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Meditações e sermões (57)

Naquele dia

Pe. Luis Cláudio Camargo - FSSPX

“Naquele dia os montes destilarão doçura e das colinas manará leite e mel. Porque virá o grande Profeta que renovará Jerusalém. E tu, Belém, terra de Judá, não serás a menor, pois de ti sairá o Rei que virá para reger meu povo Israel”.

 

 “Na Igreja latina – diz Dom Guéranger em seu livro “O ano litúrgico”1 – dá-se o nome de Advento2 ao tempo destinado pela Igreja à preparação dos fiéis para a celebração da Festa do Natal, aniversário do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. O mistério deste grande dia merecia, sem dúvida, um prelúdio de oração e penitência. Contudo, é impossível assinalar com precisão a instituição primeira deste tempo de preparação, que recebeu mais tarde o nome de Advento”.

O Advento é, então, o tempo da preparação para a vinda de Nosso Senhor. Tempo de preparação, de espera, de penitência curiosamente misturada com alegria. 

Santo Tomás, em um sermão que pronunciou no 1º Domingo de Advento, em Paris, por volta de 1270, comentando as palavras do profeta Malaquias – “Eis que teu Rei vem a ti com mansidão” – diz: “Para não cair em nenhuma ambigüidade, deveis saber que a vinda de Cristo pode entender-se de quatro maneiras: Sua vinda à carne ou Encarnação; Sua vinda a nossa alma; Sua vinda no momento da morte dos justos; Sua vinda final para julgar todos os homens”. 

Na liturgia apresentam-se todos estes aspectos de modo muito profundo. Dizia também Santo Tomás que por cada uma destas vindas de Cristo, a Igreja celebra os quatro domingos do Advento. (Continue a ler)

  1. 1. G. Oudin et Cie, Editeurs. 1911.
  2. 2. Do latim Adventus, que significa Vinda. Dá-se ao exercício de preparação o nome do próprio acontecimento a que se propõe preparar.

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Media Vita

Pe. Luis Cláudio Camargo - FSSPX

 

Eis aqui que no meio da vida nos assaltou a morte. 

Que auxilio procurar, senão a Vós, Senhor, que por nossos pecados com razão vos irritais?

Deus Santo, Deus forte, Salvador misericordioso, não nos entregueis à morte amarga. 

Em Vós nossos pais esperaram; esperaram e livraste-los. 

A Vós clamaram nossos pais; clamaram e não foram confundidos 1.

 

Introdução

A preparação litúrgica para a festa da Páscoa se divide em muitas partes. Inicia-se com o tempo da Septuagésima (preparação remota que compreende três domingos) e se prolonga com o tempo da Quaresma propriamente dito (que compreende quatro domingos). Com a aproximação da festa principal do ano litúrgico nos deparamos com o tempo da Paixão (preparação imediata com dois domingos: 1º Domingo da Paixão e Domingo de Ramos). No fim desta última semana - Semana Maior- estão os dias mais importantes do ano: Quinta Feira Santa (Instituição da Eucaristia), Sexta feira Santa (Morte de N. Senhor), Sábado Santo (Vigília Solene) e o Domingo da Ressurreição.

Uma análise de todos os textos litúrgicos seria de grande interesse, porém, nos parece importante, antes de entrar em tal análise, fazer o leitor encontrar os pontos de unificação de todos esses elementos. A prática das penitências quaresmais é certamente um dos principais. Queremos no presente artigo atrair a atenção sobre este ponto tão crucial. (Continue a leitura)

  1. 1. Responsório do tempo da Septuagésima.

O Presente Natal da Virgem Maria

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Desde o início do Advento temos meditado nos mistérios da Virgem Maria. Escolhi Nossa Senhora como objeto de nossa preparação ao Natal e tenho procurado acompanhá-la em todos os cuidados e prerrogativas com que foi agraciada por Deus. 

A vida extraordinária da Mãe de Deus começa com o mistério da sua concepção imaculada, preservada que foi do Pecado Original. Consideramos este primeiro pecado transmitido a todos os filhos de Adão e Eva como um óbice, um obstáculo à graça divina introduzido na alma de todos os filhos de Adão e Eva, por modo de geração. Todas as almas criadas por Deus para animar um corpo concebido neste mundo trazem essa tara, esse defeito inicial, pelo fato mesmo de terem sido gerados. Como a natureza humana em Adão e Eva deixou o Jardim do Éden ferida e decaída, tendo perdido a graça e também os dons preternaturais, era natural que todos nascessem sem o domínio da razão sobre as concupiscências. A natureza humana, depois do pecado, perdeu seu estado de integridade, tornando-se decaída. Além desse estado de miséria que nos arrasta tantas vezes ao pecado, Deus quis que nascêssemos todos com a mancha daquele pecado que nossos primeiros pais cometeram desgraçadamente. (Continue a ler)

Panegírico de São Francisco de Assis

 Bossuet

(Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665)

Sublime e celeste loucura de São Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas delícias nos sofrimentos, a sua glória na humilhação.

Si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc saeculo, stultus Fiat ut sit sapiens.

"Se no meio de vós há alguém sábio segundo o século, faça-se louco para ser sábio" (1Cor 3, 18).

O Salvador Jesus Cristo, cristãos, deu um amplo assunto de discussão, ainda que de modo bem diverso, a quatro sorte de pessoas: aos judeus, aos gentios, aos hereges e aos fiéis. Os judeus, preocupados com essa opinião mal fundada do Messias vir ao mundo com pompa real, prevenidos por essa falsa crença, aproximam-se do Salvador. Viram-no reduzido à mais completa simplicidade, sem nada do que impressiona os sentidos, um pobre homem sem fausto e sem glória: desprezaram-no. “Jesus lhes era um escândalo: Judaeis quidem scandalum, diz o grande apóstolo[2]. Os gentios por sua vez, que se tinham por autores e senhores da boa filosofia, e que, desde longos séculos, viram brilhar no meio deles os espíritos mais célebres do mundo, quiseram examinar a Jesus Cristo segundo as máximas recebidas pelos sábios da terra. Mas, ouvindo falar de um Deus feito homem, que vivera miseravelmente, que fora pregado em uma cruz, fizeram dele um objeto de escárnio. “Jesus foi para eles uma loucura,” Gentibus autem stultitiam, continua São Paulo.  Leia mais

Sou católico, eis a minha glória

Cravos utilizados na crucificaçãoExiste uma atitude freqüente entre nós e, no entanto, profundamente absurda: o sentirmos vergonha de sermos católicos. A isso se chama respeito humano.

