeitamente admissível e normal, embora o mundo inteiro tenha sido condicionado durante anos para achar que traía a França quem ficasse com Pétain e desprezasse De Gaulle.

Mas voltemos ao bosque de Katyn que Brasillach viu e cheirou. Sim, cheirou. Mais da metade do artigo publicado em Je suis Partout se detém no intolerável cheiro que o tomara de chofre como primeira e inesquecível impressão. O chofer do carro em que viajava prevenira-o e fizera este reparo: depois da primeira visita a Katyn passara dois dias sem conseguir comer. E era um homem rude, que fizera a guerra.

“Cheiro maciço, cheiro negro e azedo, inesquecível cheiro de carniça. Algo de ainda vivo e animal longamente apodrecido naquela terra que não devora logo os cadáveres. Eles lá estão, apertados, compactos, e deles sobe esta coisa que poderíamos delimitar em seus contornos, que quase poderíamos pegar e sentir o seu peso.... Ah! Eu gostaria de fazer um pouco desse cheiro atravessar a fumaça do incenso e chegar às narinas dos arcebispos bolchevizantes...”

Brasillach pagará caro por esse artigo imprudentemente escrito em 1943. O moço transbordante de vida generosa, o poeta admirável e o admirável patriota que vivera sempre enfrentando a morte, na guerra espanhola e depois na guerra contra Hitler em defesa de sua pátria, nunca soube agasalhar-se e precaver-se. Quando a derrota de Hitler se delineava claramente, e finalmente quando De Gaulle recebeu, dos norte-americanos, Paris libertada e intacta, numa bandeja, e agradeceu aos russos, e mais tarde conseguiu convencer o tolo mundo inteiro de que fora ele próprio o libertador de Paris, Brasillach esteve sempre a denunciar o impostor e a caricaturar a Resistance onde se iniciou o concubinato dos católicos com os comunistas.

Seus amigos tentaram convencê-lo da necessidade de fugir para a Suíça. Providenciaram todos os papéis, mas Brasillach não quis deixar sua mãe, sua irmã, não quis deixar a França. Consentiu em esconder-se, mas aquela raça de franceses que, no dizer de Bernanos, não conseguiram mortos estrumar a terra que vivos não souberam defender, pôs em prática um infalível expediente para pegar Brasillach: prenderam sua mãe, como refém. No dia seguinte, Brasillach apresentava-se e era preso, e logo condenado como traidor da pátria pelos comunistas, judeus e democrata-cristãos comunizantes.

*  *   *

É preciso lembrar o bosque de Katyn onde os soviéticos deixaram um sinal que será encoberto, apagado, mas inexoravelmente de tantos em tantos anos voltará para esclarecer não apenas o martírio da Polônia, como também para relembrar o que aconteceu num governo francês comuno-católico: 110.000 franceses foram sumariamente condenados como colaboracionistas, e executados. Muitos por terem recusado atos de sabotagem de serviços públicos exigidos por grupos da Resistance. Entre esses 110.000 franceses assassinados durante a Épuration brilhará sempre a figura de Robert Brasillach que, em face da morte, na prisão de Fresnes, deixou escritos poemas de peregrina beleza, com que a verdadeira França respondia à França do pacto franco-soviético. Sim, no mesmo ano que Brasillach morria fuzilado como traidor, os intelectuais de gauche cantavam hinos à U.R.S.S. que os libertara, e Georges Bidault dirigia a Mesdames et Messieurs um discurso em que comunicava o pacto franco-soviético, simétrico daquele que anos atrás Molotov e Ribbentrop assinaram.

E o Tribunal de Nuremberg? Ah! Sim. Houve um tribunal de Nuremberg contra os crimes de guerra. É preciso lembrar o Tribunal de Nuremberg; é preciso relembrar que na primeira sessão desse tribunal, com a cumplicidade dos norte-americanos, ingleses e franceses, e sob A PRESIDÊNCIA DE UM GENERAL SOVIÉTICO, foi escamoteado e arquivado o dossiê do Massacre de Katyn.

 

(O Globo, 31/07/1971)

Lei-Ming-Yuan

Gustavo Corção

 

Nesses dias andei pela China. Mais precisamente e graças ao livro de Chanoine Jacques Leclercq (Vie du Père Lebbe — Casterman, 1955), fiz na minha poltrona uma viagem no espaço e no tempo, e andei pela China de quarenta anos atrás, tentando acompanhar, como me permitissem as pernas da imaginação a incrível, a fabulosa trajetória do personagem meteórico que no Ocidente se chamou Vicente Lebbe, e que milhões de chineses, com amor e veneração chamaram Lei-Ming-Yuan, que quer dizer trovão-que-canta-ao-longe.

Vicente Lebbe foi padre lazarista e missionário da China. Sua grande originalidade consistiu em levar a sério, alegremente, o fato de ser lazarista e o fato de ser missionário. Mas a sua suprema originalidade consistiu em levar a sério a China. Foi sempre o que Chesterton chamava “um super-vivo”. Direto como um pássaro, autêntico como uma flor, ágil como um gato, o Pe. Lebbe, em quarenta anos de lutas, de contrariedades, de perseguições, de trabalhos, de perigos nas viagens e nas guerras, guardou intacto o fogo que nos retratos se vê brilhar, com invencível alegria, nos seus olhos de menino.

Foi aos onze anos no colégio da Bélgica que sua alma, num pulo, tomou a resolução definitiva. Tinham-lhe indicado a leitura da vida do bem-aventurado Jean Gabriel Perboyre, lazarista, morto na China em 1840 como testemunha de Cristo. Terminada a leitura, o menino exclamou: “serei lazarista, e missionário na China”. Doze anos mais tarde, vencendo uma série de preconceitos e de hábitos eclesiásticos, e graças ao inesperado apoio de um velho bispo, embarca, ainda seminarista, para o país dos seus sonhos. Durante a viagem vai aprendendo o chinês. Chegará a falar tão bem o idioma, e a conhecer tão intimamente os costumes e os hábitos chineses que mais tarde só saberão pelas feições que ele é um estrangeiro. Coisa que aliás o magoava. “Não olhem para o meu nariz, mas para o coração que é chinês”.

Em outubro de 1901 ordena-se padre e escreve à família anunciando que agora é padre chinês da Igreja na China. E nos cartões de sua ordenação imprime o conselho de Paulo a Timóteo: “Tu vero labora...”

Outra coisa a ser tomada ao pé da letra. E do mesmo apóstolo dos gentios tira o Pe. Lebbe as diretrizes da ação missionária. “Sim, sendo livre fiz-me escravo a fim de ganhar o maior número. Fui judeu como os judeus para ganhar os judeus, com os sujeitos à lei, eu que não estou sujeito à lei, sujeitei-me a fim de ganhar os que estão sujeitos à lei; e com aqueles que estão sem lei, como estivesse eu sem lei, embora esteja submetido à lei de Deus e ao Cristo, tornei-me sem lei para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me fraco para com os fracos ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos a fim de salvar a todos...” (1Cor 9, 20-22)

Mas logo ao desembarcar Vicente Lebbe começa a descobrir com assombro que os missionários europeus não parecem muito apegados ao exemplo paulino. Descia a escada do navio, lépido e esperançoso, quando ouviu um padre mais velho dizer-lhe que entregasse a mala a um coolie. Um missionário não devia carregar a própria mala.... Mais tarde, em Na-Kia-Chwang, onde seria ordenado, observa que os padres chineses não comem à mesa dos europeus. E em tudo o mais, o que é chinês é desprezível e subalterno para a superior raça branca que fazia o favor de trazer a civilização e o Evangelho.

Vicente Lebbe, via com seus próprios olhos, que nesse tempo sofriam longa e cruel enfermidade, via, concretizado, brutalmente corporificado, espessamente realizado, o secular equívoco de uma civilização fundada no orgulho e no direito da força. E com maior tristeza esbarrava com o equívoco ainda mais grave: o da vinculação que insidiosamente se estabelecera entre os estatutos dessa civilização e os costumes dos homens da Igreja. Sob o falacioso pretexto de coordenação de esforços para a prática do bem, tantas vezes invocado pelos que aspiram ao conforto de uma religião oficializada, os padres missionários franceses se comportavam como meros funcionários a serviço dos superiores interesses do Protetorado. Provavelmente julgavam que essa subordinação era vantajosa para a pregação do Evangelho, e que outra não era a doutrina relativa às autoridades constituídas e à união da Igreja com o Estado. E assim a Cruz de Cristo chegava aos chineses acompanhada da bandeira francesa, e às vezes protegida pelos canhões. Custa a entender que alguém escolhesse a espinhosa vocação missionária sem nela incluir uma fraterna ternura pelos povos a que se levava o Evangelho. Custa a crer que não lhes ocorresse a ideia da transcendência da Igreja, ou até a ideia mais chã de que, para um chinês, pode haver uma dignidade e um brio de ser chinês. Mas é com essas coisas dificilmente críveis que se desenrolou, através dos séculos, a história trágica da Igreja. A grande, a permanente tentação é a da vinculação da Igreja, aos quadros temporais, é a da recusa da transcendência de sua vocação.

Comentando a recente e vergonhosa história do colonialismo na China, o cônego Leclercq diz sem rebuços:

“Foi a França que interveio a favor das missões e obteve em 1846 um edito de tolerância. Desse dia em diante os missionários tornaram-se clientes da França. Já a guerra do ópio se assinalava por vantagens concedidas às missões. Toda a história das relações entre a China e o Ocidente será doravante marcada pela predominância da força (...). As missões se prendem nessa engrenagem (...). A confusão entre a religião cristã e a política europeia se torna inextrincável. Os missionários aproveitam a força da Europa, e armazenam os ódios...

Mas a maior parte dos missionários não vê nisso algum mal. Bons europeus eles acreditam ingenuamente na superioridade de tudo que é europeu (...). Juntava-se a isto o nacionalismo, produto do século XIX. A França tinha assumido o protetorado das missões, aliás sem ouvir a Santa Sé.

A maior parte dos missionários eram franceses e sentiam-se inclinados a favorecer a política expansionista de seu país, tudo fazendo para que vingasse na China, o amor pela França e o conhecimento da língua francesa, e ao mesmo tempo, o amor pelo Cristo e o conhecimento da religião”.

Mas adiante o cônego Leclercq não hesita em dizer: “Depois de tudo o que dissemos, o que espanta é que ainda existam cristãos na China, e que ainda se observem conversões, e até que muitos cristãos chineses tenham um fervor que raramente se encontra na Europa”.

Ora, é nesse enorme mundo tão maltratado pela chamada civilização cristã, é nesse imenso mundo de expectativas decepcionadas que desembarca em 1901, um pobre magricela, doente, quase cego, com a ideia de ser chinês entre os chineses, para ganhar os chineses. Com paciência fremente, com benignidade candente, com obediência sobrenatural em grau heroico, o Pe. Lebbe começa a mais espantosa vida de que já ouvi falar. Dia a dia realiza uma entrega, uma doação, um desgaste que nos deixa atônitos. “Le Père Lebbe se despense! ” ... diz simplesmente o cônego Leclercq. Seria melhor, talvez, dizer, que o Pe. Lebbe se queima, se incendeia, e corre a China incendiando e queimando.

Seria ainda melhor, talvez, dizer que ele se gasta numa combustão mais profunda, como o urânio nos reatores nucleares, para frisar a colossal desproporção entre a energia que produz e a magra energia que a alimenta. Lendo essa vida espantosa, percorrendo nas páginas do livro a progressão geométrica dos feitos, chegamos a pensar que o conhecido e austero tratadista de Direito Natural perdeu a noção da medida, ou perdeu a razão. Quando, porém, se considera o nome e o veredito que merece o autor, então... então vêm-nos a impressão arrebatadora de uma divina loucura. Dir-se-ia que o Pe. Lebbe foi designado para compensar sozinho, com a única força da Graça entre tantos espinhos na carne, o himalaia de erros, de omissões, de tolices, de burrices, de perversidades semiconscientes e de crueldades voluntárias de quatro séculos de civilização. Dir-se-ia que Deus deixou o Pe. Lebbe aprender depressa o chinês, e providenciou quem lhe desse uma velha bicicleta, para que ele assim armado, com sua magreza e sua pobreza, pagasse a dívida atrasada, a dívida terrível contraída pelas grandes nações do mundo ocidental; para que ele sozinho com a força da Graça, devolvesse às missões a comprometida transcendência, e à civilização colonizadora a perdida dignidade; para que ele, com seu rabinho e seu longo cachimbo, neutralizasse de algum misterioso e insondável modo o horror da guerra do ópio, só comparável em hediondez aos horrores produzidos pelos regimes autoritários.

Toda a obra do Pe. Lebbe na China, de que tentaremos dar um esboço em outro artigo, girou em torno da universalidade da Igreja e do direito dos chineses formarem sua Igreja. Sua ideia fixa, que viu realizada através de um milhão de dificuldades, era a de ver constituído o episcopado chinês. Os prudentes mandavam informações contrárias a Roma. Ameaçavam com o cisma. Gabavam a vantagem do paternalismo, mas o Pe. Lebbe teve a alegria, no fim da vida, de ver sagrados seis bispos chineses, seis bispos escolhidos por ele, nomeados com um pedaço de lápis que ele depois guardou como relíquia.

Vê-se em tudo o que nos conta o cônego Leclercq que a vida do Pe. Lebbe tem o mais autêntico e clássico espírito paulino, e ao mesmo tempo a melhor marca da atualidade.

Como São Paulo, o Pe. Lebbe combate, com as santas armas da paciência e da obediência, os privilegiados que se julgam donos dos evangelhos.

Como São Paulo, choca-se com os corações circuncisos que tem desprezo pelos gentios, ou que, na melhor das hipóteses, vê nos chineses alguma coisa a ser cuidada, do alto, com benevolente paternalismo. E as cenas que o cônego Leclercq descreve no seu livro, a cada instante nos transportam para os séculos da Igreja-Mártir, ou para os claros dias dos Atos dos Apóstolos. Com uma pequena diferença apenas. Aqueles que todos os dias, com um só coração se reuniam no templo, e partindo o pão com júbilo e simplicidade, louvavam a Deus, e cujo número o Senhor cada dia aumentava por onde passava o Pe. Lebbe, eram um pouco diferentes dos que cercavam Pedro e Paulo: tinham os olhos oblíquos e pele dourada...   

 

 

(Diário de Notícias, 06/10/1957)

A hora da China

Gustavo Corção

 

Abra o mapa da China, leitor, e considere a imensidão desse país junto ao qual o nosso fica pequeno. Observe depois sua forma regular, maciça, compacta, e note que todos os grandes rios correm com uniforme direção para o litoral convexo, relativamente exíguo, que parece um ventre aos nove meses de gravidez. A China é grande e redonda. É um mundo.

Nas primeiras páginas de sua História da França, Michelet diz que no princípio a história é geografia. Mais tarde, e com maior cópia de razões científicas, Toynbee explicará a lentidão da marcha asiática pela predominância das terras e dos transportes terrestres sobre os mares e a navegação. Realmente, tudo parece indicar que o surto de progresso do mundo ocidental em boa medida se deve à navegação. Embora seja bípede e terrestre, foi no mar que o homem se espalhou, e foi com as caravelas, ao mar e ao vento, que o homem afirmou o senhorio do mundo. Desde a antiguidade, e durante a Idade Média, a história da civilização ocidental transcorre numa espécie de anfiteatro de povos em torno do Mediterrâneo. Na Renascença a Europa se abre. Há uma extroversão, digamos uma explosão. A forma fechada e nuclear da antiga civilização se mudou em forma estrelada. De côncava e mediterrânea, a civilização se torna, convexa e atlântica. De Florença desloca-se para Antuérpia a primazia comercial.

Examinando o mapa-múndi e pensando nos últimos dois mil anos de história, somos levados a crer numa correlação entre os feitos dos povos e a forma dos territórios. É nos países de desenhos irregulares, de saliências e reentrâncias, de penínsulas e golfos, que surgem as grandes iniciativas. A Grécia é uma palma de mão aberta sobre o Egeu; A Itália é a bota de sete léguas de onde se alastrará o Império. Dir-se-ia que a terra assim configurada possui o poder das pontas. Dir-se-ia que dos cabos e das penínsulas saem jorros de iniciativas que irão fecundar os golfos. Comparemos os desenhos da Europa com os contornos da África e da Ásia. E observemos o que acontece no novo mundo quando a Europa transbordou. É ainda na América do Norte, mais recortada, mais irregular, que o ímpeto europeu encontra o melhor terreno. A América do Sul, com seu único promontório perdido nas brumas do cabo Horn, será um continente de países subdesenvolvidos. É claro que há outros fatores a considerar, mas não deixa de ser estranha a constância da correlação. E quando volvemos a imaginação para os dias longínquos em que o continente americano se povoou com tribos oriundas da Ásia, é lá ao Norte, no rendilhado Estreito de Bering, entre duas penínsulas, que ocorre o transbordamento dos povos asiáticos.  

Ora, a China é maciça, regular, redonda. A china é imensamente terrestre. Daí talvez o seu atraso medido na cronometria europeia. Durante os séculos em que predominou a civilização marítima, que culminou com a apoteose imperial sustentada pela esquadra inglesa, a China esteve à mercê da exploração dos ávidos europeus. E esteve à mercê de sua orgulhosa proteção.

Mas os tempos passam. A grande iniciativa europeia amortece, o inicial “handicap” se faz menos sentir, e as próprias máquinas produzidas pela civilização ocidental, tornando fáceis as comunicações por terra e pelo ar, vêm oferecer oportunidades novas aos países atrasados. E é nesse momento, quando soa a hora da China, que lá desembarca aquele personagem candente e meteórico que foi o Pe. Vicente Lebbe.

Como disse em artigo anterior, o Pe. Lebbe parece ter a missão de corrigir sozinho os erros de séculos de uma civilização que oficializou os egoísmos e os abusos da força. Seu ideal supremo foi o de desvencilhar a pregação evangélica dos vínculos políticos, e o de estabelecer na China um episcopado chinês. Em quarenta e tantos anos de vida prodigiosa o Pe. Lebbe se multiplica. Começa muito modestamente por trabalhos de catequese num lugarejo do Norte. A semente cresce. Os resultados se avolumam. E quando a gente pensa que a atividade do Pe. Lebbe já chegou a um ponto quase inadmissível, ele se duplica, se triplica.

