Apologética (39)
Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX
Quando se observa um quadro do mundo religioso do século IV até a Reforma, nota-se facilmente a extraordinária unidade de pensamento, de fé e de moral, agrupada em torno da Igreja católica e difundida por todo o mundo civilizado. É claro que aqueles séculos não foram perfeitos e nem sempre sublimes, pois os homens eram humanos com os vícios que são seus companheiros inseparáveis. Porém, ao menos, o mundo cristão era uno. Estava unido pela mesma fé em um Deus bom, que quer a salvação de suas criaturas; pelo mesmo código moral, que estabelecia unanimemente que uma dada ação era boa e outra má; e pela mesma autoridade divinamente estabelecida, a que se obedecia como se obedece a Deus. Um século depois de Lutero, o mesmo quadro (do mundo religioso) mostra uma profunda ruptura na crença religiosa, pois o que era um aparece, dali em diante, como um vaso partido em mil pedaços. Havia ocorrido uma verdadeira revolução. Ela tinha diferentes facetas: política, internacional, sem mencionar o aspecto social dos costumes. Mas o núcleo dessa revolução, que dividiu para sempre a Europa cristã, foi a teologia. O epicentro do ciclone encontrava-se nas concepções irreconciliáveis sobre Deus e seu plano de salvação para os homens.
Falar da teologia da Reforma é como apontar o dedo para Lutero, seu pai. Devemos nos remeter a ele para compreender a raiz da Revolução que produziu a Reforma; é necessário estudá-lo de perto para entender a natureza do movimento modernista, que se desprendeu do luteranismo como uma fruta madura. De Lutero, pode-se dizer com toda exatidão que a doutrina é o homem. Ao retrocedermos à origem de suas ideias, poderemos deduzir facilmente as consequências dos seus princípios nos diversos domínios relativos ao dogma, à filosofia, à exegese e à teologia. Teremos condições de julgar que esses princípios estão em flagrante contradição com o luteranismo tal como se constituiu posteriormente.
1. Tal vida, tal doutrina
Se é possível, para ilustrar a doutrina e a vida de Santo Tomás de Aquino, fazer alusão aos escritores clássicos, no caso de Lutero, o começo da época romântica se encaixa como uma luva. O romantismo é o florilégio das grandes sinfonias de Beethoven, em que o passional domina o racional e a força suplanta o espírito. Lutero, como Beethoven, sentia dentro de si os impulsos passionais e agia sob sua influência.
Martinho Lutero (1483-1546) era filho de humildes camponeses. Sua mãe, cristã piedosa, era propensa a ver o demônio em toda parte, enquanto seu pai era a encarnação do juiz intratável, que nunca o perdoará por ter deixado a família para se tornar monge. Aos vinte e um anos, após ter feito os estudos de direito, e tomado de desespero durante uma tempestade, faz votos de entregar-se a Deus e, quinze dias depois, é aceito no mosteiro dos agostinianos de Erfurt, cidade universitária da Saxônia. Sua trajetória de monge sacerdote é fulgurante. No ano seguinte, faz seus votos perpétuos, é ordenado padre alguns meses mais tarde, e só então segue curtos, mas sérios estudos teológicos. Em 1508, é transferido para sua universidade natal, onde trabalha como professor. Em poucos anos, se tornará sub-prior de Wittenberg, doutor em teologia e porta-voz em Roma das disputas entre os conventos agostinianos em litígio. Seus estudos no convento o colocam em contato com Santo Agostinho, de quem pensa poder inferir a inutilidade da razão e da vontade, e com os místicos, de quem acredita poder deduzir o desprezo pelas obras exteriores. Também se familiariza com a escolástica decadente, sobretudo com o pensamento de Ockham, o filósofo que sustentava que as palavras são vazias de sentido e que a vida só se encontra em Cristo e na Sagrada Escritura. Ainda um jovem doutor, em seu comentário à Epístola aos Romanos, o irmão Martinho ensina, desde 1515, seu novo sistema sobre a justificação, que servirá de base para toda a teologia luterana. Havia nascido o movimento da Reforma.
Como Lutero chegou a este ponto? Muitos historiadores evitam esta questão e propõem respostas parciais. Alguns pretendem que em um bom dia ele descobriu na biblioteca de Erfurt uma Bíblia recém-impressa. Outros veem no irmão Martinho um monge incapaz de controlar suas paixões imorais. Com o propósito de chegarmos à verdadeira história, nada melhor que revelar a alma desse frade e o drama que viveu naqueles anos cruciais.
Que caráter tinha esse frade agostiniano? Se dentro do robusto Santo Tomás escondia-se um espírito superior, Lutero é um Hércules de vontade, de paixão e de fogo, dotado de uma inteligência limitada e sobretudo prática. Todos os historiadores o descrevem como um alemão por excelência, um Odin cristão, um verdadeiro Thor. Era dotado de uma natureza realista e lírica, valente, mas impulsiva, sentimental e hipersensível. Um espírito vulcânico nas coisas da vida, veemente em tudo, até mesmo em sua generosidade e em sua ternura. De natureza ardente, enérgica e apaixonada, sofre desmaios súbitos e momentos de profunda tristeza. Nele, a depressão é tão profunda como exuberante é a alegria. Isto se deve, talvez, a uma educação cheia de temores e mal equilibrada? Ou às suas crises de escrúpulos? Ou ao pensamento constante do mistério da predestinação, que o inquieta? Em seus momentos de otimismo natural, a paixão adianta-se facilmente às ideias, como acontecia em seus antepassados. Tem instinto guerreiro e se lança com toda ousadia nas discussões, que saboreia com paixão. Apresenta-se audacioso e veemente na defesa de sua causa, razão pela qual o jovem mestre foi enviado à Roma para advogar a causa do mosteiro. Espírito prático e decidido, prefere antes refutar seu oponente a escutar o lado oposto. Lutero, com sua linguagem vulgar, seu extraordinário poder de imaginação e sua torrente de palavras, é um pregador extraordinário, o que lhe valerá ser considerado como um dos mais poderosos criadores da língua alemã moderna. Suas palavras são armas de guerra. Há energia em seu gênio, veemência em suas palavras, uma eloquência brilhante e impetuosa que transmite admiração e encanta as multidões, uma audácia extraordinária diante dos aplausos, acompanhada de um ar de autoridade que faz com que seus alunos tremam diante dele e não se atrevam a contradizê-lo no que seja, não importa se grande ou pequena. Nisso reside sua força e sua fraqueza.
Tendo entrado na vida religiosa mais por paixão que por simpatia, como confessará mais tarde, o irmão Martinho é, no início de sua trajetória religiosa, um monge zeloso e diligente, certamente desejoso de alcançar a perfeição em seu estado sacerdotal, embora predisposto à ansiedade e ao escrúpulo. Não tarda a observar que todos os seus atos piedosos, suas «boas obras», não produzem aparentemente nenhuma mudança nele, e assim chega à conclusão de que elas não tem importância aos olhos de Deus; ou, para usar suas próprias palavras:
«Quando eu era monge, tinha o costume de acreditar que minha salvação estaria comprometida tão logo eu sentisse a concupiscência da carne, isto é, um movimento mau contra algum de meus irmãos, de inveja, de ira, de ódio, etc. Sempre me atormentava a ideia de que todas as minhas boas obras fossem inúteis».
Nesta conjuntura, nosso monge parece ter cometido dois erros sobre os princípios da vida espiritual. Em primeiro lugar, devido ao seu temperamento sentimental, busca com demasiado afinco experimentar as consolações sensíveis. O essencial é sentir-se em estado de graça, como se a graça pudesse ser sentida! A doutrina que ensina que a graça é infundida na alma quando se apaga o pecado, quase o leva a perder a esperança em Deus, porque não havia experimentado em si mesmo essa pureza perfeita da graça. Seu segundo erro é querer alcançar a virtude e a perfeição mais por suas próprias forças do que pela graça de Deus. Este voluntarismo individual é ainda mais perigoso porque, sendo escrupuloso, considera como pecados suas primeiras impressões sensuais involuntárias, e pretende alcançar uma santidade que não manifeste o menor indício da fraqueza humana. Por dez de anos, vive com a alma atormentada pelo terror da condenação eterna. É aconselhado, então, a colocar toda sua confiança no Redentor do gênero humano, que não morreu em vão.
Para sair deste estado de tortura interior em que o haviam confinado seus escrúpulos e seu voluntarismo orgulhoso, lança-se ao ativismo, à pregação e ao ensino. É tentado, então, de desespero: «Contenta-te em ser o que és, anjo caído, criatura deformada; teu encargo é fazer o mal, porque teu próprio ser é mau». É a réplica do drama que viveu o próprio São Paulo:
«Vejo em meus membros uma lei que luta contra a lei do meu espírito, e que me tem cativo sob a lei do pecado, que reside em meus membros. Pobre de mim! Quem me livrará deste corpo de morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor!» .