Ora, quem tem vergonha de estar com boa saúde? Quem tem vergonha de possuir um emprego interessante e bem remunerado? Ou uma família amorosa? Ninguém, evidentemente. Ao contrário, sentimos orgulho de nossas riquezas naturais (a saúde, a vida profissional, a família), e temos mesmo a tendência de ostentá-las.

Por que bizarrice do espírito humano, então, acontece de sentirmos vergonha das riquezas sobrenaturais que são nossas, da nossa fé católica, da graça divina? Podemos nos acanhar delas? É incompreensível, e contudo é um mal demasiadamente difundido entre os católicos. 

A falta, o vício que deveria nos ameaçar, em boa lógica, não deveria ser a vergonha, mas antes a jactância, o orgulho. Se sou amigo de um rei, de um homem político, de uma estrela do cinema ou da música, de uma atleta famoso, quero proclamá-lo por cima dos telhados. Por que, então, se sou amigo de Jesus Cristo, Filho de Deus, Rei dos reis e Senhor dos senhores, tenho antes a tendência de escondê-lo? O respeito humano é, em si mesmo, a coisa mais imbecil e inconveniente: e contudo, ele nos paralisa a cada dia.  Leia mais

Não há amor maior

“O meu preceito é este: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Não há amor maior que dar a própria vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,12-14).

 

Nosso Senhor convida seus discípulos a entregar suas vidas a seu amigo. Ele, claramente, ensina que não há amor maior que esse. Seguindo Cristo crucificado, o sacrifício da vida inteira de uma pessoa por amor de Deus, nosso maior amigo, é a maneira mais perfeita de obedecer a Deus. Há muitas maneiras através das quais um homem ou mulher pode aceitar esse mandamento divino da caridade. A vida matrimonial pede, em algum grau, que os esposos sacrifiquem suas vidas por seus filhos e pelo cônjuge. Muitos vivem uma vida celibatária em continência perfeita no mundo, sacrificando suas vidas por alguma obra de caridade. Os soldados também, de uma maneira especial, sacrificam suas vidas pelo seu país. Porém, duas das maneiras mais perfeitas de “entregar sua vida” ao próximo são a vida religiosa enclausurada e a vida de um missionário. Esses dois estados de vida, em essência, construíram a Cristandade.

O missionário edifica a Cristandade de dentro para fora. Da ordem espiritual das almas advém a ordem necessária para o avanço material da sociedade. O verdadeiro objetivo de toda a atividade missionária é a santificação das almas. Apenas após estabelecer a prática geral da virtude, o missionário pode começar a ver os benefícios materiais da sociedade. Se o canibal não parou de comer seu próximo, ou se o bárbaro não parou de guerrear e pilhar os inocentes, não pode haver nenhuma harmonia real ou qualquer tipo de estrutura na sociedade. O pecado e o vício, que são frutos do amor-próprio desordenado, são os elementos mais poderosos de autodestruição em qualquer sociedade. A alma pagã deve, em primeiro lugar, reconhecer que Deus tem o direito de pedir a ele grandes sacrifícios na sua vida pessoal. Apenas então ele será capaz de pensar em seu próximo caridosamente.

É aqui que a vida contemplativa vem em auxílio do missionário. Nenhum ser humano pode entrar no coração do homem. A vida interior de uma alma pertence, exclusivamente, a Deus, nosso Criador. Pelo sacrifício de sua vida inteira, o religioso impetra a Deus pela salvação das almas. Através das orações e dos sacrifícios dos religiosos, Deus adentra a esterilidade da terra inculta das almas e dá-lhes sua graça, usando o missionário como seu instrumento. O missionário não pode adentrar a alma de seu fiel, tampouco pode o contemplativo, mas Deus, como Mestre daquela alma, tem direito de entrada.

Em 1985, Dom Marcel Lefebvre abençoou a clausura das irmãs carmelitas nos Estados Unidos. Em seu sermão, ele explicou a vida de um mosteiro carmelita: “O Carmelo é uma casa de sacrifício e oração”. A casa ilustra a vida comum dos religiosos contemplativos vivendo na “casa” de sua comunidade. O sacrifício de suas vidas inteiras é derramado ao pé da Cruz em união ao sacrifício de Nosso Senhor. Suas mortificações purificam não apenas as suas almas, mas as dos seus próximos. Suas orações são oferecidas pela glória de Deus e pela salvação das almas. Elas unem-se, intimamente, às orações dos padres missionários, quase compartilhando da oração do Pai mencionada pelo profeta Joel: “Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, postos entre o vestíbulo e o altar, e digam: Perdoa, Senhor, perdoa ao teu povo, e não deixes cair a tua herança em opróbrio, de sorte que as nações a dominem”

O Reino de Deus funda-se sobre esse espírito, sejamos nós leigos, religiosos ou missionários. Infelizmente, o mundo moderno, construiu a “Cidade dos homens decaídos” ao negar esses valores. A família moderna pode ter uma casa confortável como moradia, mas eles, frequentemente, não têm um lar familiar. A ideia do sacrifício foi eliminada de suas confortáveis vidas, nas quais o prazer é o único objetivo real de sua existência. A oração foi substituída por reclamações, desespero e uma espécie de zombaria de Deus. Nossa sociedade moderna construiu uma civilização sobre as ruínas da noção católica de Cristandade. Estabelecemos uma morada confortável na qual os pais abortam seus filhos e praticam eutanásia para matar seus próprios pais, na qual a sensualidade do prazer pessoal é o ponto de referência para todas as decisões a serem tomadas, e na qual uma blasfêmia desesperadora zomba de nosso Criador. A “casa de sacrifício e oração” tornou-se um “abrigo de sensualidade de blasfêmia para os desabrigados”.

Nosso Senhor ensina que o Reino de Deus está dentro de nós. Ele também nos ordena buscar, primeiro, o Reino de Deus, e todas as outras coisas nos serão dadas. Para a reconstrução da Cristandade, devemos, primeiramente, estabelecer Nosso Senhor como Rei de nossas almas, tornar-nos seus amigos e entregar nossas vidas a Ele. Devemos viver continuamente na sua “casa de sacrifícios e orações”.

