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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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História (77)

Perseguição à Igreja Católica sob o regime chinês.

Albert Galter

Foi pelo ano de 1920 que a ideologia marxista-leninista foi introduzida na China por agentes a serviço da Rússia. No espaço de trinta anos conseguiu ela impor-se a cerca de meio bilhão de homens, graças à hábil inserção dos seus profetas no jogo dos acontecimentos nacionais, e ao proveito que eles tiraram da situação internacional criada no Extremo-Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Fundado em Shangai em 1921, o Partido Comunista Chinês precisou, pouco a pouco, o seu caráter revolucionário, com o auxílio da Missão de peritos industriais e militares russos que se achava na China desde 1920.

Quando Tchang Kai-Chek começou em 1927 a obra de reunificação interior do país, marchando contra o governo que sediava então em Nankin, os comunistas, aproveitando a guerra civil, formaram por seu lado um governo em Hankow e puseram à testa dele Mao Tsé-Tung (1928). (Continue a ler)

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

Quando os ímpios tomam o poder

Alexandre Bastos

“Nunca antes neste país”

O Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980, três anos antes da CUT e quatro anos antes do MST. A fundação se deu no Colégio Sion, em um bairro de classe média alta de São Paulo e o manifesto de criação advogava a criação de uma “sociedade igualitária” sem “explorados nem exploradores” e a “democratização da sociedade em todos os níveis”[1], inserindo o partido na continuidade da tradição do marxismo brasileiro, gestado no período 1954-1964.

Entre os fundadores do partido, encontram-se vários ex-membros de organizações “subversivo-terroristas” como o José Dirceu (líder da Ala Marighella, futura Ação Libertadora Nacional), Fernando Pimentel e José Genuíno. Dilma Rousseff, do VAR-Palmares, foi membro-fundadora do PDT e só ingressaria tardiamente no PT.

No entanto, em que pese a influência de vários “ex-guerrilheiros”, a principal base do partido deve ser procurada entre os sindicalistas e no progressismo "católico"[2]. Diz um historiador:

“Em muitos locais as reuniões do PT se davam dentro da Igreja, como em Bebedouro (SP), onde o partido foi fundado no salão paroquial. Em Barretos (SP) o PT nasceu da ação de estudantes da Engenharia Civil, mas só se enraizou socialmente com o apoio da Pastoral da Juventude. Mas isto dependia exclusivamente do local”.

Outra citação:

“No Piauí a formação do PT se deveu à Igreja Católica (um padre italiano muito contribuiu, inclusive financeiramente)...

“No Acre (...) o PT foi fundado em 12 de março de 1980 e fortaleceu-se no campo apropriando-se da ação da Igreja Católica na organização dos seringueiros em sindicatos rurais.”

A influência dos católicos progressistas se estendida à própria organização do partido:

“Os núcleos do PT não eram uma herança das células comunistas e nem das seções socialistas. Em parte eles mimetizaram as CEBs e foram a expressão política de uma organização popular originalmente religiosa.”[3]

Desnecessário dizer que essa ala progressista estava muito distante do catolicismo verdadeiro, aquele que condenou muitas vezes pela voz dos papas as ilusões socialistas, com Leão XIII – que chamou a essa doutrina de “Peste mortal” (Quod Apostolici Muneris) – ou Pio XI – que declarou que “ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Quadragesimo Anno). A oposição a essas doutrinas é tão formal, que um decreto do Santo Ofício de 1949, tratando da licitude de um católico frequentar os sacramentos após propagar ou publicar livros comunistas, responde taxativamente: “Negativo”.

*

Além da ala progressista da Igreja, havia o sindicalismo, cujo líder máximo era então o Luís Inácio Lula da Silva, responsável pela organização de centenas de greves na década de 1970 e 1980[4], até ser detido nas instalações do DOPS paulista, na época dirigida por Romeu Tuma, que declarou:

“Lula era o nosso melhor informante. [...] Lula nos prestava informações muito valiosas: sobre quando e onde haveria reuniões sindicais, quando teriam greves, onde o patrimônio das multinacionais poderia estar em risco por conta dessas paralisações.”[5]

Essas greves, nos diz Romeu Tuma, eram combinadas antecipadamente com os empresários e o agente “Barba” – como era conhecido – avisava o Dops. O objetivo seria o de aumentar o valor de venda dos veículos, para lastrear moralmente a ideia de que “vamos repassar aos preços dos carros o aumento de salário obtido pela categoria”.

Sobre o tempo que passou detido, escreveu o insuspeito Mino Carta:

“Prenderam Lula, para quem foi mal menor ter sido entregue aos cuidados do Tuma. Todo dia, uma perua da polícia vai buscar Marisa e os filhos e os traz para visitar o preso em uma grande sala anexa ao gabinete de Tuma [...] De vez em quando, lulas à doré preparadas em restaurante próximo são almoçadas pelo homônimo. Me animo a ligar para o Tuma, que não conheço, para solicitar uma visita ao presidente do sindicato. ‘Venha quando quiser’”[6]

 Não se tratava de uma prisão, e sim de uma hospedagem!

*

Curiosamente, essa composição do partido fez com que ele não fosse bem-visto inicialmente pela esquerda mais purista, que o acusava de ser “a ideologia do golpismo”. Disseminava-se a ideia de que o partido fora criado com incentivo do General Golbery com o intuito de dividir a esquerda.

No entanto, ao abrigar uma espécie de pluralismo no seio do partido do partido – consagrado no chamado “direito de tendências” – o PT conseguiu, pouco a pouco, aglutinar quase todo o espectro da esquerda. Com efeito, ao cabo de vinte anos, muitos partidos acabariam por se reduzir a satélites do PT.

Desde o início, o partido dependeu do fundo partidário e de contribuições estatutárias, pois era desprezível a contribuição dos afiliados. Cada parlamentar deveria destinar 30% dos seus vencimentos líquidos ao partido bem como ceder assessores para tarefas partidárias – aparentemente, os petistas não viam nenhum problema ético nesse estranho uso da coisa pública.

Do ponto de vista intelectual, a produção dos petistas se compunha de alguns periódicos, como o “Brasil Agora”, o “Jornal dos Trabalhadores”, o “Boletim Nacional”, o “PT Notícias” e o “Linha Direta”. Havia ainda algumas revistas como “Teoria e Política”, “Esquerda 21” e a “Revista Práxis”. É preciso mencionar ainda a Fundação Perseu Abramo, com a publicação de livros e promoção de eventos.

A evolução do partido é impressionante: já em 1982 elege os primeiros deputados; em 1985, Eduardo Suplicy concorre à prefeitura de São Paulo[7] – por essa época, o PT já tinha 10% de preferência partidária entre os eleitores; em 1988, elegeu prefeitos em 36 municípios, incluindo aí as capitais São Paulo, Porto Alegre e Vitória. O número de vereadores eleitos saltou naquele ano para 992; em 1989, Lula concorreu pela primeira vez à presidência – era a campanha “Lula lá” – conseguindo chegar ao segundo turno à frente de Leonel Brizola, perdendo de Collor por uma pequena diferença de votos.

Segundo o historiador do lulismo André Singer, o povo brasileiro é naturalmente conservador no sentido de que procura a “ordem”. Em 1989, Lula perdera principalmente nos estratos mais pobres da população, que votaram em Collor, percebido como a manutenção da ordem contra o baderneiro de esquerda – os mais pobres, aliás, eram os que demonstravam maior hostilidade às greves. Segundo um analista:

“No núcleo de apoio recebido por Lula nas suas quatro tentativas prévias de chegar à presidência, ocorridas entre 1989 e 2002, encontravam-se os eleitores com maior nível de escolaridade, concentrados principalmente nos estados mais urbanos e industriais do Sul e do Sudeste.”[8]

Só no ano de 2006 a base de eleitores de Lula da Silva mudará, mas não adiantemos.

Ainda sobre essa primeira década de vida do PT, duas informações importantes: quem entrar no site do PT verá uma linha do tempo indicando o “Movimento das Diretas Já” e a “Constituição de 88”. Na verdade, não foi o PT que deu início ao movimento das Diretas – e sim o PMDB, então preferido dos eleitores – nem apoiou a Constituição cidadã de 88, pois não lhe parecia revolucionária o bastante.

 

O Foro de São Paulo

O muro de Berlim caíra em novembro de 1989 e, dois anos depois, a União Soviética oficialmente terminava, dando início a um movimento de questionamentos e redefinições na esquerda mundial. Nesse cenário, os petistas pareciam trilhar dois caminhos opostos: moderação – para consumo externo, certamente, tendo em vista as necessidades eleitorais; e reafirmação dos ideais socialistas.

Lula por pouco não ganhara a eleição contra Fernando Collor, o poder parecia estar perto. Os dirigentes percebiam, no entanto, que não seria possível chegar ao Planalto sem uma renovação profunda do discurso. Os marxistas, avaliam, tinham um discurso coeso e atraente para o seu público de esquerda, mas faltava-lhes conteúdo programático, propositivo – não seria possível disputar uma eleição sem apresentar respostas a problemas concretos como o da inflação, por exemplo.

Esse problema também se veria nas eleições de 1994, quando Lula, com apenas 27% dos votos, perdeu no primeiro turno. Segundo Lincoln Secco: “Sem um discurso econômico convincente o projeto democrático e popular não passava de uma colcha de retalhos de boas intenções abstratas. O que o PT tinha era um conjunto de políticas sociais e o compromisso cada vez maior de evitar rupturas que afetassem a lucratividade do setor financeiro e uma vaga defesa do mercado interno de massas.”[9]

Para resolver essa questão, Lula criou o “Instituto da Cidadania”, e passou a ter uma atuação mais “à margem dos debates ideológicos internos”. Membros de outros partidos e economistas não alinhados com o PT histórico serão convidados a falar. José Dirceu procurará estreitar laços com o PMDB[10] e chegará a declarar ser “preciso abandonar a identidade com o socialismo real, ´aquele cadáver insepulto´”.

Importante ressaltar que não se tratava de uma renúncia aos princípios originais, mas de uma mudança de tática – era o surgimento do que André Singer chamou de “espírito do Anhembi”. Em outras palavras, tratava-se da transição de um “reformismo forte” – a favor da distribuição de terras, tributação do patrimônio de fortunas e grandes empresas, diminuição da jornada de trabalho etc. – para um “reformismo fraco”. O objetivo final mudara muito pouco, fora a decisão de manter a “ordem econômica” e de não entrar em choque com “o grande capital”, mas o meio de perseguir os objetivos se tornara mais sutil (e seguramente mais perigoso). O PT parecia aqui seguir a máxima de Lenin: “Confundir o inimigo e o público: esta é a tarefa, enquanto se faz o que deve ser feito”

Um efeito colateral dessa mudança no discurso foi a fuga da militância, que, desde então, se profissionalizou – ou seja, passou a ser remunerada. É o que diz um autor petista:

“O comparecimento da militância à rua foi substituído pelos cabos eleitorais profissionalizados e os grandes comícios de primeiro de maio trocados por shows com prêmios para o público (automóveis e casas). Foi nítida a diminuição deste espaço da política.

“A primeira reação do PT foi contratar pessoas até para fazer suas campanhas de rua. Era a terceirização da militância...”[11]

*

Em paralelo, o partido renovava o radicalismo. No ano de 1990, com o intuito de “recuperar na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu”, Lula e Fidel Castro convocaram conjuntamente um encontro com todos os partidos e organizações comunistas-socialistas da América Latina e do Caribe. Esse encontro viria a ocorrer no mês de julho de 1990 na cidade de São Paulo – daí o nome Foro de São Paulo – e se repetiria, anualmente, por mais de duas décadas em diversas cidades latino-americanas.

O primeiro encontro se encerrou com a declaração seguinte: “Neste marco, renovamos hoje nossos projetos de esquerda e socialistas.” Além de diversos partidos de esquerda, participaram do Foro diversas organizações revolucionárias, tais como o Túpac Amaru, o MIR, a Frente Sandinista de Liberación Nacional e as FARC – o PT procuraria posteriormente ocultar do grande público a participação das FARC no Foro de São Paulo, por seu envolvimento com o narcotráfico. O Partido Comunista Cubano, naturalmente, também era membro.

É importante dizer que não se tratava de um convescote de velhos idealistas, pois o Foro tinha caráter prático, deliberativo, tomando decisões que deveriam ser acatadas, assinadas e postas em prática por todos os membros permanentes do foro – esse é um ponto extremamente grave.

Alguma das deliberações levaram à criação das comissões da “Verdade, Reparação e Justiça”, implantadas inicialmente na Argentina e, em seguida, no Chile e no Brasil, com o objetivo de transformar terroristas em heróis, propiciando-lhes gordíssimas indenizações até os dias de hoje.

Outra deliberação visava a complementação e compensação das diferenças das economias da região. Em português claro, os países mais ricos deveriam ajudar os mais pobres. Pode-se aqui perguntar se esse pensamento não está na origem da conivente passividade do governo brasileiro frente à expropriação da Petrobrás na Bolívia pelo presidente cocaleiro Evo Morales, ou na revisão antecipada e injustificada da tarifa paga pelo Brasil ao Paraguai pela energia de Itaipú[12], onerando o Brasil em 240 milhões de dólares ao ano desde 2011. Também podemos mencionar os empréstimos bilionários, em condições diferenciadas e sem qualquer lastro, às ditaduras de Cuba[13] e da Venezuela – que evidentemente não tinham condição de quitar a dívida. Esses países estão hoje inadimplentes e devem cerca de R$ 4 bilhões ao BNDES.   

Outras deliberações englobavam desde o apoio a pautas feministas até o posicionamento comum em face de questões geopolíticas. No entanto, nem tudo que era discutido e decidido é conhecido pelo grande público, sendo reservado ao núcleo duro da organização.

Quem financiava o Foro de São Paulo? Segundo Graça Salgueiro, estudiosa do Foro de São Paulo:

“Deve-se considerar como financiadores da organização, o que envolve Encontros, reuniões do Grupo de Trabalho que ocorrem em vários países quatro vezes ao ano, participações como observadores de eleições nos países membros etc, o próprio PT (hoje sabemos das ações bilionárias que estão em curso nas operações conjuntas do Ministério Público e Polícia Federal e que muito raramente são para proveito próprio), as FARC, os petro-dólares venezuelanos – da época de Chávez porque hoje a Venezuela está falida – e do mega-investidor George Soros, através de incontáveis ONG que pertencem e participam dos eventos.”[14]

 

A morte de Celso Daniel

As eleições de 1998 se aproximavam e, a ambiguidade anteriormente mencionada da reafirmação do radicalismo e da necessidade de um discurso eleitoral mais ao centro, encerrou-se rapidamente com a eleição de José Dirceu para a presidência do PT[15], que soube unificar o discurso do partido. Apesar de atacar o Plano Real na campanha eleitoral e ameaçar rever as privatizações, em especial a da Vale do Rio Doce, Lula adotava um discurso mais conciliador. De todo modo, com apenas 32% dos votos, o petista voltou a perder no primeiro turno.

Apesar da derrota, o PT vinha conseguindo avanços importantes, como foram as eleições municipais em SP para as prefeituras de Campinas, Ribeirão Preto e Santo André, cujo prefeito acabou morto em condições até hoje não inteiramente elucidadas.

Ora, em Santo André, município da região industrial do grande ABC[17], havia um esquema de propinas: cada uma das companhias de ônibus e de coleta de lixo era obrigada a fazer pagamentos mensais no valor de até R$ 200 mil reais (corrigido para os dias de hoje). Esse dinheiro destinava-se principalmente para o custeio de campanhas[18] – era a “propina altruísta”, no dizer dos petistas.

Os cofres do município eram um dos principais ‘propinodutos’ do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, assim como os das cidades de Campinas e Ribeirão Preto, todas em SP[19].

O Prefeito Celso Daniel não ignorava os achaques aos empresários, mas se indignava com o fato do seu pessoal reter parte da propina para o enriquecimento pessoal, numa espécie de “Caixa três” – idealista, o prefeito queria que os recursos fossem integralmente destinados a campanha eleitoral, e a de 2002 era muito importante para o partido. Urgia interromper o esquema porque o Ministério Público já estava no encalço e, faltando apenas nove meses para as eleições, ninguém queria problemas.

Dia 18 de janeiro de 2002, Celso Daniel foi ao seu restaurante favorito, o Rubayat, com um dos operadores do propinoduto, um ex-segurança e amigo seu apelidado de Sombra. Após o jantar, o prefeito seguiu no carro de Sombra até ser interceptado por um grupo de sequestradores oriundos da “favela do Pantanal” – ao que tudo indica, Sombra destravou as portas do carro, entregando o prefeito para os bandidos[20].

Celso Daniel foi levado para um barracão onde foi despido, torturado, alvejado com 11 tiros e jogado no meio da rua como um pano velho. O delegado Romeu Tuma disse que, quando encontrado, o cadáver trazia as mãos juntas: morreu implorando para que não o matassem.

Em pouquíssimo tempo, a polícia capturou os sequestradores, declarou que Celso Daniel fora vítima da violência urbana e deu o caso por encerrado. Segundo a versão oficial, os sequestradores não estariam atrás do prefeito, mas de outro empresário, que conseguira escapar. Frustrados, atacaram o primeiro carro que viram. Ao descobrir que haviam sequestrado o prefeito, tiveram medo da repercussão e, para não serem pegos, o assassinaram.

Ora, essa tese não para em pé: os bandidos se contradiziam a todo momento, não havia sinal da tal perseguição anterior mencionada, e nenhum deles sabia dizer que empresário seria esse. Por outro lado, se não sabiam que se tratava do prefeito, por que sequestraram apenas um dos passageiros do carro? Por que o torturaram? Para piorar, enquanto o prefeito estava preso, o “sombra” foi visto entrando sorrateiramente à noite na casa do sequestrado.

Nos meses seguintes, sete homens com algum envolvimento com o caso morreriam: o garçom do Rubayat, o legista, o investigador da polícia civil, o funcionário da funerária etc. Uma das mortes que mais chamou a atenção foi a de Dionísio Severo – líder dos sequestradores. Prestes a revelar tudo que sabia para o caso, foi conduzido, para sua proteção, para uma penitência de segurança máxima a 400 km de São Paulo. Foi morto poucos dias após sua chegada ao presídio, tendo recebido mais de 40 facadas.  

Uma aura de mistério ainda cerca o caso, mas é certo, como concluiu posteriormente a CPI dos Bingos, que Celso Daniel foi vítima de crime de mando.

Segundo alguns autores, uma das dificuldades da investigação veio do próprio PT, que agiu para estancar a tese de um crime envolvendo corrupção[21]. Afirmou Silvio Grimaldo:

“O delegado Hermes Rubens Siviero Junior (...) até tentaria mergulhar na investigação. Chegara a expedir um mandado de busca e apreensão no apartamento de Celso Daniel, à procura de roupas do prefeito, mas foi barrado especialmente pela ação do deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, que recorreu à chefia da PF para impedir a ação”[22]

Romeu Tuma, por sua vez, fala na criação de “laudos fajutos”, sumiço de provas, destruição de escutas e pressão sobre os investigadores.

Os familiares de Celso Daniel não aceitaram a tese oficial da polícia e, ameaçados de morte – por quem? – tiveram de deixar São Paulo.

 

Paz e amor

O segundo governo FHC foi severamente impactado pela desvalorização cambial de 1999, a crise argentina de 2001 e o apagão no mesmo ano que, no seu auge, deixou 60 milhões de brasileiros sem luz. Tudo isso, somado à falta de empenho do presidente em eleger o seu sucessor, contribuiu para a vitória de Lula em 2002 contra o tucano José Serra[25].

“O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu governo”, declarou comicamente o novo presidente, que encerrou o seu discurso de posse exclamando: “viva o povo brasileiro”!

Foi uma apoteose: a cerimônia, que durou três horas, foi dirigida pelo publicitário Duda Mendonça, e dezenas de milhares de pessoas foram para a Esplanada dos Ministérios assistir os shows de Gilberto Gil e da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, ou presenciar o presidente-operário a bordo do Rolls-Royce 1953 que usou para ir até o Congresso Nacional. O que então não se sabia é que parte dos gastos da festa estava sendo paga pelo publicitário Marcos Valério...

O Globo concedeu mais de uma dúzia de páginas ao evento, a chamada de capa do jornal dizia: “Lula assumirá pregando conciliação”. Na capa do Estadão, lia-se: “Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e com cuidado”. Já a Revista Veja estampava na capa os dizeres: “Lula de mel”, e iniciava a reportagem com o clichê: “Um dia para a história”. Os jornalistas perdiam a compostura: “O povo esteve no centro da cena como em nenhuma outra posse”, escrevia Tereza Cruvinel. No O Dia, Frei Beto era ridículo: “Obrigado, dona Lindu, por ter dado ao Brasil um presidente com capacidade de liderança, transparência ética e profundo amor ao povo [...] O Brasil merece este fruto de seu ventre: Luiz Inácio Lula da Silva”

*

O início do governo parecia seguir à risca as palavras de José Sarney: “governar é como tocar violino, você assume com a esquerda e toca com a direita”. Com efeito, inicialmente, Lula procurou se desvencilhar da imagem de sindicalista que fizera com que, às vésperas das eleições, o risco brasil disparasse e o dólar alcançasse algo em torno de R$12,50 (corrigido para valores de hoje)[26]. O primeiro movimento nesse sentido, antes mesmo da eleição, foi a “Carta ao Povo Brasileiro”, redigida a muitas mãos, contendo uma série de defesas à segurança jurídica, respeito aos contratos e ao tripé macroeconômico (superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação)[27].

Não houve aqui nenhum “estelionato eleitoral”, como ocorrerá anos mais tarde na reeleição de Dilma Rousseff. Lula preservou imagem favorável junto ao mercado seguindo um posicionamento que poderia ser descrito como uma continuidade e mesmo um aprofundamento do projeto neoliberal de seu antecessor. Para tanto, nomeou o ex-diretor do Bank Boston Henrique Meirelles para o Banco Central e, para o Ministério da Fazenda, não optou por nenhum dos quadros do PT responsáveis pelo programa econômico das eleições disputadas anteriormente, mas o ex-prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Palocci, que procurou se cercar de nomes mais à direita, como o do economista Marcos Lisboa[28]. Nos primeiros meses do governo, a taxa de juros foi aumentada, assim como a meta de superávit primário (que passou para 4,25%), e foi anunciado um enorme corte do orçamento público, de 14 bilhões de reais. Algumas reformas importantes foram realizadas, como a da previdência do funcionalismo[29] – que Lula levou pessoalmente ao Congresso – a reforma do crédito e a do setor imobiliário[30].

Naqueles anos, a conjuntura não poderia ser mais propícia: ao longo do seu primeiro mandato, a economia mundial crescia a uma taxa média anualizada de 3,9% e vivia-se o chamado “superciclo das commodities”[31], causado pela demanda crescente da China e outros emergentes, beneficiando fortemente o Brasil e outros exportadores de matéria prima. A balança comercial agrícola no período disparou: passou de 19,9 bilhões de dólares em 2003 para 34 bilhões em 2006. Não fosse tudo, o período foi marcado pela redução das taxas de juros em todo o mundo, estimulada pelo banco central norte-americano[32], o que beneficiou todos os emergentes.

Era o cenário ideal para seguir com a promoção das reformas de que o país tanto necessitava, mas aparentemente o PT tinha outros planos...

O ano de 2003 foi um ano relativamente morno no noticiário político, mas, nos bastidores, a máquina pública era completamente aparelhada. No Planalto, o Ministro da Casa Civil, José Dirceu, corria para fazer tantas nomeações quanto pudesse para cargos de confiança – foram quinze mil em apenas oito meses[33]. No Rio de Janeiro, a maior empresa do país era tomada pelos sindicalistas:

“Nunca em sua história a Petrobras havia realizado tantas substituições de cargos de segundo, terceiro e quarto escalões como aconteceu a partir de 2003. Embora fossem funcionários da companhia, muitos dos gerentes nomeados por recomendação de sindicatos e legendas partidárias eram desconhecidos de suas equipes. Dedicavam-se a atividades políticas havia anos. Não tinham subido degrau a degrau, ocupando as funções mais baixas de chefia até chegarem ao cargo a que foram catapultados subitamente. Boa parte também tinha formação de nível médio, incompatível com os cargos ocupados, pelo menos considerando a prática da companhia até então. O plano de carreira da estatal foi totalmente subvertido.”[34]

O nível de intervenção na Petrobrás foi tal, que chegou a ser nomeado para a Estatal um sindicalista apelidado de “o homem da lista”, encarregado de validar a indicação de nomes para os postos da empresa. Caso o indicado fosse considerado um “inimigo dos trabalhadores”, seu nome era vetado, independente de quem o tivesse recomendado.

Infelizmente, as substituições não se limitaram aos escalões inferiores: os personagens centrais do chamado “Petrolão” – o maior esquema de corrupção da história do país – foram nomeados já nos primeiros meses do governo.

*

Os dois primeiros anos do governo Lula foram marcados por uma série de polêmicas e escândalos. Apresentamos a seguir uma lista não exaustiva:

  • A primeira denúncia de mal uso do dinheiro público surgiu já nos primeiros cem dias do novo governo, envolvendo a Ministra Benedita da Silva[35].
  • Denúncia de que o PT negociara a compra do apoio do PTB por R$10 milhões de reais[36].
  • A polêmica compra do chamado “AeroLula”.
  • O escândalo Waldomirio Diniz, onde o principal assessor de José Dirceu foi flagrado pedindo propina para o PT a um bicheiro.[37]
  • A “Operação Vampiro”, com o objetivo de desmantelar uma quadrilha que fraudava compra de remédios, e cuja ação fraudulenta causou prejuízo superior a R$2 bilhões.
  • Denúncia de nova “compra” de partido. Dessa vez, a vítima seria o PSDC em Osasco que teria sido “adquirido” por R$ 500 mil pelo PT que, aparentemente, tomou gosto pelo processo.

 

Ademais, 2004 era ano de eleição e os gastos do PT alcançaram a astronômica cifra de R$100 milhões. Ninguém sabia explicar de onde vinha tanto dinheiro, visto que PSDB, PMDB e PFL somados não dispunham de tanto. Em São Paulo, para a campanha de Marta Suplicy, quatro mil cabos eleitorais iam de casa em casa para panfletar.

Além disso, um personagem até então desconhecido rodava as ruas de Brasília. Como escreveu Gérson Camarotti:

“Delúbio Soares [tesoureiro do PT] mudou, da noite para o dia, sua forma de vestir e seus hábitos alimentares. Passou a beber vinhos e uísques caros, e a circular por Brasília com um forte esquema de segurança: ´Ele usava, em várias ocasiões, batedores e carros blindados para se locomover. O esquema de segurança era parecido com o de chefes de Estado. Além de dispor de pelo menos dois batedores de motocicletas, o tesoureiro usava carros-clones.”[38]

Tudo isso, no entanto, era mero prelúdio para o que estava por vir.

 

O mensalão

Segundo a Procuradoria Geral da República, o mensalão “foi o mais atrevido e escandaloso caso de corrupção, de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil”.

O ex-ministro Celso de Mello foi ainda mais contundente:

“Estamos a tratar de uma grande organização criminosa que se constituiu à sombra do poder fomentando medidas ilícitas que tinham por finalidade a realização de um projeto de poder. Estamos a tratar de uma hipótese de macrodelinquência governamental.”

A singular gravidade do mensalão está em ter sido, nas palavras do historiador Marco Antônio Villa, “uma verdadeira tentativa de tomada de Estado” – um “golpe”, segundo Ayres Britto – envolvendo não apenas financiamento de campanhas eleitorais, mas um balcão de compra de votos no Congresso. Por meio do desvio de dinheiro público – e recursos privados adquiridos em troca de benefícios espúrios – o governo Lula comprava apoio de deputados para aprovar leis de seu interesse.

O deputado Roberto Jefferson foi o “whistleblower”, fazendo a denúncia numa entrevista, que se tornou célebre:

“Um pouco antes de o Martinez morrer, ele me procurou e disse: "Roberto, o Delúbio [Soares, tesoureiro do PT] está fazendo um esquema de mesada, um "mensalão", para os parlamentares da base. O PP, o PL, e quer que o PTB também receba. R$ 30 mil para cada deputado. O que você me diz disso?". Eu digo: "Sou contra. Isso é coisa de Câmara de Vereadores de quinta categoria. Vai nos escravizar e vai nos desmoralizar". O Martinez decidiu não aceitar essa mesada que, segundo ele, o doutor Delúbio já passava ao PP e ao PL"[39].

A repercussão foi imensa e, em poucas semanas, o poderoso ministro José Dirceu caiu.

O esquema do Mensalão se dividia em três núcleos: o financeiro (composto por empresas públicas e privadas), o operacional (composto por empresas de publicidade) e o político (deputados e membros do Planalto). Por meio de empréstimos simulados, uns R$350 milhões em valores de hoje foram distribuídos a políticos nas vésperas de votações importantes para o governo.  

O senador Arthur Virgílio fez na ocasião um violento ataque ao presidente da República, que afirmava desconhecer o esquema que lhe beneficiava diretamente:

“Vamos acabar também com essa história de que o sr. Lula não sabe de nada. Até o meu filho de dez anos sabe! Ou ele é um completo idiota, ou o sr. Lula sabe de toda a corrupção que se passou debaixo do seu nariz”. E continuava: “Na melhor das hipóteses, sr. Lula, o senhor é um idiota! Na melhor das hipóteses! Na pior, o senhor é um corrupto!”

O presidente não foi denunciado pela Procuradoria Geral da República. No entanto, Corrêa Barbosa, advogado de Roberto Jefferson, declarou o seguinte, perante a Suprema Corte:

“Se o presidente da República só poder ser julgado pelo STF, peço que esse tribunal cumpra a lei e que o procurador chame o presidente Lula para esta Corte, porque ele é o mandante de todo esse crime.”[40]

E Marcos Valério posteriormente declararia: “Não podem condenar só os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio [Soares] e o Zé [Dirceu] não falamos”[41].

*

Foi um ano complicado para o governo. Não bastasse a grave denúncia do mensalão, estourava o escândalo da Gamecorp. Empresa de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, que recebera a soma inexplicável de R$5 milhões da Telemar. Ora, a empresa do filho do presidente tinha capital social de apenas R$200 mil e era deficitária. Para piorar, longe de ser um empresário de sucesso, “Lulinha” era monitor de zoológico.

