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Crise da Igreja (223)

Dossiê: a Missa de Paulo VI

Pe. François-Marie Chautard

 

 

A missa é o que há de mais belo e melhor na Igreja [...] Assim, o diabo sempre procurou,
através dos hereges, privar o mundo da missa.

Santo Afonso de Ligorio

 

 

A despeito de tal pensamento, Lutero não mascarou sua vigorosa rejeição da Missa: "Quando a Missa for destruída, penso que teremos derrubado o papado! Pois é sobre a missa, como sobre uma rocha, que todo o papado descansa, com seus mosteiros, seus bispados, suas universidades, seus altares, seus ministros e sua doutrina ... Tudo ruirá quando ruir essa missa sacrílega e abominável."1

Para além da virulência da intenção, é evidente o abismo que separa a concepção luterana e a doutrina católica sobre a missa.

Esta oposição parece ter sido consideravelmente diminuída com a reforma do Missal Romano operada por Paulo VI, em abril de 1969. Já em maio de 1969, o protestante Max Thurian, da comunidade de Taizé, afirmava placidamente: "Com a nova liturgia, as comunidades não-católicas poderão celebrar a Ceia do Senhor com as mesmas orações que a Igreja Católica. Teologicamente, é possível.”

Como explicar tal mudança? O novo rito estaria mais próximo da posição protestante? Ou foram os protestantes que mudaram? Duas opiniões, uma, de um católico, outra, um de protestante, favorecem a primeira interpretação. 

Monsenhor Bugnini, principal arquiteto da reforma litúrgica, admitiu com surpreendente simplicidade: "[na reforma litúrgica] a Igreja foi guiada pelo amor das almas e pelo desejo de fazer tudo para facilitar aos nossos irmãos separados o caminho da união, removendo qualquer pedra que pudesse constituir sequer uma sombra de risco de tropeço ou desagrado."2

Os termos utilizados são reveladores: "fazer tudo", "sombra de risco", "tropeço ou desagrado". Para evitar essa “sombra de risco”, Monsenhor Bugnini não negligenciou nada. Seis pastores protestantes foram chamados para ajudá-lo a projetar a nova missa. 

A segunda opinião vem de um protestante. Em 1984, após o indulto do Papa João Paulo II autorizando a celebração da Missa de São Pio V sob certas condições, o jornal Le Monde publicou o seguinte texto, assinado pelo pastor Viot 3

"A reintrodução da Missa de São Pio V (...) é muito mais do que uma questão de linguagem: é uma questão doutrinal da mais alta importância, no centro dos debates entre católicos e protestantes, debates que, da minha parte, julgava felizmente estarem encerrados (...) Muitos dos nossos antepassados ​​na fé reformada de acordo com a Palavra de Deus preferiram ir à fogueira ao invés de assistir esse tipo de missa que o Papa Pio V tornou oficial contra a Reforma. Ficamos, portanto, encantados com as decisões do Vaticano II sobre o assunto e a firmeza de Roma em relação àqueles que não quiseram se submeter ao Concílio e continuaram a usar uma missa que, aos nossos olhos, contraria o Evangelho.”

O pensamento é claro, a linguagem é direta: a irredutibilidade da doutrina protestante e da Missa tradicional permanece. 

A mudança de posição não vem, portanto, dos protestantes, mas do rito católico. Eis a conclusão que precisamos fundamentar em bases sólidas. 

O estudo da missa de Paulo VI não é, pois, de interesse trivial. Esclarecemos, para evitar qualquer mal-entendido, que o exame desse rito cobrirá apenas o texto oficial de 1962, e não as adaptações inacreditáveis, mas infelizmente recorrentes.

Para abordar a reforma do missal litúrgico, procederemos da seguinte maneira [CLIQUE NO LINK PARA LER]: 

1 - Alguns lembretes sobre a doutrina católica. 

2 - O paralelo com a missa de Lutero. 

3 - Deficiências doutrinais da missa de Paulo VI. 

4 - Seus autores. 

5 - O delicado problema de sua validade. 

6 - Consequências morais no comparecimento à missa de Paulo VI.

  1. 1. Citado por Cristiani, Du luthéranisme au protestantisme, 1910.
  2. 2. Todas essas citações foram tiradas de La messe a-t-elle une histoire? , éd du MJCF, 2002, p. 134.
  3. 3. Retornou desde então à Igreja Católica e foi ordenado padre.