A Cristandade, ou o reino espiritual, é a real edificação da civilização. “Santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita Vossa vontade assim na terra como no Céu...”

(Revista The Angelus, Julho-Agosto de 2020. Tradução: Permanência)

Tenho sede!

Charles Journet

 

Na Quinta-feira Santa Jesus dissera a seus discípulos: “Tenho desejado, ansiosamente, comer convosco esta páscoa, antes de sofrer” 1. Como pôde desejar assim a páscoa na qual vão começar sua agonia e Paixão? A resposta secreta está contida numa só realidade: desde a sua entrada no mundo2, Jesus está devorado e consumido pelo desejo de reparar a ofensa infinita feita a Deus pelo pecado, e abrir aos homens as fontes do perdão prometidas pelo profeta3. A aproximação do suplício sangrento da Cruz, pelo qual todas as coisas na terra e nos céus vão-se reconciliar4, traz-Lhe misterioso reconforto.

A sede do desejo que atormenta a Jesus é salientada por Santo Agostinho nos seus comentários sobre os salmos: “Desejaria o Cristo realmente comer quando procurava os frutos da figueira, para apanhá-los se os encontrasse?” 5. Desejaria Ele, realmente, beber, quando dizia à mulher de Samaria: Dai-me de beber? E quando disse, sobre a Cruz: Tenho sede? Do que teria o Cristo fome? Do que teria sede, senão de nossas boas obras?” 6. E ainda: “Que haverá de mais evidente que os homens devem ser atraídos pelo batismo para esse corpo da cidade de Jerusalém, da qual era imagem o povo de Israel... Até o fim, esse corpo estará sedento: caminha e tem sede. Acolhe multidões nele, jamais, porém cessará de ter sede. Daí provém a palavra de Jesus: Tenho sede, mulher, dá-me de beber. A Samaritana junto ao poço compreende que o Senhor está com vontade de beber e é saciada por Aquele que tem sede. Assim compreende a princípio, e Ele, então, a acolhe quando ela crê. E sobre a Cruz, Ele diz: Tenho sede! Não lhe deram, porém, aquilo do que tinha sede. Era deles que tinha sede, e deram-Lhe vinagre...” 7

Santo Tomás insistirá, ao mesmo tempo, sobre os dois sentidos, um carnal, outro espiritual, do Sitio8: “Se Jesus diz: tenho sede! É antes de tudo, porque morre de morte verdadeira, não da morte de um fantasma. Ainda aqui aparece seu desejo ardente da salvação do gênero humano, conforme diz São Paulo: Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade9. Jesus mesmo dissera: O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido10. Ora, a veemência do desejo exprime-se, muitas vezes, pela sede, como diz o salmista11: Minha alma tem sede do Deus vivo”.

Esses aspectos são especialmente preferidos por Santa Catarina de Siena. “É a fome e a sede do ansioso desejo que Jesus tinha de nossa salvação, escreve ela, que o faziam exclamar sobre o madeiro da Santa Cruz: Tenho sede! Como se dissesse: Tenho sede e desejo de vossa salvação, mais do que vos pode demonstrar o suplício corporal da sede. Sim, porque a sede do corpo é limitada, mas a sede do santo desejo não tem limites” 12. Em outra carta, explica que, se Jesus foi saturado de opróbrios no seu corpo, Ele é insaciável no desejo. Desde o momento da Encarnação, tomou sobre si a Cruz do desejo de fazer a vontade do Pai e de salvar o mundo. É uma cruz mais pesada do que qualquer outra dor corporal. E assim, quando se aproxima o Seu fim, na Ceia da quinta-feira santa, exulta em espírito: o sofrimento do sacrifício, desde então iminente, vai afastar o sofrimento do desejo; por ela, o desejo será atendido13.

Como teria a Santa de Siena compreendido tão intensamente a sede de fazer a vontade do Pai e de salvar o mundo, que dilacerava Jesus na Cruz, se algo dessa chama não existisse nela para devorá-la? Sua carta n. XVI dirige-se a um importante prelado. Com a impetuosidade de seu desejo, fala-lhe dos apaixonados de Deus que, vendo a ofensa que Lhe é feita no mundo e a condenação das criaturas, chegam a perder o sentimento da própria vida. Não fogem dos sofrimentos, mas vão a seu encontro. Glorificam-se deles como São Paulo nas suas tribulações. Oh! Segui este Apóstolo, acrescenta Catarina com audácia. Abri os olhos. O lobo infernal atira-se sobre as ovelhas que pastam nos jardins da santa Igreja. Ninguém ousa arrancá-las de suas presas. Os pastores dormem no amor de si mesmos, na cupidez, na impureza. O orgulho embriaga-os a ponto de não verem que a graça os desertou. Amam-se a si mesmos e não a Deus. Fingem não ver o mal: calam-se e deixam-no crescer. “Ó Pai muito querido! Deste amor de vós mesmo, quero que sejais isento! Eu vos conjuro, fazei que a Verdade primeira não tenha que vos repreender um dia, dizendo: Maldito sejas tu, tu que te calaste!”.

De Maria da Encarnação temos o seguinte relato: sendo ainda ursulina no Convento de Tours, foi transportada, soerguida pelo espírito apostólico e viu a indigência das terras em estado de missão que se abriam diante dela e inflamavam-lhe o desejo: “Por uma certeza interior, via os demônios triunfarem sobre aquelas pobres almas que ele arrebatava do domínio de Jesus Cristo, nosso divino Mestre e soberano Senhor, que, entretanto, os havia resgatado com seu precioso Sangue. Diante da certeza do que via, fui tomada de tal zelo que, não me contendo mais, estreitei de encontro ao peito todas aquelas pobres almas, e apresentei-as ao Pai Eterno, dizendo-Lhe que já estava em tempo de fazer justiça em favor de meu Esposo. Lembrei-Lhe que Lhe prometera todas as nações por herança, e que além do mais, Ele satisfizera, pelo seu Sangue, todos os pecados dos homens... Que embora houvesse morrido por todos, nem todos viviam, como, por exemplo, aquelas almas que eu lhe apresentava e trazia sobre mim. Queria-as todas para Jesus Cristo ao qual, de direito, pertenciam” 14.