Tudo na sua vida é marcado por uma estranha capacidade de multiplicar. Vejam, por exemplo, aquela história tocante, que repete a do bom samaritano. O Pe. Lebbe encontra um pobre homem caído numa estrada. Salta da bicicleta e cuida dele. O homem vai-se embora. Meses depois o Pe. Lebbe recebe uma carta contando que o homem, chegando em casa, converteu toda a aldeia e pede um padre. Do lugarejo insignificante passa o Pe. Lebbe para Tientsin, e aí se desdobra em um novo tipo de atividade. Funda um centro de cultura, como o nosso Centro Dom Vital. Em poucos meses ocupa nove salas onde todos os dias faz conferências para os letrados. Escreve em jornais. Entra em contato com os poderosos, e atende a todos os humildes. Com seu amor pelos chineses, cria dificuldades com as autoridades francesas, e consequentemente com os seus superiores. Toda a organização burocratizada dos missionários europeus tem medo do Pe. Lebbe. Todos desejam vê-lo afastado. Vê-lo inutilizado. Os medíocres não toleram a presença daquele homem de fogo que pretende levar até as últimas consequências os evangelhos e as epístolas paulinas. Conseguem puni-lo. Pe. Lebbe cometeu imprudências num jornal de Tientsin, e indispôs-se com o cônsul francês. É mandado para longe. Obedece, mas não se corrige da mania de pensar que os chineses são homens como os franceses e muito menos da mania de atender a todo o mundo. Onde ele chega, ainda que nenhum aparelho de propaganda o anuncie, começa logo uma efervescência como se realmente ele carregasse consigo um misterioso trovão de longo alcance: Lei Ming Yuan, trovão que canta ao longe. Recomeçam os casos, os incômodos, e os seus burocratizados superiores o enviam para mais longe ainda, para o Sul, onde a língua é diferente e onde ainda não chegou o ribombo do seu coração. O Pe. Lebbe obedece, mas não se corrige. Em sofrimentos cruciantes adapta-se e reaprende o idioma, e recomeça o incêndio das almas. O único jeito é devolvê-lo à Europa. Devolveram-no e suspiram aliviados, mas na Europa o Pe. Lebbe trabalha duas vezes mais, três vezes mais, pela causa dos estudantes chineses. Ajuda, ensina, faz campanhas para obter fundos, conta histórias do Oriente, faz conferências. Passa dias sem comer e dias sem dormir. Quando o convidam para um jantar come como três, e todos se admiram porque tinham ouvido falar no seu ascetismo. Mas ele comia por três dias. E também dormia por toda a parte justamente porque nunca dormia direito. Uma vez foi convidado para fazer conferência num colégio de religiosas e, tendo chegado com certo adiantamento, foi levado a um parlatório onde pediram que aguardasse a hora da conferência. Sentou-se e dormiu. Meia hora depois foi preciso sacudir-lhe e jogar-lhe água na cabeça para que ele acordasse. Estremunhado olhou em volta, perguntou em que país estava e qual era o tema anunciado para a conferência. Chegou a Roma o canto do trovão. É ouvido por um cardeal que agradece ao Pe. Lebbe sua exemplar obediência e que lhe anuncia a próxima realização do seu ideal. Não só um bispo chinês será sagrado, mas seis.

— Foi a sua obediência que salvou tudo... que Deus abençoou...

E o Pe. Lebbe, sucumbido de emoção, só pôde gemer:

— Oh!

Tratava-se agora de escolher os nomes dos padres chineses mais indicados para a dignidade episcopal. O Cardeal Van Rossum pede ao Pe. Lebbe um toco de lápis e escreve os nomes que ele dita: Chao, Ch’eng, Ch’en, Li... Mas a sua emoção é forte demais. Declara que devem existir outros. E inundado de lágrimas, guarda como relíquia o toco de lápis.

A sagração dos bispos chineses estava marcada para 24 de outubro, festa de Cristo Rei. O Papa transferiu-a para o dia 18, por diversos motivos, e sem saber que nesse dia se completavam os vinte e cinco anos de sacerdócio do Pe. Lebbe.

Volta para a China, e é designado para Kao-kya-chwang, e aí recomeça seu trabalho de catequese e de apostolado. Retoma a bicicleta, e estranha um esquisito cansaço nas pernas depois de trinta quilômetros. Não se lembra que tem sessenta anos. Retomando a ideia iniciada em Tientsin, lança a Ação Católica. Funda um sem-número de grupos como os tantos que por iniciativas diversas apareceram no mundo ocidental. A JUC, a AUC, a JFC, a JIC, e tantas outras siglas nossas conhecidas, surgem na China por iniciativa do Pe. Lebbe. Tem voz para letrados, para estudantes, e para camponeses. É tudo para todos. E para equilibrar e completar essa imensa atividade, funda um mosteiro para uma nova ordem de religiosos: os irmãozinhos de João Batista. À semelhança do Père Foucauld na África, o Pe. Lebbe enche de Petits Fréres a China. Funda depois uma casa religiosa para mulheres...

Em 18 de setembro de 1931 as tropas japonesas invadem a Manchúria, e então começa uma nova fase, uma incrível e fantástica maneira de envelhecer, na vida do Pe. Lebbe. Movimenta seus mais próximos fiéis e organiza o serviço de padiolas e de cruz vermelha. Está entre os soldados, animando, confortando, convertendo, batizando, e carregando os feridos. Nesse ponto da leitura, como já disse em outro artigo, a gente tem a impressão de que o austero Cônego Jacques Leclercq, conhecido tratadista de Direito Natural, enlouqueceu. Sim, enlouqueceu e está tentando nos inculcar, como verdadeira, uma história no gênero das do Barão de Münchhausen. É demais! E se o leitor quer ter uma ideia leia o livro impossível de resumir: Vie du Père Lebbe, Chanoine J. Leclercq, Casterman.

Ouvi dizer que havia aqui perto um padre do Verbo Divino que estivera na China. Fui entrevistá-lo. Quando lhe falei no Pe. Lebbe o velhinho animou-se, brilharam-lhe os olhos, e disse: “Era um homem de fogo...”

Mas agora, irresistivelmente, nos vem uma ideia triste. De que valeu tudo isto? Parece que o Pe. Lebbe chegou atrasado e não conseguiu neutralizar quatro séculos de estupidez e de orgulho europeu. Parece que sua obra se perdeu. A China de hoje recebeu da Rússia uma influência aparentemente mais eficaz.... Estava eu nesse desânimo quando li no livro do Cônego Leclercq esta simples frase: “lembremo-nos, entretanto, que o comunismo não recebeu nenhuma promessa de eternidade...”. É verdade. Temos de esperar. Duzentos ou trezentos anos. As sementes do Pe. Lebbe hão de frutificar na hora que Deus marcou para a China, e quem sabe se não é daquele grande ventre amarelo que nascerá uma nova e grande civilização cristã?

 

(Estado de São Paulo, 13/10/1957)

Mártires na U.R.S.S e na Europa Oriental

A Rússia e os países do Leste Europe foram os principais teatros do confronto entre o Cristianismo e o comunismo. Mas, a ideia que fazemos desses episódios é, em geral, muito vaga. É certo que os horrores dos gulags acabaram por se tornar conhecidos no Ocidente, mas o marxismo lançou mão de muitas outras armas para arrancar a crença dos corações, como veremos em seguida. Tentaremos também descobrir a história da Igreja Católica na União Soviética, largamente ocultada pela Igreja Russa cismática. Finalmente, nós nos voltaremos para alguns personagens que ilustram magnificamente a alma católica desses povos (Cardeal Mindszenty etc).

 

1. As armas do comunismo contra a religião

1.1 - Leis e medidas administrativas

Após a revolução de 1917, aprovou-se um conjunto de leis e decretos. A partir de 1918, eles vão seguir um itinerário marcado pelo retrocesso e pela restrição, alegando a “liberdade de consciência”, a “liberdade de profissão religiosa” (1929) e, em seguida, a “liberdade de culto religioso” (1936). Toda essa legislação oficial, no entanto, era freqüentemente “esquecida" pelas autoridades, que invocavam toda sorte de crimes para condenar aqueles que ainda ousavam crer em Deus e praticar a religião. A essas leis fundamentais somam-se as numerosas medidas administrativas referidas em instruções secretas, além de ordens dadas em viva-voz pelos representantes do governo, sem que houvesse oficialmente qualquer linha escrita. Essa confusão jurídica permitia a cada um julgar segundo o seu alvitre, em detrimento dos cristãos.

Com a nova coleção de leis que se seguiu à revolução de 1918, o governo se dedicou inicialmente a destruir a família a fim de melhor destruir a ordem social existente, e substitui-la por uma versão plenamente comunista. Uma vez que as famílias preparam os cidadãos de amanhã, era importante suprimir a influência dos pais “reacionários” sobre os filhos, de modo a torná-los verdadeiros militantes do Partido. Nesse preciso momento, dispensava-se a coerência na política familiar. Seguindo as necessidades econômicas ou demográficas, as leis poderiam ser adaptadas, mas sempre em vistas de um mesmo fim: a conquista da sociedade pelo governo soviético, e o triunfo da causa do Partido. A estrutura familiar era visada em três pontos:

— O próprio laço do matrimônio: a partir de 1918 o casamento religioso foi abolido, apenas o registro civil era legal. Do mesmo modo, o concubinato ou a poligamia foram legalizados, e o divórcio, autorizado e simplificado.

— A “liberação” da mulher: “O sucesso de uma revolução depende do nível de participação das mulheres” dizia Lenin. Como a mulher é a base da família, todos os meios serão empregados para tirá-la de casa e impedi-la de cumprir a missão de mãe. Era preciso “liberar a mulher da escravidão do marido e dos afazeres domésticos”, considerados por Lenin como uma “escravidão, um jugo embrutecedor, humilhante, eterno, exclusivo”. O aborto foi legalizado em 1920, e a contracepção encorajada. “As mulheres devem ser retiradas da reprodução para servirem à produção”, afirmava Alexandra Kollontaï1. Percebe-se a estima que tinham pelas mulheres! Para que a mãe pudesse ser emancipada e fosse trabalhar como os homens, abriam creches e jardins de infância. Os trabalhos domésticos ainda a esperavam em casa, ao retornar do trabalho.

— Os filhos: “A criança pertence à sociedade, não aos pais” (Nikolai Bukharin). Por conseguinte, a criança devia sair da sua família para ser educada pela sociedade. A escola tornou-se obrigatória, dos 7 aos 18 anos. Claro que a escola era monopólio do Estado e, portanto, ateia e violentamente antirreligiosa. A criança era assim instrumentalizada ao serviço do Partido.

Quando julgaram que todos os laços que uniam a família haviam sido suficientemente destruídos (laços entre os esposos e entre pais e filhos), o governo mudou a política. É verdade que, a partir de 1936, a economia e a demografia conheceram uma situação catastrófica na esteira dessa política. Lançou-se uma campanha em favor da família numerosa; proibiram novamente o aborto antes de tornarem a legalizá-lo em 1955. Concederam-se ajudas e recompensas às mães de famílias numerosas. A maternidade se tornou um dever, “uma função social” da mulher". Balançando ao sabor das leis e das propagandas, a família se transformou numa ferramenta nas mãos do Partido para moldar a nova sociedade soviética ateia.

No que se refere ao culto, as igrejas e os locais de culto tiveram de ser registrados nas instâncias governamentais, mas muitas vezes foram para a clandestinidade. Todos os padres precisavam de uma “permissão de ministério”, que lhes era retirada no primeiro passo em falso. Todo padre que exercesse o sacerdócio clandestinamente, sem essa autorização, sujeitava-se a uma condenação penal. Era-lhe interdito o exercício do ministério em domicílio e, se fosse autorizado a visitar as famílias, não poderia falar com elas sobre religião! Os confiscos das propriedades e a supressão das obras da Igreja Católica se multiplicaram, com o objetivo de abafar o apostolado.

O balanço apresentado na seguinte tabela é eloquente2:

 

 

1939

1953

Paróquias

6.930

1.200

Igrejas, capelas

10.321

1.500

Seminários

18

Todos fechados

Casas religiosas

1.019

Todas fechadas

Escolas

20.316

Todos requisitados ou nacionalizados

Hospitais, orfanatos

1.520

Todos requisitados

Livrarias, editoras

70

Todos requisitados ou nacionalizados

Publicações

110

Todas suprimidas

Associações católicas

3.000

Todas suprimidas

Construções e terrenos

 

Todos confiscados

 

 

 

 

 

No que se refere à juventude, a legislação era ainda mais restritiva. Desde 1921, o ensino religioso foi dificultado aos menores de 18 anos. A partir de 1929, proibiu-se levar crianças aos ofícios religiosos e de reuni-las para recreações ou para qualquer outra atividade. Em 1932, proscreveu-se o ensino de religião às crianças, salvo pelos próprios pais, o que impedia os padres ou qualquer outra pessoa de dar aulas de catecismo. Reputava-se uma perversão o ensino religioso dispensado às crianças.

Finalmente, proibiu-se a posse de “literatura clandestina” e sobretudo a colaboração na sua edição, ou seja, todos os quatro Evangelhos, os livros espirituais, as revistas católicas ou todo registro de conotação religiosa.

 

1.2. A doutrinação

A segunda arma poderosíssima de que o Estado dispunha para neutralizar e para eliminar toda influência religiosa era a doutrinação, sob todas as formas e em todos os domínios. A despeito de todas as formas de propaganda pela mídia, pela imprensa, pelos slogans publicitários, o Estado criou um ambiente que fez do comunismo o único horizonte visível e possível. Desde a infância, o cidadão era envolvido pelo sistema soviético.

 

  • A Escola

A partir dos sete anos, a escola é obrigatória, mas muitas vezes é a partir do ingresso numa creche aos três anos, e mais tarde numa universidade, que as crianças são moldadas segundo a concepção materialista e ateia dos comunistas. Em todas as classes se lecionava um curso especial, o “Diamat”, ou seja, materialismo-dialético. Trata-se objetivamente de um curso de doutrinação comunista. Ainda assim, todas as matérias do programa devem igualmente difundir tais princípios — foi sobretudo na disciplina de história que a realidade era transformada sem escrúpulos para denegrir a Igreja e todo seu passado. Como qualquer outra fonte de informação estava proibida, esses meios eram terrivelmente eficazes.

A todo momento na vida da escola ou nas demais atividades, exigem que a criança ou o adulto faça um juramento de ateísmo ou de militância comunista.

A título de exemplo, [apresentamos] esta circular do ano de 1980/1981:

 

Conteúdo do trabalho:

  1. Identificar os filhos dos crentes: organizar o controle das famílias religiosas;
  2. Fiscalizar as atividades religiosas no setor;
  3. Esgotar as possibilidades de educação ateia durante o curso de biologia, química, geografia, astronomia, matemáticas, ciências sociais, literatura e nos demais ramos;
  4. Atrair os professores para a propaganda do ateísmo;
  5. Criar um conselho de educação ateia;
  6. Estabelecer um ciclo de conferências e de discussões sobre assuntos relacionados ao ateísmo;
  7. Organizar círculos de trabalho denominados “o jovem ateu”;
  8. Organizar manhãs e tardes de discussão sobre ateísmo;
  9. Discutir sistematicamente os filmes… Criar jornais murais sobre a temática ateia;
  10. Criar um stand permanente - “Ciência e Religião” - na biblioteca da escola.

 

  • Associações de juventude

Muito embora a associação não fosse obrigatória, os jovens eram muitas vezes associados à força, e a não participação era considerada um ato antissocial, com possíveis consequências para toda a família. Ademais, essas organizações tinham o monopólio de todas as recreações. Quem não fizesse parte delas estava excluído de todos programas, de todo lazer;  de fato estava excluído da sociedade. Essas organizações eram, com efeito, um “noviciado” para a entrada no Partido. Os pequeninos podiam fazer parte das “Octobriens”; em seguida, de 9 a 14 anos, dos “Jovens Pioneiros” e, de 14 a 28 anos, da “Juventude Comunista”, comumente chamados de “Komsomols”. Finalmente, tornavam-se membros do Partido.

 

- Os lazeres

Muitas das atividades envolvendo crianças e adultos – para além das noites em família ou entre amigos, que eram muito estimadas - são um monopólio mais direto ou menos direto do Partido. Acima de tudo, o Estado entende que não há lazeres inúteis ou “gratuitos”, pois um lazer deve ser cultural, palavra que subentende propaganda comunista. Criaram-se, assim, vários tipos de clubes e centros de cultura, museus e bibliotecas, espetáculos… Todos mostram as maravilhas da sociedade soviética ou o horror da religião. Um bom cidadão deve freqüentar, ao menos de tempos em tempos, um clube e assistir a conferências, se não o reputavam por “individualista” — o que é perigoso numa sociedade socialista — transformando-se então em objeto de vigilância. Ninguém estava ao abrigo dessa propaganda ao serviço da doutrina comunista. Onde quer que se esteja, a voz do partido sempre se faz ouvir.

 

1.3. A repressão

Aos comunistas não faltavam meios de pressão, ou de repressão, aptos a dobrar as vontades mais obstinadas, prontos para se usarem naqueles que resistirem à doutrinação.

Num primeiro momento, tentam a intimidação. Os meios não faltam: a delação entre vizinhos ou colegas é um dever, a fim de identificar os cristãos e os controlar. Na escola, os professores também possuem o dever de assinalar todo comportamento “antissocial”, e muitas vezes passam “pseudo-questionários sociológicos” que são, na verdade, questões para saber se as crianças têm pais que creem em Deus, que vão à Igreja e, sobretudo, que ensinam tudo isso aos seus filhos! Eles questionam em seguida, mais precisamente, os pais e as crianças, na escola ou na KGB, para tentar lhes dissuadir, mostrando-lhes os males que isso acarretará aos seus filhos. Para quem resistir a essa primeira intimidação, ameaça-se com sanções. Em seguida, aplicam-se as primeiras sanções, como a demissão, multas (que muitas vezes ultrapassam a metade do salário). Os que professam a crença em Deus praticamente são privados do acesso à universidade. As crianças podem ser tiradas dos seus pais se for julgado que eles exercem sobre elas uma má influência em razão da sua conduta antissocial.