Jesus Cristo! Eis a resposta há mil e quinhentos fora sempre dada à angustiante pergunta da salvação. Saulo se tornou São Paulo porque lançou-se nos braços de seu Deus. Isto o distingue de Lutero, que, em vez de invocar seu Salvador, resigna-se às paixões baixas: «A concupiscência é invencível». Começa, então, a assinar suas cartas como «Luther, filho de Adão, o desterrado».
Vimos até agora a história do monge escrupuloso, deprimido pelo desespero. Mas esse é o momento em que tudo começa para o reformador Lutero, pois, a despeito do desespero e da resignação perversa, a santidade é recuperada. Para celebrá-la, a partir deste momento ele dá a si mesmo o nome de Lutherius - Martinho, o libertado. Há dez anos, Lutero se sentia atormentado pelo problema da salvação, e em vão buscava a maneira de evitar a fúria do justo Juiz. Em 1516, durante a leitura da Epístola de São Paulo aos Romanos, finalmente descobre o argumento decisivo:
«Porque a justiça de Deus revela-se de fé em fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”» .
O irmão Martinho explica que, segundo São Paulo, a justificação de Deus consiste em cobrir com um manto puramente exterior esse amontoado de pecados que é o homem. Para ser justo, o homem pecador só precisa da fé. Também acredita poder deduzir de São Paulo que todos os atos do homem são pecaminosos, que o homem não tem liberdade, e que este não é nada mais que um cavalo montado por Deus ou pelo diabo, dependendo de qual dos dois esteja em cima. Como não é mais que um animal depravado, o homem nada pode fazer por si mesmo para salvar-se. É inútil dedicar-se às boas obras, dado que Cristo já fez tudo em nosso lugar. A salvação só é obtida quando o homem põe toda sua fé, quer dizer, uma confiança cega, em Cristo. Esta confiança o leva a proferir a máxima: «Pecca fortiter sed crede firmius» — peca com força, mas crê ainda com mais força — . Este axioma não deve ser entendido como a glorificação do laxismo moral. A primeira parte, pecar ou não pecar, não tem importância; o que importa é crer. Crer, segundo nosso autor, é ter uma confiança tão firme como cega. A vida cristã não é nada mais do que um contínuo exercício por sentir que nós não temos pecado nem sequer quando pecamos, e que nossos pecados são carregados sobre Cristo.
É evidente que toda a doutrina de Lutero é o resultado de uma experiência pessoal. Ele transforma suas necessidades em verdades dogmáticas. Seus sentimentos íntimos convertem-se em princípios teológicos, e seu caso particular é transformado em lei universal. Sedento de segurança moral e de liberdade espiritual, livra-se dos escrúpulos da sua consciência, que desesperava sobre a questão das boas obras, lançando-se, como pecador que é, nos braços de Cristo. Quando surge a controvérsia das indulgências, já há mais de um ano que pregava esta doutrina na universidade. Se, de fato, os abusos das indulgências foram a faísca que deveria causar a explosão, eram tão somente um pretexto para começar a revolta. Quando prega as noventa e sete teses sobre as indulgências nas portas da igreja de Wittenberg, em 1517, Lutero já tem pronta sua própria doutrina sobre os temas fundamentais da salvação eterna, da justiça de Deus, da fé e das boas obras.
Sua reivindicação fundamental, e também a do protestantismo, não tem relação nem com os abusos das indulgências, nem com os escândalos do clero, nem sequer com seus próprios erros teológicos que levam diretamente à imoralidade e à blasfêmia. Não. Todo o drama da rebelião reside no fato de um monge pretender apagar quinze séculos de posse serena da verdade divina e conseguir subjugar com grande sucesso as multidões proclamando-se iluminado diretamente por Deus. O fundo do problema é que Lutero vangloria-se de compreender a São Paulo melhor do que ninguém até aquele momento; melhor que a porta-voz e guardiã da palavra divina, a própria Igreja Católica. A grande vitória de Lutero consiste em que, por meio da oferta sedutora de um paraíso automático e gratuito, esse orador de gênio conseguiu afastar meia Cristandade de tudo que, até aquele momento, ela acreditara sem discussão, e de levá-la a aceitar sua doutrina do paraíso gratuito simplesmente porque ele se dizia mais sábio. O livre exame é, portanto, o núcleo e o eixo da Reforma. Lutero professava o livre exame, que seria, mais que qualquer outro ponto de doutrina, o fermento mais eficaz para destruir o que a Igreja tem de mais precioso. O livre exame marca, de fato e de direito, a morte de todo o tesouro da Igreja.
2. Em filosofia: ignorantismo e egologismo
A época da escolástica decadente e do Renascimento pagão, desdenhosa das ideias e promotora de todo individualismo, não foi feita para promover a sã filosofia. Lutero, ao fazer profissão de ceticismo em matéria de ciência, se mostra um filho digno de seu tempo, e ainda mais quando, por inclinação natural, privilegiava a vontade em detrimento da razão. Seus discursos são mais diretos que sutis. Aristóteles é o suporte ímpio dos papistas. Ele é para a teologia o que as trevas são para a luz. Por outro lado, Santo Tomás nunca entendeu nem um só capítulo do Evangelho ou de Aristóteles. Semelhantes exageros verbais concordam perfeitamente com a doutrina luterana da natureza do homem, totalmente corrompida pelo pecado original. A razão, da mesma forma que a natureza, está intrinsecamente manchada, de maneira que todas as ciências especulativas estão erradas. Lutero não é um pensador que analisa seus princípios, mas um líder carismático que se apodera da multidão e a dirige pelo instinto, desprezando completamente as leis da lógica. A quem reprova suas contradições e inconsistências, ele responde com violência e injúrias verbais, sem preocupar-se em refutá-lo racionalmente.
Lutero, pelo fato de tudo basear na crença em detrimento do bom senso, é fideísta. Com efeito, sua «fé» não se sustenta em nada razoável. É uma pseudo-fé herética que não podia deixar de vir a ser o que hoje é para muitos protestantes: um salto mortal motivado pelo orgulho desesperado, um arrebatamento de angústia e de confiança, oriundo das profundezas de si, em direção ao desconhecido. Essa fé basta-se a si mesma, e a razão só pode corrompê-la. O reformador aniquila, assim, de um só golpe, mil anos de frutíferos esforços teológicos:
«A razão opõe-se diretamente à fé, e assim deve ser; os crentes deveriam exterminá-la e sepultá-la… Ela é a prostituta do diabo. Só sabe blasfemar e desonrar tudo o que Deus diz ou faz. É impossível reformar a Igreja se não for extirpada completamente a teologia escolástica e a filosofia, assim como o direito canônico… A lógica não tem nenhuma utilidade em teologia, pois Cristo não precisa de invenções humanas». «A Sorbonne, mãe de todos os erros, não poderia estar mais errada ao afirmar que, se uma coisa é verdadeira, é verdadeira para a filosofia e para a teologia; é uma impiedade da sua parte condenar aqueles que sustentavam o contrário».
Se nos atemos a suas próprias palavras, Lutero adota inteiramente a teoria da «dupla verdade» de Siger de Brabante, segundo a qual uma verdade de fé pode ser ao mesmo tempo um erro científico.
A este aspecto anti-intelectual da doutrina luterana se enxerta um movimento positivo puramente interior. Quando o homem se nega a seguir a luz natural outorgada por Deus e se move pela vontade cega e pelas paixões baixas, expõe-se a todas as aberrações possíveis. Ora, em Lutero reinam o sentimento e o desejo. É dominado pelos apetites afetivos, sobretudo pelos irascíveis, mas também por uma forte tendência à melancolia. Lutero exalta a liberdade, a interioridade da experiência individual e o espírito pessoal. Para ele, sua própria vontade faz as vezes de explicação última e irrevogável: « Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas» — assim o quero, assim o ordeno, que a minha vontade sirva de razão — . Lutero opõe interior e exterior. É necessário rejeitar tudo o que vem de fora, particularmente os sacramentos e a Igreja, mas também a Revelação divina. Tudo isto está em consonância com a «lógica» do livre exame. O padre Ives Congar, admirador de Lutero, não se equivoca ao dizer que este havia reformulado todo o Cristianismo. Por quê? Porque era incapaz de receber algo que não proviesse de sua própria experiência. Kant desenvolverá, posteriormente, o princípio de autossuficiência com sua razão pura, emancipada das realidades exteriores.
