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História (69)

Perseguição à Igreja Católica sob o regime chinês.

Albert Galter

Foi pelo ano de 1920 que a ideologia marxista-leninista foi introduzida na China por agentes a serviço da Rússia. No espaço de trinta anos conseguiu ela impor-se a cerca de meio bilhão de homens, graças à hábil inserção dos seus profetas no jogo dos acontecimentos nacionais, e ao proveito que eles tiraram da situação internacional criada no Extremo-Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Fundado em Shangai em 1921, o Partido Comunista Chinês precisou, pouco a pouco, o seu caráter revolucionário, com o auxílio da Missão de peritos industriais e militares russos que se achava na China desde 1920.

Quando Tchang Kai-Chek começou em 1927 a obra de reunificação interior do país, marchando contra o governo que sediava então em Nankin, os comunistas, aproveitando a guerra civil, formaram por seu lado um governo em Hankow e puseram à testa dele Mao Tsé-Tung (1928). (Continue a ler)

O que o ocidente medieval deve aos árabes, e o que não lhes deve

Jean Sévillia

Professor substituto de história e doutor em letras, Sylvain Gouguenheim ensina história medieval na prestigiosa École normale supérieure de Lyon. Até pouco tempo, era ele um professor sem história. Estimado pelos estudantes, reconheciam-no os seus pares como um especialista em Idade Média alemã. As suas doutas publicações e livros — sobre Hidelgarda de Bingen, mística da região da Renânia no século XII, sobre o terror do ano mil ou sobre os cavaleiros teutônicos[1] — granjeavam respeito para este medievalista que também é germanista.

Em 2008 a curiosidade o levou a pesquisar a transmissão da cultura helênica na Idade Média. Desempenharam os árabes um papel no processo, ninguém o ignora, mas em que medida? Um lugar comum reza que o conhecimento antigo, depois de desaparecer da Europa em razão da queda do Império Romano, refugiou-se no mundo muçulmano que, ao traduzir para o árabe os textos gregos, transmitiram-nos ao Ocidente – transmissão que possibilitou o florescimento da cultura ocidental.

Os mártires de Espanha

“Santa Espanha, na extremidade da Europa concentração de Fé,

quadrado e massa dura, e da Virgem Mãe trincheira,

Última parada de Santiago, que só onde a terra acaba se refreia,

Pátria de Domingo e de João, de Francisco o Conquistador e de Teresa,

Arsenal de Salamanca, pilar de Zaragoza, raiz ardente de Manresa,

Inquebrantável Espanha, recusa perpétua do meio-termo…”1

 

 

Quem mais do que a Espanha, com efeito, deu à cristandade filhos corajosos e filhas ardorosas? Quem como Espanha resistiu a sete séculos de pressões do islã? Quem dobrou o espaço geográfico da civilização e da cristandade pela descoberta do Novo Mundo?

Em 1930, a Espanha contabilizava 20.000 monges, 60.000 religiosas, 31.000 padres para vinte e três milhões de habitantes. As escolas católicas escolarizavam 600.000 crianças. As instituições científicas católicas financiavam vastos setores da ciência espanhola, notadamente em história, matemática e astronomia. Era impossível falar de cultura na Catalunha sem citar as organizações intelectuais dos jesuítas, capuchinhos e beneditinos de Montserrat. Fiel à sua história, a Espanha entregou à cristandade muitos mártires e exemplos de heroísmo durante a guerra civil de 1936 e os eventos que a precederam. Eis os fatos.

 

1. O desencadeamento da Guerra Espanhola.

Após um atentado em Paris contra o Rei de Espanha Alfonso XIII, um alto dignatário maçom lhe propôs a posse tranquila de seu trono caso se afiliasse à seita. “Antes de ser rei, sou católico”, respondeu indignado o monarca. Dois anos mais tarde, em 30 de maio de 1919, acompanhado de seus homens de governo, consagrou a nação espanhola ao Sagrado Coração de Jesus, em ação de graças por ter sido preservada da Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918. Assim ele assinou o seu ato de condenação2.

Nas eleições municipais de 1931, elegeram-se 21.150 vereadores monarquistas contra 5.875 republicanos, mas 41 das 50 capitais de província votaram a favor dos republicanos. O rei, não querendo uma guerra civil, partiu em exílio como se a Espanha rural, largamente majoritária, não contasse. No dia 14 de abril, a república foi proclamada e reconhecida pelos governos maçônicos do mundo inteiro.

Desde o início do novo regime, o Comitê Revolucionário se tornou o governo provisório. Ele compreendia republicanos conservadores, liberais, socialistas, nacionalistas-regionalistas, e se beneficiava do apoio tácito dos partidos mais à esquerda. A hierarquia da Igreja aconselhava obediência às novas instituições, uma vez que o governo prometera uma “Igreja livre num Estado livre”, no entanto ela via com desconfiança a chegada ao poder de políticos que eram, em sua maioria, maçons e anticlericais.

O cardeal Segura, arcebispo de Toledo e primaz de Espanha, lançou um grito de alerta numa carta pastoral:

“Se nos mantivermos tranqüilos e negligentes, se permitirmos que a apatia e a timidez tome conta de nós, se deixarmos as portas abertas àqueles que procuram destruir nossa religião, ou se esperarmos que o triunfo de nossas convicções seja assegurado pela benevolência do inimigo, então não teremos mais direito de lamentar quando a amarga realidade nos fizer compreender claramente que a vitória esteve ao alcance de nossas mãos, mas que não soubemos combater como guerreiros intrépidos preparados para morrer gloriosamente3.”

Os acontecimentos lhe deram razão!

No dia 9 de dezembro de 1931, por atos oficiais do governo, teve início uma verdadeira perseguição religiosa. A nova constituição proclamou a separação entre a Igreja e o Estado, a autonomia regional para a Catalunha e o País Basco, a introdução do matrimônio civil. Muitas leis e decretos entraram em vigor por mera aplicação da Constituição; a Companhia de Jesus foi dissolvida e seus bens foram confiscados. As instituições religiosa não poderiam mais exercer nem o comércio, nem a indústria, nem a agricultura, nem o ensino. Igrejas, capelas, imóveis e mobiliário foram nacionalizados4. “O local ou os locais até o presente consagrados ao culto serão convertidos em armazéns coletivos, mercados públicos, bibliotecas populares, casas de banho ou de higiene pública etc. conforme as necessidades de cada cidade”,  enunciava a liga atéia no programa de um dos comitês provinciais.

De 1931 a 1933 multiplicam-se os atentados contra as pessoas (300 mortos e 2000 feridos em um ano), enquanto ocorriam greves, incêndios de igrejas e de conventos, e perseguição religiosa. O povo espanhol reagiu a essa apostasia das leis republicanas nas eleições de dezembro de 1933, que marcaram a derrota completa dos revolucionários e o triunfo dos católicos que Gil Robles havia reunido numa poderosa federação (CEDA).

Mas a política de moderação, de liberalismo e de reformas sociais do novo governo permitiu que as “esquerdas" fragmentadas se reagrupassem e se armassem: o governo perseguiu e aprisionou os anarquistas, mas deixou livre os comunistas e socialistas que, após um breve período de censura, reabriram seus centros de propaganda em maio de 1935 para começar a reconquistar o terreno e preparar o retorno ao poder. Lançando mão de métodos comunistas, Largo Caballero, o “Lenin espanhol” conseguiu, com efeito, reunir todas as forças da Revolução, que totalizavam mais de um milhão de homens em setembro de 1934. No final do ano, um cargueiro soviético desembarcou nas Astúrias trazendo 70 caixas com armas e munições. Em outubro de 1934, Madri, Oviedo, Barcelona se rebelaram ao mesmo tempo. No País Basco e na Catalunha o movimento assumiu feições separatistas. Durante dez dias, os rebeldes produziram violências inacreditáveis: incêndios, pilhagens, assassinatos (2.000 a 3.000 mortes ao todo).

Nas eleições de 16 de fevereiro de 1936, os partidos da ordem obtiveram no total do país 200.000 votos a mais do que a Frente Popular (coligação de republicanos, socialistas, comunistas e sindicalistas). Essa última, devido ao recorte bizarro de circunscrições e às fraudes nos boletins de votos, verificadas em muitos lugares, conseguiu eleger alguns candidatos a mais. Desse modo, as Cortes puderam ser formadas com maioria da Frente Popular, cujo primeiro gesto foi a abrir as prisões. Condenados de direito comum eram liberados e armados enquanto a guarda civil e o exército eram desestruturados por meio da destituição dos chefes. No campo, trabalhava-se ativamente para manter e aumentar a miséria dos pequenos negócios de que a classe média vivia, a fim de estimular a miséria e o ódio que fornecem à propaganda revolucionária um terreno promissor.

Desencadeou-se uma campanha de perseguição religiosa que superou as anteriores em amplitude e crueldade. De fevereiro a julho de 1936, 411 igrejas foram destruídas ou profanadas e cerca de 3.000 atentados de natureza política e social foram cometidos.

Em 18 de julho de 1936, o levante do general Franco marcou o início da contrarrevolução e da guerra civil espanhola, que deixaria 600.000 mortos e cujas operações militares durariam 32 meses. Após a queda de Barcelona, as tropas franquistas vitoriosas expeliram as forças republicanas para a França e entraram em Madri em fevereiro de 1939.

 

1.1 A Espanha vermelha

O primeiro disparo da guerra civil ocorreu no dia 13 de julho de 1936, por volta das 4 da manhã, quando as forças marxistas de Madri assassinaram o deputado monarquista Calvo Sotelo. Dois dias antes ele havia pronunciado nas Cortes uma acusação tão esmagadora contra a Revolução e seus males que a deputada comunista Dolores Ibaruri não se conteve e gritou: “Esse homem falou pela última vez.” O assassinato de Calvo Sotelo, executado pelos revolucionários e decidido pela maçonaria, é um exemplo do que seguirá. O Pe. Turquet, que Léon de Poncins definiu como “provavelmente o maior conhecedor espanhol de questões maçônicas” revelara que uma condenação fora levada a Madri por Augusto Barcia, “grão-mestre do supremo conselho maçônico” e ministro dos assuntos estrangeiros da Frente Popular.

A revista secreta da maçonaria, Chaîne de l’Union, declarou que o objetivo perseguido na Espanha, após a supressão da monarquia que entravava o caminho dos maçons, “era de fazer desaparecer para sempre o pernicioso poder clerical romano” 5. A perseguição religiosa foi inspirada pela maçonaria que, por ódio à religião, preparava os caminhos para Moscou.

 

1.2. Infiltração anarquista e marxista na Espanha

Ao longo do segundo terço do século XIX, as idéias comunistas e anarquistas penetraram a Espanha. Por volta de 1870, a Internacional6 contava já com mais de 80.000 afiliados. No final do século, Barcelona havia se tornado uma das capitais mundiais do anarquismo. Nos tempos da monarquia, os revolucionários amavam repetir que não haveria paz nem justiça para os povos até que o último monarca fosse enforcado nas tripas do último monge em praça pública.

Os anarquistas atuavam apenas no domínio dos sindicatos trabalhistas. Eles detestavam a política e não intervinham nas eleições. Apesar dos atentados terroristas que promoviam, eram considerados então como incapazes de causar uma perturbação social das massas. Mas, ao se apoderarem de organizações trabalhistas e ao consolidar sua influência por meio da violência terrorista, botaram as mãos na alavanca que lhes permitiu chegar ao poder. Em 1931, a Espanha abrigava cerca de um milhão de anarquistas ligados à CNT (Confederação Nacional do Trabalho). Esta organização sindical era dominada pela FAI (Federação Anarquista Ibérica) que abrangia cerca de 10.000 membros militantes, verdadeiros profissionais da desordem, que tomaram a iniciativa de incendiar igrejas e conventos, praticar assassinatos, estupros, somados a crueldades totalmente inéditas.

As primeiras infiltrações comunistas na Espanha começaram com o estabelecimento de uma seção ibérica do partido comunista em 1920. A contar dessa data, os comunistas absorveram todas as demais correntes revolucionárias em razão da maior capacidade de organização metódica. Em 1932, infiltraram maciçamente a UGT (União Geral dos Trabalhadores, socialistas nas mãos da maçonaria) e conseguiram fundar a CGTU (Confederação Geral do Trabalho Unitário). A partir dessa data, apesar da superioridade numérica dos anarquistas, são os comunistas que utilizam meios brutalmente autocráticos, que levaram à conquista do território espanhol.

A revolução comunista foi dirigida, organizada e financiada pelo Kominterm7 com somas exorbitantes. A Rússia remeteu para a Espanha setenta e nove agitadores profissionais bem como 70 caixas de armas e munições, enquanto a Comissão Nacional de unificação marxista organizava a formação de milícias revolucionárias em todas as cidades espanholas.

Em 16 de maio de 1936, o representante da URSS se reuniu com os delegados espanhóis da 3a. Internacional na Casa del Pueblo, em Valência. Eles decidiram “incumbir um dos setores de Madri de eliminar as personalidades políticas e militares que poderiam vir a desempenhar um papel importante na contrarrevolução.” Para esse fim, estabeleceram “listas negras” nas quais os bispos e os padres figuravam em primeiro lugar. “Durante esse tempo, desde Madri até as aldeias mais remotas, as milícias revolucionárias recebiam instruções militares e eram copiosamente armadas, ao ponto de contar com 150.000 soldados de assalto e 100.000 soldados de resistência8 no início da guerra.”

