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Liturgia (125)

Introdução ao quarto domingo da Páscoa

Se Eu não me for, o Espírito consolador não virá a vós; mas Eu vo-lo enviarei” Evangelho.

 

Paramentos brancos

 

A liturgia de hoje louva a justiça de Deus, que se manifestou no triunfo do Senhor e pela descida do Espírito Santo, que, de volta ao céu, o Senhor prometera.

Deus que dera testemunho de Seu Filho, ressuscitando-O dos mortos, condena o mundo que O crucificou. Este testemunho brilhante da justiça divina deve nos consolar a alma das amarguras e das dificuldades da vida presente.

Jesus abriu-nos o caminho; Ele é o caminho, a verdade e a vida. Enquanto vivermos na terra temos de beber sem dúvida o travor do exílio, de amargar com a perseguição e a hostilidade dos elementos adversos, mas quando desabrochar no dia pleno e luminoso, que antevemos, a aurora que nos leva, se olharmos então para trás, para esses pedaços de noite e dia por onde passamos, havemos de sentir com certeza como foi breve o caminho e suave o sofrimento que nos conduziram a tão grande vitória.

São Tiago exorta-nos a sofrer com paciência, com paciência cristã evidentemente, as arestas e fadigas da jornada, porque a paciência, diz o apóstolo, dá perfeição à obra, à obra da nossa santificação, e assemelha-nos a Deus “em quem não há vicissitudes nem mudança”

 

Evangelho: “O Espírito Santo convencerá o mundo do pecado”, do pecado tão grave como jamais se viu e que os judeus, sem advertir na gravidade do ato que faziam, perpetraram, rejeitando Cristo, o Redentor.

“O Espírito Santo convencerá o mundo da justiça”, da justiça de Cristo que o mundo desprezou, crendo-se a si mesmo justo, e que Deus glorificou, com os prodígios que se seguiram à tragédia do Calvário.

“Convencerá, finalmente, o mundo do juízo”, demonstrando pela santificação das almas e pelas conquistas sempre crescentes da Igreja, que “o príncipe deste mundo já está julgado”

 

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao segundo domingo depois da Páscoa

Eu sou o Bom Pastor, conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem. E dou a minha vida pelas minhas ovelhas” Evangelho.

 

Paramentos brancos

 

Diz-nos São Pedro na Epístola que Jesus é o pastor das nossas almas, perdidas tantas vezes pelos atalhos da vida, errando longe do redil. E que o Senhor veio dar a vida por elas e agregá-las à sua volta, não duvidando para o fazer, como o Evangelho acentua, deixar no deserto as noventa e nove e ir por moitas e algares à procura da desgarrada que se perdera.

Lembremo-nos que os sacerdotes são os legítimos continuadores desse pastor divino e sejamos dóceis à sua palavra e rezemos por eles para que sejam dignos do seu ministério.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao domingo in albis

Oitava da Páscoa e primeiro domingo depois da Páscoa

Paramentos brancos

 

Chama-se este domingo – Quasi modo – das primeiras palavras do Intróito e in albis porque nele depunham outrora a túnica branca do batismo.

Para ensinar os seus filhos recém-nascidos para a graça com que generosidade devem confessar o nome de Jesus, a Igreja os conduz à Basílica de São Pancrácio, que, aos doze anos, rendeu ao Senhor o testemunho do sangue.

Todo cristão deve dar testemunho de Cristo. A fé no Filho de Deus ressuscitado dar-lhe-á coragem para vencer os poderes do mal, para vencer o mundo, como diz São João. É necessário, pois, que esta fé em Jesus tenha uma base sólida; e a Igreja no-la oferece na missa de hoje. Esta fé deve ter por base, diz São João, o testemunho das três Pessoas Divinas e o da água, do sangue e do espírito que no batismo, no calvário e na vida da Igreja e dos cristãos dá testemunho da divindade de Jesus. A dupla aparição do Senhor aos apóstolos e a incredulidade de Tomé que cede à evidência mais nos confirmam nesta fé.

