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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Parte III: A Igreja profética na Amazônia: desafios e esperança

Em certo sentido, trata-se da parte mais revolucionária de todo Instrumentum Laboris, pois é aqui que, manipulando noções mal compreendidas, busca-se provocar uma mudança completa na Igreja. Um grande sofisma sustenta o projeto, e gira em torno da noção de inculturação: 

Daquele encontro e diálogo entre as culturas surgiram novos caminhos do Espírito. Hoje em dia, a Igreja perscruta novos caminhos no encontro e diálogo com as culturas amazônicas.”

Trata-se evidentemente de uma manipulação do conceito de inculturação: a idéia correta é aquela de que, quanto se traz o Evangelho a um povo distante e diferente dos povos europeus, tem-se em conta na homilética, na catequese, na explicação da doutrina e da moral, na utilização da linguagem, o atraso, o aspecto primitivo ou a falta de cultura da população com a qual se lida. É claro que, numa aldeia pagã de pigmeus africanos, provindos de um culto animista, eu não utilizarei os termos “hipostase" ou “substância primeira”. Mas, quanto à substância daquilo que é ensinado e praticado, nada deve ser reduzido ou modificado: o mesmo Evangelho, a mesma Missa e a mesma moral. Da cultura nativa, respeitaremos todos os costumes e usos que são neutros ou não nocivos à vida da graça. Por conseguinte, se as tradições locais, no tocante ao matrimônio, prevêem, por exemplo, que o homem se afaste da aldeia durante uma semana antes do dia do casamento, esse costume poderá ser respeitado e mesmo, pouco a pouco, “cristianizado”, ao se fazer desse momento uma ocasião de orações e recolhimento. Do mesmo modo, a alimentação, o vestuário, as tradições familiares e as relações de consaguinidade, os costumes jurídicos e penais, tudo o que não repugna à razão nem lesa à caridade, tudo o que é digno sempre foi respeitado pela Igreja, que sempre agiu para que todos os povos católicos espalhados pelo mundo partilhassem, por um lado, uma mesma fé e uma mesma doutrina, uma mesma liturgia e uma mesma moral; e de outro, conservassem as inúmeras características dos seus usos e costumes próprios, conjugando em grande harmonia a universalidade da fé e a particularidade dos costumes, tudo transfigurado pela caridade.

Mas a inculturação não significa, de modo algum, que a Igreja deva tocar em qualquer coisa que constitua a sua identidade (dogma, moral, liturgia, sacramentos, ministérios) a partir do encontro com os povos que ela evangeliza. Mas o Instrumentum Laboris desenvolve precisamente essa idéia: o encontro entre a Igreja e as culturas amazônicas é apresentado como um encontro em pé de igualdade, onde é sobretudo a Igreja quem aprende ("Daquele encontro e diálogo… surgiram novos caminhos do Espírito. Hoje em dia, a Igreja perscruta novos caminhos…”).  

Assim, a "Igreja em saída" amazônica poderá e deverá inovar, tornar-se nova no sentido absoluto do termo. Os redatores também nos dizem como ela será:

"Uma Igreja com rosto amazônico, em seus pluriformes matizes, procura ser uma Igreja “em saída” (cf. EG, 20-23), que deixa atrás de si uma tradição colonial monocultural, clericalista e impositiva, que sabe discernir e assumir sem medo as diversificadas expressões culturais dos povos. O referido rosto nos alerta para o risco de “pronunciar uma palavra única [ou] propor uma solução que tenha um valor universal” (cf. OA, 4; EG, 184). Sem dúvida, a realidade sociocultural complexa, plural, conflituosa e opaca impede que se possa aplicar “uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos” (EG, 40). Por conseguinte, a universalidade ou catolicidade da Igreja se vê enriquecida pela “beleza deste rosto pluriforme” (NMI, 40), das diferentes manifestações das Igrejas particulares e de suas culturas, formando uma Igreja poliédrica (cf. EG, 236).” (o sublinhado é nosso)

Assinalamos o mais importante: profetiza-se a fragmentação da doutrina da Igreja católica em uma multidão de convicções diferentes, como se o catolicismo não se fundasse essencialmente na partilha de um único depositum fidei. Claro que, numa perspectiva panteísta e imanentista, verdadeiramente neo-pagã, como essa que respiramos em todo o documento, a multiplicidade de crenças torna-se legítima, sem que essa contradição inquiete os redatores do documento e as autoridades romanas, a começar pelo Papa, que aprovaram tudo. De resto, é próprio da sensibilidade pagã aceitar uma multidão de deuses e crenças, sem perceber o quanto tudo isso é absurdo, mesmo desde um ponto de vista filosófico, racional.