Veio em seguida o escândalo do irmão de José Genuíno, então presidente do PT, preso no aeroporto de Congonhas com US$ 100 mil na cueca, e R$ 200 mil em uma valisa. Genuíno deixou a presidência do partido, assim como antes fizeram Delúbio Soares e Silvio Pereira – respectivamente tesoureiro e secretário-geral do partido.

Em agosto, na CPMI dos correios, o publicitário Duda Mendonça foi ouvido e confessou ter recebido pelos serviços prestados para a campanha de Lula de 2002 dinheiro de caixa-dois depositado ilegalmente em uma conta no exterior. Uma bomba!

A confusão não parou e, já no início de 2006 estourava o escândalo do caseiro Francenildo. Na CPI dos Bingos, Francenildo declarou que o Ministro da Fazenda Antônio Palocci frequentava uma mansão alugada no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, onde havia reuniões para distribuição de dinheiro e festas com prostitutas[42]. Na sequência, o sigilo bancário do caseiro foi quebrado e os extratos bancários divulgados por uma revista – uma tentativa falhada de tentar incriminar o caseiro, mas que acabou tornando a situação do Ministro insustentável. Palocci finalmente entregou o cargo. O presidente da Caixa Econômica Federal também colocou o seu cargo à disposição[43].

 

A reeleição

Após o mensalão uma nova fase do governo de Lula começaria, na qual a nomeação de Dilma Rousseff para a Casa Civil e de Guido Mantega na Fazenda afastavam o governo paulatinamente da ortodoxia econômica do início do governo para lançá-lo resolutamente em uma linha desenvolvimentista. A política de aumento real do salário mínimo – que subiu acima da inflação +8,2% em 2005 e +13% em 2006[44] – será a grande marca desse período e terá profundo impacto nas eleições de 2006.

Trata-se de medida de viés claramente populista e insustentável a longo prazo: os aumentos dos salários, ou são repassados ao consumidor aumentando a inflação, ou reduzem as margens das empresas – penalizando sobretudo as mais intensivas no uso de mão-de-obra – que se veem obrigadas a cortar pessoal ou fechar as portas, gerando desemprego. Essa política vigorou até o ano de 2019, ajudando a minar a competitividade da indústria nacional. Ademais, os gastos públicos cresciam a um ritmo de 6% ao ano no primeiro governo, obrigando a carga tributária bruta a subir de 32,16% para 33,42%[45]

Apesar das denúncias terem colocado Lula nas cordas, a oposição se recusava a confrontá-lo: Aécio demonstrará solidariedade dizendo que “Lula não é Collor” e “merece nosso respeito.” Fernando Henrique, por sua vez, chegará a demonstrar interesse até em se encontrar com Lula, posicionando-se resolutamente contra qualquer proposta de impeachment.

O PSDB não escolheu José Serra para disputar as eleições, apesar de ter aparecido nas pesquisas à frente do petista, mas o pouco competitivo Geraldo Alckmin, que declarava preferir mirar o futuro a “atacar o presidente” – Lula naturalmente ficou bastante contente!

Quando as urnas abriram o que se viu foi uma vitória esmagadora: 60,8% para o petista contra 39,1% do tucano. Isso sem sequer participar de debates e com o estouro de um novo escândalo no meio da campanha eleitoral – era o escândalo da compra de “dossiês”[46].

O bom desempenho nas urnas pode ser explicado pelo sucesso do programa Bolsa Família[47] – matéria da Revista Veja da época mostrava que a área em que o programa mais se concentrava coincidia com aquelas onde o petista obtivera anteriormente pior votação – e pelo desempenho relativamente bom da economia: o desemprego havia caído para 8,4% (em 2005, fora de 9,3%), a inflação estava em 3,1%[48] e o PIB cresceu 4% – é verdade que esse resultado ainda era inferior ao dos BRICs: no ano, a China cresceu 11%, a Índia 9,7% e a Rússia 6,7%.

Um fato importante nessa campanha foi a mudança da base de sustentação do governo, que passou a ser integrada pelos eleitores de baixíssima renda: “Lula foi eleito, sobretudo, pelo apoio que teve neste segmento, enquanto Alckmin contou, além dos votos dos mais ricos, com certa sustentação na faixa de eleitores de classe média baixa, que vagamente corresponde ao que o mercado chama de ´classe C´. Na faixa de mais de dois a cinco salários-mínimos de renda familiar mensal, por exemplo, Alckmin quase empatava com Lula às vésperas do primeiro turno, mas, entre os eleitores de baixíssima renda (até dois salários-mínimos de renda familiar mensal), Lula aparecia com uma vantagem de 26 pontos percentuais sobre Alckmin.[49] Não tinha sido assim em 2002.

*

Ainda sobre esse primeiro período, é preciso mencionar que o governo petista representou um período de expansão dos grupos de sem-terra, que chegaram a 71. O principal deles era o MST. Em quatro anos, ocorreram quase mil invasões de terras[50] – praticamente uma a cada dia útil!

O MST tinha apoio das FARC e atuava “com uma logística de fazer inveja a muitos exércitos.”[51] Tinham o objetivo de “libertar” e “exercer o domínio” em um território que iria do Mato Grosso do Sul ao Uruguai. 

Já o Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), criado por um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e financiado com dinheiro público[52], invadiu o Ministério da Fazenda em 2005 e o Congresso, em 2006. Nesse último episódio, com cerca de 600 militantes, depredando e vilipendiando a Câmara dos Deputados[53]. O presidente Lula chegou a aparecer em público com o boné do movimento.

A tudo isso acrescente-se à promoção de um Conselho Federal de Jornalismo, que visava “orientar, disciplinar e fiscalizar” a atividade dos jornalistas, com a sugestão de penas disciplinares.  A forte rejeição ao projeto, no entanto, fez com que o governo o deixasse em banho-maria na Câmara.

 

O Apogeu

O segundo mandato representou o período de apogeu do PT. Embora José Dirceu não ocupasse mais nenhum cargo no governo, Lula se tornou muito mais forte. Conseguiu reorganizar o partido, atrair os sindicatos, voltar a se aproximadas dos artistas e fechar apoio com o PMDB.

Para lidar com a imprensa, designou Franklin Martins (ex-membro do MR-8, e um dos participantes do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick) para a Secretaria de Comunicação Social. “Através de ´patrocínios´ do governo federal e de empresas estatais, milhões de reais foram destinados aos apoiadores do petismo, e se organizou, como nunca na histórica do Brasil, uma rede eficaz de propaganda dos êxitos – reais ou não – da administração de Lula. Aos críticos do lulismo – transformados em adversários – reservou-se o epíteto de membros do ´partido da imprensa golpista´.”[54]

As centrais sindicais foram completamente coaptadas, reservando-se ao PDT o ministério do Trabalho, aparelhado pelos pedetistas. “Entre 2003 e 2006, o governo transferiu R$72 milhões para as centrais sindicais. Nunca os sindicalistas tiveram tanto dinheiro e poder.”[55]

Em cada viagem que fazia, o presidente brasileiro era recebido com mais pompa por líderes e instituições esquerdistas. “Lula é o cara”, dirá o Presidente Obama em 2009. O mandatário brasileiro será eleito o líder mais influente do mundo pela revista Times – “O que Lula quer para o Brasil é o que costumávamos chamar de Sonho Americano”, dizia o editorial, escrito pelo documentarista Michael Moore. Em 2011, depois do fim do governo, receberá o título de doutor Honoris Causa no Instituto de Ciências Políticas, em Paris.

A confiança era tamanha que se chegou a ventilar extra oficialmente a possibilidade de uma reforma constitucional que garantisse um terceiro mandato para o Lula.

Os grandes empresários também foram cooptados, sobretudo com a criação, em 2008, do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), mais conhecido como o programa de “campeões nacionais”. Na prática, o governo colocava no mercado títulos públicos ao custo de 14% para emprestar o dinheiro levantado, a juros de 6% ao ano, a grandes corporações do país. Um grande subsídio, um "bolsa-empresário" para beneficiar companhias como JBS, OI, Odebrecht além das empresas do empresário Eike Batista. Nos anos seguintes seriam emprestados cerca de R$1,8 trilhão em crédito.

A economia ajudava a aumentar a popularidade do presidente. O ciclo de commodities estava a todo vapor, fazendo com que o dólar chegasse a valer menos de R$ 1,80 – com isso, a classe média passou a ver o governo com bons olhos. A oposição, que já não era forte e atuante, batia em retirada, e ninguém mais lembrava do mensalão ou prestava atenção aos novos escândalos, como o da “compra” por valor vil das refinarias da Petrobrás ocupadas em 2006 manu militari pelo governo da Bolívia.   

O populismo, no entanto, ganhava impulso. Após a crise de 2008, causada pela quebra do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, o mundo inteiro iniciou medidas de estímulo à economia. No Brasil, alongou-se o crédito para ampliar o consumo familiar enquanto o salário-mínimo continuava a ser aumentado artificialmente. O setor privado era estimulado pelas desonerações fiscais e, para combater o desemprego, criou-se o Minha Casa Minha Vida que, em conjunto com outras medidas de crédito imobiliário, contribuirá para uma extraordinária alta dos preços dos imóveis até 2014-2015.  

O governo, no entanto, seguia sem aprovar as reformas necessárias e, com a alta dos salários e impostos, a economia estava cada vez mais nas mãos do Estado. Um artigo publicado em 2007 dizia:

“Em 2002, a participação no Estado no setor petroquímico era de 46%; hoje está em 63%; nas termelétricas, pulou de 11% para 44%; na distribuição de combustíveis, de 24% para 32%. Os Correios vão assumir o Banco Postal e criar uma empresa aérea para transporte de carga doméstica e internacional. Em vez de privatizar o banco do Estado de Santa Catarina, ele será absorvido pelo Banco do Brasil. O governo que ter ainda o controle da produção, venda e exportação do etanol e criar uma superconcessionária de telefonia só de capital nacional em que tenha direito de voz, voto e veto.”[56]

Os gastos públicos não paravam de crescer, estimulando artificialmente a economia.[57] O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, lançado em 2007, previa investimentos na ordem de 500 bilhões até o ano de 2010. Pouco a pouco, os petistas preparavam uma bomba fiscal e flertavam com a inflação. No entanto, encantados com a popularidade do presidente, já não escondiam mais o seu ideal revolucionário, como fizeram no III Congresso Nacional do PT:

“Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de Estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político do Estado a seu serviço.”

Em outras palavras, cumpria colocar o Brasil a serviço do PT.

*

A popularidade de Lula em 2010 era recorde (chegou a superar os 80%), a economia chegou a crescer 7,5% no ano (em Pernambuco, 16%). O país parecia ter enlouquecido, e Lula conseguiu eleger facilmente a sua sucessora Dilma Rousseff, terminando o mandato com bravatas:

“Foi gostoso passar a Presidência da República e terminar o mandato vendo os Estados Unidos em crise, vendo a Europa em crise...” E concluiu dizendo que a solução para o problema econômico brasileiro não tinha vindo de nenhum doutor, nenhum americano, nenhum inglês, mas de um torneiro mecânico pernambucano.

O PT elegeu uma grande bancada no Congresso Nacional, sendo o partido mais votado.

 

Mulher Sapiens

Dilma Rousseff era uma figura relativamente desconhecida – conta-se que Lula a escolheu como sua candidata ao vê-la manejando um notebook durante uma reunião ministerial. Durante o governo militar, atuara em grupos de luta armada, sem grande destaque. Filiou-se ao PDT, mas sempre foi uma figura politicamente inexpressiva. Tentou cursar pós-graduação em economia, mas não teve êxito. Abriu, em Porto Alegre, uma loja de mercadorias populares, ditas de “R$1,99”, fracassando novamente. Dilma caminharia para a obscuridade, mas a popularidade do mandatário petista era tamanha, que ela se tornou presidente do Brasil. 

O novo governo intensificou aquilo que costumamos chamar de “guerra cultural”[58]. Para o Ministério das Mulheres foi nomeada a feminista Eleonora Menicucci – militante do Partido Operário Comunista, que declarou ter se decidido pelo aborto do seu segundo filho após ouvir a opinião da direção do partido[59].

Era o tempo do “kit gay”, da “Comissão Nacional da Verdade”, da introdução do sistema de cotas nas universidades e de livros que ensinavam que erros de português eram apenas “variações linguísticas”.

Na época, Guilherme Fiuza escrevia uma crônica divertida a esse respeito:

“Nós pega o peixe”, ensina o livro didático de língua portuguesa Por uma vida melhor, de Heloísa Ramos.

Mas desse jeito a vida não vai melhorar tão cedo. O governo popular precisa ser mais ousado. Por que não “nós pega o dinheiro”?

“Ou nós faz caixa dois, ou ainda “nós é companheiro, por isso nós ganha umas boquinha nos governo”.

“(...) O Brasil finalmente caminha para a felicidade plena, com essa formidável evolução cultural “progressista”. As variações linguísticas e as variações éticas vão formando esse novo país igualitário, que nutre orgulhosa simpatia pela ignorância.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, faltou à audiência pública no Senado sobre os livros didáticos. Está coberto de razão.

Se ele se recusa a recolher um texto que ensina os estudantes brasileiros a falarem “os livro”, tem mais é que se recusar a cumprir “os compromisso”. 

O Supremo Tribunal Federal aproveitou a onda “progressista” e reconheceu a união de homossexuais (2011) e descriminalizou o aborto de anencéfalos (2012).

Os anos Dilma serão também um período de aumento da violência, não apenas da violência urbana – essa certamente aumentou ao longo do seu governo e em especial nos Estados da Federação governados pelo PT[60] – mas sobretudo da violência política: o MST ameaçou invadir o STF e, num enfrentamento com a PM, deixou dezenas de policiais feridos (ainda assim, a presidente aceitou recebê-los)[61]; era o tempo dos Black Blocks[62], dos chamados “rolezinhos” em shoppings e da morte do cinegrafista Santiago Andrade. O evento mais relevante nesse sentido foi as Jornadas de Junho, de 2013.

Com o novo governo, denúncias de corrupção voltaram a explodir. Foi assim que, já nos primeiros cem dias, dois ministros deixaram o governo após denúncias de corrupção. Em junho, caiu o ministro da Casa Civil, Antônio Palocci que, segundo denúncia dos jornais, aumentara em vinte vezes o patrimônio quando deputado federal! O Ministro da Justiça e o PGR saíram em defesa do ministro – outro escândalo!

Poucos meses depois, foi a vez do Ministro do Turismo cair após denúncia de corrupção. Ocorreria o mesmo em outubro, com o ministro de Esportes; em dezembro, caiu o Ministro do Trabalho; em janeiro e fevereiro de 2012, caíram os ministros da Integração Nacional e o das Cidades. A cada vez, a presidente Dilma saia em defesa dos ministros.

 A coisa era tão escandalosa que o jornalista Juan Arias do periódico El País chegou a publicar um artigo com o título “Por que os brasileiros não reagem à corrupção de seus políticos”?

*

Do ponto de vista econômico, os erros do período lulista seriam intensificados, levando o país a maior crise de sua história.

A nova presidente escolhera para o seu governo o slogan “País rico é país em pobreza”. Por trás dessa frase estava o nobre objetivo de erradicar a pobreza. O método para fazê-lo, pensava a “mãe do PAC”, era estimular o crescimento do país.

Ora, existiam diversas razões estruturais impedindo o crescimento do Brasil: nossa infraestrutura era defasada – o modal ferroviário, por exemplo, continuava com os mesmos trinta mil quilômetros do tempo do Império – os encargos eram excessivos, o ambiente regulatório hostil, as leis trabalhistas defasadas e faltava mão de obra capacitada. Last not least, nossa taxa de juros em dois dígitos era a maior do mundo.

Dilma não queria esperar para aprovar as reformas estruturantes que o seu antecessor havia deixado de lado desde a crise do mensalão, e sim induzir o crescimento da economia à força, de modo inteiramente artificial. Resolveu fazê-lo estimulando o consumo das famílias: baixou os impostos sobre geladeiras, máquinas de lavar, fogões, automóveis. O importante era fazer com que a população gastasse. Só que as famílias já estavam bastante endividadas após o surto de crédito de 2010 que ajudara a eleger a presidente. Ademais, uma medida assim não poderia durar muito!

A cada problema estrutural, Dilma contrapunha uma solução artificial visando o crescimento, contribuindo para minar, pouco a pouco, o “tripé econômico” (metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal) que estabilizava a economia brasileira.

Assim, já no primeiro ano do governo, o Banco Central – que na época não era independente – decidiu abruptamente reduzir a taxa de juros em meio a uma escalada inflacionária. Para a presidente, admiradora de Cristina Kirchner, “um pouco mais de inflação não faz mal.” Dizia ela: “Não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico (...) Eu vou acabar com o crescimento do país?”. É verdade que, naquela época, o Brasil não foi o único país a abandonar a ortodoxia – era o tempo da “crise de débito europeia” – mas aqui já se começava a abandonar a meta de inflação.

A indústria brasileira, além de sofrer com os problemas estruturais brasileiros, e com a política do aumento real de salários anual do governo Lula, era pressionada pelo dólar baixo – fruto da política de juros zero do mundo desenvolvido. Era a “guerra cambial”, como chamou o ministro Guido Mantega. A resposta do governo foi, por um lado, a adoção de medidas protecionistas como regras de conteúdo nacional e impostos, por outro a intervenção no câmbio. Explica Mônica de Bolle: “Essas intervenções não eram baratas. Ao fazê-las, o Banco Central aumentava o estoque de ativos em dólares, cujo rendimento é muito baixo, elevando seu passivo em reais e tendo, eventualmente, de pagar juros atrelados à Selic.” – Pouco a pouco, o segundo pilar do tripé era desprezado.

Atribui-se à Dilma a frase “Gasto é Vida”, que teria dito em resposta aos que lhe propunham a criação de algo semelhante a um teto de gasto. De fato, a gastança desenfreada e a multiplicação de desonerações tornava cada vez mais difícil atingir a meta de superávit e, para cumpri-la em 2012, o governo teve de lançar mão de recursos inusitados como a antecipação de dividendos de estatais – surgia assim a “contabilidade criativa” que contribuiu para estraçalhar o terceiro pilar do tripé econômico, o da responsabilidade fiscal. Mais adiante, Arno Augustin, chefe do Tesouro Nacional, começaria a cogitar a possibilidade de se remover as desonerações da meta de superávit.

Em julho de 2012, o Ministro da Fazenda anunciou oficialmente o enterro do “tripé econômico”, dando início à “Nova Matriz Econômica” que, mais adiante, colocará o país em uma situação de pré-insolvência fiscal e na maior recessão de sua história, revertendo os benefícios do Plano Real e fazendo com que quase duas décadas de balança comercial positiva se transformasse em déficit.

Os problemas se avolumavam e o governo não perdia a oportunidade de adotar alguma medida equivocada. Os juros cobrados pelos bancos estavam altos? A Caixa Econômica e o Banco do Brasil diminuíam suas taxas artificialmente. As tarifas de energia elétrica eram elevadas? A MP 579 resolvia isso em uma canetada, obrigando as distribuidoras a baixar os preços – o que contribuiu para desorganizar o setor e desestimular os investimentos[63].

E se a súbita ingerência do governo na economia assustava os empresários, estes últimos – como maus alunos levados à sala do diretor – eram convocados ao Planalto:

“Dilma ficou bastante irritada ao constatar, logo depois do anúncio sobre a cesta básica, cujo objetivo também era colher capital político para a campanha que começava muito antes do prazo, que os preços dos produtos não caíram como imaginara. Malditos donos de supermercado! Foram todos chamados ao Planalto. Desde 2012, a presidente adquirira o hábito de chamar ao Planalto empresários, banqueiros, representantes do setor privado em geral toda vez que constatava que suas medidas não surtiam os efeitos que pensara inicialmente”[64].

Dilma viria ainda a desonerar produtos de limpeza e pedir à população que fiscalizasse os preços nos supermercados! Eram os “fiscais da Dilma”.

Esse autoritarismo se via em outras áreas também. A saúde estava ruim? O programa Mais Médicos obrigava todos os estudantes de medicina a trabalhar por dois anos no SUS. E se a economia continuava demonstrando dificuldades em crescer, a presidente criava mais estímulos, como foi o caso do Programa “Minha Casa Melhor”, subsidiando a compra de móveis e eletrodomésticos.

 

Tchau querida

Já se disse com acerto que as eleições de 2014 foram as mais disputadas da nossa história, com direito a várias “viradas” – Marina Silva, Aécio Neves e Dilma Rousseff, cada qual liderou as intenções de voto em algum momento da campanha.

Denúncias de corrupção voltavam a pairar sobre o governo – dessa vez relacionadas com a Petrobrás. Dilma evitava compromissos públicos, fugia de entrevistas e do contato com o público. Apresentava-se sempre em ambientes controlados, como sindicatos ou diante de movimentos simpáticos ao PT. No entanto, liberava rios de dinheiro e aprovava medidas populistas para viabilizar sua eleição.

Na antevéspera da votação, a revista Veja exibia matéria de capa com o título “Eles sabiam de tudo” entre os rostos de Dilma e Lula. A reportagem transcrevia um trecho do depoimento do doleiro Alberto Youssef à Polícia Federal:

Perguntado sobre o nível de comprometimento de autoridades no esquema de corrupção da Petrobrás, o doleiro foi taxativo

- O Planalto sabia de tudo!

- Mas quem no Planalto? perguntou o delegado.

- Lula e Dilma, respondeu o doleiro.

Como retaliação, um grupo de militantes controlado pelo PC do B atacou a sede da Editora Abril, que publicava a Revista.

*

Além dos problemas econômicos, o segundo governo de Dilma Rousseff seria marcado pela Operação Lava Jato, que revelou ao Brasil o esquema do “Petrolão”, envolvendo, além da estatal brasileira, as principais empreiteiras do país e o Partido dos Trabalhadores. Segundo a jornalista Roberta Paduan:

“A cada contrato assinado com a estatal, as fornecedoras separariam um percentual do valor recebido, geralmente de 3%, no caso da diretoria de Abastecimento. Essa era a fonte de dinheiro que abasteceria os partidos políticos e executivos da estatal, como [Roberto] Costa, que facilitariam a concretização do esquema. As empresas, organizadas em cartel, combinavam entre si quem ficaria com cada contrato a ser fechado com a estatal. Depois, o coordenador do grupo procurava os diretores da petroleira e passava a lista das empreiteiras que deveriam ser chamadas para o certame. Bastava que a ganhadora da vez embutisse o valor da propina em seu serviço. Depois, era só combinar com as demais empresas para que elas apresentassem valores mais altos ou não entrassem na licitação [...]

“E haveria muitos contratos, pois a Petrobras não era apenas a maior empresa do país, mas também a maior investidora. Entre 2003 e 2014, a média anual de investimentos efetivamente realizados pela companhia foi de R$ 76 bilhões (a preços atualizados para 31 de dezembro de 2015. Em seus depoimentos, Costa revelou que todos os contratos fechados pela estatal com as empresas do cartel geravam propinas. Do total de recursos desviados das obras de Abastecimento, o PT ficava com dois terços, enquanto ao PP cabia um terço.”[65]

Além dos valores desviados – que fariam com que o “Mensalão” parecesse coisa de amadores – a empresa por pouco não foi arruinada pela má gestão e interferência do governo.

Depois da descoberta do Pré-Sal, a Petrobrás chegou a superar em valor de mercado ícones norte-americanos como a Microsoft, o Wal-Mart ou a General Eletric. Poucos anos depois, no entanto, seria a detentora de uma das maiores dívidas corporativas do planeta. A razão é dupla: por um lado, o governo forçava a companhia a investir para reanimar a economia – um terço de todos os recursos previstos no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), eram da Petrobrás – por outro, a fim de conter a inflação, fazia com que a estatal vendesse combustível a preços defasados – essa política gerou perdas calculadas em R$ 159 bilhões à companhia entre 2010 e 2014.

Talvez o investimento que melhor represente o desastre da gestão petista foi o da refinaria de Pasadena. Em 2006, uma empresa belga pagou US42,5 milhões pela refinaria, então apelida de “ruivinha” pela quantidade de ferrugem nas suas instalações. No ano seguinte, a empresa belga vendeu 50% da refinaria para a Petrobrás pela cifra de... US$359 milhões! Não parou por aí, anos depois a estatal brasileira decidiu comprar ao restante da refinaria por mais US$820 milhões, investiu mais US$685 milhões em melhorias nas instalações... apenas para revendê-la cinco anos depois por US$ 180 milhões – um décimo dos valores dispendidos! No entanto, ninguém do Conselho de Administração – na época presidido pela Sra. Dilma Rousseff – foi responsabilizado.

*

Mal ganhou as eleições, Dilma praticou o que viria a ser chamado de “estelionato eleitoral”: após ter declarado diversas vezes na campanha que a situação econômica era sólida e que não haveria necessidade de medidas impopulares, assim que foi reeleita aumentou a taxa de juros, reajustou as contas de consumo e cortou o FIES. A população, sentindo-se enganada e não suportando mais a crise econômica e moral, voltou a ocupar as ruas. Manifestações contrárias ao governo ocorreriam por todo o país até o fim do governo, reunindo, literalmente, milhões de manifestantes.

Em 2015 o tribunal de contas da União rejeitou as contas do governo Dilma. A situação fiscal brasileira se deteriorava rapidamente, com o país voltando a apresentar o primeiro déficit primário em quase duas décadas. No entanto, esse resultado ainda era artificial, pois a realidade era ainda muito maior: para melhorar os números, o governo atrasava pagamentos e tomava empréstimo dos bancos públicos, incorrendo em crime de responsabilidade fiscal. Eram as chamadas “pedaladas”, que seriam a base do pedido de impeachment[66].

Não se trata de mero detalhe técnico: a irresponsabilidade fiscal foi um elemento importante da tragédia econômica em que nós mergulhamos. Para acrescentar ofensa à injúria, o Brasil finalmente perdeu o grau de investimento.

“O ano de 2015 terminaria em tragédia. A economia encolheria impressionantes 3,8%[67], a inflação alcançaria 11%, o desemprego começaria a subir de forma assustadora – no início de 2016 seriam 11 milhões os desempregados. A tão alardeada inclusão social começaria a sumir; a classe média, vulnerável, a encolher; a Classe C tornava-se D ou E. A política, cada vez mais enrolada no escárnio revelado pela Lava-Jato acabaria por dominar todo o cenário econômico e a selar os destinos de Joaquim Levy e Dilma.”[68]

O Brasil estava quebrado e, desde então, foi preciso um grande esforço para que o país se reerguesse – demoraria nada menos do que sete anos para o Brasil voltar a ter taxa de desemprego de um digito e superávit nas contas públicas.

Dilma Rousseff não tinha mais condição de governar o país. Nos seus confusos pronunciamentos, mais e mais demostrava indícios de confusão mental, como na “saudação da mandioca”, ao falar em “estocar vento” ou no discurso sobre as “mulheres sapiens”.

 

Conclusão

O Partido dos Trabalhadores é, antes de tudo, um partido revolucionário com o projeto de perenizar-se no poder, conforme a declaração do VIII Encontro do Foro de São Paulo:

“O objetivo não é meramente chegar ao governo, senão chegar para transformar a sociedade. E como isso não é tarefa de uns poucos anos, senão um processo complexo e longo, será imprescindível (...) manter-se no governo e realizar as grandes mudanças revolucionárias...” (grifos nossos).

Sua meta é o socialismo, suas bandeiras são a subversão da lei natural, o seu legado é um rastro nunca visto de corrupção e miséria. O governo do PT representou um período de profunda decadência moral e, em conjunto com os demais membros do Foro de São Paulo, é como um câncer disseminando-se pela América Latina. É de se lamentar a situação de Cuba, Venezuela e, mais recentemente, da Argentina.

A teia de corrupção armada pelo governo, envolvendo os demais poderes, a imprensa, empresários, universidades e intelectuais, fazia crer que seria impossível a sua remoção do Planalto. No entanto, “Deus destruiu os tronos dos chefes soberbos”: em 2016, Dilma Rousseff sofreu o impeachment e, em 2018, o ex-presidente Lula foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Uma grande e misteriosa graça para o nosso país!

 


[1] Na Carta de Princípios, publicada no ano anterior, lê-se “O PT afirma seu compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas massas, pois não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo. Um partido que almeja uma sociedade socialista e democrática tem de ser, ele próprio, democrático nas relações que se estabelecem em seu interior.”

[2] “Socialmente, a base mais importante do PT depois dos operários de empresas multinacionais e do sindicalismo de funcionários públicos foi, seguramente a Igreja Católica. Sua influência popular era extensa através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que se multiplicaram nos anos setenta...”, Lincoln Secco, “História do PT”, pág. 45.

[3] Ibid., p. 78

[4] A Igreja faz sérias restrições às greves. Segundo o ensinamento de Pio XI: “É proibida a greve; se as partes não podem chegar a um acordo, intervém a autoridade.” (Quadragésimo Anno). Pio XII ensinou: “No domínio econômico, há uma comunhão de atividade e interesses entre os donos das empresas e os trabalhadores. Menosprezar este laço recíproco, trabalhar para destruí-lo, é tão somente o fato de uma pretensão de despotismo cego e irracional.” (Pio XII – Aos patrões, 7 de maio de 1949, Atos Pontif. No. 26, p. 21). Esse ensinamento foi mantido mesmo no pós-Concílio. Ensinou o Papa João Paulo II: “O abuso da greve pode conduzir à paralisação da vida socioeconômica; ora, isto é contrário às exigências do bem comum da sociedade, o qual também corresponde à natureza, entendida retamente, do mesmo trabalho” (Laborem exercens)

Há em certos casos um direito à resistência, como ensinou Santo Tomás em De Regno e, com ele, o Magistério da Igreja: foi, aliás, o que ocorreu gloriosamente na Cristiada mexicana ou na Vendéia contra a Revolução. Leão XIII é muito claro: “A única razão que os homens têm para não obedecer é quando algo demandado por eles repugna abertamente ao direito natural ou ao direito divino”. Ademais, além de uma causa justa é preciso haver uma reta intenção, entendendo-se por essa última a conformidade a justos limites.