Santa Teresinha sentia seu ardor de salvar o mundo identificar-se com o da Igreja eterna: “Queria esclarecer as almas como faziam os profetas, os doutores. Gostaria de percorrer a terra, pregar vosso nome, e plantar sobre o solo infiel vossa Cruz gloriosa, ó meu Bem-Amado! Uma única missão, porém, não me bastaria: queria anunciar o Evangelho ao mesmo tempo em todas as partes do mundo e até mesmo nas ilhas mais distantes. Queria ser missionária, não somente durante alguns anos, mas gostaria de tê-lo sido desde a criação do mundo e continuá-lo a ser até a consumação dos séculos” 15.

Assim os santos, à imitação de Cristo, têm sede da salvação do mundo. O sofrimento redentor do Cristo na Cruz, que exteriormente podemos descrever com acerto, não mostra a sua veemência, suas terríveis exigências senão àqueles que, através dos tempos, consentem em perder-se nela, sem nada reservar para si mesmos. É o mistério da co-redenção que lhes abre as portas supremos do mistério da redenção.

Jesus ora pelo mundo inteiro, se por “mundo inteiro” compreendemos todas as criaturas humanas. Entrega-se por todas e cada uma delas. “Filhinhos meus, diz São João, eu vos escrevo estas coisas a fim de que não pequeis, mas se algum de vós pecar, temos por advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, o justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” 16. Se Jesus envia seus discípulos por toda parte, é a fim de que o mundo creia que o Pai O enviou17. É para que “todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” de que Ele é o único mediador entre Deus e os homens, “que se deu a Si mesmo em resgate para todos” 18. Todos aqueles que forem salvos, sê-lo-ão pela única oração redentora que nos foi dada: a oração de Jesus na Cruz.

Entretanto, Jesus não reza pelo mundo, quando “mundo” significa cidade do mal19. Ele roga contra o mundo. Roga por todos os homens, contra o mundo que está neles, para arranca-los do mundo que neles está, e transferi-los integralmente para a cidade de Deus. Todavia, esta oração mesma de Jesus pode ser recusada. Resisto contra ela, fecho-lhe meu coração. O Amor que vem a mim, primeiramente no presépio, depois sobre a Cruz, posso rejeitá-lo. Eis o inferno. Que este possa ser finalmente preferido por muitos, é a suprema causa da indizível agonia do Salvador.

“Pensava em ti na minha agonia; derramei tais gotas de sangue por ti” 20. Teologicamente, essas palavras são verdadeiras. Na essência divina onde mergulhava a sua visão, Jesus abrangia num só olhar todo o desenrolar concreto da história do mundo. Via, em cada minuto da existência, todas as almas imortais pelas quais intercedia. Conhecia cada pecado, cada ofensa infinita feita ao Amor. Nossas infidelidades de hoje e de amanhã O feriram. Desolaram a sua agonia. Foi por elas que — conscientemente — Ele morreu. Uma que fosse..., e essa já reclamaria a redenção infinita. A agonia de Jesus é assim coextensiva a toda a tragédia humana. Toda a duração do tempo, todas as novas faltas e omissões estão contidas nas profundezas do único instante da Paixão redentora. Ora, se Jesus sofreu pelos pecados que ainda serão cometidos, e que virão até o fim do mundo, então, — e esta verdade é tremenda — sou eu que, pecando amanhã, te-lo-ei posto em agonia há dois mil anos. É um dos sentidos de outro pensamento de Pascal: “Jesus estará em agonia até o fim do mundo: não se pode dormir durante esse tempo”.

Referindo-se àqueles que experimentaram o dom de Deus e renegaram-no depois, a Epístola aos Hebreus, usando de uma palavra misteriosa, declara com autoridade “que eles crucificaram em si mesmos o Filho de Deus e O expõem à ignomínia” 21.

Nossos pecados de amanhã contribuíram para a agonia de Jesus. Em compensação, e isso é verdade, nossas fidelidades de amanhã te-lo-ão consolado. Pio XI assim se expressou, na Encíclica Miserentissimus Redemptor22: “Se a previsão de nossas faltas deixava a alma de Cristo triste até a morte, como duvidar que a previsão de nossas reparações futuras não lhe proporcionava, desde aquele instante, alguma doçura? Não nos diz o Evangelho que sua tristeza e angústia puderam ser consoladas pela visita do Anjo? Aquele Coração muito santo, ferido incessantemente, pela ingratidão do pecado, temos que consolá-lo agora, e nós o podemos, de maneira misteriosa, mas verdadeira. Com razão pôde queixar-se o Cristo, na liturgia, pela boca do salmista, de ser abandonado pelos seus amigos: “Tu conheces o meu opróbrio, minha confusão e minha vergonha. A afronta partiu-me o coração. Esperei que alguém se condoesse de mim e não houve ninguém” 23.

 

(Transcrição parcial da obra “As sete palavras” de Charles Journet).

