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Meditações e sermões (57)

Circuncisão de Nosso Senhor

Esta lei de sangue, esta lei de homens pecadores, não abrange o Filho de Deus, que veio a ser o filho de Maria. Todavia, submete-se à lei; dura, humilhante e impiedosa que seja, ele se submete.
 
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* *
Contai-nos, o suave cordeiro, por que vos submeteis a esta lei? Sobre vós assumis o pecado de todos nós; na vossa carne quereis expiar e reparar as concupiscências e os desregramentos da carne; nossos pecados converteis em vossos pecados, pois que quereis de vossa justiça fazer a nossa justiça.
 
Sede bendito, ó suavíssimo cordeiro, pelas vossas chagas, pelo vosso sangue e pelas dores de vossa circuncisão puríssima e purificante.
 
Recebestes o Santo Nome de Jesus como galardão de vosso sangue. Faça-nos a virtude do sangue precioso amar-vos e falar-vos com amor o Santo Nome – Jesus.

Noite de Natal

 NOITE DE NATAL

Dom Lourenço Fleichman OSB


Noite de Natal. Nossos presépios preparados, aguardando ansiosos a entrada das crianças carregando o Divino Filho para, enfim, completar as imagens piedosas que marcam, todos os anos, nossa adoração.

Noite de Natal. Nossos sinos majestosos, aguardando silenciosos a chegada do Menino Deus para, enfim, soltarem a voz, ressoando pelo mundo o repicar alegre do angélico canto.

Noite de Natal. Vemos São José chegando a Belém, conduzindo sua esposa, Maria, prestes a dar à luz a Luz do mundo. Triste e aflito José.  LEIA MAIS

A Visitação da Bem-aventurada Virgem

2 de Julho
 
Depois da Conceição de Cristo, narra-se ter a bem-aventurada virgem feito três coisas, que representam as três coisas que toda alma santa deve buscar após ter (espiritualmente) concebido o Verbo de Deus: a Virgem subiu a montanha, saudou Isabel e deu graças ao Senhor. O primeiro significa a perfeição das virtudes, o segundo a caridade fraterna, o terceiro, o louvor e a exultação.

As trevas e a sombra da morte

 

Tirou-os das trevas e da escuridão (Sl 106, 14)
 
[1] São três as espécies de trevas, ou de ignorâncias.
 
a) Diz o Salmista (Sl 81, 5): Não sabem nem entendem, andam nas trevas. Estas são as trevas da razão, enquanto a razão é por elas obscurecida.

 

b) Há também as trevas da culpa. Diz São Paulo (Ef 5, 8): Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. E estas são trevas da razão humana não por si mesmas, mas pelos apetites, enquanto, mal dispostos pelas paixões ou por algum mau hábito, apetecem como bom o que não é o verdadeiro bem.
 
c) Por fim, há as trevas da danação eterna (Mt 25, 30): E a este servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.
 
Ora, Cristo tirou-os das trevas por ser a luz do mundo; não era o sol criado, mas Aquele por quem foi criado o sol. Contudo, como diz Agostinho, a mesma luz que fez o sol, foi feita sob o sol, e velada pela nuvem da carne, não para que fosse obscurecida, mas para que fosse temperada. E como esta luz é universal, expulsa universalmente todas as trevas.
 
Assim, o que me segue não anda nas trevas, da ignorância, pois eu sou a verdade; da culpa, pois eu sou a via; da danação eterna, pois eu sou a vida.
 
[2] A noite pode ser compreendida de dois modos:
 
a) Pela subtração da graça atual, a qual induz o pecado mortal. Quando esta noite sobrevém, ninguém pode fazer obra meritória de vida eterna.
 
b) A outra é a noite consumada, quando não apenas se é privado da graça atual, mas também da faculdade de a recuperar, pela eterna danação ao inferno, onde é profunda a noite àqueles aos quais foi dito: Ide malditos para o fogo eterno. E então ninguém poderá fazer nada, pois não há mais tempo para merecer, mas apenas para receber conforme seus méritos. Assim, enquanto viveres, faze o que tens de fazer (Ecle 9, 10): Faze com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão, porque na sepultura, para onde te precipitas, não há nem obra, nem razão, nem ciência, nem sabedoria.
(In Joan., IX)
 
[3] A morte é a danação no inferno (Sl 48, 15): a morte os apascenta. A sombra da morte é a semelhança da danação futura que está nos pecadores. A maior pena daqueles que estão no inferno é a separação de Deus; como os pecadores já estão separados de Deus, têm semelhança com a danação futura, assim como os justos têm semelhança com a futura beatitude.
 