3. A Revelação passada pelo crivo do livre exame
Se Lutero, merecendo com razão o título de protestante, rebela-se contra toda autoridade que imponha seja o que for, invoca a mesma independência de espírito em face da Revelação, seja ela a tradição oral do Magistério eclesiástico, ou a Bíblia escrita. O irmão Martinho rebela-se primeiro contra a Tradição, opondo-lhe a sola Scriptura — a Bíblia apenas — como norma de fé. A sola Scriptura é apenas um pretexto para eliminar a autoridade divina da Igreja, que havia condenado sempre o subterfúgio doutrinal que Lutero acabara de elaborar para tranquilizar sua consciência. A infalibilidade da Igreja, cuja voz ao menos era clara e direta, é demolida. A partir de então, é necessário pôr em seu lugar a infalibilidade de um livro, de per si acessível só a uma fração insignificante do povo, e cujo sentido é causa de violentas discussões entre os eruditos. A Bíblia, de onde o próprio Lutero tirará com frequência teorias perigosas, torna-se então a única fonte de salvação. Cada homem reformado é, ao mesmo tempo, sacerdote e profeta. Não obstante, essa atitude é extremamente perigosa. Os fiéis, que estavam acostumados a crer no que se lhes ensinava por via de autoridade, a partir daquele momento terão de assumir a árdua tarefa de encontrar por si mesmos, nas Escrituras, o que devem crer, e isto sob a ameaça de horríveis penalidades se acontecer de se enganarem.
Nosso heresiarca tem ao menos a intenção de conservar respeitosamente a Sagrada Escritura? Não, este postulado exagerado da sola Scriptura não é mais do que uma camuflagem para ocultar o princípio do livre exame, que o heresiarca estende com generosidade à própria Bíblia. Acaso não afirma que pode julgar «ex gustu et sapore» — pelo gosto e sabor — se um livro é realmente inspirado? Não vacila em modificar o texto sagrado. O texto da Anunciação: «Cheia de graça», é transformado em: «A graça está em vós» . O famoso texto de São Paulo: “Porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei.” É transcrita: “Consideramos que um homem é justificado sem as observâncias da lei, somente pela fé.”
Declara apócrifos os sete livros deuterocanônicos aceitos pela Igreja católica. Ostenta o mesmo desprezo pelos cinco livros de Moisés. Nem o Novo Testamento é poupado. Acusa a Epístola de São Tiago de ser uma epístola de palha; na Epístola aos Hebreus,
«não é necessário surpreender-se de lá encontrar pedaços de pau, feno e palha»;
e no que se refere ao Apocalipse,
«em minha opinião, não tem nenhum sinal de caráter apostólico ou profético… Cada qual pode formar seu próprio juízo sobre esse livro; da minha parte, sinto aversão a ele, e isto me basta para rejeitá-lo».
Sob a aparência do Lutero bibliólatra e da sola Scriptura esconde-se, na realidade, um biblioclasta radical.
Após tudo isso, Lutero queixa-se das liberdades exegéticas as quais se permitem Karlstadt e outros colegas seus! Chegará ao extremo de gravar em sua mesa do refeitório as palavras da consagração: «Este é meu corpo, este é meu sangue», e de exigir em tom ameaçador que se entendam estas palavras em seu significado literal. Na realidade, não compreende que ele mesmo deu o exemplo da mais desenfreada liberdade em matéria bíblica. Retirou das Escrituras seus únicos apoios, a Tradição e o Magistério da Igreja. É como se, antes de escrever as sagradas palavras em sua mesa, ele mesmo houvesse lhe serrado as pernas. Se a Bíblia tem autoridade por si mesma, se é verdade o que eu julgo como tal em meu foro íntimo, como esses textos bíblicos escritos sobre peles mortas podem se impor à minha crença? Na verdade, para Lutero, a Revelação é um assunto pessoal: minha Revelação é a Revelação. Depois de sua ruptura com Roma e com a Igreja, apesar de suas agonias interiores que não fazem senão crescer até o dia de sua morte, seu egocentrismo chega ao paroxismo. Tudo gira ao redor de Lutero. Toda lei externa é um insulto intolerável à sua liberdade cristã.
«Não admito que ninguém julgue minha doutrina, nem sequer os anjos. Aquele que não recebe minha doutrina não poderá salvar-se».
Em uma atitude de revolta, Lutero pretende, nem mais nem menos, substituir a Jesus Cristo.
4. Uma teologia invertida, centrada no homem
Toda a doutrina luterana deriva da vida íntima do escrupuloso irmão Martinho que, desesperado de não conseguir jamais vencer a concupiscência, acaba em um egocentrismo exacerbado. Faz desse drama pessoal sua doutrina universal, «urbi et orbi». Mas esta doutrina é falsa, ímpia e blasfema. Vejamos como ela reprova a teologia católica sobre o tema do pecado original:
«Logo, nada além de erro e cegueira a respeito desse artigo ensinam os doutores escolásticos [católicos], isto é, que desde a queda de Adão… o homem é livre para fazer o bem e evitar o mal, ou de evitar o bem e fazer o mal. Do mesmo modo, que o homem, por suas forças naturais, pode observar e cumprir os mandamentos de Deus. E igualmente, que o homem, por suas forças naturais, pode amar a Deus sobre todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo. E ainda, que, se o homem fizer o que dele depende, Deus lhe concede certamente sua graça».
Sua doutrina a respeito do assunto é a seguinte:
«Mesmo depois da regeneração, todos estão sob o que é mandado, e não podem deixar de ser incapazes, pois herdam uma natureza corrompida que fatalmente predispõe ao pecado. Tudo procede da graça, nada das obras, e o dom da graça é só por um ato de Deus. Tudo o que o homem é ou faz já foi determinado por Deus desde toda a eternidade; alguns nascem para salvar-se, outros para condenar-se, sem que conte para nada sua própria escolha, que na realidade nunca é livre».
Esta doutrina da justificação exterior, que lança um véu pudico sobre a miséria humana, gera sepulcros caiados. É profundamente imoral e impura, uma vez que anula as forças naturais do homem, especialmente sua liberdade; impede-o de realizar qualquer obra boa; e o torna incapaz de merecer o céu com a ajuda de Deus. Encurta o braço de Deus, que se vê impotente para santificar o homem a partir do seu interior. De acordo com essa doutrina, Deus é uma abstração distante, que salva por uma ficção jurídica e não por uma verdadeira conversão do coração efetuada desde o mais íntimo de cada um. Há mais. Esta doutrina torna Deus injusto, ao imputar-lhe o duplo crime de mandar o impossível e de predestinar, tanto ao inferno como ao céu, almas desprovidas de liberdade. Semelhante doutrina exige o sacrifício da consciência humana, ao impor que se adore como sumamente justa a arbitrariedade divina. Esse Deus, que Lutero fabricou do início ao fim, foi feito à imagem e semelhança do homem luterano, caído, injusto e privado da razão.
Dizíamos que o egocentrismo luterano é doutrinal. Mas o péssimo é que se torna teológico. Chegamos ao fundo do mistério da «teologia» luterana. Na doutrina católica, tudo gira ao redor de Deus, que é a fonte, o centro e o fim do homem. Pelo simples fato de estar ordenada a Deus, a teologia católica é uma ciência sobretudo especulativa. Como Deus é seu centro, a alma católica sente-se plenamente satisfeita quando conhece os mistérios de Deus e Seu amor misericordioso para com os homens. Como sabe quem é seu Deus e quão poderosamente Ele age nela, não se sente torturada pelo temor servil da condenação. Sabe que dispõe de todo o necessário para assegurar sua salvação: a fé, a esperança e a caridade.
O luterano, por outro lado, não pode reconhecer em Deus o seu Criador benéfico e misericordioso. O Deus protestante é o mesmo que criou o homem perverso, incapaz de santificá-lo e disposto a castigá-lo. O protestante só pensa em uma coisa: escapar da cólera divina do Todo-Poderoso, apesar da concupiscência indomável que envenena sua natureza. Por ter se tornado o centro da religião, a alma humana busca a salvação na justiça com que se cobre a si mesma. Lutero, que elimina a caridade e preserva um certo grau de temor servil, faz girar a ciência das coisas divinas ao redor da corrupção humana. Por esta razão, sem a absoluta certeza de seu estado de graça, a alma protestante não pode existir sem sucumbir no desespero.
Em quê Deus se converte nessa antropoteologia? É reduzido à uma entidade abstrata e distante, impotente e injusta. Pode-se pensar que, de acordo com Lutero, Deus estaria tanto mais implicado na salvação humana quanto mais impotente é o homem. Mas é o contrário. Na realidade, apesar das aparências, o luterano não deve esperar nada de Deus, porque segundo ele, somos nós mesmos que fazemos uso da
«habilidade de saltar de nosso pecado para a justiça de Cristo, e, portanto, para estar também seguros de possuir a piedade de Cristo como o estamos de ter nosso corpo».