Do mesmo modo, afirma-se que é preciso "Transpor posições rígidas que não têm suficientemente em consideração a vida concreta das pessoas, nem a realidade pastoral, para ir ao encontro das necessidades concretas dos povos e das culturas indígenas.”

Aqui, como em Amoris Laetitia, percebe-se perfeitamente a idéia completamente modernista de Igreja subjacente ao documento: com efeito, para o modernismo, nada é mais detestável do que uma doutrina imutável, uma lei moral que não admita exceções e que não evolua com o tempo. Porque, como no modernismo a fé é um sentimento que brota do inconsciente do indivíduo e das pessoas para satisfazer as suas exigências íntimas e seus desejos mais pessoais, é evidente que, numa tal perspectiva, torna-se “rígida" toda pretenção da Igreja Católica de propor dogmas imutáveis. Assim, enquanto que o verdadeiro apostolado católico sempre consistiu em conquistar o coração dos povos catequizados, submetendo-lhes luminosamente à força do Evangelho, para os modernistas, da Amazônia ou fora dela, é o Evangelho que tem de se adaptar à “vida concreta das pessoas”. Isso explica o porquê do povo tornar-se um novo “lugar teológico”, porque somente assim se poderá justificar a traição e a falsificação do Evangelho como nova revelação, como revelação que continua ao longo da história. A mutação do dogma se torna virtuosa e não mais sinal certíssimo de heresia.

O delírio desse Instrumentum Laboris parece realmente não ter fim, e continua com afirmações cada vez mais suspeitas. No parágrafo 120 lemos o que segue:

"O Espírito criador que enche o universo (cf. Sb 1, 7) alimentou a espiritualidade destes povos ao longo dos séculos, ainda antes do anúncio do Evangelho, e é Ele que os leva a aceitá-lo a partir de suas próprias culturas e tradições. Este anúncio deve ter em conta as “semente do Verbo”,[56] aí presentes. Reconhece também que em muitos deles a semente cresceu e produziu frutos. Isto pressupõe uma escuta respeitadora, que não imponha formulações da fé expressas a partir de outros pontos de referência culturais, que não correspondem ao seu contexto vital. Mas, pelo contrário, que se ouça “a voz de Cristo que fala através de todo o povo de Deus” (EC, 5)."

No início dessa passagem, diz-se que Deus criador inspirou aos povos amazonenses a sua “espiritualidade”, mesmo antes de que o Evangelho lhes fosse anunciado. Os redatores do texto parecem estar possuídos de uma visão naturalista do homem, que borra o dogma do pecado original e esquece o domínio que Satanás exercia e exerce sobre os povos não resgatados pela graça e pela adesão ao Evangelho. Assim, a grande maioria dos crentes e das práticas religiosas indígenas, bem como as dos povos Mezoamericanos descobertos pelos Espanhóis (Astecas e Incas), faziam parte de um verdadeiro culto satânico, fundado sobre contínuos e abomináveis sacrifícios humanos ao “deus” sol. A aberração desses sacrifícios e seu grande número (em certos casos, é dito que dezenas de milhares de pessoas era sacrificadas de uma só vez) eram tais, que serviam de fundamento da sua sociedade, sendo origem de incessantes guerras de razzias para procurar prisioneiros para os sacrifícios, e deram nascimento a regimes de fato escravagistas e incrivelmente opressivos (ver o capítulo sobre os Incas em I. Safarevic, Il comunismo come fenomeno storico mondiale, ed. Effedieffe).

Dito de outro modo, as civilizações Mezoamericanas fundavam-se n  dominação de uma casta de sacerdotes-astrólogos-bruxos  que, além de derramar rios de sangue nos sacrifícios humanos, liam as estrelas, dando vida a regimes fatalistas e supersticiosos que são o oposto da civilização cristã. Portanto, não basta recorrer à categoria gasta das “sementes do Verbo”: é preciso discernir, tendo em vista de que lá onde o Evangelho não é anunciado, e onde Cristo não reina, só pode reinar o príncipe deste mundo, que desvia os povos e os faz cair no vício. A visão irenista e apaziguadora da “espiritualidade" dos indígenas que o texto do IL entretém está completamente fora de lugar.