(In Matth., V)
 
P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae. Tradução: Permanência

 

O fruto do conhecimento de Deus

Dizia João, precursor do Cristo (Jo 1, 27): Esse é o que há de vir depois de mim, ao qual eu não sou digno de desatar a correia das sandálias. Era como se falasse: não julgueis que seja Ele superior a mim em dignidade, do mesmo modo que um homem o possa ser a outro; antes, me é superior de modo tão iminente, que nada sou comparado a ele. Por isso diz não sou digno de desatar a correia das sandálias, que é o mínimo obséquio que se pode fazer a outrem.

A excelência da natureza divina

[1] Deus não está compreendido no tempo: é eterno. Com razão se diz que Deus é eterno, pois carece de princípio e de fim, e também porque seu ser não se varia no passado ou no futuro. Nada se lhe subtrai, nada lhe pode advir de novo. Por isso disse a Moisés (Ex 3, 14): Sou aquele que sou, pois o ser dele não conhece nem passado nem futuro, mas encontra-se num perpetuo presente.

Sermão do segundo domingo da Quaresma

Esta e a seguinte Prática com tema avulso pregou o Autor
 em ocasião que se lhe pediu falasse da Paixão de Cristo;
 e por serem muitos discursos os repartiu em duas Práticas debaixo do mesmo tema.
 

O dulcíssimo nome de Maria

II.  MEDITAÇÃO
 
Quanto às virtudes, ou eficácia do augustíssimo nome de MARIA, a mesma Senhora, falando com Sta. Brígida, lhe disse que o seu nome quando se proferia devotamente alegrava os Anjos no Céu e rendiam louvor a Deus; e os da nossa guarda se chegavam mais para os justos, e no Purgatório as almas se aliviam, como o enfermo na cama quando alguém o consola; e os demônios fogem e deixam a alma que tinham nas unhas, como as aves de rapina fogem quando ouvem algum som que as espanta. O que parece quis o Céu confirmar com aquele caso maravilhoso que traz o Padre Cristovão da Vega. Criara certa donzela um pássaro daquela espécie que aprendem a falar o que lhes ensinam, e lhe ensinara a dizer: Ave MARIA; e ele repetia muitas vezes, com aplauso e gosto dos que ouviam. Sucedeu vir uma ave de rapina e levá-lo nas unhas; e o passarinho, repetiu o que costumava: Ave MARIA; e no mesmo ponto a ave de rapina, como se a ferissem com um pelouro, caiu morta em terra, e o passarinho tornou alegre às mãos de quem o ensinava e sustentava. Sem dúvida quis Deus mostrar quanto vale o nome poderoso de MARIA contra os repentinos assaltos do tentador; pois em sendo invocado da alma fiel e devota, logo a infernal ave de rapina solta a presa e desaparece.