“O núcleo dessa brigada (as Brigadas Internacionais que vieram em ajuda dos republicanos contavam com 60.000 homens) se constituía de quinhentos ou seiscentos enviados da Rússia", escreveu Krivitsky9. "Em todos países estrangeiros, Reino Unido inclusive, o recrutamento para as brigadas era organizado pelos partidos comunistas locais e suas filiais. Entre eles havia informantes para caçar espiões, eliminar homens cuja opinião política não fosse estritamente ortodoxa, vigiar as leituras e conversas. Com efeito, todos os comissários políticos das Brigadas internacionais e, mais tarde, da maior parte do exército republicano, eram comunistas a toda prova. 10

Sem dúvida, muitos dos atos condenáveis foram responsabilidade de grupos que agiam por conta própria no meio da impunidade geral. No entanto, muitos outros atos foram fruto do planejamento das organizações comunistas, socialistas e anarquistas, que possuíam sua polícia, seus tribunais e suas prisões, e puseram em prática os métodos mais avançados, inspirados pelos agentes de segurança soviéticos11. Notadamente, desde o motim, em toda a zona governamental, multiplicam-se as “Tchekas”. Em Madri, era possível enumerar mais de 200, logo suplantadas pelo SIM (Servicio de Información Militar), cujos procedimentos se assemelham aos do GPU12 e do NKVD13. A tortura era aí organizada conforme os princípios médico-científicos. As sevícias seguiam uma gradação ardilosa: privação do sono, confinamento em prisões tão diminutas que a vítima não podia ficar de pé nem sentada, leito inclinado de forma que o prisioneiro caia imediatamente ao dormir14.

A Rússia se imiscuiu nas forças governamentais, penetrou no seu comando e, mesmo conservando o governo da Frente Popular, trabalhou para a instauração do regime comunista por meio da derrubada da ordem estabelecida. "A obra destruidora se realizou aos gritos de ‘Viva a Rússia’, à sombra da bandeira da internacional comunista15.”

 

1.3 As razões religiosas da oposição

Evocamos acima as razões dessa oposição entre o comunismo e a Igreja Católica. Esse conflito pertence a esse quadro. “A guerra espanhola se reduz ao choque entre o espiritualismo, cujo campeão mais firme era a religião, e o materialismo, cujo defensor mais enérgico era o comunismo ateu.” 16

Os dirigentes revolucionários não se escondem. Em Moscou se realizou o congresso dos ateus, do qual participam 1.600 delegados pertencentes a 46 nações. Seu fim era recolher informações sobre os progressos realizados entre as nações no que se refere à destruição da crença em Deus. Jesús Hernández, ministro do governo espanhol de Largo Caballero, enviou a esse congresso o seguinte telegrama: “Vossa luta contra a religião é também a nossa luta. É nosso dever fazer da Espanha uma terra de ateus militantes. A luta será difícil, pois neste país as massas reacionárias são numerosas e se recusam absolutamente a aceitar a cultura soviética. Nós transformaremos todas as escolas da Espanha em escolas comunistas.”

Largo Caballero, líder comunista, bradava: “Não deixaremos pedra sobre pedra nesta Espanha. Temos de refazê-la nossa.” Este é bem o slogan satânico da revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para reconstruir o mundo ex nihilo. Ainda mais claro é este discurso da deputada Margarita Nelken: “Nós queremos uma revolução, mas a revolução russa não pode nos servir de modelo, pois temos necessidade de chamas gigantescas que possam ser vistas por todo o planeta, e vagas de sangue que tornem o oceano vermelho.” Mesmo o quotidiano de Barcelona “Solidaridad Obrera” escrevia em 26 de julho de 1936: “Não há muitas igrejas e conventos ainda de pé; mas, com muito custo, apenas duzentos padres e monges foram postos fora de circulação. A hidra religiosa não está morta. Convém levar isso em conta e não perder de vista essa realidade em face dos nossos próximos objetivos.” 17

Não eram apenas bravatas. A destruição dos lugares de culto ou ao menos do seu mobiliário foi sistemática e contínua. No curto intervalo de um mês, todas as igrejas tornaram-se inúteis ao culto, enquanto os padres eram mortos sem processo, no mais das vezes à queima-roupa: as igrejas eram incendiadas por serem casa de Deus, e os padres eram sacrificados por serem ministros de Deus.

“Contamos os mártires aos milhares. […]

"O ódio a Jesus Cristo e a Virgem Maria chegou ao cúmulo, e nas centenas de crucifixos apunhalados, nas imagens da Virgem bestialmente profanadas, nos pasquins de Bilbao em que se blasfemava sacrilegamente da Mãe de Deus, na infame literatura das trincheiras vermelhas em que se ridicularizam os divinos mistérios, na reiterada profanação das imagens sagradas, podemos adivinhar o ódio do inferno, encarnado em nossos infelizes comunistas18.”

 

2. A Espanha católica

2.1. O alcance da destruição

É impossível, em toda a Espanha, separar a história da fé católica da história da criação artística. Durante séculos, essas duas histórias se confundiram. Ao desejo de acabar com esses monumentos por conta do seu caráter religioso juntou-se o desejo de sumir com eles por causa de seu aspecto histórico, visto que representavam épocas radiantes e constituíam tipos de civilização que, como tais, o marxismo quer destruir. É impossível fazer o inventário dos monumentos destruídos e das maravilhas artísticas desaparecidas. E não se contentaram em atacar os lugares de culto público. Os oratórios e os objetos religiosos privados, imagens, pinturas, livros, foram sistematicamente destruídos. Jamais talvez na história das perseguições religiosas um caso semelhante tenha acontecido: em poucos meses, uma região católica havia séculos viu desaparecer de seu solo todo símbolo religioso, sem contar a supressão e a dissolução das publicações católicas, das bibliotecas paroquiais, dos centros de cultura instalados nos estabelecimentos católicos, bem como o incêndio e a dispersão de bibliotecas conventuais. Todos os monastérios e todos os conventos foram incendiados, destruídos, fechados ou entregues para outros usos19.

Pio XI descreveu a trágica situação da Espanha sob a dependência do governo republicano na sua encíclica Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937:

"Até em países, onde — como sucede na Nossa amadíssima Espanha — não conseguiu ainda a peste e o flagelo comunista produzir todas as calamidades dos seus erros, desencadeou contudo, infelizmente, uma violência furibunda e irrompeu em funestíssimos atentados. Não é esta ou aquela igreja destruída, este ou aquele convento arruinado; mas, onde quer que lhes foi possível, todos os templos, todos os claustros religiosos, e ainda quaisquer vestígios da religião cristã, posto que fossem monumentos insignes de arte e de ciência, tudo foi destruído até os fundamentos! E não se limitou o furor comunista a trucidar bispos e muitos milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas, alvejando dum modo particular aqueles e aquelas que se ocupavam dos operários e dos pobres; mas fez um número muito maior de vítimas em leigos de todas as classes, que ainda agora vão sendo imolados em carnificinas coletivas, unicamente por professarem a fé cristã, ou ao menos por serem contrários ao ateísmo comunista. E esta horripilante mortandade é perpetrada com tal ódio e tais requintes de crueldade e selvajaria, que não se julgariam possíveis em nosso século.”

De 1934 a 1939, 20.000 igrejas ou conventos foram pilhados e destruídos em nome da liberdade de consciência. São 13 os bispos assassinados, padres 4.052, religiosos 2.338 e religiosas 270; ou seja, 6.773 consagrados aos quais se deve acrescentar 248 seminaristas e cerca de 80.000 leigos católicos de todas as idades e condições20. Entre esses milhares de padres, religiosos, bispos, monges e outros eclesiásticos, não se sabe de nenhum exemplo de apostasia.

 

2.2. O exemplo dos mártires

- A resistência do Alcazar

No final de 1936, o mundo inteiro seguiu com estupor a resistência do Alcazar de Toledo. Essa fortaleza de guerra foi tomada nos primeiros meses do alzamiento21 por milhares de combatentes insurgidos e um outro milhar de pessoas, que se compunha de velhos, mulheres e crianças. A primeira reação do governo republicano, quando soube que os insurgentes haviam se apoderado do lugar, foi chamar ao telefone o coronel José Moscardó Ituarte, chefe nacionalista da guarnição. O coronel Moscardó, com efeito, havia se abrigado no Alcazar de Toledo no meio de uma tal confusão geral que não pode trazer consigo a mulher e os filhos. Doña Maria se refugiara na casa do Tenente-coronel Tuero, mas foi descoberta em 22 de julho de 1936 pelos republicanos. Doña Maria conseguiu fugir com o pequeno Carmelo, mas seu filho Luís de 17 anos seguia prisioneiro.

No dia seguinte, o chefe dos milicianos de Toledo chamou ao telefone o coronel Moscardó para lhe anunciar que seu filho estava nas suas mãos.

“— Damos dez minutos para você se render — disse — senão, ele será fuzilado.

— O senhor não é nem um soldado nem um cavaleiro. Se fosse, saberia que a honra de um militar não cede diante da ameaça.

— O senhor me responde assim porque não crê na minha ameaça. Fale com seu filho… Aqui Moscardó!

— Alô… papai?

— Como você está, meu filho?

— Nada de particular, papai. Dizem que vão me fuzilar se o senhor não se render. Que devo fazer?

— Você sabe como penso. Se é certo que vão fuzilá-lo, recomende a sua alma a Deus, erga um pensamento a Espanha e outro a Cristo Rei.

— É fácil, papai. Farei as duas coisas… Um beijo forte, papai.

— Adeus, meu filho. Um beijo bem forte.”

O Alcazar resistirá por setenta dias a um ataque formidável, que fez chover sobre a célebre fortaleza 3.300 obuses de 155mm, 3.000 obuses de 105mm, e 3.500 de 75mm. Num único dia, 450 bombas de 50kg foram lançadas de avião. 1.900 homens sitiados passaram dias terríveis sob um trovão de fogo. 82 morreram. Dois bebês nasceram nas ruínas! No dia 28 de setembro de 1936, após a liberação do forte destroçado, a promoção do coronel Moscardó e uma missa de ação de graças, o novo general Moscardó foi embora no meio das aclamações, estava triste e recurvado. Ele se recordava do martírio de Luís, e deu a entender também que lhe custava enormemente entregar a fortaleza à Espanha num tal estado…22

 

— Ceferino Jiménez Malla

Ceferino Jiménez Malla foi fuzilado pelos republicanos espanhóis na noite de 2 de agosto de 1936, com 75 anos de idade, no cemitério de Barbastro, em Aragão, com muitas outras vítimas. Ele foi preso pelos milicianos comunistas no início da guerra civil, acusado de ter escondido um padre e de ter resistido à prisão pelos milicianos. Após três semanas de prisão, Ceferino foi tirado de cela; os milicianos ordenaram que largasse o terço que carregava consigo a fim de rezar. Ele usava o rosário ostensivamente e rezava na frente de todos. Recusou-se com vigor a entregar o terço e foi fuzilado por esse motivo. Diante do pelotão comunista, ele estreitou o terço contra o peito e gritou: “Viva el Cristo Rey!”. Ceferino Jiménez Malla morreu mártir e confessor da fé23.

 

— Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz

Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz tinham, respectivamente, 24, 26 e 27 anos quando roubaram as suas vidas. Sabino e Florencio tinham pronunciado seus votos definitivos na Sociedade de Maria, em 1934, e Joaquín em 1935, manifestando por escrito nessa ocasião a sua adesão à Nossa Senhora e a firme vontade de servi-la até o fim. Durante a sua prisão, Sabino teve o gesto tocante de dizer “adeus" ao zelador, mesmo sabendo ter sido denunciado por ele, manifestando assim seu desejo de perdoar. Sobre os seus corpos torturados foram encontrados crucifixos, medalhas e mesmo um certificado de batismo, prova do seu desejo de professar a fé até o fim, apesar dos riscos incorridos24.

 

— Os irmãos do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri e os padres Agostinianos de Escorial.

Um irmão sobrevivente do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri, testemunhou: “Os milicianos se obstinaram em nos fazer renegar a fé. Separaram os mais moços para seguirem mais à vontade seu plano sinistro. Cada uma de nossas recusas era seguida de torturas.” O irmão Santiago Angel, F.S.C, prisioneiro também, viu passarem as futuras vítimas que os milicianos conduziam para a execução. “Eles se afastavam, escreveu ele25, pacificados, calmos, fortes. Na sua atitude adivinhava-se a têmpera das suas almas, que se lançavam para a morte sublime que lhes era infringida por serem religiosos.”

Quando o cortejo chegou ao local de execução, o Pe. Avelino Rodriguez, provincial dos Agostinianos, pediu aos milicianos que lhe deixassem se despedir de seus confrades e lhes absolver. Isso foi-lhe concedido. Ele abraçou um a um os seus companheiros de suplício que, de joelhos, receberam a absolvição, em seguida, clamou26: “Sabemos que nos matam por sermos católicos, padres ou religiosos. Nós vos perdoamos de todo coração. Viva Cristo Rei! Viva a Espanha!”

 

— Antonio Molle Lazo27

Antonio Molle Lazo trabalhava na estação de Xérès (antigo nome de Jerez de la Frontera), cidade com uns cem mil habitantes. Sua caridade inesgotável e a distinção de suas maneiras lhe granjearam a simpatia de seus colegas. Os socialistas, contudo, conseguiram do governo a dispensa de todos os que não partilhassem das suas idéias.

Sem se desconcertar, Antonio procurou trabalho em outra parte. Estudou a organização e os métodos dos seus adversários, exprimindo sua dor ao ver os inimigos de Deus demonstrando mais entusiasmo na busca de seu ideal de ódio do que certos católicos na defesa da Religião: “Os socialistas, tão numerosos, e nós, católicos, tão poucos! Que vergonha!” dizia ele. No entanto, redobrando a coragem, instava seus colegas a se confessarem e a comungarem aos domingos.

A todos os que se escusavam alegando, seja a distância, seja as vexações dos adversários, ele respondia: “Não é longe até Xérès… se nos jogarem pedras, que mal pode nos fazer? É preciso sofrer algo por Jesus Cristo, talvez nosso exemplo conduzirá outros até a santa mesa […] e nós teremos esse ganho!” Quando foi pego pelos vermelhos, eles quiseram obrigá-lo a gritar: “Viva o comunismo!”

— Viva Cristo Rei, foi a sua resposta.

Cortaram-lhe uma orelha.

— Blasfeme o nome de Deus.

— Não. Viva Cristo Rei!

Cortaram-lhe a outra orelha.

— Blasfema!

— Jamais!

Cortaram-lhe o nariz.

— Viva Cristo Rei!

Sem conseguir alcançar o seu fim, e não podendo suportar o seu olhar límpido, furaram-lhe os olhos. Cortaram várias vezes a sua língua, mas ele gritava:

“Viva Cristo Rei! Podem me matar, mas Cristo triunfará!”