[5] Romeu Tuma Jr., Assassinato de Reputações, p. 45.

[6] Ibidem, p. 51

[7] Suplicy, no entanto, não venceu as eleições, ficando com pouco mais de 18% dos votos. A primeira eleição importante que o PT ganhou no país foi para a prefeitura de Fortaleza – acredito que ninguém se surpreenderá se souber que a prefeita foi acusada posteriormente de nepotismo e má gestão!

[8] Wendy Hunter e Timothy Power, citado em André Singer, O sentido do Lulismo.

[9] P. 170

[10] Em 1989, o PT recusara “o apoio desinteressado do PMDB no segundo turno de 1989, o qual poderia ter significado a vitória de Lula.”, André Singer, “O Sentido do Lulismo”.

[11] Lincoln Secco, p. 182

[12] Com efeito, a revisão tarifária, feita para favorecer o presidente esquerdista Fernando Lugo – então envolvido em denúncias de pedofilia – ocorreu 12 anos antes do prazo previsto e as tarifas se multiplicaram por três, apesar da oposição dos técnicos e do evidente prejuízo aos consumidores brasileiros, que passaram a pagar mais pela energia elétrica. (Ver em https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/contraponto/golpe-do-para...)

[13] No caso de cuba, aceitou-se charutos como lastro para o empréstimo.

[14] O Foro de São Paulo, Graça Salgueiro, p. 171.

[15] Tido como “o arquiteto do moderno PT e estrategista da vitória de Lula”, Dirceu presidiu o partido com mão de ferro entre os anos 1995 e 2002. Agradecido, Lula declarará que Dirceu teria o cargo que quisesse em seu governo.

[17] A de Santo André, B de São Bernardo do Campo, C de São Caetano do Sul.

[18] Segundo familiares do prefeito de Santo André, as campanhas beneficiadas foram a de Marta Suplicy em São Paulo, e a de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República.

[19] “Na administração de Palocci em Ribeirão Preto teve o escândalo do lixo. São caminhos comuns para desviar dinheiro: contrato de lixo, transporte público. Certas pessoas contam isso como se fosse um ato de “heroísmo” desviar dinheiro público para financiar partidos e atividades políticas. É um assalto! (...) No caso específico do lixo, o que acontecia era o seguinte: o pagamento de um contrato é feito com base em uma quantidade de lixo recolhida. E é muito difícil fiscalizar, saber quantas ruas foram de fato varridas, quanto lixo foi de fato recolhido, pois muito do que é atestado para pagamento, não é realizado.” (Romeu Tuma, Assassinato de reputações, pág. 214-215).

[20] “Após anos, soube pela imprensa que nada de projétil ou cápsulas foram apreendidos quando do sequestro. Fico imaginando, um prefeito, num carro potente, à prova de balas, ser parado sem qualquer dificuldade, sem nenhuma ameaça ou tiros e, pior, sem que seu acompanhante, ex-segurança, armado, esboçasse qualquer reação? Ele só pode ter sido entregue mesmo.” (Romeu Tuma, Assassinato de Reputações, pág. 197)

[21] A Lava Jato reabilitou essa tese, no entanto. Investigando o pecuarista José Carlos Bumlai, um dos melhores amigos do então presidente Lula, descobriam que ele havia tomado R$12 milhões do banco da família Schahin. Segundo a força-tarefa esses recursos foram repassados, com a participação de José Dirceu, “para não envolver pessoas relacionadas à cúpula do Partido dos Trabalhadores no esquema de corrupção da prefeitura de Santo André.” –  Quanto à família Schahin, ela seria recompensada no segundo mandato de Lula, ao assinar sem licitação um contrato no valor de US$1,6 bilhões com a Petrobrás para operar um navio-sonda.

[22] Celso Daniel, Silvio Navarro, pág. 192.

[25] José Serra era um militante do grupo da esquerda católica Ação Popular (AP), que propugnava um “socialismo humanista” e se inspirava em Emmanuel Mournier, Teilhard de Chardin e no dominicano Louis-Joseph Lebret. Apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro, Serra elegeu-se presidente da UNE em 1963.

[26] Corrigido pelo IPCA até 01/2022.

[27] A “Carta” não é de todo boa, mas traz alguns pontos que acalmaram o mercado: “O povo brasileiro quer mudar para valer. Quer abrir o caminho (...) da reforma tributária, que desonere a produção. (...) da reforma previdenciária, da reforma trabalhista e de programas prioritários contra a fome e a insegurança pública.” E, mais adiante: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.” E ainda: “Queremos equilíbrio fiscal... Vamos preservar o superávit primário...”.

[28] É verdade, no entanto, que outros nomes da tradição desenvolvimentista do partido também foram nomeados, como é o caso de Carlos Lessa – convidado para presidir o BNDES – e Guido Mantega, então Ministro do Planejamento, para não falar em Celso Amorim, José Dirceu, Tarso Genro e da própria Dilma Rousseff.

[29] Dentre outras coisas, a PEC 40 acabava com a aposentadoria integral dos futuros servidores públicos.

[30] Lula também favoreceu a abertura financeira, permitindo que até 30% das receitas com exportações fossem mantidas no exterior e criando incentivos para investidores estrangeiros adquirirem títulos da dívida pública.

[31] Uma “regra de bolso” diz que, a cada 10% de aumento de preço em uma cesta de commodities, o PIB brasileiro cresce 0,4%. Ora, durante o governo Lula, o preço das commodities cresceu ao longo de todos os anos, com a única exceção em 2009. A taxa média anual composta de crescimento dos preços de commodities no primeiro mandato de Lula foi de impressionantes 19% a.a.

[32] “O estouro da bolha nos índices de bolsas das empresas do ramo de tecnologia (Nasdaq), os escândalos contábeis envolvendo grandes empresas de distribuição de energia elétrica, e os atentados terroristas de setembro de 2001 levaram o Federal Reserve (FED) a reduzir as taxas de juros, iniciando um novo ciclo expansivo de liquidez internacional. A economia brasileira se beneficiou dos fluxos de capitais direcionados para as economias emergentes. (...) A redução do prêmio de risco foi crucial para que o Banco Central iniciasse a redução da taxa Selic a partir do segundo semestre de 2003” (https://sep.org.br/anais/2019/Sessoes-Ordinarias/Sessao1.Mesas1_10/Mesa4...

[33] “A indicação era precedida por um atestado ideológico petista. O “nada consta” e, especialmente, o “é um dos nossos” garantiam o emprego” (Marco Antônio Villa, “A Década Perdida”).

[34] Petrobrás, uma história de orgulho e vergonha, Roberta Paduan, pág. 171

[36] “O PT comprou o PTB por R$10 milhões. O PTB tinha 52 deputaqdos. O compromisso era entregar R$150 mil a cada um, perfazendo R$8 milhões. Os outros R$2 milhões teriam a direção de Salvador e Recife, onde o partido tinha fortes candidatos à prefeitura” (A Década Perdida, M.A. Villa). Ver também: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/08/03/pt-prometeu-r-20-milhoes-a-ptb-de-roberto-jefferson-em-troca-de-apoio-diz-gurgel.htm

[37] “De acordo com Luiz Eduardo Soares, ex-secretário do governo, Waldomiro Diniz arrecadaria, por mês, R$300 mil – e ainda haveria mais um assessor de Dirceu envolvido.” (A Década Perdida, M.A. Villa)

[38] Citado em “A Década Perdida”, Marco Antônio Villa.

[42] Palocci viria a ser posteriormente condenado na Lava Jato a 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro em um esquema envolvendo R$200 milhões do Grupo Odebrecht para o Partido dos Trabalhadores.

[43] Na Revista Veja (no. 1950), uma matéria afirma que a Caixa chegou a oferecer R$1 milhão para funcionários assumirem a culpa pela quebra do sigilo.

[46] Foram presos no Hotel Íbis, na cidade de São Paulo, o petista Valdebran Padilha da Silva e o advogado do PT Gedimar Passos com R$1,7 milhões de reais em dinheiro vivo, dinheiro destinado a compra de um dossiê contra o tucano José Serra, então candidato ao governo de São Paulo contra o petista Mercadante.

[47] O programa era parte de uma política de transferência de renda que também incluía: aumentos do salário mínimo acima da inflação e do crédito bancário para as pessoas físicas.

[48] A meta de inflação foi atingida em todos os anos do governo.

[49] V. André Singer, O sentido do Lulismo.

[51] Carlos Alberto Brilha Ustra, A Verdade Sufocada, pág. 567

[53] Ferido, um segurança teve afundamento do crânio e teve de passar dois dias na UTI.

[54] M.A. Villa, A Década Perdida

[55] Ibid.

[56] O País dos Petralhas, Reinaldo Azevedo.

[58] No ano anterior, para ser exato, já havia começado com a tentativa de proibição de um livro de Monteiro Lobato por alegação de “racismo”.

[59] Eleonora – (...) E um detalhe importante nessa trajetória é que, seis meses depois de essa minha filha ter nascido, eu fiquei grávida outra vez. Aí junto com a organização nós decidimos, a organização, nós, que eu deveria fazer aborto porque não era possível...” (Citado em O País dos Petralhas II, Reinaldo Azevedo).

[60] O Piauí foi governado pelo PT de 2003 a 2010, nesse período, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes aumentou 25,7%; na Bahia do petista Jacques Wagner, a taxa de homicídios aumentou 60,4%; no Pará, 57,2%!

[63] “Tratava-se de uma medida que alteraria por completo o funcionamento do sistema elétrico brasileiro, a ponto de concessionárias e distribuidoras referirem-se a ela como o ’11 de setembro do setor elétrico brasileiro’. Seu objetivo era reduzir as tarifas de energia, porém de forma unilateral, sem levar em conta os efeitos que isso poderia ter sobre a rentabilidade das empresas do setor, seus fluxos de caixa e sua capacidade de investir”. Mônica de Bolle, “Como matar a Borboleta azul”, p. 125

[64] Ibidem, p. 144.

[65] Petrobrás, uma história de orgulho e vergonha, Roberta Paduan, p. 42

[66] O arcabouço fiscal brasileiro consiste em três leis fundamentais: a Lei de responsabilidade fiscal, a LOA e a Lei de diretrizes orçamentárias (LDO). Ora, além das pedaladas – que viola a primeira lei – Dilma emitiu decretos de despesas adicionais, também conhecidos como créditos suplementares, violando a LOA. A duas violações embasaram o processo de impeachment.  

[67] Número próximo a queda de 4,1% em 2020, o ano da pandemia. Os anos de 2015 e 2016, representam a maior contração econômica brasileira da história.

[68] Monica de Bolle, “Para matar a borboleta azul”, p. 233

O século da guerra total

Diane Moczar

 

A virada do século XX, abarcando por um lado a década de 1890 e o início dos anos 1900 por outro, foi sob alguns aspectos um período vertiginoso e otimista. A ciência e a tecnologia alimentavam sonhos de uma sempre crescente prosperidade; viagens de longa distância eram mais fáceis e comuns; uma nova forma de música popular tornava-se mais acessível às massas, juntamente com outros meios de entretenimento. Esperava-se uma feliz e pacífica era de progresso. No entanto, o que dizer da visão terrível de Satanás e sua investida de cem anos contra a Igreja, revelada ao Papa Leão XIII em 1884? E como é que, em 1903, São Pio X foi capaz de cogitar se “o Filho da Perdição, de quem falou o Apóstolo, já poderia estar vivendo sobre a Terra”?

Considerando tudo o que veio a acontecer, é claro que aquele otimismo sobre os novos tempos mostrou-se completamente equivocado, pois o século XX produziu, um após outro, pesadelos de horror e sofrimento jamais vistos. Mesmo antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, vários chefes de Estado, tanto na Europa quanto na América, tinham sido assassinados por anarquistas, e no subterrâneo de muitos países os movimentos revolucionários iam ganhando terreno. Haviam se deteriorado as relações entre a Igreja e o Estado francês, entregue a um secularismo militante; ordens religiosas eram perseguidas e suas escolas, fechadas; políticos anticlericais substituíam oficiais militares de atestada competência, porque católicos. Sucessivas crises começavam a absorver a atenção de alguns Estados europeus, mas foram poucos os que as enxergaram como presságios de um futuro cataclisma. Em 1904, o Japão lança um ataque-surpresa contra a Rússia, e em 1905 já a havia derrotado. Que fosse possível ao império dos czares sofrer tão rápido fiasco para tão minúsculo oponente, foi decerto um choque para os russos e para todo o mundo, e ocasião para que refletissem bastante os diplomatas da Europa. No imediato pós-guerra, as perturbações produzidas por esse breve conflito fizeram escassear a comida e abundar os tumultos agrários dentro da Rússia, culminando num surto de revolução ainda em 1905.

O barril de pólvora dos Bálcãs, como era de se esperar, espocou assustadoramente no início do século, à medida que as Guerras Balcânicas finalmente expeliam da Europa os turco-otomanos. A Sérvia tinha planos de um império próprio sobre as ruínas do Império Otomano, e os próprios turcos resvalavam para uma insurreição ou até revolução, enquanto desaparecia do mapa o remanescente de seu império — desde a Líbia, passando por Creta, até a Península Balcânica.

A Áustria-Hungria se defrontava com minorias cada vez mais insubmissas dentro de suas fronteiras, todas exigindo alguma forma de autonomia, seja lá qual fosse sua capacidade de existência independente. A Alemanha pós-Bismarck estava mais militante (e militarizada) do que nunca, montando uma frota que fizesse páreo à da Grã-Bretanha e tecendo alianças com a Itália e a Áustria-Hungria — e depois com a Turquia — para se contrapor ao “entendimento” diplomático (entente) de ingleses, franceses e russos. A maior parte dos Estados até aqui mencionados, e outros tais como a Bélgica e a Holanda, tinha também suas empresas coloniais, que os faziam cada qual adversário de todos os demais. Pacífico não era o melhor adjetivo para aquele sofisticado mundo da valsa, da opereta e da carruagem motorizada.

 

A Grande Guerra

Esse cataclisma, que passaria a ser chamado Primeira Guerra Mundial quando adveio a Segunda, parece ter sido, para o Ocidente, um choque que a todos pegou despreparados. Sua origem lembrava o início da última grande guerra européia, a dos Trinta Anos, começada 300 anos antes, em 1618, quando a Boêmia, na Europa Oriental, revoltou-se contra o domínio dos Habsburgos. A Grande Guerra teve início quando um membro de uma organização revolucionária sérvia, a Mão Negra, assassinou um arquiduque de Habsburgo na Bósnia, então controlada pela Áustria. Em ambos os casos, os austríacos tentavam lidar com o que parecia ser uma questão meramente regional, para então descobrir que outros países começavam a se somar à briga tão logo ela tinha começado.

Não cabe aqui entrarmos nos detalhes da Primeira Guerra Mundial, mas eles estão prontamente acessíveis em qualquer livro didático. A Áustria queria que a Sérvia entregasse ou punisse o grupo de assassinos e reivindicou o direito de entrar na Sérvia para supervisionar esse esforço. A Sérvia, entretanto, na esperança de formar seu próprio império balcânico e eliminar dali a presença austríaca, começou a se mobilizar, contando com o apoio de sua aliada, a Rússia. Quando os sérvios rejeitaram o ultimatum de Viena, navios austríacos bombardearam Belgrado, fazendo questão de dizer que não estavam invadindo território sérvio; certamente a Áustria não queria que o conflito escalasse e a Rússia fosse trazida para a questão, mas também sabia contar com o suporte de sua aliada Alemanha. A Rússia havia começado a mobilizar parcialmente suas tropas, uma vez que o Czar Nicolau II esperava que isso detivesse ulteriores agressões da Áustria. Seu Estado-maior o persuadiu a ordenar uma completa mobilização, à qual a Áustria respondeu com uma mobilização também completa. França, Inglaterra e outros países correram para organizar suas políticas. A Alemanha, aliada da Áustria, ordenou então à Rússia que interrompesse a mobilização de suas tropas dentro de 12 horas (o que era impossível, ainda que a Rússia o quisesse). Uma vez desatendida a exigência, a Alemanha declarou guerra em 1º de agosto e começou a executar um plano de batalha previamente elaborado, que envolvia atacar a França através da Bélgica e de Luxemburgo.

É espantoso, mas os poderes ocidentais estavam despreparados para esse desenrolar, não obstante os muitos sinais de alerta, diplomáticos e militares, que chegavam da Alemanha. Apesar disso, nas grandes capitais como Paris e Londres, a guerra despertou grande entusiasmo. Os franceses, em particular, estavam sedentos de vingar sua derrota na Guerra Franco-Prussiana e recuperar a Alsácia-Lorena. A Grande Guerra, entretanto, seria diferente de tudo o que a Europa tinha visto até então. Há relatos de jovens oficiais de cavalaria franceses, rindo e brandindo no ar suas espadas ao atacar as linhas alemãs, para em seguida encontrar a morte instantânea: ninguém lhes havia contado das novas armas, as metralhadoras. O gás tóxico foi outra novidade dos eficientes alemães, e seus tanques eram monstros mecanizados que nenhum outro país podia igualar. O longo embate de trincheiras foi um traço fundamental dessa guerra que, de início, todos pensaram resolver numas poucas semanas. Um só período dessa guerra de quatro anos fez um espantoso número de vítimas: de março a dezembro de 1916, o impasse entre alemães e franceses próximo a Verdun causou aproximadamente 400.000 mortes, e quase o dobro de homens feridos ou intoxicados pelos gases venenosos. Entre julho e dezembro daquele mesmo ano, na Batalha do Somme, Grã-Bretanha, França e Alemanha sofreram mais de um milhão de baixas, e ainda assim a linha de batalha moveu-se apenas sete milhas — o que totaliza duas mortes e meia por polegada.

Nações trocaram de lado ou retiraram-se de campo durante os quatro longos anos de guerra. A Itália deixou a Tríplice Aliança, na qual tinha sido parceira da Áustria-Hungria e da Alemanha, e passou a ladear com os Aliados em 1915. A Rússia, após a revolução que em breve abordaremos, retirou-se da guerra em 1917, enquanto os Estados Unidos nela entraram no princípio de 1918. Desde o começo, uma paz negociada deveria ter sido possível. Isso teria desmoralizado os militares alemães, mas o governo imperial permaneceria intacto, o que bem poderia ter evitado a futura ascensão de Hitler. A Alemanha, todavia, queria uma derrota definitiva da Grã-Bretanha e da França, e não estava aberta a negociações; por seu turno, em 1915 os Aliados tinham prometido terras à Itália caso ela abandonasse a antiga aliança, e precisavam de mais tempo para cumprir tal promessa. Também eles queriam uma vitória completa sobre a Alemanha e não estavam propensos a barganha. É certo que o Papa Bento XV insistia pela paz, mas era visto como pró-germânico e os franceses se ressentiam de sua recusa a admitir a culpa maior da Alemanha em invadir vizinhos pequenos e indefesos como a Bélgica e Luxemburgo. Suas exortações propendiam a vagas propostas idealistas de desarmamento geral, de todo irrealistas e inúteis naquelas circunstâncias.

 

Um Trágico Imperador

O único chefe de Estado que se esforçava ativamente a promover uma paz exeqüível era o jovem e recém-coroado imperador da Áustria-Hungria. Francisco José havia enfim morrido em 1916, após um longuíssimo reinado: tinha subido ao trono durante as revoluções de 1848. Sua família parecia perseguida pela violência. Em 1853, quase foi assassinado a faca por um revolucionário, mas salvou-o uma improvável comitiva formada por um conde irlandês e um açougueiro austríaco que passava na hora. (Ambos foram recompensados, o açougueiro elevado à nobreza.) Um a um, o imperador foi vendo seus herdeiros sofrerem mortes violentas. Seu único filho, Rodolfo, ou foi assassinado ou cometeu suicídio em Mayerling em 1889; um de seus irmãos, Maximiliano, havia sido executado no México algumas décadas antes, e outro morreu de intoxicação por água durante uma peregrinação à Terra Santa. Sua amada esposa, Isabel, morreu esfaqueada por um anarquista em 1898, e a morte de seu sobrinho, o Arquiduque Francisco Ferdinando, foi o estopim da Grande Guerra. Agora, enfim, era o próprio imperador veterano que partia, deixando como herdeiro seu sobrinho-neto Carlos (beatificado em 2004). Carlos estava disposto a negociar com os Aliados e até mesmo a abrir mão de algum território austríaco em prol da paz, mas não encontrou qualquer cooperação por parte das grandes potências. Suas mensagens ao governo francês ficaram sem resposta. O Presidente Wilson, um idealista antipático à monarquia, sequer chegou a ouvir suas propostas — com o fundamento, ao que parece, de Carlos não ter sido eleito. E assim a guerra seguiu seu curso mortífero até o armistício em 1918.

 

A Revolução Comunista na Rússia

Há mais de uma semelhança entre a Revolução Francesa de 1789 e a Revolução Russa de 1918, e alguns dos participantes desta pareciam muito conscientes desse fato. Lênin perguntou, quando a revolução começou a ter sucesso: “Onde vamos conseguir nosso Fouquier-Tinville?” Aquela sinistra figura tinha sido promotor público durante o Terror, legendário por sua cruel dedicação à causa revolucionária.

Reza a lenda da Revolução Russa que, de tão depauperado e miserável, o povo russo finalmente rompeu suas cadeias, derrubou o governo opressor e conquistou a própria liberdade. Nada mais distante da verdade. Em primeiro lugar, nunca é “o povo” quem faz revoluções; em segundo, a Rússia, na década anterior à Grande Guerra, e apesar dos problemas causados pela Guerra Russo-Japonesa de 1905, experimentara uma prosperidade sem precedentes. Isso se deveu principalmente a um ministro czarista chamado Pedro Stolípin, brilhante e realista, que conseguiu mudar o antiqüíssimo sistema agrícola, gerador de estagnação e ineficiência extrema, no qual as terras dos camponeses não lhes pertenciam, mas sim às inflexíveis comunas dos vilarejos. Foi tão exitoso o programa de privatização de terras arrendadas promovido por Stolípin, que em 1913 os camponeses já superavam a produção dos proprietários de terras mais extensas, empurrando-os para fora do mercado. Não apenas o consumo doméstico aumentou, mas também as exportações — a uma formidável taxa de 61% em relação aos primeiros anos do século. A poupança dos camponeses também cresceu vertiginosamente, e os investimentos estrangeiros afluíam para a Rússia. Tragicamente, antes de concluir suas grandes reformas da economia russa, Stolípin foi assassinado a bala por um revolucionário enquanto assistia a uma ópera em 1911. Fez o Sinal da Cruz, saudou o czar, que estava no camarote real, e desfaleceu dizendo: “Fico feliz de morrer pelo czar.”

Stolípin era praticamente insubstituível, e pari passu com a crescente agitação revolucionária e a deriva do país rumo à Grande Guerra, uma nova e demoníaca personagem conquistava a confiança da família real, e talvez tenha feito mais que Lênin ou Trotsky para destruir a Rússia dos czares. Parecia possuir poderes paranormais e havia, de fato, profetizado a morte de Stolípin; seu nome era Raspútin. O czar era um homem manso, avesso a contrariar, o mínimo que fosse, a vontade enérgica da esposa, de modo que, quando Raspútin, supostamente um santo, provou-se capaz de estancar o sangramento de seu filho hemofílico, a czarina Alexandra dispôs-se a fazer tudo o que ele dissesse — e a garantir que o fizesse também seu marido. Mesmo quando o czar estava com suas tropas no front e a guerra ia mal para a Rússia, habilidosos ministros do governo eram substituídos por inábeis camaradas de Raspútin. Foi, enfim, morto — por um grupo de fidalgos que não viam outra maneira de salvar a Rússia — no curso de uma noite longa e medonha, na qual várias vezes se pensou que ele já houvesse morrido, apenas para vê-lo soerguer-se de novo e de novo, obrigando a repetição daquela tarefa extenuante e desagradável.

Como é notório, a morte dessa que foi uma das mais bizarras personagens da história não bastou para salvar a Rússia. Era tarde demais, e a abdicação do czar e o estabelecimento de um governo provisório (de esquerda) tampouco trouxeram estabilidade. Os comunistas de Lênin tomaram o poder em outubro (novembro de nosso calendário) de 1917. Um dos primeiros movimentos de Lênin foi retirar a Rússia da guerra, ao preço de vastos territórios cedidos às potências centrais. O czar e sua família foram primeiro aprisionados em março de 1917, enquanto os revolucionários debatiam se e quando deviam assassiná-los. Foi só mais de um ano depois, em julho de 1918, que Lênin finalmente ordenou a execução da família inteira. A família real, seus filhos e criados foram mortos cruelmente; muitos pereceram lentamente das feridas a faca ou dos crivos de bala. Nascia a União Soviética.

 

Pensamento e Cultura no Século da Guerra Total

O maior dos males que afligiram a Igreja no início do século XX foi o modernismo, que já começara a emergir no fim do século anterior. A maior consolação da Igreja no século XX foi — ou deveria ter sido e ainda ser — Fátima. Examinaremos a história inicial de ambos os fenômenos, que continuarão relevantes na seqüência da história do século XX.

 

O Modernismo

Os primeiros estrondos do pensamento modernista remontam àqueles protestantes do século XIX que começaram a aplicar à religião os postulados do darwinismo. Se, como tudo o mais, também a religião evoluía, então não era mais necessário acreditar em doutrinas fixas. O modernismo era “a síntese de todas as heresias”, como viria a chamá-lo São Pio X.

Um de seus principais expoentes foi o Pe. Alfred Loisy, sacerdote francês que esteve entre os primeiros católicos (coisa que algum dia ele chegou a ser) a escrever livros que infundiriam o modernismo em seminários, escolas e almas católicas. O Pe. Loisy havia sofrido a influência de Adolf von Harnack, um protestante liberal e modernista, o que é um exemplo, entre muitos, da infiltração dessa insidiosa heresia, a partir de sua versão protestante original, no interior da Igreja Católica. Dizia esse rebento francês do modernismo que, em parte, Harnack estava correto em sua teoria de que Nosso Senhor não pretendia formar uma Igreja organizada — ao menos não da forma como, à época, para o desagrado do Pe. Loisy, ela estava organizada. Pensava que Cristo não podia saber como a Igreja evoluiria após Ele deixar a Terra; sustentava também que Ele não Se sabia consubstancial ao Pai, idéia esta que só teria surgido muito depois, no Concílio de Nicéia. (Ainda se encontra, entre católicos “liberais”, a idéia de que Nosso Senhor não tinha conhecimento de quem Ele era, ou do futuro, ou de quase coisa alguma.) Loisy escreveu também, em 1904, que considerava “o nascimento virginal e a ressurreição meros símbolos morais.”

Para os modernistas, tudo que pensávamos crer não passava, na realidade, de algo provisório, uma vez que o dogma “evolui” constantemente. Cada nova geração tem de descobrir e criar suas próprias noções teológicas, porque doutrinas solenemente definidas são tolas e ultrapassadas. Não é difícil notar que essa doutrina poderia destruir a fé de inumeráveis almas. A influência de Loisy espalhou-se não apenas na França, mas também na Inglaterra, onde seus mais famosos seguidores foram o barão Friedrich von Hügel e o jesuíta Pe. George Tyrrell.

 

A Ascensão de São Pio X ao Papado

O Papa São Pio X sucedeu a Leão XIII em 1903. Não nutria ilusões a respeito da crise que se avolumava na Igreja e no mundo, e em sua primeira encíclica, E supremi apostolatus (sobre a Restauração de todas as coisas em Cristo), referiu-se ao “terror” que experimentava em considerar a condição funesta da humanidade por causa de sua apostasia para com Deus. Caracterizou essa condição como “essa detestável e monstruosa iniqüidade, própria do tempo em que vivemos, pela qual o homem se substitui a Deus”. Temia também “que uma tal perversão dos espíritos seja o começo dos males anunciados para o fim dos tempos, e como que a sua tomada de contato com a terra, e que verdadeiramente o filho da perdição de que fala o Apóstolo (2 Tess 2, 3) já tenha feito o seu advento entre nós”.

 Jamais podendo tolerar que as águas do poço católico fossem envenenadas pela heresia, pôs-se a incluir os escritos modernistas naquele utilíssimo — mas hoje abolido — índice de livros proibidos para católicos, o Index. Isso não destruiu o modernismo, embora limitasse a exposição do simples fiel aos seus erros; é possível que seus adeptos — que formavam uma panelinha de intelectuais, antes que um movimento popular — se consolassem de se ver como nobres vítimas do obscurantismo. Em todo caso, não desapareceram nem se arrependeram. Como os hereges do passado, queriam eliminar muitas devoções populares caras às massas não-esclarecidas e “democratizar” o governo da Igreja. Desejavam um clero mais pobre e mais simples, e o próprio Loisy parece ter sido a favor da mudança do requisito do celibato clerical. Em paralelo a isso, Paul Hallett escreveu que “o princípio modernista da Imanência Vital, que faz autônoma a consciência, é feito sob medida para um abrandamento no ensino sexual.” (Imanência Vital é a idéia de que o princípio divino está localizado dentro, não fora, do homem, e é a fonte de suas crenças religiosas e morais.)

 

Fontes das Teorias Modernistas

É possível encontrar a maioria dessas idéias em movimentos heréticos que datam desde a Idade Média e perpassam a Reforma, quando produziram e organizaram novas seitas. O que havia de novidadeiro — e aterrador — no modernismo, a meu ver, era precisamente sua adoção da nova teoria evolutiva no campo da doutrina. A idéia modernista é que a doutrina da Igreja está em constante evolução conforme as circunstâncias das sucessivas comunidades cristãs, e que esse processo é inevitável. Tal como na luta de classes marxista, a mudança está em marcha implacável, e não pode ser detida. O problema de Marx era pretender que a mudança estacionasse quando atingida a utópica sociedade sem classes; já os modernistas não parecem ter previsto qualquer ponto de chegada. O caráter inexorável da grande evolução de dogma e práxis reforçava nesses revolucionários da religião o fanatismo, a dedicação e o zelo já exaltados. Consideravam-se parte de um Zeitgeist1 maior do que eles mesmos, do qual eram a um só tempo os instrumentos e os missionários.