Quando as ameaças e as primeiras sanções não surtem efeitos, começam as prisões e condenações3.

- Campos de trabalho: os regimes podem ser mais rigorosos ou menos rigorosos, mas, em todo caso, os campos de trabalho são sempre muito duros moral e fisicamente. As visitas são restritas ou interditas. As cartas, quando autorizadas, são todas censuradas. Os presos devem alcançar metas de trabalho diário que são muitas vezes desumanas. As autoridades lhes roubam o alimento ou lhes fornecem comida estragada. Do salário depositado desconta-se uma parcela tão grande, que não lhes sobra quase nada, sem contar todas as penalidades suplementares que podem ser infligidas sob pretexto de má-conduta, metas não alcançadas etc.

- Prisões: o regime nas prisões é ainda mais severo que nos campos de trabalho. A saúde deteriora-se rapidamente por falta de alimentação e de exercícios físicos.

- A pena de morte direta (por execução) ou indireta (em conseqüência dos maus tratos) atingiram duramente as fileiras católicas. O balanço humano é pesado e difícil de estimar. No tocante aos padres católicos no território russo (em 1939) e nos países satélites (Polônia, Países Bálticos, Sub-Carpatos…), fez-se a seguinte estimativa, referente ao período de 1917 a 19454:

Assassinados ou executados

352

Mortos em prisão ou desaparecidos

2.600

Deportados ou condenados

1.700

Escaparam

930

Escondidos, dispersos

1.250

 

 

 

Em 1978, não sobravam mais que 1.575 padres, dos 9.624 que existiam em 1917. Os bispos foram o alvo principal: na Rússia, um foi assassinado, seis foram presos, 12 deportados, mortos no exílio ou expulsos, cinco condenados a trabalhos forçados, dez expulsos da sua diocese5.

Entre 1917 e 1950, Roma estima que mais de 10.000 padres e que 50 bispos foram executados ou aprisionados6. As condenações diretas ou indiretas de fiéis chegam a centenas de milhares.

- Mudança de endereço: muitas vezes se impunha a realocação no interior em complemento à pena dos que voltavam dos campos de trabalhos forçados ou da prisão. O exilado era obrigado a viver em determinado lugar, onde em geral o encarregavam de um trabalho. Regularmente, devia comparecer no comissariado para demonstrar que estava ali. As cartas, as visitas e as correspondências não sofriam limites e, oficialmente, não estavam sob censura, a não ser decidissem por um controle mais estrito...

- Hospitais psiquiátricos: De longe, era a pior das penas. Para não serem obrigados a julgar ou a justificar a detenção, as pessoas “incômodas" eram internadas como loucas; via-se a fé religiosa como um sinal de anormalidade psicológica. A internação poderia se estender por anos, ou mesmo por toda a vida. O uso de medicamentos fortíssimos e de maus tratos causavam estragos psíquicos e intelectuais por vezes irreversíveis. Aqueles que deixavam esses hospitais carregavam frequentemente até o fim da vida sequelas, quando não perdiam para sempre a sanidade.

 

2. Pequena história da perseguição7

 

2.1. Primeiros confrontos

Como explicar a presença de católicos na Rússia? A maior parte das comunidades de rito latino originaram-se das sucessivas partilhas da Polônia, que resultaram na incorporação de milhões de católicos latinos na Rússia tsarista8. A esses últimos somaram-se os greco-católicos, isto é, os uniatas que guardavam orgulhosamente as características russas do rito oriental. Eram menos numerosos, mas na maioria das vezes mais ativos.

A conversão ao catolicismo representava riscos maiores que o cisma grego: o ortodoxo incorria na pena do artigo 58.10 (“agitação antissoviética”); que dizer do católico que poderia ser ainda condenado pelos artigos 58.1a (“traição), 58.3 (“relação com um Estado estrangeiro”), 58.6 (“busca de informações em benefício de um país estrangeiro”)?

Os soviéticos estenderam progressivamente o campo geográfico da perseguição, à medida da sua expansão territorial. De 1917 a 1939, os bolcheviques almejaram suprimir a Igreja Católica do território sob seu controle, a saber, da Rússia e de porções da Ucrânia e da Bielorrússia (mas não na região oeste, que estava sob jurisdição polonesa). Paralelamente, esforçaram-se por desacreditar a Igreja Católica em todo o mundo por meio da propaganda. Durante a segunda guerra mundial, ampliaram o campo de ação (oeste da Ucrânia e da Bielorrússia e países bálticos), sempre atuando sobre a opinião pública, notadamente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, que queriam persuadir de que o Kremlin não tinha nenhuma animosidade contra a religião, uma vez garantida a segurança soviética. Após a guerra, a perseguição estendeu-se aos países satélites da URSS, onde a Igreja Católica tinha grande influência (principalmente na Polônia).

Os marxistas dividiam-se quanto aos meios a serem adotados para alcançar o fim de extirpar a religião católica: a ala “direita” queria proceder de modo mais “indulgente”, através da reeducação; os trotskistas preferiam o ataque violento.

Em abril de 1919, Dom de Ropp (arcebispo) foi detido. Os comunistas irritavam-se principalmente por dois motivos: Roma clamara pela segurança da família imperial antes da execução dos Romanov, e o Papa Bento XV exprimira seu juízo sobre as perseguições contra a Igreja cismática russa. O início da guerra russo-polonesa dos anos 1919-1920 tornou a situação ainda mais trágica. Desde 1918, Dom O’Rourke, vigário geral da diocese de Minsk, escrevia a Monsenhor Ratti (futuro Pio XI), Visitador Apostólico para a Rússia: “Aqui, a população católica foi sistematicamente esmagada pelos bandos de soldados russos bolcheviques: famílias inteiras, não importando o sexo ou a idade, foram assassinadas9.”

Em 1920, os mosteiros foram fechados (o tsar iniciara esse movimento). Os católicos apoiaram a ação militar polonesa destinada a restaurar as fronteiras históricas da Polônia com a Rússia, na esperança de obter o fim das perseguições. Com as mudanças de fronteira, resultantes do tratado de Riga, o número total de católicos sob domínio bolchevique subiu para 1.160.000, ou seja, 331 paróquias com 400 padres.

Em 1921, não se obteve nenhuma concessão no terreno religioso durante as negociações da NPE10. Muitas igrejas foram fechadas entre 1921-1922. Em 26 de dezembro de 1921, um decreto proibiu a educação religiosa de crianças com menos de 14 anos, o que representou um obstáculo considerável ao apostolado. Os cursos de ateísmo passaram a ser lecionados desde o jardim de infância. Os bolcheviques tiraram proveito da fome de 1922 para atacar a religião, alegando que os males se deviam à concentração de bens nas mãos da Igreja. Roma tentou se opor ao confisco de objetos sacros, em seguida propôs pagar pela restituição dos bens confiscados, mas foi em vão.

Apesar da missão católica organizada por Roma contra a fome na Rússia, o Kremlin não se desarmou. No fim de novembro de 1922, Dom Jan Cieplak foi informado de que o clero católico de Petrogrado seria julgado por atividade contrarrevolucionária. Em dezembro de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas e lacradas, salvo uma única que era mantida por um padre francês (a França precisava ser tratada mais diplomaticamente). Em março de 1923, iniciou-se um processo contra os católicos latinos que não aceitavam a lei de separação entre a Igreja e o Estado, começando o confisco violento dos bens da Igreja. Dom Cieplak foi julgado juntamente com uma dezena de padres latinos, como o Pe. Fedorov11 e M. Balachev, redator da revista Slovo Istini (A Palavra da Verdade). O processo terminou com a condenação à morte de Dom Cieplack (pena comutada para dez anos de prisão em regime severo, após pressões romanas) e de seu vigário geral, Mons. Boudkevitch, executado na noite de Páscoa (1o. de abril de 1923) na prisão de Sokolniki. A sua morte edificou as testemunhas: “No lugar da sua execução, ele fez o sinal da cruz, abençoou o verdugo e seus assistentes, em seguida voltou a cabeça para o muro e pôs-se a rezar em voz baixa. O tiro do algoz interrompeu a oração do padre.” 12 Ele foi a primeira vítima da Igreja Católica latina na nova Rússia bolchevique. Muitas sentenças de morte e encarceramentos de sacerdotes (3 a 10 anos) seriam pronunciados. Os bens foram confiscados. Após a expulsão de Dom Cieplak, não havia mais nenhum bispo católico na Rússia, apesar da URSS contar com mais de um milhão de fiéis. Os 200 padres remanescentes eram, na sua maioria, de origem polonesa. Diante dessa situação difícil, Roma tentou estabelecer uma hierarquia secreta13. A reação contra a nova hierarquia foi rápida: Mons. Skalski, administrador apostólico, figura influente entre os poloneses na Ucrânia soviética, foi condenado a dez anos de prisão.

No início do século XX, foi constituída uma comunidade de católicos oriunda da ortodoxia, guardando integralmente a especificidade russa do rito oriental, em particular um grupo de religiosas da Ordem Terceira dominicana dirigida por Anna Ivanovna Abrikossova. Em setembro de 1922, o Pe. Abrikossov, incumbido do grupo, foi expulso com mais de 200 cientistas e filósofos. De 12 a 16 de outubro de 1923, prenderam a comunidade de religiosas dominicanas e muitos padres. Uma delas havia oferecido a vida pela salvação do povo russo. Em 19 de maio de 1924, a maior parte dos padres foi condenada a dez anos de reclusão nas diversas prisões dispersas, as irmãs a cinco anos, que em seguida também seriam relegadas a outras prisões afastadas das suas famílias14. No tempo da morte de Lenin (janeiro de 1924), restava mais de um milhão de católicos e 127 padres, dos quais 116 dispersos e 11 em prisão15.

 

2.2. As repressões de 1931

Em fevereiro de 1931, ocorreram na URSS muitas prisões de católicos de rito latino ou oriental, abrangendo clero e leigos. Entre as vítimas, destacaram-se muitos convertidos como Victoria Lvovna Bourvasser, uma judia convertida.

Muito inteligente e conhecedora de idiomas, mas mimada pelos pais, ela caíra no ateísmo militante. É daí que o Bom Deus a retirou para transformá-la numa católica humilde, fervorosa, que comungava diariamente com lágrimas, desejando sofrer para reparar seus erros e testemunhar seu amor por Nosso Senhor. O Bom Deus lhe dera a graça de morrer pela fé. (…) Abandonaram-na doente, sofrendo de modo atroz, na cela, e quando quiseram conduzi-la à enfermaria, era já tarde demais: ela morreu nos corredores16.

Um outro exemplo:

Na prisão de Boutyrki, uma pequena judia convertida, Anna Roubachova, que praticamente não dorme, espanta todas suas companheiras de cela por seu espírito de oração (ela reza noite e dia), e pela sua coragem. Uma outra judia, Melle Sapojnikova é igualmente um modelo de força, enquanto antes, quando era livre, era bem preguiçosa: a graça é proporcionada às necessidades. As moças sequestradas eram submetidas a penas de três a dez anos em campos de concentração. Muitas lá morriam. O motivo da condenação era o seguinte: “A maioria das associadas do grupo organizaram uma ordem monástica ilegal de São Domingos. Elas reuniam-se em diferentes apartamentos, entretinham conversas antissoviéticas sobre questões políticas e econômicas, praticavam com as pessoas de seu convívio uma agitação contrarrevolucionária. 17

Os católicos latinos também viraram alvos. Prenderam-nos em abril por espionagem e ação contrarrevolucionária. A principal ação do grupo latino era a difusão da oração “Rússia padecente”, da devoção à Santa Teresinha do Menino Jesus e de determinadas orações pela salvação da Rússia. Esse apostolado lhe acarretou a deportação por três anos. Uns cinquenta fiéis foram exilados: eram simples trabalhadores ou organizadores de procissões, muitas vezes velhos. “O fim de todos eles será a morte miserável no exílio ou nas novas prisões. 18” As condições do interrogatório desafiam as forças morais: “Irmã Jacinta (Anna Zolkina), uma jovem freira de 25 anos, torturada por questões infames, sucumbiu a um terrível ataque de nervos.” Liberada em 1941, foi condenada no mesmo ano a cinco anos no gulag.

As irmãs dominicanas continuaram o seu apostolado nos campos. Formavam grupos para difundir o ensinamento católico. No verão de 1935, no campo de Bamlag, elas redigiram uma carta que manifesta a sua intrepidez: “Pelo espírito, nós somos fortes. Nem os campo de concentração, nem os órgãos da NKVD poderão desviar do caminho verdadeiro os filhos fiéis da única Igreja Católica. Mesmo aqui nós nos esforçaremos para ganhar recrutas valorosos para a Igreja Católica.”

 

2.3. Os prisioneiros católicos de Solovki

No campo de prisioneiros situado nas ilhas Solovki (Mar Branco) viviam 20.000 homens em condições assustadoras: clima polar, fome, prisioneiros fuzilados em grupos…19

Muitos padres (uns vinte ao mesmo tempo) viviam aí detidos. As missas começavam a meia-noite e se sucediam até as 7 horas da manhã. Um armário baixo servia de capela, nele só se conseguia celebrar de joelhos. Os guardas jamais se deram conta de nada. Por causa do novo calendário com a semana de cinco dias, foi-lhes exigido trabalhar aos domingos: “Fuzilem-nos agora mesmo, mas não violaremos o mandamento de Deus.” Quiseram obrigá-los a tirar o hábito eclesiástico: “No trabalho nos vestiremos como os demais, mas na cela usaremos a sotaina.” Para socorrer os doentes, os padres pediam para ser levados com eles e os confessam nos corredores, falando com os doentes às vistas de todos. A paciência dos prisioneiros é testada até aos últimos limites: o bispo católico Bolesas Sloskans escreveu do arquipélago, onde viveu de 1928 a 1930, aos seus pais: “Eu vos peço do mais profundo da minha alma: não permitais que a vingança ou a exasperação tome conta do vosso coração. Se o permitirmos, não seremos mais católicos verdadeiros, e sim fanáticos. 20

Em 1932, instaurou-se contra esses sacerdotes um processo “por formação de grupo antissoviético,  por se dedicarem à agitação antissoviética, cumprindo ritos religiosos e celebrações litúrgicas”. Esses duros tratamentos muitas vezes culminavam com a morte. O campo de prisioneiros teve necessidade de abrigar novos prisioneiros para serem trocados com a Polônia e, sobretudo, para dar continuidade aos trabalhos iniciados: a escavação do canal Báltico/Mar Branco e a linha ferroviária Leningrado/Murmansk, o canal Moscou, Volga, Don.

A perseguição aos católicos se estendeu a toda a Rússia Européia: Leningrado, Kiev, Odessa, Rostov do Don… Os católicos alemães do Volga, que estavam sob a direção do Pe. Kappès, tornaram-se o novo alvo a ser abatido. Os sacerdotes mantiveram-se firmes nos seus postos para responder às necessidades dos fiéis. Os testemunhos são eloquentes: “Os padres conservaram-se heroicamente ao lado do seu rebanho. Relatamos fatos mostrando que, apesar da repressão do poder, do terror e das execuções, apesar da perseguição contra a fé, os padres não fugiram, mas permaneceram no posto. Os padres receberam a morte das mãos dos bolcheviques com a oração nos lábios, submeteram-se a torturas e fuzilamentos.” A colheita foi abundante: “Muitos católicos alemães foram condenados à morte, recebendo a sentença com firmeza e com uma fé inflexível. 21

Dom Bathélzmy Remov, convertido secretamente ao catolicismo em 1932, e nomeado secretamente por Pio XI como bispo auxiliar de Mons. Neveu, foi condenado à morte em 1935 por causa da sua conversão. Os membros do grupo católico que surgira ao seu redor foram condenados em abril do mesmo ano e executados sem um novo processo em 1937.

 

2.4.O grande terror de 1937

O assassinato do secretário do Partido Comunista, provavelmente por instigação de Stalin, foi o início de um período de terror que lhe permitiu, entre 1935 a 1938, eliminar todos os seus adversários em etapas sucessivas. 50.000 suspeitos foram deportados para os Montes Urais e para a Sibéria. Essa nova etapa foi desencadeada por um ato pessoal de Stalin, sob a forma de uma resolução da seção do Politburo (2 de julho de 1937). A ordem transmitida a todos os níveis da direção do partido foi de tornar a prender todos os ex-detentos, os koulaks22, os ministros de culto e os prisioneiros políticos, “a fim de fuzilar imediatamente os elementos mais incômodos sob forma de medida administrativa das troikas contra eles.” Determinou-se um prazo de quinze dias para que se preparasse a lista das pessoas a serem fuziladas ou exiladas. Foi uma hecatombe: 300.000 vítimas foram lançadas nas fossas comuns de Severnoye Butovo (20.762 das quais apenas no período de 8 de agosto a 19 de outubro de 1938) 23. “A máquina de extermínio não saciava sua sede de sangue (…) em diversas regiões, os secretários do Partido, aos quais havia sido atribuído uma meta de execuções, pediam por telegrama autorização de Stalin para aumentar o número estabelecido. 24” Isso foi concedido: para a região de Omsk, o número de execuções subiu de 3.000 para 8.000. A maior parte dos padres presos ou exilados foram executados na ocasião. Muitos poderiam salvar as vidas renunciando ao sacerdócio, como lhe propunham os juízes. No entanto, a fidelidade dos padres encorajava os fiéis à perseverança: um grupo de paroquianos escreveu ao seu padre detido no arquipélago Solovki: “Nós também recordamos do senhor na Santa Comunhão e rezamos fervorosamente pelo senhor… No momento, estamos todos dispersos, como no trecho das Escrituras: ‘Fere o pastor e serão dispersas as ovelhas’… Nós perseveraremos até o final em nome de Deus, e com o Coração de Jesus, e imploramos vossas orações e vossa santa benção. 25

O incitamento à renúncia do sacerdócio tomava formas dissimuladas: “Os antigos servidores do culto (sem distinção de religião) que rompessem com a religião e com as organizações religiosas, renunciando por isso mesmo ao seu estado, com a condição de que o fizessem em público no lugar de seu serviço ou pelo jornal do lugar onde exerciam o culto, eram inscritos na Bolsa de Trabalho e registrado na qualidade de desempregados26.”