Lutero, com sua absurda graça exterior recebida de Deus, mostra-se, na realidade, como o fundador do naturalismo mais desenfreado. Encarcera o homem em si mesmo e tudo deduz a partir do homem em todos os domínios, até mesmo em teologia.
5. Lutero nas antípodas do luteranismo
Ao estudarmos Lutero e sua relação com os princípios modernistas, não temos a intenção de nos determos no luteranismo. Por quê? Porque os princípios de Lutero são modernistas, mas os do luteranismo, não. De fato, a Igreja Reformada que Lutero fundou, com sua hierarquia, seu culto e seus dogmas, encontra-se nas antípodas dos princípios protestantes. Há solução de continuidade, há ilogismo completo e contradição absoluta no coração mesmo do protestantismo. O erudito protestante Harnack sublinhou com perfeição esta trágica esquizofrenia do sistema:
«O protestantismo padece de uma antinomia interna que é derivada de seu próprio princípio. Se não tens confissão de fé, o que és? Que sociedade formas? Por que existes? E se promulgas uma profissão de fé, se queres impô-la a mim sem dar-me explicações e apesar da resistência de minha consciência, como podes continuar sendo protestante? O que fazes tu que não faça o católico, e contra quem dizes que Lutero e Calvino tiveram razão de rebelar-se?».
Do mesmo modo, Hauser, referindo-se a Calvino, afirma que
«não viu, ou não quis ver, a espantosa antinomia que se encontra no núcleo mesmo de sua obra: refazer uma autoridade, um dogma e uma Igreja partindo do livre exame».
O livre exame não é um princípio viável, e a História não tardou em colocar um pouco de bom senso nas ideias do irmão Martinho, o libertado. Lutero viu-se obrigado a suavizá-lo e aplicá-lo de modo seletivo, apesar da flagrante contradição. Não significa que a meio caminho tenha renunciado a seu princípio do livre exame, mas que, oportunista e pragmático acima de tudo, o grande libertador transforma-se rapidamente em um sectário furioso, a partir do momento em que atentam contra sua própria liberdade, vale dizer, contra sua autoridade. Mas o princípio da liberdade para tudo e para todos, o livre exame, não poderia produzir logicamente nada além de caos, anarquia e rebelião universal, com relação a todos e a Lutero, em particular. Em 1525, Lutero proclama em alta voz que as autoridades não podem impedir nenhuma pessoa de ensinar e professar suas crenças. Cinco anos mais tarde, já consumado o cisma dos Anabatistas, ordena que as autoridades entreguem estes canalhas aos verdugos. Neste ínterim, o heresiarca vendera aos príncipes sua doutrina da liberdade de religião em troca da proteção deles. E, por isso, se separara dos camponeses radicais, a quem agora enchia de insultos e entregava à justiça dos príncipes alemães. Era uma escolha astuta, porque deste modo punha sua religião a salvo sob a tutela dos príncipes todo-poderosos. Havia retirado do Papa sua autoridade espiritual para oferecê-la aos príncipes, que seriam, ao mesmo tempo, déspotas e papas. Esses tiranos, promovidos a papas pela vontade de Lutero, não tardaram a apresentar exigências que superavam todos os limites, e, em pouco tempo, Lutero foi forçado a lhes entregar o resto do dogma e da vida moral a que ele próprio ainda não havia renunciado, a rejeição do divórcio e da poligamia, entre outros.
Este foi o resultado inevitável do livre exame. Abandonava-se a fé da Igreja e recebiam-se os dogmas imperiosos de Lutero, de Calvino, de Isabel e de Gustavo Adolfo. E a tal ponto eram imperiosos que - em Genebra, talvez mais do que em qualquer outra parte – pagava-se com a vida o uso demasiado amplo do direito do livre. Calvino, que não tolerava nem contradição nem concorrência, mandava para a fogueira todo aquele que se atrevesse a dogmatizar a seu lado, e em seus livros, hostilizava com insultos atrozes àqueles a quem não podia atingir de outra maneira. Assim, já não se estava com o Papa, mas seguiam-se os Quakers, os irmãos Moravos, a Knox e a milhares de outros que não faziam mais que demonstrar sua impotência para encontrar a verdade. Erasmo queixava-se disso, não sem malícia:
«Que bom defensor da liberdade evangélica é Lutero! Graças a ele, o jugo que suportamos tornar-se-á duas vezes mais pesado. Simples opiniões converter-se-ão em dogmas».
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Numerosos protestantes sinceros fizeram eco a essas críticas severas dos frutos da Reforma. No começo do século XX, alguns eminentes protestantes da Alta Igreja alemã lamentavam os frutos amargos da Reforma e estimavam que, em vez de celebrar o quarto centenário das teses de Lutero, eles deveriam, ao contrário,
«fazer penitência vestidos de saco e cinza; o movimento da reforma, que aconteceu em 1517, alcançou alguns bons resultados; porém, contribuiu muito mais para piorar a situação; e, se tal movimento expulsou um diabo, introduziu outros sete ainda mais cruéis. Lutero avançou sobre seu século como um demônio, esmagando sob seus pés o que mil anos haviam venerado. Quanto diminuiu nossa estima pelo Reformador depois dos estudos que nossos próprios investigadores fizeram sobre Lutero! Quanto diminuíram seus méritos! Tínhamos acreditado que lhe devíamos o espírito de tolerância e a liberdade de consciência, e não é assim absolutamente! Tínhamos reconhecido em sua tradução da Bíblia uma obra-prima que ostentava o selo da originalidade: hoje, devemos nos dar por contentes de que não seja considerada como um simples “plágio”! Ao julgar o conjunto dos “resultados” de seu trabalho, não podemos deixar de nos perguntarmos: Então, o que resta de Lutero?» .
O que resta de Lutero, respondem os católicos, é a ruína dos fundamentos da religião cristã e de toda religião, sob o efeito do princípio do livre exame, que é o eco do «Non serviam» de Lúcifer. A Reforma, em vez de reformar verdadeiramente o homem, o deformou e literalmente o perverteu. Como? Bastava separar o homem do elemento divino, isto é, reduzi-lo a suas próprias forças. Tratava-se de isolar o homem e separá-lo de Deus até no seio da religião. Lutero conseguiu realizar esse espantoso prodígio. Ele inventou a religião do livre exame, em que toda a fé do crente procede do mais recôndito de sua pessoa. Criou um cristão que, em face da Igreja, da intérprete da verdade divina, proclama a soberania da sua própria razão. Assim, na pessoa de Lutero, assistimos o aparecimento do Eu no âmbito espírito e da vida religiosa. Essa é a essência do modernismo, desde Kant até nossos dias.
(100 anos de modernismo. Tradição: R. Bellei)
Parte I: O Ensinamento dos santos doutores
Santo Tomás, logo no início de sua epístola sobre o tema, afirma que não procurará escrever senão sobre aquilo que ensinaram os santos doutores (ea quae a sacris doctoribus traduntur). Com efeito, a oposição às adivinhações astrológicas e outras supertições não é uma peculiaridade do Aquinate — ao contrário, é ela quase tão antiga quanto a própria Igreja. Façamos um breve retrospecto e ouçamos a voz da Igreja.
Talvez a primeira coisa que se deva dizer acerca da consulta aos astros é que ela está formalmente condenada desde os primeiros séculos da Igreja, como se vê no Denziger:
[Dz 35] Se alguém pensa que se deve crer na astrologia, seja anátema. [Concílio de Toledo, ano 400].
E, novamente, pelo Papa João III, no século VI:
[Dz 239] Se alguém crê que as almas humanas estão ligadas a um signo fatal, como disseram os pagãos e Prisciano, seja anátema.
Estas definições, suficientes para todo católico que não tem nem quer ter espírito de revolta, foi ainda repetida por inúmeros Santos, Doutores e Teólogos. Mesmos em tempos mais recentes, não deixou o Magistério de condená-la, como se vê em trechos do Catecismo de S. Pio X.
As condenações à astrologia são antiquissimas. Se tentássemos fazer uma história destas condenações, começaríamos com as próprias Sagradas Escrituras: Dt. 4:19, 17:3, 2 Rs. 17:16, 21:3 Jr. 8:2.
Passaríamos, em seguida, ao Catecismo dos Apóstolos, chamado Didaqué:
“[...] Também não pratique encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira ver ou ouvir sobre essas coisas, pois de todas essas coisas provém a idolatria.” [Didaqué, ed. Paulus, 1989, pp. 12-13]
Mais um passo, e encontraríamos as objeções dos Padres da Igreja. Citemos alguns autores:
— Tertuliano: “Observamos entre as artes algumas acusáveis de idolatria. Dos astrólogos, nem deveríamos falar; mas como nesses dias um deles nos desafiou, defendendo em proveito próprio a perseverança nesta profissão, direi algumas palavras. Alego não que ele honre ídolos, cujo nome escreveu nos céus, para quem atribui todo o poder de Deus... Proponho o que segue: aqueles anjos, os desertores de Deus [demônios]... eram muito provavelmente os descobridores dessa curiosa arte [a astrologia] por isso mesmo condenada também por Deus” (Idolatria 9 [211 D.C ]).