Mas o que o documento afirma na sequência é ainda mais grave:

É preciso captar aquilo que o Espírito do Senhor ensinou a estes povos ao longo dos séculos: a fé no Deus Pai-Mãe Criador, o sentido de comunhão e a harmonia com a terra, o sentido de solidariedade para com seus companheiros, o projeto do “bem viver”, a sabedoria de civilizações milenárias que os anciãos possuem e que influi sobre a saúde, a convivência, a educação, o cultivo da terra, a relação viva com a natureza e a “Mãe Terra”, a capacidade de resistência e resiliência, em particular das mulheres, os ritos e as expressões religiosas, as relações com os antepassados, a atitude contemplativa e o sentido de gratuidade, de celebração e de festa, e o sentido sagrado do território. A inculturação da fé não é um processo de cima para baixo, nem uma imposição externa, mas um mútuo enriquecimento das culturas em diálogo (interculturalidade) (…) Reconhecer a espiritualidade indígena como fonte de riqueza para a experiência cristã.

Note-se:

— Deus torna-se “Mãe" para promover o advento do novo culto ecologista da terra, vista justamente como “mãe”;

— O território se torna sagrado, ou seja, a natureza é divinizada numa ótica panteísta.

— O catolicismo é posto em pé de igualdade com a espiritualidade indígena que deve enriquecê-lo.

 

Destruir a Igreja católica

Uma sanha destrutiva permeia esse documento em que o ódio pela Igreja Católica é mal dissimulado. Assim, uma grande quantidade de idéias terríveis estão formuladas nas últimas páginas. Resumamos, por uma questão de brevidade, as mais graves:

— Introduzir uma liturgia inculturada e fortemente marcada pelos usos indígenas (cores, vestimentas, dansas, cantos “em comunhão com a natureza”. 

— Resolver a falta de padres pela alteração dos critérios de seleção e de preparação.

— Tornar os sacramentos acessíveis a todos: "Pede-se para superar a rigidez de uma disciplina que exclui e aliena, em prol de uma sensibilidade pastoral que acompanha e integra”.

— Repensar o sacramento da Ordem, separando-o do poder de governo.

— Para as zonas mais remotas, estudar a liberação do celibato por meio da ordenação de “viri probati” que tenham uma família.

— "Identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazônica.

— Pede-se ainda "Que a Igreja acolha cada vez mais o estilo feminino de atuar e de compreender os acontecimentos.”

Não escapa a ninguém que se os revolucionários lograrem obter para a Amazônia a aceitação de padres casados e de mulheres diaconisas, em pouco tempo todas as regiões do mundo nas quais faltam padres, como por exemplo a Europa, poderão recorrer a esse precedente para introduzi-los por sua vez. Trata-se de criar na Amazônia um precedente para que a prática seja generalizada logo após.

Em seguida, de modo bastante ingênuo, o texto revela o grande modelo no qual a Igreja deve se inspirar: as seitas protestantes (nós sabemos, de resto, que o Papa é amigo de muitos protestantes). Eis o tom com que o IL exalta a sua atuação na floresta amazônica, na qual os grupos protestantes, como em toda a América do Sul, afastam milhões de fiéis da Igreja Católica desde o Vaticano II:

Trata-se [os pastores protestantes - ndr] de pessoas como as outras, fáceis de encontrar, que vivem os mesmos problemas e se tornam “mais próximas” e menos “diferentes” para o resto da comunidade. Elas nos mostram outro modo de ser Igreja, onde o povo se sente protagonista, onde os fiéis podem expressar-se livremente, sem censuras, dogmatismos, nem disciplinas rituais.

Com efeito, após ter exaltado a religiosidade pagã animista, sentia-se a falta de uma piscadela aos protestantes: o fato de serem heréticos que há cinco séculos divulgam a heresia e o seu ódio pela Igreja Católica no meio dos povos católicos parece não inquietar os redatores do documento, nem os bispos sul-americanos. Ao contrário, os heréticos protestantes nos mostram um outro modo de ser Igreja (evidentemente melhor), em que não há mais “dogmatismos, nem disciplinas rituais”. Sendo assim, estamos todos formalmente convidados, não apenas a nos voltarmos para o culto da Deusa Terra, a Grande Mãe, e regressarmos ao panteísmo, mas também a nos tornarmos um pouco mais protestantes, modelo de igreja que mais cresce e é apreciada pelos indígenas. 

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