O acusador tinha o cuidado de privar os católicos da glória do martírio, negando-lhes a condenação por religião, pretextando em vez disso [a participação em] uma organização terrorista ligada a país estrangeiro. As vítimas provêm de todos os meios sociais, sobretudo do clero de origem alemã, polonesa e das terciárias regulares dominicanas, mas também de russos de origem que haviam abraçado o catolicismo de rito oriental. Os leigos representavam o maior número. Os prisioneiros eram enviados aos charcos de Pinega, ao Ural do Norte ou do Sul, às estepes do Cazaquistão, às terras insalubres da embocadura do Ob (Obdorsk, atualmente Salekhard), ou ao deserto, infernal no verão, gelado no inverno, da Ásia Central, aos campos de prisioneiros dispersos no Arquipélago do Gulag: dezenas de milhares, reputados como elementos socialmente incômodos, foram assim mortos no esquecimento.

No final dos anos 1930, retornam os assassinatos de padres e leigos. A invasão da Rússia pelas tropas alemães acarretará a ordem de extermínio nos campos de prisioneiros. As mesmas armas de antes são utilizadas: exílio, trabalhos forçados, detenções em regime severo… As religiosas que já haviam sido condenadas tornam a sê-lo. As mais longevas são três religiosas que viveram nas cadeias comunistas por mais de trinta anos27. A grande maioria dos 20 ou 30 mil católicos da região de Vladivostok pereceram durante a coletivização dos anos 1930.

 

2.5. A extensão territorial de 1941

No início de 1941, os territórios anexados contavam, por um lado, com mais de seis milhões de católicos romanos (com 12 dioceses, 1.740 igrejas e 2.300 padres), e por outro, com 3,5 ou 4 milhões de greco-católicos (sendo 2.000 sacerdotes). Em todas as dioceses dos países anexados em 1939-1940, o clero foi detido, os bens eclesiásticos confiscados, as escolas, mosteiros e seminários proibidos, a religião suprimida da educação, e toda publicação religiosa interdita. A guerra obrigará a alguns recuos temporários da parte da URSS, para obter em troca algumas concessões do Ocidente.

 

2.6. O pós-guerra e a guerra fria28

Com a anexação dos Países Bálticos, da Galícia, da Bessarábia e da Transcarpátia, mais de 12 milhões de fiéis ficaram sob as botas soviéticas. A Igreja era vista como um obstáculo maior à sovietização dos povos recém conquistados. Em 1945-1946, os uniatas foram obrigados a se fundirem [com a Igreja Ortodoxa Russa].

Na Lituânia, após a retirada dos alemães, os cinco bispos se tornaram as primeiras vítimas29. Em 1945, de um total de 1470 padres, apenas 741 estavam livres, os demais foram deportados para a Sibéria. 400.000 lituanos, 200.000 letões30 e a mesma quantidade de estonianos foram enviados para a Sibéria, boa parte dos quais era de católicos. Stalin fundou assim uma Cristandade na Sibéria! As prisões voltaram a ocorrer de forma maciça em 1948-1949.

A propaganda recrudesceu após a guerra: a Igreja era acusada de ter se aliado à Alemanha nazista, de ser inimiga dos eslavos, de apoiar o imperialismo, de ser um centro de política reacionária, um bastião do obscurantismo, vil inimiga do comunismo e de estar "à serviço de Wall Street”. No leste europeu, o modelo de perseguição de antes de 1940 foi retomado, sendo adaptado às circunstâncias. Grandes figuras erguiam alto o estandarte católico: os cardeais Wyszinski, August Hlond e Adam Stefan Sapieha,

Na Polônia, o Cardeal Wyszinski aceitou iniciar negociações sobre a nacionalização dos bens para reduzir as pressões. Em junho de 1950, no entanto, acusaram-no de ter violado o acordo de abril de 1950, e os padres foram presos. Em 1953, o governo pretendeu impor a aprovação estatal a todas as decisões eclesiásticas. A tensão só aumentava.

Na Hungria, em 1950, o primaz Dom Joszeph Gröz negociou a submissão durante o encarceramento do Cardeal Mindszenty. Foi tudo em vão, pois as prisões continuaram; ele foi detido em 1951 e condenado a treze anos de prisão. A perseguição se generalizou, com prisões e confiscos. O Pe. Beran, figura anti-nazista de Praga, cabeça da Igreja Católica na Tchecoslováquia, será preso em 1948.

Na Iugoslávia, em 1945, uma onda de perseguições atingiu os padres e bispos. Dom Stepinac foi condenado a dezesseis anos de prisão. O clero em peso foi condenado à prisão ou à morte.

Com o início da ‘desestalinização’, concederam-se alguns alívios: por exemplo, as liberações de 1954-1955. Mais tarde, em 1958, o governo comunista lançou uma campanha violenta contra a religião para erradicá-la de uma vez por todas, e assim foi até 1964. Todas as comunidades tiveram de ser fichadas, os bispos foram banidos, impedidos de cumprir suas obrigações. As prisões acentuaram-se em 1961. Impuseram-se quotas para fixar o número de seminaristas. Por que esse retorno ao passado? Porque a ‘desestalinização’ favoreceu o anti-comunismo que buscavam erradicar.

Concluiremos esta parte com alguns exemplos mais recentes tomados da Lituânia.

 

2.7. Os católicos lituanos

A Lituânia era um dos países mais católicos da URSS. Enquanto a população era submetida às mesmas perseguições que ocorriam por toda a parte na União Soviética, os católicos se organizaram de maneira clandestina e foram muito ativos. O seu número, a sua unidade e, sobretudo, a sua determinação, permitiu-lhes exercer pressão sobre o governo. O clero e os fiéis não hesitaram em fazer um apostolado ativo e a intervir perante as autoridades, sem temor de represálias. Exerceram uma atividade a um tempo pública e clandestina. Todas as congregações religiosas foram obrigadas à total clandestinidade, assim como os jovens que se preparavam ao sacerdócio. Mas, muitas vezes, os padres viam-se obrigados a exercer um ministério clandestino para completar o seu restrito ministério público. Assim, secretamente, preparavam as crianças para a primeira Comunhão e para o sacramento da Confirmação, visitavam os doentes nos hospitais, pois os padres não tinham o direito de ir até lá… Quando a resistência clandestina é bem organizada, é difícil de ser percebida. Eles chegaram ao ponto de lançar clandestinamente um jornal católico, a “LKB Kronika” (Crônica da Igreja Católica na Lituânia).

Nijolé Sadunaité, uma lituana, foi condenada em 1975 a três anos de trabalhos forçados num campo da Mordóvia, e a três anos de exílio na Sibéria. Ela já estava então há um ano sob a mira da KGB por ter encontrado um advogado para defender o Pe. Antanas Seskevicius, acusado de ter ensinado catecismo a crianças. Um dia, no entanto, denunciada pela vizinha, foi surpreendida pela milícia tcheco-soviética enquanto fazia cópias de um número da “LKB Kronika”, e foi presa. Enquanto sua casa era revistada, Nijolé rezava o terço com uma amiga que lhe visitara. Sua serenidade deixou a polícia pouco a vontade. Seu processo lhe ofereceu uma tribuna para denunciar o sistema de opressão soviética no tocante à religião: ela assinalou, entre outras coisas, a interdição de os moribundos nos hospitais serem assistidos por um padre, mesmo quando pediam, recordou a campanha de difamação lançada contra a Igreja, o Papa, os bispos, os padres e os fiéis. Aos que debochavam da religião, dizia que não se debocha do que não se conhece.

Eis alguns trechos do seu “diário”:

“A tranquilidade da minha consciência importa mais que a liberdade, mais que a própria vida.

“Continuem a promulgar tantas leis quanto quiserem; mas, guardai-as para os senhores mesmos. É preciso distinguir entre o que foi escrito pelo homem, e o que foi pedido por Deus. O tributo a César só pode ser a sobra do tributo devido a Deus.

“A KGB dispõe de todos os meios para quebrar […] suas vítimas […] mas não sabem que a pessoa mais débil, depois de se apoiar em Cristo, torna-se indomável.

“Sofrer por Cristo é o sinal certo de uma predileção especial.”

O Pe. Antanas Seskevicius, condenado muitas vezes por ter ensinado o catecismo às crianças, exortava nos sermões que os fiéis respondessem com caridade e oração às injustiças e ao ódio. Já Nijolé Sadunaité disse: “Eu compreendi que os sofrimentos da prisão, aceitos em favor deles [os soviéticos], terminaria por tocar os seus corações e consciências. Ah, se houvesse mais gente pronta para subir o Gólgota e a morrer por eles!”

 

3. As forças da Resistência católica

 

3.1. A unidade da Igreja

A Igreja ortodoxa é uma igreja nacional, portanto ligada ao governo. Ainda que, oficialmente, a separação entre a Igreja e o Estado tenha sido decretada em 1918, o Estado controlava os ortodoxos afastando os líderes incômodos e trocando-os por gente maleável, submissa ao poder.

Isso não era possível com a Igreja Católica, pois os católicos, ao contrário, submetiam-se ao Papa e a Roma. Como a autoridade estava fora do país, ela não podia ser manipulada pelo governo. O Estado não tinha nenhuma ingerência sobre ela. Fora a repressão, nada poderia lesar os católicos. Mesmo se eles fossem afastados da sua autoridade, o Estado não poderia influenciá-los desde dentro, por causa da fidelidade à hierarquia católica. O Estado deveria, então, contentar-se com uma vigilância externa, em que muito lhe escapava.

 

3.2. O papel da família católica

A família é a célula de base da sociedade, é por ela que se pode transmitir a Fé. Os padres por si sós tinham um campo de ação restrito por serem monitorados. Assim, as famílias católicas constituíram-se em “pequenas igrejas domésticas”, pequenas ilhotas de cristandade no meio de um oceano de ateísmo.

O Estado era capaz de controlar as atividades visíveis dos católicos, mas não conseguia controlar cada família, apesar da veemência com que se dispunha ao combate: “Os fatos mostram que a família é o principal reduto para a preservação do espírito religioso. Não podemos admitir que gente cega e estúpida eduque seus filhos à sua própria imagem e os deformem.” (Illitchev)

Enfim, sentimos muito orgulho de causar tão grande embaraço a quem dispõe de tantos recursos. Mas a força bruta nada pode quando Deus vela por seus filhos. Como tão bem reconhecem os nossos inimigos, é pela família que a Fé se transmite. Os filhos, vendo os pais rezarem e defenderem a  Fé, seguem o  exemplo. E são os pais os mais capacitados para ensinar o catecismo aos  filhos. A família é o meio de transmissão por excelência. Os comunistas que querem se imiscuir na família para construir a sociedade soviética sabem o que fazem. E para esse fim — como cheios de ódio reconhecem  — a família cristã é um obstáculo.

Um dos personagens mais importantes da família é a “babuska”, a avó, que vive na família e toma conta dos filhos enquanto os pais estão fora. Ela exerce, portanto, uma influência muito grande sobre os filhos, que lhe pedem para contar as histórias da Bíblia, a vida de Nosso Senhor, e também cantar os cânticos tradicionais. Muitas vezes, os filhos recordarão o que lhes ensinava a “babuska” muito depois dela já ter partido.

 

3.3 A oração e o apostolado pelo exemplo

Num país onde a “propaganda religiosa” foi proibida, pareceria que todo projeto de apostolado seria impensável. Dado que os católicos deviam viver na semi-clandestinidade, não havia movimentos ou organizações apostólicas. Poderíamos, portanto, pensar que a missão da Igreja estava como que hibernando, aguardando por dias melhores. Não deveria contentar-se em  assegurar a sobrevivência dos católicos existentes? Mas uma Igreja não missionária ainda seria católica, ou seja, destinada a se difundir universalmente? Por essa razão, e a despeito das perseguições e das ameaças que sempre pesavam sobre os seus membros, os católicos continuavam a trabalhar pela difusão da Igreja,resultando por vezes num renascimento espiritual do país. Apesar de toda a propaganda, são cada vez mais numerosos os que buscam um sentido para sua vida num mundo onde todas as referências foram suprimidas, e que se voltam para Deus a fim de completar o seu vazio. Surgem até mesmo vocações: ordenam-se padres nos campos de prisioneiros. Qual é a explicação desse desenvolvimento em condições tão desfavoráveis?

Em primeiro lugar, a oração; não apenas a assistência aos ofícios religiosos, quando havia um lugar de culto próximo, mas também o rosário recitado em família. A oração em família é um exemplo para as crianças, que não hesitavam até mesmo em rezar discretamente na escola. Um dia uma professora arrancou o terço das mãos de uma aluna e, arrebentando-o, jogou na lata de lixo. A menina respondeu com altivez: “Tenho dez dedos na mão para substituir as contas do terço, e continuarei a rezar o terço entre as aulas, no meu quarto ou mesmo em viagem…” Crianças pequeninas começavam a rezar e não tinham medo de fazê-lo porque viam os seus pais rezando, e achavam tudo natural. A oração é a arma do combate espiritual, sobretudo no cárcere, onde as condições eram desumanas, e o desespero assaltava as almas. Quantas vezes os católicos, rezando abertamente nas celas, obtiveram a conversão de outros prisioneiros, quando não dos próprios guardas, tocados por esses crentes supostamente perigosos para a segurança do Estado, que os perdoavam e rezavam por eles!

Os “Amigos da Eucaristia” foi uma forma inteiramente clandestina de apostolado de oração, desenvolvido em 1969. Os membros se reuniam em discretas comunidades de oração, mas era sobretudo pelo vínculo interior da oração eucarística e mariana que os membros se “reencontravam” em comunhão. O seu compromisso consistia em meia-hora de adoração eucarística.

A segunda forma de apostolado que jamais poderá ser tirada de um católico é o exemplo. Os católicos eram admirados até mesmo pelos seus inimigos, por causa da vida exemplar que levavam. No seio de uma sociedade completamente decadente, minada pelo alcoolismo, violência, insegurança e toda forma de vício, só os católicos levavam uma vida virtuosa. A cada dia precisavam professar a sua fé em palavras mas sobretudo em atos, para não viverem uma vida hipócrita, ocultando a fé: eles se recusavam a participar das organizações para a juventude, e a ir às conferências, ao passo que iam aos ofícios religiosos… A experiência mostra que a união de católicos intrépidos obrigou muitas vezes as autoridades locais a moderar a sua repressão. Por suas réplicas de bom senso e sua atitude irrepreensível, mas sempre respeitosa com as autoridades, embora manifestassem reprovação, levavam muitas vezes os seus interlocutores a refletirem. Eis o exemplo de um pai de família discutindo com um professor que lhe explicava o mal que a religião fazia às crianças ao lhes impedir o acesso aos estudos superiores: “Não é verdade, a religião não é nociva, respondeu o pai. Agora que a religião é calcada aos pés, as crianças não mais respeitam os professores, fumam, xingam, embriagam-se e vivem uma vida licenciosa. Aí estão os frutos do ateísmo!” 

*

Esta síntese sobre a história dos católicos em face do flagelo comunista confirma a triste realidade das palavras do Papa Pio XI acerca da peste negra:

 

“Lá onde o comunismo pôde se afirmar e dominar (…) ele se esforçou por todos os meios para destruir (e o proclama abertamente) a civilização e a religião cristãs até os seus fundamentos, para apagar toda lembrança dela do coração dos homens, especialmente da juventude. Os bispos e os padres foram banidos, condenados a trabalhos forçados, fuzilados e assassinados de modo desumano; os simples leigos, porque defenderam a religião, tornaram-se suspeitos, foram maltratados, perseguidos e arrastados à prisão e levados aos tribunais.”

“A graça de Deus foi abundante na alma desses discípulos de Cristo, acuados pelos inimigos de Deus. A refinada técnica de que o comunismo se valeu nesse terrível confronto o transformou num dos maiores perigos do século XX: “Dentro da zona de influência bolchevique-comunista, o uso refinadíssimo dos meios técnicos e legais de que o poder arbitrário do governo dispunha, quando desejava destruir a Igreja, deu azo a que as perseguições que ela ali sofreu fossem as piores que já se conheceram. 31

Em complemento à análise desses erros, a atitude constante dos poderes comunistas é a confirmação do antagonismo irredutível entre o catolicismo e o comunismo! Sim, “o comunismo é materialista e anticristão: ainda que os chefes comunistas às vezes declarem por palavras que não atacam a religião, eles se mostram, de fato, seja pela doutrina, seja pelos atos, hostis a Deus, à verdadeira religião, e à Igreja de Cristo32”. A Igreja de Cristo não pode capitular jamais: ela “não pensa em abandonar sem luta o terreno ao inimigo declarado, o comunismo ateu. Esse combate se travará até o fim, mas com as armas do Cristo! 33”, nos preveniu Pio XII.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF, Gentilly, 2017, pp. 52-76.)