— Hipólito: “Quão impotente é o sistema [astrológico] para comparar as formas de disposições dos homens com os nomes das estrelas!” (Refutação de Todas Heresias 4:37 [228 D.C.]).
— Taciano o Sírio: “[Sob a influência de demônios] os homens formam o material de sua apostasia. Tendo a eles mostrando o plano da posição das estrelas, como jogadores de dados, introduzem o Destino, uma injustiça patente. O julgamento e o julgado são feitos pelo Destino, os assassinos e os assassinados, os afluentes e os necessitados – [todos são] o produto do mesmo Destino” (Discurso Aos Gregos 8 [D.C. 170])
Escutemos agora os Doutores da Igreja:
— Sto. Atanásio: “Donde ser verdade que os autores de tais livros [os astrólogos] acarretaram a si próprios uma dupla reprovação, pois aprofundaram-se em uma desprezível e mentirosa ciência”. (Carta de Páscoa 39:1 [D.C. 367])
— Sto. Basílio Magno: “Aqueles que ultrapassam os limites, fazendo das palavras da Escritura sua apologética para a arte de calcular temas de genitura [horóscopos], pretendem que nossa vida dependa da moção dos corpos celestes, e assim os Caldeus leem nos planetas o que nos ocorrerá”. (Os 6 dias da Criação 6:5 [D.C. 370])
— Sto. João Crisóstomo: “(...) E de fato uma treva profunda oprime o mundo. É ela que devemos fazer dissipar e dissolver. E tal treva não se encontra somente entre os heréticos e os gregos, mas também na multidão do nosso lado, no que diz respeito às doutrinas da vida. Pois muitos [os Católicos] descrêem inteiramente na ressurreição; muitas fortificam-se com o horóscopo; muitos aderem a práticas supersticiosas, augúrios e presságios”. (Homilias sobre Coríntios I, 4:11 [D.C. 392])”.
— Sto. Agostinho: "O bom cristão deve precaver-se de astrólogos e outros adivinhadores ímpios" (cit. na Suma Teológica de Sto. Tomás, IIa IIae., q.95, art.5).
Para não nos alongarmos demasiadamente em citações, mencione-se apenas que também condenaram a astrologia Sto. Isidoro de Sevilha, na sua obra Etimologias, Sto. Boaventura, no Hexaemeron (onde qualifica a astrologia de “abuso da razão”), Sto. Afonso Maria de Ligório, doutor em teologia moral, para quem praticar astrologia é incorrer em pecado mortal (Comentário aos Dez Mandamentos).
Parte II: A posição de Santo Tomás de Aquino
Para maior esclarecimento quanto à posição de Santo Tomás de Aquino, publicamos estas notas extraídas das “Conclusões” do capítulo X do livro "Les corps célestes dans l´univers de saint Thomas d´Aquin", de Thomas Litt, O.C.S.O (Publications Universitaires — Louvain, Belgique, 1963, p. 240-241). Entre colchetes, algumas observações de nossa autoria:
Finalmente cremos poder resumir como segue a posição de Santo Tomás com respeito à astrologia:
1. Ele afirma como absolutamente certo o princípio geral de uma influência universal dos corpos celestes sobre todos os eventos corporais da terra, incluídos os eventos fisiológicos concernentes aos animais e aos homens.
É para ele uma certeza filosófica absoluta; é, ademais, uma verdade de senso comum (II Sent., 15, 1, 2, c.) e é também uma verdade ensinada pelas "autoridades dos santos" (ibidem); ele cita notadamente Dênis e Santo Agostinho (p.ex., Ia, 115, 3, sed contra).
[A influência admitida restringe-se aos eventos corporais. Nisso, na Suma Contra os Gentios, Santo Tomás é taxativo: "é impossível que a operação intelectual esteja sujeita aos movimentos celestes" (III. 84). Da mesma forma, nega qualquer influência dos astros sobre nossa vontade, como se vê na epístola supra, "... é preciso absolutamente compreender que a vontade do homem não está sujeita à necessidade dos astros". Assim, Santo Tomás exclui do raio de influência dos astros justamente as faculdades que especificam o homem — os intelectos e a vontade.]
2. Ele afirma com igual certeza que a influência dos corpos celestes sobre os atos humanos é indireta e jamais necessitante. Acrescenta que a opinião contrária é herética, porque exclui a liberdade humana.
[Isso fica claro nessa passagem da C. G. (III. 85): "[os corpos celestes] podem ser, não obstante, causa ocasional indiretamente (...)". E o exemplo clarifica: "por exemplo, quando por disposição dos corpos celestes o ar se esfria intensamente, decidimos esquentar-mo-nos no fogo ou outras coisas em consonância com o tempo".]
3. Ele não se pergunta nem uma única vez se o axioma ou postulado astrológico fundamental é fundado ou não: a importância decisiva, sobre todo o futuro de um homem, da configuração do céu no momento de seu nascimento (tema de genitura).
Não encontramos senão uma só vez em Santo Tomás a palavra nativitas no sentido de tema de genitura: na citação do Centiloquium que referimos na p. 233. Esta citação é aliás a única predição astrológica concreta que encontramos, e é introduzida por uma formula muito dubitativa.
Sucede-lhe outra vez mencionar os patronatos estrelares dos sete dias da semana, mas é para observar que se pode, sem perigo para a fé, adotar ou rejeitar essa teoria.
4. Ele admite que, em princípio, os astrólogos predizem corretamente o futuro dos homens. Eis as dez referências que conhecemos. Nas três últimas em data, diz que as predições são justas ut in pluribus.
II Sent., 7, 2, 2, ad 5: Quando as predições têm em vista os atos humanos livres, são amiúde falsas.
II Sent., 15, 1, 3, ad 4: As predições são verdadeiras, mas porque os demônios ajudam o astrólogo.
II Sent., 25, 2, ad 5: As predições fazem-se conjecturaliter et non per certitudinem scientiae.
C. G. III, 84: Os astrólogos podem julgar do nível intelectual de um homem (não há indicação sobre a frequência dos julgamentos justos).
C. G. III, 85: A impressão das estrelas produz seu efeito na maior parte dos homens, a saber, naqueles que não resistem a suas paixões.
C. G. III, 154: Os demônios podem fazer muitas predições justas (mais acima Santo Tomás mais ou menos equiparou a ciência das demônios e a dos astrólogos).
De sortibus, c. 4, n. 660: Os astrólogos predizem justamente quandoque, e enganam-se amiúde nas predições particulares.
Ia., 115, 4, ad 3: Os astrólogos predizem justamente ut in pluribus, sobretudo nas predições gerais.
Ia.IIae., 9, 5, ad 3: Eles predizem justamente ut in pluribus.
IIa. IIae., 95, 5, ad 2: Eles predizem justamente frequenter.
5. Acerca da licitude da adivinhação astrológica, temos seis textos, onde o ensinamento permanece constante ao longo da carreira de Santo Tomás, sem que se possa discernir uma evolução nem para mais nem para menos severidade.
A doutrina resume-se a isto: não é supersticioso nem ilícito buscar prever pelos astros as secas, as chuvas etc. É supersticioso e ilícito buscar prever pelos astros as ações livres humanas, e, segundo a autoridade de Santo Agostinho, o demônio imiscui-se amiúde nesse gênero de consultas, que se tornam por isso mesmo um pacto com o demônio.
É preciso distinguir islã e fundamentalismo islâmico? O islã é mesmo uma religião de amor? Existe mesmo um islã moderado? Os responsáveis pelos atentados recentes encontraram no corão sua justificação?
O estudo a seguir vai responder, com clareza e precisão, essas questões fundamentais. As autoridades religiosas e políticas terão interesse em se debruçar sobre estas interrogações. Leia mais
Nas discussões atuais sobre as relações entre o Islã e o Cristianismo defrontamo-nos continuamente com três juízos preconcebidos que não resistem a um estudo preciso do que é o Alcorão. Esses juízos, no entanto, parecem paralisar de maneira preocupante a capacidade de defesa da nossa sociedade contra essa religião cheia de perigos. São correntes de fato, as seguintes afirmações:
1) É preciso distinguir entre islamitas fanáticos e muçulmanos moderados. Estes últimos se referem, com razão, às exortações à tolerância feitas por Maomé: é preciso, pois, colaborar com estes;
2) Os judeus e os cristãos gozariam segundo o Alcorão de certos direitos: enquanto juridicamente “protegidos”, eles deveriam ser separados dos “infiéis” que o Islã combateria mais duramente;
3) A base dessa distinção estaria na classificação alcorânica dos judeus e dos cristãos como “gente do livro”, porque titulares de uma Escritura inspirada por Deus. Nesse contexto, cita-se muitas vezes a Surata 5, 51 segundo a qual o Cristianismo dependeria abertamente, em aparência, das normas da Bíblia: “As pessoas do Evangelho julgam portanto segundo o que Deus revelou nele”.