 

A Ofensiva Antimodernista de São Pio X

A campanha do Papa São Pio X, que vinha ganhando força desde o início de seu reinado, alcançou o ponto alto em 1907. Em julho daquele ano, o Santo Ofício emitiu o decreto Lamentabili, referido às vezes como “o novo Syllabus”, condenando 65 proposições modernistas. O mesmo ano testemunhou providências contra várias publicações modernistas, além da excomunhão de seus autores; o próprio Loisy seria excomungado no ano seguinte. Em setembro de 1907 publicou-se a histórica encíclica Pascendi. Vale a pena estudar essa brilhante e minuciosa análise da heresia modernista; a condenação das teorias ali discutidas é bem clara, e foi enfatizada e reforçada em documentos papais subseqüentes. Tanto o decreto Lamentabili quanto a encíclica Pascendi parecem atos do Magistério infalível. O juramento antimodernista foi decretado pela Pascendi, e todos os padres, bispos e professores eram obrigados a fazê-lo, até ser abolido por Paulo VI — seja porque achou que já não era necessário, seja porque todos já tinham se tornado modernistas apesar do juramento. Como sabemos, àquela altura os modernistas removeram as pedras sob as quais jaziam adormecidos desde o início do século, e vieram à tona. Seus escritos proliferaram desde o Vaticano II ― tive recentemente o pesar de ler muitos deles enquanto organizávamos a biblioteca da paróquia e eliminávamos a cizânia. É um sinal encorajador, entretanto, que aquele lixo comece a parecer ultrapassado, ao passo que o magistério tradicional segue persuasivo. Certamente os modernistas nem em sonho consideraram que sua sagrada evolução pudesse descambar num retorno à Tradição; teriam náuseas só de pensá-lo. Seria como se os revolucionários franceses contemplassem o seu idolatrado “povo” eleger um rei.

 

Fátima

O que é apresentado a seguir sobre esse importantíssimo evento, a maior aparição de Nossa Senhora nos tempos modernos e, de acordo com a Irmã Lúcia, a última, é um resumo muito breve, porque a história inteira dessas visitas de Nossa Senhora, suas mensagens, e as vidas das três crianças que a viram, exigiriam muitos volumes. O melhor registro, de fato, é a obra em vários volumes, Toute la vérité sur Fatima (Toda a verdade sobre Fátima), do Irmão Michel de la Sainte-Trinité e do Irmão François des Anges. Aqui vamos considerar alguns temas centrais das mensagens e, em particular, sua íntima conexão com eventos históricos — algo inédito na história das aparições marianas. Com efeito, segundo alguns teólogos, os fenômenos de Fátima não pertencem estritamente à categoria de “revelação privada”, devido à natureza das mensagens e ao milagre público e espetacular pelo qual foram validadas.

 

A Resposta de Nossa Senhora à Guerra e à Revolução

Enquanto os descontrolados eventos do século XX precipitavam a Europa, e deveras o mundo, à beira de um abismo de sofrimentos, a Bem-aventurada Virgem Maria entrava em combate na mais espetacular série de visitações celestiais da história. Como a Irmã Lúcia contaria ao Padre Agostinho Fuentes numa entrevista em 1957: “Nos planos da Divina Providência, sempre que Deus vai castigar o mundo, antes esgota todos os remédios. E quando vê que o mundo não faz caso de nenhum deles, então — como diríamos na nossa maneira imperfeita de falar — nos oferece, com 'certo receio', o último meio de salvação, a sua Mãe Santíssima.”

Desse modo, os terríveis castigos que acabamos de pincelar foram acompanhados de extraordinárias visitas de Nossa Senhora a um pequeno vilarejo português, portando uma mensagem para o mundo e para os papas. Em 1916, antes das aparições da Virgem, um anjo, que se chamou a si mesmo de Anjo da Paz e Anjo de Portugal — identificado com São Miguel — apareceu várias vezes a três pastorinhos portugueses: Lúcia, Jacinta e Francisco. Ensinou-lhes orações de reparação e exortou-os a fazer sacrifícios pela conversão dos pecadores, com particular ênfase pelos “ultrajes, sacrilégios e indiferenças” com que Nosso Senhor é ofendido. O anjo se referiu à Sagrada Eucaristia como “horrivelmente ultrajada pelos homens ingratos”. Então, em 13 de maio de 1917, a própria Maria Santíssima apareceu às crianças pela primeira vez, prometendo retornar no décimo terceiro dia dos próximos cinco meses.

 

As Mensagens e o Milagre

As crianças videntes de Fátima sabiam que uma guerra havia começado em 1914, mas não tinham conhecimento do desenvolvimento dos fatos na Rússia, a qual provavelmente ignoravam o que era e onde ficava. Suas vidas concentravam-se agora em seu encontro mensal com a Mãe Santíssima. Na primeira aparição, em 13 de maio de 1917, ela lhes ensinou uma oração e pediu que recitassem o Terço, fizessem sacrifícios pelos pecadores e rezassem pelo fim da guerra. Em junho, durante sua segunda visita, anunciou que Deus queria estabelecer sobre a Terra a devoção ao seu Imaculado Coração. A terceira aparição, em julho, trouxe a famosa visão do inferno e o misterioso “Terceiro Segredo”, que as crianças não deveriam revelar até muito mais tarde. Também encerrou a promessa de que a guerra iria acabar, mas que, se os homens não deixassem de ofender a Deus,

no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Nossa Senhora prometeu ainda que em outubro contaria às crianças seu nome e o que queria, e realizaria um milagre que todos poderiam ver. Nos dois meses seguintes, Nossa Senhora repetiu algumas de suas instruções anteriores, continuou a insistir sobre a oração e a penitência, e mencionou novamente o que faria em 13 de outubro. Chegado esse dia, referiu-se a si mesma como a Senhora do Rosário e prometeu que a guerra acabaria e que os soldados logo voltariam para casa. Falou também uma vez mais do quanto que Nosso Senhor estava ofendido pelo pecado e da necessidade de as pessoas reformarem suas vidas e recitarem o Terço diariamente.

Em 13 de outubro de 1917, apenas as crianças viram Nossa Senhora. Além disso, entretanto, viram uma maravilhosa série de quadros no céu em que São José também apareceu. De repente, diante dos olhos de cinqüenta a setenta mil testemunhas que tinham vindo de Portugal e de toda a Europa, aconteceu o famoso Milagre do Sol. O sol parecia girar no céu, emitindo raios coloridos, e depois despencar em direção à Terra, aterrorizando os espectadores antes de retornar ao seu lugar e estado normais. Temos o relato de um repórter agnóstico, feito para um jornal socialista, que tinha ido lá preparado para narrar uma fraude e acabou tendo de admitir que havia visto um milagre. Com louvável honestidade, sua reportagem descreveu o fato em detalhes. O testemunho de observadores céticos, somado ao fato de que pessoas a milhas de distância do local também observaram o fenômeno, descarta a hipótese de alucinação coletiva. Nossa Senhora havia fornecido uma prova espetacular da autenticidade de sua mensagem.

 

Após as Aparições

O povo de Fátima levou a sério a mensagem de Nossa Senhora, ao menos por um tempo, e ela cumpriu sua promessa. Portugal havia permanecido neutro no estalar da Grande Guerra, mas em 1916 concordou com um pedido britânico de apreender navios alemães em portos portugueses e vendê-los à Inglaterra. Isso acarretou que a Alemanha e a Áustria-Hungria declarassem guerra a Portugal, de forma que o pequeno país estava assim obrigado a enviar seus soldados para lutar contra os alemães em dois fronts: em suas colônias na África Oriental e na França. A primeira baixa portuguesa na França ocorreu em abril de 1917, o mês anterior à primeira visita da Bem-aventurada Virgem às crianças. A guerra acabou no ano seguinte.

No decorrer do século XX, os pedidos de Nossa Senhora não seriam atendidos, e todas as suas profecias se cumpririam. O Império Comunista tomou conta da Rússia, ameaçado apenas por uma tímida tentativa de intervenção dos Aliados ao término da Guerra, em 1918. Naquele mesmo ano, o mundo foi atingido pela maior pandemia de influenza da história. Milhões pereceram da doença mundo afora, alguns em menos de 24 horas. Muitos, não se sabe quantos, morreram por infecções secundárias ou complicações causadas pela gripe. Entre as tropas americanas, foi a influenza, e não os combates, que causou a maioria das baixas de guerra.

 

Paz Atrai Guerra

O tratado de paz de 1919, assinado no ano seguinte à derrota das potências centrais, foi uma receita para conflitos futuros. Muito ao contrário das cláusulas do Congresso de Viena de 1815, lenientes que foram com a derrotada França (país que nos legara as guerras da Revolução e as napoleônicas, que juntas custaram à Europa milhões de vidas e farta destruição), os tratados da Primeira Guerra foram desnecessariamente vingativos e severos ― em grande parte graças a Woodrow Wilson, ideólogo liberal e calvinista, em seu ódio ao que chamava de “autocracia”. Depois de implementar, a seu ver, “um mundo seguro para a democracia”, Wilson queria certificar-se de que esse mundo de fato se tornaria democrático, e de que uma estrutura internacional surgiria para assegurar aquela nova ordem mundial. A Liga das Nações materializou esse sonho, mas bastaria pouco mais de década para tornar-se um irrelevante fracasso, enquanto o pobre Wilson gastava sua saúde tentando converter seus conterrâneos do isolacionismo e persuadi-los a apoiar aquele projeto. No fim das contas, morreu frustrado.

Foram derrubadas duas das grandes monarquias da Europa: os Hohenzollerns na Alemanha e os Habsburgos na Áustria-Hungria, tradicionais elementos de estabilidade dentro de seus territórios. Naturalmente, ninguém queria que o Kaiser Guilherme II seguisse no trono. Ele se retirou para a Holanda, de onde continuou a aborrecer sua família (por exemplo, ao casar-se inesperadamente com uma criada). Entretanto, havia outros membros da família que poderiam ter governado — e estabilizado — um país que até então jamais conhecera outra forma de governo. (O sábio Congresso de Viena havia permitido que os Bourbons continuassem a governar a França após sua derrota.)

A paz de 1919 resultou num catastrófico redesenho do mapa europeu, em parte pelo desejo de punir o perdedor como jamais fora punido nenhum outro inimigo (exceto talvez a Cartago dos tempos de Roma), e em parte pela fanática devoção de Wilson à “autodeterminação dos povos”, baseada na etnia ou — caso isso fosse muito difícil — ao menos numa língua comum. A Hungria, parceira da Áustria no Império Austro-Húngaro, embora gozasse de autogoverno no interior do império, não podia exercer uma política externa independente. Pouco importava: devia ser punida (por causa das políticas austríacas) com a perda de dois terços de seu antigo território — algo exorbitante para qualquer critério de compensação. O fator decisivo, é claro, foi a dedicação de Wilson à causa tribalista, uma vez que as áreas extirpadas da Hungria foram organizadas em estados nacionais segundo padrões étnicos ou lingüísticos.

Assim, entregou-se à Romênia o extenso território húngaro da Transilvânia, sob o pretexto de que estava repleta de romenos. Regiões onde viviam eslovacos, incluindo Pozsony, capital húngara na Idade Média, foram arrancadas da Hungria; mas Wilson não parou por aí: já que eslovacos e tchecos falavam línguas do mesmo ramo eslavo, Wilson resolveu amalgamá-los, apesar de suas muitas outras diferenças, incluindo a religião, e assim fez surgir uma nova criação: a Tchecoslováquia. Pela mesma razão, formou a Iugoslávia a partir de vários grupos étnicos e religiosos muito diferentes. Por toda a Europa Oriental, estabeleceram-se pequenos e instáveis nações-Estado, às quais se ordenava formarem democracias, querendo ou não. Wilson cogitou unir Alemanha e Áustria, relacionadas que são por etnia e língua, mas parece que recuou ante o vislumbre de que isso pudesse vir a criar, bem no meio da Europa, uma grande potência católica influenciada pelo papado. A Áustria, mutilada, tinha de se tornar uma república. A autodeterminação, por algum motivo, não se aplicava à Ucrânia, que almejava libertar-se do domínio soviético: para tanto, diziam-lhes, bastava que os ucranianos confiassem na nova Liga das Nações. Esta, contudo, tinha acabado de ceder a Alta Silésia e sua população alemã à Polônia, mostrando quão obscuros eram os princípios que orientavam sua atuação.

Que países novos e pequenos, com sistemas de governo pouco familiares, se tornariam presas fáceis da próxima grande potência que se constituísse nas redondezas, deveria ter sido óbvio; e assim aconteceu: caíram primeiro sob a Alemanha ressurgente, e depois sob a União Soviética. A injustiça das condições impostas em termos de território e sistema de governo gerou um amargo ressentimento, que produziu em alguns casos revoluções e, em outros, uma disposição para se aliar à primeira potência que prometesse um novo acordo. As áreas do continente europeu onde se travara o conflito armado (o que ironicamente não incluía a Alemanha, cujo solo não fora palco de nenhuma grande batalha) haviam sofrido intensa destruição, e todos os países envolvidos na guerra amargaram baixas sem precedentes: metade dos jovens franceses — dois milhões deles — pereceram ou foram mutilados. Logo após as últimas batalhas da guerra, veio a epidemia de influenza em 1918, trazida inadvertidamente por tropas americanas vindas do Kansas, onde começou como gripe aviária, sofreu mutação para gripe suína, e depois, já na Europa, evoluiu de novo para sua forma mais letal. No mundo inteiro, a gripe afetou quase um bilhão de pessoas, das quais 20 a 40 milhões morreram; 85% dos mortos de guerra americanos (43 mil) sucumbiram para a influenza.

 

O Sofrimento da Alemanha

Na maioria dos países europeus do pós-guerra, a inflação esteve nas alturas. De todos, o mais atingido foi a Alemanha. Sobrecarregada com as esmagadoras reparações que lhe foram impostas, sua economia era incapaz de lidar com os custos da derrota. Em 1923, um obscuro e fracassado pintor tentou [A1] arrebatar o poder com um discurso delirante numa cervejaria da Bavária. Preso, gastou seu tempo na cadeia escrevendo um livro chamado Mein Kampf2, em que descrevia um detalhado programa de governo, seguido ao pé da letra quando, mais tarde, subiu ao poder. É uma pena que, aparentemente, nenhuma liderança política, dentro ou fora da Alemanha, tenha se preocupado em lê-lo. Pelos meados da década de 1920, o país se recuperava, parcialmente estimulado por investimentos e ajuda econômica dos Estados Unidos, e em 1926 foi admitido na Liga das Nações. Veio então a Grande Depressão de 1929 e o investimento americano cessou. Todos os países, exceto a União Soviética, sofreram com aquele colapso capitalista, que espalhava desemprego em massa e desordem econômica generalizada. Na Alemanha, a situação instável catapultou o pintor frustrado (e agora ex-presidiário) a uma posição no governo, e depois à presidência — com 88% dos votos. Seu nome, é claro, era Adolf Hitler.

Hitler conseguiu dar uma guinada na economia alemã dentro de algumas semanas; construiu o grande sistema de rodovias, incentivou o desenvolvimento de um “carro do povo” (a Volkswagen) e fortaleceu as forças armadas dentro dos estritos limites impostos pelo Tratado de Versalhes. Por meio de um acordo secreto com os soviéticos, ainda desenvolveu tanques, a força aérea (que os Aliados haviam proibido) e pesquisas clandestinas com gás tóxico em solo russo. Anexou a Áustria, lançando mão de uma série de ações coordenadas, que incluíram a organização de grupos nazistas dentro do país vizinho e o envio de tropas para além da fronteira pouco antes de um plebiscito sobre a independência austríaca ― e isso ele fez apelando ao princípio wilsoniano de que povos com idêntica origem étnica e lingüística deveriam pertencer ao mesmo Estado. Encampou também a zona alemã da Tchecoslováquia (a Região dos Sudetos), e depois o país inteiro. Quando invadiu a Polônia em 1939, dividindo seu território com o aliado Stálin, que atacava pelo leste, os Aliados — a princípio, naquele momento, Grã-Bretanha e França — decidiram contê-lo, mas já era tarde; constatava-se, afinal de contas, que a Primeira Guerra Mundial não tinha sido “a guerra para pôr fim a todas as guerras”.

 

A Segunda Grande Guerra

Nada de mais aconteceu no primeiro ano do conflito, que o povo já alcunhava de “guerra de araque”. A França estava completamente despreparada para o confronto, apesar dos repetidos apelos do Marechal Pétain, herói da Primeira Guerra, para que se modernizassem as forças armadas. Um governo pacifista, dominado por socialistas, comandara o país durante os anos 30, e quando, em 1940, Hitler desencadeou sua “guerra-relâmpago” em todas as direções (a Blitzkrieg), aqueles governantes indecisos e amedrontados quiseram se livrar da responsabilidade pelo iminente fiasco. É que, para proteger a França de uma invasão, aqueles homens haviam confiado em nada mais que uma série de fortificações na fronteira oriental, conhecida como Linha Maginot; os alemães só tiveram de contorná-la. Após uma peregrinação a Notre Dame ― tão solene quanto burlesca, considerando as suas convicções ateístas e maçônicas ― os membros do governo, como que para mostrar que tentavam de tudo, decidiram entregar o poder ao Marechal Pétain, já então com mais de 80 anos.[A2]  Um terço da França, Paris inclusive, estava em pleno processo de ocupação pelo inimigo. Centenas de milhares de soldados franceses terminariam em campos de concentração alemães. Esses militares capturados e a população civil das regiões ocupadas formariam uma multidão de reféns, cujas vidas dependiam do que Pétain viesse a fazer.

O marechal se deu conta de que a França não conseguiria continuar lutando; entretanto, um oficial esquentado e insubordinado chamado Charles de Gaulle dizia ser possível manter a resistência com o exército francês na África. Pétain, com sua experiência militar vastamente superior, sabia que aquela parte do exército precisava ser grandemente reforçada antes de qualquer confronto com os alemães; para ganhar tempo, assinou um armistício com Hitler. O sul da França, que ainda estava livre da ocupação inimiga, assim permaneceria ― incluindo a costa mediterrânea, que Hitler desejava mas jamais viria a conseguir, razão pela qual alguns historiadores consideram o armistício um erro muito custoso para o führer. O novo governo francês instalou sua sede em Vichy, no sul, com suporte de quase toda a população francesa. O Marechal Pétain era de origem camponesa, católico, e estava determinado a dar ao povo francês um governo conservador e ordeiro. Reduziu o poder dos grandes capitalistas e favoreceu uma organização corporativa da economia; pela primeira vez, nomeou ministro da agricultura um camponês; apoiou a Igreja Católica e suas instituições. Tudo isso foi uma lufada de ar fresco num país há muito submetido a um regime anticatólico e freqüentemente opressor. Havia um preço a pagar, é claro: neutralidade na guerra e cooperação com a Alemanha. As fábricas francesas tinham de produzir cotas para os alemães, mas o faziam tão lentamente quanto podiam; e mesmo assim algumas demandas eram negadas. Era uma estreita margem de manobra. Certa vez, questionado sobre a possibilidade de ignorar determinada exigência alemã, o Marechal Pétain fez recordar ao interlocutor que os alemães seriam capazes de executar toda a população da província da Alsácia. Hitler jamais conseguiria o controle da costa mediterrânea ou da     esquadra francesa; quando, no decorrer da guerra, os alemães finalmente invadiram o país inteiro, o governo de Vichy ordenou que, se necessário, toda a esquadra deveria ser afundada para não cair em mãos alemãs. E já antes disso, Pétain também havia preparado o exército francês na África, que vinha sendo secretamente fortalecido, para se unir aos Aliados nas ofensivas finais da guerra.

O embaixador americano em Vichy ficou extremamente impressionado com o marechal e passou a nutrir grande admiração por ele. Pétain também mantinha comunicação verbal com Churchill; suas mensagens eram transmitidas por meio de agentes secretos que as memorizavam e repetiam, sem registro escrito. Na Inglaterra, todavia, estava De Gaulle, o desertor francês, anunciando-se ao mundo inteiro, pelas ondas do rádio, como representante da “França livre” e incitando a resistência aos alemães no país ocupado. Aqui nos falta espaço para a demorada tarefa de demolir o mito da Resistência. Diga-se apenas que, embora decerto houvesse homens e mulheres de boa-fé nesse movimento subterrâneo dedicado a sabotar as operações alemãs na França, também eram muitos os que se moviam pelo desejo de colher dividendos para sua agenda política no pós-guerra. Durante a guerra, o movimento causou muita devastação aos conterrâneos franceses devido às represálias que suas ações provocavam. A retaliação alemã recaía sobre civis inocentes, como no caso de uma vila inteira que foi fuzilada por causa dos danos causados pelas ações da Resistência.

Enquanto isso, a maior parte da Europa seguia ocupada pelos alemães, que foram até bem recebidos em certas regiões do Leste Europeu, porque Hitler prometera a devolução do território roubado desses povos após a Primeira Guerra Mundial. Até então, o führer lembrava um Napoleão; e a semelhança ficou ainda mais forte ao invadir sua antiga aliada, a União Soviética, com resultados previsivelmente desastrosos. No final de 1941, o ataque japonês a Pearl Harbor trouxe os Estados Unidos para a guerra, e o ano de 1942 veria a maré se voltar contra o líder do Terceiro Reich.

Os três grandes momentos de guinada da guerra naquele ano foram a derrota imposta aos alemães pelos soviéticos em Stalingrado, a vitória britânica sobre as tropas alemãs em El Alamein no Egito, e a destruição da frota japonesa pelos americanos em Midway. O movimento de retirada dos exércitos alemães prosseguiu até Berlim ser tomada em 1945; numa decisão fatal, as tropas americanas retiveram sua ofensiva sobre aquela cidade para que as forças soviéticas pudessem ocupá-la. Os russos já estavam presentes em toda a Europa Oriental com o propósito de implantar ali regimes soviéticos. Tragicamente, o ano que viu a vitória sobre a Alemanha nazista viu também o início do estado de tensão e hostilidade entre a União Soviética e o Ocidente, conhecido como Guerra Fria.

 

Crimes de Guerra

Pelo menos um livro inteiro seria necessário para uma discussão sobre os crimes de guerra — e os houve dos dois lados. A obsessão de Hitler em destruir “raças inferiores”, tais como ciganos, judeus e eslavos, levou a uma espantosa mortalidade civil. Polacos, judeus e outros “indesejáveis” pereceram aos milhões; teríamos de retornar às campanhas dos mongóis na Idade Média para encontrar semelhante número de vítimas. Os horrores dos campos de concentração são bem conhecidos, incluindo torturas, experimentos médicos e uso de restos humanos.

Mas os Aliados, por sua vez, também não podem ser inocentados. A política de bombardeio “estratégico” ou “de terror” fez com que aviões britânicos e americanos sobrevoassem cidades alemãs com ordens de atingir, não alvos militares, mas casas comuns, hospitais e escolas. O intuito era desencorajar a população, possivelmente baseado no princípio democrático de que “o povo” é responsável pelas ações do governo. O bombardeio de Dresden, com a extinção de cerca de 50.000 vidas inocentes (as estimativas variam), foi uma das piores atrocidades dos Aliados, mas nem de longe a única. É difícil enxergar, em tão indiscriminado e deliberado massacre de civis, algum vestígio de respeito ao princípio enunciado por Santo Tomás de Aquino de que “nunca é lícito matar o inocente”.

Quando a guerra acabou, a Operação Keelhaul, em obediência a uma das deliberações da Conferência de Yalta, fez repatriar os cidadãos de qualquer país Aliado que, ao fim da guerra, se encontrassem fora de sua terra natal. Essa decisão, que pode soar inofensiva, também se aplicava àqueles que não queriam voltar; especificamente, a dezenas de milhares de não-comunistas (ucranianos, russos e de outras nacionalidades) que, forçados a retornar para o controle soviético, foram sumariamente executados ou enviados para o Gulag.

O bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, com sua expressiva população católica, quando os japoneses já haviam tentado várias vezes iniciar negociações de paz, é um dilema moral de difícil resolução. Na primeira vez em que abordei esse assunto por escrito, inclinei-me a rejeitar as justificativas geralmente dadas para o uso da bomba atômica, baseando-me no princípio expresso por Santo Tomás de que “nunca é lícito matar o inocente”. Um leitor sério e bem informado me escreveu uma carta apresentando pontos excelentes que me conduziram a pesquisas mais profundas. O raciocínio era que, uma vez que os japoneses haviam rejeitado uma rendição incondicional, qualquer outra forma de acabar com a guerra, incluindo a invasão das ilhas, teria custado muito mais vidas americanas3.

Vale ainda mencionar que ambos os Presidentes Roosevelt e Truman, em geral contrários ao emprego de armas químicas ou biológicas, parecem ter considerado que as bombas atômicas fossem simplesmente versões mais poderosas dos explosivos tradicionais. Poucos especialistas (se é que algum deles) parecem ter tido conhecimento dos verdadeiros efeitos que a bomba atômica teria sobre suas vítimas.

Sabe-se agora que muitos no governo e no corpo diplomático japonês eram favoráveis à rendição, tendo submetido propostas a esse respeito aos representantes soviéticos em Potsdam. Os próprios Estados Unidos davam a entender que a porta estava aberta a algum tipo de discussão de paz, apesar de insistirem na rendição incondicional.

Um dos obstáculos era a determinação japonesa em manter o imperador no cargo, assim como sua forma de governo tradicional. Os americanos estavam dispostos a permitir que um Japão pós-guerra escolhesse seu próprio sistema político, mas os termos eram vagos. A ênfase americana estava na rendição. Os mais intransigentes dos oficiais japoneses mostravam-se indecisos, alguns dos quais se inclinavam a um acordo de paz que seria uma quase-rendição, apesar das urgentes mensagens vindas de seus próprios embaixadores no exterior, ou de seus especialistas internos, que veementemente aconselhavam a rendição incondicional. (O extenso livro de Gerhard L. Weinberg, A World at Arms, A Global History of World War II, documenta os passos do doloroso processo que levou os mais perspicazes entre os japoneses a se posicionarem a favor da rendição.)

Antes que as facções opostas no governo japonês pudessem chegar a um acordo, esgotou-se a paciência americana, tanto com a indecisão japonesa quanto com o aumento de baixas no Pacífico, e a bomba foi lançada sobre Hiroshima. Como a rendição não foi imediata, o mesmo destino atingiu Nagasaki, com sua grande população católica. Mesmo que se considere que havia ali uma fábrica de armamentos, isso não tornava cúmplices os numerosos civis, crianças inclusive, incinerados ou seqüelados para o resto da vida pelos efeitos da radiação, do mesmo modo que a brutalidade dos soldados japoneses com seus prisioneiros não justificava a aniquilação de dezenas de milhares de civis que nada tinham a ver com aquilo. A justificativa para as bombas precisa se apoiar em outros fundamentos.

Quando as notícias sobre Nagasaki chegaram ao governo, ainda reunido em sessão para discutir os prós e contras da rendição, o imperador interveio pessoalmente para que se aceitassem os termos americanos. Assim acabava aquela que tinha sido, pelo menos até então, a maior guerra da história.

 

Pensamento e Cultura: Pré-Guerra e Pós-Guerra

Vários conjuntos de fatos ocorridos nos anos 1920 e 1930 merecem nossa atenção se quisermos entender a mentalidade das diversas nações envolvidas na Segunda Guerra e no mundo que dali surgiu. O primeiro é o crescimento dos movimentos de eugenia; o segundo, a propagação do comunismo; e o terceiro, o papel da Igreja Católica no período que precedeu a Segunda Grande Guerra e durante o seu desenrolar. Ao longo de todo esse período, a Irmã Lúcia de Fátima continuou a transmitir fielmente as mensagens de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que receberam respostas variadas dos fiéis e dos papas.

 

Eutanásia e Câmaras de Gás

Nos anos 1920, a eugenia era moda em todo o mundo ocidental, incluindo os Estados Unidos, onde cerca de 60.000 pessoas foram esterilizadas à força. Uma infame decisão da Suprema Corte em 1924, no caso Buck versus Bell, legitimou o processo de esterilização para prevenir a transmissão de condições supostamente hereditárias. O famoso gracejo do juiz-presidente do tribunal, Oliver Wendell Holmes, ― “Três gerações de imbecis são o bastante” ― resumia a mentalidade dos engenheiros genéticos da época. O geneticista americano Hermann Mueller sonhava com a reprodução selecionada e com bebês de proveta, não hesitando em vaticinar: “Quantas mulheres... não ficariam ávidas e orgulhosas de criar um filho de Lênin ou de Darwin!” O famoso cientista, como se nota, tinha gostos duvidosos quando se tratava de seres humanos, mas ainda assim era bastante admirado por nomes como Bernard Shaw, C. P. Snow e Julian Huxley.

Até que surgiu o controle de natalidade, cuja meta Margaret Sanger descreveu como “mais homens aptos, menos inaptos”, e com o propósito de “criar uma raça de puros-sangues” e eliminar o “joio humano”, isto é, aquela “classe da humanidade que jamais devia ter nascido”. Entre as “raças inferiores” que julgava deviam ser esterilizadas, Sanger incluía “latinos, eslavos e hebreus”. Quanto a bebês em demasia, afirmava: “A maior caridade que uma família numerosa pode fazer a um de seus infantes, é matá-lo.” Uma dama não muito gentil, como se vê. Expressões como “seres humanos absolutamente desprezíveis”, “corpo estranho na sociedade humana” e “vida destituída de valor” eram comuns nos escritos da vanguarda eugenista nos anos 1920 — quando ainda ninguém ouvira falar de Hitler.