Estendendo os braços em forma de cruz, ele mesmo deu a ordem de sua execução, gritando: “Viva Cristo Rei”.

 

Conclusão

Há uma corrente de satanismo na história, paralela ao catolicismo e em perpétua luta contra ele.

Esse ódio misterioso é de uma essência diferente e superior a todos os demais ódios que encontramos ao longo da história, que, por ferozes e culpáveis que sejam, movem-se sempre por razões estritamente humanas, tais como a inveja, o orgulho, o rancor, a vingança. Não tem esse caráter permanente, não se relacionam sempre com um mesmo objeto que, por sua vez, jamais lhe deu causa, segundo a palavra mesma de Cristo: “Odiaram-me sem motivo”.

Pelo fato de os demais ódios se relacionarem a algo determinado e preciso, a causas tangíveis cujo peso corresponde ao do efeito, eles não têm esse caráter assustador de um surto de histeria que faz pensar imediatamente, queiram ou não, na possessão demoníaca. Cristo a definiu com estas palavras: “Essa é a vossa hora, e o poder das trevas.” O ódio ao catolicismo tem em si um elemento que ultrapassa a razão e está fora do ponderável, corresponde a uma crise misteriosa cujo campo não é o corpo, mas o espírito28.

Malynski descreve assim a guerra que se desenrolou sobre o solo espanhol, uma luta que ultrapassa largamente as fronteiras desse país. “É uma etapa nova e talvez decisiva da luta entabulada entre a Revolução e a Ordem”, “uma luta internacional em um campo de batalha nacional; o comunismo produziu na península uma batalha formidável da qual dependeu a sorte da Europa”, pode-se escrever de modo muito apropriado. O povo espanhol foi “enfeitiçado por uma doutrina de demônios”, pois “é impossível pretender que entre o clero católico e a alma popular tenha havido divergências ou a menor oposição. A alma popular, consciência imanente da tradição e continuação histórica do passado, certamente não tem nada em comum com a agitação plebéia nem com os sindicatos de terroristas.” Esse ódio à religião e às tradições patrióticas veio da Rússia e enganou o povo espanhol. Para prová-lo, no momento de morrer, condenados pela lei, os comunistas espanhóis em sua maioria se reconciliaram com o Deus de seus pais. Menos de 20% morreram na impenitência final nas regiões do norte e menos de 10% nas regiões do sul29.

Mas essa destruição sistemática de tudo o que constituía o patrimônio religioso e cultural da Espanha fez florescer toda uma falange de mártires.

 

Ah! Muitos se figuram que seus pés marcharão ao céu por um caminho fácil e complacente.

Mas, de repente, eis a questão apresentada, eis a intimação e o martírio!

O céu e o inferno foi posto nas nossas mãos, e temos quarenta segundos para escolher.

Quarenta segundos? É demasiado! Espanha irmã, Espanha santa: tu já escolheste.

Onze bispos, dezesseis mil sacerdotes assassinados e nenhuma apostasia sequer.

[…] A terra concebeu nas suas profundas entranhas, e a Retomada já começou.

[…] E tudo, quando foi derramado, os anjos respeitosamente recolheram e transportaram para o interior do Véu! 30

 

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, tradução: Permanência)

  1. 1. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne.
  2. 2. Esse fato foi relatado num artigo de La Croix dos anos 1930, citado em Ir. A. Joaquin, Nos Martyres d’Espagne, F.S.C., Ed. Saint-Rémy, 2008, p. 25.
  3. 3. Cardeal Segura, carta pastoral de 31 de maio de 1931; citado por Lucien Thomas, L’Action Française devant l ‘Église, p. 29; Cf. Gustavo Corção, Le siècle de l’enfer, Ed. Sainte Madeleine, 1995, p. 292.
  4. 4. Arnaud Imaz, La guerre d’Espagne revisitée, Economica, 1993, p. 11.
  5. 5. Le Nouvelliste de Lyon, 23-X-1936, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 28.
  6. 6. Associação internacional que agrupava trabalhadores para ações de transformação da sociedade. A 1a. Internacional, fundada em Londres em 1864, desapareceu após 1876 por causa da oposição entre marxistas e anarquistas. A 2a. foi fundada em Paris em 1889 e se manteve fiel à social-democracia, e desapareceu em 1923. A 3a. Internacional comunista, ou Kominterm, fundada em Moscou em 1919  reúne ao redor da Rússia Soviética, e depois, da URSS, a maior parte dos partidos comunistas. Ela foi suprimida em 1943 por Stalin.  
  7. 7. (1919-1943). Ele representa durante a primeira parte do século XX, em escala internacional, o movimento comunista alinhado com a URSS. Era dirigido pelo Partido comunista da União Soviética.
  8. 8. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  9. 9. O general W.G. Krivitsky era, na época, chefe do departamento de informação soviético na Europa Ocidental.
  10. 10. Trecho de Lecture et Tradition no. 271.
  11. 11. Cf. Ministerio de Justicia, La dominación roja en España, Causa general, Madr, 1943. Citado em La guerre d’Espagne revisitée, Arnaud Imatz, Economica, 1993, p. 47.
  12. 12. Segundo nome da polícia de Estado da União Soviética entre 1922 e 1934. Constituída a partir da Tcheka.
  13. 13. Terceiro nome da polícia de Estado da União Soviética, entre 1934 e 1946. Sucedeu ao GPU.
  14. 14. Cf. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964; o autor relata muitas atrocidades cometidas pelos vermelhos, das quais foi testemunha ocular. Cf. Lecture et Tradition no. 271 que publicou trechos do livro.
  15. 15. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  16. 16. La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  17. 17. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964, citado em Lecture et Tradition no. 271, p. 17.
  18. 18. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  19. 19. Conforme La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  20. 20. Conforme o livro do Pe. Calasanz BAU, S. P., Rapport présenté à la Sacré Congrégation des rites en vue de la béatification et canonisation des Serviteurs de Dieu massacrés en Espagne, Roma, 1953, p. 641, 507 e 654, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 35.
  21. 21. O “levante" espanhol do qual Franco tomou a direção em 1936.
  22. 22. Sobre a história da resistência do Alcazar, ler o relato de Brasillach, Les cades de l’Alcazar, 1936, Plon.
  23. 23. Pelayo, La Vanguardia, 23 de março de 197, p. 47. Citado em Lecture et Tradition no. 269-270.
  24. 24. José Maria Salaverri, Morts pour le Christ, S.M., D.F.R., 2007.
  25. 25. Los Hermanos de las Escuelas Cristianas en el Movimiento Nacional, Ed. Buflo, Marqués de Mondéjar, 32, Madrid.
  26. 26. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  27. 27. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  28. 28. Malynski, La guerre occulte, citado por Léon de Poncins, Contre révolution, abril de 1939 (Lecture et Tradition no. 271).
  29. 29. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  30. 30. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne. Tradução literal.

A guerra dos cristeros

M.J.C.F.

Há pouco mais de oitenta anos, o povo católico mexicano, perseguido por causa da fé, pegava em armas para a defesa de Cristo Rei. Assinava com o seu sangue o texto Quas Primas (1925) de Pio XI sobre a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Praticamente ausente dos livros de história e dos arquivos do Vaticano, essa segunda Vendéia militar é, no entanto, muito rica em ensinamentos e exemplos, como se verá a seguir.

 

1. ”Pobre méxico, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"1

 

1.1 As primícias do conflito

Evangelizado no século XVI pelos espanhóis, o México conquistou a independência em 1821. O século XIX foi marcado por uma permanente instabilidade: guerras civis, ditaduras, golpes de Estado, revoluções. Após a ditadura de Dom Porfírio Diaz, que redundou em um tempo de paz entre 1876 e 1910, chegaram ao poder os protestantes, os maçons e os marxistas vindos do norte do país. “Aos seus olhos, o protestantismo explicava o sucesso norte-americano, de molde que eles retomaram o libelo anglo-saxão contra o passado hispânico e colonial do México: o velho México era degenerado por causa dos índios e dos padres, e a salvação dependia dos homens da fronteira do norte, que trariam a civilização” 2, explica Jean Meyer. “O conflito com a Igreja era inevitável, na medida em que a nação, como a Igreja Romana, não admitia nada acima dela.” Os dirigentes envidaram esforços para esmagar toda oposição ao Estado centralizador. Em 1917 foi instituída uma Constituição revolucionária que proclamou a ditadura suprema do Estado. Todos os corpos intermediários tornaram-se ilegais, especialmente os sindicatos católicos. Os dirigentes podiam dizer como o general J.B. Vargas aos católicos: “Aceitaria de bom grado a vossa seita católica se fosse nacional, se nomeassem um papa mexicano.”

Muitos artigos antirreligiosos foram proclamados na Constituição, mas o presidente Obregon não ousou aplicar essas leis em todo o território, limitando-se às regiões menos católicas:

  • O artigo 3º impunha a secularização do ensino;
  • O artigo 5º proibia as ordens monásticas;
  • O artigo 24 proibia o exercício do culto fora das igrejas;
  • O artigo 27 restringia o direito das organizações religiosas à propriedade;
  • O artigo 130 atentava contra os direitos cívicos dos membros do clero: os padres perderam o direito de usar o hábito religioso, perderam o direito ao voto, e foram proibidos de comentar quaisquer assuntos públicos nos órgãos da imprensa.

 

1.2. O governo callista

Em 1924 Plutarco Elías Calles chegou ao poder. O general Roberto Cruz dizia a seu respeito: “No governo não havia, já não digo alguém que lhe recusasse obediência ou o enfrentasse, mas simplesmente alguém que resistisse a qualquer uma das suas decisões. Ele era absoluto e resolvia tudo de modo definitivo. Se ditador for aquele que não concebe nada para além da sua vontade, então Calles foi a personificação da ditadura.” 3 “Para alcançar seus objetivos, que eram “ordem e progresso”, estava disposto a tudo e decidido a ser ‘mestre absoluto’. Ele obteve para isso o apoio americano, mostrando-se capaz de pagar o serviço da dívida exterior: os banqueiros americanos, as companhias petrolíferas e os proprietários de bens de capital no México tornaram-se favoráveis a ele.

Para ele, a Igreja era a única causa de todos os males do México e, por isso, devia ser destruída: “Calles é o porta-voz de espanhóis e ibero-americanos que julgam o catolicismo incompatível com o Estado; ele, espírita, frequentador de curandeiros (…) votava à Igreja um ódio mortal." 4

A Constituição foi então aplicada à letra em todo o território. O governo procedeu a um inventário dos bens da Igreja, mandou fechar escolas católicas, expulsou as congregações e proibiu os sindicatos católicos. Ordenou o confisco ou a profanação de numerosas igrejas, que se tornaram estrebarias ou salões de festas, quando não foram destruídas5.

Calles fundou uma igreja nacional mexicana separada de Roma, importou missionários protestantes dos Estados Unidos e financiou a abertura de 200 colégios protestantes. Outras leis anti-católicas foram votadas. Em 1926, a seguinte proclamação foi pregada nas portas de todas as igrejas:

Art. 1o: Todo indivíduo responsável por uma igreja será condenado a uma multa de 50 pesos e a um ano de prisão se os sinos repicarem.

Art. 2o: A todo indivíduo que ensinar seus filhos a rezar será aplicada a mesma pena.

Art. 3o: O mesmo em toda casa onde se encontrar santos.

Art. 4o: O mesmo para toda pessoa que usar insígnias [religiosas]. 

… e assim por diante até o 30o artigo6.

O nome de Deus foi banido do vocabulário: quem tivesse a infelicidade de dizer “adiós” (adeus) ou “si Dios quiere” (se Deus quiser) era punido com multa de 10 pesos (uma fortuna para os camponeses). O povo mexicano, no entanto, mantinha-se fiel à sua fé.

 

1.3. O terror

Calles decidiu então impor as leis antirreligiosas pelo terror. No dia 26 de julho, dois policiais a paisana abateram friamente um comerciante por ter ele afixado na sua lojinha um cartaz com os dizeres: “Viva el Christo Rey!”. Um soldado foi fuzilado de imediato por ter sido surpreendido com uma medalha de Nossa Senhora de Guadalupe.

Os fuzilamentos, as mutilações serviam de exemplo. Após terem sido torturados por toda a noite por soldados, três rapazes foram fuzilados contra o muro da catedral de Colima, à vista de todos. Os prisioneiros eram pendurados em galhos de árvores, nos postes de telégrafo ou ao longo das estradas de ferro. As vítimas assassinadas e as cenas de tortura eram fotografadas ou filmadas para que muitos as vissem.

“Os sacrilégios eram acompanhados de um horror consciente e partilhado entre executantes e espectadores. A temática era comum: igrejas profanadas por oficiais que nelas entravam a cavalo e alimentavam suas montarias com hóstias, transformavam os altares em mesas, os prédios em estrebarias. As estátuas eram fuziladas quando não arrancavam as Virgens para dançarem com elas. Usavam os ornamentos como fantasia e comiam-se as hóstias consagradas e bebia-se café com leite no cálice.” 7

Finalmente, puseram os padres sob o controle do poder civil: eles foram “registrados”. “Os ministros do culto (…) foram postos sob controle judiciário e perderam todos os direitos. Qualquer governador tinha autorização de fixar por decreto o número [de padres] no seu terreno de caça; e de impor o chicote, o exílio ou o presídio aos recalcitrantes.” 8 Certos governadores quiseram obrigar os sacerdotes a se casarem para poderem continuar a oficiar. Foram limitados ao número de um padre para cada 30.000 habitantes no estado de Tabasco, e 140 para um milhão de batizados no estado do México, enquanto lhes esperavam o cárcere, a tortura e a execução.

 

2.  A resistência

2.1. Dos leigos

A resistência dos católicos não se fez esperar. Penitências, peregrinações e orações públicas foram a resposta dos fiéis a todas essas atrocidades. Organizaram-se Imensas procissões, viu-se 15.000 batizados desfilarem, com os pés nus e coroas de espinhos. Essas manifestações eram reprimidas à metralha9.

A ACJM (Associação Católica da Juventude Mexicana) divulgou a seguinte agenda:

Contra o artigo 18o, que versava sobre os delitos em matéria de culto religioso punidos com multa de 500 pesos ou, na ausência, 15 dias de prisão, e sobre o uso de vestes e insígnias religiosas fora do lugar de culto, nós decidimos que o uso de nossa insígnia será obrigatório para todos os membros da ACJM a partir de 31 de julho10.