Começando por esse último ponto, cabe notar que seria totalmente errado considerar que o Alcorão reconhece as verdades anunciadas no Novo Testamento tais quais chegam a nós na Tradição Apostólica. Na realidade, não se pode avaliar corretamente a referência do muçulmano às duas outras “religiões do Livro”, se não se conhece a doutrina do tahrif, isto é, em substância, a acusação que se dirige igualmente aos judeus e aos cristãos, de terem falsificado a posteriori a Revelação recebida, que é — segundo os muçulmanos — a que originariamente teria sido comunicada ao “profeta” . Essa doutrina é originária de Sour e está solidamente enraizada no Alcorão (cf. Surata 5, 16-18). A teoria da falsificação oferece aos muçulmanos, com efeito, a chave hermenêutica para interpretar as contradições múltiplas, unilaterais e muitas vezes grotescas, que se encontram entre o Alcorão de um lado e Antigo e o Novo Testamento de outro. Infelizmente, no clima atual, cheio de irenismo ecumênico, perdeu-se o conhecimento dessa condição de base, decisiva para compreender a maneira segundo a qual o Alcorão entende o Cristianismo; um conhecimento que, no século XV, o grande papa humanista Pio II possuía ainda que de maneira totalmente natural... Esse papa fez de fato a única coisa que era realmente essencial: refutou essa doutrina completamente absurda, com uma série de análises críticas apertadas dos textos .
A origem da teoria não falta de interesse. O Alcorão afirma ter sido comunicado diretamente a Maomé pelo arcanjo Gabriel (Surata 2, 91) e pretende que representa uma cópia, comunicada oralmente, do Livro original que se encontra no céu e que constitui como o arquétipo de todas as outras Santas Escrituras (Surata 56, 77-80). Em nítida oposição a essas afirmações, nenhum especialista moderno honesto pode negar que Maomé, à maneira dos sincretistas, tenha claramente se servido de empréstimos tomados ao seu próprio meio cultural. De resto, isto já lhe tinha sido censurado durante toda sua vida (Surata 16, 103). As fontes desses empréstimos, que não podem ser concretamente negadas, são o gnosticismo “cristão” e sobretudo o maniqueísmo que lhe está ligado.
Por grandes que sejam as diferenças entre os sistemas religiosos de um Manés e de um Maomé, não se pode no entanto negar que o árabe tenha tomado diversos elementos (de modo algum secundários) da escola do persa. Dessa última escola vem de fato a teoria de uma sucessão profética na qual os anúncios ou revelações sucessivas são consideradas como cópias perfeitas de um Livro que é o arquétipo celeste da Revelação, cópias que teriam sido, não obstante, falsificadas pelos homens (com exceção, naturalmente, da cópia original!). E exatamente do mesmo modo que Manés, Maomé definiu como o “Marca dos profetas” (Surata 30, 40); e claramente como o “Paráclito” prometido por Jesus (Jo. 14, 16 ss.). (CF. Surata 61, 6, onde a palavra grega é interpretada de maneira completamente falsa, como se significasse “o glorioso” [e não o consolador n.d. t.], que em árabe, é ahmed, ou ainda, Mohammed, Maomé). À maneira dos gnósticos, as duas religiões negam, pelo contrário, o sofrimento físico e a morte de Jesus na Cruz, e a Redenção oferecida aos homens que dela resulta (Surata 4, 157). Esses aspectos e outros foram daí por diante definitivamente estabelecidos pela mais recente pesquisa científica .
Abordemos agora os dois juízos apriorísticos mencionados nos pontos 1) e 2). No que diz respeito ao primeiro, muitas vezes se superestima a condição de “protegidos”, afirmando que ela seria capaz de garantir os judeus e os cristãos que se encontram sob o domínio muçulmano. Todo “Dhimmi” ou “protegido” goza, em realidade, de uma liberdade (relativa) de religião, em troca da qual ele deve pagar uma taxa — algumas vezes alta — e contentar-se com uma posição subordinada na sociedade e no Estado. Assim, por exemplo, é expressamente proibido aos muçulmanos ligar-se por amizade com judeus e cristãos (Surata 5, 56). Mas — o que é ainda pior — também é superestimada a amplitude da tolerância no Islã. Seu conceito, no Alcorão, não se deixa caracterizar jamais, de maneira unívoca e moral, nem mesmo para os muçulmanos. Os islamitas fanáticos poderiam, por exemplo, referir-se à versículos do seu “livro sagrado” com a mesma legitimidade com que os muçulmanos liberais, ao aludir a outros versículos, invocariam esse mesmo “livro sagrado” para demonstrar a disponibilidade pacifica de sua religião ao diálogo. A causa de um fato tão extraordinário está nas numerosas contradições que se encontram nas Escrituras de Maomé, contradições determinadas, em grande parte, pela radicalização extrema da vida do “profeta”, particularmente após sua transferência de Meca para Medina . Com isso, as relações de Maomé com os judeus e os cristãos foram enormemente perturbadas. Assim, na Surata 9, 29-33, os cristãos são considerados como adoradores de ídolos e pagãos assimilados aos “infiéis”, por causa da sua fé na natureza divina de Cristo: o Alcorão incita, portanto, à luta contra eles. O que espera os cristãos quando os muçulmanos se sentirem obrigados a preparar a Djihad, o “grande esforço” pela “ortodoxia”, no plano da luta armada, encontramos na Surata 47, 4 e 5: “Quando reencontrar aqueles que não crêem, mate-os [literalmente: corte sua cabeça], até que tenha feito um massacre; então, reforce os ferros dos restantes. Depois disso, ou dê-lhes a graça [literalmente: liberte-os] ou exija um resgate, até o momento em que a guerra tenha deposto suas armas”.
Quando se conhece esses contextos, não é possível evitar o espanto ante o fato de que, recentemente, Walter Kasper — bispo alemão — haja anunciado que nada tem a objetar à introdução de cursos de religião islâmica nas nossas escolas . O porta-voz da representação da C.D.U. no parlamento do Saarre, J. Schreier, mostrou, por sua parte, melhor compreensão da realidade. Numa carta ao diretor sobre o mesmo tema, repetiu que existem dúvidas consideráveis a respeito de que princípios determinados do Islã possam harmonizar-se com a Constituição do “Land”, assim como com a concepção dominante dos valores e com os fins da educação. Entre esses princípios (incompatíveis) cita-se: a posição da mulher na sociedade, a poligamia, o sistema penal draconiano do Alcorão, a falta de liberdade de fé e de consciência, a falta de tolerância para com as outras crenças e a vinculação da religião com o Estado. A assembléia de primavera da Conferência Episcopal Alemã, que houve em Münster no início deste ano, sentiu-se obrigada a manifestar sua preocupação face à evolução da situação na Argélia, no Paquistão e no Sudão, países nos quais as minorias cristãs estão sempre mais ameaçadas, não somente no livre exercício da sua fé mas também na sua vida e nos seus bens . E na Turquia, que foi um tempo considerada muito liberal nos assuntos religiosos, poderia-se citar episódios específicos, que demonstram como se tornou cada vez mais difícil dar às crianças uma educação cristã, conservar os lugares de reunião e as instituições cristãs . Quem estiver seriamente convencido de que o ensinamento do Islã nas escolas alemãs deveria ajudar a incentivar as tendências de um Islã moderado e tolerante se verá constrangido a lamentar sua incompreensão da realidade. Em todo caso, deverá meditar a conclusão que tiraremos deste artigo. Perguntemo-nos, de fato, abertamente e com espírito crítico se, como cristãos, por causa da tibieza da nossa fé, não temos nós boa parte de responsabilidade pela rápida expansão do Islã em nossos países. Um chefe religioso iraniano, o cheik Morteza Motahhari, recentemente exprimiu-se com desprezo totalmente justificado sobre o modo de conceber a religião no Ocidente: “Não é possível que alguém negue a existência de Deus ou de Jesus e ainda afirme ser cristão. São pequenas brincadeiras que não têm nada a ver com a religião autêntica da qual a humanidade tem necessidade” .
