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O massacre de Katyn

Gustavo Corção

 

Há uma certa faceta de humor negro na ingenuidade com que os jornais da semana passada publicaram, como sensacionais, as declarações de um judeu, Abraão Vidro, difundidas por um jornal de Israel, sobre o já tristemente famoso massacre de Katyn. Ou então haverá mais um exemplo da universal conjuração organizada para inocentar os comunistas dos crimes de guerra. Há realmente uma misteriosa conspiração que não somente exalta o papel dos comunistas na guerra como também esquece seus crimes mais clamorosos.

No caso presente o obscurantíssimo autor destas mal traçadas linhas pode lembrar que anos atrás já escreveu nestas mesmas colunas sobre o horroroso massacre de 12.000 oficiais poloneses fuzilados pelos russos em abril de 1943, e enterrados no bosque de Katyn. É portanto bem antiga a novidade da declaração sensacional de Abraão Vidro, mas nunca é demais insistir nas façanhas praticadas pelos soviéticos na II Guerra.

Mais recentemente, no decurso dos estudos que andei fazendo para um livro que está quase terminado, descobri num livro de René Pellerin, intitulado Un écrivain nommé Brasilach, não apenas a maravilhosa figura de Robert Brasillach como também sua reportagem verdadeiramente sensacional publicada em 9 de julho de 1943, no hebdomadário Je suis Partout, com o título J’ai vu les fosses de Katyn.

Nesse tempo a França estava parcialmente ocupada pelos alemães e em estado de armistício assinado pelo Marechal Pétain. Brasillach combatera corajosamente em defesa de sua pátria, mas logo após o armistício e a liberação dos primeiros prisioneiros voltou a Paris e abertamente aceitou o governo de Vichy, que todos os bispos da França apoiaram, e repeliu sempre, como escritor, o fantasioso governo da França Livre que na verdade só existiu para efeitos publicitários, para acrescentar à cruz de Winston Churchill a Cruz de Lorena, e para trazer um bálsamo ilusório às chagas do patriotismo francês tão duramente humilhado. Lembro estas coisas para frisar que a posição de Brasillach era perfeitamente admissível e normal, embora o mundo inteiro tenha sido condicionado durante anos para achar que traía a França quem ficasse com Pétain e desprezasse De Gaulle.

Mas voltemos ao bosque de Katyn que Brasillach viu e cheirou. Sim, cheirou. Mais da metade do artigo publicado em Je suis Partout se detém no intolerável cheiro que o tomara de chofre como primeira e inesquecível impressão. O chofer do carro em que viajava prevenira-o e fizera este reparo: depois da primeira visita a Katyn passara dois dias sem conseguir comer. E era um homem rude, que fizera a guerra.

“Cheiro maciço, cheiro negro e azedo, inesquecível cheiro de carniça. Algo de ainda vivo e animal longamente apodrecido naquela terra que não devora logo os cadáveres. Eles lá estão, apertados, compactos, e deles sobe esta coisa que poderíamos delimitar em seus contornos, que quase poderíamos pegar e sentir o seu peso.... Ah! Eu gostaria de fazer um pouco desse cheiro atravessar a fumaça do incenso e chegar às narinas dos arcebispos bolchevizantes...”

Brasillach pagará caro por esse artigo imprudentemente escrito em 1943. O moço transbordante de vida generosa, o poeta admirável e o admirável patriota que vivera sempre enfrentando a morte, na guerra espanhola e depois na guerra contra Hitler em defesa de sua pátria, nunca soube agasalhar-se e precaver-se. Quando a derrota de Hitler se delineava claramente, e finalmente quando De Gaulle recebeu, dos norte-americanos, Paris libertada e intacta, numa bandeja, e agradeceu aos russos, e mais tarde conseguiu convencer o tolo mundo inteiro de que fora ele próprio o libertador de Paris, Brasillach esteve sempre a denunciar o impostor e a caricaturar a Resistance onde se iniciou o concubinato dos católicos com os comunistas.

Seus amigos tentaram convencê-lo da necessidade de fugir para a Suíça. Providenciaram todos os papéis, mas Brasillach não quis deixar sua mãe, sua irmã, não quis deixar a França. Consentiu em esconder-se, mas aquela raça de franceses que, no dizer de Bernanos, não conseguiram mortos estrumar a terra que vivos não souberam defender, pôs em prática um infalível expediente para pegar Brasillach: prenderam sua mãe, como refém. No dia seguinte, Brasillach apresentava-se e era preso, e logo condenado como traidor da pátria pelos comunistas, judeus e democrata-cristãos comunizantes.

*  *   *

É preciso lembrar o bosque de Katyn onde os soviéticos deixaram um sinal que será encoberto, apagado, mas inexoravelmente de tantos em tantos anos voltará para esclarecer não apenas o martírio da Polônia, como também para relembrar o que aconteceu num governo francês comuno-católico: 110.000 franceses foram sumariamente condenados como colaboracionistas, e executados. Muitos por terem recusado atos de sabotagem de serviços públicos exigidos por grupos da Resistance. Entre esses 110.000 franceses assassinados durante a Épuration brilhará sempre a figura de Robert Brasillach que, em face da morte, na prisão de Fresnes, deixou escritos poemas de peregrina beleza, com que a verdadeira França respondia à França do pacto franco-soviético. Sim, no mesmo ano que Brasillach morria fuzilado como traidor, os intelectuais de gauche cantavam hinos à U.R.S.S. que os libertara, e Georges Bidault dirigia a Mesdames et Messieurs um discurso em que comunicava o pacto franco-soviético, simétrico daquele que anos atrás Molotov e Ribbentrop assinaram.

E o Tribunal de Nuremberg? Ah! Sim. Houve um tribunal de Nuremberg contra os crimes de guerra. É preciso lembrar o Tribunal de Nuremberg; é preciso relembrar que na primeira sessão desse tribunal, com a cumplicidade dos norte-americanos, ingleses e franceses, e sob A PRESIDÊNCIA DE UM GENERAL SOVIÉTICO, foi escamoteado e arquivado o dossiê do Massacre de Katyn.

 

(O Globo, 31/07/1971)

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