Soa o dobre por Notre Dame

Dom Lourenço Fleichman OSB

Acompanhei um pouco a situação em Paris pelos jornais franceses, e me parece importante escrever para os meus fiéis e leitores do site, para lhes falar um pouco sobre esse acontecimento estranho do incêndio de Notre Dame de Paris.

Muitas catedrais, igrejas, mosteiros queimaram em incêndios antes desse. Muitos terremotos derrubaram suas flechas monumentais, como vimos hoje cair a de Paris. 

Mas não posso deixar de considerar que essa destruição tem um caráter diferente. Antes do fogo destruir esta Citadela da Fé católica, há muito tempo já desaparecera o fogo que a levantara há cerca de 1.000 anos atrás.

Quando leio nos jornais os políticos falando de cultura, de Europa, de arte, não posso deixar de pensar na culpa que esses senhores têm por tudo o que foi jogado fora de civilização católica, dos mil anos da Cristandade, da Idade Média. Não posso impedir que brote no coração o ódio por essa Revolução que há 250 anos destrói o que nossos heróis construíram, para pasmo do mundo moderno, pelo simples amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua Mãe Maria, e a sua Esposa, a Santa Igreja  Católica Apostólica Romana.

Não posso deixar de odiar com todas as forças da alma esse Modernismo de Vaticano II, que ainda hoje derruba as simbólicas cruzes da fé nos corações.

Na verdade o mundo moderno e a Igreja modernista não merecem esses monumentos da fé antiga, pois que a repudiaram com desprezo e violência.

Era normal que, na Apostasia Geral em que vivemos, os marcos da fé de outrora fossem desaparecendo, como destruídos foram os Sacramentos, as Orações, o Sacerdócio, as igrejas e tudo o mais que ocupava pela vida interior esses mesmos monumentos.

Mas a vida continua.

Já estão arrecadando o dinheiro da reconstrução. Muito dinheiro. Já anunciaram que reunirão os melhores artífices do mundo para refazer o que foi destruído pelas chamas. De que serve? Levantarão uma Catedral do Pluralismo revolucionário. Cantarão loas à Fraternidade universal. Incensarão a deusa Liberdade no altar da nova Notre Dame. E todos, unidos pela Igualdade sem Jesus crucificado, soltarão fogos no dia da inauguração. 

No limiar da nossa Semana Santa, quando nos preparamos para o luto litúrgico pela Paixão e Morte de Cristo, soa o dobre por Notre Dame.

E mais uma vez choramos a destruição da fé.

Domingo que vem nos alegraremos com Cristo Ressuscitado, e poderemos tratar da nossa salvação eterna, nos nossos esconderijos, nas nossas catacumbas da Tradição.

De “Quaerere Deum” ao Aggiornamento

             

Aldo Maria Valli, 29 de novembro de 2018

 

[Hesitamos em publicar esse texto, escrito pelo vaticanista Aldo Maria Valli, e republicado em Courrier de Rome, pelo tom demasiado condescendente com a situação da Igreja pós-conciliar: trata-se de um conservador, e age como se a Crise da Igreja tivesse começado com Francisco, como se desde o Concílio Vaticano II experimentássemos uma normalidade. 

Os fatos que narra são ilustrativos da disposição de Roma para com a vida religiosa, mas como não ver neles continuidade com a “renovação adaptada” proposta por Vaticano II? Sim, é forçoso admitir que está em curso — e não data de hoje — um verdadeiro combate à contemplação, movida desta vez não por partidários do laicismo, mas por membros da Cúria, gozando da total aprovação do Papa.]  (Continue a ler)

Paulo VI e a auto-demolição da Igreja

Pe. François Marie-Chautard, FSSPX

 

“É preciso reconhecer que o papa Paulo VI trouxe um sério problema à consciência dos católicos.

Esse papa causou mais males à Igreja que a Revolução de 1789”. (Dom Marcel Lefebvre)1

 

Quando em junho de 1963 Paulo VI tomou posse do segundo e terceiro andares do Palácio Apostólico, tradicionalmente reservados ao Santo Padre, tratou de arrumá-los a seu gosto. Amante de arte contemporânea, queria dar um aspecto moderno a seus apartamentos. Tapeçaria e poltronas antigas foram substituídas por tecidos e móveis de estilo recente, os aposentos renovados foram adornados com obras de artistas em voga, e sua capela privada foi transformada no espírito dos anos 60.

A história do seu pontificado revelaria que essa nova decoração era representativa da maneira com a qual o novo papa iria considerar e reger a Tradição da Igreja. (Continue a ler)

  1. 1. Dom Marcel Lefebvre, Carta aberta aos católicos perplexos, Editora Permanência.