Enquanto isso, na Alemanha dos anos 1930, antes de Hitler subir ao poder, psiquiatras já haviam começado a matar pacientes mentais com gás venenoso — estimam-se cerca de 275.000 deles. Para difundir o argumento da economia que isso gerava, os livros escolares da época incluíam problemas de matemática que pediam que os alunos calculassem quantas casas populares podiam ser construídas com o dinheiro gasto na manutenção de um manicômio. Aos poucos, essa eliminação de pacientes por decisão médica foi se estendendo a epilépticos, pessoas com arteriosclerose, surdos-mudos e até mutilados da Primeira Guerra. Idosos eram alvos discretos: entrevistados em suas casas, eram depois levados para “avaliação”; quando suas famílias perguntavam por eles, ouviam dizer que tinham sido internados por um tempo. Na verdade, tinham sido mandados para câmaras de gás. Ironicamente, até o final de 1940, pacientes psiquiátricos judeus foram excluídos do programa, aparentemente por não merecerem tratamento tão compassivo. (Mais tarde viriam a receber atenção especial.) Os relatos de assassinatos de bebês e crianças — primeiro os mentalmente incapazes e os deficientes físicos, depois os que tinham dificuldade de aprendizado e os que molhavam a cama — são os mais angustiantes; muitos eram mortos de fome no decorrer de várias semanas por meio de uma gradual redução de alimentos. O processo economizava dinheiro com comida e com produtos químicos letais. Note-se que a lei alemã de esterilização compulsória de 1933 baseou-se amplamente na “Lei-Modelo de Esterilização Eugênica” composta por Harry Laughlin, um associado americano de Margaret Sanger. Outro associado, após visitar a Alemanha em 1940, falava admirado da “eliminação das piores cepas da raça alemã de forma científica e verdadeiramente humanitária”.

 

Os Erros da Rússia

Enquanto isso, os Papas continuavam a ignorar o pedido de Nossa Senhora de consagrarem a Rússia, ao passo que o poder e a influência da União Soviética seguiam em expansão. Criaram-se partidos comunistas por todo o mundo ocidental, e mesmo um regime comunista chegou a se estabelecer na Bavária, logo após a Primeira Guerra Mundial. Mesmo antes de Stálin tomar o poder em 1928, muitos milhares de russos “inimigos do povo” já haviam sido exterminados e os primeiros campos de concentração, organizados. Durante os anos 1930, Stálin mirou sistematicamente os kulaks, camponeses bem-sucedidos que naturalmente se opunham à coletivização de suas terras. Cerca de sete milhões deles foram fuzilados ou morreram em campos de trabalho forçado. Até que chegou a vez da Ucrânia, onde se fez uso de confiscos draconianos de alimento com a finalidade deliberada de produzir uma fome que ceifaria outras cinco milhões de vidas. Curiosamente, grande parte do Ocidente ignorou esta última atrocidade, graças às reportagens do correspondente do New York Times em Moscou, Walter Duranty, contumaz em negar que semelhante coisa estivesse em curso, apesar dos persistentes rumores que vinham das fronteiras russas. Notícias sobre fome em massa, escrevia Duranty, eram “um disparate”. Graças a suas conexões e a uma amistosa visita à Casa Branca, Duranty foi capaz de convencer o Presidente Roosevelt a reconhecer a União Soviética como nação.

Foi só em 1942, vinte e cinco anos após as aparições de Fátima, que o Papa Pio XII consagrou o mundo a Nossa Senhora, em 31 de outubro, com uma referência velada à Rússia. No início do ano seguinte, a Irmã Lúcia declarava: “O bom Deus já me mostrou seu contentamento com o ato realizado pelo Santo Padre e vários bispos, apesar de incompleto segundo seu desejo. Ele prometeu, por sua vez, acabar logo com a guerra. A conversão da Rússia não é para agora.” E ainda não aconteceu.

Nos anos 1930, os erros da Rússia espalharam-se agressivamente pela Espanha católica. A Guerra Civil Espanhola de 1936 a 1939 foi um dos passos em direção à Segunda Guerra Mundial, na medida em que alguns dos principais antagonistas europeus desempenharam certo papel nesse conflito espanhol, que de outro modo poderia ter permanecido meramente interno. A república estabelecida em 1931, após séculos de monarquia católica, não era nem eficiente nem católica; de fato, fechou escolas dirigidas pela Igreja e falhou em implantar reformas agrárias extremamente necessárias. Comunistas de dentro do país, com o habitual apoio estrangeiro, começaram a fomentar revoltas, assim como socialistas e anarquistas (que, de tão violentos, atraíam criminosos profissionais). O General Franco, tentando restaurar a ordem e sanear o governo, pediu que 600 homens se voluntariassem para auxiliá-lo; acabou conseguindo o apoio de 40.000. Camponeses uniram-se a ele, portando emblemas onde se lia “Viva Cristo Rey”.

Em 1936, a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini viram na Espanha a chance de influenciar um possível aliado estratégico e ao mesmo tempo testar armas desenvolvidas recentemente. Decidiram fornecer apoio aos nacionalistas de Franco. Stálin viu ali uma oportunidade de ouro para estabelecer um país comunista e enviou reforços em auxílio da república já influenciada pelo comunismo. (O governo republicano, agradecido, pagou-lhe com dois terços das reservas de ouro espanholas, antes de ser derrotado por Franco.) Simpatizantes estrangeiros, liberais idealistas e sonhadores como Ernest Hemingway, George Orwell e o comunista escocês Hamish Fraser, afluíram para a Espanha para engrossar as fileiras comunistas. Hemingway fez nascer de sua experiência um romance: Por Quem os Sinos Dobram. Orwell conseguiu ver o que realmente estava acontecendo e escreveu Homenagem à Catalunha; tornou-se um anti-stalinista convicto, ainda que com inclinações socialistas. Fraser, membro da polícia secreta soviética na Espanha, voltou para casa ainda comunista; alguns anos mais tarde tornou-se católico e fundou a excelente revista tradicionalista Approaches[A3] . Seu conhecimento das tramas internas da mentalidade e do sistema comunistas fez com que se tornasse um valoroso oponente da subversão em todas as suas formas.

Não há espaço aqui para detalhar alguns dos heróicos incidentes da guerra e os martírios de numerosos padres, freiras e fiéis. Franco venceu de maneira categórica, levando a Espanha a 36 anos de paz, e preparando o terreno para a prosperidade espanhola do pós-guerra. Não apenas Hitler não conseguiu o apoio espanhol em retribuição das armas enviadas pela Alemanha, já que a Espanha permaneceu neutra na Segunda Guerra, mas não pôde sequer obter acesso ao Mediterrâneo ou conseguir de Franco outras concessões que lhe seriam úteis. Após uma tentativa frustrada de extrair algum benefício do governante espanhol, assessores ouviram-no comentar: “Prefiro que me arranquem todos os dentes da boca a falar com aquele homem novamente.”

 

Perseguição Anticristã na Segunda Guerra

Seriam necessários vários volumes para acompanhar as vicissitudes da Igreja em todos os grandes países antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Aqui mencionaremos apenas as perseguições sofridas na União Soviética e na Alemanha durante a guerra. Já em 1922, uma carta de Lênin ao politburo exigia que a polícia secreta explorasse um surto de fome na região do Volga para destruir a Igreja Ortodoxa. “O período de fome”, escrevia Lênin, “é o único tempo em que podemos acertar o inimigo na cabeça. Ora, quando há canibalismo em áreas atingidas pela forme, podemos realizar a expropriação dos bens eclesiásticos com a mais furiosa e implacável energia... Precisamos esmagar sua resistência com tal crueldade, que se lembrem disso por décadas.”

A Igreja Ortodoxa entendeu a mensagem. No ano seguinte, o Patriarca Tikhon declarava: “Adotei completamente a plataforma soviética e considero que a Igreja deve ser apolítica.” Dali em diante, a Igreja Ortodoxa Russa foi de maneira geral dócil a seus mestres, às vezes indo a ponto de agir como ferramenta da política soviética. Não se pode necessariamente dizer o mesmo, entretanto, quanto aos fiéis individuais ou à minoria católica na Rússia. Uma leitura essencial para conhecer a vida cristã sob Stálin é o relato clássico do Padre Walter Ciszek, With God in Russia.

 

A Igreja Católica na Alemanha

Quando o regime de Hitler começou a mostrar a que veio e a desenvolver sua ideologia neo-pagã, ficou claro que o nazismo era incompatível com o cristianismo. Muitos protestantes, incluindo Dietrich Bonhoeffer e Karl Barth, perceberam isso e se opuseram ao regime, exceto um pequeno grupo formado pela “Igreja do Povo” — um movimento de tipo fundamentalista, sem doutrina, que por um lado ecoava algumas das idéias mais radicais de Lutero sobre os judeus e a nação alemã, e por outro apoiava os programas de eugenia do regime, além de seu anti-semitismo. Com cerca de 600 mil membros, representavam uma pequena fração (talvez dois porcento) dos protestantes alemães, mas foram sem dúvida muito úteis ao regime.

Quanto aos católicos, também estava claro que os princípios nazistas eram incompatíveis com o ensinamento da Igreja; os fiéis católicos estavam entre os que criticavam mais abertamente o regime e sofreram cerrada perseguição, extensamente documentada, já desde os primeiros anos do governo de Hitler. O movimento de resistência Rosa Branca, grupo heróico de estudantes católicos e outros cristãos, liderado por um jovem casal de irmãos católicos, organizou a única manifestação pública de desafio ao sistema na Alemanha nazista. O grupo foi logo detectado e seus jovens membros, executados; os líderes foram guilhotinados.

Sabe-se agora que o Papa Pio XII estava ciente da mais relevante das muitas tentativas de assassinar Hitler, liderada pelo oficial católico Claus von Stauffenberg, e facilitou o contato entre as partes organizadoras da trama — que falhou, como todas as outras. Parece que Hitler tinha um estranho e misterioso senso de perigo, mudando abruptamente sua programação ou seus movimentos sem nenhuma razão aparente, sempre que um atentando contra sua vida estava para acontecer. O papa, entretanto, faria muito mais na luta contra Hitler, inclusive providenciando reuniões entre agentes secretos estrangeiros e alemães antinazistas para assassiná-lo, até que o próprio papa se tornou um alvo dos nazistas. Nos últimos meses da guerra, organizaram-se vários planos para seqüestrar o papa (ou mesmo assassiná-lo) e saquear os tesouros do Vaticano.

 

Salvando os Judeus

É interessante notar que a palavra holocausto não aparece nos livros de história mais antigos do pós-guerra; mesmo quando começou a ser utilizada, referia-se simplesmente ao total de perdas de vidas causadas pelas potências do Eixo — as cerca de 50 milhões de vítimas da Segunda Guerra. Só mais tarde a palavra passou a ser utilizada com letra maiúscula e exclusivamente para os judeus mortos por Hitler.

De mais interesse para os católicos é a constante repetição de acusações contra a Igreja e o papado por supostamente não ter parado Hitler de alguma forma ou impedido toda a matança de judeus (os poloneses não nos culpam por não termos impedido a matança de 5 ou 6 milhões de poloneses). Essa investida propagandística começou apenas nos anos 1960. Imediatamente após a guerra, tanto a Igreja quanto o papado foram louvados pelos judeus por seu esforço em salvá-los. O historiador e diplomata israelita Pinchas Lapide declarou que a Igreja Católica salvou cerca de 860 mil judeus — mais que todas as outras igrejas, países e organizações de ajuda somados. O principal rabino de Roma, Rabino Zolli, foi batizado após a guerra e tomou no batismo o nome do papa, Eugênio; não é possível imaginar um homem tão dedicado ao seu povo fazendo tal coisa se o Papa Pio XII tivesse realmente se mantido apático a respeito da ajuda aos judeus. A história de Roma durante a ocupação alemã é bem documentada, assim como o papel da Igreja ao salvar não apenas pilotos e soldados Aliados encurralados atrás das linhas inimigas, mas também a comunidade judaica romana. (Não se pode esquecer, a respeito disso, o filme de Gregory Peck, O Escarlate e o Negro.)

Apesar disso, o aparecimento da infame peça teatral de 1963, O Vigário, conseguiu dar início ao mito da indiferença católica diante do destino dos judeus ou mesmo de sua colaboração direta no Holocausto, alvejando especialmente o Papa Pio XII. Em 1963, muitas testemunhas que poderiam ter combatido o novo mito já estavam mortas, e os inimigos da Igreja se viram livres para despejar ataque após ataque sobre a suposta dívida de guerra do papado. Em anos recentes, a maré de livros baseados no mito parece ter atingido seu limite; é gratificante ver que há agora um sólido número de refutações dessas mentiras, algumas escritas por judeus respeitáveis que prestam o devido respeito aos fatos históricos. Ainda há muito a ser feito, é verdade, e mesmo quando o mito estiver completamente demolido, sabemos que é provável que continue a viver subterraneamente, como os mitos sobre as Cruzadas, a Inquisição, o Priorado de Sião, os Illuminati, e todas as outras loucuras que alguns de meus alunos simplesmente pensam “saber” ser verdade.

Este talvez seja um desfecho bastante pesaroso para nosso estudo. Ainda mais melancólico seria, no entanto, se seguíssemos adiante pelo período pós-guerra. Mas isso seria matéria para outro artigo.


 [A1]Alterei só para evitar a repetição de fonemas /t/ muito próximos.

 [A2]Meu original diz: “then in his late seventies”.

 [A3]Meu original em pdf diz Apropos

  1. 1. Espírito da época. [N. do T.]
  2. 2. Minha Luta.
  3. 3. Discordamos aqui da historiadora pois, como ensina o Pe. Peter Scott, FSSPX: “É patente que o uso de armas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, em 1945, foi imoral. Naquele momento, não havia ameaça às populações civis nos países aliados, nem se poderia dizer que havia uma guerra total. Certamente não havia razão proporcional ao sofrimento dos civis, destruição e miséria que resultaram, sem mencionar o escândalo público e o horror de que uma nação “civilizada” perpetrou um ato tão bárbaro contra inocentes.” (http://permanencia.org.br/drupal/node/5718) [N. da P.]

Deve-se lastimar a conquista do México pelos espanhóis?

Pe. Pierre Mouroux

 

No dia 13 de agosto de 1521, após um cerco de 80 dias, caia a cidade de Tenochtitlán (atualmente, Cidade do México), pondo fim o império asteca. Esse dia marcou para sempre o nascimento da nova Espanha e o início da evangelização da América. Em poucas décadas, o império espanhol se estenderia da Terra do Fogo, ao Sul, até a California, ao Norte. A esses acontecimentos, os historiadores deram o nome de “Conquista”.

O ano de 2021 marcou os 500 anos do início dessa epopeia. Devemos nos alegrar dessa conquista? Se formos seguir o pensamento dos intelectuais de hoje em dia, a resposta aparentemente será não.

Em fevereiro de 2016, quando o Papa Francisco visitou o México, durante uma Missa em Chiapas, ele pediu para que “aprendêssemos a dizer perdão” e fizéssemos um “exame de consciência”, insistindo sobre a exclusão dos povos indígenas na história. Do mesmo modo, no dia 9 de julho de 2015, durante a sua viagem a Bolívia, o Papa Francisco apresentou oficialmente as suas desculpas, em nome da Igreja Católica, pelas “injúrias” feitas aos povos autóctones do continente pelos colonizadores espanhóis. “Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus”. Ele reconheceu então se tratar de “crimes”, coisa inédita[1].

Mas, bem antes dele, sem falar em “crimes”, o Vaticano mencionou “danos” cometidos pelos colonos. Assim, em 2007, Bento XVI reconheceu “os sofrimentos, as injustiças e as sombras” desse período de colonização. E, desde 1992, a via do arrependimento já fora escolhida. João Paulo II, tinha, durante a sua viagem para a República dominicana, “pedido perdão humildemente”, fórmula retomada pelo Papa Francisco na Bolívia. Ele reconhecia então a “dor e o sofrimento” causados pelos católicos durante 500 anos. Na grande cerimônia de arrependimento do ano 2000, por ocasião do Jubileu, João Paulo II havia solenemente renovado esse pedido de perdão.

Em outubro de 2020, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, esquerdista inveterado, remeteu uma carta ao Papa Francisco convidando a Igreja a pedir perdão pelos abusos cometidos há 500 anos na conquista do México. O presidente recordava que “atrocidades vergonhosas” foram experimentadas pelos povos originários, a pilhagem de seus bens e da sua terra, e sua submissão cultural e religiosa, “desde a conquista de 1521 até o passado recente”. Declarava também: “Aproveito essa ocasião para insistir no fato de que, por ocasião dessas efemérides, a Igreja Católica, a monarquia espanhola e o Estado mexicano devem pedir desculpas públicas aos povos originários.” No dia 27 de setembro de 2021, o Vaticano enviou uma carta em resposta na qual apresentava as suas desculpas ao povo mexicano “por todos os pecados pessoais e sociais, por todas as ações ou omissões que não contribuíram para a evangelização”, seguindo aqui a longa tradição de arrependimento inaugurada por Paulo VI. Mas, isso não é tudo: o prefeito da Cidade do México decidiu, no dia 13 de março de 2021, não mais festejar os 500 anos da conquista, mas os 700 anos da fundação de Mexico-Tenochtitlán; e, nessa ocasião, alterou o nome de muitas ruas e algumas estátuas emblemáticas da cidade para que, 500 anos após a sangrenta invasão espanhola, pudéssemos valorizar a diversidade cultural.

A lenda negra, subjacente à mentalidade atual, existe há séculos. Foi o Frei Bartolomé de las Casas, O.P., quem primeiro denunciou as supostas atrocidades da conquista espanhola1. Tudo o que ele relata se apoia, segundo ele, no que viu com seus próprios olhos, embora nunca tenha mencionado nomes, datas ou os lugares exatos que permitam corroborar os fatos, o que nos mostra que falta seriedade às suas afirmações. Evidentemente, todos os países inimigos da Espanha, a Inglaterra à frente deles, aproveitaram para dar publicidade a esses escritos e macular a imagem dos espanhóis. Se tivéssemos de caricaturar as afirmações dessa lenda negra, diríamos que os espanhóis, embora se mostrassem cavalheiros na Europa, tão logo cruzaram o Atlântico mostraram-se como realmente eram: homens terríveis, ávidos de riqueza e poder, prontos a tudo para alcançar o seu fim: escravidão, tortura, homicídio etc. Uma breve análise dos fatos nos mostrará uma paisagem um pouco diferente.

Alguns autores criticam o uso do termo “conquista” pois, segundo eles, antes se deveria falar em “libertação”. Com efeito, quando se estuda os acontecimentos e quando se conhece como viviam os povos originários do México (e a maior parte dos ameríndios) no tempo da chegada dos espanhóis, e quando se vislumbra tudo o que o império espanhol lhes legou, pode-se bem falar em liberação, tanto social como religiosa.

 

O México antes da chegada dos espanhóis

Recordemos inicialmente que “até o começo do século XVI, o México não existia como Estado, nem como Nação, nem como Pátria” 2. Não havia unidade política, propriamente dita. Existia uma entidade mais poderosa que as demais, os Astecas, que tinham como capital a Grande Tenochtitlán (hoje em dia, México). Essa entidade guerreira se estendia do Golfo do México, com as regiões de Veracruz e Tabasco, até o Oceano Pacífico, com as regiões de Guerrero e Oaxaca. Mas, numerosos povos – conhece-se mais de 110 – viviam no que é hoje o México, alguns a menos de 50 quilômetros dos astecas (por exemplo, o povo de Tlaxcala). Quando se fala em império asteca, não se trata de algo assimilável à nossa ideia europeia de império. Falava-se mais de oitenta línguas distintas nessa região. Esses povos não conheciam a escrita fonética e só utilizavam símbolos e figuras. Não conheciam o uso industrial e mecânico da roda nem trabalhavam o ferro, não possuíam animais de tração e de carga, nem bovinos, porcos, cabras ou ovelhas, e careciam dos principais cereais. Não havia unidade religiosa, a não ser pela prática de sacrifícios humanos, dos quais declarou o historiador Frei Diego Durán: “Se a história não me obrigasse, e se não tivesse visto o episódio afirmado e descrito em numerosos lugares, não ousaria me referir a eles com o temor de ser tomado por um escritor de fábulas.” Fala-se em dezenas de milhares de vítimas na inauguração do Templo Maior de Tenochtitlán, em 1487. Para realizar esses sacrifícios, muitas guerras ocorriam, a fim de fazer prisioneiros, vítimas perfeitas, e os povos submissos também deviam pagar um tributo anual de futuras vítimas. Todas essas vítimas, após terem os seus corações arrancados, eram devoradas pelos habitantes! No que diz respeito ao ambiente moral, um dos principais historiadores da Conquista, Frei Toribio Benavente (1482-1569), também conhecido como Motolinia, missionário franciscano no México, nos dá esse testemunho, um pouco cru mas realista: “Essa terra era uma transposição do inferno; podia-se ver os seus habitantes gritando pela noite, alguns clamando pelo diabo, outros embriagados. [...] Eles tinham todas as mulheres que quisessem, e havia os que tinham até duzentas mulheres; para tanto, os grandes senhores roubavam todas as mulheres, de sorte que, quando um índio ordinário queria se casar, dificilmente podia encontrar uma mulher.” 3

Hoje em dia, os intelectuais criaram um mito a propósito das comunidades indígenas da época. Eles nos apresentam como se elas vivessem em um estado ideal. Mas a realidade histórica é bem diferente. De fato, a maior parte dos povos oprimidos pela tirania antropófaga asteca se aliaram aos espanhóis para se liberar do jugo asteca, e assim permitiram a tomada de Tenochtitlán, em 1521. Foram milhares de ameríndios que, somados aos soldados espanhóis, derrubaram o “império” asteca. Compreende-se o seu desejo de sair de um tal ambiente, do qual alguns intelectuais mostram-se saudosos! Modificar a histórica com fins ideológicos é uma especialidade moderna. Por exemplo, muitos mexicanos foram levados a crer que são todos descendentes de um único povo – os astecas – que povoavam o território atual do México; fizeram-lhes esquecer que muitos deles descendem na verdade de povos que os astecas capturavam com o fim de realizar sacrifícios humanos4. Um filósofo argentino, Juan José Sebreli, declarou com justiça que “a destruição dos grandes monumentos, templos e palácios dos astecas e dos incas é repreensível, mas uma civilização não consiste apenas em obras de arte, mas sobretudo em sua organização política e social, seu direito e sua ética, e, sob esse aspecto, as grandes civilizações pré-colombianas não foram exemplares. Eram teocracias sanguinárias sem autoridade moral para condenar a crueldade dos espanhóis [...]. Os indigenistas repudiam como um ato de barbárie a destruição da cultura asteca pelos conquistadores, mas se esquecem de que, cem anos antes, sob o reino de Izcoatl, os astecas destruíram os livros antigos e destruíram os monumentos do Tolteques, a fim de impor sua própria cultura. Aquele que mata um assassino não deixa de cometer um crime, mas o assassino morto não recupera absolutamente a sua inocência.” 5

 

O legado dos espanhóis

Os espanhóis trouxeram consigo a paz, ao dar um fim às guerras tribais e aos costumes sanguinários. Eles fizeram obra de caridade ao fundar milhares de hospitais em todo o continente, e ao fundar centenas de universidades, com as quais lhes transmitiram as suas tecnologias, sua língua, sua cultura, sua religião; ofereceram a esse continente o seu próprio sangue, estabelecendo as bases de um novo povo, resultado da mestiçagem entre os povos originários e os espanhóis. Também propiciaram a unidade ao redor da única religião verdadeira, a religião católica. Em uma palavra, o seu legado foi o da verdadeira civilização. Foi graças a eles que os diferentes países da América Latina existem.

Consideremos agora a religião, pois se a liberação social foi uma grande coisa, que podemos dizer da libertação religiosa, sabendo que as almas valem bem mais do que o corpo? Vimos como os ameríndios estavam todos entregues à idolatria antropófaga. É importante recordar que os reis espanhóis quiseram que a evangelização dos povos ameríndios fosse o fim primeiro da Conquista, ao menos na ordem da intenção, quando não era possível na ordem da execução. Eles não faziam outra coisa do que seguir as indicações do Papa Alexandre VI na sua bula Inter coetera (1493): “Bem sabemos que vós vos propusestes, há muito tempo, procurar e encontrar Ilhas e Continentes, afastados e desconhecidos, dos quais ninguém até agora fez a descoberta; que quereis reconduzir os habitantes e indígenas à honra do nosso Redentor e à profissão da fé Católica; e que, fortemente empenhados, até esses dias, a fazer o cerco e a recuperar o Reino de Granada, não lograstes levar a bom termo esse santo e louvável projeto.” O papa prossegue dizendo que, com a descoberta das Índias, a hora desejada por Deus chegou: “E assim, uma vez que vós mesmos, por vossa própria iniciativa, desejais, por amor da fé, iniciar e prosseguir até o fim a vossa empreitada, nós vos instamos vivamente, em Nosso Senhor, e igualmente, pelo sacramento do Santo Batismo, que vos ligais às ordens apostólicas, e pelas entranhas de misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo; nós vos solicitamos com instancia a crer que deveis estimular os povos que habitam nestas ilhas e continentes a abraçar a religião católica, de querer lhes transmiti-la, de não vos deixar jamais desviar e de pensar firmemente que Deus Todo Poderoso abençoará os vossos esforços.” A Rainha Isabel6, no seu Testamento de 1504, não dirá outra coisa, lembrando que a sua principal intenção fora a de converter os povos dessas terras para nossa Santa Fé Católica, e pedindo que esses últimos não fossem atingidos nas suas pessoas ou nos seus bens.

Essas preocupações se verificam em numerosos textos oficiais do Vaticano e dos reis espanhóis. Os conquistadores seguiram essas diretivas? Vejamos alguns extratos dos cronistas, a respeito dos feitos de Hernán Cortés. É Benal Diás del Castillo quem testemunha: “Nós nos dirigimos para os lados do Yucatan, e chegamos primeiro na Ilha de Cozumel. Lá havia alguns ídolos com figuras muito disformes em um santuário onde os indígenas costumavam oferecer sacrifícios. Cortés fez com que os ídolos fossem despedaçados e construiu um altar no templo, onde se colocou a imagem da Virgem e um crucifixo. O Pe. Juan Díaz disse a missa, com grande atenção dos mais velhos, dos caciques e de todos os índios.” 7 Lopez de Gomarra, por sua vez, declarou: “Em cada lugar em que ele [Cortés] se dirigia, erguia uma capela ou um altar, e colocava uma cruz ou a imagem de Nossa Senhora, na qual todos os ilhéus rendiam culto com devoção e orações, e acendiam incenso e ofereciam codornas, milhos, frutas e outras coisas que tinham o hábito de trazer para as imagens. E tinham tanta devoção à imagem de Nossa Senhora de Santa Maria que iam com ela em direção aos navios espanhóis que abordavam, clamando: ´Cortés´, ´Cortés´ e cantando ´Maria, Maria´ para mostrar que eram amigos de nossa santa religião.” 8 encontramos testemunhos idênticos nas crônicas da viagem de Laonso e Parada, Pánfilo de Narvaez e de Cristóbal de Olid. Em que pese algumas dificuldades no início, e sobretudo a partir das aparições de Guadalupe, em 1531, dezenas de milhares se converteram ao catolicismo, e o movimento foi tão profundo que essas terras são ainda hoje aquelas onde se encontram mais católicos.

Outro ponto interessante, que pode nos ajudar a julgar essa Conquista é a intervenção do céu. Encontramos em muitas crônicas, tanto espanholas como indígenas, relatos de fatos extraordinários. Por exemplo, durante a “noche triste” (noite triste), quando os espanhóis fugiram da cidade de Tenochtitlán, uma jovem (a Virgem Maria) e um cavaleiro (São Tiago), os protegiam dos ataques dos astecas. Que dizer das aparições de Guadalupe, em 1531? A Virgem apareceu a um índio de nome Juan Diego e deixou sobre a sua tilma (vestido local) a sua imagem, sem que nenhum cientista possa ainda hoje explicar como essa imagem foi pintada, e como é possível que essa toalha não se tenha corrompido após séculos. Esse gênero de fatos é corrente e deixou traços: centenas de santuários espalhados por toda a América latina. Os milagres são um motivo de credibilidade e Deus os utiliza para mostrar que uma obra é divina. Se o céu interveio tantas vezes nessa Conquista em favor dos espanhóis, é porque não se opunha a ela, muito ao contrário! Com efeito, se considerarmos esses acontecimentos com visão sobrenatural, perceberemos quantas almas foram salvas pela ação dos espanhóis e dos missionários!

