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Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P. (82)

A plenitude de graças no instante da Encarnação e depois

Garrigou Lagrange, O.P.

[Nota da Permanência: O texto da semana é a continuação do livro "A Mãe do Salvador e nossa vida interior", do dominicano Garrigou-Lagrange, um dos maiores teólogos do século XX e um grande autor espiritual. A bonita magem que escolhemos para ilustrar esse artigo é de Sano di Pietro, da escola de Siena. A tradução é de Ricardo Bellei] 

 

Neste capítulo falaremos do progresso espiritual de Maria até a Anunciação, do aumento considerável da graça que ocorreu nela no instante da Encarnação e de sua virgindade perpétua; em seguida, do aumento sucessivo da caridade em certas horas mais importantes de sua vida, sobretudo no Calvário; e finalmente da inteligência de Maria, de sua sabedoria, de suas principais virtudes e de seus carismas ou graças denominadas gratis datae, gratuitamente concedidas e em certo modo exteriores, como a profecia e o discernimento de espíritos.

 

   

A plenitude inicial da graça em Maria

 Ave, gratia plena.

(Lc, 1, 28).

 

Depois de termos visto quão sublime é Maria por seu título de Mãe de Deus, razão de todos os privilégios que lhes foram conferidos, convém considerar qual é o significado e o alcance das palavras que lhe foram ditas pelo Arcanjo Gabriel no dia da Anunciação: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres1. Para compreendermos o significado dessas palavras ditas em nome de Deus, consideraremos:

1º, as diferentes plenitudes de graça;

2º, o privilégio da Imaculada Conceição;

3º, a sublimidade da primeira graça em Maria. 

 

 

  1. 1. Lc 1, 28.

A eminente dignidade da maternidade divina

 

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

As duas grandes verdades que, na doutrina revelada sobre a Virgem Maria, dominam tudo como dois picos e de onde derivam todas as outras, são a Maternidade Divina e a plenitude da graça, afirmadas ambas pelo Evangelho e pelos Concílios.

Para compreender bem sua importância, será bom compará-las, inquirindo qual das duas é a primeira e da qual tudo deriva na Mariologia. O que há de mais grandioso em Maria: sua Maternidade Divina, seu título de Mãe de Deus, ou a plenitude da graça?(Continue a ler)

 

 

 

Pecados de ignorância, fraqueza e malícia

Garrigou Lagrange, O.P.

Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal como se encontra formulado por Santo Tomás de Aquino na sua Suma Teológica (Ia-IIae, q. 76, 77, 78).

O pecado de ignorância é o que provém de ignorância voluntária e culpável, chamada ignorância vencível. O pecado de fraqueza é o que provém de forte paixão, que diminui a liberdade e obriga a vontade a dar seu consentimento. Quanto ao pecado de malícia, é o que se comete com plena liberdade “quasi de industria”, com aplicação e frequentemente com premeditação, sem paixão, nem ignorância. Recordemos o que Santo Tomás nos ensina sobre cada um deles. (Continue a ler)

Caridade e bem-aventuranças

 

Garrigou-Lagrange, OP

 

 

Introdução

A perfeição cristã, segundo o testemunho do Evangelho e das Epístolas, consiste especialmente na caridade que nos une a Deus1. Essa virtude corresponde ao maior dos Mandamentos, que é o do amor de Deus. Também foi dito: “quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele2. E ainda: “sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição3.

Os teólogos perguntaram-se sobre se, para alcançar a perfeição propriamente dita, não a dos iniciantes, ou a das almas em progresso, mas a que caracteriza a via unitiva, seria preciso grande caridade, ou se poderia obtê-la sem grau elevado dessa virtude.

Alguns autores4 sustentaram que não seria preciso alto grau de caridade para a perfeição propriamente dita, visto que, segundo Santo Tomás “a caridade, mesmo em grau inferior, é capaz de vencer todas as tentações”5.  (Continue a ler)

  1. 1. Cf. S. Tomás, IIa IIae, q. 184, a. 1.
  2. 2. 1Jo 4, 16.
  3. 3. Cl 3, 14.
  4. 4. Entre eles, é preciso citar Suarez, de Statu perfectionis, 1. 1, c. 4, nº. 11, 12, 20. Essa opinião invocaram alguns que não queriam admitir que a perfeição cristã requer grande caridade e os dons do Espírito Santo em grau proporcional; em outras palavras, que a contemplação infusa procedente da fé viva iluminada pelos dons está na via normal da santidade e é como que o prelúdio normal da visão beatífica.
  5. 5. Cf. III Sent., d. 31, q. 1, a. 3; IIIa q. 62, a. 6, ad 3.