O futuro da Igreja e das vocações

O Pe. Davide Pagliarani, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, concedeu uma entrevista exclusiva ao site oficial do Distrito Francês da FSSPX, La Porte Latine, na qual relembra a fecundidade da Cruz para as vocações e as famílias. Ele enfatiza particularmente a necessidade de guardar o espírito autêntico do fundador, Dom Marcel Lefebvre, “um espírito de amor pela fé e pela verdade, pelas almas e pela Igreja”, em face da recente canonização de Paul VI e da promoção da sinodalidade na Igreja.

 

Faz agora cinco meses que o senhor foi eleito Superior Geral da Fraternidade São Pio X, para um mandato de doze anos. Estes cinco meses certamente lhe permitiram uma primeira visão geral sobre a obra fundada por Dom Marcel Lefebvre, em complemento à sua já rica experiência pessoal. Qual a sua impressão e quais as prioridades para os próximos anos?

A Fraternidade é uma obra de Deus, e quanto mais a conhecemos, mais a amamos. Duas coisas mais me impressionaram. Primeiro, o caráter providencial da Fraternidade: ela é o resultado de escolhas e decisões de um santo guiado unicamente por uma prudência sobrenatural e “profética”, cuja sabedoria apreciamos mais e mais à medida que os anos passam e a crise da Igreja se agrava. Depois, pude constatar outra vez que não temos a regalia de sermos poupados: o Bom Deus santifica todos os nossos membros e fiéis mediante os fracassos, as provas, as decepções, em uma palavra, pela cruz e não por outros meios.  (Continue a ler)

Entrevista com o Pe. Davide Pagliarani

INTRODUÇÃO

No último sábado, 15 de dezembro de 2018, o Superior Geral da Fraternidade São Pio X, Padre Davide Pagliarani, concedeu uma admirável entrevista ao jornal austríaco Salzburger Nachrichten, que é classificado pelos especialistas em veículos de comunicação européia como um diário de tendência “cristã e liberal”.

PERMANÊNCIA apresenta aqui a tradução dessa entrevista, na qual o leitor facilmente perceberá duas coisas. A primeira é que cada pergunta do entrevistador, cioso do caráter liberal do periódico austríaco, é uma tentativa de retratar a Tradição como um ajuntamento de teimosos e ingratos, que não sabe corresponder às benevolentes concessões vindas de Roma. Mas também notará a maestria do entrevistado, com respostas tão firmes quanto curtas: simples como a pomba, e prudentes como a serpente.

Para nós é um bálsamo constatar que a obra fundada por Dom Marcel Lefebvre há quase 50 anos, no alvorecer do turbilhão pós-conciliar, segue sendo hoje, como jamais deixou de ser ― apesar do que digam os seus detratores ― o baluarte de defesa da fé sobrenatural, essa fé católica que é afirmada logo no início da entrevista do superior geral.

Peçamos a Nosso Senhor a graça imensa de jamais perder essa mesma fé, há meio século espezinhada por aquela mesma hierarquia constituída para guardá-la e transmiti-la.

_____________

O fundador da Fraternidade São Pio X, Dom Marcel Lefebvre, foi excomungado em 1988 por ter ordenado quatro bispos sem permissão. No ano de 2009, Bento XVI levantou estas excomunhões. O que isso significa para o senhor?

Para nós não mudou nada, pois jamais consideramos que essas excomunhões tivessem fundamento. No entanto, algumas pessoas sentiram-se encorajadas a juntar-se a nós, coisa que até então não ousavam fazer. Isso facilitou igualmente nossas relações com alguns bispos e com parte do clero, sobretudo com os padres mais jovens.

 

Francisco também fez algumas concessões. O que o senhor ainda espera?

Esperamos aquilo que todo católico pede à Igreja no seu batismo: a fé. A revelação divina está encerrada, é dever do Papa transmitir fielmente o depósito da fé. O Papa deve, pois, pôr um fim à terrível crise que agita a Igreja há 50 anos. Esta crise foi desencadeada por uma nova concepção da fé centrada sobre a experiência subjetiva de cada um: julga-se que o indivíduo é o único responsável pela sua fé e pode livremente optar por qualquer religião, sem distinção entre o erro e a verdade. Ora, isso contradiz a lei divina objetiva. (Continue a ler)

Catecismo das verdades oportunas: os acordistas

Pe. François-Marie Chautard, FSSPX

   

1) Quem são os acordistas ?