  1. 1. Lc 22,15.
  2. 2. “É impossível que o sangue dos touros e dos bodes apague os pecados. Eis por que o Cristo, entrando no mundo, disse: Tu não quiseste nem sacrifícios nem oferendas; mas tu me formaste um Corpo. Os holocaustos pelos pecados não te agradaram. Então eu disse: Eis-me que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade”, Hebr. X, 4-7.
  3. 3. “Neste tempo haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e as manchas”. Zacarias, XIII, 1.
  4. 4. Aprouve ao Pai “reconciliar por Ele todas as coisas, pacificando, pelo Sangue de sua Cruz, tanto o que está na terra, como o que está no céu”. Cl 1, 20.
  5. 5. “E no outro dia, ao sair de Betânia, teve fome. E tendo visto ao longe uma figueira que tinha folhas, foi lá a ver se acharia nela alguma coisa. Tendo-se aproximado, nada encontrou senão folhas, porque não era tempo dos figos”. Mr, XI, 13.
  6. 6. Enarr, in Ps. XXXIV, Sermo 2, n.4.
  7. 7. Enarr, in Os. LXI, n. 9.
  8. 8. Commentaire de Saint Jean, XIX, 28.
  9. 9. I Tim., II, 3-4.
  10. 10. Lucas, XIX, 10.
  11. 11. Salmo XLII (XLI), 3.
  12. 12. Epistolário, ed. Misciatelli, Siena, 1913, Carta VIII, t. I, pág. 34.
  13. 13. “Com la pena corporale si cacciava la pena Del desiderio; perocchè vedevo adempito quello che io desideravo”. Carta XVI, t. I, pág. 65.
  14. 14. Ecrits spirituels et historiques, ed. Janet, Paris, 1930, t, II, pag. 310.
  15. 15. História de uma alma, cap. XI. Pouco antes, a Santa se maravilhara de que Deus não “tivesse receado mendigar um pouco d’água à Samaritana. Ele estava com sede! Mas ao dizer: “Dá-me de beber, era o amor de sua própria criatura que o Criador do universo reclamava. Tinha sede de amor!”. Algumas horas antes de morrer, exclamou: “Nunca pensei poder sofrer tanto! Nunca, nunca! Não posso explicar isso senão pelo imenso desejo que sempre tive de salvar as almas” Novíssima Verba, pág. 194.
  16. 16. I João, II, 1-2.
  17. 17. João, XVII, 21.
  18. 18. I Tim., II 4-6.
  19. 19. “Rogo por eles; não rogo pelo mundo, senão por aqueles que me deste, porque são teus” (João, XVII, 10).
  20. 20. Pascal, Pensées, edit. Br., no. 553.
  21. 21. Hebr., VI, 6.
  22. 22. De 8 de maio de 1928.
  23. 23. Salmo LXVIII (LXIX), 20-21. Trad. Do Pe. Matos Soares. Esse salmo é recitado nas Matinas de quinta-feira.

Os cinco setenários

Hugo de São Vitor

Encontrei na Sagrada Escritura, Irmão, cinco septenários e, se me for possível, gostaria – como tu me pedes – de enumerá-los primeiramente um por um, distinguindo uns dos outros. Depois, comparando-os em detalhe, mostrar a correspondência que há entre eles.

 

I. INTRODUÇÃO 

Em primeiro lugar são colocados os sete vícios: primeiro a soberba, segundo a inveja, terceiro a ira, quarto a tristeza, quinto a avareza, sexto a gula, sétimo a luxúria.

Em oposição a tais vícios estão postos os sete pedidos da oração dominical1: primeiro o que nos faz pedir a Deus: “Santificado seja o vosso Nome”; segundo: “Venha a nós o vosso Reino”; terceiro: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”; quarto: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”; quinto: “Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”; sexto: “Não nos deixeis cair em tentação”; sétimo: “Mas livrai-nos do mal”.

Em terceiro lugar seguem os sete dons do Espírito Santo2. Primeiro o espírito de Temor do Senhor; segundo o espírito de Piedade; terceiro o espírito de Ciência; quarto o espírito de Força; quinto o espírito de Conselho; sexto o espírito de Inteligência; sétimo o espírito de Sabedoria.

Em seguida vêm em quarto lugar as sete virtudes. A primeira: Pobreza de espírito, que é a Humildade; segunda: Mansidão ou Benignidade; terceira: Compunção ou Dor; quarta: Fome de Justiça ou Bom Desejo; quinta: Misericórdia; sexta: Pureza de Coração; Sétima: Paz.

Finalmente, em quinto lugar estão dispostas as sete bem-aventuranças. A primeira: O Reino dos Céus; segunda: a posse da Terra dos vivos; terceira: a Consolação; quarta: Saciedade da justiça; quinta: Misericórdia; sexta: a Visão de Deus; sétima: a Filiação divina.

Distingue primeiro estes septenários e compreenderás que os vícios são como doenças que enfraquecem a alma, ou feridas do homem interior; que o homem é ele mesmo como um doente; que o médico é Deus, que os dons do Espírito Santo são o remédio; as virtudes são a saúde e que as bem-aventuranças são a alegria da felicidade.

 

II. OS SETE VÍCIOS

Há, pois, sete vícios capitais ou principais e é deles que nascem todos os males. São as fontes e abismos tenebrosos dos quais os rios da Babilônia têm suas águas, e correm por toda a terra, e repartem gota a gota a iniqüidade. É destes rios que o Salmista falou quando cantava ao povo fiel: “Junto dos rios de Babilônia, ai nos assentamos a chorar, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros daquela terra penduramos as nossas cítaras3 Destes sete vícios devastadores, que corrompem toda a integridade da natureza e ao mesmo tempo produzem rebentos de todos os males, nós só falaremos na medida em que seja necessário para explicar o nosso presente tema.

São, pois, sete, dos quais três dentre eles despojam o homem; uma vez despojado o homem, é flagelado pelo quarto vício; uma vez flagelado o homem, é jogado no chão pelo quinto vício; uma vez jogado no chão o homem, é seduzido pelo sexto vício; uma vez seduzido, o sétimo vício submete o homem à escravidão. A soberba despoja o homem de Deus; a inveja o despoja do próximo; a ira o despoja de si mesmo; a tristeza flagela o homem assim despojado; a avareza o joga no chão; a gula seduz o caído; e a luxúria reduz à escravidão aquele que fora seduzido. Voltemos um pouco e expliquemos em ordem cada um desses vícios

O VÍCIO DA SOBERBA

Nós dissemos que a soberba despoja o homem de Deus. A soberba, com efeito, é o amor da própria excelência, quando a alma ama exclusivamente o bem que ela possui, ou seja, sem Aquele do qual o bem procede. Oh, pestífera soberba, que fazes? Por que convences o riacho de separar-se da fonte? Por que persuades o raio de afastar-se do sol? Senão para que um, cessando de ser alimentado pela fonte, seque; e o outro, no mesmo instante que se separa do princípio da luz, se torne tenebroso? Ambos, pois, cessando de receber aquilo que ainda não têm, perdem imediatamente aquilo mesmo que tinham. De fato, quando tu ensinas a amar o dom fora do Doador, fazes que aquele que recebeu parte do bem reivindique-o perversamente para si, perdendo o bem inteiro que reside no Doador. Não podemos possuir algo com proveito, se não o amamos n’Aquele pelo qual o temos, e como todo bem verdadeiramente procede de Deus, nenhum bem pode ser possuído com proveito fora de Deus. Mais ainda: perde-se até mesmo aquilo que se possui, se não é amado n’Aquele e com Aquele que nos fez possuir o bem.