Dever de reparação

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

“Alter alterius onera portate”.

Levais os fardos uns dos outros

Gl 6.

 

    Tratamos recentemente do dever do reconhecimento, convém falar agora do dever de reparação. A reparação da ofensa feita a Deus é geralmente chamada em teologia de “satisfação”. Os fiéis instruídos costumam conhecer suficientemente bem a doutrina do mérito; porém, é menos conhecida a doutrina da satisfação ou reparação, que, se lembra a do mérito, dela difere, contudo. Os fiéis crêem firmemente que Jesus satisfez por nós em estrita justiça, que a Santíssima Virgem satisfez por nós de uma satisfação de conveniência; mas conhecem menos o lugar que a satisfação deve ocupar nas nossas vidas.

    Lembremos sobre esse ponto os princípios; veremos em seguida como o católico em estado de graça pode satisfazer ou reparar por si e pelo próximo. (Continue a leitura)

A obrigação de buscar a perfeição da caridade

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

Estado e dificuldade da questão: não se está tratando da perfeição ínfima, que exclui apenas os pecados mortais, nem tão-somente da perfeição média, que exclui os mortais e os veniais plenamente deliberados, mas da perfeição propriamente dita, que exclui imperfeições deliberadas e atos imperfeitos; logo, não é meramente o convite à perfeição propriamente dita pois, quanto a isso, não há dúvida: todos homens estão convidados à perfeição propriamente dita.

A questão versa sobre a existência de uma obrigação geral de todos católicos tenderem à perfeição da caridade. Não é, contudo, uma obrigação especial, cuja violação seria um pecado especial, como no estado religioso, mas de uma obrigação geral.

A dificuldade surge quando queremos conciliar certas sentenças de Nosso Senhor que, num primeiro momento, parecem contradizer-se.

Por um lado, Cristo aconselha o adolescente rico (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres... e vem e segue-me”. Estas palavras – “Se queres ser perfeito” – parecem exprimir um conselho, não uma obrigação. Logo, todos os católicos não estão obrigados a buscar a perfeição; aparentemente, somente aqueles que já prometeram seguir os conselhos evangélicos estariam obrigados a buscar a perfeição 1

Por outro lado, declara Cristo a todos (Mt 5, 48): “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”.  (continue a ler)

  1. 1. Sobre esta dificuldade, ver Suma Teológica IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 1.

Artigo 3: Universalidade da mediação de Maria e sua definibilidade

Depois de termos falado das características gerais da mediação da Santíssima Virgem, de seu mérito e de sua satisfação por nós durante sua vida mortal, de sua intercessão no Céu, da forma como ela nos transmite as graças que recebemos, consideraremos agora a universalidade de sua mediação, sua certeza e o sentido exato segundo o qual deve ser entendida.

 

Certeza dessa universalidade

Pressuposto o que vimos, essa universalidade deriva de todos os princípios admitidos, de tal forma que não requer uma prova especial; os adversários desse privilégio é que deveriam provar a sua posição 1.

Vimos, com efeito, que em sua qualidade de Mãe de Deus Redentor e Mãe de todos os homens, Maria Corredentora nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Nosso Senhor nos mereceu em justiça, e que ela satisfaz por nós em união com Ele. Segue-se daí que Maria pode, no Céu, por sua intercessão, obter-nos a aplicação de seus méritos passados e que obtém-nos, de fato, não somente todas as graças em geral, mas todas as graças particulares que cada um de nós recebe, sem excluir evidentemente a intervenção subordinada dos santos aos quais também recorremos.

Essa asserção não é somente uma piedosa conjectura, seriamente provável, mas uma certeza teológica em virtude dos princípios expostos anteriormente, já afirmados pelos Padres, comumente admitidos pelos teólogos, expostos pela pregação universal e confirmados pelas encíclicas dos Papas. Leão XIII, na encíclica Octobri mense, de 22 de setembro de 1891, sobre o Rosário2, diz particularmente: “Nihil nobis nisi per Mariam, Deo sic volente, impertiri”. Nenhuma graça nos é dada sem a intervenção de Maria, porque Deus o tem querido assim.