  1. 1. Militante feminista soviética (1872-1952).
  2. 2. Peter Babris, Silent churches, Persecutions of religions in the soviet dominated areas, Research publisher, Illinois, 1978, p. 164.
  3. 3. Sobre esse tema, o leitor poderá consultar os escritos de Soljenítsin (Arquipélago Gulag e outros) ou o Livro Negro do Comunismo.
  4. 4. Peter Babris, op. ct., p. 162-163.
  5. 5. Ibidem., p. 164.
  6. 6. Documentos pontificais de Sua Santidade Pio XII, 1950, Éditions de l’oeuvre Saint-Augustin, p. 622-23. Em 1950, as estimativas eram as seguintes:

    • Na URSS, todos os bispos (8) e todos os padres (300) foram assassinados, deportados ou exilados.
    • Na Sibéria, não havia mais bispos nem padres que pudessem exercer livremente o seu ministério em todo o território. Ademais, encontram-se centenas de milhares de católicos bálticos, poloneses, alemães, ucranianos etc, deportados ou prisioneiros.
    • Na Ucrânia, todos os bispos (8) foram deportados e três deles já haviam morrido na prisão. Estima-se que mais de 35.000 padres foram executados ou enviados para a Sibéria.
    • Na Lituânia, seis bispos foram presos ou exilados, 400 a 500 padres foram caçados. De uma população de 1.750.000 católicos, metade foi enviada para a Sibéria por motivações religiosas.
    • Na Letônia, os dois bispos foram exilados e, de 120 padres, 33 foram deportados. Ainda restam entre 300 e 400 mil católicos.
    • Na Estônia, o único bispo foi preso e 50 padres foram executados ou deportados. Há cerca de 10.000 católicos.
    • Na Polônia, de um total de 24 milhões de habitantes, 75% eram católicos. Mais de 1.000 padres foram executados ou encarcerados.
    • Na Alemanha havia na zona oriental três bispos e dois ou três administradores apostólicos, cerca de 400 padres e mais de dois milhões de católicos.
    • Na Tchecoslováquia, de 14.726.000 habitantes, 70% eram católicos. Todos os bispos (12) eram monitorados e, de um total de 7.000 padres, mais de 1.500 estavam presos.
    • Na Hungria havia seis milhões de católicos numa população de nove milhões. Desde a entrada das forças soviéticas, um bispo foi assassinado; o cardeal Mindzsenty foi preso, e mais de 500 padres foram mortos ou exilados.
    • Na Bulgária não havia mais que 6.000 católicos. A maior parte dos padres — uns 30 — ainda estão livres, mas não podem mais exercer o seu apostolado.
    • A Romênia conta com mais de 3 milhões de católicos numa população de 18 milhões. Doze bispos estão presos, um único ainda estava em liberdade. Todos os padres, em número de 1.500, foram executados ou estavam encarcerados.
    • A Iugoslávia era uma país com uma população de 16 milhões de habitantes e 5 milhões de católicos; dois bispos foram assassinados, três haviam sido encarcerados ou exilados. Mais de 250 padres foram assassinados e 400 estavam presos ou exilados.

    Na Albania havia mais de 100.000 católicos numa população de 10 milhões de habitantes. Dois bispos haviam sido fuzilados e os demais estavam encarcerados. Praticamente não existiam mais padres, enquanto outrora eram mais de cem.

  7. 7. J. Dunn Ashgate, The Catholic Church and Russia, Dennis Texas University, 2004, p. 73.
  8. 8. Pedro, o Grande, permitira a seu conselheiro militar, o Gal. Patrick Gordon (1635-1699) católico fervoroso, construir para si e sua família a primeira igreja católica de Moscou, dedicada a São Pedro e São Paulo. Depois dele, em 1789, Catarina II autorizou a comunidade francesa de Moscou a construir sua própria Igreja (São Luís dos Franceses). Um apelo foi feito pela Nova Rússia aos camponeses vindos da Alsácia para que fincassem raízes nas bordas do Volga e do Mar Negro.
  9. 9. Citado em R. Morozzo Della Rocca, Le nazioni non muoiono, op. cit., p. 116.
  10. 10. Nova Política Econômica: política econômica instituída pela Rússia bolchevique de 1921 a 1925, introduzindo uma relativa liberalização econômica.
  11. 11. Ele foi condenado no dia 21 de março de 1922 “não apenas pelo que fez, mas também por aquilo que poderia fazer” (!), Silent Churches, p. 166.
  12. 12. A. Judin, Le sorti del cattolicesimo russo, cit, p. 91.
  13. 13. Dom Miguel D’Herbigny, a pedido de Pio XI.
  14. 14. Antoine Wenger, Catholiques en Russie d’après les archives du KGB, 1920-1960; Desclée de Brouwer, 1998.
  15. 15. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 82.
  16. 16. Antoine Wenger, op. cit., p. 39.
  17. 17. Ibidem, p. 43.
  18. 18. Carta do Pe. Neveu, 14 de setembro de 1931, citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 57.
  19. 19. Descrito por Soljenitsin, O Arquipélago Gulag, t. 2, c. 2. “As ilhas Solovki são o reino dos desgraçados. Acima dos ásperos muros da catedral, sobre o revestimento fresco, fora desenhada a silhueta gigantesca de uma cidade contemporânea, com chaminés que fumegam, guindastes e aviões que sobrevoam, dominada por uma grande estrela vermelha de cinco pontas. Na cidade, foi pintado meticulosamente com tinta vermelha o slogan: ‘Viva o trabalho livre e alegre’” (testemunho de Olga Jafa, deportada, citada em J. Brodskij, Solovki, Le isole del martirio. Da monastero a primo lager sovietico, Milan 1998, p. 22). Em 1920, o mosteiro que havia ali foi transformado num campo de concentração para os prisioneiros da guerra civil. Em 1923, tornou-se um “campo de destinação especial”. De 1920 a 1939, acolheu mais de um milhão de prisioneiros. Os bolcheviques desejam transformar um dos santuários do “obscurantismo" num lugar de reeducação: “Durante cinco séculos, os Solovki obscureceram o espírito do povo. Hoje, ergue-se aqui um campo de concentração onde são reeducados os cidadãos que cometeram crimes… O eco dos sinos das ilhas Solovki foi extinto. Uma nova vida despertou”, citado em Brodskij, op. cit. p. 132.
  20. 20. I. Osipova, Se il mondo vi odia… Martiri per la fede nel regime sovietico, Milano, 1997, p. 100.
  21. 21. Antoine Wenger, op. cit., p. 102.
  22. 22. Modo pejorativo de se referir na Rússia aos fazendeiros, possuidores de terras, rebanho e ferramentas, que assalariavam camponeses para o trabalho.
  23. 23. Cf. o historiador Milchakov em Vetrchernaïa Moskva, 26 de fevereiro de 1991.
  24. 24. Antoine Wenger, op. cit., p. 156-157.
  25. 25. I. Osipova, op. cit., p. 137.
  26. 26. Cf. Texto secreto do Comitê Central (30 de agosto de 1930), citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 163.
  27. 27. Irmã Filomena Eismont (1924-1955), Irmã Antonina (Kouznetsova) (1924-1956), Irmão Margarida (Raïssa Ivanovna Krylevskaïa) (1924-1955).
  28. 28. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 136-156.
  29. 29. Um deles foi preso e morreu em outubro de 1946 em condições não esclarecidas (Dom Borisevicius); três foram presos e condenados a trabalhos forçados na Sibéria, no final de 1946; o outro morreu no cárcere, perto de Moscou (Dom Reinys, novembro de 1953).
  30. 30. No final de 1945, a Letônia não tinha mais que dois padres e três igrejas (eram 1.671 antes da chegada dos soviéticos).
  31. 31. Pio XII, Carta ao episcopado alemão, 15 de fevereiro de 1954.
  32. 32. Pio XII, Decreto do Santo Ofício sobre o comunismo, 1o. de julho de 1949.
  33. 33. Pio XII, Discurso aos participantes do II Congresso Mundial para o apostolado dos leigos. 5 de outubro de 1957.

Os mártires de Espanha

“Santa Espanha, na extremidade da Europa concentração de Fé,

quadrado e massa dura, e da Virgem Mãe trincheira,

Última parada de Santiago, que só onde a terra acaba se refreia,

Pátria de Domingo e de João, de Francisco o Conquistador e de Teresa,

Arsenal de Salamanca, pilar de Zaragoza, raiz ardente de Manresa,

Inquebrantável Espanha, recusa perpétua do meio-termo…”1

 

 

Quem mais do que a Espanha, com efeito, deu à cristandade filhos corajosos e filhas ardorosas? Quem como Espanha resistiu a sete séculos de pressões do islã? Quem dobrou o espaço geográfico da civilização e da cristandade pela descoberta do Novo Mundo?

Em 1930, a Espanha contabilizava 20.000 monges, 60.000 religiosas, 31.000 padres para vinte e três milhões de habitantes. As escolas católicas escolarizavam 600.000 crianças. As instituições científicas católicas financiavam vastos setores da ciência espanhola, notadamente em história, matemática e astronomia. Era impossível falar de cultura na Catalunha sem citar as organizações intelectuais dos jesuítas, capuchinhos e beneditinos de Montserrat. Fiel à sua história, a Espanha entregou à cristandade muitos mártires e exemplos de heroísmo durante a guerra civil de 1936 e os eventos que a precederam. Eis os fatos.

 

1. O desencadeamento da Guerra Espanhola.

Após um atentado em Paris contra o Rei de Espanha Alfonso XIII, um alto dignatário maçom lhe propôs a posse tranquila de seu trono caso se afiliasse à seita. “Antes de ser rei, sou católico”, respondeu indignado o monarca. Dois anos mais tarde, em 30 de maio de 1919, acompanhado de seus homens de governo, consagrou a nação espanhola ao Sagrado Coração de Jesus, em ação de graças por ter sido preservada da Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918. Assim ele assinou o seu ato de condenação2.

Nas eleições municipais de 1931, elegeram-se 21.150 vereadores monarquistas contra 5.875 republicanos, mas 41 das 50 capitais de província votaram a favor dos republicanos. O rei, não querendo uma guerra civil, partiu em exílio como se a Espanha rural, largamente majoritária, não contasse. No dia 14 de abril, a república foi proclamada e reconhecida pelos governos maçônicos do mundo inteiro.

Desde o início do novo regime, o Comitê Revolucionário se tornou o governo provisório. Ele compreendia republicanos conservadores, liberais, socialistas, nacionalistas-regionalistas, e se beneficiava do apoio tácito dos partidos mais à esquerda. A hierarquia da Igreja aconselhava obediência às novas instituições, uma vez que o governo prometera uma “Igreja livre num Estado livre”, no entanto ela via com desconfiança a chegada ao poder de políticos que eram, em sua maioria, maçons e anticlericais.

O cardeal Segura, arcebispo de Toledo e primaz de Espanha, lançou um grito de alerta numa carta pastoral:

“Se nos mantivermos tranqüilos e negligentes, se permitirmos que a apatia e a timidez tome conta de nós, se deixarmos as portas abertas àqueles que procuram destruir nossa religião, ou se esperarmos que o triunfo de nossas convicções seja assegurado pela benevolência do inimigo, então não teremos mais direito de lamentar quando a amarga realidade nos fizer compreender claramente que a vitória esteve ao alcance de nossas mãos, mas que não soubemos combater como guerreiros intrépidos preparados para morrer gloriosamente3.”

Os acontecimentos lhe deram razão!

No dia 9 de dezembro de 1931, por atos oficiais do governo, teve início uma verdadeira perseguição religiosa. A nova constituição proclamou a separação entre a Igreja e o Estado, a autonomia regional para a Catalunha e o País Basco, a introdução do matrimônio civil. Muitas leis e decretos entraram em vigor por mera aplicação da Constituição; a Companhia de Jesus foi dissolvida e seus bens foram confiscados. As instituições religiosa não poderiam mais exercer nem o comércio, nem a indústria, nem a agricultura, nem o ensino. Igrejas, capelas, imóveis e mobiliário foram nacionalizados4. “O local ou os locais até o presente consagrados ao culto serão convertidos em armazéns coletivos, mercados públicos, bibliotecas populares, casas de banho ou de higiene pública etc. conforme as necessidades de cada cidade”,  enunciava a liga atéia no programa de um dos comitês provinciais.

De 1931 a 1933 multiplicam-se os atentados contra as pessoas (300 mortos e 2000 feridos em um ano), enquanto ocorriam greves, incêndios de igrejas e de conventos, e perseguição religiosa. O povo espanhol reagiu a essa apostasia das leis republicanas nas eleições de dezembro de 1933, que marcaram a derrota completa dos revolucionários e o triunfo dos católicos que Gil Robles havia reunido numa poderosa federação (CEDA).

Mas a política de moderação, de liberalismo e de reformas sociais do novo governo permitiu que as “esquerdas" fragmentadas se reagrupassem e se armassem: o governo perseguiu e aprisionou os anarquistas, mas deixou livre os comunistas e socialistas que, após um breve período de censura, reabriram seus centros de propaganda em maio de 1935 para começar a reconquistar o terreno e preparar o retorno ao poder. Lançando mão de métodos comunistas, Largo Caballero, o “Lenin espanhol” conseguiu, com efeito, reunir todas as forças da Revolução, que totalizavam mais de um milhão de homens em setembro de 1934. No final do ano, um cargueiro soviético desembarcou nas Astúrias trazendo 70 caixas com armas e munições. Em outubro de 1934, Madri, Oviedo, Barcelona se rebelaram ao mesmo tempo. No País Basco e na Catalunha o movimento assumiu feições separatistas. Durante dez dias, os rebeldes produziram violências inacreditáveis: incêndios, pilhagens, assassinatos (2.000 a 3.000 mortes ao todo).

Nas eleições de 16 de fevereiro de 1936, os partidos da ordem obtiveram no total do país 200.000 votos a mais do que a Frente Popular (coligação de republicanos, socialistas, comunistas e sindicalistas). Essa última, devido ao recorte bizarro de circunscrições e às fraudes nos boletins de votos, verificadas em muitos lugares, conseguiu eleger alguns candidatos a mais. Desse modo, as Cortes puderam ser formadas com maioria da Frente Popular, cujo primeiro gesto foi a abrir as prisões. Condenados de direito comum eram liberados e armados enquanto a guarda civil e o exército eram desestruturados por meio da destituição dos chefes. No campo, trabalhava-se ativamente para manter e aumentar a miséria dos pequenos negócios de que a classe média vivia, a fim de estimular a miséria e o ódio que fornecem à propaganda revolucionária um terreno promissor.

Desencadeou-se uma campanha de perseguição religiosa que superou as anteriores em amplitude e crueldade. De fevereiro a julho de 1936, 411 igrejas foram destruídas ou profanadas e cerca de 3.000 atentados de natureza política e social foram cometidos.

Em 18 de julho de 1936, o levante do general Franco marcou o início da contrarrevolução e da guerra civil espanhola, que deixaria 600.000 mortos e cujas operações militares durariam 32 meses. Após a queda de Barcelona, as tropas franquistas vitoriosas expeliram as forças republicanas para a França e entraram em Madri em fevereiro de 1939.

 

1.1 A Espanha vermelha

O primeiro disparo da guerra civil ocorreu no dia 13 de julho de 1936, por volta das 4 da manhã, quando as forças marxistas de Madri assassinaram o deputado monarquista Calvo Sotelo. Dois dias antes ele havia pronunciado nas Cortes uma acusação tão esmagadora contra a Revolução e seus males que a deputada comunista Dolores Ibaruri não se conteve e gritou: “Esse homem falou pela última vez.” O assassinato de Calvo Sotelo, executado pelos revolucionários e decidido pela maçonaria, é um exemplo do que seguirá. O Pe. Turquet, que Léon de Poncins definiu como “provavelmente o maior conhecedor espanhol de questões maçônicas” revelara que uma condenação fora levada a Madri por Augusto Barcia, “grão-mestre do supremo conselho maçônico” e ministro dos assuntos estrangeiros da Frente Popular.

A revista secreta da maçonaria, Chaîne de l’Union, declarou que o objetivo perseguido na Espanha, após a supressão da monarquia que entravava o caminho dos maçons, “era de fazer desaparecer para sempre o pernicioso poder clerical romano” 5. A perseguição religiosa foi inspirada pela maçonaria que, por ódio à religião, preparava os caminhos para Moscou.

 

1.2. Infiltração anarquista e marxista na Espanha

Ao longo do segundo terço do século XIX, as idéias comunistas e anarquistas penetraram a Espanha. Por volta de 1870, a Internacional6 contava já com mais de 80.000 afiliados. No final do século, Barcelona havia se tornado uma das capitais mundiais do anarquismo. Nos tempos da monarquia, os revolucionários amavam repetir que não haveria paz nem justiça para os povos até que o último monarca fosse enforcado nas tripas do último monge em praça pública.

Os anarquistas atuavam apenas no domínio dos sindicatos trabalhistas. Eles detestavam a política e não intervinham nas eleições. Apesar dos atentados terroristas que promoviam, eram considerados então como incapazes de causar uma perturbação social das massas. Mas, ao se apoderarem de organizações trabalhistas e ao consolidar sua influência por meio da violência terrorista, botaram as mãos na alavanca que lhes permitiu chegar ao poder. Em 1931, a Espanha abrigava cerca de um milhão de anarquistas ligados à CNT (Confederação Nacional do Trabalho). Esta organização sindical era dominada pela FAI (Federação Anarquista Ibérica) que abrangia cerca de 10.000 membros militantes, verdadeiros profissionais da desordem, que tomaram a iniciativa de incendiar igrejas e conventos, praticar assassinatos, estupros, somados a crueldades totalmente inéditas.

As primeiras infiltrações comunistas na Espanha começaram com o estabelecimento de uma seção ibérica do partido comunista em 1920. A contar dessa data, os comunistas absorveram todas as demais correntes revolucionárias em razão da maior capacidade de organização metódica. Em 1932, infiltraram maciçamente a UGT (União Geral dos Trabalhadores, socialistas nas mãos da maçonaria) e conseguiram fundar a CGTU (Confederação Geral do Trabalho Unitário). A partir dessa data, apesar da superioridade numérica dos anarquistas, são os comunistas que utilizam meios brutalmente autocráticos, que levaram à conquista do território espanhol.

A revolução comunista foi dirigida, organizada e financiada pelo Kominterm7 com somas exorbitantes. A Rússia remeteu para a Espanha setenta e nove agitadores profissionais bem como 70 caixas de armas e munições, enquanto a Comissão Nacional de unificação marxista organizava a formação de milícias revolucionárias em todas as cidades espanholas.

Em 16 de maio de 1936, o representante da URSS se reuniu com os delegados espanhóis da 3a. Internacional na Casa del Pueblo, em Valência. Eles decidiram “incumbir um dos setores de Madri de eliminar as personalidades políticas e militares que poderiam vir a desempenhar um papel importante na contrarrevolução.” Para esse fim, estabeleceram “listas negras” nas quais os bispos e os padres figuravam em primeiro lugar. “Durante esse tempo, desde Madri até as aldeias mais remotas, as milícias revolucionárias recebiam instruções militares e eram copiosamente armadas, ao ponto de contar com 150.000 soldados de assalto e 100.000 soldados de resistência8 no início da guerra.”