 

O julgamento da Igreja sobre a obra da Espanha na América

O Papa Pio IX, dirigindo-se a uma comissão de católicos espanhóis, no dia 20 de junho de 1871, lhes declarou: “A Espanha sempre demonstrou predileção especial por esta Sé Apostólica, e se esforçou para levar a civilização cristã a todas as nações do globo. A bandeira espanhola tremulou sobre todos os mares da América, da Índia e de outras regiões, como símbolo da fé em Jesus Cristo (...). Por isso, a Espanha foi outrora grande, porque sua grandeza estava a serviço da propagação, do serviço e da defesa da religião católica, ao preço de todos os sacrifícios.” 9

Por ocasião do IV centenário da descoberta da América, Leão XIII dava “graças ao Deus imortal por esse feliz acontecimento” pelo qual “milhões de homens que se encontravam no esquecimento e nas trevas, foram reintegrados à sociedade, e passaram da barbárie à mansidão e à humanidade, e, o que é mais importante, foram chamados da morte para a vida eterna pela comunicação dos bens que Jesus Cristo produz.” 10

Ao terminar a guerra civil espanhola, o Papa Pio XII manifestou sua alegria ao General Franco e recordou: “A valente Espanha (...) é a nação escolhida por Deus como principal instrumento de evangelização do Novo Mundo, e como fortaleza inexpugnável da fé católica.” 11

O mesmo pontífice, recebendo em audiência os reitores dos grandes seminários da América latina, lhes dizia: “A América latina é um formidável bloco católico, cujo zelo missionário das duas grandes mães ibéricas soube edificar para sua grande honra e para proveito da Igreja.” 12

Durante um discurso a uma missão naval espanhola, o papa se exprimiu assim: “Vossa profissão de marinheiros espanhóis traz à nossa memória as providenciais caravelas da Espanha missionária, verdadeiras auxiliares da Barca de Pedro que, com a civilização da Europa, levavam primeiramente ao Novo Mundo o tesouro incomparável da fé em Jesus Cristo e, com a religião católica, legaram a esses imensos continentes a sublime e verdadeira civilização das almas.” 13

Pio XII chegou a louvar a devoção dos Conquistadores pela Virgem Maria nesses termos: “Conhecemos o lugar eminente que coube à devoção para com Nossa Senhora na evangelização do Novo Continente e na conservação da sua fé. A América dos Conquistadores – Jeronimo de Aguilar, Hernan Cortés, Pedro de Alvarado, Alfonso de Ojeda – que, em seu peito armado souberam conservar um coração muito terno por sua mãe; essa América, da qual mais de cem cidades trazem o nome tão doce [de Maria], da qual dezenas de catedrais reclamam seu patrocino (...).”14

No Congresso mariano das Filipinas, o mesmo papa louvou assim o país dos reis católicos: “O impulso evangelizador e colonizador da Espanha missionária, da qual um dos méritos foi o de saber fundir os dois aspectos da sua ação em uma só coisa [evangelização e colonização], não podendo se contentar, nem mesmo com a imensidão do Novo Mundo, lançou-se na solidão do Pacífico (...).”15

 

Balanço

Certamente, a Conquista ou a liberação da América das garras do demônio também conheceu pontos sombrios, pois, como ocorre em toda obra humana, ocorreram pecados, abusos e fatos pouco edificantes, ainda que o governo espanhol tivesse o hábito de castigar aquele que ultrapassasse as leis estabelecidas para a proteção dos habitantes indígenas. Mas, numa visão geral sobre essa obra, é evidente, após o que pudemos estudar, que a balança se inclina para o lado do bem: a conversão e a obra de civilização não têm preço. Ademais, os abusos perpetrados jamais tiveram o caráter sistemático que a lenda negra quis atribuir. Antes de concluir, eis as palavras de Frei Toribio de Benavente, confessor de Hernan Cortés, a respeito desse conquistador, o mais ilustre dentre todos e o mais criticado pelos intelectuais: “Ainda que, como homem, fosse um pecador, ele tinha a fé e as obras de um bom católico, bem como o desejo de empregar a sua vida e os seus bens para o aumento da sua fé em Nosso Senhor. Ele se confessava com muitas lágrimas, recebia a Santa Comunhão com devoção e colocava a sua alma e os seus bens nas mãos do confessor, a fim de poder comandar e dispor deles como convinha à sua consciência. E Deus o visitou por meio de grandes aflições, trabalhos e doenças para purgar as suas faltas e purificar a sua alma. Creio que é um filho da salvação.” 16

 Esse pequeno resumo dado pelo confessor desse grande conquistador é a imagem de sua obra. Enquanto católicos, não temos o porquê de lamentarmos essa obra providencial, ao contrário, é preciso agradecer aos espanhóis por ela!

Encerremos esse pequeno estudo com a declaração de um historiador mexicano: “O inferno e nada além disso era o estado do território habitado por nossos ancestrais. Como é possível que existam pessoas saudosas dessa situação e que lamentem que tenha sido terminada pelos espanhóis? Não duvidemos que o diabo, o verdadeiro e autêntico diabo, tenha tomado posse do povo e o colocado a seu serviço. Glorioso foi o dia em que a Cruz apareceu e pôs a legião satânica em fuga!”17

 


[1] “E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América” (https://www.cnbb.org.br/confira-a-integra-do-discurso-do-papa-francisco-...)

  1. 1. De las Casas, Bartolomé, Brevísima relación de la destruición de las Indias, 1542
  2. 2. Sanchez Ruiz, Pedro, Prehistoria de Méjico, In Nacimiento, grandeza, decadência y ruína de la Nación Mejicana.
  3. 3. Benavente, Fray Toribio, Historia de los Indios de la Nueva España, Porrúa, México, 2011
  4. 4. Dias del Castillo, Bernal, Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España, capítulo 27, Porrúa, México, 1994
  5. 5. Sebreli J.J., El asedio
  6. 6. (N. da P.) Trata-se da rainha de Castela e Leão Isabel I (1451-1504), apelidada de “Isabel, a Católica”
  7. 7. Lopes de Gomara, Francisco, la llegada a la isla de Cozumel, in Crónica General de las Indias
  8. 8. Gullo Omodeo, Marcelo, Madre Patria
  9. 9. Citado por Jean Terradas, em Une chrétienté d´outremer, NEI, Paris, 1960
  10. 10. Encíclica Quarto abeunte saeculo, 16/7/1892
  11. 11. Radiomensagem à nação espanhola de 16/4/1939
  12. 12. Discurso de 23/11/1958
  13. 13. Discurso de 6/3/1940
  14. 14. Radiomensagem de 12/12/1954
  15. 15. Radiomensagem de 5/12/1954
  16. 16. Benavente, Fray Turibio, Historia de los Indios de la Nueva España, Porrúa, México, 2001.
  17. 17. Trueba, Alfonso, Huichilobos, Jus, 1955.

Terra da Santa Cruz

Gustavo Corção

 

O Brasil nasceu quando no mundo se abriam os engalanados portões de um novo humanismo contestatário e orgulhoso, que pretendeu ser o porta-estandarte de uma nova e brilhante civilização marcada pela maioridade do homem e pela senectude de Deus; nasceu quando a Europa ainda se enfeitava com as flores e os ouropéis da Rinacita e já se preparava para a passeata da Reforma, mas quis Deus que o berço esplêndido em que nascia uma das mais belas nações do mundo, talvez futuro exemplo de outras mais gloriosas e vetustas, merecesse a proteção de anjos tutelares e a marca indelével do Sinal da Santa Cruz.

*   *   *

O povo brasileiro nasceu persignando-se, ajoelhando-se, e logo na primeira missa agradecendo a Deus e reconhecendo em Jesus Cristo o único Rei dos reis. Já no mesmo grande continente que tem nome glorioso e apocalíptico de Novo Mundo, que é pseudônimo do Céu, cantara a voz piedosa de Colombo: “Te Deum laudámus: te Dominum confítemur...”

*   *   *

Mas é no Brasil, Terra de Santa Cruz, que em maior extensão e com maior constância se perpetuará ao longo de toda a sua história essa atitude fundamental de Ação de Graças e o hábito profundo, nem sempre santo, mas sempre humilde, de viver a presença de Deus.

*   *   *

Não ignoro que o santo nome de Deus é mil vezes por segundo usado em vão em todo o ocidente; não ignoro que o nome de Deus tornou-se em francês, espanhol e português palavra vã, som, caco, sufixo sem a menor ressonância de eternidade, mas ouso crer que nos vasos capilares da alma brasileira ficou mais do que um hábito verbal, no que se revela quando o ignoto chofer de taxi, que emerge do desconhecido e logo mergulha no imenso anonimato, nos diz — “vai com Deus!”, como tantas e tantas vezes já ouvi. Creio que milhões de vezes por minuto se diz por todo esse imenso Brasil, “vai com Deus”. E creio que essa saudação ou forma de despedida seja mais do que um simples sinal de nossa cordialidade. Há de ser também um difuso e persistente sinal de consciência coletiva da presença de Deus, sem a qual a história dos povos desanda num sinistro espetáculo de circo ou num ensaio do inferno.

*   *   *

Toda a história do Brasil é marcada por atos públicos da realeza de Cristo. Quando o Príncipe Regente, futuro D. João VI, aqui desembarcou, já com a lúcida intenção de abrir as portas e os portos de um novo império, seu primeiro cuidado foi o de promover um TE DEUM de Ação de Graças a que assistiu com toda a comitiva. Quatorze anos depois D. Pedro I determina que a independência seja sempre celebrada com esse hino sagrado, que mais tarde inspiraria Gonçalves Dias e seria a oração predileta de Joaquim Nabuco.

*   *   *

Com a vitória do Brasil sobre o comunismo, em abril de 1964, consagrou-se de modo espetacular e milagrosa a vitória de Cristo Rei — vitória que não nos cansamos de agradecer e admirar, e que o mundo na sua especializada estupidez para o que há de admirável no Reino de Cristo e para o que há de detestável no comunismo não se cansa de denegrir — porque o comunismo, como se tornou evidente no sangrento episódio do México e na sangrenta guerra civil espanhola, foi sempre adivinhado como especial inimigo pelos milhares de mártires que morreram gritando: Viva Cristo Rei!

Não é de admirar que logo o primeiro governo nascido dessa miraculosa intervenção, por decreto do presidente Humberto Castelo Branco, de 19 de novembro de 1965 e depois pela lei n° 9110 de 22 de setembro de 1966 tenha instituído o Dia Nacional de Ação de Graças a ser celebrado na quarta quinta-feira de novembro. 

*   *   *

Santo Ambrósio, bispo de Milão, para combater os últimos remanescentes do arianismo, quis ganhar o coração do povo com hinos religiosos que alcançaram grande sucesso. À heresia que destronava Cristo e negava sua divindade, o povo respondia cantando louvores à Trindade. O TE DEUM que lhe é atribuído, segundo F. Cayré A. A., é posterior e pertence a Nicetas de Remesiana; mas a ideia ambrosiana está de pé.

Combatamos os inimigos da Igreja cantando os hinos litúrgicos que trazem ao coração do povo os grandes mistérios da Fé. E no dia 23 do corrente, quinta-feira, (hoje) compareçamos à Igreja da Candelária, às 18 horas, para assistir à comemoração do Dia Nacional de Ação de Graças, celebrada por Sua Eminência Reverendíssima o Sr. Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Salles, com a presença do Sr. Presidente da República e Senhora, Emílio Garrastazu Médici, do Sr. Ministro de Estado da Justiça e Senhora, Alfredo Buzaid, e demais autoridades, e rezemos a Deus para que o povo brasileiro, bem conduzido por seus pastores e seus governantes, aliados nessa obra de louvor a Deus, saiba opor uma invencível resistência à onda de perversão que quer contestar a Realeza de Cristo.

 

(O Globo, 25/11/1971)

O massacre de Katyn

Gustavo Corção

 

Há uma certa faceta de humor negro na ingenuidade com que os jornais da semana passada publicaram, como sensacionais, as declarações de um judeu, Abraão Vidro, difundidas por um jornal de Israel, sobre o já tristemente famoso massacre de Katyn. Ou então haverá mais um exemplo da universal conjuração organizada para inocentar os comunistas dos crimes de guerra. Há realmente uma misteriosa conspiração que não somente exalta o papel dos comunistas na guerra como também esquece seus crimes mais clamorosos.

No caso presente o obscurantíssimo autor destas mal traçadas linhas pode lembrar que anos atrás já escreveu nestas mesmas colunas sobre o horroroso massacre de 12.000 oficiais poloneses fuzilados pelos russos em abril de 1943, e enterrados no bosque de Katyn. É portanto bem antiga a novidade da declaração sensacional de Abraão Vidro, mas nunca é demais insistir nas façanhas praticadas pelos soviéticos na II Guerra.

Mais recentemente, no decurso dos estudos que andei fazendo para um livro que está quase terminado, descobri num livro de René Pellerin, intitulado Un écrivain nommé Brasilach, não apenas a maravilhosa figura de Robert Brasillach como também sua reportagem verdadeiramente sensacional publicada em 9 de julho de 1943, no hebdomadário Je suis Partout, com o título J’ai vu les fosses de Katyn.

Nesse tempo a França estava parcialmente ocupada pelos alemães e em estado de armistício assinado pelo Marechal Pétain. Brasillach combatera corajosamente em defesa de sua pátria, mas logo após o armistício e a liberação dos primeiros prisioneiros voltou a Paris e abertamente aceitou o governo de Vichy, que todos os bispos da França apoiaram, e repeliu sempre, como escritor, o fantasioso governo da França Livre que na verdade só existiu para efeitos publicitários, para acrescentar à cruz de Winston Churchill a Cruz de Lorena, e para trazer um bálsamo ilusório às chagas do patriotismo francês tão duramente humilhado. Lembro estas coisas para frisar que a posição de Brasillach era perfeitamente admissível e normal, embora o mundo inteiro tenha sido condicionado durante anos para achar que traía a França quem ficasse com Pétain e desprezasse De Gaulle.

Mas voltemos ao bosque de Katyn que Brasillach viu e cheirou. Sim, cheirou. Mais da metade do artigo publicado em Je suis Partout se detém no intolerável cheiro que o tomara de chofre como primeira e inesquecível impressão. O chofer do carro em que viajava prevenira-o e fizera este reparo: depois da primeira visita a Katyn passara dois dias sem conseguir comer. E era um homem rude, que fizera a guerra.

“Cheiro maciço, cheiro negro e azedo, inesquecível cheiro de carniça. Algo de ainda vivo e animal longamente apodrecido naquela terra que não devora logo os cadáveres. Eles lá estão, apertados, compactos, e deles sobe esta coisa que poderíamos delimitar em seus contornos, que quase poderíamos pegar e sentir o seu peso.... Ah! Eu gostaria de fazer um pouco desse cheiro atravessar a fumaça do incenso e chegar às narinas dos arcebispos bolchevizantes...”

Brasillach pagará caro por esse artigo imprudentemente escrito em 1943. O moço transbordante de vida generosa, o poeta admirável e o admirável patriota que vivera sempre enfrentando a morte, na guerra espanhola e depois na guerra contra Hitler em defesa de sua pátria, nunca soube agasalhar-se e precaver-se. Quando a derrota de Hitler se delineava claramente, e finalmente quando De Gaulle recebeu, dos norte-americanos, Paris libertada e intacta, numa bandeja, e agradeceu aos russos, e mais tarde conseguiu convencer o tolo mundo inteiro de que fora ele próprio o libertador de Paris, Brasillach esteve sempre a denunciar o impostor e a caricaturar a Resistance onde se iniciou o concubinato dos católicos com os comunistas.

Seus amigos tentaram convencê-lo da necessidade de fugir para a Suíça. Providenciaram todos os papéis, mas Brasillach não quis deixar sua mãe, sua irmã, não quis deixar a França. Consentiu em esconder-se, mas aquela raça de franceses que, no dizer de Bernanos, não conseguiram mortos estrumar a terra que vivos não souberam defender, pôs em prática um infalível expediente para pegar Brasillach: prenderam sua mãe, como refém. No dia seguinte, Brasillach apresentava-se e era preso, e logo condenado como traidor da pátria pelos comunistas, judeus e democrata-cristãos comunizantes.

*  *   *

É preciso lembrar o bosque de Katyn onde os soviéticos deixaram um sinal que será encoberto, apagado, mas inexoravelmente de tantos em tantos anos voltará para esclarecer não apenas o martírio da Polônia, como também para relembrar o que aconteceu num governo francês comuno-católico: 110.000 franceses foram sumariamente condenados como colaboracionistas, e executados. Muitos por terem recusado atos de sabotagem de serviços públicos exigidos por grupos da Resistance. Entre esses 110.000 franceses assassinados durante a Épuration brilhará sempre a figura de Robert Brasillach que, em face da morte, na prisão de Fresnes, deixou escritos poemas de peregrina beleza, com que a verdadeira França respondia à França do pacto franco-soviético. Sim, no mesmo ano que Brasillach morria fuzilado como traidor, os intelectuais de gauche cantavam hinos à U.R.S.S. que os libertara, e Georges Bidault dirigia a Mesdames et Messieurs um discurso em que comunicava o pacto franco-soviético, simétrico daquele que anos atrás Molotov e Ribbentrop assinaram.

E o Tribunal de Nuremberg? Ah! Sim. Houve um tribunal de Nuremberg contra os crimes de guerra. É preciso lembrar o Tribunal de Nuremberg; é preciso relembrar que na primeira sessão desse tribunal, com a cumplicidade dos norte-americanos, ingleses e franceses, e sob A PRESIDÊNCIA DE UM GENERAL SOVIÉTICO, foi escamoteado e arquivado o dossiê do Massacre de Katyn.

 

(O Globo, 31/07/1971)

Lei-Ming-Yuan

Gustavo Corção

 

Nesses dias andei pela China. Mais precisamente e graças ao livro de Chanoine Jacques Leclercq (Vie du Père Lebbe — Casterman, 1955), fiz na minha poltrona uma viagem no espaço e no tempo, e andei pela China de quarenta anos atrás, tentando acompanhar, como me permitissem as pernas da imaginação a incrível, a fabulosa trajetória do personagem meteórico que no Ocidente se chamou Vicente Lebbe, e que milhões de chineses, com amor e veneração chamaram Lei-Ming-Yuan, que quer dizer trovão-que-canta-ao-longe.

Vicente Lebbe foi padre lazarista e missionário da China. Sua grande originalidade consistiu em levar a sério, alegremente, o fato de ser lazarista e o fato de ser missionário. Mas a sua suprema originalidade consistiu em levar a sério a China. Foi sempre o que Chesterton chamava “um super-vivo”. Direto como um pássaro, autêntico como uma flor, ágil como um gato, o Pe. Lebbe, em quarenta anos de lutas, de contrariedades, de perseguições, de trabalhos, de perigos nas viagens e nas guerras, guardou intacto o fogo que nos retratos se vê brilhar, com invencível alegria, nos seus olhos de menino.

Foi aos onze anos no colégio da Bélgica que sua alma, num pulo, tomou a resolução definitiva. Tinham-lhe indicado a leitura da vida do bem-aventurado Jean Gabriel Perboyre, lazarista, morto na China em 1840 como testemunha de Cristo. Terminada a leitura, o menino exclamou: “serei lazarista, e missionário na China”. Doze anos mais tarde, vencendo uma série de preconceitos e de hábitos eclesiásticos, e graças ao inesperado apoio de um velho bispo, embarca, ainda seminarista, para o país dos seus sonhos. Durante a viagem vai aprendendo o chinês. Chegará a falar tão bem o idioma, e a conhecer tão intimamente os costumes e os hábitos chineses que mais tarde só saberão pelas feições que ele é um estrangeiro. Coisa que aliás o magoava. “Não olhem para o meu nariz, mas para o coração que é chinês”.

Em outubro de 1901 ordena-se padre e escreve à família anunciando que agora é padre chinês da Igreja na China. E nos cartões de sua ordenação imprime o conselho de Paulo a Timóteo: “Tu vero labora...”

Outra coisa a ser tomada ao pé da letra. E do mesmo apóstolo dos gentios tira o Pe. Lebbe as diretrizes da ação missionária. “Sim, sendo livre fiz-me escravo a fim de ganhar o maior número. Fui judeu como os judeus para ganhar os judeus, com os sujeitos à lei, eu que não estou sujeito à lei, sujeitei-me a fim de ganhar os que estão sujeitos à lei; e com aqueles que estão sem lei, como estivesse eu sem lei, embora esteja submetido à lei de Deus e ao Cristo, tornei-me sem lei para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me fraco para com os fracos ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos a fim de salvar a todos...” (1Cor 9, 20-22)

Mas logo ao desembarcar Vicente Lebbe começa a descobrir com assombro que os missionários europeus não parecem muito apegados ao exemplo paulino. Descia a escada do navio, lépido e esperançoso, quando ouviu um padre mais velho dizer-lhe que entregasse a mala a um coolie. Um missionário não devia carregar a própria mala.... Mais tarde, em Na-Kia-Chwang, onde seria ordenado, observa que os padres chineses não comem à mesa dos europeus. E em tudo o mais, o que é chinês é desprezível e subalterno para a superior raça branca que fazia o favor de trazer a civilização e o Evangelho.

Vicente Lebbe, via com seus próprios olhos, que nesse tempo sofriam longa e cruel enfermidade, via, concretizado, brutalmente corporificado, espessamente realizado, o secular equívoco de uma civilização fundada no orgulho e no direito da força. E com maior tristeza esbarrava com o equívoco ainda mais grave: o da vinculação que insidiosamente se estabelecera entre os estatutos dessa civilização e os costumes dos homens da Igreja. Sob o falacioso pretexto de coordenação de esforços para a prática do bem, tantas vezes invocado pelos que aspiram ao conforto de uma religião oficializada, os padres missionários franceses se comportavam como meros funcionários a serviço dos superiores interesses do Protetorado. Provavelmente julgavam que essa subordinação era vantajosa para a pregação do Evangelho, e que outra não era a doutrina relativa às autoridades constituídas e à união da Igreja com o Estado. E assim a Cruz de Cristo chegava aos chineses acompanhada da bandeira francesa, e às vezes protegida pelos canhões. Custa a entender que alguém escolhesse a espinhosa vocação missionária sem nela incluir uma fraterna ternura pelos povos a que se levava o Evangelho. Custa a crer que não lhes ocorresse a ideia da transcendência da Igreja, ou até a ideia mais chã de que, para um chinês, pode haver uma dignidade e um brio de ser chinês. Mas é com essas coisas dificilmente críveis que se desenrolou, através dos séculos, a história trágica da Igreja. A grande, a permanente tentação é a da vinculação da Igreja, aos quadros temporais, é a da recusa da transcendência de sua vocação.

Comentando a recente e vergonhosa história do colonialismo na China, o cônego Leclercq diz sem rebuços:

“Foi a França que interveio a favor das missões e obteve em 1846 um edito de tolerância. Desse dia em diante os missionários tornaram-se clientes da França. Já a guerra do ópio se assinalava por vantagens concedidas às missões. Toda a história das relações entre a China e o Ocidente será doravante marcada pela predominância da força (...). As missões se prendem nessa engrenagem (...). A confusão entre a religião cristã e a política europeia se torna inextrincável. Os missionários aproveitam a força da Europa, e armazenam os ódios...

Mas a maior parte dos missionários não vê nisso algum mal. Bons europeus eles acreditam ingenuamente na superioridade de tudo que é europeu (...). Juntava-se a isto o nacionalismo, produto do século XIX. A França tinha assumido o protetorado das missões, aliás sem ouvir a Santa Sé.

A maior parte dos missionários eram franceses e sentiam-se inclinados a favorecer a política expansionista de seu país, tudo fazendo para que vingasse na China, o amor pela França e o conhecimento da língua francesa, e ao mesmo tempo, o amor pelo Cristo e o conhecimento da religião”.

Mas adiante o cônego Leclercq não hesita em dizer: “Depois de tudo o que dissemos, o que espanta é que ainda existam cristãos na China, e que ainda se observem conversões, e até que muitos cristãos chineses tenham um fervor que raramente se encontra na Europa”.

Ora, é nesse enorme mundo tão maltratado pela chamada civilização cristã, é nesse imenso mundo de expectativas decepcionadas que desembarca em 1901, um pobre magricela, doente, quase cego, com a ideia de ser chinês entre os chineses, para ganhar os chineses. Com paciência fremente, com benignidade candente, com obediência sobrenatural em grau heroico, o Pe. Lebbe começa a mais espantosa vida de que já ouvi falar. Dia a dia realiza uma entrega, uma doação, um desgaste que nos deixa atônitos. “Le Père Lebbe se despense! ” ... diz simplesmente o cônego Leclercq. Seria melhor, talvez, dizer, que o Pe. Lebbe se queima, se incendeia, e corre a China incendiando e queimando.

Seria ainda melhor, talvez, dizer que ele se gasta numa combustão mais profunda, como o urânio nos reatores nucleares, para frisar a colossal desproporção entre a energia que produz e a magra energia que a alimenta. Lendo essa vida espantosa, percorrendo nas páginas do livro a progressão geométrica dos feitos, chegamos a pensar que o conhecido e austero tratadista de Direito Natural perdeu a noção da medida, ou perdeu a razão. Quando, porém, se considera o nome e o veredito que merece o autor, então... então vêm-nos a impressão arrebatadora de uma divina loucura. Dir-se-ia que o Pe. Lebbe foi designado para compensar sozinho, com a única força da Graça entre tantos espinhos na carne, o himalaia de erros, de omissões, de tolices, de burrices, de perversidades semiconscientes e de crueldades voluntárias de quatro séculos de civilização. Dir-se-ia que Deus deixou o Pe. Lebbe aprender depressa o chinês, e providenciou quem lhe desse uma velha bicicleta, para que ele assim armado, com sua magreza e sua pobreza, pagasse a dívida atrasada, a dívida terrível contraída pelas grandes nações do mundo ocidental; para que ele sozinho com a força da Graça, devolvesse às missões a comprometida transcendência, e à civilização colonizadora a perdida dignidade; para que ele, com seu rabinho e seu longo cachimbo, neutralizasse de algum misterioso e insondável modo o horror da guerra do ópio, só comparável em hediondez aos horrores produzidos pelos regimes autoritários.

Toda a obra do Pe. Lebbe na China, de que tentaremos dar um esboço em outro artigo, girou em torno da universalidade da Igreja e do direito dos chineses formarem sua Igreja. Sua ideia fixa, que viu realizada através de um milhão de dificuldades, era a de ver constituído o episcopado chinês. Os prudentes mandavam informações contrárias a Roma. Ameaçavam com o cisma. Gabavam a vantagem do paternalismo, mas o Pe. Lebbe teve a alegria, no fim da vida, de ver sagrados seis bispos chineses, seis bispos escolhidos por ele, nomeados com um pedaço de lápis que ele depois guardou como relíquia.

Vê-se em tudo o que nos conta o cônego Leclercq que a vida do Pe. Lebbe tem o mais autêntico e clássico espírito paulino, e ao mesmo tempo a melhor marca da atualidade.

Como São Paulo, o Pe. Lebbe combate, com as santas armas da paciência e da obediência, os privilegiados que se julgam donos dos evangelhos.

Como São Paulo, choca-se com os corações circuncisos que tem desprezo pelos gentios, ou que, na melhor das hipóteses, vê nos chineses alguma coisa a ser cuidada, do alto, com benevolente paternalismo. E as cenas que o cônego Leclercq descreve no seu livro, a cada instante nos transportam para os séculos da Igreja-Mártir, ou para os claros dias dos Atos dos Apóstolos. Com uma pequena diferença apenas. Aqueles que todos os dias, com um só coração se reuniam no templo, e partindo o pão com júbilo e simplicidade, louvavam a Deus, e cujo número o Senhor cada dia aumentava por onde passava o Pe. Lebbe, eram um pouco diferentes dos que cercavam Pedro e Paulo: tinham os olhos oblíquos e pele dourada...   

 

 

(Diário de Notícias, 06/10/1957)

A hora da China

Gustavo Corção

 

Abra o mapa da China, leitor, e considere a imensidão desse país junto ao qual o nosso fica pequeno. Observe depois sua forma regular, maciça, compacta, e note que todos os grandes rios correm com uniforme direção para o litoral convexo, relativamente exíguo, que parece um ventre aos nove meses de gravidez. A China é grande e redonda. É um mundo.

Nas primeiras páginas de sua História da França, Michelet diz que no princípio a história é geografia. Mais tarde, e com maior cópia de razões científicas, Toynbee explicará a lentidão da marcha asiática pela predominância das terras e dos transportes terrestres sobre os mares e a navegação. Realmente, tudo parece indicar que o surto de progresso do mundo ocidental em boa medida se deve à navegação. Embora seja bípede e terrestre, foi no mar que o homem se espalhou, e foi com as caravelas, ao mar e ao vento, que o homem afirmou o senhorio do mundo. Desde a antiguidade, e durante a Idade Média, a história da civilização ocidental transcorre numa espécie de anfiteatro de povos em torno do Mediterrâneo. Na Renascença a Europa se abre. Há uma extroversão, digamos uma explosão. A forma fechada e nuclear da antiga civilização se mudou em forma estrelada. De côncava e mediterrânea, a civilização se torna, convexa e atlântica. De Florença desloca-se para Antuérpia a primazia comercial.

Examinando o mapa-múndi e pensando nos últimos dois mil anos de história, somos levados a crer numa correlação entre os feitos dos povos e a forma dos territórios. É nos países de desenhos irregulares, de saliências e reentrâncias, de penínsulas e golfos, que surgem as grandes iniciativas. A Grécia é uma palma de mão aberta sobre o Egeu; A Itália é a bota de sete léguas de onde se alastrará o Império. Dir-se-ia que a terra assim configurada possui o poder das pontas. Dir-se-ia que dos cabos e das penínsulas saem jorros de iniciativas que irão fecundar os golfos. Comparemos os desenhos da Europa com os contornos da África e da Ásia. E observemos o que acontece no novo mundo quando a Europa transbordou. É ainda na América do Norte, mais recortada, mais irregular, que o ímpeto europeu encontra o melhor terreno. A América do Sul, com seu único promontório perdido nas brumas do cabo Horn, será um continente de países subdesenvolvidos. É claro que há outros fatores a considerar, mas não deixa de ser estranha a constância da correlação. E quando volvemos a imaginação para os dias longínquos em que o continente americano se povoou com tribos oriundas da Ásia, é lá ao Norte, no rendilhado Estreito de Bering, entre duas penínsulas, que ocorre o transbordamento dos povos asiáticos.  

Ora, a China é maciça, regular, redonda. A china é imensamente terrestre. Daí talvez o seu atraso medido na cronometria europeia. Durante os séculos em que predominou a civilização marítima, que culminou com a apoteose imperial sustentada pela esquadra inglesa, a China esteve à mercê da exploração dos ávidos europeus. E esteve à mercê de sua orgulhosa proteção.

Mas os tempos passam. A grande iniciativa europeia amortece, o inicial “handicap” se faz menos sentir, e as próprias máquinas produzidas pela civilização ocidental, tornando fáceis as comunicações por terra e pelo ar, vêm oferecer oportunidades novas aos países atrasados. E é nesse momento, quando soa a hora da China, que lá desembarca aquele personagem candente e meteórico que foi o Pe. Vicente Lebbe.

Como disse em artigo anterior, o Pe. Lebbe parece ter a missão de corrigir sozinho os erros de séculos de uma civilização que oficializou os egoísmos e os abusos da força. Seu ideal supremo foi o de desvencilhar a pregação evangélica dos vínculos políticos, e o de estabelecer na China um episcopado chinês. Em quarenta e tantos anos de vida prodigiosa o Pe. Lebbe se multiplica. Começa muito modestamente por trabalhos de catequese num lugarejo do Norte. A semente cresce. Os resultados se avolumam. E quando a gente pensa que a atividade do Pe. Lebbe já chegou a um ponto quase inadmissível, ele se duplica, se triplica.