A universalidade dessa mediação é confirmada também pelas orações da Igreja, que são a expressão de sua fé. Por elas pedimos a Maria todos os tipos de graças, temporais e espirituais, e, entre estas últimas, todas as que conduzem a Deus, desde as primeiras que levam à conversão até as da perseverança final, sem omitir as que são particularmente necessárias aos Apóstolos para o seu apostolado, aos mártires para continuarem firmes na perseguição, aos confessores da fé para conformar toda a sua vida com os ensinamentos de Cristo, às virgens para conservar intacta a virgindade etc. Maria, de fato, nas litanias lauretanas, universalmente recitadas em toda a Igreja, é chamada de Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores, Consoladora dos aflitos, Auxílio dos cristãos, Rainha dos Apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens, de todos os santos.

Por ela, pois, nos são outorgadas todas as categorias de graças necessárias a uns e outros, segundo seu estado. Em outros termos, todas as graças que Nosso Senhor nos mereceu em justiça e que Maria nos mereceu por um mérito de conveniência nos são distribuídas incessantemente pela Virgem no decorrer das gerações humanas há 20 séculos, e assim sucederá até o fim do mundo para ajudar-nos em nossa viagem rumo à eternidade.

Mais ainda, em cada uma dessas categorias de graças ― necessárias aos Apóstolos, aos mártires, aos confessores, às virgens ― a mais particular de todas as graças para cada um de nós, quer dizer, a graça do momento presente, não nos é outorgada sem a intervenção de Maria. Todos os dias, de fato, e muitas vezes ao dia, pedimos-lhe essa graça ao dizermos na Ave Maria: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”. Por este advérbio “agora”, pedimos a graça que nos é necessária para o dever do momento presente, para rezar bem ou praticar qualquer outra virtude, e, se não estamos atentos a essa palavra, a Santíssima Virgem, que conhece no Céu as necessidades atuais de cada uma de nossas almas, está atenta; quando obtemos essa graça do momento (por exemplo, a necessária para continuar a rezar bem), é por sua intercessão que nós a obtemos, e esse é um sinal de que, nessa ocasião, fomos ouvidos. A graça do momento presente é evidentemente a mais particular de todas, e varia para cada um de nós, de minuto em minuto, como as ondulações do ar que chega incessantemente aos nossos pulmões para que a respiração continue renovando nosso sangue.

A mediação de Maria é, pois, segundo a Tradição, verdadeiramente universal, uma vez que se estende a toda obra da salvação, tanto à aquisição das graças pelo mérito e pela satisfação passadas, quanto pela aplicação das mesmas graças através da oração sempre atual e à sua distribuição. Essa mediação não está limitada a um determinado tipo de graças, mas estende-se a todas. E mesmo sobre esse ponto há uma unanimidade moral dos Padres, dos Doutores e da crença dos fiéis expressa pela liturgia.

 

Definibilidade dessa verdade

Essa doutrina parece não apenas teologicamente certa, mas definível como dogma de fé, porque está primeiro implicitamente revelada nos títulos gerais que a Tradição dá a Maria: Mãe de Deus onipotente por sua intercessão junto ao seu Filho; nova Eva intimamente associada a Cristo Redentor; Mãe de todos os homens. Ademais, é uma verdade explícita e formalmente afirmada pelo consentimento moral unânime dos Padres, dos Doutores, pela pregação universal e pela liturgia.

Leão XIII, loc. cit., depois de ter afirmado que “nada nos é dado sem a intercessão de Maria”, acrescenta que “assim como ninguém pode vir ao Pai senão por meio de Seu Filho, assim também ninguém pode vir a Cristo senão por Maria”3, pois ela é a “Medianeira diante do Mediador”4.

Pio X chama a Virgem de “dispensadora de todos os bens que Jesus nos adquiriu por seu sangue”5.

Essa doutrina foi sancionada por Bento XV em janeiro de 1921 pela instituição da festa universal de Maria Medianeira de todas as graças. Parece, portanto, definível como dogma de fé, porque está ao menos implicitamente revelada, e já universalmente proposta pelo magistério ordinário da Igreja.

 

Qual é o significado exato dessa universalidade?

Devem-se fazer sobre esse ponto várias observações para determinar o significado exato da expressão “mediação universal”.