Os que chamamos de acordistas são as comunidades, os padres e os fieis que, inicialmente, decidiram defender a Tradição, mas depois das Sagrações de 1988 e da “excomunhão” fulminada contra Dom Marcel Lefebvre, Dom Antônio de Castro Mayer e os quatro bispos sagrados, decidiram pôr-se sob a dependência efetiva da hierarquia atual, conservando a liturgia tradicional. Eles, portanto, fizeram um acordo com a Igreja Conciliar.

Por extensão, o vocábulo de “acordistas” designa as comunidades, os padres e fieis que conservam a liturgia tradicional, mas aceitam os principais erros conciliares, assim como a plena validade e legitimidade da missa nova de Paulo VI e dos sacramentos promulgados e editados por esse Papa.

“Dom Gérard, em sua declaração, baseia-se nas concessões que lhe fizeram e aceita pôr-se sob a obediência da Roma modernista, que no fundo permanece  anti-tradicional” 1. (Continue a ler)

  1. 1. Mons Lefebvre, carta de 18/08/1988 ao padre Tomás de Aquino

Breve anotações sobre a nova doutrina bergogliana sobre a pena de morte

Pe. Mauro Tranquillo, FSSPX

 

Já analisamos aqui o fundo modernista da nova doutrina do Papa que condena a pena de morte. Vimos que, ao contrário, a doutrina da Igreja, fundada sobre a Revelação, a considera lícita. Ainda assim, falta fazer algumas outras observações sobre o escrito pontifício de 01/08/2018 e o discurso que o anunciava em 11/10/2017.

1. Em 1962, para mudar a doutrina (liberdade religiosa, ecumenismo, colegialidade, etc) foi preciso um Concílio ecumênico. Ainda em 2016, para dar a comunhão aos divorciados recasados, foi preciso um sínodo. Este enésimo vulnus  formal no ensinamento da Igreja se fez, ao contrário, com um simples ato administrativo de uma Congregação Romana, depois de uma audiência com o Papa. Além disso, não constam até o momento reações ou “dúbia” de prelados “conservadores”. (Continue a leitura)

Paulo VI (1887-1978), um novo santo?

Pe. Thierry Gaudray, FSSPX

 

No dia 5 de agosto passado, o Papa Francisco falou à multidão reunida na praça São Pedro para a oração do Angelus: “Há quarenta anos, o Beato Papa Paulo VI estava vivendo as suas últimas horas nesta terra. Morreu, de fato, na noite de 6 de agosto de 1978. Recordemos dele com muita veneração e gratidão, à espera da sua canonização, em 14 de outubro próximo. Do céu interceda pela Igreja, que tanto amou, e pela paz no mundo. Este grande Papa da modernidade, o saudemos com um aplauso, todos!

Não há dúvida que, ao canonizar Paulo VI, após tê-lo feito com João XXIII e João Paulo II, Francisco tem a intenção de confirmar os católicos nas novas orientações tomadas pela Igreja desde o Concílio, e dar um novo lustro à liturgia reformada1. Paulo VI foi, de resto, o primeiro papa a lançar mão da canonização dos santos para avalizar o Concílio, anunciando, no dia 18 de novembro de 1965, antes do seu término, portanto, a introdução das causas de beatificação de Pio XII, mas também de João XXIII2. (Continue a leitura)

  1. 1. Junto com a missa dita de São Pio V, qualificada de ‘rito extraordinário’, haverá a de “São Paulo VI”
  2. 2. Yves Chiron, Paul VI, le pape écartelé, p. 247, édition Perrin.

Pena de morte, modernismo e Papa Francisco

Pe. Mauro Tranquillo, FSSPX

Com uma mensagem ex audientia Sanctissimi, a Congregação da Doutrina da Fé nos informou que um outro elemento da religião católica deve se considerar modificado oficialmente: a doutrina sobre a licitude da pena de morte.

O Catecismo publicado por João Paulo II, mesmo contendo inovações conciliares, ainda admitia (ainda que de maneira mais teórica) que a autoridade estatal pudesse cominar a pena capital em casos gravíssimos. Ao contrário, a modificação do número 2267 do referido catecismo nos diz que, contrariamente ao afirmado no passado, “a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que ‘a pena de morte é inadmissível porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa’ e se empenha com determinação na sua abolição em todo o mundo” Especifica-se, seguindo a doutrina conciliar, que a dignidade humana nunca se perde, nem mesmo por crimes gravíssimos (Santo Tomás ensinava o oposto).

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