As associações católicas fizeram petições. Obtiveram 2 milhões de assinaturas num país que possuía 15 milhões de habitantes. O presidente da Câmara dos Deputados, contudo, declarará não ter recebido nada e o governo fechou outras escolas católicas e conventos.

Os fiéis tentaram então o boicote econômico. Eles se privaram de tudo o que era propriedade do Estado: transportes, alimentação, tabaco, espetáculos. Num país de grande maioria católica, esse boicote representa um grande golpe nos negócios do Estado, que acusaram uma queda de 75%. O banco nacional verá 7 milhões de pesos serem sacados em poucas semanas11. Várias salas de espetáculo tiveram de fechar as portas. Mas o sucesso não durará porque os ricos, que também sofriam as conseqüências econômicas, não querem participar. “Católicos ou não, os ricos tinham horror ao boicote.” 12

 

2.2 Dos bispos

Quanto ao episcopado mexicano, ele procura um acordo com o governo. Enquanto pediam paciência aos fiéis, apresenta propostas para a revisão das leis.

“O governo mexicano, em razão de sua hostilidade agressiva, representava um grave problema à Igreja, que tinha por fim transformá-lo, a longo prazo, num regime benevolente. (…) A política que o Vaticano conduz em escala mundial [visa a] garantir à Igreja católica as melhores possibilidades de expansão. (…) Nessa perspectiva, Roma fez tudo para evitar a crise de 1926-1929, multiplicou as demonstrações de boa vontade e, finalmente, impôs a paz de 1929.”

Mas o governo não cedeu às demandas dos bispos. O Papa Pio XI interveio por um telegrama dirigido ao comitê episcopal mexicano: “A Santa Sé condena a lei bem como todo ato que possa significar ou ser interpretado pelo povo fiel como aceitação ou reconhecimento da lei mencionada” 13 (a do registro dos padres, cf. 1.3). Calles considerou isso uma rebelião e ainda agravou as medidas de repressão.

Os bispos decidiram então suspender o culto público a partir de 31 de julho. Já não haveria missas nem sacramentos nas igrejas em todo o território. Por que uma decisão dessas? Os bispos esperavam viver nas catacumbas? Como o culto público havia se tornado impossível, essa decisão seria muito corajosa se permitisse que os padres continuassem a celebrar os sacramentos junto ao povo mexicano, que já escondia espontaneamente os padres. Mas a hierarquia ordenou aos sacerdotes  reagruparem-se nas cidades e rezarem missas em capelas privadas. Ela buscava contemporizar para poder continuar as negociações com o governo.

Todos os católicos passaram seus últimos dias de liberdade aos pés do altar:

“A gente começava a vir aliviar a consciência, conquanto fosse tempo de trabalhar nos campos; a cada dia que passava aumentava na cidade a pressa de todos os camponeses que desciam de lugarejos vizinhos; em todos os peitos se percebia a angústia, os rostos estavam pálidos e os olhos cheios de tristeza. Na paróquia de Tlanltenango havia três padres, mas não bastaram para confessar tanta gente, não tinham tempo nem lazer sequer para poder comer e passavam o dia todo, do amanhecer até tarde da noite, sentados nos confessionários, mas não conseguiam confessar todo mundo.” 14

 

3. A resistência armada

No dia 31 de julho, as igrejas foram fechadas, como previsto. O povo mexicano, que suportara tudo, iniciou uma cruzada porque se viu privado de sacramentos. Após ter esgotado todos os meios pacíficos de negociação, pegou em armas para a defesa de Cristo Rei ao lado de alguns poucos padres (apenas duzentos de um total 3.500 ficaram com seus fiéis) e um bispo15 (de trinta e oito).

 

3.1. As primeiras insurreições

“Ignoro quais foram exatamente os motivos que levaram os católicos de Villa Hidalgo a se levantarem, mas na origem de tudo houve a vinda de tropas federais e o ódio com que cometeram um grande sacrilégio: os oficiais penetraram a igreja, abriram o tabernáculo, jogaram no chão as espécies consagradas antes de calcarem-nas aos pés; em seguida, lançaram milho sobre o altar para dar de comer aos cavalos.” 16

Por toda parte em que a fé foi atacada, os católicos passaram à ofensiva. “Em Santiago Bayacora, no estado de Durango, três funcionários federais vieram fazer o inventário da igreja. Foram recebidos com pedradas e tiveram de fugir. Duzentos homens armados com velhos fuzis deixaram imediatamente a cidade para evitar o cerco e partiram para cima do inimigo. O primeiro confronto se deu no meio da campo, por volta de meio-dia. Foi uma matança terrível do lado dos federais, que abandonaram o local deixando grande quantidade de cadáveres, armas e munições. Duas horas mais tarde, uma nova coluna federal foi desfeita do mesmo modo." 17

Em Pénjamo, Luis Navajo Origel, prefeito da cidade e católico fervoroso, assumiu a frente do motim. Com seus homens, refugiou-se nas montanhas e dali comandou uma guerrilha. Em Durango e no sul do estado de Guanajuato, produziu-se o mesmo cenário. Em Jalisco, sob o comando de René Capistran Garza, presidente da ACJM, as tropas pouco a pouco se fortaleceram e a região se tornou o centro nevrálgico da rebelião.

Tendo iniciado no oeste mexicano, o levante estendeu-se rapidamente até o golfo atlântico.

 

3.2 Os combatentes

Toda a gente ingressou na cruzada com poucas armas e munições, e nenhuma ajuda estrangeira. Mas nem coragem nem generosidade faltaram a esse povo profundamente católico. A maior parte deles rumou para o combate esperando o martírio. Até as crianças beijavam suas mães dizendo: “Mamacita, não vais querer que eu perca o céu agora que está tão barato, não é?”

José Sanchez tinha 14 anos. Cercado em fevereiro de 1928 pelos federais, cede seu cavalo ao chefe do grupo, que estava ferido, e cobre a sua retirada. A munição acaba e ele é capturado: “Saibam que eu não me rendi”, declarou, “não tenho mais cartuchos, é isso.” Ele é massacrado. No bolso, tinha esse bilhete: “Minha querida mamãe. Fui preso e vão me matar. Estou feliz. A única coisa que me inquieta é que você vai chorar. Não chore, nós nos reencontraremos. José, morto por Cristo Rei.” 18

A alegria nunca está ausente, apesar dos sofrimentos e da abnegação. Alguns são cheios de audácia e de humor, mesmo nas horas mais trágicas.

Tomasino é membro do comitê diretor da ACJM, e prefeito da Congregação de Maria. Depois de preso, prometeram-lhe a liberdade se falasse:

“Os senhores cometeriam um erro, claro, pois uma vez livre continuaria a luta por Cristo Rei. O combate pela liberdade do culto [verdadeiro] não é para nós opcional.

“— Não sabes o que é a morte, moleque!

“— É verdade, nunca me aconteceu de morrer. E o sr., meu general?” 

Em agosto de 1927 foi enforcado, tinha 17 anos de idade19.

Os chamados Cristeros — um termo de desprezo cunhado pelos revolucionários pois eles combatem ao grito de “Viva el Cristo Rey” — não tinham nenhuma nenhuma noção de combate ou de clandestinidade.

Na Cidade do México, em 6 de setembro de 1926, Joaquim de Silva, 28 anos, irrompeu na casa do seu confessor, os olhos brilhavam. Nos seus bolsos estava a sua “bagagem”: uma pistola, cinquenta cartuchos, nove cartas e seu precioso terço.

“Faço questão de não ser um católico medíocre. Parto para unir-me ao exército de Cristo Rei! Peço a bênção do senhor.

“— Vais abandonar a sua mãe e suas irmãs sem sustento?

“— O Senhor cuidará delas. Ademais, elas mesmas me pediram para ir.”

O Pe. Cardoso, apesar da grande inquietação, se deixou vencer e Joaquim da Silva tomou o trem naquela mesma noite em companhia de dois camaradas. No trem, os três aprendizes de Cristeros entabulam conversa com um general aposentado, que carregava uma impressionante bateria de medalhas e escapulários. Joaquim da Silva convidou o general a examinar o plano de guerra. O soldado aceitou juntar-se a eles no bom combate; o encontro é marcado para o dia seguinte. Mas os Cristeros são entregues pelo general e fuzilados sem julgamento. Joaquim despede-se do seu delator nesses termos: “O senhor me entregou à morte. Em troca, eu ofereço minha intercessão em teu favor diante do Pai Onipotente.” 20

As mães não foram excluídas do sacrifício de todo o povo católico. A mãe de Luis Navajo Origel dizia simplesmente: “Eu ofereci a vida de meus quatro filhos a Cristo. Mas o Senhor não quis tantos, só tomou dois”. E aos comissários do governo que vieram confiscar nas suas fazendas suas reservas de trigo: “Meus bons senhores, se permiti que entregassem meu filho à morte por Nosso Senhor Jesus Cristo, como poderia recusar hoje o trigo dos meus campos? Aqui está a chave para entrar nas reservas, confisquem tranquilamente.”

De abril a dezembro, os Cristeros, que não tinham organização nenhuma, eram vencidos assim que se aproximavam das grandes cidades. Confrontavam um exercito federal com cerca de 80.000 homens equipados pelos Estados Unidos com metralhadoras, trator de artilharia e aviões de combate. Os confrontos são verdadeiros massacres, a ponto de o general Jesús Ferreira, comandante em chefe das tropas federais do estado de Jalisco, declarar: “Não partimos para uma campanha, mas para uma caça” 21. Os federais julgam então que a revolta acabara.

 

3.3 A organização da Cristiada

Mas os Cristeros se reagrupam e se organizam. Em 1927, põem-se às ordens de um general em chefe: o general Gorostieta, militar aposentado. Grande estrategista, alcança-lhes muitas vitórias.

No dia 21 de junho de 1927, a brigada feminina de Santa Joana D’Arc (a B.B.) foi criada. Organizada como uma rede secretíssima, mobilizou até 25.000 mulheres cristeras como espiãs, enfermeiras ou para a logística.

“Trata-se em suma de uma organização que, durante dois anos, pôs milhares de mulheres em ação, dia e noite, fazendo a ligação entre a cidade e os campos de batalha." 22

“Algumas delas, possuindo conhecimentos científicos bem superiores aos dos camponeses, cumpriam a função de artífices e de professoras, ensinando os Cristeros a fabricar explosivos, dinamitar os trens, manipular armas de artilharia e detonadores. As B.B. levaram muito a sério sua missão de guerra… Valendo-se de todos os meios, organizavam bailes nas cidades para ganhar a confiança dos militares, despistar as suspeitas e obter informações. […] O cuidado dos feridos escondidos nos povoados ou na cidades incumbia à B.B. bem como a direção dos rudimentares hospitais dos campos de Altos, Colima, Sul de Jalisco e do hospital clandestino de Guadalajara. […] Elas trabalhavam na propaganda e na imprensa clandestina, […] garantiam sobretudo o correio político e militar dos Cristeros e contribuíam na sua rede de informação.” 23

Valendo-se de seu bom conhecimento do terreno, armamentos, munições e dos cavalos subtraídos ao inimigo (em novembro, 40% estavam armados com excelentes Mauser “federais”), os Cristeros ganharam terreno.

Em Puerto Obristo, 600 federais caíram mortos. No dia 1o. de janeiro de 1927, 1.200 homens se insurgiram e controlaram o estado de Durango. “Nosso movimento é firmemente apoiado por toda a população, e os esforços do tirano para impedir o seu crescimento estão votados ao fracasso. Sem contar com nenhuma ajuda estrangeira, em um ano reunimos 40.000 homens armados”, declarou o general Gorostieta a um amigo mexicano24.

No apogeu do seu efetivo, os Cristeros serão 50.000.

O seu general em exercício, Gorostieta, testemunhou a moralidade das suas tropas: “O efetivo é composto de homens de ordem, de uma moralidade absolutamente sem precedentes nas tropas mexicanas. Daí o fracasso do governo, a despeito do apoio estrangeiro, de seu ouro e de suas práticas criminosas.” 25

Os federais buscaram então reunir a população nas cidades. “O Estado-Maior decidiu organizar concentrações, prelúdio necessário às razzias das colunas federais. O princípio era simples: deram o prazo de algumas semanas para que a população civil evacuasse um dado perímetro e viesse a se refugiar numa série de localidades previstas. Passado esse prazo, toda pessoa que se encontrasse numa zona vermelha era executada sem julgamento. As colunas confiscavam a colheita e o gado, incendiavam os pastos e florestas, abatiam à metralha o gado que não pudessem levar no trem.” 26  Não obtiveram, porém, grandes resultados. Em 1929, os Cristeros controlavam três quartos do México habitado. A vitória estava ao alcance das mãos.

 

4. O fim da rebelião

No dia 22 de junho de 1929, a imprensa publicou os “arreglos” ou “acordos”. As negociações secretas entre o governo mexicano e os bispos chegaram na véspera a uma resolução que previa o fim imediato e incondicional dos combates e o reinício do culto público no dia seguinte.  

Não se tratou da modificação ou supressão das leis anti-católicas. Foi mantido até mesmo o registro dos padres. Retornou-se à situação de 1926, sem consideração pelo povo mexicano que, há três anos, dava sua vida pelo retorno de Cristo aos altares… e que estava próximo do sucesso.