Em primeiro lugar, as graças já recebidas após a queda do primeiro homem até a Encarnação do Verbo foram concedidas por Deus em vista dos méritos futuros do Salvador, aos quais se devem unir os méritos de Maria. Mas nem nosso Senhor nem sua Santa Mãe distribuíram-nas ou transmitiram-nas, pois são graças pretéritas.

Não acontece o mesmo quando se trata de graças recebidas pelos homens depois da vinda de Cristo. Deve-se mesmo dizer que é sobretudo depois da Assunção que Maria, conhecendo as necessidades espirituais de cada um de nós, intercede em favor de cada um e distribui-nos as graças que recebemos.

Mesmo as graças sacramentais nos são obtidas por ela, no sentido em que nos obtém tudo o que nos mereceu, e vimos que nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Jesus nos mereceu em justiça e, portanto, também as graças sacramentais. Ademais, ela nos distribui e nos transmite ao menos enquanto nos dá as graças que nos dispõem para aproximarmo-nos dos sacramentos e para recebê-los devidamente, e às vezes nos envia o sacerdote, sem o qual não nos seria concedida a graça sacramental 6.

Não se deve entender a universalidade dessa mediação no sentido de que nenhuma graça nos será conferida sem que a tenhamos explicitamente pedido a Maria; isso seria confundir nossa oração que se dirige a ela com a súplica que a Virgem dirige a Deus. Maria, de fato, pode rogar por nós sem que a invoquemos explicitamente. É certo que muitas graças são dadas não só às crianças, mas também aos adultos, antes mesmo que eles as tenham pedido; em particular, o auxílio necessário para começar a rezar. Também pode-se dizer o Pai Nosso sem invocar explicitamente a Santíssima Virgem, mas ainda assim ela é invocada implicitamente quando se roga segundo a ordem estabelecida pela Divina Providência.

Tampouco é preciso crer que Maria foi medianeira para consigo mesma. Mas, ao contrário, não seria suficiente dizer que ela nos obtém, por sua mediação, quase todas as graças ou, moralmente falando, todas as graças. Essa vaga expressão pareceria indicar 90% ou 80%, o que carece de qualquer fundamento. Deve-se dizer que, por uma lei geral estabelecida pela Providência, todas e cada uma das graças nos vêm pela mediação de Maria, pois não há nenhum indício claro de que existam exceções7.

Note-se, ademais, que a mediação de Maria difere da mediação dos santos, não somente por sua universalidade, mas também porque, sendo Mãe de todos os homens, ela é de direito e não só de fato mediadora para cooperar na obra de nossa salvação, o que torna a sua intercessão onipotente; e não só tem direito a obter, mas obtém de fato todas as graças que recebemos. Suas orações são mais eficazes que as de todos os santos reunidos, uma vez que, segundo a doutrina da mediação universal, os santos não podem nada obter sem a intercessão da Santíssima Virgem 8.

Note-se, finalmente, que essa mediação universal estende-se às almas do Purgatório. Como explica o Pe. E. Hugon9: “É certo que a Mãe de Misericórdia conhece todas as necessidades dessas almas... Ela pode apoiar suas súplicas sobre suas satisfações de outros tempos... jamais teve necessidade delas, e as entrega ao domínio da Igreja, que as distribui às almas pelas indulgências... A partir do momento, portanto, em que as satisfações de Maria são aplicadas aos pobres devedores do Purgatório, ela tem certo direito a sua libertação, posto que paga as dívidas deles com seus próprios tesouros... A Virgem obtém por suas maternais habilidades que seus filhos que moram na Terra roguem para seus fiéis no Purgatório, ofereçam nessa intenção suas boas obras e façam celebrar por elas o augusto sacrifício da libertação... Ela pode obter ainda que os sufrágios destinados a outras almas que não têm mais necessidade ou que são incapazes de recebê-los favoreçam os filhos de sua predileção”.

Por isso garante um doutor da Igreja, São Pedro Damião10, que a cada ano, no dia da Assunção, Maria liberta muitos milhares de cativos. Santo Afonso de Ligório acrescenta11, citando Dionísio, o Cartuxo, que essas libertações acontecem particularmente nas festas do nascimento do Senhor e de Sua Ressurreição. Esses últimos testemunhos, sem serem de fé, traduzem e explicam à sua maneira, uma conclusão que é teologicamente certa.