O VÍCIO DA INVEJA

            Acontece, pois, que aquele que só sabe amar o bem em si mesmo, vendo em outro um bem que ele não possui, é necessariamente atormentado, e tanto mais amargamente quanto não sabe amar Aquele em que reside o bem.

E assim é que a inveja sempre se segue à soberba. Porque aquele que não fixa o seu amor lá onde reside todo bem, quanto mais se vangloria perversamente do seu bem próprio tanto mais gravemente é atormentado pelo bem alheio. A sua altivez recebe, pois, com toda justiça sua própria pena: a inveja que ela mesma engendra. Dado que não quis amar o Bem comum a todos, é justo que se consuma pela inveja do bem alheio. Certamente o feliz êxito alheio não o queimaria, se possuísse Aquele no qual todos os bens residem. Nem mesmo lhe pareceria alheio o bem de outro, se soubesse amar o seu próprio bem lá onde possuiria, a um tempo, o seu bem e o bem do próximo. Mas, pelo contrário, quanto se eleva contra o seu Criador, nessa mesma medida cai por debaixo do próximo pela inveja. Quanto ali se elevou mentirosamente, aqui verdadeiramente é derrubado.

O VÍCIO DA IRA

Mas uma vez começado este processo de destruição não se pode detê-lo aqui. Tão logo a inveja nasce da soberba, ela mesma dá à luz a ira. A alma miserável já se enraivece da sua própria imperfeição, porque não soube alegrar-se, pela caridade, do bem alheio. E, assim, até mesmo aquilo, que tem, começa a desagradar-lhe, ao encontrar no outro o bem que ela não pode ter.

Aquele que poderia ter alcançado em Deus todos os bens pela caridade, perde pela inveja e pela ira o que tentava possuir fora de Deus: depois de ter perdido a Deus pelo orgulho, perde o próximo pela inveja e a si mesmo pela ira.

OS VÍCIOS DA TRISTEZA E DA AVAREZA

Tendo perdido tudo, não lhe resta nada onde a infeliz consciência possa alegrar-se, e ela volta-se contra si mesma pela tristeza. Não querendo piedosamente alegrar-se do bem alheio, é justo que seja cruciada pelo seu próprio mal. Depois que a soberba, a inveja e a ira roubaram o homem, logo em seguida a tristeza lhes segue para flagelar o homem desnudado. À tristeza lhe sucede a avareza, que expulsa o que fora flagelado, pois tendo perdido a alegria interior, é impelido a buscar consolo exteriormente.

OS VÍCIOS DA GULA E DA LUXÚRIA

Apresenta-se, então, a gula, que seduz o expulsado: este vício tenta em primeiro lugar e de modo muito próximo a alma que aspira aos bens exteriores, pois é por meio do próprio apetite natural que ela a convida aos excessos.

Finalmente sobrevém a luxuria, que violentamente reduz à escravidão aquele que fora seduzido. Porque uma vez que a carne foi inflamada pelos desregramentos, a alma amolecida e enfraquecida não consegue vencer o ardor da luxúria que a ataca. A alma torpemente submetida se vê escrava de uma crudelíssima tirania; e não teria meio de levantar-se dessa escravidão que lhe tem cativa se não recorresse e fosse escutada pela bondade do Salvador.

 

III. AS SETE PETIÇÕES DA ORAÇÃO DOMINICAL OPOSTAS AOS SETE VÍCIOS E SUA RELAÇÃO COM OS DONS DO ESPÍRITO SANTO, COM AS VIRTUDES E COM AS BEATITUDES

É por isso que se seguem sete petições opostas aos sete vícios: por meio delas imploramos o socorro d’Aquele que nos ensinou a rezar e que nos prometeu, se rezarmos, dar-nos seu bom Espírito para curar nossas feridas e desatar o jugo de nosso cativeiro. Mas, antes de explicar essas petições, queremos mostrar, por outra comparação, a extensão do dano que engendram em nós os ditos vícios: assim, mais perigosa mostrar-se-á a apatia e mais se imporá a necessidade do remédio.

O coração infla-se pela soberba; torna-se árido pela inveja; racha-se pela ira; é esmagado e como que feito pó pela tristeza; dispersa-se pela avareza; é infectado e umedecido pela gula; é pisoteado e reduzido ao estado de lama pela luxúria. Enfim, o infeliz está em condições de dizer: “estou atolado num lodo profundo, e não encontro onde pôr pé; cheguei a um sítio de águas profundas, e já as ondas me cobrem4. A alma, uma vez atolada nessa lama das profundezas e mergulhada na lama da imundice e da impureza, não pode em absoluto puxar-se para fora, a menos que clame ao Salvador e lhe peça socorro. Daí as palavras do Salmista: “Esperei, esperei no Senhor, e Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor. Tirou-me da fossa da perdição, do pântano lodoso, e assentou os meus pés sobre a pedra5. Eis porque ensinou-nos a rezar, para que todo nosso bem venha d'Ele, para que nós compreendêssemos que o que nós pedimos, bem como o que nós recebemos em resposta ao nosso pedido, é um dom seu, não algo devido que merecemos.

A primeira petição se opõe, portanto, à soberba. Ela faz-nos dizer a Deus: “Santificado seja o vosso nome”. Pedimos que Ele nos conceda temer e venerar seu nome, para que lhe sejamos submetidos pela humildade, já que pela soberba mostramo-nos rebeldes e obstinados. Por essa petição é dado o dom do Espírito Santo de temor a Deus, para que esse espírito, vindo ao coração, crie nele a virtude da humildade, e para que esta virtude cure a doença da soberba6: assim o homem humilde poderá chegar ao Reino dos Céus7, que o anjo orgulhoso perdeu por sua presunção.