Jesus Degollado, general em exercício dos Cristeros, julgou que era preciso se submeter. Ele se dirigiu às suas tropas, com a voz embargada pela dor: “Sua Santidade, o papa, por intermédio do excelentíssimo núncio apostólico, decidiu, por razões que ignoramos mas que, como católicos, aceitamos, que o culto recomece sem que a lei seja alterada… Esse acordo arrancou o que há de mais nobre e santo em nosso estandarte, no momento em que a Igreja se declarou resignada com o que obteve… Em conseqüência, a Guarda nacional assume a responsabilidade do conflito… Enquanto homens, possuímos uma satisfação que ninguém nos poderá tirar: a Guarda Nacional não desaparece vencida por seus inimigos, mas abandonada por aqueles mesmos que seriam os primeiros a receber os frutos de nossos sacrifícios e abnegação! Ave Cristo! Aqueles que, por vós, seguem para a humilhação, para o exílio e, talvez, para uma morte não gloriosa, com o mais acendido amor vos saúdam e, mais uma vez, vos aclamam rei de nossa pátria.” 27

Os 6.000 Cristeros que se submeteram são logo massacrados, 5% da população do México foge para os Estados Unidos, para o deserto ou para a cidade grande. A maioria dos combatentes, no entanto, retomou suas ocupações civis sem se esconder. Foram estrangulados em casa, esfaqueados nos campos, fuzilados na saída da Missa, diante do povoado reunido. Até 1941 houve quem morresse nos campos mexicanos pelo singular crime de Cristiada. De 1926 a 1929, os católicos não haviam perdido mais do que 5.000 homens.

 

CONCLUSÃO

À revolução dos federais, com seu cortejo de violências, pilhagens ou destruição (o seu grito de guerra era “Viva el demonio”) contrapôs-se o fervor e a moralidade irretocável dos combatentes de Cristo Rei. A ordem do dia de um dos seus generais era a seguinte: “Não buscamos nem honrarias, nem ouro, nem imóveis, trabalhamos pelo reinado de Cristo e é por Ele que lutaremos até a vitória ou até a morte. Pouco importa se sucumbirmos, é preciso que o sangue dos católicos lave o México de suas enormes máculas. Portemo-nos como dignos soldados de Cristo.” 28

Luis Navajo Origel, declarou: “Matarei por Cristo os que matam Cristo, e talvez venha morrer por Ele, que tanto preciso disso; eu oferecerei o sangue da Redenção.” Ele caiu morto à frente da sua tropa em 10 de agosto de 1928, tinha 30 anos.

Manuel Bonilla, estudante, escreveu no seu diário de guerra: “Eu bem sei que, para as grandes coisas, Deus se serve dos pequeninos e que o remédio não vem de onde se espera… Confio na bondade de Deus: todos esses sacrifícios não serão em vão.” 29

Abandonado por todos, o povo católico mexicano aceitou a terrível provação das perseguições com espírito de reparação. Seu único apoio: a fé em Cristo Rei e Nossa Senhora de Guadalupe.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF. Tradução: Permanência)

  1. 1. Dito mexicano.
  2. 2. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 298-299.
  3. 3. J. Meyer, op. cit., p. 141.
  4. 4. J. Meyer, op. cit., p. 167.
  5. 5. Conforme H. Keraly, op. cit, p. 31 a 36.
  6. 6. Testemunho de Dom Francisco Campos, Santiago Bayacora, Estado de Durango, citado por Keraly, op. cit., p. 33-34.
  7. 7. J. Meyer, La cristiade, l’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit, p. 162.
  8. 8. H. Keraly, op. cit., p. 46.
  9. 9. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  10. 10. A. Rius Facius, Mejico Cristero, Ed. Patria, Mexico, 1966, citado por H. Keraly, p. 62.
  11. 11. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  12. 12. J. Meyer, La cristiade, L’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit., p. 62.
  13. 13. H. Keraly, op. cit., p. 39.
  14. 14. J. Meyer, Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, p. 54-55.
  15. 15. José de Jesus Manriquez y Zarate foi aprisionado e em seguida exilado por 17 anos.
  16. 16. Depoimento de Clemente Pedroza a Jean Meyer, H. Keraly, op. cit., p. 73.
  17. 17. H. Keraly, op. cit., p. 78.
  18. 18. Cf. Rius Facius, op. cit., Ed. Patria, Mexico, 1966, em H. Keraly, op. cit., p. 71.
  19. 19. H. Keraly, op. cit., p. 70.
  20. 20. Cf. Rius Facius, op. cit., em Keraly, p. 66.
  21. 21. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 170.
  22. 22. J. Meyer, La christiade, L’Église et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por Keraly, p. 105.
  23. 23. J. Meyer, op. cit, citado por Keraly, p. 119.
  24. 24. Miguel Augustin Pro, carta de 30 de maio de 1929, Ed. Tradicion, Mexico, 1976, p. 461-462, citada por H. Keraly, op cit., p. 151.
  25. 25. Miguel Augustin Pro, p. 461-462, citado por H. Keraly, p. 151.
  26. 26. J. Meyer. Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, citado por H. Keraly, op. cit., p. 155.
  27. 27. Rius Facius, op. cit., p. 391-392, citado em H. Keraly, op. cit., p. 193.
  28. 28. Ordem do dia do general Ochoa, morto carbonizado no dia 13 de novembro de 1927, devido à explosão de uma bomba incendiária, conforme Joachim Blanco Gil, El clamor de la sangre, Ed. Jus, Mexico 1967.
  29. 29. Conforme Joachim Blanco Gil, op. cit.

A cruzada albigense (parte III)

Esse texto foi extraído da obra apologética de Jean Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie (Beauchesne Editions, 1912). Jean Guiraud desmantela, parte por parte, os falsos argumentos do anticlericalismo, dedicando um capítulo ao tema da Cruzada contra os Albigenses. Na primeira parte, resumiu os argumentos dos anticlericais e mostrou suas contradições. Na segunda e na terceira parte, examina a doutrina dos albigenses.]

 

Após analisar a moralidade do albigensianismo e sua negação do casamento, devemos tomar nota de sua licenciosidade fundamental e sua rejeição da família.

 

Casamento e libertinismo

Os hereges tinham tanta aversão ao casamento que chegaram ao ponto de declarar que o libertinismo era preferível a ele e que era mais grave “praticar o ato carnal com a própria esposa do que com outra mulher”.

E isso não era nenhuma brincadeira, pois davam a essa opinião uma justificativa em perfeita concordância com seus princípios. Frequentemente ocorre -- diziam eles -- de um homem ter vergonha de seus pecados; desse modo, ao pecar, o faz em segredo. Portanto, sempre é possível que venha a se arrepender e a cessar o pecado; por essa razão, o libertinismo é quase sempre oculto e temporário.

Ao contrário, o que é particularmente grave no estado de casamento, é que não se tem vergonha dele e que não se pensa em abandoná-lo, pois não se suspeita do mal que é praticado dentro dele. Isso explica a condescendência estranha que os “Perfeitos” demonstravam com as desordens de seus seguidores.

Eles mesmos faziam profissão de castidade perpétua, fugindo com horror da mínima ocasião de impureza; e, ainda assim, aceitavam as concubinas dos crentes na sua sociedade e as deixavam participar dos ritos mais sagrados, mesmo quando não tinham intenção de emendar suas vidas.

Os crentes mesmos não tinham problemas em manter suas amantes enquanto aceitavam o direcionamento dos "Perfeitos". Entre os crentes que, por volta de 1240, compareceram à pregação de Bertrand Marty em Montségur, podemos distinguir vários falsos casais: “Guillelma Calveta, amante de Pierre Vitalis, Willelmus Raimundi de Roqua e Arnauda, sua amante, Pierre Aura e Boneta e o amante de sua esposa, Raimunda, amante de Othon de Massabrac”

Essas concubinas e bastardos, que aparecem tão frequentemente nas assembleias cátaras, foram a causa desses hereges serem acusados da torpeza mais imunda. Dizia-se que suas rigorosas doutrinas eram apenas uma máscara, debaixo da qual os piores excessos estavam escondidos. Gauthier e Deschamps fazem eco dessas acusação quando apresentam os albigenses como um povo simples, de moral pacífica e não austera.

Por outro lado, é certo que as populações, com muita frequência, deixavam-se seduzir pela impressão de austeridade que os "Perfeitos" lhes transmitiam, e isso é mencionado por Aulard e Debidour, Rogie e Despiques quando falam da pura moral desses hereges.

É fácil resolver essa aparente contradição lembrando que havia dois tipos de albigenses: os crentes, que simpatizavam com as doutrinas cátaras e não estavam totalmente sob sua influência; e os "Perfeitos", que aderiam integralmente a ela e praticavam-na em suas prescrições.

Enquanto os crentes não tivessem recebido a iniciação completa, se fosse necessário, poderiam viver com uma mulher, porém fora do laço do casamento. Qualquer ato sexual era indubitavelmente mau, mas a coabitação poderia ser tolerada, jamais o casamento, pois, se acontecesse uma iniciação completa, seria mais fácil romper um laço ilegal.

 

Negação da família.

Desnecessário aprofundar-se nas consequências antissociais de tal doutrina. Ela visava, nada mais nada menos, que a supressão do elemento essencial de toda a sociedade, a família, ao tornar toda a humanidade numa vasta congregação religiosa sem recrutamento e sem futuro.

Embora aguardando o advento desse estado de coisas, que deveria emergir do triunfo das ideias cátaras, os "Perfeitos", gradativamente, quebraram, como resultado do progresso de seu apostolado, os laços familiares já formados.

Se quisessem ser salvo, antes de se submeter à lei de castidade rigorosa, o marido devia abandonar a esposa, a esposa, o marido, os pais deviam abandonar os filhos, fugindo de um lar que lhes inspirava apenas horror, pois a heresia lhes ensinava “que ninguém pode ser salvo mantendo-se em companhia de seu pai e de sua mãe”. E, portanto, toda moralidade doméstica desaparecia, juntamente com a família, que era sua raison d’être.

Esse ódio da família era, além disso, entre os albigenses, apenas uma forma particular de sua aversão a tudo que fosse estranho à sua seita. Eles se abstinham de relações com todos que não pensassem do mesmo modo que eles, exceto quando julgavam possível conquistá-los às suas doutrinas, e faziam as mesmas recomendações aos crentes.

No dia do exame de consciência ou apparelhamentum, que acontecia todo mês, exigiam dos crentes um relato severo das relações que haviam mantido com os infiéis. E isso é compreensível: eles só tinham como homem aquele que, como eles, havia se tornado, pelo consolamentum, um filho de Deus.

Quanto aos outros, que haviam permanecido no mundo mau, eles, de algum modo, pertenciam a outra raça e eram estranhos, para não dizer inimigos.

(Continua)

"Um escritor irlandês e apóstolo de Cristo Rei" - nota biográfica do Pe. Denis Fahey

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

 

Em 3 de julho de 1883, veio ao mundo o homem que muitos consideram o Apóstolo do século XX para o Reinado Social de Cristo Rei, o Pe. Denis Fahey, nascido de uma família católica irlandesa verdadeiramente devota e num ambiente ― Golden, Condado de Tipperary ― repleto dos valores da verdadeira Fé. Em sua infância, certamente ouviu muitos relatos dos sofrimentos de seus ancestrais pela Fé católica, num passado não muito distante. Denis Fahey entrou na Congregação do Espírito Santo, que o desenvolveu em seus anos de formação.

 

A formação de um Apóstolo

Enviado para estudar em Roma, sua aguda inteligência floresceu; porém, mais importante ainda, sua fé na Igreja Católica como Corpo Místico de Cristo se aprofundou. O estudo da história, vista do ponto de vista da Fé, “que lança uma nova luz sobre tudo”, mostrou a Fahey o verdadeiro significado do mundo e do homem. Deus sabe bem como o homem deve funcionar. O homem só pode alcançar paz na Terra e felicidade eterna no Céu ao viver como Deus quis que vivesse como indivíduo e cidadão.

O secularismo, conforme definido no Webster’s Dictionary, propõe que a conduta moral deve ser determinada exclusivamente em vista do bem-estar social. É uma visão da vida baseada na premissa de que a religião e considerações sobre Deus e a vida futura devem ser excluídas. Seu outro nome é naturalismo, tão perigoso para as almas. Em seu livro The Kingship of Christ and Organized Naturalism,[1] o Pe. Fahey cita o Cardeal Pie: “Por onde quer que o sopro do naturalismo tenha passado, a própria fonte da vida cristã ressecou.” Não pode haver ilustração mais clara dessa verdade do que a agenda secular promovendo leis que introduziram o divórcio, o aborto e a sodomia em quase todos os países do Ocidente.

Trata-se do imemorial conflito entre Luz e Trevas, Bem e Mal, Cristianismo e Paganismo. O Pe. Fahey anteviu-o e lutou durante toda a sua vida para repelir o ataque a Cristo e à sua Igreja. Certa vez, numa palestra para os estudantes do Espírito Santo, comentando alguns ataques escandalosos que sofria da mídia, declarou: “Eu só disse o que ficaria feliz em dizer no Julgamento”. Esse destemido defensor dos direitos de Deus sabia ter bom humor. Seus estudantes têm carinhosas lembranças de seu mestre:

“Foi como professor de filosofia que a maioria de nós encontrou o Padre Fahey pela primeira vez. Sentíamos que estávamos diante de alguém que era grande porque era bom ― bom com a bondade de Deus. Tinha um raro senso de humor que se expressava freqüentemente com tiradas sobre si mesmo, mas nunca sobre os outros. Estava acostumado a receber muita correspondência da Inglaterra e dos Estados Unidos, grande parte dela de não-católicos, escritores de várias áreas da ciência social, que buscavam seu conselho e crítica. Certo dia, segurando um maço de tal correspondência, observou com sua voz aguda: ‘Eles dizem que o Padre Fahey tem uma abelha no boné,[2] mas agora vêm todos procurando por mel!!’”

 

Firme pelo reinado de Cristo

Porque não aprovou o Artigo 44 da Constituição irlandesa de 1937, foi chamado de “antipatriótico” por muitos.[3] Mas, assinalando que sua desaprovação fluía dos princípios da doutrina social católica tão inevitavelmente quanto a água jorrava de uma fonte, o Pe. Fahey explicava: “Os papas colocaram a premissa maior, o Artigo 44 colocou a premissa menor ― e todos vieram em cima de mim porque tirei a conclusão!” O humor da situação era o humor de alguém versado em lógica. Como padre irlandês, entretanto, percebeu muito perspicazmente a infidelidade a Cristo contida no Artigo 44. Isso assombrava suas horas de vigília e perturbava seus breves momentos de repouso.