Pela nossa crença esclarecida e forte e pela nossa conduta impoluta rendamos à divindade do Senhor, no meio desta sociedade corrompida, o testemunho sincero da nossa alma.

 

Do Evangelho:A dureza dos discípulos em acreditar na Ressurreição, diz S. Gregório, não foi apenas sinal de que eram ainda enfermos na fé, mas antes argumento para firmar a nossa fraqueza. Menos me aproveita a mim Madalena que logo acreditou, que Tomé que duvidou por muito tempo; porque o apóstolo, tocando nas chagas, amputou-nos do peito a raiz da dúvida

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao domingo de Páscoa

DOMINGO DE PÁSCOA

 

Paramentos brancos

 

Exatamente como no Natal, é em Santa Maria Maior que se faz a estação desta festa, a maior de todo o ano.

A Igreja não separa nunca Jesus de Maria e glorifica hoje com a mesma apoteose o Filho e a Mãe.

Jesus Ressuscitado dirige-se em primeiro lugar ao Pai, em homenagem de sujeição incondicional, enquanto a Igreja, por seu lado, levanta a Deus um hino de sentido reconhecimento e lhe suplica que venha em socorro dos filhos que lutam com o mundo, o demônio e a carne, a caminho da pátria nova dos céus. Mas para isto é necessário comer o Cordeiro Pascal com os ázimos da virtude, duma vida santa e impoluta. O Evangelho apresenta-nos as santas mulheres correndo ao sepulcro para ungir o Mestre com perfumes. Corramos também com a alegria de ressurgidos a ungir com o nosso amor e a nossa fidelidade à virtude o coração do Mestre, não morto, porque é imortal, mas alanceado, dilacerado pelos crimes do nosso tempo e, possivelmente, da nossa má conduta.

 

Do Evangelho: O anjo apareceu envolto numa túnica branca, diz S. Gregório, para anunciar a alegria da nossa festa. A alvura das vestes representava o brilho e a magnificência da nossa solenidade.

Da nossa? Da nossa e da deles; porque a Ressurreição do Senhor foi e é indubitavelmente a nossa festa, pois reintegrou-nos na vida da graça, e é também a dos anjos, porque reabilitando-nos para o céu preencheu entre eles as cadeiras que a defecção dos rebeldes deixara vazias.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

apresentação do Domingo da Paixão

 

Paramentos roxos

 

“O mistério pascal, diz S. Leão, tem de direito e de fato o primeiro lugar entre as solenidades cristãs. E se é certo que o nosso viver de todo o ano nos devia ir sempre dispondo gradualmente para o celebrarmos de maneira digna e adequada, os dias que vamos atravessar devem incitar-nos a uma devoção mais fervorosa, porque, tenhamo-lo presente, aproxima-se a solenidade do mais divino mistério da divina misericórdia”. Este mistério é o da Paixão e Ressurreição do Salvador; Pontífice e Mediador do Novo Testamento, Jesus vai subir em breve o patíbulo da Cruz e apresentar ao Pai, ao penetrar no Sancta Sanctorum dos Céus, o preço do nosso resgate na moeda batida e cunhada com o Sangue do seu sacrifício.

“Eis, canta a Igreja, que resplandece o mistério da Cruz em que a Vida morreu, mas de tal sorte que morrendo nos deu a vida”. A Eucaristia é o memorial deste amor imenso de Deus aos homens, porque o Senhor ao instituí-lo disse: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós. Este é o cálice da nova aliança no meu sangue. Fazei isto em memória minha”. E para corresponder a toda esta bondade divina, que fez o homem? “Os seus não O receberam, diz São João, e pagamos com mal o bem que nos fez”, retribuímo-lo com ultrajes, “desonramo-lo”, como Ele mesmo se queixou.