“O núcleo dessa brigada (as Brigadas Internacionais que vieram em ajuda dos republicanos contavam com 60.000 homens) se constituía de quinhentos ou seiscentos enviados da Rússia", escreveu Krivitsky9. "Em todos países estrangeiros, Reino Unido inclusive, o recrutamento para as brigadas era organizado pelos partidos comunistas locais e suas filiais. Entre eles havia informantes para caçar espiões, eliminar homens cuja opinião política não fosse estritamente ortodoxa, vigiar as leituras e conversas. Com efeito, todos os comissários políticos das Brigadas internacionais e, mais tarde, da maior parte do exército republicano, eram comunistas a toda prova. 10

Sem dúvida, muitos dos atos condenáveis foram responsabilidade de grupos que agiam por conta própria no meio da impunidade geral. No entanto, muitos outros atos foram fruto do planejamento das organizações comunistas, socialistas e anarquistas, que possuíam sua polícia, seus tribunais e suas prisões, e puseram em prática os métodos mais avançados, inspirados pelos agentes de segurança soviéticos11. Notadamente, desde o motim, em toda a zona governamental, multiplicam-se as “Tchekas”. Em Madri, era possível enumerar mais de 200, logo suplantadas pelo SIM (Servicio de Información Militar), cujos procedimentos se assemelham aos do GPU12 e do NKVD13. A tortura era aí organizada conforme os princípios médico-científicos. As sevícias seguiam uma gradação ardilosa: privação do sono, confinamento em prisões tão diminutas que a vítima não podia ficar de pé nem sentada, leito inclinado de forma que o prisioneiro caia imediatamente ao dormir14.

A Rússia se imiscuiu nas forças governamentais, penetrou no seu comando e, mesmo conservando o governo da Frente Popular, trabalhou para a instauração do regime comunista por meio da derrubada da ordem estabelecida. "A obra destruidora se realizou aos gritos de ‘Viva a Rússia’, à sombra da bandeira da internacional comunista15.”

 

1.3 As razões religiosas da oposição

Evocamos acima as razões dessa oposição entre o comunismo e a Igreja Católica. Esse conflito pertence a esse quadro. “A guerra espanhola se reduz ao choque entre o espiritualismo, cujo campeão mais firme era a religião, e o materialismo, cujo defensor mais enérgico era o comunismo ateu.” 16

Os dirigentes revolucionários não se escondem. Em Moscou se realizou o congresso dos ateus, do qual participam 1.600 delegados pertencentes a 46 nações. Seu fim era recolher informações sobre os progressos realizados entre as nações no que se refere à destruição da crença em Deus. Jesús Hernández, ministro do governo espanhol de Largo Caballero, enviou a esse congresso o seguinte telegrama: “Vossa luta contra a religião é também a nossa luta. É nosso dever fazer da Espanha uma terra de ateus militantes. A luta será difícil, pois neste país as massas reacionárias são numerosas e se recusam absolutamente a aceitar a cultura soviética. Nós transformaremos todas as escolas da Espanha em escolas comunistas.”

Largo Caballero, líder comunista, bradava: “Não deixaremos pedra sobre pedra nesta Espanha. Temos de refazê-la nossa.” Este é bem o slogan satânico da revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para reconstruir o mundo ex nihilo. Ainda mais claro é este discurso da deputada Margarita Nelken: “Nós queremos uma revolução, mas a revolução russa não pode nos servir de modelo, pois temos necessidade de chamas gigantescas que possam ser vistas por todo o planeta, e vagas de sangue que tornem o oceano vermelho.” Mesmo o quotidiano de Barcelona “Solidaridad Obrera” escrevia em 26 de julho de 1936: “Não há muitas igrejas e conventos ainda de pé; mas, com muito custo, apenas duzentos padres e monges foram postos fora de circulação. A hidra religiosa não está morta. Convém levar isso em conta e não perder de vista essa realidade em face dos nossos próximos objetivos.” 17

Não eram apenas bravatas. A destruição dos lugares de culto ou ao menos do seu mobiliário foi sistemática e contínua. No curto intervalo de um mês, todas as igrejas tornaram-se inúteis ao culto, enquanto os padres eram mortos sem processo, no mais das vezes à queima-roupa: as igrejas eram incendiadas por serem casa de Deus, e os padres eram sacrificados por serem ministros de Deus.

“Contamos os mártires aos milhares. […]

"O ódio a Jesus Cristo e a Virgem Maria chegou ao cúmulo, e nas centenas de crucifixos apunhalados, nas imagens da Virgem bestialmente profanadas, nos pasquins de Bilbao em que se blasfemava sacrilegamente da Mãe de Deus, na infame literatura das trincheiras vermelhas em que se ridicularizam os divinos mistérios, na reiterada profanação das imagens sagradas, podemos adivinhar o ódio do inferno, encarnado em nossos infelizes comunistas18.”

 

2. A Espanha católica

2.1. O alcance da destruição

É impossível, em toda a Espanha, separar a história da fé católica da história da criação artística. Durante séculos, essas duas histórias se confundiram. Ao desejo de acabar com esses monumentos por conta do seu caráter religioso juntou-se o desejo de sumir com eles por causa de seu aspecto histórico, visto que representavam épocas radiantes e constituíam tipos de civilização que, como tais, o marxismo quer destruir. É impossível fazer o inventário dos monumentos destruídos e das maravilhas artísticas desaparecidas. E não se contentaram em atacar os lugares de culto público. Os oratórios e os objetos religiosos privados, imagens, pinturas, livros, foram sistematicamente destruídos. Jamais talvez na história das perseguições religiosas um caso semelhante tenha acontecido: em poucos meses, uma região católica havia séculos viu desaparecer de seu solo todo símbolo religioso, sem contar a supressão e a dissolução das publicações católicas, das bibliotecas paroquiais, dos centros de cultura instalados nos estabelecimentos católicos, bem como o incêndio e a dispersão de bibliotecas conventuais. Todos os monastérios e todos os conventos foram incendiados, destruídos, fechados ou entregues para outros usos19.

Pio XI descreveu a trágica situação da Espanha sob a dependência do governo republicano na sua encíclica Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937:

"Até em países, onde — como sucede na Nossa amadíssima Espanha — não conseguiu ainda a peste e o flagelo comunista produzir todas as calamidades dos seus erros, desencadeou contudo, infelizmente, uma violência furibunda e irrompeu em funestíssimos atentados. Não é esta ou aquela igreja destruída, este ou aquele convento arruinado; mas, onde quer que lhes foi possível, todos os templos, todos os claustros religiosos, e ainda quaisquer vestígios da religião cristã, posto que fossem monumentos insignes de arte e de ciência, tudo foi destruído até os fundamentos! E não se limitou o furor comunista a trucidar bispos e muitos milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas, alvejando dum modo particular aqueles e aquelas que se ocupavam dos operários e dos pobres; mas fez um número muito maior de vítimas em leigos de todas as classes, que ainda agora vão sendo imolados em carnificinas coletivas, unicamente por professarem a fé cristã, ou ao menos por serem contrários ao ateísmo comunista. E esta horripilante mortandade é perpetrada com tal ódio e tais requintes de crueldade e selvajaria, que não se julgariam possíveis em nosso século.”

De 1934 a 1939, 20.000 igrejas ou conventos foram pilhados e destruídos em nome da liberdade de consciência. São 13 os bispos assassinados, padres 4.052, religiosos 2.338 e religiosas 270; ou seja, 6.773 consagrados aos quais se deve acrescentar 248 seminaristas e cerca de 80.000 leigos católicos de todas as idades e condições20. Entre esses milhares de padres, religiosos, bispos, monges e outros eclesiásticos, não se sabe de nenhum exemplo de apostasia.

 

2.2. O exemplo dos mártires

- A resistência do Alcazar

No final de 1936, o mundo inteiro seguiu com estupor a resistência do Alcazar de Toledo. Essa fortaleza de guerra foi tomada nos primeiros meses do alzamiento21 por milhares de combatentes insurgidos e um outro milhar de pessoas, que se compunha de velhos, mulheres e crianças. A primeira reação do governo republicano, quando soube que os insurgentes haviam se apoderado do lugar, foi chamar ao telefone o coronel José Moscardó Ituarte, chefe nacionalista da guarnição. O coronel Moscardó, com efeito, havia se abrigado no Alcazar de Toledo no meio de uma tal confusão geral que não pode trazer consigo a mulher e os filhos. Doña Maria se refugiara na casa do Tenente-coronel Tuero, mas foi descoberta em 22 de julho de 1936 pelos republicanos. Doña Maria conseguiu fugir com o pequeno Carmelo, mas seu filho Luís de 17 anos seguia prisioneiro.

No dia seguinte, o chefe dos milicianos de Toledo chamou ao telefone o coronel Moscardó para lhe anunciar que seu filho estava nas suas mãos.

“— Damos dez minutos para você se render — disse — senão, ele será fuzilado.

— O senhor não é nem um soldado nem um cavaleiro. Se fosse, saberia que a honra de um militar não cede diante da ameaça.

— O senhor me responde assim porque não crê na minha ameaça. Fale com seu filho… Aqui Moscardó!

— Alô… papai?

— Como você está, meu filho?

— Nada de particular, papai. Dizem que vão me fuzilar se o senhor não se render. Que devo fazer?

— Você sabe como penso. Se é certo que vão fuzilá-lo, recomende a sua alma a Deus, erga um pensamento a Espanha e outro a Cristo Rei.

— É fácil, papai. Farei as duas coisas… Um beijo forte, papai.

— Adeus, meu filho. Um beijo bem forte.”

O Alcazar resistirá por setenta dias a um ataque formidável, que fez chover sobre a célebre fortaleza 3.300 obuses de 155mm, 3.000 obuses de 105mm, e 3.500 de 75mm. Num único dia, 450 bombas de 50kg foram lançadas de avião. 1.900 homens sitiados passaram dias terríveis sob um trovão de fogo. 82 morreram. Dois bebês nasceram nas ruínas! No dia 28 de setembro de 1936, após a liberação do forte destroçado, a promoção do coronel Moscardó e uma missa de ação de graças, o novo general Moscardó foi embora no meio das aclamações, estava triste e recurvado. Ele se recordava do martírio de Luís, e deu a entender também que lhe custava enormemente entregar a fortaleza à Espanha num tal estado…22

 

— Ceferino Jiménez Malla

Ceferino Jiménez Malla foi fuzilado pelos republicanos espanhóis na noite de 2 de agosto de 1936, com 75 anos de idade, no cemitério de Barbastro, em Aragão, com muitas outras vítimas. Ele foi preso pelos milicianos comunistas no início da guerra civil, acusado de ter escondido um padre e de ter resistido à prisão pelos milicianos. Após três semanas de prisão, Ceferino foi tirado de cela; os milicianos ordenaram que largasse o terço que carregava consigo a fim de rezar. Ele usava o rosário ostensivamente e rezava na frente de todos. Recusou-se com vigor a entregar o terço e foi fuzilado por esse motivo. Diante do pelotão comunista, ele estreitou o terço contra o peito e gritou: “Viva el Cristo Rey!”. Ceferino Jiménez Malla morreu mártir e confessor da fé23.

 

— Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz

Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz tinham, respectivamente, 24, 26 e 27 anos quando roubaram as suas vidas. Sabino e Florencio tinham pronunciado seus votos definitivos na Sociedade de Maria, em 1934, e Joaquín em 1935, manifestando por escrito nessa ocasião a sua adesão à Nossa Senhora e a firme vontade de servi-la até o fim. Durante a sua prisão, Sabino teve o gesto tocante de dizer “adeus" ao zelador, mesmo sabendo ter sido denunciado por ele, manifestando assim seu desejo de perdoar. Sobre os seus corpos torturados foram encontrados crucifixos, medalhas e mesmo um certificado de batismo, prova do seu desejo de professar a fé até o fim, apesar dos riscos incorridos24.

 

— Os irmãos do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri e os padres Agostinianos de Escorial.

Um irmão sobrevivente do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri, testemunhou: “Os milicianos se obstinaram em nos fazer renegar a fé. Separaram os mais moços para seguirem mais à vontade seu plano sinistro. Cada uma de nossas recusas era seguida de torturas.” O irmão Santiago Angel, F.S.C, prisioneiro também, viu passarem as futuras vítimas que os milicianos conduziam para a execução. “Eles se afastavam, escreveu ele25, pacificados, calmos, fortes. Na sua atitude adivinhava-se a têmpera das suas almas, que se lançavam para a morte sublime que lhes era infringida por serem religiosos.”

Quando o cortejo chegou ao local de execução, o Pe. Avelino Rodriguez, provincial dos Agostinianos, pediu aos milicianos que lhe deixassem se despedir de seus confrades e lhes absolver. Isso foi-lhe concedido. Ele abraçou um a um os seus companheiros de suplício que, de joelhos, receberam a absolvição, em seguida, clamou26: “Sabemos que nos matam por sermos católicos, padres ou religiosos. Nós vos perdoamos de todo coração. Viva Cristo Rei! Viva a Espanha!”

 

— Antonio Molle Lazo27

Antonio Molle Lazo trabalhava na estação de Xérès (antigo nome de Jerez de la Frontera), cidade com uns cem mil habitantes. Sua caridade inesgotável e a distinção de suas maneiras lhe granjearam a simpatia de seus colegas. Os socialistas, contudo, conseguiram do governo a dispensa de todos os que não partilhassem das suas idéias.

Sem se desconcertar, Antonio procurou trabalho em outra parte. Estudou a organização e os métodos dos seus adversários, exprimindo sua dor ao ver os inimigos de Deus demonstrando mais entusiasmo na busca de seu ideal de ódio do que certos católicos na defesa da Religião: “Os socialistas, tão numerosos, e nós, católicos, tão poucos! Que vergonha!” dizia ele. No entanto, redobrando a coragem, instava seus colegas a se confessarem e a comungarem aos domingos.

A todos os que se escusavam alegando, seja a distância, seja as vexações dos adversários, ele respondia: “Não é longe até Xérès… se nos jogarem pedras, que mal pode nos fazer? É preciso sofrer algo por Jesus Cristo, talvez nosso exemplo conduzirá outros até a santa mesa […] e nós teremos esse ganho!” Quando foi pego pelos vermelhos, eles quiseram obrigá-lo a gritar: “Viva o comunismo!”

— Viva Cristo Rei, foi a sua resposta.

Cortaram-lhe uma orelha.

— Blasfeme o nome de Deus.

— Não. Viva Cristo Rei!

Cortaram-lhe a outra orelha.

— Blasfema!

— Jamais!

Cortaram-lhe o nariz.

— Viva Cristo Rei!

Sem conseguir alcançar o seu fim, e não podendo suportar o seu olhar límpido, furaram-lhe os olhos. Cortaram várias vezes a sua língua, mas ele gritava:

“Viva Cristo Rei! Podem me matar, mas Cristo triunfará!”

Estendendo os braços em forma de cruz, ele mesmo deu a ordem de sua execução, gritando: “Viva Cristo Rei”.

 

Conclusão

Há uma corrente de satanismo na história, paralela ao catolicismo e em perpétua luta contra ele.

Esse ódio misterioso é de uma essência diferente e superior a todos os demais ódios que encontramos ao longo da história, que, por ferozes e culpáveis que sejam, movem-se sempre por razões estritamente humanas, tais como a inveja, o orgulho, o rancor, a vingança. Não tem esse caráter permanente, não se relacionam sempre com um mesmo objeto que, por sua vez, jamais lhe deu causa, segundo a palavra mesma de Cristo: “Odiaram-me sem motivo”.

Pelo fato de os demais ódios se relacionarem a algo determinado e preciso, a causas tangíveis cujo peso corresponde ao do efeito, eles não têm esse caráter assustador de um surto de histeria que faz pensar imediatamente, queiram ou não, na possessão demoníaca. Cristo a definiu com estas palavras: “Essa é a vossa hora, e o poder das trevas.” O ódio ao catolicismo tem em si um elemento que ultrapassa a razão e está fora do ponderável, corresponde a uma crise misteriosa cujo campo não é o corpo, mas o espírito28.

Malynski descreve assim a guerra que se desenrolou sobre o solo espanhol, uma luta que ultrapassa largamente as fronteiras desse país. “É uma etapa nova e talvez decisiva da luta entabulada entre a Revolução e a Ordem”, “uma luta internacional em um campo de batalha nacional; o comunismo produziu na península uma batalha formidável da qual dependeu a sorte da Europa”, pode-se escrever de modo muito apropriado. O povo espanhol foi “enfeitiçado por uma doutrina de demônios”, pois “é impossível pretender que entre o clero católico e a alma popular tenha havido divergências ou a menor oposição. A alma popular, consciência imanente da tradição e continuação histórica do passado, certamente não tem nada em comum com a agitação plebéia nem com os sindicatos de terroristas.” Esse ódio à religião e às tradições patrióticas veio da Rússia e enganou o povo espanhol. Para prová-lo, no momento de morrer, condenados pela lei, os comunistas espanhóis em sua maioria se reconciliaram com o Deus de seus pais. Menos de 20% morreram na impenitência final nas regiões do norte e menos de 10% nas regiões do sul29.

Mas essa destruição sistemática de tudo o que constituía o patrimônio religioso e cultural da Espanha fez florescer toda uma falange de mártires.

 

Ah! Muitos se figuram que seus pés marcharão ao céu por um caminho fácil e complacente.

Mas, de repente, eis a questão apresentada, eis a intimação e o martírio!

O céu e o inferno foi posto nas nossas mãos, e temos quarenta segundos para escolher.

Quarenta segundos? É demasiado! Espanha irmã, Espanha santa: tu já escolheste.

Onze bispos, dezesseis mil sacerdotes assassinados e nenhuma apostasia sequer.

[…] A terra concebeu nas suas profundas entranhas, e a Retomada já começou.