Profundamente irlandês como era, o Pe. Fahey tinha carinho por suas raízes em Tipperary. Os moradores locais falavam com afeto e orgulho justificado do “Padre Denis”. Seus sermões aos domingos, durante suas estadias temporárias em sua paróquia de origem, eram ansiosamente aguardados. Conhecia sua audiência e talvez por isso um de seus ouvintes pudesse prestar-lhe uma homenagem e fazer, ao mesmo tempo, uma importante distinção: “É um homem de Tipperary, o Padre Denis, e o hurling[4] está no seu sangue. Ele nunca nos atrasa no domingo da final em Munster[5] e não se incomoda em pedalar 25 milhas para estar, ele mesmo, presente lá!”

Forçado a escrever sua defesa, o Pe. Fahey nos dá uma visão interessante e reveladora sobre seus dias de estudante em Roma durante o pontificado de São Pio X:

“Estando em Roma, comecei a me dar conta mais plenamente do significado real da história do mundo como narrativa da aceitação e da rejeição do programa de Nosso Senhor para a ordem social. Costumava pedir permissão para ficar na Capela da Confissão[6] enquanto os outros estudantes iam passear pela Basílica. Gastava tempo lá percorrendo a história do mundo e prometia repetidamente a São Pedro que se eu tivesse a chance, ensinaria a verdade sobre o seu Mestre da forma como ele e seus sucessores, os romanos pontífices, queriam que fosse feito. Isso é o que tenho me esforçado para fazer e o que estou fazendo.”

Apesar de seus escritos serem, à primeira vista, tão variados, indo desde um tratado sobre oração mental até um livro sobre dinheiro, há continuidade e consistência entre eles. Desaprovou o Artigo 44 porque este não podia ser reconciliado com o ensinamento tradicional dos soberanos pontífices sobre os Direitos Sociais de Cristo Rei. Opôs-se à maçonaria porque esta sustentava uma oposição organizada e insidiosa à influência do Corpo Místico na sociedade. Expunha e deplorava as maquinações das Finanças Internacionais como uma perversão da ordem divina. Dinheiro nas mãos de uma pequena mas poderosa minoria, em vez de estar a serviço de uma vida familiar próspera, significava impor a milhões de pessoas condições iníquas e hostis à vida da Graça.

Além de seus deveres de sacerdote, professor e escritor, o Pe. Fahey engajou-se em considerável “ativismo”. Fundou a Maria Duce [“Com Maria Nossa Líder”], uma organização composta por clérigos e leigos de mentalidade semelhante, cujo propósito era combater o marxismo cultural que começava a se infiltrar e corromper a vida irlandesa. Detestada por modernistas até hoje, a Maria Duce empreendeu ações concretas para organizar protestos, petições políticas e para distribuir material escrito. Seu periódico mais incisivo, Fiat, dava nome aos bois e mantinha registros daqueles que buscavam poluir e destruir a vida tradicional irlandesa.

 

Desafiando a mídia em nome da Verdade

Por causa de seus livros, o Pe. Fahey ganhou seguidores internacionais, especialmente nos Estados Unidos, onde sua obra recebeu notoriedade por meio de sua associação com o Pe. Charles Coughlin, apresentador de rádio, que freqüentemente citava passagens de livros do Pe. Fahey em suas transmissões e nas páginas de sua publicação, Social Justice. Apesar de Pe. Coughlin ter interrompido seu popular programa de rádio em 1942 (mesmo ano, por coincidência, em que Pe. Fahey iniciou a Maria Duce), principalmente por causa de pressões das autoridades da Igreja devido a suas críticas à Administração Roosevelt e a seu suposto “anti-semitismo”, o Pe. Fahey continuou suas atividades mesmo com a crescente frieza dos eclesiásticos irlandeses em relação a seus empreendimentos.

Pe. Fahey entendeu melhor do que a maioria como o cinema, a televisão, o rádio, a música e a indústria gráfica eram usados pelos inimigos de Cristo Rei para subverter a sociedade. Valendo-se da Maria Duce, procurou enfrentar e se opor a esses meios de comunicação de massa. Seria quase impossível negar que a revolução cultural que varreu o Ocidente durante os anos 60 tenha sido produzida, em grande medida, pelas forças que controlavam a mídia. Esta, pela metade do século XX, já teria se tornado tão importante na formação da opinião, valores e costumes públicos quanto escolas, igrejas, academia e governos. Foram luminares como o Pe. Fahey e os papas pré-Vaticano II que entenderam e combateram o que estava acontecendo em sua própria época. Infelizmente, aquele combate se ausentou dos corações e mentes de muitos ocidentais que abandonaram a defesa de sua sociedade contra a investida dos marxistas culturais.

Ao examinar esses feitos, pode-se ficar tentado a pensar no Pe. Fahey como o perpétuo oponente, condenando isto, deplorando aquilo. Um estudo cuidadoso do homem e de seu ensinamento revela a lógica daquela oposição, a saber, sua inabalável lealdade a Cristo. Talvez sua maior desvantagem, humanamente falando, tenha sido sua sabedoria. Ele sabia demais! Alguns achavam que era anormal. Certo dia, ouviram-no dizer a respeito de um ataque recente: “Tenho estudado o problema por 40 anos e acontece que é possível que eu esteja certo apesar de tudo.” Havia se dado conta intimamente e quase visceralmente de que as idéias determinam o curso da história. Assim, penetrava sem esforço através da cortina de fumaça da propaganda política e via Satanás manobrando seus agentes para mais um ataque à vida divina da Graça.

 

O que podemos aprender com seu exemplo?

O que católicos tradicionais podem aprender com esse herói? Enquanto a Igreja pós-conciliar apresenta Cristo erroneamente como alguém “água-com-açúcar”, a Sagrada Escritura O revela freqüentemente como uma figura combativa. Seguindo os passos de seu divino Mestre, o Pe. Fahey era um lutador. Enquanto o mundo e mesmo homens da Igreja o contradiziam, ele continuava a batalha. Para ele, a idéia de ceder, sejam lá quais fossem as propostas sedutoras oferecidas, era anátema.

O Pe. Fahey entendia que, se Cristo não fosse o Rei dos corações, mentes e sociedades criadas pelo homem, a humanidade estaria, no fim das contas, condenada. Afligia-se por sua amada Irlanda ao vê-la afastar-se mais e mais da antiga Fé, e alertava que, se uma reversão espiritual não acontecesse, seus compatriotas seriam varridos pelas convulsões culturais que sobreviriam. O lamentável estado do catolicismo hoje na Ilha da Esmeralda só demonstra o quanto o padre estava certo. Hoje em dia, os que esperam fazer mais uma vez do ideal de Cristo Rei o caráter governante da sociedade precisam assumir a mentalidade do infatigável Pe. Fahey. Isso também exige que aprendamos esses princípios católicos e os defendamos como as muralhas da cidade.

(The Angelus, 447. Tradução: Permanência)

 

[1] “O Reino de Cristo e o Naturalismo Organizado”, obra não publicada em português. [N. do T.]

[2] “a bee in his bonnet”, expressão que significa que alguém fala sem parar sobre um assunto que considera muito importante. [N. do T.]

[3] No Artigo 44 da Constituição irlandesa de 1937, o Estado reconhecia uma indefinida “posição especial” da Igreja Católica “como guardiã da Fé professada pela grande maioria dos cidadãos”, mas reconhecia também “a Igreja da Irlanda, a Igreja Presbiteriana da Irlanda, a Igreja Metodista da Irlanda, a Sociedade Religiosa de Amigos na Irlanda, assim como as Congregações Judias e outras denominações religiosas existentes na Irlanda”. [N. do T.]

[4] Hurling é o esporte nacional da Irlanda, parecido com o hockey. [N. do T.]

[5] Geralmente no segundo domingo de julho. [N. do T.]

[6] Localizada no coração da Basílica de São Pedro, sob o altar-mor. [N. do T.]

A cruzada albigense (parte II)

Esse texto foi extraído da obra apologética de Jean Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie (Beauchesne Editions, 1912). Jean Guiraud desmantela, parte por parte, os falsos argumentos do anticlericalismo. O primeiro artigo resumiu os argumentos dos anticlericais e mostrou suas contradições. O segundo examina a doutrina dos albigenses.

 

Hostilidade com o Cristianismo

De suas doutrinas metafísicas e teológicas, [extraímos que] os albigenses praticavam uma moralidade em oposição formal à moralidade cristã, e Aulard e Debidour estão grosseiramente errados quando nos apresentam suas pretensões como sendo um desejo de “trazer de volta a moralidade cristã à pureza perfeita”; na realidade, suas ideias morais eram o oposto do ideal cristão, e nenhuma reconciliação era possível entre ambas.

Quaisquer que tenham sido as diferentes maneiras através das quais os cristãos tentaram colocar seus princípios em prática, porém, a teoria que a Igreja nos apresenta da vida, de seu valor e do objetivo em direção à qual ela deve se organizar podem ser resumidas em um pequeno conjunto de proposições.

Para a Igreja, a vida neste mundo não é nada além de um teste. Inclinado ao mal pelos maus instintos de sua natureza decaída, pelas seduções e fraquezas da carne e pelas tentações do demônio, o homem é chamado ao bem pela Lei Divina, pelas boas tendências que a queda original não conseguiu fazer desaparecerem completamente nele e, especialmente, pela assistência divina que pode ter ao pedi-la e que aumenta exponencialmente a força da vontade humana, sem destruir sua liberdade ou responsabilidade, e que chamamos de graça.

A perfeição consiste em superar os maus instintos da carne, para que o corpo permaneça o que deve ser, o servo da alma; em subordinar todos os movimentos da alma à caridade, isto é, ao amor de Deus, de tal modo que Deus seja tanto o começo, quanto o fim do homem, de suas energias, de suas ações.

Para isso, devemos aceitar as provações da vida com resignação, atravessando-as com coragem e fazendo de todas as circunstâncias na quais nos encontramos oportunidades de santificação e salvação. Quem, portanto, não vê que para o cristão a vida tem um valor infinito, pois ela lhe dá os meios de adquirir a santidade e a bem-aventurança eterna que é consequência dela? Quem não enxerga que, para o cristão, as ações mais vulgares adquirem uma nobreza sobrenatural quando, feitas por Deus, elas se tornam um reflexo da eternidade, “sub specie aeternitatis”?

 

Suas doutrinas teológicas e metafísicas

A ideia de vida que o albigense extraía de sua concepção de Deus e do universo era bastante diferente. Procedendo da crença no bem e no mal através de uma dupla criação, o homem era uma contradição viva: o corpo e a alma que o compunham jamais poderiam ser reconciliados.

Alegar a pretensão de harmonizar ambos era tão absurda quanto querer unir dois opostos: dia e noite, bem e mal, Deus e Satã. No corpo, a alma não era nada além de um prisioneiro, e seu tormento era tão grande quanto o das tristes pessoas que estivessem unidas aos corpos. Só poderia achar paz aquele que recuperasse sua vida espiritual, e só seria capaz de fazê-lo através da separação do corpo.

O divórcio desses dois elementos irreconciliáveis, isto é, a morte – a morte não apenas como algo que se tolera, mas adorada como uma bênção – era o primeiro passo em direção à felicidade. Tudo que a precedia era miséria e tirania. Esse mundo não era nada além de uma prisão, e as ações humanas eram deploráveis porque, praticadas por um corpo corrupto, carregavam consigo o estigma dessa corrupção.

 

Sua moral: Negação do casamento

A teoria albigense do casamento era a consequência lógica de sua ideia profundamente pessimista da vida. Se a vida, como ensinavam, era o maior mal, não bastava querer destruí-la em si mesmo através do suicídio ou do nirvana; também era necessário tomar precauções para não a comunicar a novos seres, que se tornavam partícipes na desgraça comum da humanidade, ao trazê-los à existência.

Além disso, quando os cátaros conferiam a iniciação do Consolamentum, eles faziam o neófito submeter-se a um voto de castidade perpétua. Os ministros albigenses repetiam, continuamente, que um homem pecava com sua mulher como pecaria com qualquer outra, o contrato e o sacramento do matrimônio sendo para eles apenas uma legalização e regularização da devassidão.

Na feroz intransigência de sua castidade, os puros do Século XIII encontraram a fórmula hoje adotada pelos apoiadores da livre união e do direito a todo prazer sexual: “Matrimonium est meretricium” – “o casamento é o concubinato legalizado”.

(Continua)

A cruzada albigense (parte I)

[Esse texto foi extraído da obra apologética Histoire partiale, histoire vraie por Jean Guiraud (Beauchesne Editions, 1912). Em uma época em que os livros-texto da Terceira República começavam a dar uma explicação parcial da História da Igreja e de tudo relacionado a ela, Jean Guiraud começou a desmantelar, um a um, os falsos argumentos do anticlericalismo.

Em sua obra Histoire partial, histoire vraie (História Parcial, História Verdadeira), ele dedicou um Capítulo a cada tema. Em cada Capítulo, ele começa citando vários trechos questionáveis de livros didáticos antes de refutá-los.]

 

Aulard et Debidour (Cours Supérieur, p. 91).

“A seita dos cátaros (ou puros)... condenou a corrupção e os excessos da Igreja e pretendia, enquanto simplificava o culto, trazer a moralidade cristã de volta a uma pureza perfeita... O Papa Inocêncio III ordenou uma cruzada contra eles em 1208 que durou mais de 20 anos e foi, apenas, uma grande roubalheira. Grandes cidades foram queimadas, populações inteiras foram massacradas, sem que nem mulheres, nem crianças fossem poupadas; todo o Sul da França foi pilhado, incendiado e manchado de sangue”

(Cours Moyen, p. 29)

“Os Albigenses, a população do Sul da França que não entendia a religião cristã da mesma maneira que os católicos, foram exterminados no Século XIII por vontade do Papa Inocêncio III”

(Récits familiers, p. 71)

“O clero havia se tornado muito corrupto, então parte das pessoas demandava que a Igreja fosse submetida a uma reforma, cujos apoiadores, muitos especialmente no Sul da França, eram geralmente chamados de albigenses... Os cruzados do Norte se comportaram com ferocidade; eles queimaram seus prisioneiros às centenas”

Brossolette (Cours Moyen, p. 22).