O Evangelho nos mostra, com efeito, o ódio crescente do Sinédrio. Abraão, pai do povo de Deus, acreditara firmemente nas promessas divinas que anunciavam o Salvador e no limbo a sua alma alegrou-se ao vê-las realizadas com a vinda do Messias. Mas os judeus, que deviam reconhecer em Jesus Cristo o Filho de Deus, maior que Abraão e os profetas, não quiseram entender o sentido das palavras, e depois de o maltratar por todos os meios que a malícia pode inventar, tentaram apedrejá-lo. No entanto, Jesus domina-os com todo o poder da sua personalidade divina, porque, como diz Jeremias, foi estabelecido como uma cidade fortificada, cingida com muralhas de ferro e de bronze na face dos reis da Judéia, dos príncipes dos sacerdotes e do povo. “Hão de te combater, mas não te vencerão porque eu estou contigo para te salvar”. Quanto a mim, dissera o Salvador, não busco a própria glória mas há quem a busque e julgue. E pela boca do salmista continua nestes dolorosos acentos: “Julgai-me, Senhor, e discerni a minha causa da deste povo ímpio. Livrai-me do homem perverso e enganador. Livrai-me dos meus inimigos, arrancai-me das mãos do homem violento e de vontade pervertida”. Deus, com efeito, não permite que os homens façam mal ao Senhor antes de chegar a sua hora. E quando a hora da imolação chegar, virá a da glorificação também, a da ressurreição.

Esta morte e ressurreição predisseram-na os profetas e simbolizou-a Isaías. Foi vontade de Deus que Jesus passasse pela humilhação, pelo sofrimento e pela morte, antes de entrar na glória. Os judeus, porém, cegos pela paixão, esperavam um Messias glorioso e, escandalizados com a Cruz de Jesus, rejeitaram a salvação. Foi por isso que Deus os rejeitou e acolheu com benevolência aqueles que esperam na Cruz do Salvador; porque, diz São Leão, a esperança da vida eterna é coisa certa e segura para todos os que participam da Paixão do Senhor. E agora que vamos comemorar a Paixão do Senhor, pensemos que para participar dos seus benéficos efeitos é necessário lutar e sofrer. Só o que lutar será coroado.

 

Do Evangelho: “As palavras que o Senhor proferiu são verdadeiramente terríveis. Aquele que é de Deus ouve a palavra de Deus. E se vós a não ouvis é porque não sois de Deus”

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

apresentação do quarto domingo da quaresma

A multiplicação dos pães, figura da Páscoa cristã.

 

Paramentos roxos ou cor de rosa

 

Nesta semana lê-se no Breviário a história de Moisés. Duas ideias principais a dominam toda. Por um lado, Moisés retira o povo de Deus do cativeiro e o faz atravessar o Mar Vermelho; por outro lado, dá-lhe de comer o maná no deserto, dá-lhe a Lei no Sinai, e o conduz à terra prometida onde se erguerá um dia Jerusalém, a cidade santa que regurgitará com as tribos vindas de todo o Israel para cantar os louvores de Jeová. A Missa de hoje nos dá a realização dessas figuras. O verdadeiro Moisés, com efeito, é Jesus Cristo, que nos resgatou do cativeiro da lei e do pecado, nos fez passar pelas águas do Batismo, nos alimenta no deserto da existência terrena com o verdadeiro maná, a sua carne, e nos introduziu na terra prometida que é a Santa Igreja.

A estação de hoje congregava-se na Igreja de Santa Cruz de Jerusalém, velho palácio romano que Santa Helena transformou em santuário para nele guardar as relíquias da Cruz descoberta no Calvário e representar no coração da capital do Cristianismo a cidade de Jerusalém e os lugares santos.