Tudo na sua vida é marcado por uma estranha capacidade de multiplicar. Vejam, por exemplo, aquela história tocante, que repete a do bom samaritano. O Pe. Lebbe encontra um pobre homem caído numa estrada. Salta da bicicleta e cuida dele. O homem vai-se embora. Meses depois o Pe. Lebbe recebe uma carta contando que o homem, chegando em casa, converteu toda a aldeia e pede um padre. Do lugarejo insignificante passa o Pe. Lebbe para Tientsin, e aí se desdobra em um novo tipo de atividade. Funda um centro de cultura, como o nosso Centro Dom Vital. Em poucos meses ocupa nove salas onde todos os dias faz conferências para os letrados. Escreve em jornais. Entra em contato com os poderosos, e atende a todos os humildes. Com seu amor pelos chineses, cria dificuldades com as autoridades francesas, e consequentemente com os seus superiores. Toda a organização burocratizada dos missionários europeus tem medo do Pe. Lebbe. Todos desejam vê-lo afastado. Vê-lo inutilizado. Os medíocres não toleram a presença daquele homem de fogo que pretende levar até as últimas consequências os evangelhos e as epístolas paulinas. Conseguem puni-lo. Pe. Lebbe cometeu imprudências num jornal de Tientsin, e indispôs-se com o cônsul francês. É mandado para longe. Obedece, mas não se corrige da mania de pensar que os chineses são homens como os franceses e muito menos da mania de atender a todo o mundo. Onde ele chega, ainda que nenhum aparelho de propaganda o anuncie, começa logo uma efervescência como se realmente ele carregasse consigo um misterioso trovão de longo alcance: Lei Ming Yuan, trovão que canta ao longe. Recomeçam os casos, os incômodos, e os seus burocratizados superiores o enviam para mais longe ainda, para o Sul, onde a língua é diferente e onde ainda não chegou o ribombo do seu coração. O Pe. Lebbe obedece, mas não se corrige. Em sofrimentos cruciantes adapta-se e reaprende o idioma, e recomeça o incêndio das almas. O único jeito é devolvê-lo à Europa. Devolveram-no e suspiram aliviados, mas na Europa o Pe. Lebbe trabalha duas vezes mais, três vezes mais, pela causa dos estudantes chineses. Ajuda, ensina, faz campanhas para obter fundos, conta histórias do Oriente, faz conferências. Passa dias sem comer e dias sem dormir. Quando o convidam para um jantar come como três, e todos se admiram porque tinham ouvido falar no seu ascetismo. Mas ele comia por três dias. E também dormia por toda a parte justamente porque nunca dormia direito. Uma vez foi convidado para fazer conferência num colégio de religiosas e, tendo chegado com certo adiantamento, foi levado a um parlatório onde pediram que aguardasse a hora da conferência. Sentou-se e dormiu. Meia hora depois foi preciso sacudir-lhe e jogar-lhe água na cabeça para que ele acordasse. Estremunhado olhou em volta, perguntou em que país estava e qual era o tema anunciado para a conferência. Chegou a Roma o canto do trovão. É ouvido por um cardeal que agradece ao Pe. Lebbe sua exemplar obediência e que lhe anuncia a próxima realização do seu ideal. Não só um bispo chinês será sagrado, mas seis.

— Foi a sua obediência que salvou tudo... que Deus abençoou...

E o Pe. Lebbe, sucumbido de emoção, só pôde gemer:

— Oh!

Tratava-se agora de escolher os nomes dos padres chineses mais indicados para a dignidade episcopal. O Cardeal Van Rossum pede ao Pe. Lebbe um toco de lápis e escreve os nomes que ele dita: Chao, Ch’eng, Ch’en, Li... Mas a sua emoção é forte demais. Declara que devem existir outros. E inundado de lágrimas, guarda como relíquia o toco de lápis.

A sagração dos bispos chineses estava marcada para 24 de outubro, festa de Cristo Rei. O Papa transferiu-a para o dia 18, por diversos motivos, e sem saber que nesse dia se completavam os vinte e cinco anos de sacerdócio do Pe. Lebbe.

Volta para a China, e é designado para Kao-kya-chwang, e aí recomeça seu trabalho de catequese e de apostolado. Retoma a bicicleta, e estranha um esquisito cansaço nas pernas depois de trinta quilômetros. Não se lembra que tem sessenta anos. Retomando a ideia iniciada em Tientsin, lança a Ação Católica. Funda um sem-número de grupos como os tantos que por iniciativas diversas apareceram no mundo ocidental. A JUC, a AUC, a JFC, a JIC, e tantas outras siglas nossas conhecidas, surgem na China por iniciativa do Pe. Lebbe. Tem voz para letrados, para estudantes, e para camponeses. É tudo para todos. E para equilibrar e completar essa imensa atividade, funda um mosteiro para uma nova ordem de religiosos: os irmãozinhos de João Batista. À semelhança do Père Foucauld na África, o Pe. Lebbe enche de Petits Fréres a China. Funda depois uma casa religiosa para mulheres...

Em 18 de setembro de 1931 as tropas japonesas invadem a Manchúria, e então começa uma nova fase, uma incrível e fantástica maneira de envelhecer, na vida do Pe. Lebbe. Movimenta seus mais próximos fiéis e organiza o serviço de padiolas e de cruz vermelha. Está entre os soldados, animando, confortando, convertendo, batizando, e carregando os feridos. Nesse ponto da leitura, como já disse em outro artigo, a gente tem a impressão de que o austero Cônego Jacques Leclercq, conhecido tratadista de Direito Natural, enlouqueceu. Sim, enlouqueceu e está tentando nos inculcar, como verdadeira, uma história no gênero das do Barão de Münchhausen. É demais! E se o leitor quer ter uma ideia leia o livro impossível de resumir: Vie du Père Lebbe, Chanoine J. Leclercq, Casterman.

Ouvi dizer que havia aqui perto um padre do Verbo Divino que estivera na China. Fui entrevistá-lo. Quando lhe falei no Pe. Lebbe o velhinho animou-se, brilharam-lhe os olhos, e disse: “Era um homem de fogo...”

Mas agora, irresistivelmente, nos vem uma ideia triste. De que valeu tudo isto? Parece que o Pe. Lebbe chegou atrasado e não conseguiu neutralizar quatro séculos de estupidez e de orgulho europeu. Parece que sua obra se perdeu. A China de hoje recebeu da Rússia uma influência aparentemente mais eficaz.... Estava eu nesse desânimo quando li no livro do Cônego Leclercq esta simples frase: “lembremo-nos, entretanto, que o comunismo não recebeu nenhuma promessa de eternidade...”. É verdade. Temos de esperar. Duzentos ou trezentos anos. As sementes do Pe. Lebbe hão de frutificar na hora que Deus marcou para a China, e quem sabe se não é daquele grande ventre amarelo que nascerá uma nova e grande civilização cristã?

 

(Estado de São Paulo, 13/10/1957)

Mártires na U.R.S.S e na Europa Oriental

A Rússia e os países do Leste Europe foram os principais teatros do confronto entre o Cristianismo e o comunismo. Mas, a ideia que fazemos desses episódios é, em geral, muito vaga. É certo que os horrores dos gulags acabaram por se tornar conhecidos no Ocidente, mas o marxismo lançou mão de muitas outras armas para arrancar a crença dos corações, como veremos em seguida. Tentaremos também descobrir a história da Igreja Católica na União Soviética, largamente ocultada pela Igreja Russa cismática. Finalmente, nós nos voltaremos para alguns personagens que ilustram magnificamente a alma católica desses povos (Cardeal Mindszenty etc).

 

1. As armas do comunismo contra a religião

1.1 - Leis e medidas administrativas

Após a revolução de 1917, aprovou-se um conjunto de leis e decretos. A partir de 1918, eles vão seguir um itinerário marcado pelo retrocesso e pela restrição, alegando a “liberdade de consciência”, a “liberdade de profissão religiosa” (1929) e, em seguida, a “liberdade de culto religioso” (1936). Toda essa legislação oficial, no entanto, era freqüentemente “esquecida" pelas autoridades, que invocavam toda sorte de crimes para condenar aqueles que ainda ousavam crer em Deus e praticar a religião. A essas leis fundamentais somam-se as numerosas medidas administrativas referidas em instruções secretas, além de ordens dadas em viva-voz pelos representantes do governo, sem que houvesse oficialmente qualquer linha escrita. Essa confusão jurídica permitia a cada um julgar segundo o seu alvitre, em detrimento dos cristãos.

Com a nova coleção de leis que se seguiu à revolução de 1918, o governo se dedicou inicialmente a destruir a família a fim de melhor destruir a ordem social existente, e substitui-la por uma versão plenamente comunista. Uma vez que as famílias preparam os cidadãos de amanhã, era importante suprimir a influência dos pais “reacionários” sobre os filhos, de modo a torná-los verdadeiros militantes do Partido. Nesse preciso momento, dispensava-se a coerência na política familiar. Seguindo as necessidades econômicas ou demográficas, as leis poderiam ser adaptadas, mas sempre em vistas de um mesmo fim: a conquista da sociedade pelo governo soviético, e o triunfo da causa do Partido. A estrutura familiar era visada em três pontos:

— O próprio laço do matrimônio: a partir de 1918 o casamento religioso foi abolido, apenas o registro civil era legal. Do mesmo modo, o concubinato ou a poligamia foram legalizados, e o divórcio, autorizado e simplificado.

— A “liberação” da mulher: “O sucesso de uma revolução depende do nível de participação das mulheres” dizia Lenin. Como a mulher é a base da família, todos os meios serão empregados para tirá-la de casa e impedi-la de cumprir a missão de mãe. Era preciso “liberar a mulher da escravidão do marido e dos afazeres domésticos”, considerados por Lenin como uma “escravidão, um jugo embrutecedor, humilhante, eterno, exclusivo”. O aborto foi legalizado em 1920, e a contracepção encorajada. “As mulheres devem ser retiradas da reprodução para servirem à produção”, afirmava Alexandra Kollontaï1. Percebe-se a estima que tinham pelas mulheres! Para que a mãe pudesse ser emancipada e fosse trabalhar como os homens, abriam creches e jardins de infância. Os trabalhos domésticos ainda a esperavam em casa, ao retornar do trabalho.

— Os filhos: “A criança pertence à sociedade, não aos pais” (Nikolai Bukharin). Por conseguinte, a criança devia sair da sua família para ser educada pela sociedade. A escola tornou-se obrigatória, dos 7 aos 18 anos. Claro que a escola era monopólio do Estado e, portanto, ateia e violentamente antirreligiosa. A criança era assim instrumentalizada ao serviço do Partido.

Quando julgaram que todos os laços que uniam a família haviam sido suficientemente destruídos (laços entre os esposos e entre pais e filhos), o governo mudou a política. É verdade que, a partir de 1936, a economia e a demografia conheceram uma situação catastrófica na esteira dessa política. Lançou-se uma campanha em favor da família numerosa; proibiram novamente o aborto antes de tornarem a legalizá-lo em 1955. Concederam-se ajudas e recompensas às mães de famílias numerosas. A maternidade se tornou um dever, “uma função social” da mulher". Balançando ao sabor das leis e das propagandas, a família se transformou numa ferramenta nas mãos do Partido para moldar a nova sociedade soviética ateia.

No que se refere ao culto, as igrejas e os locais de culto tiveram de ser registrados nas instâncias governamentais, mas muitas vezes foram para a clandestinidade. Todos os padres precisavam de uma “permissão de ministério”, que lhes era retirada no primeiro passo em falso. Todo padre que exercesse o sacerdócio clandestinamente, sem essa autorização, sujeitava-se a uma condenação penal. Era-lhe interdito o exercício do ministério em domicílio e, se fosse autorizado a visitar as famílias, não poderia falar com elas sobre religião! Os confiscos das propriedades e a supressão das obras da Igreja Católica se multiplicaram, com o objetivo de abafar o apostolado.

O balanço apresentado na seguinte tabela é eloquente2:

 

 

1939

1953

Paróquias

6.930

1.200

Igrejas, capelas

10.321

1.500

Seminários

18

Todos fechados

Casas religiosas

1.019

Todas fechadas

Escolas

20.316

Todos requisitados ou nacionalizados

Hospitais, orfanatos

1.520

Todos requisitados

Livrarias, editoras

70

Todos requisitados ou nacionalizados

Publicações

110

Todas suprimidas

Associações católicas

3.000

Todas suprimidas

Construções e terrenos

 

Todos confiscados

 

 

 

 

 

No que se refere à juventude, a legislação era ainda mais restritiva. Desde 1921, o ensino religioso foi dificultado aos menores de 18 anos. A partir de 1929, proibiu-se levar crianças aos ofícios religiosos e de reuni-las para recreações ou para qualquer outra atividade. Em 1932, proscreveu-se o ensino de religião às crianças, salvo pelos próprios pais, o que impedia os padres ou qualquer outra pessoa de dar aulas de catecismo. Reputava-se uma perversão o ensino religioso dispensado às crianças.

Finalmente, proibiu-se a posse de “literatura clandestina” e sobretudo a colaboração na sua edição, ou seja, todos os quatro Evangelhos, os livros espirituais, as revistas católicas ou todo registro de conotação religiosa.

 

1.2. A doutrinação

A segunda arma poderosíssima de que o Estado dispunha para neutralizar e para eliminar toda influência religiosa era a doutrinação, sob todas as formas e em todos os domínios. A despeito de todas as formas de propaganda pela mídia, pela imprensa, pelos slogans publicitários, o Estado criou um ambiente que fez do comunismo o único horizonte visível e possível. Desde a infância, o cidadão era envolvido pelo sistema soviético.

 

  • A Escola

A partir dos sete anos, a escola é obrigatória, mas muitas vezes é a partir do ingresso numa creche aos três anos, e mais tarde numa universidade, que as crianças são moldadas segundo a concepção materialista e ateia dos comunistas. Em todas as classes se lecionava um curso especial, o “Diamat”, ou seja, materialismo-dialético. Trata-se objetivamente de um curso de doutrinação comunista. Ainda assim, todas as matérias do programa devem igualmente difundir tais princípios — foi sobretudo na disciplina de história que a realidade era transformada sem escrúpulos para denegrir a Igreja e todo seu passado. Como qualquer outra fonte de informação estava proibida, esses meios eram terrivelmente eficazes.

A todo momento na vida da escola ou nas demais atividades, exigem que a criança ou o adulto faça um juramento de ateísmo ou de militância comunista.

A título de exemplo, [apresentamos] esta circular do ano de 1980/1981:

 

Conteúdo do trabalho:

  1. Identificar os filhos dos crentes: organizar o controle das famílias religiosas;
  2. Fiscalizar as atividades religiosas no setor;
  3. Esgotar as possibilidades de educação ateia durante o curso de biologia, química, geografia, astronomia, matemáticas, ciências sociais, literatura e nos demais ramos;
  4. Atrair os professores para a propaganda do ateísmo;
  5. Criar um conselho de educação ateia;
  6. Estabelecer um ciclo de conferências e de discussões sobre assuntos relacionados ao ateísmo;
  7. Organizar círculos de trabalho denominados “o jovem ateu”;
  8. Organizar manhãs e tardes de discussão sobre ateísmo;
  9. Discutir sistematicamente os filmes… Criar jornais murais sobre a temática ateia;
  10. Criar um stand permanente - “Ciência e Religião” - na biblioteca da escola.

 

  • Associações de juventude

Muito embora a associação não fosse obrigatória, os jovens eram muitas vezes associados à força, e a não participação era considerada um ato antissocial, com possíveis consequências para toda a família. Ademais, essas organizações tinham o monopólio de todas as recreações. Quem não fizesse parte delas estava excluído de todos programas, de todo lazer;  de fato estava excluído da sociedade. Essas organizações eram, com efeito, um “noviciado” para a entrada no Partido. Os pequeninos podiam fazer parte das “Octobriens”; em seguida, de 9 a 14 anos, dos “Jovens Pioneiros” e, de 14 a 28 anos, da “Juventude Comunista”, comumente chamados de “Komsomols”. Finalmente, tornavam-se membros do Partido.

 

- Os lazeres

Muitas das atividades envolvendo crianças e adultos – para além das noites em família ou entre amigos, que eram muito estimadas - são um monopólio mais direto ou menos direto do Partido. Acima de tudo, o Estado entende que não há lazeres inúteis ou “gratuitos”, pois um lazer deve ser cultural, palavra que subentende propaganda comunista. Criaram-se, assim, vários tipos de clubes e centros de cultura, museus e bibliotecas, espetáculos… Todos mostram as maravilhas da sociedade soviética ou o horror da religião. Um bom cidadão deve freqüentar, ao menos de tempos em tempos, um clube e assistir a conferências, se não o reputavam por “individualista” — o que é perigoso numa sociedade socialista — transformando-se então em objeto de vigilância. Ninguém estava ao abrigo dessa propaganda ao serviço da doutrina comunista. Onde quer que se esteja, a voz do partido sempre se faz ouvir.

 

1.3. A repressão

Aos comunistas não faltavam meios de pressão, ou de repressão, aptos a dobrar as vontades mais obstinadas, prontos para se usarem naqueles que resistirem à doutrinação.

Num primeiro momento, tentam a intimidação. Os meios não faltam: a delação entre vizinhos ou colegas é um dever, a fim de identificar os cristãos e os controlar. Na escola, os professores também possuem o dever de assinalar todo comportamento “antissocial”, e muitas vezes passam “pseudo-questionários sociológicos” que são, na verdade, questões para saber se as crianças têm pais que creem em Deus, que vão à Igreja e, sobretudo, que ensinam tudo isso aos seus filhos! Eles questionam em seguida, mais precisamente, os pais e as crianças, na escola ou na KGB, para tentar lhes dissuadir, mostrando-lhes os males que isso acarretará aos seus filhos. Para quem resistir a essa primeira intimidação, ameaça-se com sanções. Em seguida, aplicam-se as primeiras sanções, como a demissão, multas (que muitas vezes ultrapassam a metade do salário). Os que professam a crença em Deus praticamente são privados do acesso à universidade. As crianças podem ser tiradas dos seus pais se for julgado que eles exercem sobre elas uma má influência em razão da sua conduta antissocial.

Quando as ameaças e as primeiras sanções não surtem efeitos, começam as prisões e condenações3.

- Campos de trabalho: os regimes podem ser mais rigorosos ou menos rigorosos, mas, em todo caso, os campos de trabalho são sempre muito duros moral e fisicamente. As visitas são restritas ou interditas. As cartas, quando autorizadas, são todas censuradas. Os presos devem alcançar metas de trabalho diário que são muitas vezes desumanas. As autoridades lhes roubam o alimento ou lhes fornecem comida estragada. Do salário depositado desconta-se uma parcela tão grande, que não lhes sobra quase nada, sem contar todas as penalidades suplementares que podem ser infligidas sob pretexto de má-conduta, metas não alcançadas etc.

- Prisões: o regime nas prisões é ainda mais severo que nos campos de trabalho. A saúde deteriora-se rapidamente por falta de alimentação e de exercícios físicos.

- A pena de morte direta (por execução) ou indireta (em conseqüência dos maus tratos) atingiram duramente as fileiras católicas. O balanço humano é pesado e difícil de estimar. No tocante aos padres católicos no território russo (em 1939) e nos países satélites (Polônia, Países Bálticos, Sub-Carpatos…), fez-se a seguinte estimativa, referente ao período de 1917 a 19454:

Assassinados ou executados

352

Mortos em prisão ou desaparecidos

2.600

Deportados ou condenados

1.700

Escaparam

930

Escondidos, dispersos

1.250

 

 

 

Em 1978, não sobravam mais que 1.575 padres, dos 9.624 que existiam em 1917. Os bispos foram o alvo principal: na Rússia, um foi assassinado, seis foram presos, 12 deportados, mortos no exílio ou expulsos, cinco condenados a trabalhos forçados, dez expulsos da sua diocese5.

Entre 1917 e 1950, Roma estima que mais de 10.000 padres e que 50 bispos foram executados ou aprisionados6. As condenações diretas ou indiretas de fiéis chegam a centenas de milhares.

- Mudança de endereço: muitas vezes se impunha a realocação no interior em complemento à pena dos que voltavam dos campos de trabalhos forçados ou da prisão. O exilado era obrigado a viver em determinado lugar, onde em geral o encarregavam de um trabalho. Regularmente, devia comparecer no comissariado para demonstrar que estava ali. As cartas, as visitas e as correspondências não sofriam limites e, oficialmente, não estavam sob censura, a não ser decidissem por um controle mais estrito...

- Hospitais psiquiátricos: De longe, era a pior das penas. Para não serem obrigados a julgar ou a justificar a detenção, as pessoas “incômodas" eram internadas como loucas; via-se a fé religiosa como um sinal de anormalidade psicológica. A internação poderia se estender por anos, ou mesmo por toda a vida. O uso de medicamentos fortíssimos e de maus tratos causavam estragos psíquicos e intelectuais por vezes irreversíveis. Aqueles que deixavam esses hospitais carregavam frequentemente até o fim da vida sequelas, quando não perdiam para sempre a sanidade.

 

2. Pequena história da perseguição7

 

2.1. Primeiros confrontos

Como explicar a presença de católicos na Rússia? A maior parte das comunidades de rito latino originaram-se das sucessivas partilhas da Polônia, que resultaram na incorporação de milhões de católicos latinos na Rússia tsarista8. A esses últimos somaram-se os greco-católicos, isto é, os uniatas que guardavam orgulhosamente as características russas do rito oriental. Eram menos numerosos, mas na maioria das vezes mais ativos.

A conversão ao catolicismo representava riscos maiores que o cisma grego: o ortodoxo incorria na pena do artigo 58.10 (“agitação antissoviética”); que dizer do católico que poderia ser ainda condenado pelos artigos 58.1a (“traição), 58.3 (“relação com um Estado estrangeiro”), 58.6 (“busca de informações em benefício de um país estrangeiro”)?

Os soviéticos estenderam progressivamente o campo geográfico da perseguição, à medida da sua expansão territorial. De 1917 a 1939, os bolcheviques almejaram suprimir a Igreja Católica do território sob seu controle, a saber, da Rússia e de porções da Ucrânia e da Bielorrússia (mas não na região oeste, que estava sob jurisdição polonesa). Paralelamente, esforçaram-se por desacreditar a Igreja Católica em todo o mundo por meio da propaganda. Durante a segunda guerra mundial, ampliaram o campo de ação (oeste da Ucrânia e da Bielorrússia e países bálticos), sempre atuando sobre a opinião pública, notadamente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, que queriam persuadir de que o Kremlin não tinha nenhuma animosidade contra a religião, uma vez garantida a segurança soviética. Após a guerra, a perseguição estendeu-se aos países satélites da URSS, onde a Igreja Católica tinha grande influência (principalmente na Polônia).

Os marxistas dividiam-se quanto aos meios a serem adotados para alcançar o fim de extirpar a religião católica: a ala “direita” queria proceder de modo mais “indulgente”, através da reeducação; os trotskistas preferiam o ataque violento.

Em abril de 1919, Dom de Ropp (arcebispo) foi detido. Os comunistas irritavam-se principalmente por dois motivos: Roma clamara pela segurança da família imperial antes da execução dos Romanov, e o Papa Bento XV exprimira seu juízo sobre as perseguições contra a Igreja cismática russa. O início da guerra russo-polonesa dos anos 1919-1920 tornou a situação ainda mais trágica. Desde 1918, Dom O’Rourke, vigário geral da diocese de Minsk, escrevia a Monsenhor Ratti (futuro Pio XI), Visitador Apostólico para a Rússia: “Aqui, a população católica foi sistematicamente esmagada pelos bandos de soldados russos bolcheviques: famílias inteiras, não importando o sexo ou a idade, foram assassinadas9.”

Em 1920, os mosteiros foram fechados (o tsar iniciara esse movimento). Os católicos apoiaram a ação militar polonesa destinada a restaurar as fronteiras históricas da Polônia com a Rússia, na esperança de obter o fim das perseguições. Com as mudanças de fronteira, resultantes do tratado de Riga, o número total de católicos sob domínio bolchevique subiu para 1.160.000, ou seja, 331 paróquias com 400 padres.

Em 1921, não se obteve nenhuma concessão no terreno religioso durante as negociações da NPE10. Muitas igrejas foram fechadas entre 1921-1922. Em 26 de dezembro de 1921, um decreto proibiu a educação religiosa de crianças com menos de 14 anos, o que representou um obstáculo considerável ao apostolado. Os cursos de ateísmo passaram a ser lecionados desde o jardim de infância. Os bolcheviques tiraram proveito da fome de 1922 para atacar a religião, alegando que os males se deviam à concentração de bens nas mãos da Igreja. Roma tentou se opor ao confisco de objetos sacros, em seguida propôs pagar pela restituição dos bens confiscados, mas foi em vão.

Apesar da missão católica organizada por Roma contra a fome na Rússia, o Kremlin não se desarmou. No fim de novembro de 1922, Dom Jan Cieplak foi informado de que o clero católico de Petrogrado seria julgado por atividade contrarrevolucionária. Em dezembro de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas e lacradas, salvo uma única que era mantida por um padre francês (a França precisava ser tratada mais diplomaticamente). Em março de 1923, iniciou-se um processo contra os católicos latinos que não aceitavam a lei de separação entre a Igreja e o Estado, começando o confisco violento dos bens da Igreja. Dom Cieplak foi julgado juntamente com uma dezena de padres latinos, como o Pe. Fedorov11 e M. Balachev, redator da revista Slovo Istini (A Palavra da Verdade). O processo terminou com a condenação à morte de Dom Cieplack (pena comutada para dez anos de prisão em regime severo, após pressões romanas) e de seu vigário geral, Mons. Boudkevitch, executado na noite de Páscoa (1o. de abril de 1923) na prisão de Sokolniki. A sua morte edificou as testemunhas: “No lugar da sua execução, ele fez o sinal da cruz, abençoou o verdugo e seus assistentes, em seguida voltou a cabeça para o muro e pôs-se a rezar em voz baixa. O tiro do algoz interrompeu a oração do padre.” 12 Ele foi a primeira vítima da Igreja Católica latina na nova Rússia bolchevique. Muitas sentenças de morte e encarceramentos de sacerdotes (3 a 10 anos) seriam pronunciados. Os bens foram confiscados. Após a expulsão de Dom Cieplak, não havia mais nenhum bispo católico na Rússia, apesar da URSS contar com mais de um milhão de fiéis. Os 200 padres remanescentes eram, na sua maioria, de origem polonesa. Diante dessa situação difícil, Roma tentou estabelecer uma hierarquia secreta13. A reação contra a nova hierarquia foi rápida: Mons. Skalski, administrador apostólico, figura influente entre os poloneses na Ucrânia soviética, foi condenado a dez anos de prisão.

No início do século XX, foi constituída uma comunidade de católicos oriunda da ortodoxia, guardando integralmente a especificidade russa do rito oriental, em particular um grupo de religiosas da Ordem Terceira dominicana dirigida por Anna Ivanovna Abrikossova. Em setembro de 1922, o Pe. Abrikossov, incumbido do grupo, foi expulso com mais de 200 cientistas e filósofos. De 12 a 16 de outubro de 1923, prenderam a comunidade de religiosas dominicanas e muitos padres. Uma delas havia oferecido a vida pela salvação do povo russo. Em 19 de maio de 1924, a maior parte dos padres foi condenada a dez anos de reclusão nas diversas prisões dispersas, as irmãs a cinco anos, que em seguida também seriam relegadas a outras prisões afastadas das suas famílias14. No tempo da morte de Lenin (janeiro de 1924), restava mais de um milhão de católicos e 127 padres, dos quais 116 dispersos e 11 em prisão15.

 

2.2. As repressões de 1931

Em fevereiro de 1931, ocorreram na URSS muitas prisões de católicos de rito latino ou oriental, abrangendo clero e leigos. Entre as vítimas, destacaram-se muitos convertidos como Victoria Lvovna Bourvasser, uma judia convertida.

Muito inteligente e conhecedora de idiomas, mas mimada pelos pais, ela caíra no ateísmo militante. É daí que o Bom Deus a retirou para transformá-la numa católica humilde, fervorosa, que comungava diariamente com lágrimas, desejando sofrer para reparar seus erros e testemunhar seu amor por Nosso Senhor. O Bom Deus lhe dera a graça de morrer pela fé. (…) Abandonaram-na doente, sofrendo de modo atroz, na cela, e quando quiseram conduzi-la à enfermaria, era já tarde demais: ela morreu nos corredores16.

Um outro exemplo:

Na prisão de Boutyrki, uma pequena judia convertida, Anna Roubachova, que praticamente não dorme, espanta todas suas companheiras de cela por seu espírito de oração (ela reza noite e dia), e pela sua coragem. Uma outra judia, Melle Sapojnikova é igualmente um modelo de força, enquanto antes, quando era livre, era bem preguiçosa: a graça é proporcionada às necessidades. As moças sequestradas eram submetidas a penas de três a dez anos em campos de concentração. Muitas lá morriam. O motivo da condenação era o seguinte: “A maioria das associadas do grupo organizaram uma ordem monástica ilegal de São Domingos. Elas reuniam-se em diferentes apartamentos, entretinham conversas antissoviéticas sobre questões políticas e econômicas, praticavam com as pessoas de seu convívio uma agitação contrarrevolucionária. 17

Os católicos latinos também viraram alvos. Prenderam-nos em abril por espionagem e ação contrarrevolucionária. A principal ação do grupo latino era a difusão da oração “Rússia padecente”, da devoção à Santa Teresinha do Menino Jesus e de determinadas orações pela salvação da Rússia. Esse apostolado lhe acarretou a deportação por três anos. Uns cinquenta fiéis foram exilados: eram simples trabalhadores ou organizadores de procissões, muitas vezes velhos. “O fim de todos eles será a morte miserável no exílio ou nas novas prisões. 18” As condições do interrogatório desafiam as forças morais: “Irmã Jacinta (Anna Zolkina), uma jovem freira de 25 anos, torturada por questões infames, sucumbiu a um terrível ataque de nervos.” Liberada em 1941, foi condenada no mesmo ano a cinco anos no gulag.

As irmãs dominicanas continuaram o seu apostolado nos campos. Formavam grupos para difundir o ensinamento católico. No verão de 1935, no campo de Bamlag, elas redigiram uma carta que manifesta a sua intrepidez: “Pelo espírito, nós somos fortes. Nem os campo de concentração, nem os órgãos da NKVD poderão desviar do caminho verdadeiro os filhos fiéis da única Igreja Católica. Mesmo aqui nós nos esforçaremos para ganhar recrutas valorosos para a Igreja Católica.”