“Os albigenses não praticavam mais integralmente a religião católica... Béziers, Narbonne, Toulouse foram saqueadas”

Quatro imagens: 1. Os hereges do Sul escarnecendo de São Domingos; 2. O Conde de Toulouse fazendo penitência e apanhando dos Padres; 3. O saque de Béziers; 4. A caverna de Ombrives, onde os albigenses estavam aglomerados.

Devinat (Cours élémentaire, p. 58).

“Por chamado do Papa, que não conseguiu convertê-los, os cavaleiros do Norte da França atacaram os albigenses”

(Cours Moyen, p. 14).

“O Papa, primeiramente, enviou monges para pregarem, especialmente um monge espanhol chamado Domingos; mas os hereges... não se submeteram. Portanto, o Papa recorreu à espada”

Calvet (Cours Moyen, p. 42).

“Foi um assassinato horrível” p. 36 “Os habitantes do Languedoc tornaram-se suspeitos de heresia” (Cf. Cours préparatoire, p. 36)

(Cours élémentaire, p. 58). “No Sul da França, a Igreja não era amada; dizia-se que os Padres escondiam sua tonsura para não serem insultados... Os habitantes, de fato, eram hereges... O Papa Inocêncio III enviou um legado ao Conde de Toulouse, Raymond VI, para tentar trazê-lo de volta à fé. O legado foi assassinado... Indignado, o Papa pregou uma Cruzada.”

Gauthier et Deschamps (Cours Supérieur, p. 34).

“Os albigenses… pessoas simples, de costumes pacíficos, mas não austeros, que viviam fora da Igreja. Por chamado de Inocêncio III, milhares de saqueadores do Norte atacaram o lindo país dos troubadours... O chefe dos saqueadores, Simon de Montfort, como pagamento por seus serviços, recebeu do Papa as propriedades do infeliz Conde de Toulouse... Aqueles que resistiram foram torturados e, então, queimados vivos em um calabouço... Essa guerra monstruosa, injustificável, que destruiu a brilhante civilização do Sul... Unificou a França occitana e a França de oïl”

(Cours Moyen, p. 12). “Luís VIII cometeu o erro de participar na cruzada abominável”

Guiot et Mane (Cours Supérieur, p. 86).

“Os Albigenses, população feliz, pacificamente viciada em comerciar, que cultivou a poesia, a sonora e harmoniosa língua dos troubadours... Morte a eles!... Eles tinham ideias consideradas heréticas”

(Cours Moyen, p. 52).

“A prosperidade das cidades do Languedoc causaram inveja nos senhores do Norte; os habitantes do Sul foram acusados de heresia”

Rogie et Despiques (Cours Supérieur, p. 131)

“A doutrina dos Albigenses pretendia restaurar a pureza e a simplicidade dos costumes dos primeiros homens”

*

A Cruzada contra os albigenses é um dos grandes fatos históricos utilizados pelos livros-textos e historiadores “seculares” para acusar a Igreja de maneira severa. Para acentuar sua aversão, põem toda a responsabilidade na Santa Sé, enquanto, por outro lado, pintam um quadro idílico das crenças e costumes dos albigenses.

Antes de examinar a sinceridade dos argumentos que eles usaram em ambos os casos, é necessário fazer uma observação preliminar.

 

Contradições anticlericais sobre os albigenses

Primeiramente, salientemos que todos os nossos autores se contradizem tanto, que basta confrontarmos uns com os outros para tornar dúbias suas versões.

Se crermos em Aulard, Debidour, Rogie e Despiques, os albigenses pretendiam reformar a mores [os costumes] do clero. Austeros, enamorados da virtude e da santidade, estariam escandalizados pela vida relaxada mantida no Sul da França pela Igreja Católica e teriam pretendido remediá-la trazendo-a de volta às práticas puras do Cristianismo primitivo.

No sentido contrário, Gautier e Deschamps escrevem que os albigenses eram pessoas simples, de costumes pacíficos e não muito austeros. Qual a origem, portanto, da luta, e de quem é a responsabilidade? É da Igreja, que, por fanatismo, travou uma guerra contra homens pacíficos e indefesos, dizem Aulard e Debidour, Devinat, Gauthier e Deschamps.

Foram os senhores do Norte que, movidos por ganância, tomaram a defesa da ortodoxia como um pretexto e atiraram-se às populações cujas fortunas e terras eles cobiçavam, dizem Guiot e Mane.

E, quando a Igreja pregou a Cruzada contra os albigenses, qual era o motivo dela? Fanatismo, insinuam os autores mais “seculares” . Irritação por não conseguir converter o Sul, diz Devinat. O desejo de vingar o legado assassinado por ordem do Conde de Toulouse, diz Calvet.

Essas contradições nos provam que os problemas levantados pela Cruzada albigense foram múltiplos e complexos; a maioria dos historiadores só analisou um lado da questão. O amigo da verdade científica deve considerar todos.

Quando o fizer, perceberá que os fatos são mais complexos do que nossos historiadores simplórios geralmente pensam, e que as responsabilidades incumbem a várias pessoas em uma guerra que foi tanto religiosa quanto política, cujos combatentes haviam entrado em ação pelos motivos mais díspares: fé e ambição, o serviço de Deus e o amor da pilhagem, e que, finalmente, foi controlada tanto pelos chefes do feudalismo leigo, quanto pelos representantes da Igreja.

Culpar o Catolicismo por eventos que foram inspirados em política feudal, atos de crueldade e espoliação guiados por ganância e ambição seria supremamente injusto, especialmente se se mostrar que a Igreja protestou contra todos esses eventos e condenou esses atos. Portanto, é com as maiores precauções que devemos nos aproximar dessa delicada questão que envolveu a todos, libertando-nos de nossos preconceitos parciais e paixões, para deixar apenas os textos falarem.

Acerca das crenças e costumes dos albigenses os julgamentos proferidos pelos historiadores anti-católicos são os mais contraditórios.

Calvet nos diz que eles foram apenas “suspeitos de heresia”, Guiot e Mane que eles tinham “ideias consideradas heréticas”, e Brossolette “que eles não praticavam, integralmente, a religião católica.”

A conclusão que esses autores querem sugerir é que a repressão foi bárbara e odienta, pois foi covarde, e as nuances que distinguiam os albigenses dos católicos eram quase imperceptíveis.

Gauthier e Deschamps, ao contrário, nos dizem que os albigenses “permaneceram fora da Igreja”. Nessas duas afirmações, contraditórias ou, no mínimo, bastante diferentes umas das outras, aquela de Gauthier e Deschamps é a verdadeira.

Na realidade, a metafísica e a teologia dos cátaros divergia da metafísica e teologia católica. A Igreja ensina que Deus é um, os catáros, que havia dois deuses, o deus bom e o deus mau, ambos eternos, igualmente poderosos e em luta constante um contra o outro.

A Igreja diz que nosso mundo foi criado por Deus por seu amor, e que o homem recebeu a existência de seu Criador para o seu bem.

Os cátaros pregavam que a natureza e o homem são obras do deus mau, de quem são fantoches e vítimas, nas quais ele constantemente exerce sua maldade. Para os católicos, Cristo é Deus, vindo a este mundo para expiar o pecado original da humanidade através da obra da Redenção. Para os cátaros, era um eon (poder spiritual) ou uma emanação distante da divindade, que veio trazer ao homem o conhecimento das suas origens e, portanto, para o tirar, não por virtude ou pelo seu sangue, mas apenas por sua doutrina, da servidão miserável em que o homem vive. Portanto, por qualquer lado que olharmos, havia um antagonismo declarado entre Cristianismo e albigensianismo.

< continua >

"O monstro do tomismo" - nota biográfica do Pe. Garrigou-Lagrange

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

[Nota da Permanência: O leitor interessado encontrará neste site muitos artigos teológicos e espirituais do dominicano Garrigou-Lagrange, monstro do tomismo]

 

O Pe. Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964) nasceu no Sul da França, mas mudou-se freqüentemente, acompanhando as numerosas mudanças de posto de seu pai, como coletor de impostos. Após estudar medicina, ouviu o chamado divino e juntou-se à província dominicana de Paris, tendo estudado em Flavigny (atualmente Seminário Francês da FSSPX). Suas pesquisas o levaram a buscar estudos filosóficos na Sorbonne, Paris, e a estudar os escritores modernos. Seus interesses acadêmicos permitiram-lhe ser formado em encontros com mentes de primeira classe como o Pe. Ambroise Gardeil, o Pe. Norberto del Prado e Juan Arintero.

 

Realizações intelectuais

Uma formação tão poderosa fez com que fosse escolhido para ministrar um curso sobre apologética no Instituto Angelicum de Roma aos 32 anos, cujo conteúdo veio a ser depois reunido num livro em latim, de dois volumes, intitulado De revelatione. Em seguida, foi chamado a ministrar cursos sobre dogma e alguns sobre filosofia, mas também deu aulas populares sobre teologia ascética e mística. Para o encanto de seus alunos, deu vários cursos de 1909 a 1960, mesmo quando já havia ultrapassado os 80 anos, mantendo grande entusiasmo. Seus cursos de teologia eram notáveis: abria amplos panoramas para os seus ouvintes e sabia como conectar os mestres da ciência especulativa com os da espiritualidade. Era uma mostra viva da harmonia entre as três sabedorias: filosófica, teológica e mística.

O Pe. Garrigou foi nomeado consultor do Santo Ofício em 1955. Longe de ser uma sinecura, esse trabalho lhe exigia esforço semanal de pesquisa sobre questões doutrinais nos arquivos secretos que lhe eram fornecidos pela Congregação. Desfrutou da mestria do Cardeal Ottaviani, particularmente sua arte na condução da discussão e na sumarização de questões, teses e argumentos. Amigo de grandes autores franceses, como Jacques Maritain e Henri Ghéon, Garrigou-Lagrange foi um escritor prolífico, cuja qualidade do ensino manteve-se sempre em pé de igualdade com a quantidade produzida. Além de inúmeros artigos para a Revue Thomiste e a revista Angelicum, escreveu 23 obras substanciais.

 

Um escritor espiritual

Além das obras em latim, que reúnem seus cursos formais de filosofia e teologia dados no Angelicum, os leitores podem se surpreender vendo muitos títulos sobre tópicos puramente espirituais. Aos muito famosos Les Trois âges de la vie intérieure, La Mère du Sauveur et notre vie intérieure e L’amour de Dieu et la croix de Jésus, junta-se uma obra menos conhecida intitulada De Sanctificatione sacerdotum secundum nostri temporis exigentias.

Foi no Angelicum, entre os anos 1909 e 1910, que conheceu Juan Gonzalez-Arintero, O.P., e leu sua Evolución mística. Arintero foi uma das figuras mais proeminentes do catolicismo na Espanha e participou da tentativa, no início do século XX, de restaurar a vida contemplativa à sua antiga glória. Juntamente com ele, Garrigou-Lagrange desempenhou um papel central em chamar a atenção para a natureza da contemplação e para nosso chamado universal, ainda que remoto, a ela. Num ponto mais controverso, sobre a natureza da contemplação, sua posição era muito clara: contemplação significava contemplação infusa, um conhecimento amoroso ou sabedoria que vem de Deus; um dom da presença amorosa de Deus, expressa tão claramente por São João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila e outros místicos.

Pode-se dizer sobre suas obras aquilo que ele mesmo escreveu no prefácio de seu De Christo Salvatore: que seu único objetivo era lançar luz a partir dos princípios formulados por Santo Tomás de Aquino. Tinha bons motivos para manter esse método conservador:

“Aqui, como em qualquer outro lugar, temos de nos mover do mais certo e conhecido para o menos conhecido, do fácil para o difícil. Por outro lado, se estudássemos de forma dramática e cativante os tópicos difíceis por suas antinomias, poderíamos terminar, como aconteceu com muitos protestantes, negando as verdades mais fáceis e certas. A história da filosofia e da teologia mostra que freqüentemente é isso que acontece. Temos de destacar também que, se nas coisas humanas, onde o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, estão misturados, a simplicidade é superficial e nos expõe ao erro, nas coisas divinas, ao contrário, onde há apenas verdade e bem, a simplicidade une-se perfeitamente à profundidade e à elevação, chegando mesmo a, sozinha, ser capaz de conduzir a essa elevação.”

 

Garrigou e Maritain

Os dominicanos enviaram o Pe. Garrigou a Paris, para estudar na Sorbonne. Foi no curso de filosofia de Henri Bergson, provavelmente no Collège de France, que conheceu Jacques Maritain. Este, por sua vez, é único entre os tomistas, por se tratar de um convertido; filósofo existencialista em sua juventude, foi seu encontro com o tomismo que o atraiu para a Igreja. Em geral, Maritain foi um sólido filósofo tomista. Mesmo Garrigou, inquestionavelmente um dos melhores tomistas do século passado e diretor espiritual de Maritain durante certo tempo, tece-lhe elogios por suas obras filosóficas.

Não fica claro quando a amizade que havia unido esses homens começou a rachar. A divisão quanto à condenação da Action Française em 1926 foi provavelmente um ponto de partida. Maritain, que havia se envolvido com o socialismo na juventude, tendia a apoiar os revolucionários espanhóis contra Franco e, na França, Charles de Gaulle em vez de Pétain. Essas visões políticas opostas aumentaram o atrito. Quando compreendeu a posição liberal de seu amigo, Garrigou-Lagrange aconselhou-o a deixar as questões políticas de lado e a se dedicar à sua especialidade, a filosofia tomista. Na época de Humanismo Integral, em que Maritain defendia a liberdade religiosa como um direito humano natural, a amizade tinha acabado. Diz-se que quando Maritain, o convertido, tentou persuadir o super-tradicional Garrigou-Lagrange sobre a democracia, este se indignou e disse algo como: “Agora você resolveu dar lição a nós, que somos católicos há séculos, sobre uma nova doutrina social católica?!?” Maritain esperou que Garrigou pedisse desculpas, mas ele nunca o fez.

Há um livro que resume o relacionamento entre os dois famosos tomistas, chamado The Sacred Monster of Thomism (O Monstro Sagrado do Tomismo), de Richard Peddicord; deve, porém, ser lido com cuidado, pois o autor é bem “maritainiano” em sua abordagem política.