(Extraído de Mitteilungsblatt der Priesterbruderschaft St Pius X fuer den deutschen Sprachum. Boletim da Fraternidade São Pio X, de lingua alemã)
(Revista SIM SIM NÃO NÃO n° 45 ― Setembro de 1996)
Dom Lourenço Fleichman OSB
Houve épocas em que as pessoas escreviam cartas umas às outras. A carta fazia parte das relações humanas, e cumpria funções variadas na vida dos homens. Havia cartas oficiais, secas e sem vida; havia cartas agressivas, cheias de brigas e desprezos. Havia cartas de amor, de saudades, de despedida. Cartas circulavam por toda parte quando nascia o bebê, outras eram guardadas no sigilo, quando deixada pelo desesperado. Muitas vezes elas preenchiam o vazio da ausência sentida de um filho, de uma pessoa amada.
E assim corria o mundo, numa lentidão cheia de sabedoria e recuo, onde a letra caligrafiada era reconhecida, tornava mais calorosa a escrita e a leitura, e onde a espectativa da chegada do correio enchia os dias de um colorido impossível de se reproduzir nos dias atuais.
Quem poderá medir com precisão o imenso prejuízo social, psicológico e espiritual causado pelo desaparecimento das cartas trocadas entre os homens. O mundo do e-mail, pior, o mundo do imediato, do superficial, do banal, dessas mensagens instantâneas e invasivas nunca mais poderá saborear as delícias de uma bela e amorosa carta.
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Dom Lourenço Fleichman OSB
Conta o Livro de Jó, em seu início, uma conversa entre Deus e Satanás. Quando Deus pergunta a Satanás o que anda fazendo, o Príncipe das Trevas responde: "Andei dando voltas pelo mundo e passeando por ele". Podemos perceber que não é de hoje que o Demônio anda por aí espalhando entre os Filhos dos Homens sua malícia disfarçada em coisas boas. Como anjo mau muito esperto, o Demônio hoje não passeia, ele navega pelas ondas da virtualidade (coisa fácil para um espírito). "Andei navegando pelo Orkut, e vi a juventude entediada, vazia e descarada!" E eu, no meu esconderijo protegido contra Orkuts fiquei imaginando se o Cão não estaria dizendo uma grande mentira, um exagero, com alguma intenção desconhecida. Leia Mais
Dom Lourenço Fleichman
Há alguns anos, após tecer algumas considerações sobre o fenômeno do Orkut, primeira "rede social" a se espalhar de modo universal, atingindo particularmente o Brasil, lancei uma campanha aconselhando ao leitor apagar sua conta naquele sistema de escravidão. Os e-mails recebidos na época indicaram cerca de 150 pessoas que tomaram a iniciativa de apagar sua conta e de escrever à Permanência comunicando este fato.
Analisando este número de corajosos leitores, considerei um resultado muito bom, diante dos meios de que dispomos e, sobretudo, diante dos motivos espirituais e civilizacionais oferecidos como incentivo para se tomar decisão aparentemente tão sofrida e difícil.
O diabo não dá ponto sem nó, como se diz, e logo surgiu fenômeno mais amplo e pernicioso do que o primeiro. Contam que o Facebook começou como um sistema de reconhecimento dos rostos dos alunos em certa universidade. Basta conhecer um pouco a natureza humana para compreender porque milhões de pessoas pelo mundo foram contaminados com a Síndrome da Bruxa Má, da Branca de Neve! "Espelho, espelho meu". O engenhoso "crachá" eletrônico é como a "imagem da besta", que aparece no Apocalipse. O joguete do dragão adquiriu tanto movimento que ele fala, escreve, e vai variando sua bela imagem, cativando a todos e gozando dessa imensa felicidade: "digam-me se há mais bela do que eu" Continue Lendo
Depois que o papa Bento XVI recusou-se a assinar o documento que falsifica a doutrina sobre o Limbo das crianças mortas sem batismo, chega-nos agora a notícia de que o documento acaba de ser publicado com a autorização do Pontífice. Método típico da Revolução, que toma atalhos extra-oficiais apimentados com uma ou duas mentiras difíceis de serem confirmadas. Ou será que, de fato, teria o papa autorizado a publicação? Por enquanto não encontrei nenhuma versão oficial da notícia, mas o texto é citado pelas agências de informação. Leia mais
Quanta asneira dizem esses falsos teólogos! Quanta arrogância e pretensão, de querer enganar o povo fiel com argumentos tendenciosos e de falsa doutrina. Basta uma formação média na doutrina para sentir o cheiro da heresia. Iniciam seu raciocínio com a questão da vontade de Deus. Dizem estes senhores que Deus é misericordioso e quer a salvação de todos os homens. Dizendo assim, parece que a Igreja Católica, de tantos santos doutores, de um Sto Anselmo que festejamos neste dia 21 de abril, de um São Tomás de Aquino, de tantos santos papas, não percebeu, ao longo de seus dois mil anos, a límpida verdade. Ora, ora... descobriram a pólvora! Deus quer a salvação de todos os homens! Pois eu digo que se Jesus Cristo estivesse diante desta tal comissão, diria: "Raça de víboras"! porque não apresentam aos fiéis a doutrina completa sobre a vontade de Deus? Porque não dizem que, na sua vontade absoluta, sim, Deus só pode querer a salvação de todos os homens. Mas na sua vontade aplicada, ou seja, diante da realidade de cada um dos homens, a vontade de Deus como que respeita as circunstâncias das causas segundas, da vontade livre do homem, da situação das almas, dos atropelos da vida. A vontade de Deus só se torna eficaz com a colaboração do homem. Se assim não fosse, seríamos robôs, e não seres criados à imagem e semelhança de Deus.
Depois de falsificar assim o princípio básico do raciocínio, a quadrilha de "teólogos" parte para outra frente de combate revolucinário: a doutrina do Limbo seria apenas uma hipótese teológica. Desconhecem estes bastardos da fé o modo como a doutrina da Igreja forma sua unidade coesa e sólida? Claro que sabem. Mas escondem e querem impor a novidade a qualquer preço, e escondem a verdade. E onde está a verdade? É dogma ou não é dogma? A verdade é que a teologia católica não é feita apenas de dogmas. Existem muitas verdades anexas aos dogmas, as quais, se forem negadas, atingem em cheio o dogma a que elas se referem. Por isso elas são intocáveis, não havendo autoridade neste mundo que as possa mudar. No caso do Limbo, o dogma do pecado original e o dogma da necessidade do batismo para a salvação. Com que autoridade podem eles sair por aí, numa revista americana, com ou sem o aval do Vaticano, dizendo que o Limbo é uma hipótese? Hipótese é Vaticano II, meus senhores! Hipótese é esta tese revolucinária, anti-católica, herética e que só serve ao senhor das Trevas. E porque razão pretendem estes modernistas evolucionistas, prestidigitadores, que os católicos deixem de dar seu assentimento de fé ao que a Igreja sempre ensinou, com a garantia de dois mil anos de santos e santidade, para aderir a eles? E por quanto tempo, pergunto eu, deveriam os católicos "obedecer" a estas fantasias? Até que um próximo passo seja dado e um documento novo venha acrescentar que, na verdade, não é só o Limbo que não existe, mas o inferno também?
Do mesmo modo, ao afirmar que é pela misericórdia de Deus que se estabelece esta novidade, mostram o total desconhecimento dos dogmas referentes a Deus. Reduzem a misericórdia divina a um sentimento humano, onde Deus teria pena das crianças mortas sem batismo, como se fosse possível para Deus ter sentimentos de pena e agir como um homem poderoso que agracia um criminoso que lhe pede perdão. Quanta fantasia. E dizem que são teólogos! Os autores tentam afirmar que esta doutrina não atinge o dogma do pecado original. Vamos mostrar que atinge sim.
A questão do Limbo está ligada intimamente à doutrina da necessidade do batismo para se entrar no Céu. Isto é um dogma da nossa fé, declarado explicitamente por Nosso Senhor a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito Santo não entrará no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito." (S. Jo, 3,5) Já aqui nos deparamos com uma justificativa dos modernistas de quererem acabar com o Limbo. De fato, depois de Vaticano II, estabeleceu-se a prática de deixar o batismo para um momento em que a pessoa possa escolher. Prática certamente diabólica, pela qual muitas almas, já contaminadas pelas tentações, tomaram o caminho do pecado e se embrenharam nas trevas do inferno. Porque, se é indiferente às crianças antes da idade da razão, morrerem com ou sem batismo, então desaparece a necessidade de batizar-se desde o nascimento. Mas não é esta a Tradição dos Apóstolos: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a Tradição de batizar também as criancinhas" (Orígines, Ad Rom. VI,6). E o Concílio de Trento determinará que sejam batizadas as crianças recém-nascidas "ex traditione Apostolorum" (Dec. sobre o Pecado Original, 4). Sejamos honestos: não se pode dizer que o Limbo não existe porque Deus, na sua misericórdia, leva as almas das crianças para o céu mesmo sem batismo e, ao mesmo tempo, afirmar que esta nova doutrina não afeta o dogma do pecado original e da necessidade do batismo.