Sermão das Cinzas

§ I
 
Que o Criador, e as criaturas todas estejam continuamente lembrando ao homem, que há de morrer; e que possa o homem esquecer-se deste desengano! Muito é para admirar, e muito mais para sentir. Se estendermos os olhos da consideração por tudo o que abraça a redondeza do Céu e da terra, acharemos que em todo o tempo, e em toda a parte nos tem Deus postos manifestos avisos, e sinais da nossa morte. Mas também acharemos, que em todo o tempo, e em toda a parte tem o homem posto os sinais do esquecimento da sua morte. Que outra cousa é o movimento dessas estrelas, o ocaso dos planetas, a roda dos tempos, o combate dos elementos, o curso e recurso das águas, a diferença das idades, a mudança dos impérios, a instabilidade dos costumes, e leis, e a perpétua inconstância de todo o século; que outra coisa é, digo, senão uma viva e repetida lembrança que Deus nos faz da morte? E que outra cousa é também a ambição da glória do mundo, a estimação de seus gostos vãos, tantas esperanças, tantos temores sem fundamento; que cousa é todo o reino, ou escravidão do pecado, senão claros sinais do esquecimento que o homem tem da morte? Enfim, que Deus por sua boca diz: Caelum et terra transibunt1. E o pecador por suas obras responde: Non movebor à generatione in generationem2. Nos tempos de Noé naufragou o mundo em dous dilúvios: um de águas, e outro de pecado: Terra repleta est iniquitate. Multiplicate sunt aquae e omnia repleverunt in superficie terrae3. Avisou Deus primeiro que mostrasse sua ira, e desprezaram os homens sua misericórdia, com tal excesso que Deus, sendo a mesma imutabilidade, mostrou pesar de haver criado o homem; e o homem, sendo a mesma mudança, não mostrou pesar de haver ofendido a Deus. Edificava pois Noé a arca, público desengano daquela destruição geral; e edificavam juntamente os pecadores palácios, e casas de prazer pelo desenho de sua vaidade. Cada prevenção de Noé é um aviso, cada golpe um protesto, tudo são cautelas para escapar da morte, e os pecadores tudo prevenções para lograr-se da vida. Entraram todos os animais naquele estreito refúgio de sua conservação (caso estupendo) e não entrou ninguém em si para tomar o acordo de segui-los. Justo foi o sentimento depois de tanta insensibilidade. Rasgam-se as cataratas do Céu, abrem-se as fontes do abismo, e soçobram às enchentes os mais altos montes – tudo perece. Pombinha solitária, que saistes a descobrir terra, que é o que vedes? Mudou de rosto a natureza, tudo está submergido debaixo de um mar sem praias. Oh quem dera também a nosso espírito asas de pomba! Voara sobre si mesma, e vira: vira bem como a morte entrando no mundo, foi outro dilúvio, que o alagou. Disse-o Esdras sabiamente: Factum est in unoquoque eorum, sicut Adae mori, sic his diluvium4. Vira que o Sol também morre; que as estrelas também caem; que os gostos passam, como as idades, e a idade como as flores. Vira como a sucessão das gerações não é mais que um desejo baldado de imortalidade, e um despojo certo da morte. Vira que toda a duração temporal vai edificada sobre as cinzas do que já foi, e debaixo das ruinas do que há de ser; e que a natureza defectível caminha pelos mesmos passos do ser ao perecer. Vira que as águas deste dilúvio prevaleceram sobre os mais levantados montes do poder, da sabedoria, e da santidade: Aquae praevaluerunt nimis5, não se livrando a comum sorte nem aquele escelso monte, donde foi cortada a pedra Cristo, MARIA Santíssima, com ter seus fundamentos sobre os montes santos; nem o mesmo Cristo monte de ambos os testamentos: Intraverunt aquae usque ad animam meam6, disse o Senhor falando de si mesmo, e noutra parte: Omnes fluctus tuos induxisti super me7. Mas também vira que o mesmo que vemos os homens parece que o não cremos, porque se a morte anda diante de nossos olhos, como é possível esquecer-se dela? Basta que tudo acaba; eu só o presumo de eterno! Basta que aquele geral estatuto, que o dedo de Deus escreveu até nas estrelas, é necessário que a Igreja o escreva no pó que somos. Memento homo, quia pulvis es? Esta é a minha admiração, e este deve ser nosso sentimento. E esta será também a matéria do presente Sermão: inquirir, e impugnar as causas que fazem tão esquecida a morte, sendo a morte tão lembrada. Memento homo quia pulvis es, et in pulverem revertéris.

  1. 1. Mt 24, 35.
  2. 2. Sl 70, 6.
  3. 3. Gn 6, 8; ibid. 7, 17-18.
  4. 4. Es 49, 8.
  5. 5. Gn 7, 19.
  6. 6. Sl 68, 2.
  7. 7. Sl 87, 8.

Prática em dia do Arcanjo S. Miguel

Angeli eorum in Caelis semper vidents faciem Patris mei (Matth. 18)
 
I
 
Se aos Anjos festejam neste dia os homens, não sei eu melhor modo de os festejar do que aspirando os homens a ser Anjos. Não pareça temerária a pretensão; por quanto o que não pode a natureza, pode a graça. E para que os fundamentos desta verdade se entendam, ouçam a seguinte história, que se bem no modo de referir-se parecerá nova, na substância é a mais antiga que há no mundo.

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