[…] E tudo, quando foi derramado, os anjos respeitosamente recolheram e transportaram para o interior do Véu! 30

 

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, tradução: Permanência)

  1. 1. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne.
  2. 2. Esse fato foi relatado num artigo de La Croix dos anos 1930, citado em Ir. A. Joaquin, Nos Martyres d’Espagne, F.S.C., Ed. Saint-Rémy, 2008, p. 25.
  3. 3. Cardeal Segura, carta pastoral de 31 de maio de 1931; citado por Lucien Thomas, L’Action Française devant l ‘Église, p. 29; Cf. Gustavo Corção, Le siècle de l’enfer, Ed. Sainte Madeleine, 1995, p. 292.
  4. 4. Arnaud Imaz, La guerre d’Espagne revisitée, Economica, 1993, p. 11.
  5. 5. Le Nouvelliste de Lyon, 23-X-1936, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 28.
  6. 6. Associação internacional que agrupava trabalhadores para ações de transformação da sociedade. A 1a. Internacional, fundada em Londres em 1864, desapareceu após 1876 por causa da oposição entre marxistas e anarquistas. A 2a. foi fundada em Paris em 1889 e se manteve fiel à social-democracia, e desapareceu em 1923. A 3a. Internacional comunista, ou Kominterm, fundada em Moscou em 1919  reúne ao redor da Rússia Soviética, e depois, da URSS, a maior parte dos partidos comunistas. Ela foi suprimida em 1943 por Stalin.  
  7. 7. (1919-1943). Ele representa durante a primeira parte do século XX, em escala internacional, o movimento comunista alinhado com a URSS. Era dirigido pelo Partido comunista da União Soviética.
  8. 8. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  9. 9. O general W.G. Krivitsky era, na época, chefe do departamento de informação soviético na Europa Ocidental.
  10. 10. Trecho de Lecture et Tradition no. 271.
  11. 11. Cf. Ministerio de Justicia, La dominación roja en España, Causa general, Madr, 1943. Citado em La guerre d’Espagne revisitée, Arnaud Imatz, Economica, 1993, p. 47.
  12. 12. Segundo nome da polícia de Estado da União Soviética entre 1922 e 1934. Constituída a partir da Tcheka.
  13. 13. Terceiro nome da polícia de Estado da União Soviética, entre 1934 e 1946. Sucedeu ao GPU.
  14. 14. Cf. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964; o autor relata muitas atrocidades cometidas pelos vermelhos, das quais foi testemunha ocular. Cf. Lecture et Tradition no. 271 que publicou trechos do livro.
  15. 15. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  16. 16. La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  17. 17. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964, citado em Lecture et Tradition no. 271, p. 17.
  18. 18. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  19. 19. Conforme La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  20. 20. Conforme o livro do Pe. Calasanz BAU, S. P., Rapport présenté à la Sacré Congrégation des rites en vue de la béatification et canonisation des Serviteurs de Dieu massacrés en Espagne, Roma, 1953, p. 641, 507 e 654, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 35.
  21. 21. O “levante" espanhol do qual Franco tomou a direção em 1936.
  22. 22. Sobre a história da resistência do Alcazar, ler o relato de Brasillach, Les cades de l’Alcazar, 1936, Plon.
  23. 23. Pelayo, La Vanguardia, 23 de março de 197, p. 47. Citado em Lecture et Tradition no. 269-270.
  24. 24. José Maria Salaverri, Morts pour le Christ, S.M., D.F.R., 2007.
  25. 25. Los Hermanos de las Escuelas Cristianas en el Movimiento Nacional, Ed. Buflo, Marqués de Mondéjar, 32, Madrid.
  26. 26. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  27. 27. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  28. 28. Malynski, La guerre occulte, citado por Léon de Poncins, Contre révolution, abril de 1939 (Lecture et Tradition no. 271).
  29. 29. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  30. 30. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne. Tradução literal.

A guerra dos cristeros

M.J.C.F.

Há pouco mais de oitenta anos, o povo católico mexicano, perseguido por causa da fé, pegava em armas para a defesa de Cristo Rei. Assinava com o seu sangue o texto Quas Primas (1925) de Pio XI sobre a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Praticamente ausente dos livros de história e dos arquivos do Vaticano, essa segunda Vendéia militar é, no entanto, muito rica em ensinamentos e exemplos, como se verá a seguir.

 

1. ”Pobre méxico, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"1

 

1.1 As primícias do conflito

Evangelizado no século XVI pelos espanhóis, o México conquistou a independência em 1821. O século XIX foi marcado por uma permanente instabilidade: guerras civis, ditaduras, golpes de Estado, revoluções. Após a ditadura de Dom Porfírio Diaz, que redundou em um tempo de paz entre 1876 e 1910, chegaram ao poder os protestantes, os maçons e os marxistas vindos do norte do país. “Aos seus olhos, o protestantismo explicava o sucesso norte-americano, de molde que eles retomaram o libelo anglo-saxão contra o passado hispânico e colonial do México: o velho México era degenerado por causa dos índios e dos padres, e a salvação dependia dos homens da fronteira do norte, que trariam a civilização” 2, explica Jean Meyer. “O conflito com a Igreja era inevitável, na medida em que a nação, como a Igreja Romana, não admitia nada acima dela.” Os dirigentes envidaram esforços para esmagar toda oposição ao Estado centralizador. Em 1917 foi instituída uma Constituição revolucionária que proclamou a ditadura suprema do Estado. Todos os corpos intermediários tornaram-se ilegais, especialmente os sindicatos católicos. Os dirigentes podiam dizer como o general J.B. Vargas aos católicos: “Aceitaria de bom grado a vossa seita católica se fosse nacional, se nomeassem um papa mexicano.”

Muitos artigos antirreligiosos foram proclamados na Constituição, mas o presidente Obregon não ousou aplicar essas leis em todo o território, limitando-se às regiões menos católicas:

  • O artigo 3º impunha a secularização do ensino;
  • O artigo 5º proibia as ordens monásticas;
  • O artigo 24 proibia o exercício do culto fora das igrejas;
  • O artigo 27 restringia o direito das organizações religiosas à propriedade;
  • O artigo 130 atentava contra os direitos cívicos dos membros do clero: os padres perderam o direito de usar o hábito religioso, perderam o direito ao voto, e foram proibidos de comentar quaisquer assuntos públicos nos órgãos da imprensa.

 

1.2. O governo callista

Em 1924 Plutarco Elías Calles chegou ao poder. O general Roberto Cruz dizia a seu respeito: “No governo não havia, já não digo alguém que lhe recusasse obediência ou o enfrentasse, mas simplesmente alguém que resistisse a qualquer uma das suas decisões. Ele era absoluto e resolvia tudo de modo definitivo. Se ditador for aquele que não concebe nada para além da sua vontade, então Calles foi a personificação da ditadura.” 3 “Para alcançar seus objetivos, que eram “ordem e progresso”, estava disposto a tudo e decidido a ser ‘mestre absoluto’. Ele obteve para isso o apoio americano, mostrando-se capaz de pagar o serviço da dívida exterior: os banqueiros americanos, as companhias petrolíferas e os proprietários de bens de capital no México tornaram-se favoráveis a ele.

Para ele, a Igreja era a única causa de todos os males do México e, por isso, devia ser destruída: “Calles é o porta-voz de espanhóis e ibero-americanos que julgam o catolicismo incompatível com o Estado; ele, espírita, frequentador de curandeiros (…) votava à Igreja um ódio mortal." 4

A Constituição foi então aplicada à letra em todo o território. O governo procedeu a um inventário dos bens da Igreja, mandou fechar escolas católicas, expulsou as congregações e proibiu os sindicatos católicos. Ordenou o confisco ou a profanação de numerosas igrejas, que se tornaram estrebarias ou salões de festas, quando não foram destruídas5.

Calles fundou uma igreja nacional mexicana separada de Roma, importou missionários protestantes dos Estados Unidos e financiou a abertura de 200 colégios protestantes. Outras leis anti-católicas foram votadas. Em 1926, a seguinte proclamação foi pregada nas portas de todas as igrejas:

Art. 1o: Todo indivíduo responsável por uma igreja será condenado a uma multa de 50 pesos e a um ano de prisão se os sinos repicarem.

Art. 2o: A todo indivíduo que ensinar seus filhos a rezar será aplicada a mesma pena.

Art. 3o: O mesmo em toda casa onde se encontrar santos.

Art. 4o: O mesmo para toda pessoa que usar insígnias [religiosas]. 

… e assim por diante até o 30o artigo6.

O nome de Deus foi banido do vocabulário: quem tivesse a infelicidade de dizer “adiós” (adeus) ou “si Dios quiere” (se Deus quiser) era punido com multa de 10 pesos (uma fortuna para os camponeses). O povo mexicano, no entanto, mantinha-se fiel à sua fé.

 

1.3. O terror

Calles decidiu então impor as leis antirreligiosas pelo terror. No dia 26 de julho, dois policiais a paisana abateram friamente um comerciante por ter ele afixado na sua lojinha um cartaz com os dizeres: “Viva el Christo Rey!”. Um soldado foi fuzilado de imediato por ter sido surpreendido com uma medalha de Nossa Senhora de Guadalupe.

Os fuzilamentos, as mutilações serviam de exemplo. Após terem sido torturados por toda a noite por soldados, três rapazes foram fuzilados contra o muro da catedral de Colima, à vista de todos. Os prisioneiros eram pendurados em galhos de árvores, nos postes de telégrafo ou ao longo das estradas de ferro. As vítimas assassinadas e as cenas de tortura eram fotografadas ou filmadas para que muitos as vissem.

“Os sacrilégios eram acompanhados de um horror consciente e partilhado entre executantes e espectadores. A temática era comum: igrejas profanadas por oficiais que nelas entravam a cavalo e alimentavam suas montarias com hóstias, transformavam os altares em mesas, os prédios em estrebarias. As estátuas eram fuziladas quando não arrancavam as Virgens para dançarem com elas. Usavam os ornamentos como fantasia e comiam-se as hóstias consagradas e bebia-se café com leite no cálice.” 7

Finalmente, puseram os padres sob o controle do poder civil: eles foram “registrados”. “Os ministros do culto (…) foram postos sob controle judiciário e perderam todos os direitos. Qualquer governador tinha autorização de fixar por decreto o número [de padres] no seu terreno de caça; e de impor o chicote, o exílio ou o presídio aos recalcitrantes.” 8 Certos governadores quiseram obrigar os sacerdotes a se casarem para poderem continuar a oficiar. Foram limitados ao número de um padre para cada 30.000 habitantes no estado de Tabasco, e 140 para um milhão de batizados no estado do México, enquanto lhes esperavam o cárcere, a tortura e a execução.

 

2.  A resistência

2.1. Dos leigos

A resistência dos católicos não se fez esperar. Penitências, peregrinações e orações públicas foram a resposta dos fiéis a todas essas atrocidades. Organizaram-se Imensas procissões, viu-se 15.000 batizados desfilarem, com os pés nus e coroas de espinhos. Essas manifestações eram reprimidas à metralha9.

A ACJM (Associação Católica da Juventude Mexicana) divulgou a seguinte agenda:

Contra o artigo 18o, que versava sobre os delitos em matéria de culto religioso punidos com multa de 500 pesos ou, na ausência, 15 dias de prisão, e sobre o uso de vestes e insígnias religiosas fora do lugar de culto, nós decidimos que o uso de nossa insígnia será obrigatório para todos os membros da ACJM a partir de 31 de julho10.

As associações católicas fizeram petições. Obtiveram 2 milhões de assinaturas num país que possuía 15 milhões de habitantes. O presidente da Câmara dos Deputados, contudo, declarará não ter recebido nada e o governo fechou outras escolas católicas e conventos.

Os fiéis tentaram então o boicote econômico. Eles se privaram de tudo o que era propriedade do Estado: transportes, alimentação, tabaco, espetáculos. Num país de grande maioria católica, esse boicote representa um grande golpe nos negócios do Estado, que acusaram uma queda de 75%. O banco nacional verá 7 milhões de pesos serem sacados em poucas semanas11. Várias salas de espetáculo tiveram de fechar as portas. Mas o sucesso não durará porque os ricos, que também sofriam as conseqüências econômicas, não querem participar. “Católicos ou não, os ricos tinham horror ao boicote.” 12

 

2.2 Dos bispos

Quanto ao episcopado mexicano, ele procura um acordo com o governo. Enquanto pediam paciência aos fiéis, apresenta propostas para a revisão das leis.

“O governo mexicano, em razão de sua hostilidade agressiva, representava um grave problema à Igreja, que tinha por fim transformá-lo, a longo prazo, num regime benevolente. (…) A política que o Vaticano conduz em escala mundial [visa a] garantir à Igreja católica as melhores possibilidades de expansão. (…) Nessa perspectiva, Roma fez tudo para evitar a crise de 1926-1929, multiplicou as demonstrações de boa vontade e, finalmente, impôs a paz de 1929.”

Mas o governo não cedeu às demandas dos bispos. O Papa Pio XI interveio por um telegrama dirigido ao comitê episcopal mexicano: “A Santa Sé condena a lei bem como todo ato que possa significar ou ser interpretado pelo povo fiel como aceitação ou reconhecimento da lei mencionada” 13 (a do registro dos padres, cf. 1.3). Calles considerou isso uma rebelião e ainda agravou as medidas de repressão.

Os bispos decidiram então suspender o culto público a partir de 31 de julho. Já não haveria missas nem sacramentos nas igrejas em todo o território. Por que uma decisão dessas? Os bispos esperavam viver nas catacumbas? Como o culto público havia se tornado impossível, essa decisão seria muito corajosa se permitisse que os padres continuassem a celebrar os sacramentos junto ao povo mexicano, que já escondia espontaneamente os padres. Mas a hierarquia ordenou aos sacerdotes  reagruparem-se nas cidades e rezarem missas em capelas privadas. Ela buscava contemporizar para poder continuar as negociações com o governo.

Todos os católicos passaram seus últimos dias de liberdade aos pés do altar:

“A gente começava a vir aliviar a consciência, conquanto fosse tempo de trabalhar nos campos; a cada dia que passava aumentava na cidade a pressa de todos os camponeses que desciam de lugarejos vizinhos; em todos os peitos se percebia a angústia, os rostos estavam pálidos e os olhos cheios de tristeza. Na paróquia de Tlanltenango havia três padres, mas não bastaram para confessar tanta gente, não tinham tempo nem lazer sequer para poder comer e passavam o dia todo, do amanhecer até tarde da noite, sentados nos confessionários, mas não conseguiam confessar todo mundo.” 14

 

3. A resistência armada

No dia 31 de julho, as igrejas foram fechadas, como previsto. O povo mexicano, que suportara tudo, iniciou uma cruzada porque se viu privado de sacramentos. Após ter esgotado todos os meios pacíficos de negociação, pegou em armas para a defesa de Cristo Rei ao lado de alguns poucos padres (apenas duzentos de um total 3.500 ficaram com seus fiéis) e um bispo15 (de trinta e oito).

 

3.1. As primeiras insurreições

“Ignoro quais foram exatamente os motivos que levaram os católicos de Villa Hidalgo a se levantarem, mas na origem de tudo houve a vinda de tropas federais e o ódio com que cometeram um grande sacrilégio: os oficiais penetraram a igreja, abriram o tabernáculo, jogaram no chão as espécies consagradas antes de calcarem-nas aos pés; em seguida, lançaram milho sobre o altar para dar de comer aos cavalos.” 16

Por toda parte em que a fé foi atacada, os católicos passaram à ofensiva. “Em Santiago Bayacora, no estado de Durango, três funcionários federais vieram fazer o inventário da igreja. Foram recebidos com pedradas e tiveram de fugir. Duzentos homens armados com velhos fuzis deixaram imediatamente a cidade para evitar o cerco e partiram para cima do inimigo. O primeiro confronto se deu no meio da campo, por volta de meio-dia. Foi uma matança terrível do lado dos federais, que abandonaram o local deixando grande quantidade de cadáveres, armas e munições. Duas horas mais tarde, uma nova coluna federal foi desfeita do mesmo modo." 17

Em Pénjamo, Luis Navajo Origel, prefeito da cidade e católico fervoroso, assumiu a frente do motim. Com seus homens, refugiou-se nas montanhas e dali comandou uma guerrilha. Em Durango e no sul do estado de Guanajuato, produziu-se o mesmo cenário. Em Jalisco, sob o comando de René Capistran Garza, presidente da ACJM, as tropas pouco a pouco se fortaleceram e a região se tornou o centro nevrálgico da rebelião.

Tendo iniciado no oeste mexicano, o levante estendeu-se rapidamente até o golfo atlântico.

 

3.2 Os combatentes

Toda a gente ingressou na cruzada com poucas armas e munições, e nenhuma ajuda estrangeira. Mas nem coragem nem generosidade faltaram a esse povo profundamente católico. A maior parte deles rumou para o combate esperando o martírio. Até as crianças beijavam suas mães dizendo: “Mamacita, não vais querer que eu perca o céu agora que está tão barato, não é?”

José Sanchez tinha 14 anos. Cercado em fevereiro de 1928 pelos federais, cede seu cavalo ao chefe do grupo, que estava ferido, e cobre a sua retirada. A munição acaba e ele é capturado: “Saibam que eu não me rendi”, declarou, “não tenho mais cartuchos, é isso.” Ele é massacrado. No bolso, tinha esse bilhete: “Minha querida mamãe. Fui preso e vão me matar. Estou feliz. A única coisa que me inquieta é que você vai chorar. Não chore, nós nos reencontraremos. José, morto por Cristo Rei.” 18

A alegria nunca está ausente, apesar dos sofrimentos e da abnegação. Alguns são cheios de audácia e de humor, mesmo nas horas mais trágicas.

Tomasino é membro do comitê diretor da ACJM, e prefeito da Congregação de Maria. Depois de preso, prometeram-lhe a liberdade se falasse:

“Os senhores cometeriam um erro, claro, pois uma vez livre continuaria a luta por Cristo Rei. O combate pela liberdade do culto [verdadeiro] não é para nós opcional.

“— Não sabes o que é a morte, moleque!

“— É verdade, nunca me aconteceu de morrer. E o sr., meu general?” 