Vários erros grosseiros são cometidos por esta super "Comissão Teológica Internacional", da Congregação para a Doutrina da Fé. Segundo as citações apresentadas pela imprensa, um dos membros "acrescentou que os muitos fatores analisados oferecem a suficiente base teológica e litúrgica para se acreditar que as crianças que morrem sem batismo se salvarão e gozarão da visão beatífica". Pelo visto estas razões teológicas são tão fracas quanto o argumento levantado na notícia: Para este membro da Comissão, no caso das crianças mortas antes da idade da razão, a misericórdia de Deus prevalece sobre o pecado. Oh! trevas da ignorância; Oh! astúcia do antigo inimigo! A quem querem estes senhores enganar? Pois quem foi que disse que as crianças mortas sem batismo vão para o Limbo por causa do pecado? Este senhor acaba de provar que o Limbo existe, pois se a razão da não existência do Limbo é uma suposta prevalência da misericórdia sobre o pecado, basta assinalar a doutrina católica que dá razões bem diferentes para a existência do Limbo e todo o trabalho desta comissão será posto a nu diante de todos, como mais uma armação contra a fé católica.
De fato, o que obriga a existência do Limbo é a ausência de vida sobrenatural antes do batismo. Esta ausência se deve à presença do pecado original, sua marca na alma. Mas a presença do pecado original não significa que exista a culpa do pecado original, sendo esta atribuída a Adão e Eva. Não havendo a culpa, não há como se contrapor a este pecado a misericórdia de Deus. Esta só poderia ser apresentada como argumento diante de pecados pessoais, com a culpa correspondente. Mas, por definição, estes pecados atuais não existem na alma das crianças antes da idade da razão. Não há como negar, isso é dogma da nossa fé (e eles afirmam que o Limbo nada tem a ver com o dogma!) Quando um bebê nasce, ele possui a alma espiritual em estado natural: capacidade de conhecer, pela razão natural, e capacidade de amar, por atos livres da sua vontade. Mas ela não está apta, apenas por sua natureza, a ter em si a presença de Deus, a graça santificante, a posse do Divino Espírito Santo. Em outras palavras: ela não é o templo da Santíssima Trindade. Deus Nosso Senhor quis que só mediante o batismo nos fosse dada, em acréscimo, esta capacidade de vida sobrenatural. (cf. S. Marcos 16, 15) Se alguém achar isso injusto, que vá se entender com Nosso Senhor lá na porta do céu. Não temos o que discutir o que é Revelado por Deus, basta-nos o ato de fé; e o batismo é o meio de obter a vida da graça, sendo, certamente, o melhor para nós, o mais fácil, o mais comum, o mais usual. As Sagradas Escrituras nos trouxeram pelo menos um exemplo maravilhoso desta imensa bondade e misericórdia de Deus, que facilitou a entrada de tantas almas na visão beatífica: o batismo é dado com água, e qualquer pessoa pode batizar. Foi na estrada de Gaza, onde viajava o eunuco da Rainha da Etiópia, sentado em um carro, lendo o livro de Isaías. A ele foi enviado o diácono Felipe, por obra do Espírito Santo. E ali mesmo, na beira da estrada, o pobre homem pergunta a Felipe: "Eis água, que motivo me impede de ser batizado". (Atos, 8, 26) E Felipe o batiza, na beira da estrada, em açude ou riacho, e o milagre se consuma: aquela alma já não é um pagão, já não é incapaz da graça, mas tornou-se luminosa, filho de Deus, plenamente apta para a vida sobrenatural e mergulhada nela. E este milagre, os falsos teólogos querem roubar das criancinhas, atacando um dos flancos da muralha protetora da fé, que é o Limbo.
O que é o Limbo?
Diante da guerra levantada contra a doutrina católica sobre o Limbo, as pessoas sem formação tendem a pensar que este lugar é um castigo, quando na verdade não é. Trata-se de um lugar apropriado para a capacidade de uma alma humana impedida, pela presença do pecado original, de ter a vida sobrenatural. E o que acontece com esta alma, no Limbo? Ela vai agir segundo as suas capacidades naturais, e isto vai depender da idade em que tiver morrido. Se chegou a desenvolver um pouco sua inteligência e sua vontade, poderá receber algum conhecimento natural de Deus e dos eleitos do paraíso, que lhe trará uma felicidade natural compatível com o seu estado. É, portanto, um lugar de paz, de felicidade natural. Não é um lugar de visão beatífica, porém isso não afeta as almas dali, pois elas não têm nem mesmo a noção do que seja a visão beatífica, não podendo assim desejá-la ou sentir inveja dos eleitos do Paraíso. Ao contrário, Deus pode perfeitamente alegrar estas alminhas permitindo que algum lampejo da luz do Céu venha iluminar este lugar, como fogos de artifício para que batam palmas ao Criador.
Onde querem chegar?
Vários erros modernistas, da Nova Teologia de Henri de Lubac, von Balthasar e outros exigem as mudanças que esta comissão tenta empurrar goela abaixo aos católicos. Toda a Nova Teologia e Vaticano II baseiam-se na redução da ordem sobrenatural à ordem natural. Ou seja, a graça e a glória do céu deixariam de ser acréscimos sobrenaturais dados gratuitamente por Deus, para fazerem parte da própria natureza do homem. A partir daí, fica fácil introduzir outras novidades, como a salvação universal de todos os homens, já ao nascer, ou ainda o emparelhamento de todas as religiões como sendo eficazes para salvar os homens. De fato, se as crianças mortas sem batismo vão necessariamente para o céu, já não se faz necessária a fé católica, abre-se a porta para o ecumenismo radical e alucinado proposto durante mais de trinta anos por João Paulo II. Abre-se também as portas para canonizações de pessoas que, pelos critérios católicos, nunca alcançariam os altares. O próprio João Paulo II, absurdamente proposto para ser beatificado; Madre Tereza de Calcutá, a queridinha da mídia mundial, que proibia que fossem batizados, em seus hospitais, as crianças em perigo de morte vindas de outras religiões. Se elas iriam para o céu, então esta atitude seria tolerável, mas se a doutrina verdadeira, do Limbo, é a tradicional, então esta religiosa nunca poderá ser canonizada pelos ritos tradicionais, tendo impedido tantas e tantas alminhas de irem para o céu.
Ainda na questão das intenções destes agentes do mal, devemos assinalar a frase citada na imprensa: "o limbo representava um "problema pastoral urgente", pois há cada vez mais crianças que nascem de pais não católicos e que não são batizados e também "outras que não nasceram ao serem vítimas de abortos". A se confirmar o teor desta afirmação, estamos diante de um curioso critério dogmático: já que Vaticano II derrubou a fé católica no mundo inteiro, aumentou consideravelmente o número de crianças nascidas de pais não católicos. Cabe então, segundo a frase citada, uma modificação no dogma católico, para arrombar a porta do céu, explodir tudo, deixar entrar todo mundo, batizado ou não batizado, vindos de pais católicos ou não. É impressionante a pretenção dos desvairados: arrombaram as portas da Igreja com sua "abertura ao mundo" e com isso acham, sem se darem conta do ridículo, que abriram também as portas do céu.
Não estamos mais em 1965, ou em 1969. Naqueles dias, os católicos engoliram a heresia progressista sem perceber e hoje já não sabem mais o que são. Diante destes fatos urge ao católico armar-se com a armadura de Deus, resistindo-lhes fortes na fé, com a espada da verdade, o elmo da salvação, a alegria no coração no bom combate, na esperança da salvação, na vida eterna do céu.
Mentira X Verdade
À esquerda, o cartaz do filme "Amém" de Costa Gavras mostra uma cruz se transformando em Suástica.
— é a cruz da mentira.
À direita, a capa de uma revista alemã da época mostra a cruz como clara inimiga do regime nazista.
— é a cruz da verdade.
SOBRE A ESPIRITUALIDADE DOS MOVIMENTOS CATÓLICOS
Dom Lourenço Fleichman OSB
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Passei estes dias a reler coisas antigas, movido pela perplexidade diante da nossa condição humana. Não falo da conjuntura política, que já ultrapassou todos os limites da razão; não falo da economia nem da insegurança nacional.
Tenho pensado mais, nestes últimos dias, nos nossos movimentos católicos de defesa de uma civilização que já não existe mais, de defesa da Tradição.
Neste curto texto já amarelado pelo tempo, apesar do tempo e do amarelo do papel, brilha aquilo que até hoje
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