E, de fato, a escolha desta basílica impunha-se para cantar as alegrias e grandezas da nova Jerusalém, que é simultaneamente a Igreja da Terra e a Cidade dos Céus, cujas portas o Senhor nos veio com a sua morte abrir. Neste Domingo (Laetare) a Igreja pois congrega aí os fiéis para os fazer experimentar um raio da grande alegria que se aproxima. Era com este sentimento de júbilo que a Igreja benzia outrora a rosa “laetare” e é com ele que ainda hoje reveste de paramentos cor de rosa os ministros do altar. “Regozijai-vos e exultai-vos de alegria” diz o Intróito, porque mortos com Jesus Cristo para o pecado havemos de ressuscitar com Ele. O Evangelho relata-nos o episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, símbolo da Eucaristia e do Batismo1 que são por excelência os sacramentos da ressurreição. E na Epístola, São Paulo procura nos fazer compreender a liberdade dos filhos da Igreja, que é a liberdade de Cristo.

Que a Missa deste domingo, já tão impregnada das alegrias pascais, nos dê coragem para prosseguirmos com generosidade a segunda parte da Quaresma.

Da Epístola: Jerusalém negando-se a receber o Salvador permaneceu sujeita à escravidão da Lei Mosaica. São Paulo compara-a a Agar, a mulher escrava, que dá à luz para a escravidão, e que viverá doravante condenada ao servilismo da terra, a ser uma Jerusalém terrestre, deserdada dos bens do Céu. A Jerusalém celeste, que é a Igreja, é livre, pelo contrário, porque aceitou a lei do amor que Jesus lhe deu. São Paulo compara-a a Sara, a mulher livre de Abraão, que deu à luz o herdeiro da promessa.

Do Evangelho: A multiplicação dos pães é uma figura da Eucaristia. ‘Eu sou o pão da vida’, dizia o Senhor. "Os vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Eu sou o pão que desceu do Céu, para que aquele que Me comer viva eternamente

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. Cristo era figurado, nas catacumbas, por um peixe, porque em grego esta palavra é formada das primeiras letras de cinco palavras que significam Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. Os Padres da Igreja vêm ainda no peixe uma figura dos cristãos, porque eles nasceram na piscina batismal e hauriram na água o princípio da vida espiritual. São Paulo nos lembrará também, na Páscoa, que sendo libertados do velho crescente do pecado, somos o pão ázimo, sob a espécie do que recebemos na Eucaristia.

apresentação do terceiro domingo da quaresma

Jesus expulsa um demônio impuro. E uma mulher exclama “Bem-aventurado o seio que Vos trouxe””

 

Paramentos roxos

 

A assembleia de hoje reunia-se na Igreja de São Lourenço Fora dos Muros, onde descansam os restos de S. Lourenço e de S. Estevão, e que é uma das cinco basílicas patriarcais de Roma. A oração de S. Lourenço pede a Deus a graça de vencermos o ardor da concupiscência com o heroísmo e a tenacidade com que o mártir venceu as chamas do suplício; e a de S. Estevão convida-nos a amar os inimigos e a pedir por aqueles que nos perseguem. Estas duas grandes virtudes, melhor que ninguém as praticou o Patriarca José, cuja história o Ofício desta semana nos relata1. Fugiu às solicitações da mulher de Putifar e perdoou e intercedeu pelos irmãos que o tinham vendido. Mas é como figura de Cristo, sobretudo, que a fisionomia de José toma particular relevo.