A segunda petição opõe-se à inveja. Ela faz-nos dizer “Venha a nós o vosso reino”. Ora, o reino de Deus é a salvação dos homens, pois se diz que Deus reina sobre os homens quando os homens, de sua parte, são submissos a Deus, tanto agora, unindo-se a Ele pela fé, quanto depois, permanecendo unidos a Ele pela visão. Assim, aquele que pede que venha o reino de Deus busca certamente a salvação de todos os homens; por isso, pedindo a salvação comum de todos, mostra sua reprovação ao vício da inveja. Por essa petição é dado o espírito de piedade, para que esse espírito, vindo ao coração, acenda a benignidade; assim o homem chegará ele mesmo à posse da herança eterna, à qual ele deseja ver chegar o próximo8.

A terceira petição opõe-se à ira. Ela faz-nos dizer: “Seja feita vossa vontade assim na terra como no céu”. Aquele que diz “seja feita a vossa vontade” não busca a querela, mas indica que lhe agrada tudo o que a vontade de Deus decide sobre ele e sobre o próximo segundo seu bel-prazer. Por essa petição é dado o espírito de ciência, para que esse espírito, vindo ao coração, instrua-o e coloque-o numa salutar compunção: assim o homem saberá que o mal que ele sofre resulta de suas próprias faltas, e que o bem que ele pode ter provém da misericórdia de Deus; ele aprenderá por esse meio, seja quanto aos males que ele suporta, seja quanto aos bens dos quais é privado, a não se irritar contra o Criador, mas a mostrar-se paciente em tudo. É maravilhoso como, pela compunção do coração, que, sob a ação do espírito de ciência, nasce interiormente da humildade, a ira e o tumulto da alma pacificam-se. Ao contrário, “a ira matou o insensato9, porque, atribulado e cego pelo vício da impaciência no tempo da adversidade, não reconhece nem que mereceu o mal que enfrenta, nem que recebeu por graça o bem que possui. Esta virtude, a compunção ou dor, é recompensada pela consolação: assim aquele que, por livre vontade, aflige-se e geme cá embaixo diante de Deus merece encontrar lá no alto a verdadeira alegria e felicidade10.

A quarta petição opõe-se à tristeza. Ela faz-nos dizer “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. A tristeza é o desgosto e o luto sentidos pela alma quando, amolecida, por assim dizer, e amargurada por seu vício, ela não aspira mais aos bens interiores e que, uma vez que todo seu vigor foi morto, nenhum desejo de restauração espiritual lhe sorri mais. Por conseguinte, para curar esse vício, é preciso que supliquemos ao Senhor misericordioso que apresente à alma apática e desgostosa o alimento que a recomporá interiormente: ausente esse alimento, a alma ignora o apetite por ele; presente, seu sabor relembra-a da realidade e ela põe-se a amá-lo. Por essa petição é, portanto, dado o espírito de força, para que esse espírito recomponha a alma que sucumbe: assim, uma vez retomada a virtude de seu vigor passado, ela encontra forças para sair de seu desgosto e pôr-se a desejar a suavidade interior. O espírito de força cria, portanto, no coração a fome de justiça: poderosamente iluminada cá embaixo pelo desejo nascido da piedade, ela obtém lá no alto como recompensa a saciedade perfeita da beatitude11.

A quinta petição opõe-se à avareza. Ela faz-nos dizer “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. É justo, com efeito, que aquele que não se mostrou avaro na reivindicação do que lhe é devido não duvide da exoneração de sua dívida. Por esse meio, ao mesmo tempo em que somos libertados do murmúrio da avareza pela graça de Deus, a condição posta à nossa salvação instrui-nos sobre a maneira segundo a qual nossas dívidas são perdoadas. Por essa petição é, portanto, dado o espírito de conselho, para que esse espírito nos ensine a exercer de bom coração neste mundo a misericórdia para com aqueles que pecam contra nós: assim, no mundo futuro, quando daremos conta de nossos próprios pecados, mereceremos encontrar misericórdia12.

A sexta petição opõe-se à gula. Ela faz-nos dizer “Não nos deixeis cair em tentação” 13. Essa tentação é aquela que, lisonjeando a carne, esforça-se frequentemente, por meio do apetite natural, em arrastar-nos aos excessos. Ela faz deslizar inadvertidamente à voluptuosidade, embora abertamente nos seduza pelo pretexto da necessidade. Mas, na verdade, nós não somos em absoluto induzidos nessa tentação se nos aplicamos a dar à natureza a medida do necessário, sempre nos lembrando de manter o apetite prevenido contra a lisonja da voluptuosidade. Para que sejamos capazes de agir assim, é-nos dado, por nossa petição, o espírito de inteligência, para que o alimento interior da palavra de Deus contenha o apetite exterior, e que a alma, fortificada pela nutrição espiritual, não se deixe abater pela fome corporal nem vencer pela voluptuosidade carnal. É por essa razão que o Senhor mesmo, quando teve fome, e quando seu tentador sugeriu-lhe enganosamente que se restaurasse com um pão exterior, respondeu-lhe: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que provém da boca de Deus14. Assim, Ele mostrava claramente que, quando a alma é interiormente restaurada por este pão [espiritual], ela não faz muito caso da fome corporal, que, exteriormente, faz com que ela sofra por um momento. Para lutar contra a gula é dado, portanto, o espírito de inteligência, que, vindo ao coração, limpa-o e purifica-o; pelo conhecimento da palavra de Deus, como um colírio, ele cura o olho interior e o torna tão luminoso e claro que  se torna penetrante ao ponto de contemplar até a própria claridade da divindade. Ao vício da gula opõe-se, assim, como remédio, o espírito de inteligência; deste, nasce a pureza do coração; e a pureza do coração é um penhor da visão de Deus, pelo que está escrito: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” 15.

A sétima petição opõe-se à luxúria. Ela faz-nos dizer “Livrai-nos do mal”. Certamente, é normal que o escravo peça sua liberdade. Por essa petição é dado o espírito de sabedoria, apto a devolver ao cativo a liberdade perdida: com a ajuda da graça, ele poderá – o que lhe seria impossível apenas por suas próprias forças – escapar ao jugo de uma injusta dominação. De fato, “sabedoria” (sapientia) vem de “sabor” (sapor): a alma, tocada pelo gosto da doçura interior, recolhe-se toda no interior por efeito do desejo e não se dissipa mais desordenadamente no exterior pela voluptuosidade da carne, porque possui interiormente tudo aquilo em que se deleita. É, portanto, a justo título que, à voluptuosidade exterior, vem opor-se a doçura interior; assim, quanto mais tivermos provado e adquirido gosto e prazer nesta, mais livremente e liberalmente desprezaremos aquela. Assim, o espírito de sabedoria, ao tocar o coração com sua doçura, ao mesmo tempo modera exteriormente o ardor da concupiscência e, uma vez anestesiada a concupiscência, cria interiormente a paz: desde então, enquanto a alma inteira recolhe-se na alegria interior, o homem encontra-se plena e perfeitamente restaurado à imagem de Deus, pelo que está escrito: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filho de Deus16.