Em agosto de 1927 foi enforcado, tinha 17 anos de idade19.

Os chamados Cristeros — um termo de desprezo cunhado pelos revolucionários pois eles combatem ao grito de “Viva el Cristo Rey” — não tinham nenhuma nenhuma noção de combate ou de clandestinidade.

Na Cidade do México, em 6 de setembro de 1926, Joaquim de Silva, 28 anos, irrompeu na casa do seu confessor, os olhos brilhavam. Nos seus bolsos estava a sua “bagagem”: uma pistola, cinquenta cartuchos, nove cartas e seu precioso terço.

“Faço questão de não ser um católico medíocre. Parto para unir-me ao exército de Cristo Rei! Peço a bênção do senhor.

“— Vais abandonar a sua mãe e suas irmãs sem sustento?

“— O Senhor cuidará delas. Ademais, elas mesmas me pediram para ir.”

O Pe. Cardoso, apesar da grande inquietação, se deixou vencer e Joaquim da Silva tomou o trem naquela mesma noite em companhia de dois camaradas. No trem, os três aprendizes de Cristeros entabulam conversa com um general aposentado, que carregava uma impressionante bateria de medalhas e escapulários. Joaquim da Silva convidou o general a examinar o plano de guerra. O soldado aceitou juntar-se a eles no bom combate; o encontro é marcado para o dia seguinte. Mas os Cristeros são entregues pelo general e fuzilados sem julgamento. Joaquim despede-se do seu delator nesses termos: “O senhor me entregou à morte. Em troca, eu ofereço minha intercessão em teu favor diante do Pai Onipotente.” 20

As mães não foram excluídas do sacrifício de todo o povo católico. A mãe de Luis Navajo Origel dizia simplesmente: “Eu ofereci a vida de meus quatro filhos a Cristo. Mas o Senhor não quis tantos, só tomou dois”. E aos comissários do governo que vieram confiscar nas suas fazendas suas reservas de trigo: “Meus bons senhores, se permiti que entregassem meu filho à morte por Nosso Senhor Jesus Cristo, como poderia recusar hoje o trigo dos meus campos? Aqui está a chave para entrar nas reservas, confisquem tranquilamente.”

De abril a dezembro, os Cristeros, que não tinham organização nenhuma, eram vencidos assim que se aproximavam das grandes cidades. Confrontavam um exercito federal com cerca de 80.000 homens equipados pelos Estados Unidos com metralhadoras, trator de artilharia e aviões de combate. Os confrontos são verdadeiros massacres, a ponto de o general Jesús Ferreira, comandante em chefe das tropas federais do estado de Jalisco, declarar: “Não partimos para uma campanha, mas para uma caça” 21. Os federais julgam então que a revolta acabara.

 

3.3 A organização da Cristiada

Mas os Cristeros se reagrupam e se organizam. Em 1927, põem-se às ordens de um general em chefe: o general Gorostieta, militar aposentado. Grande estrategista, alcança-lhes muitas vitórias.

No dia 21 de junho de 1927, a brigada feminina de Santa Joana D’Arc (a B.B.) foi criada. Organizada como uma rede secretíssima, mobilizou até 25.000 mulheres cristeras como espiãs, enfermeiras ou para a logística.

“Trata-se em suma de uma organização que, durante dois anos, pôs milhares de mulheres em ação, dia e noite, fazendo a ligação entre a cidade e os campos de batalha." 22

“Algumas delas, possuindo conhecimentos científicos bem superiores aos dos camponeses, cumpriam a função de artífices e de professoras, ensinando os Cristeros a fabricar explosivos, dinamitar os trens, manipular armas de artilharia e detonadores. As B.B. levaram muito a sério sua missão de guerra… Valendo-se de todos os meios, organizavam bailes nas cidades para ganhar a confiança dos militares, despistar as suspeitas e obter informações. […] O cuidado dos feridos escondidos nos povoados ou na cidades incumbia à B.B. bem como a direção dos rudimentares hospitais dos campos de Altos, Colima, Sul de Jalisco e do hospital clandestino de Guadalajara. […] Elas trabalhavam na propaganda e na imprensa clandestina, […] garantiam sobretudo o correio político e militar dos Cristeros e contribuíam na sua rede de informação.” 23

Valendo-se de seu bom conhecimento do terreno, armamentos, munições e dos cavalos subtraídos ao inimigo (em novembro, 40% estavam armados com excelentes Mauser “federais”), os Cristeros ganharam terreno.

Em Puerto Obristo, 600 federais caíram mortos. No dia 1o. de janeiro de 1927, 1.200 homens se insurgiram e controlaram o estado de Durango. “Nosso movimento é firmemente apoiado por toda a população, e os esforços do tirano para impedir o seu crescimento estão votados ao fracasso. Sem contar com nenhuma ajuda estrangeira, em um ano reunimos 40.000 homens armados”, declarou o general Gorostieta a um amigo mexicano24.

No apogeu do seu efetivo, os Cristeros serão 50.000.

O seu general em exercício, Gorostieta, testemunhou a moralidade das suas tropas: “O efetivo é composto de homens de ordem, de uma moralidade absolutamente sem precedentes nas tropas mexicanas. Daí o fracasso do governo, a despeito do apoio estrangeiro, de seu ouro e de suas práticas criminosas.” 25

Os federais buscaram então reunir a população nas cidades. “O Estado-Maior decidiu organizar concentrações, prelúdio necessário às razzias das colunas federais. O princípio era simples: deram o prazo de algumas semanas para que a população civil evacuasse um dado perímetro e viesse a se refugiar numa série de localidades previstas. Passado esse prazo, toda pessoa que se encontrasse numa zona vermelha era executada sem julgamento. As colunas confiscavam a colheita e o gado, incendiavam os pastos e florestas, abatiam à metralha o gado que não pudessem levar no trem.” 26  Não obtiveram, porém, grandes resultados. Em 1929, os Cristeros controlavam três quartos do México habitado. A vitória estava ao alcance das mãos.

 

4. O fim da rebelião

No dia 22 de junho de 1929, a imprensa publicou os “arreglos” ou “acordos”. As negociações secretas entre o governo mexicano e os bispos chegaram na véspera a uma resolução que previa o fim imediato e incondicional dos combates e o reinício do culto público no dia seguinte.  

Não se tratou da modificação ou supressão das leis anti-católicas. Foi mantido até mesmo o registro dos padres. Retornou-se à situação de 1926, sem consideração pelo povo mexicano que, há três anos, dava sua vida pelo retorno de Cristo aos altares… e que estava próximo do sucesso.

Jesus Degollado, general em exercício dos Cristeros, julgou que era preciso se submeter. Ele se dirigiu às suas tropas, com a voz embargada pela dor: “Sua Santidade, o papa, por intermédio do excelentíssimo núncio apostólico, decidiu, por razões que ignoramos mas que, como católicos, aceitamos, que o culto recomece sem que a lei seja alterada… Esse acordo arrancou o que há de mais nobre e santo em nosso estandarte, no momento em que a Igreja se declarou resignada com o que obteve… Em conseqüência, a Guarda nacional assume a responsabilidade do conflito… Enquanto homens, possuímos uma satisfação que ninguém nos poderá tirar: a Guarda Nacional não desaparece vencida por seus inimigos, mas abandonada por aqueles mesmos que seriam os primeiros a receber os frutos de nossos sacrifícios e abnegação! Ave Cristo! Aqueles que, por vós, seguem para a humilhação, para o exílio e, talvez, para uma morte não gloriosa, com o mais acendido amor vos saúdam e, mais uma vez, vos aclamam rei de nossa pátria.” 27

Os 6.000 Cristeros que se submeteram são logo massacrados, 5% da população do México foge para os Estados Unidos, para o deserto ou para a cidade grande. A maioria dos combatentes, no entanto, retomou suas ocupações civis sem se esconder. Foram estrangulados em casa, esfaqueados nos campos, fuzilados na saída da Missa, diante do povoado reunido. Até 1941 houve quem morresse nos campos mexicanos pelo singular crime de Cristiada. De 1926 a 1929, os católicos não haviam perdido mais do que 5.000 homens.

 

CONCLUSÃO

À revolução dos federais, com seu cortejo de violências, pilhagens ou destruição (o seu grito de guerra era “Viva el demonio”) contrapôs-se o fervor e a moralidade irretocável dos combatentes de Cristo Rei. A ordem do dia de um dos seus generais era a seguinte: “Não buscamos nem honrarias, nem ouro, nem imóveis, trabalhamos pelo reinado de Cristo e é por Ele que lutaremos até a vitória ou até a morte. Pouco importa se sucumbirmos, é preciso que o sangue dos católicos lave o México de suas enormes máculas. Portemo-nos como dignos soldados de Cristo.” 28

Luis Navajo Origel, declarou: “Matarei por Cristo os que matam Cristo, e talvez venha morrer por Ele, que tanto preciso disso; eu oferecerei o sangue da Redenção.” Ele caiu morto à frente da sua tropa em 10 de agosto de 1928, tinha 30 anos.

Manuel Bonilla, estudante, escreveu no seu diário de guerra: “Eu bem sei que, para as grandes coisas, Deus se serve dos pequeninos e que o remédio não vem de onde se espera… Confio na bondade de Deus: todos esses sacrifícios não serão em vão.” 29

Abandonado por todos, o povo católico mexicano aceitou a terrível provação das perseguições com espírito de reparação. Seu único apoio: a fé em Cristo Rei e Nossa Senhora de Guadalupe.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF. Tradução: Permanência)

  1. 1. Dito mexicano.
  2. 2. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 298-299.
  3. 3. J. Meyer, op. cit., p. 141.
  4. 4. J. Meyer, op. cit., p. 167.
  5. 5. Conforme H. Keraly, op. cit, p. 31 a 36.
  6. 6. Testemunho de Dom Francisco Campos, Santiago Bayacora, Estado de Durango, citado por Keraly, op. cit., p. 33-34.
  7. 7. J. Meyer, La cristiade, l’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit, p. 162.
  8. 8. H. Keraly, op. cit., p. 46.
  9. 9. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  10. 10. A. Rius Facius, Mejico Cristero, Ed. Patria, Mexico, 1966, citado por H. Keraly, p. 62.
  11. 11. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  12. 12. J. Meyer, La cristiade, L’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit., p. 62.
  13. 13. H. Keraly, op. cit., p. 39.
  14. 14. J. Meyer, Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, p. 54-55.
  15. 15. José de Jesus Manriquez y Zarate foi aprisionado e em seguida exilado por 17 anos.
  16. 16. Depoimento de Clemente Pedroza a Jean Meyer, H. Keraly, op. cit., p. 73.
  17. 17. H. Keraly, op. cit., p. 78.
  18. 18. Cf. Rius Facius, op. cit., Ed. Patria, Mexico, 1966, em H. Keraly, op. cit., p. 71.
  19. 19. H. Keraly, op. cit., p. 70.
  20. 20. Cf. Rius Facius, op. cit., em Keraly, p. 66.
  21. 21. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 170.
  22. 22. J. Meyer, La christiade, L’Église et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por Keraly, p. 105.
  23. 23. J. Meyer, op. cit, citado por Keraly, p. 119.
  24. 24. Miguel Augustin Pro, carta de 30 de maio de 1929, Ed. Tradicion, Mexico, 1976, p. 461-462, citada por H. Keraly, op cit., p. 151.
  25. 25. Miguel Augustin Pro, p. 461-462, citado por H. Keraly, p. 151.
  26. 26. J. Meyer. Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, citado por H. Keraly, op. cit., p. 155.
  27. 27. Rius Facius, op. cit., p. 391-392, citado em H. Keraly, op. cit., p. 193.
  28. 28. Ordem do dia do general Ochoa, morto carbonizado no dia 13 de novembro de 1927, devido à explosão de uma bomba incendiária, conforme Joachim Blanco Gil, El clamor de la sangre, Ed. Jus, Mexico 1967.
  29. 29. Conforme Joachim Blanco Gil, op. cit.

A cruzada albigense (parte IV)

[Esse texto foi extraído da obra apologética de Jean Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie (Beauchesne Editions, 1912). Jean Guiraud desmantela, parte por parte, os falsos argumentos do anticlericalismo, dedicando um capítulo ao tema da Cruzada contra os Albigenses. Na primeira parte, resumiu os argumentos dos anticlericais e mostrou suas contradições. Na segunda, terceira e quarta parte, examina a moral e a doutrina dos albigenses.]

 

Jean Guiraud

Após analisar a moralidade do albigensianismo e sua negação do casamento, devemos tomar nota de suas doutrinas políticas e sociais.

 

Negação das sanções sociais e do patriotismo

Os outros compromissos assumidos pelos hereges quando se juntavam à seita são contrários aos princípios sociais nos quais se fundam as constituições de todos os Estados.

Eles prometiam, no dia de sua iniciação, não fazer nenhum juramento, porque, como todas as seitas cátaras ensinavam, “não se deve fazer juramento”. Atualmente, há seitas filosóficas e religiosas que rejeitam a tomada de juramentos com o mesmo ânimo, e conhecemos todas as dificuldades que acarretam em uma sociedade que, apesar de sua secularização, ainda envolve o uso de juramentos como parte dos aspectos mais importantes da vida social.

Que tipo de mudanças profundas tais doutrinas trariam aos Estados da Idade Média, quando todas as relações dos homens entre si, de súditos com seus soberanos, de vassalos com seus suseranos, de cidadãos da mesma cidade, dos membros de uma confraternidade em si, eram garantidas por um juramento, quando, finalmente, toda a autoridade derivava sua legitimidade de um juramento?

Era um dos laços mais fortes do corpo social que os maniqueus1 destruíam e, ao fazê-lo, se assemelhavam a verdadeiros anarquistas. Agiam também como verdadeiros anarquistas quando negavam à sociedade o direito de derramar sangue em defesa contra seus inimigos internos e externos, invasores e malfeitores.

Tomavam em sentido literal e rigoroso a palavra de Cristo declarando que quem matar pela espada deve perecer pela espada, e disso deduziam a proibição absoluta, não apenas do homicídio, mas também de matar por qualquer razão.

Desse princípio advinham consequências sociais muito sérias, e, em sua formidável lógica, os albigenses não se furtavam delas.

Qualquer Guerra, mesmo que fosse justa em suas causas, tornava-se criminosa em razão das matanças que acarretava: o soldado defendendo sua vida no campo de batalha, após ter se armado pela defesa de seu país, era tão assassino quanto o criminoso mais vulgar; porque nada lhe autorizava derramar sangue humano.

Assim como o soldado em campo de batalha, os juízes, nem qualquer detentor de autoridade pública em seu ofício têm direito de prolatar sentenças de morte. “Deus não quis”, dizia o albigense Pierre Garsias, “que a justiça dos homens pudesse condenar alguém à morte”; e, quando um dos seguidores da heresia se tornou cônsul de Toulouse, ele lhe lembrou do rigor desse princípio.

Os hereges do Século XIII negavam à sociedade o direito em si de punir? É difícil dizer, porque, se a maioria deles parecia sustentar essa posição ao proclamar que “não se deve, de modo algum, fazer justiça, que Deus não quer justiça”, outros não hesitavam em restringir essa negação absoluta às sentenças capitais, “ao condenar alguém à morte”.

A última posição, porém, parece ter sido tomada por considerações políticas, mitigando o rigor do preceito através de restrições razoáveis. A Suma Contra os Gentios nos ensina que todas as seitas ensinavam “que não deveria haver nenhuma punição, nem justiça alguma feita pelo homem”; o que parece indicar que a doutrina cátara em si negava, absolutamente, à sociedade o direito de punir.

De qualquer modo, pela proibição absoluta de juramentos e da guerra, pelas restrições feitas às leis positivas, os albigenses tornaram difícil a existência e a preservação não apenas da sociedade medieval, mas de qualquer sociedade; e é compreensível que a Igreja tenha, incansavelmente, denunciado o perigo que suas doutrinas poderiam representar à humanidade.

“Devemos admitir”, diz o autor das Adições à História do Languedoc, “que os princípios do maniqueísmo e dos hereges dos Séculos XII e XIII, atacando as fundações últimas da sociedade, produziriam as perturbações mais estranhas e perigosas e colocariam em cheque as leis e a sociedade política para sempre”.

Esses são os hereges que Aulard e Debidour apresentam como sendo simples reformadores do Cristianismo, que Gauthier e Deschamps apresentam como “pessoas simples e pacíficas” e que Guiot e Mane apresentam como homens gentis e inofensivos, sonhando, apenas, com poesia.

O Sr. Lea, em sua História da Inquisição, entendia os cátaros melhor. Embora fosse protestante e inimigo da Igreja, percebeu que o niilismo dos albigenses representava um retorno ao barbarismo, enquanto a doutrina cristã representava a civilização e o progresso.

A vitória dos Albigenses teria sido o despertar do fanatismo mais terrível, pois dava glória ao homem que cometesse suicídio e o dever às famílias de se dissolverem. Ao combate-los, a Igreja Católica defendeu, com a verdade da qual é depositária, a causa da vida, do progresso, da civilização.

É isso que dizem os documentos contra esses historiadores privados de consciência, que pintam um quadro falso e fantasioso dos albigenses, para melhor representá-los como inocentes vítimas da Igreja.

  1. 1. N.T.: O maniqueísmo foi uma religião da antiguidade criada por um persa chamado Maniqueu. O maniqueísmo inseria-se em um conjunto de religiões e heresias que foram condenadas pela Igreja e agrupadas sob o nome de gnosticismo, cujos princípios eram bastante semelhantes ao catarismo medieval: a pregação da salvação através do conhecimento, crença num deus bom em batalha contra um deus mal, crença no mal como uma substância (é bastante comum nas seitas gnósticas a ideia de que o corpo é mau em si), mentalidade sectária que tornava os “iluminados” separados do restante da sociedade, que vivem em trevas. O autor chama os cátaros de maniqueus para enfatizar a natureza gnóstica que o catarismo tinha em comum com o maniqueísmo. O leitor mais atento perceberá que muitos dos erros, heresias e seitas dos nossos tempos são profundamente gnósticos, incidindo nos mesmos erros dos maniqueus antigos e dos cátaros medievais.