Conhecem todos assaz a história de José, vendido pelos irmãos, preso e levado cativo para o Egito, conquistando as graças do Faraó até se lhe sentar à direita, encarregado por ele do governo do reino, para ver em tudo isto os traços da figura, por assim dizer, preexistente de Jesus Cristo nos mistérios da Paixão e Ressurreição. Familiarizados com a simbologia do Antigo Testamento, os nossos maiores amaram-na com predileção e encontravam nela a explicação dos mistérios da Redenção. Quando liam na Bíblia a história de José, o seu pensamento logo voava para o Salvador: “Sou eu José, a quem vendestes. Mas não temais. Que Deus fez tudo para que vos salvasse da morte”. Mais de um texto da Missa de hoje pode colocar-se como uma oração nos lábios de José. Ao cantá-los, procuremos fazê-lo com aquele espírito confiante e profundamente religioso que animou e conduziu todos os passos desta grande figura. O Evangelho apresenta o Senhor a expulsar um demônio do corpo de um possesso. Confiemos n’Ele, porque mais forte que Satanás, vencerá conosco o filho das trevas e coroará a nossa fronte com a liberdade dos filhos de Deus. Aos fariseus que não queriam admitir a Sua missão redentora, declara que já chegou a hora em que o príncipe deste mundo será corrido. Haverá também quem volte atrás, à lama do pecado, mas nem por isso a Sua vitória será menos completa.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. No sacramentário galicano, José é chamado o pregador da misericórdia; e a Igreja, na Solenidade de S. José, proclama especialmente a sua castidade.

Introdução ao segundo domingo da Quaresma

“Este é meu Filho bem-amado, escutai-O” 

 

Paramentos roxos

 

A estação de hoje reunia-se na Igreja de Santa Maria, chamada In Dominica, pelo fato de os cristãos aí se congregarem no Domingo. Era tradição ter sido nela que São Lourenço distribuía os bens da Igreja aos pobres. Era no século V paróquia de Roma.

Como nos três Domingos da Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, são nos 2°, 3° e 4° da Quaresma os textos do Antigo Testamento que formam a trama da composição das missas, de sorte que os séculos passados continuam a preparar-nos para os mistérios da Páscoa. No 2° Domingo da Quaresma, lemos em Matinas a história da benção solene do velho Isaac dada no leito da agonia ao seu filho Jacó. Todos conhecem esta bela página da Escritura. A Abraão e Isaac sucede Jacó, de preferência ao primogênito Esaú, para se tornar o herdeiro e transmissor das promessas e bênçãos divinas. “Sê o senhor dos seus irmãos e que as nações se prostrem diante de ti. Todos os povos serão abençoados em ti e no que nascer de ti” (Gênesis). Os Santos Padres veem no Patriarca Jacó que suplanta o irmão para ser, em vez dele, o objeto dos favores divinos, uma figura de Cristo, o segundo Adão que se torna, em vez do primeiro, o chefe duma humanidade regenerada e abençoada por Deus, aquele em quem o Pai pôs todas as complacências e os povos serão abençoados. Comparando os dois textos, o do Gênesis e o do Evangelho da Missa, facilmente poderemos ver como concordam e se completam no pormenor mais insignificante. Deus abençoou o seu filho revestido da nossa carne, como Isaac abençoou Jacó revestido das vestes do irmão. Santo Agostinho, que olha as peles de cabrito como um símbolo do pecado, diz que Jacó, cobrindo com elas as mãos e o pescoço, é a imagem de Cristo, que, sendo sem pecado, tomou sobre Si os pecados dos outros1.

Isto deixa-nos ver como a história de Jacó é figura de Cristo e da Igreja. E lembremo-nos que Jesus Cristo, o Filho de Deus, que o Evangelho de hoje nos apresenta a transfiguração no Monte Tabor como sendo o objeto das complacências do Pai, solidarizou-se conosco, ao ponto de se vestir “com a carne” e de se deixar morrer por nós para nos tornar coerdeiros da sua glória e filhos queridos do Pai dos Céus. Em Jesus fomos abençoados por Deus — n’Ele que é o mais velho, o primogênito de muitos irmãos.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. O Pontifical oferece-nos, na oração que o Prelado diz ao calçar as luvas, um simbolismo idêntico “Cobri, Senhor, as minhas mãos com a pureza do Homem Novo que desceu dos Céus a fim de que, tendo Jacó obtido com as mãos cobertas de peles de cabrito, a benção de seu pai, possa eu alcançar também a benção da vossa graça, oferecendo-Vos esta vítima de salvação”

apresentação do primeiro domingo da quaresma

“E vieram os anjos e serviram-no”

 

Paramentos roxos

 

Neste domingo que era outrora o primeiro dia da Quaresma, reunia-se a estação na basílica de S. Salvador 1.