 

Combate ao neomodernismo

Durante sua longa vida, o Pe. Garrigou sempre viu o modernismo como o inimigo número um. Explica a revista L’Ami du Clergé: “Ele considerava uma questão de consciência refutar o modernismo e todas as suas aplicações. Seria falso crer que fosse naturalmente beligerante... mas tinha um tal amor pela Verdade que não podia vê-la ameaçada sem partir para a luta com toda a sua coragem e o seu talento.” Foi isso que o motivou a escrever um livro em defesa da Fé e da filosofia perene, Le sens commun, e também Dieu, son existence et sa nature.[1]

Marcel de Corte, o grande filósofo belga do século XX, foi salvo dos disparates modernistas pelos escritos de Garrigou: “Continuei a crer porque vi que me era impossível abandonar a Fé sem negar ao mesmo tempo esse realismo que a minha raça havia depositado na profundeza mais íntima de meu ser.” De Corte continua com um severo diagnóstico do pensamento moderno:

“Está chegando o tempo em que a única filosofia que será excluída da sociedade cristã será aquela que comandou, por mais de mil anos, seu desenvolvimento intelectual. A filosofia dos intelectuais cristãos de hoje é tudo o que se pode querer, menos grega e tomista: parece que os panfletos relativos à ‘filosofia’ imanente e à mitologia da evolução universal submergiram quase todas as mentes. É necessário ter uma alma de ferro para caminhar sozinho na antiga estrada real do pensamento tradicional católico. Hoje, é o realismo, a metafísica do senso comum, a firme adesão à evidência e aos primeiros princípios dos seres e do pensamento que são corpos estranhos, inassimiláveis e até perigosos nas estruturas sociais do catolicismo presente. Não nos surpreendamos. Como disse o Cardeal de Retz: ‘É uma constante que todos queiram ser enganados’.”

Ao lidar com o neomodernismo, Garrigou ficou em evidência ao escrever La synthèse thomiste, com um apêndice, La nouvelle théologie où va-t-elle?,[2] que concluía com estas fortes palavras:

“Não consideramos que os escritores que acabamos de descrever tenham abandonado a doutrina de Santo Tomás; eles nunca aderiram a ela, nunca a entenderam realmente. Essa observação é dolorosa e preocupante. Como tal maneira de ensino poderia formar algo além de céticos? De fato, eles não propõem qualquer alternativa à doutrina de Santo Tomás. Aonde vai a nova teologia? Aonde, senão descendo a ladeira do ceticismo, da fantasia e da heresia?”

Após ter aparecido na revista Angelicum, esse artigo foi recebido com sarcasmo e insultos, o que revela que o autor acertou em cheio. Em sua defesa, escreveu outros artigos, como L’immutabilité des vérités définies et le surnaturel e Le Monogénisme n’est-il nullement révélé, pas même implicitement?.[3] Como se pode ver, eles iriam formar a base para a encíclica Humani Generis de Pio XII, que foi um syllabus de erros neomodernistas.

A estima que Pio XII sentia por Garrigou-Lagrange levou-o a escrever por ocasião do 80º aniversário deste:

“Uma razão mais forte leva-nos a oferecer nossas congratulações e felicitações àqueles que, por seus talentos e ciência, realçam o nome católico e obtêm um merecido favor de nossa parte... Estamos bem cientes da eminente piedade com que cumpres teus deveres religiosos, do renome que tens adquirido a serviço da filosofia tomista e da teologia sagrada, essa teologia que tens ensinado por cinqüenta anos, quarenta e oito deles nesse refúgio romano da sagrada doutrina chamado Angelicum. Temos sido freqüentemente testemunhas do talento e zelo com que tens, por palavra e por escritos, defendido e salvaguardado a integridade do dogma cristão.”

(The Angelus, 445. Tradução: Permanência)


[1] “O senso comum” e “Deus, sua existência e sua natureza”. [N. do T.]

[2] A síntese tomista, com seu apêndice “Aonde vai a nova teologia?” (Ver em http://permanencia.org.br/drupal/node/881) . [N. do T.]

[3] “A imutabilidade das verdades definidas e o sobrenatural” e “O Monogenismo não é de forma alguma revelado, nem mesmo implicitamente?”. [N. do T.]

"Nosso Querido Reitor" - nota biográfica sobre o Pe. Henri Le Floch

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX 

Foi em 1853 que se inaugurou o Seminário Francês em Roma, tanto para elevar o nível intelectual e espiritual do clero quanto para promover o movimento ultramontano de adesão a Roma. Foi o Papa Pio IX que o aprovou em 1859, confiando-o perpetuamente à Congregação do Espírito Santo. A orientação romana e o favorecimento papal foram coroados em 1902 com sua conversão em Instituto de Direito Pontifício.

O Pe. Henri Le Floch (1862-1950) foi seu Reitor de 1904 a 1927. Nascido em 1862, natural da diocese de Quimper, formado pelos Padres espiritanos desde 1878 e ordenado sacerdote em 1886, atuou primeiro como professor de Seminário, depois como Diretor do Colégio de Beauvais em 1895, Superior do Escolasticado de Chevilly em 1900 e finalmente Reitor do Seminário Francês em Roma a partir de setembro de 1904. Conhecido por não ter qualquer envolvimento político, opunha-se fortemente, todavia, ao laicismo militante presente na França da época.

Durante seus 23 anos como Reitor, fortaleceu o Seminário, anteriormente desmoralizado por falta de liderança, aumentando o número de seminaristas de 100 para 209, ampliou os prédios, renovou a equipe e adotou a postura anti-modernista de São Pio X. Amigo de outras figuras anti-modernistas, adquiriu com o tempo uma posição de considerável importância em Roma como consultor de várias Congregações romanas, incluindo o Santo Ofício, o que lhe deu considerável influência sobre a escolha de bispos franceses.

Dom Marcel Lefebvre o conheceu em outubro de 1923 ao entrar no Seminário Romano. O Padre Superior havia reunido os seminaristas para lhes dar sua primeira palestra espiritual do ano. Aos 61 anos, Pe. Henri Le Floch já caminhava para o ocaso quanto à idade, mas não quanto a suas faculdades intelectuais. De estatura alta e exalando confiança, lembrava uma árvore frondosa na exuberância de sua plena maturidade. Pele corada e rosto largo, no qual as proeminentes sobrancelhas contrastavam com a finura de seu nariz e lábios, portava-se com nobre dignidade, trazendo um aspecto de firmeza em seus olhos azuis acinzentados. Sua natural seriedade era aliviada por um ar de bondade e um sorriso discreto, ainda que prontamente exibido. Deu sua palestra sem demonstrar qualquer afetação; era a dignidade e a afabilidade em pessoa. Além disso, havia ali uma mistura de extrema auto-confiança e total esquecimento de si mesmo: um servo da Igreja, um homem de doutrina verdadeira e católica. Obviamente era um teólogo, mas seu espírito, intuitivo e inquieto, alcançava grandes alturas sem ter de passar por todos os níveis do argumento teológico. Não que ele desprezasse a teologia como uma ciência racional, mas, em última análise, quase nunca a usava dessa maneira. Sua firmeza na Fé vinha acompanhada por uma profunda compreensão dos mais frutuosos conceitos teológicos.

“Eu sofria por não ver o reino de Deus estabelecido onde deveria estar.” O reino de Deus, diz São Gregório, é freqüentemente entendido na linguagem sacra como “a Igreja do tempo presente”. Pe. Le Floch admitia sofrer por isso, algo que o acompanhou por toda a vida. Mas enquanto era capaz de agir, enquanto podia combater, ele não apenas sofreu: agiu, lutou por essa causa, a única pela qual valia a pena consagrar seus esforços, sem poupar nada para si, tudo entregando pelo reino da Igreja. A Igreja é o único meio de salvação, mas não o entendamos apenas com referência à salvação eterna. Pe. Le Floch o entendia também em relação à salvação temporal. A Igreja é o único órgão autorizado da Revelação divina e possui o depósito das verdades que o Pai quis que conhecêssemos ao falar por meio de Seu Filho.

“O único homem pleno é o cristão…” O homem, tendo sido criado para ser cristão, não o sendo, não terá alcançado a plenitude de sua humanidade. Isso porque os valores humanos em si mesmos, a partir do pecado original, só podem ser plenamente acessíveis a todos, sem mistura de erro, no contexto dos valores cristãos e com a modificação interna operada por estes. Nem tudo isso é dogma, mas teologia certa, vigorosa e invencível, diante da qual cabe perguntar como o liberalismo pode se sustentar por um momento que seja na mente de um cristão, que não deve considerar nada tão precioso quanto a glória da Igreja. O erro do liberalismo consiste em pensar que, na presente ordem da sociedade humana, podemos abandonar a realidade da soberania da Igreja desde que a mantenhamos como um ideal, ainda que irrealista.

O jovem seminarista Lefebvre escreveu: “Dei-me conta de que, de fato, eu tinha um punhado de idéias erradas. Estava muito satisfeito por aprender a verdade, feliz em saber que estava errado, que tinha de mudar minha forma de pensar sobre certas coisas, especialmente ao estudar as encíclicas dos papas, que nos mostravam todos os erros modernos; aquelas encíclicas magníficas de todos os papas até São Pio X e Pio XI. Para mim foi uma completa revelação. Foi assim que nasceu silenciosamente em nós o desejo de conformar nosso juízo ao dos papas. Costumávamos dizer entre nós: Mas como os papas julgavam esses eventos, idéias, homens, coisas e épocas?”

Para Dom Marcel Lefebvre, “o Pe. Le Floch fez-nos entrar e viver na história da Igreja, nessa luta que os poderes perversos travam contra Nosso Senhor. Fomos mobilizados contra esse medonho liberalismo, contra a Revolução e as forças do mal que tentavam prevalecer sobre a Igreja, o reino de Nosso Senhor, os Estados católicos e toda a cristandade. Acho que toda a nossa vida como sacerdotes ― ou como bispos ― foi marcada por essa luta contra o liberalismo. Esse liberalismo era praticado por católicos liberais, pessoas de duas caras que se diziam católicos, mas que não suportavam ouvir toda a verdade, não queriam condenar o erro ou os inimigos da Igreja, não toleravam viver continuamente uma cruzada.”

Homem da verdade e da doutrina, o Pe. Le Floch também era, na força e integridade de sua vocação, um homem da Igreja. Quais seriam as convicções interiores que impulsionavam toda sua atividade? Como um homem da Igreja, colocava-se exclusivamente a seu serviço, defendendo apenas o que era diretamente de interesse dela. Preferia manter com determinação aquela atitude reservada que a Igreja, com raras exceções, impõe aos clérigos; ao longo de toda a sua vida, envolveu-se num único tipo de polêmica, a saber, a defesa da Santa Sé, de quem era, de acordo com o testemunho do Cardeal Secretário de Estado, “a caneta francesa”. Salvo essa única circunstância, trabalhava em silêncio, sem poder evitar que um crescente renome se lhe viesse associar, ao mesmo tempo em que não podia deixar de flagelar seu próprio coração com o desdém pela glória mundana. Extremamente reservado, tendia a mostrar-se cada vez menos e a desaparecer cada vez mais. Homens de seu calibre não se preocupam em parecer o que não são. Sabem muito bem que aquilo que são vale muito mais do que a imagem que poderiam construir de si mesmos. Mas o Pe. Le Floch não estava nem mesmo preocupado em parecer o que era.

“Era possível se enganar, e nós nos enganamos a princípio”, disse o Pe. Berto, futuro teólogo de Dom Marcel Lefebvre no Concílio Vaticano II. “Durante todo o meu primeiro ano no Seminário, perguntava-me como puderam colocar numa posição tão elevada um homem que, apesar de possuir uma presença nobre, parecia exercer tão pouco sua autoridade.” Pe. Berto compartilhou sua opinião com um colega seminarista que, ao ouvir essa bobagem, exclamou com espanto: “O que você está dizendo, meu amigo? Nada se faz aqui que não esteja de acordo com a vontade do Padre Superior. Só que não dá para ver.” Era algo tão discreto, de fato, que se poderia pensar que a instituição mantinha seu curso por conta própria, sendo que a verdade era completamente o contrário. A direção era mantida por uma mão tão firme e segura, com uma atenção tão vigilante, sem jamais deixar de prestar atenção ou fazer um movimento em falso, que a ação do piloto tornava-se tanto mais imperceptível quanto mais poderosa e bem ordenada. Por natureza e por graça, por intuição e por estudo, o Pe. Le Floch colocava acima de tudo a ordem, e a desordem abaixo de tudo. Em todas as coisas, era um homem de ordem: tão firme e inflexível ao comunicar seus pensamentos, quanto lhe eram estranhos todo desejo e toda necessidade de comunicar-se a si mesmo.

Sob o comando do Pe. Le Floch, o Seminário Francês permaneceu perfeitamente fiel ao papado sob São Pio X, Bento XV e Pio XI, particularmente quanto à condenação do modernismo social por este último, em 1922. O Pe. Le Floch deixou bem claro que aceitava a condenação da Action Française em dezembro de 1926, apesar de pessoalmente acreditar que a Igreja não devesse se envolver nessa política. Entretanto, sua renúncia em 1927 foi causada pela oposição pessoal do Papa Pio XI, baseada numa suposta conexão que teria com a Action Française, seguida por ataques de quatro professores e dez estudantes do Seminário. Viveu os 23 anos restantes de sua vida numa aposentadoria ativa.

Mons. Pucci, um padre italiano que tinha informações internas sobre as circunstâncias de sua remoção, logo escreveria: “Pio XI decidiu que o Pe. Le Floch, tendo servido por 20 anos sob um diferente arranjo político, não estava apto a servir sob o seu, ou a conduzir sua implantação.” Como se uma implantação desse tipo tivesse algo a ver com os estudos num Seminário! Volta e meia, entretanto, alguns seminaristas tiveram de fazer as malas porque o clima em Roma não lhes era propício. Foram por isso chamados de “Pro Action Française”, quando, na realidade, só não haviam conseguido lidar com a partida do Pe. Le Floch e com a nova atmosfera. Marcel Lefebvre permaneceu em Santa Chiara, não sem certa nostalgia pela perda de um grande líder, a quem ele sempre chamava com emoção de “nosso querido Reitor”.

(Angelus Press no. 444. Tradução: Permanência)

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