 

2.3. Os prisioneiros católicos de Solovki

No campo de prisioneiros situado nas ilhas Solovki (Mar Branco) viviam 20.000 homens em condições assustadoras: clima polar, fome, prisioneiros fuzilados em grupos…19

Muitos padres (uns vinte ao mesmo tempo) viviam aí detidos. As missas começavam a meia-noite e se sucediam até as 7 horas da manhã. Um armário baixo servia de capela, nele só se conseguia celebrar de joelhos. Os guardas jamais se deram conta de nada. Por causa do novo calendário com a semana de cinco dias, foi-lhes exigido trabalhar aos domingos: “Fuzilem-nos agora mesmo, mas não violaremos o mandamento de Deus.” Quiseram obrigá-los a tirar o hábito eclesiástico: “No trabalho nos vestiremos como os demais, mas na cela usaremos a sotaina.” Para socorrer os doentes, os padres pediam para ser levados com eles e os confessam nos corredores, falando com os doentes às vistas de todos. A paciência dos prisioneiros é testada até aos últimos limites: o bispo católico Bolesas Sloskans escreveu do arquipélago, onde viveu de 1928 a 1930, aos seus pais: “Eu vos peço do mais profundo da minha alma: não permitais que a vingança ou a exasperação tome conta do vosso coração. Se o permitirmos, não seremos mais católicos verdadeiros, e sim fanáticos. 20

Em 1932, instaurou-se contra esses sacerdotes um processo “por formação de grupo antissoviético,  por se dedicarem à agitação antissoviética, cumprindo ritos religiosos e celebrações litúrgicas”. Esses duros tratamentos muitas vezes culminavam com a morte. O campo de prisioneiros teve necessidade de abrigar novos prisioneiros para serem trocados com a Polônia e, sobretudo, para dar continuidade aos trabalhos iniciados: a escavação do canal Báltico/Mar Branco e a linha ferroviária Leningrado/Murmansk, o canal Moscou, Volga, Don.

A perseguição aos católicos se estendeu a toda a Rússia Européia: Leningrado, Kiev, Odessa, Rostov do Don… Os católicos alemães do Volga, que estavam sob a direção do Pe. Kappès, tornaram-se o novo alvo a ser abatido. Os sacerdotes mantiveram-se firmes nos seus postos para responder às necessidades dos fiéis. Os testemunhos são eloquentes: “Os padres conservaram-se heroicamente ao lado do seu rebanho. Relatamos fatos mostrando que, apesar da repressão do poder, do terror e das execuções, apesar da perseguição contra a fé, os padres não fugiram, mas permaneceram no posto. Os padres receberam a morte das mãos dos bolcheviques com a oração nos lábios, submeteram-se a torturas e fuzilamentos.” A colheita foi abundante: “Muitos católicos alemães foram condenados à morte, recebendo a sentença com firmeza e com uma fé inflexível. 21

Dom Bathélzmy Remov, convertido secretamente ao catolicismo em 1932, e nomeado secretamente por Pio XI como bispo auxiliar de Mons. Neveu, foi condenado à morte em 1935 por causa da sua conversão. Os membros do grupo católico que surgira ao seu redor foram condenados em abril do mesmo ano e executados sem um novo processo em 1937.

 

2.4.O grande terror de 1937

O assassinato do secretário do Partido Comunista, provavelmente por instigação de Stalin, foi o início de um período de terror que lhe permitiu, entre 1935 a 1938, eliminar todos os seus adversários em etapas sucessivas. 50.000 suspeitos foram deportados para os Montes Urais e para a Sibéria. Essa nova etapa foi desencadeada por um ato pessoal de Stalin, sob a forma de uma resolução da seção do Politburo (2 de julho de 1937). A ordem transmitida a todos os níveis da direção do partido foi de tornar a prender todos os ex-detentos, os koulaks22, os ministros de culto e os prisioneiros políticos, “a fim de fuzilar imediatamente os elementos mais incômodos sob forma de medida administrativa das troikas contra eles.” Determinou-se um prazo de quinze dias para que se preparasse a lista das pessoas a serem fuziladas ou exiladas. Foi uma hecatombe: 300.000 vítimas foram lançadas nas fossas comuns de Severnoye Butovo (20.762 das quais apenas no período de 8 de agosto a 19 de outubro de 1938) 23. “A máquina de extermínio não saciava sua sede de sangue (…) em diversas regiões, os secretários do Partido, aos quais havia sido atribuído uma meta de execuções, pediam por telegrama autorização de Stalin para aumentar o número estabelecido. 24” Isso foi concedido: para a região de Omsk, o número de execuções subiu de 3.000 para 8.000. A maior parte dos padres presos ou exilados foram executados na ocasião. Muitos poderiam salvar as vidas renunciando ao sacerdócio, como lhe propunham os juízes. No entanto, a fidelidade dos padres encorajava os fiéis à perseverança: um grupo de paroquianos escreveu ao seu padre detido no arquipélago Solovki: “Nós também recordamos do senhor na Santa Comunhão e rezamos fervorosamente pelo senhor… No momento, estamos todos dispersos, como no trecho das Escrituras: ‘Fere o pastor e serão dispersas as ovelhas’… Nós perseveraremos até o final em nome de Deus, e com o Coração de Jesus, e imploramos vossas orações e vossa santa benção. 25

O incitamento à renúncia do sacerdócio tomava formas dissimuladas: “Os antigos servidores do culto (sem distinção de religião) que rompessem com a religião e com as organizações religiosas, renunciando por isso mesmo ao seu estado, com a condição de que o fizessem em público no lugar de seu serviço ou pelo jornal do lugar onde exerciam o culto, eram inscritos na Bolsa de Trabalho e registrado na qualidade de desempregados26.”

O acusador tinha o cuidado de privar os católicos da glória do martírio, negando-lhes a condenação por religião, pretextando em vez disso [a participação em] uma organização terrorista ligada a país estrangeiro. As vítimas provêm de todos os meios sociais, sobretudo do clero de origem alemã, polonesa e das terciárias regulares dominicanas, mas também de russos de origem que haviam abraçado o catolicismo de rito oriental. Os leigos representavam o maior número. Os prisioneiros eram enviados aos charcos de Pinega, ao Ural do Norte ou do Sul, às estepes do Cazaquistão, às terras insalubres da embocadura do Ob (Obdorsk, atualmente Salekhard), ou ao deserto, infernal no verão, gelado no inverno, da Ásia Central, aos campos de prisioneiros dispersos no Arquipélago do Gulag: dezenas de milhares, reputados como elementos socialmente incômodos, foram assim mortos no esquecimento.

No final dos anos 1930, retornam os assassinatos de padres e leigos. A invasão da Rússia pelas tropas alemães acarretará a ordem de extermínio nos campos de prisioneiros. As mesmas armas de antes são utilizadas: exílio, trabalhos forçados, detenções em regime severo… As religiosas que já haviam sido condenadas tornam a sê-lo. As mais longevas são três religiosas que viveram nas cadeias comunistas por mais de trinta anos27. A grande maioria dos 20 ou 30 mil católicos da região de Vladivostok pereceram durante a coletivização dos anos 1930.

 

2.5. A extensão territorial de 1941

No início de 1941, os territórios anexados contavam, por um lado, com mais de seis milhões de católicos romanos (com 12 dioceses, 1.740 igrejas e 2.300 padres), e por outro, com 3,5 ou 4 milhões de greco-católicos (sendo 2.000 sacerdotes). Em todas as dioceses dos países anexados em 1939-1940, o clero foi detido, os bens eclesiásticos confiscados, as escolas, mosteiros e seminários proibidos, a religião suprimida da educação, e toda publicação religiosa interdita. A guerra obrigará a alguns recuos temporários da parte da URSS, para obter em troca algumas concessões do Ocidente.

 

2.6. O pós-guerra e a guerra fria28

Com a anexação dos Países Bálticos, da Galícia, da Bessarábia e da Transcarpátia, mais de 12 milhões de fiéis ficaram sob as botas soviéticas. A Igreja era vista como um obstáculo maior à sovietização dos povos recém conquistados. Em 1945-1946, os uniatas foram obrigados a se fundirem [com a Igreja Ortodoxa Russa].

Na Lituânia, após a retirada dos alemães, os cinco bispos se tornaram as primeiras vítimas29. Em 1945, de um total de 1470 padres, apenas 741 estavam livres, os demais foram deportados para a Sibéria. 400.000 lituanos, 200.000 letões30 e a mesma quantidade de estonianos foram enviados para a Sibéria, boa parte dos quais era de católicos. Stalin fundou assim uma Cristandade na Sibéria! As prisões voltaram a ocorrer de forma maciça em 1948-1949.

A propaganda recrudesceu após a guerra: a Igreja era acusada de ter se aliado à Alemanha nazista, de ser inimiga dos eslavos, de apoiar o imperialismo, de ser um centro de política reacionária, um bastião do obscurantismo, vil inimiga do comunismo e de estar "à serviço de Wall Street”. No leste europeu, o modelo de perseguição de antes de 1940 foi retomado, sendo adaptado às circunstâncias. Grandes figuras erguiam alto o estandarte católico: os cardeais Wyszinski, August Hlond e Adam Stefan Sapieha,

Na Polônia, o Cardeal Wyszinski aceitou iniciar negociações sobre a nacionalização dos bens para reduzir as pressões. Em junho de 1950, no entanto, acusaram-no de ter violado o acordo de abril de 1950, e os padres foram presos. Em 1953, o governo pretendeu impor a aprovação estatal a todas as decisões eclesiásticas. A tensão só aumentava.

Na Hungria, em 1950, o primaz Dom Joszeph Gröz negociou a submissão durante o encarceramento do Cardeal Mindszenty. Foi tudo em vão, pois as prisões continuaram; ele foi detido em 1951 e condenado a treze anos de prisão. A perseguição se generalizou, com prisões e confiscos. O Pe. Beran, figura anti-nazista de Praga, cabeça da Igreja Católica na Tchecoslováquia, será preso em 1948.

Na Iugoslávia, em 1945, uma onda de perseguições atingiu os padres e bispos. Dom Stepinac foi condenado a dezesseis anos de prisão. O clero em peso foi condenado à prisão ou à morte.

Com o início da ‘desestalinização’, concederam-se alguns alívios: por exemplo, as liberações de 1954-1955. Mais tarde, em 1958, o governo comunista lançou uma campanha violenta contra a religião para erradicá-la de uma vez por todas, e assim foi até 1964. Todas as comunidades tiveram de ser fichadas, os bispos foram banidos, impedidos de cumprir suas obrigações. As prisões acentuaram-se em 1961. Impuseram-se quotas para fixar o número de seminaristas. Por que esse retorno ao passado? Porque a ‘desestalinização’ favoreceu o anti-comunismo que buscavam erradicar.

Concluiremos esta parte com alguns exemplos mais recentes tomados da Lituânia.

 

2.7. Os católicos lituanos

A Lituânia era um dos países mais católicos da URSS. Enquanto a população era submetida às mesmas perseguições que ocorriam por toda a parte na União Soviética, os católicos se organizaram de maneira clandestina e foram muito ativos. O seu número, a sua unidade e, sobretudo, a sua determinação, permitiu-lhes exercer pressão sobre o governo. O clero e os fiéis não hesitaram em fazer um apostolado ativo e a intervir perante as autoridades, sem temor de represálias. Exerceram uma atividade a um tempo pública e clandestina. Todas as congregações religiosas foram obrigadas à total clandestinidade, assim como os jovens que se preparavam ao sacerdócio. Mas, muitas vezes, os padres viam-se obrigados a exercer um ministério clandestino para completar o seu restrito ministério público. Assim, secretamente, preparavam as crianças para a primeira Comunhão e para o sacramento da Confirmação, visitavam os doentes nos hospitais, pois os padres não tinham o direito de ir até lá… Quando a resistência clandestina é bem organizada, é difícil de ser percebida. Eles chegaram ao ponto de lançar clandestinamente um jornal católico, a “LKB Kronika” (Crônica da Igreja Católica na Lituânia).

Nijolé Sadunaité, uma lituana, foi condenada em 1975 a três anos de trabalhos forçados num campo da Mordóvia, e a três anos de exílio na Sibéria. Ela já estava então há um ano sob a mira da KGB por ter encontrado um advogado para defender o Pe. Antanas Seskevicius, acusado de ter ensinado catecismo a crianças. Um dia, no entanto, denunciada pela vizinha, foi surpreendida pela milícia tcheco-soviética enquanto fazia cópias de um número da “LKB Kronika”, e foi presa. Enquanto sua casa era revistada, Nijolé rezava o terço com uma amiga que lhe visitara. Sua serenidade deixou a polícia pouco a vontade. Seu processo lhe ofereceu uma tribuna para denunciar o sistema de opressão soviética no tocante à religião: ela assinalou, entre outras coisas, a interdição de os moribundos nos hospitais serem assistidos por um padre, mesmo quando pediam, recordou a campanha de difamação lançada contra a Igreja, o Papa, os bispos, os padres e os fiéis. Aos que debochavam da religião, dizia que não se debocha do que não se conhece.

Eis alguns trechos do seu “diário”:

“A tranquilidade da minha consciência importa mais que a liberdade, mais que a própria vida.

“Continuem a promulgar tantas leis quanto quiserem; mas, guardai-as para os senhores mesmos. É preciso distinguir entre o que foi escrito pelo homem, e o que foi pedido por Deus. O tributo a César só pode ser a sobra do tributo devido a Deus.

“A KGB dispõe de todos os meios para quebrar […] suas vítimas […] mas não sabem que a pessoa mais débil, depois de se apoiar em Cristo, torna-se indomável.

“Sofrer por Cristo é o sinal certo de uma predileção especial.”

O Pe. Antanas Seskevicius, condenado muitas vezes por ter ensinado o catecismo às crianças, exortava nos sermões que os fiéis respondessem com caridade e oração às injustiças e ao ódio. Já Nijolé Sadunaité disse: “Eu compreendi que os sofrimentos da prisão, aceitos em favor deles [os soviéticos], terminaria por tocar os seus corações e consciências. Ah, se houvesse mais gente pronta para subir o Gólgota e a morrer por eles!”

 

3. As forças da Resistência católica

 

3.1. A unidade da Igreja

A Igreja ortodoxa é uma igreja nacional, portanto ligada ao governo. Ainda que, oficialmente, a separação entre a Igreja e o Estado tenha sido decretada em 1918, o Estado controlava os ortodoxos afastando os líderes incômodos e trocando-os por gente maleável, submissa ao poder.

Isso não era possível com a Igreja Católica, pois os católicos, ao contrário, submetiam-se ao Papa e a Roma. Como a autoridade estava fora do país, ela não podia ser manipulada pelo governo. O Estado não tinha nenhuma ingerência sobre ela. Fora a repressão, nada poderia lesar os católicos. Mesmo se eles fossem afastados da sua autoridade, o Estado não poderia influenciá-los desde dentro, por causa da fidelidade à hierarquia católica. O Estado deveria, então, contentar-se com uma vigilância externa, em que muito lhe escapava.

 

3.2. O papel da família católica

A família é a célula de base da sociedade, é por ela que se pode transmitir a Fé. Os padres por si sós tinham um campo de ação restrito por serem monitorados. Assim, as famílias católicas constituíram-se em “pequenas igrejas domésticas”, pequenas ilhotas de cristandade no meio de um oceano de ateísmo.

O Estado era capaz de controlar as atividades visíveis dos católicos, mas não conseguia controlar cada família, apesar da veemência com que se dispunha ao combate: “Os fatos mostram que a família é o principal reduto para a preservação do espírito religioso. Não podemos admitir que gente cega e estúpida eduque seus filhos à sua própria imagem e os deformem.” (Illitchev)

Enfim, sentimos muito orgulho de causar tão grande embaraço a quem dispõe de tantos recursos. Mas a força bruta nada pode quando Deus vela por seus filhos. Como tão bem reconhecem os nossos inimigos, é pela família que a Fé se transmite. Os filhos, vendo os pais rezarem e defenderem a  Fé, seguem o  exemplo. E são os pais os mais capacitados para ensinar o catecismo aos  filhos. A família é o meio de transmissão por excelência. Os comunistas que querem se imiscuir na família para construir a sociedade soviética sabem o que fazem. E para esse fim — como cheios de ódio reconhecem  — a família cristã é um obstáculo.

Um dos personagens mais importantes da família é a “babuska”, a avó, que vive na família e toma conta dos filhos enquanto os pais estão fora. Ela exerce, portanto, uma influência muito grande sobre os filhos, que lhe pedem para contar as histórias da Bíblia, a vida de Nosso Senhor, e também cantar os cânticos tradicionais. Muitas vezes, os filhos recordarão o que lhes ensinava a “babuska” muito depois dela já ter partido.

 

3.3 A oração e o apostolado pelo exemplo

Num país onde a “propaganda religiosa” foi proibida, pareceria que todo projeto de apostolado seria impensável. Dado que os católicos deviam viver na semi-clandestinidade, não havia movimentos ou organizações apostólicas. Poderíamos, portanto, pensar que a missão da Igreja estava como que hibernando, aguardando por dias melhores. Não deveria contentar-se em  assegurar a sobrevivência dos católicos existentes? Mas uma Igreja não missionária ainda seria católica, ou seja, destinada a se difundir universalmente? Por essa razão, e a despeito das perseguições e das ameaças que sempre pesavam sobre os seus membros, os católicos continuavam a trabalhar pela difusão da Igreja,resultando por vezes num renascimento espiritual do país. Apesar de toda a propaganda, são cada vez mais numerosos os que buscam um sentido para sua vida num mundo onde todas as referências foram suprimidas, e que se voltam para Deus a fim de completar o seu vazio. Surgem até mesmo vocações: ordenam-se padres nos campos de prisioneiros. Qual é a explicação desse desenvolvimento em condições tão desfavoráveis?

Em primeiro lugar, a oração; não apenas a assistência aos ofícios religiosos, quando havia um lugar de culto próximo, mas também o rosário recitado em família. A oração em família é um exemplo para as crianças, que não hesitavam até mesmo em rezar discretamente na escola. Um dia uma professora arrancou o terço das mãos de uma aluna e, arrebentando-o, jogou na lata de lixo. A menina respondeu com altivez: “Tenho dez dedos na mão para substituir as contas do terço, e continuarei a rezar o terço entre as aulas, no meu quarto ou mesmo em viagem…” Crianças pequeninas começavam a rezar e não tinham medo de fazê-lo porque viam os seus pais rezando, e achavam tudo natural. A oração é a arma do combate espiritual, sobretudo no cárcere, onde as condições eram desumanas, e o desespero assaltava as almas. Quantas vezes os católicos, rezando abertamente nas celas, obtiveram a conversão de outros prisioneiros, quando não dos próprios guardas, tocados por esses crentes supostamente perigosos para a segurança do Estado, que os perdoavam e rezavam por eles!

Os “Amigos da Eucaristia” foi uma forma inteiramente clandestina de apostolado de oração, desenvolvido em 1969. Os membros se reuniam em discretas comunidades de oração, mas era sobretudo pelo vínculo interior da oração eucarística e mariana que os membros se “reencontravam” em comunhão. O seu compromisso consistia em meia-hora de adoração eucarística.

A segunda forma de apostolado que jamais poderá ser tirada de um católico é o exemplo. Os católicos eram admirados até mesmo pelos seus inimigos, por causa da vida exemplar que levavam. No seio de uma sociedade completamente decadente, minada pelo alcoolismo, violência, insegurança e toda forma de vício, só os católicos levavam uma vida virtuosa. A cada dia precisavam professar a sua fé em palavras mas sobretudo em atos, para não viverem uma vida hipócrita, ocultando a fé: eles se recusavam a participar das organizações para a juventude, e a ir às conferências, ao passo que iam aos ofícios religiosos… A experiência mostra que a união de católicos intrépidos obrigou muitas vezes as autoridades locais a moderar a sua repressão. Por suas réplicas de bom senso e sua atitude irrepreensível, mas sempre respeitosa com as autoridades, embora manifestassem reprovação, levavam muitas vezes os seus interlocutores a refletirem. Eis o exemplo de um pai de família discutindo com um professor que lhe explicava o mal que a religião fazia às crianças ao lhes impedir o acesso aos estudos superiores: “Não é verdade, a religião não é nociva, respondeu o pai. Agora que a religião é calcada aos pés, as crianças não mais respeitam os professores, fumam, xingam, embriagam-se e vivem uma vida licenciosa. Aí estão os frutos do ateísmo!” 

*

Esta síntese sobre a história dos católicos em face do flagelo comunista confirma a triste realidade das palavras do Papa Pio XI acerca da peste negra:

 

“Lá onde o comunismo pôde se afirmar e dominar (…) ele se esforçou por todos os meios para destruir (e o proclama abertamente) a civilização e a religião cristãs até os seus fundamentos, para apagar toda lembrança dela do coração dos homens, especialmente da juventude. Os bispos e os padres foram banidos, condenados a trabalhos forçados, fuzilados e assassinados de modo desumano; os simples leigos, porque defenderam a religião, tornaram-se suspeitos, foram maltratados, perseguidos e arrastados à prisão e levados aos tribunais.”

“A graça de Deus foi abundante na alma desses discípulos de Cristo, acuados pelos inimigos de Deus. A refinada técnica de que o comunismo se valeu nesse terrível confronto o transformou num dos maiores perigos do século XX: “Dentro da zona de influência bolchevique-comunista, o uso refinadíssimo dos meios técnicos e legais de que o poder arbitrário do governo dispunha, quando desejava destruir a Igreja, deu azo a que as perseguições que ela ali sofreu fossem as piores que já se conheceram. 31

Em complemento à análise desses erros, a atitude constante dos poderes comunistas é a confirmação do antagonismo irredutível entre o catolicismo e o comunismo! Sim, “o comunismo é materialista e anticristão: ainda que os chefes comunistas às vezes declarem por palavras que não atacam a religião, eles se mostram, de fato, seja pela doutrina, seja pelos atos, hostis a Deus, à verdadeira religião, e à Igreja de Cristo32”. A Igreja de Cristo não pode capitular jamais: ela “não pensa em abandonar sem luta o terreno ao inimigo declarado, o comunismo ateu. Esse combate se travará até o fim, mas com as armas do Cristo! 33”, nos preveniu Pio XII.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF, Gentilly, 2017, pp. 52-76.)

  1. 1. Militante feminista soviética (1872-1952).
  2. 2. Peter Babris, Silent churches, Persecutions of religions in the soviet dominated areas, Research publisher, Illinois, 1978, p. 164.
  3. 3. Sobre esse tema, o leitor poderá consultar os escritos de Soljenítsin (Arquipélago Gulag e outros) ou o Livro Negro do Comunismo.
  4. 4. Peter Babris, op. ct., p. 162-163.
  5. 5. Ibidem., p. 164.
  6. 6. Documentos pontificais de Sua Santidade Pio XII, 1950, Éditions de l’oeuvre Saint-Augustin, p. 622-23. Em 1950, as estimativas eram as seguintes:

    • Na URSS, todos os bispos (8) e todos os padres (300) foram assassinados, deportados ou exilados.
    • Na Sibéria, não havia mais bispos nem padres que pudessem exercer livremente o seu ministério em todo o território. Ademais, encontram-se centenas de milhares de católicos bálticos, poloneses, alemães, ucranianos etc, deportados ou prisioneiros.
    • Na Ucrânia, todos os bispos (8) foram deportados e três deles já haviam morrido na prisão. Estima-se que mais de 35.000 padres foram executados ou enviados para a Sibéria.
    • Na Lituânia, seis bispos foram presos ou exilados, 400 a 500 padres foram caçados. De uma população de 1.750.000 católicos, metade foi enviada para a Sibéria por motivações religiosas.
    • Na Letônia, os dois bispos foram exilados e, de 120 padres, 33 foram deportados. Ainda restam entre 300 e 400 mil católicos.
    • Na Estônia, o único bispo foi preso e 50 padres foram executados ou deportados. Há cerca de 10.000 católicos.
    • Na Polônia, de um total de 24 milhões de habitantes, 75% eram católicos. Mais de 1.000 padres foram executados ou encarcerados.
    • Na Alemanha havia na zona oriental três bispos e dois ou três administradores apostólicos, cerca de 400 padres e mais de dois milhões de católicos.
    • Na Tchecoslováquia, de 14.726.000 habitantes, 70% eram católicos. Todos os bispos (12) eram monitorados e, de um total de 7.000 padres, mais de 1.500 estavam presos.
    • Na Hungria havia seis milhões de católicos numa população de nove milhões. Desde a entrada das forças soviéticas, um bispo foi assassinado; o cardeal Mindzsenty foi preso, e mais de 500 padres foram mortos ou exilados.
    • Na Bulgária não havia mais que 6.000 católicos. A maior parte dos padres — uns 30 — ainda estão livres, mas não podem mais exercer o seu apostolado.
    • A Romênia conta com mais de 3 milhões de católicos numa população de 18 milhões. Doze bispos estão presos, um único ainda estava em liberdade. Todos os padres, em número de 1.500, foram executados ou estavam encarcerados.
    • A Iugoslávia era uma país com uma população de 16 milhões de habitantes e 5 milhões de católicos; dois bispos foram assassinados, três haviam sido encarcerados ou exilados. Mais de 250 padres foram assassinados e 400 estavam presos ou exilados.

    Na Albania havia mais de 100.000 católicos numa população de 10 milhões de habitantes. Dois bispos haviam sido fuzilados e os demais estavam encarcerados. Praticamente não existiam mais padres, enquanto outrora eram mais de cem.

  7. 7. J. Dunn Ashgate, The Catholic Church and Russia, Dennis Texas University, 2004, p. 73.
  8. 8. Pedro, o Grande, permitira a seu conselheiro militar, o Gal. Patrick Gordon (1635-1699) católico fervoroso, construir para si e sua família a primeira igreja católica de Moscou, dedicada a São Pedro e São Paulo. Depois dele, em 1789, Catarina II autorizou a comunidade francesa de Moscou a construir sua própria Igreja (São Luís dos Franceses). Um apelo foi feito pela Nova Rússia aos camponeses vindos da Alsácia para que fincassem raízes nas bordas do Volga e do Mar Negro.
  9. 9. Citado em R. Morozzo Della Rocca, Le nazioni non muoiono, op. cit., p. 116.
  10. 10. Nova Política Econômica: política econômica instituída pela Rússia bolchevique de 1921 a 1925, introduzindo uma relativa liberalização econômica.
  11. 11. Ele foi condenado no dia 21 de março de 1922 “não apenas pelo que fez, mas também por aquilo que poderia fazer” (!), Silent Churches, p. 166.
  12. 12. A. Judin, Le sorti del cattolicesimo russo, cit, p. 91.
  13. 13. Dom Miguel D’Herbigny, a pedido de Pio XI.
  14. 14. Antoine Wenger, Catholiques en Russie d’après les archives du KGB, 1920-1960; Desclée de Brouwer, 1998.
  15. 15. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 82.
  16. 16. Antoine Wenger, op. cit., p. 39.
  17. 17. Ibidem, p. 43.
  18. 18. Carta do Pe. Neveu, 14 de setembro de 1931, citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 57.
  19. 19. Descrito por Soljenitsin, O Arquipélago Gulag, t. 2, c. 2. “As ilhas Solovki são o reino dos desgraçados. Acima dos ásperos muros da catedral, sobre o revestimento fresco, fora desenhada a silhueta gigantesca de uma cidade contemporânea, com chaminés que fumegam, guindastes e aviões que sobrevoam, dominada por uma grande estrela vermelha de cinco pontas. Na cidade, foi pintado meticulosamente com tinta vermelha o slogan: ‘Viva o trabalho livre e alegre’” (testemunho de Olga Jafa, deportada, citada em J. Brodskij, Solovki, Le isole del martirio. Da monastero a primo lager sovietico, Milan 1998, p. 22). Em 1920, o mosteiro que havia ali foi transformado num campo de concentração para os prisioneiros da guerra civil. Em 1923, tornou-se um “campo de destinação especial”. De 1920 a 1939, acolheu mais de um milhão de prisioneiros. Os bolcheviques desejam transformar um dos santuários do “obscurantismo" num lugar de reeducação: “Durante cinco séculos, os Solovki obscureceram o espírito do povo. Hoje, ergue-se aqui um campo de concentração onde são reeducados os cidadãos que cometeram crimes… O eco dos sinos das ilhas Solovki foi extinto. Uma nova vida despertou”, citado em Brodskij, op. cit. p. 132.
  20. 20. I. Osipova, Se il mondo vi odia… Martiri per la fede nel regime sovietico, Milano, 1997, p. 100.
  21. 21. Antoine Wenger, op. cit., p. 102.
  22. 22. Modo pejorativo de se referir na Rússia aos fazendeiros, possuidores de terras, rebanho e ferramentas, que assalariavam camponeses para o trabalho.
  23. 23. Cf. o historiador Milchakov em Vetrchernaïa Moskva, 26 de fevereiro de 1991.
  24. 24. Antoine Wenger, op. cit., p. 156-157.
  25. 25. I. Osipova, op. cit., p. 137.
  26. 26. Cf. Texto secreto do Comitê Central (30 de agosto de 1930), citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 163.
  27. 27. Irmã Filomena Eismont (1924-1955), Irmã Antonina (Kouznetsova) (1924-1956), Irmão Margarida (Raïssa Ivanovna Krylevskaïa) (1924-1955).
  28. 28. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 136-156.
  29. 29. Um deles foi preso e morreu em outubro de 1946 em condições não esclarecidas (Dom Borisevicius); três foram presos e condenados a trabalhos forçados na Sibéria, no final de 1946; o outro morreu no cárcere, perto de Moscou (Dom Reinys, novembro de 1953).
  30. 30. No final de 1945, a Letônia não tinha mais que dois padres e três igrejas (eram 1.671 antes da chegada dos soviéticos).
  31. 31. Pio XII, Carta ao episcopado alemão, 15 de fevereiro de 1954.
  32. 32. Pio XII, Decreto do Santo Ofício sobre o comunismo, 1o. de julho de 1949.
  33. 33. Pio XII, Discurso aos participantes do II Congresso Mundial para o apostolado dos leigos. 5 de outubro de 1957.