Toda a liturgia respira um pensamento de fortificante confiança, desde o Intróito, Gradual e Ofertório até a Comunhão, compostos todos com versículos do Salmo 90 que vem quase por inteiro no Tracto e se repete durante a Quaresma para ser, por assim dizer, o diapasão da vida nova, de bom combate, que devemos levar nestes dias. E não são acaso as lutas do Salvador, que se vão desenrolando diante de nós, para nos encorajar na batalha? A Igreja, pelo menos, assim nos dá a entender, propondo à nossa meditação o Evangelho que refere à tentação de Cristo. Era a missão que empreendera de esmagar Satã que começava, e referi-la a Igreja neste princípio da Quaresma parece querer indicar o verdadeiro motivo de confiarmos na vitória. O Senhor triunfou e a Igreja diz-nos que podemos triunfar com Ele, porque afinal a verdade é que a tentação e o combate que se desenrola em nós e à nossa volta, são a tentação e o combate e também a vitória de Cristo. O nosso esforço é d’Ele, as nossas forças são d’Ele e o nosso triunfo na Páscoa é d’Ele também. Empreendamos, pois, generosamente o bom combate cuja estratégia o Apóstolo em grandes linhas nos traça na Epístola da Missa. Encorajemo-nos com este pensamento de que o progresso espiritual nas almas é a vitória de Cristo que se prolonga e que o combate necessário para a garantir já foi dado. Estes dias da Quaresma são tempo de salvação, são o tempo favorável que nos permite marcar posições definitivas no combate incessante do espírito contra a carne. E a Igreja convida-nos com maternal solicitude a terçar armas neste combate glorioso, para celebrarmos purificados na alma e no corpo o mistério sublime da Paixão do Senhor.

É verdade, diz S. Leão em Matinas, que deveríamos viver sempre diante de Deus com as mesmas disposições requeridas para a condigna celebração dos mistérios pascais. Mas, porque isto é virtude e apanágio de poucos e porque a fragilidade humana tende sempre para o relaxamento, aproveitemo-nos ao menos da Quaresma para recuperarmos o tempo perdido e reparemos, pela penitência e boas obras, as faltas e negligências do outro tempo.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952

  1. 1. A Quarta-feira de Cinzas e os dias subsequentes até o 1° Domingo só mais tarde foram adicionados á Quaresma para completar os 40 dias de jejum.

Introdução ao domingo da Quinquagésima

Jesus disse-lhe: Vê; a tua fé te salvou.” (Evangelho)

Paramentos roxos

A Igreja estuda com particular diligência, nas três semanas da Septuagésima, as grandes figuras de Adão, Noé e Abraão, que respectivamente apelida: pai do gênero humano; pai de numerosa descendência; e pai dos crentes. Já estudamos nos domingos da Septuagésima e da Sexagésima os dois primeiros. Vamos estudar hoje Abraão. Na liturgia ambrosiana o Domingo da Paixão era chamado Domingo de Abraão e liam-se no ofício os responsórios de Abraão. Na liturgia romana o Evangelho desse Domingo é consagrado ainda ao grande patriarca. Mas depois, quando se juntou à Quaresma o Tempo da Septuagésima, reservou-se o Domingo da Quinquagésima para o Patriarca.