Eis aí, irmão. Satisfiz a teu pedido, não como deveria, mas como, no momento, pude. Recebe o humilde presente que pediste sobre os cinco septenários e, quando lhe lançares os olhos, lembra-te de mim. Que a graça de Deus esteja contigo. Amém.

(Tradução: Permanência. Six opuscules spirituels, les éditions du cerf, paris, 1969.)

  1. 1. Mt 6, 9-13.
  2. 2. Cfr. Is 11, 2.
  3. 3. Sl 136, 1-2.
  4. 4. Sl 68, 3.
  5. 5. Sl 39, 2-3.
  6. 6. Pela primeira beatitude acha-se diretamente beatificado o pobre que aceita e ama sua pobreza. Mas, entre as virtudes dessa alma de pobre, encontra-se em primeiro lugar a humildade, e é a ela que Hugo destaca, seguindo Santo Agostinho.
  7. 7. Mt 5, 3.
  8. 8. Mt 5, 4.
  9. 9. Jó 5, 2.
  10. 10. Mt 5, 5.
  11. 11. Mt 5, 6.
  12. 12. Mt 5, 7.
  13. 13. Graças a seu senso do hebraico e a seu conhecimento de São Jerônimo Hugo dá em algumas palavras a interpretação que sugere o tom permissivo da forma verbal aramaica ou hebraica – tom esse que é preservado pela fórmula tradicional usada em português.  [N. do T.]
  14. 14. Mt 4, 5.
  15. 15. Mt 5, 8.
  16. 16. Mt 5, 9.

Necessidade e apetite

Pe. Manuel Bernardes

Perguntado S. Francisco de Assis porque se negava ao necessário para a sustentação da vida humana, respondeu:

— Dificultosa coisa é satisfazer à necessidade do corpo e não obedecer à lei dos apetites.

É muito dificultoso discernir quais são os precisos limites por onde confrontam estes dois vizinhos: necessidade e apetite; porque ambos se fundam na natureza, e o mesmo ramo que leva uns frutos bons ou indiferentes leva outros ruins e venenosos. Quem há de definir ao justo: “Até aqui é necessidade de comer, ou beber, ou dormir, ou conversar, daqui por diante já é vício”?

No Prado Espiritual se conta de um virtuoso monge a quem o seu abade mandou guardar os porcos do convento, que andavam pastando debaixo das azinheiras da mesma casa. Alguns vizinhos, cujas fazendas do mesmo gênero confinavam com aquela, instigados de inveja e malícia, se punham à espreita para, tanto que algum daqueles animais saísse fora dos seus limites, toma-lo por perdido e mata-lo. 

Andando os dias, desejou o monge pastor subir ao seu convento para tomar alguma refeição de espírito com os santos exercícios que costumava. Não tendo, porém, quem por entretanto ficasse de guarda, e confiado na virtude divina, chamou a toda a grei e lhe intimou, da parte do Senhor, que até ele tornar nenhum deles passasse de tal marco, que era os das próprias terras.

Caso maravilhoso!

Tao pontuais obedeceram todos que, em chegando ali em busca da lande, nem um só pé punham fora, e logo voltavam para dentro. Até que os vizinhos, enfadados da espera, entraram, e às vergastadas os procuravam desencaminhar para fora; porém, por muita instância que nisto puseram, nunca puderam conseguir; porque, tanto que os perseguidos animais chegavam ao termo sinalado pelo monge, como se topassem com um muro de pedra e cal, tornavam a fugir para dentro. Reconhecida, enfim a maravilha, pediram aqueles homens perdão do seu depravado intento, contando o caso.

E, aplicando eu este ao nosso, digo que, se os brutos dos nossos apetites foram tais que lhes pudéramos impor semelhante preceito: “Até aqui chegai, até aqui não” — fácil fora largar à natureza o que lhe compete, sem perigo de se desmandar. Porém este mau gado anda solto à bolota, sem distinguir a que é sua da que é alheia; e, quanto mais engorda, mais grunhe. E não se divisam bem os marcos destes dois terrenos. Logo, é conveniente encurtar o da necessidade para que se não confunda com o do apetite.

A esta dificuldade de distinguir o necessário do supérfluo acresce outra, que é de negar o supérfluo e ilícito, se nos não negarmos também em parte no lícito e necessário. Usemos para o declarar de outros símiles:

Quero endireitar uma vara que está torcida. Bastará porventura trazê-la com moderada força até aquele ponto em que fique direita? Não, por certo; senão que é necessário repuxar para a parte contrária, como se a minha tenção fosse, não tirar-lhe o torcimento, senão trocá-lo por outro. Quero passar um rio caudaloso de ribeira a ribeira. Bastará meter a proa em direitura da paragem onde pretendo desembarcar? Não, por certo; senão que é necessário metê-la muito mais arriba, porque a força da corrente me fará insensivelmente vir descaindo.

Pois, assim também para uma pessoa endireitar as suas más inclinações, não basta que procure pôr a natureza em uma mediania razoável, senão que é necessário puxar para o extremo contrário; e, para vir sair com a mortificação ou negação do ilícito, é necessário emproar mais alto, abraçando a negação do lícito. Para que o apetite não peça o almoço que era supérfluo, é bem negar à natureza a ceia que era necessária. Por que o apetite não cobice o alheio, que é ilícito, é bem negar à natureza ajuntar e guarda o próprio, que é lícito.

De semelhante indústria usava São Pedro de Alcântara, que, quando o corpo lhe pedia mais roupa, porque estava frio, tirava o manto e ficava mais frio; e, quando depois lho restituía, já ficava satisfeito e contente com aquilo mesmo que dantes lhe não bastava...

(Nova Floresta, Apetites)

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