Querendo Deus criar um povo para Si e preservá-lo do contágio da idolatria, deu-lhe um chefe que o governasse, a quem chamou Abraão, que quer dizer pai de muitos povos. Retirou-o de Ur, cidade da Caldeia, e conduziu-o para a terra que lhe prometera e guardou-o em todos os seus caminhos. Foi pela fé, diz a Epístola aos Hebreus, que Abraão obedeceu ao apelo divino e partiu para o país que devia receber em herança. Partiu cheio de fé sem saber para onde ia. Foi pela sua fé que chegou a Canaã onde viveu 25 anos como estrangeiro. Foi pela sua fé que já na velhice se tornou pai de Isaac e que não duvidou, à voz de Deus, sacrificá-lo, não obstante, ser o filho único em quem tinha posta a esperança de ver realizar-se a promessa divina duma posteridade numerosa. Bem sabia o Patriarca que Deus era assaz poderoso para ressuscitar lhe o filho de entre os mortos. E por este motivo o recuperou, e isto em figura. De fato, Isaac, escolhido para ser gloriosa vítima de seu pai, foi uma figura de Jesus Cristo. Como Ele, levou às costas o instrumento do sacrifício e foi arrancado miraculosamente às garras da morte. Foi assim que Abraão, com a sua fé, acreditando sem hesitar na palavra de Deus, contemplou de longe o triunfo do Senhor na Cruz e alegrou-se. E foi então que Deus lhe confirmou a promessa: “Porque não recusaste sacrificar-Me o teu filho único, abençoar-te-ei e dar-te-ei uma descendência numerosa como as estrelas do Céu e como as areias das praias”. Estas promessas realizou-as Jesus Cristo com a sua Paixão. Jesus Cristo resgatou-nos, diz São Paulo, e deixou-se morrer na Cruz, a fim de que a benção de Abraão fosse comunicada por Ele aos gentios e recebêssemos pela fé a promessa do Espírito, quer dizer, do Espírito de adoção que nos fora prometido. E é por isso que a oração da 5ª leitura do Sábado Santo nos diz que Deus “Pai soberano dos crentes, derramando abundantemente sobre a Terra a graça da adoção, multiplica os filhos da promessa pelo mistério pascal constitui Abraão, seu servo, pai de todos os povos. É com efeito pelo Batismo (que outrora se ministrava na Páscoa e no Pentecostes) que nos tornamos filhos de Abraão e entramos na herança que Deus prometeu a nossos pais e que é a Igreja, simbolizada pela terra prometida”.

A fé em Jesus Cristo, que mereceu a Abraão a prerrogativa de pai dos crentes e nos dá a faculdade de nos tornarmos seus filhos, constitui o tema do Evangelho de hoje. Jesus Cristo anuncia a sua Paixão e triunfo e cura um cego dizendo-lhe: a tua fé te salvou. Este cego recobrou a vista, diz S. Gregório, na presença dos Apóstolos. E isto foi para confirmar a fé dos que não podiam ainda suportar toda a luz da revelação dum mistério celeste. Porque era necessário que, vendo-O mais tarde morrer pelo modo que lhes predissera, não duvidassem de que havia de ressuscitar também. A Epístola por seu lado põe em plena evidência a fé de Abraão. E não é como filhos carnais de Abraão que nos havemos de salvar, mas como filhos duma fé semelhante à de Abraão. Em Jesus Cristo, diz S. Paulo, nem a circuncisão (os Judeus), nem a não circuncisão (os Gentios) valem nada, mas a fé que opera na caridade. “Andai no amor, continua o Apóstolo, naquele amor de que nos amou Cristo”.

Neste domingo e nos dois dias seguintes costuma fazer-se uma adoração solene do SS. Sacramento, denominada, Adoração das 40 horas, pelos excessos cometidos nestes dias. Foi instituída por S. Antonio Maria Zacaria († 1539) e enriquecida com numerosas indulgências por Clemente XIII.

 

Do Evangelho: Este cego de que nos fala o Evangelho representa sem dúvida o gênero humano. Depois que foi expulso do Paraíso na pessoa do primeiro homem, ignora as claridades da luz sobrenatural e sofre as consequências do seu erro, mergulhado nas trevas do exílio.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

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