Assim pode-se fixar o sentido do termo “mediação universal”.

 

Objeções

Alguns têm objetado: a mãe de um rei não tem, pelo fato de sua maternidade, o direito de dispor dos bens daquele; e, portanto, a Mãe do Cristo-Rei não tem positivamente o direito de dispor de suas graças.

Tem-se justamente respondido12: não há aqui comparação; a mãe de um rei é somente a mãe de uma criança que mais tarde se tornou rei, e na maioria das vezes não cooperou intimamente em seu governo. Ao contrário, Maria é, por sua própria Maternidade Divina, a Mãe de Deus Redentor, Rei universal de todas as criaturas; ela Lhe deu sua natureza humana e esteve intimamente associada aos Seus méritos e aos Seus sofrimentos reparadores; participa, portanto, da Sua realeza espiritual com um direito subordinado ao de Cristo para dispor das graças adquiridas por Ele e por ela.

Tem-se objetado ainda que essa mediação não é mais que uma pura conveniência e, portanto, não é uma certeza.

Isso é fácil de responder: trata-se de uma conveniência, de uma conaturalidade que deriva da Maternidade Divina de Maria, de sua maternidade espiritual com relação aos homens, de sua união ao Cristo Redentor, de quem deriva de tal modo que o oposto não seria conveniente, como é conveniente que Nosso Senhor tivesse tido desde o primeiro instante da Sua concepção a visão beatífica. É conatural à Mãe espiritual de todos os homens o velar espiritualmente por eles e lhes distribuir os frutos da redenção.

Ademais, segundo a Tradição, é uma conveniência que motivou de fato a escolha divina e na qual esta se comprouve. É assim que foi considerada pelos Padres e pelos Doutores da Idade Média, principalmente Santo Alberto Magno13, São Boaventura14, Santo Tomás em sua explicação da Ave Maria, e pelos teólogos posteriores, que têm posto cada vez mais em destaque a universalidade dessa mediação.

 

Conclusão

Nenhuma dificuldade séria se apresenta, portanto, à definição da mediação universal de Maria, entendida como acabamos de descrever: a mediação subordinada àquela do Salvador e dependente de Seus méritos; mediação que não acrescenta um complemento necessário aos méritos de Jesus, cujo valor é infinito e superabundante, mas que permite ver o resplendor e todos os frutos numa alma perfeita plenamente conformada a Ele.

As dificuldades que têm surgido contra essa mediação universal são certamente menores se comparadas àquelas formuladas no século XIII contra a Imaculada Conceição, que, no entanto, foi definida como dogma de fé.

Admite-se também geralmente hoje a definibilidade da Assunção, cuja festa, que remonta pelo menos ao século VIII, é um testemunho da Tradição. Ora, a mediação universal de Maria aparece ainda mais certa pelos princípios que a fundamentam: a Maternidade Divina e a maternidade espiritual com relação a todos os homens, e mais certa ainda pelos documentos da mais remota tradição onde se opõe Eva a Maria.

A Mediação universal da Santíssima Virgem tem sido muito menos atacada que a Imaculada Conceição e a Assunção; já é muito certa pelo Magistério ordinário da Igreja e só nos resta desejar sua definição para melhor promover a devoção de todos em relação àquela que é verdadeiramente a Mãe espiritual de todos os homens e que vela incessantemente por eles.

Essa mediação, longe de obscurecer a de Nosso Senhor, manifesta seu resplendor, uma vez que os maiores méritos suscitados por Jesus Cristo são aqueles da Sua Santa Mãe, e Ele é quem lhe comunica a dignidade da causalidade na ordem da santificação e da salvação. A história demonstra, ademais, que precisamente as nações que perderam a fé na divindade de Jesus Cristo primeiro abandonaram a devoção à Sua Santíssima Mãe, enquanto que as nações que mais exaltaram a Mãe de Deus têm conservado a fé no dogma da Encarnação redentora. O anglicano Pusey condenou esta frase de Faber: “Jesus fica encoberto porque Maria é mantida em segundo plano”. Newman respondeu: “Como atestado pela história, essa verdade fez-se manifesta pela vida e pelos escritos dos santos que viveram no período moderno”15. E cita como exemplo Santo Afonso de Ligório e São Paulo da Cruz, cujo amor fervoroso a Jesus Redentor era inseparável de uma grande devoção a Maria.

Esses fatos demonstram uma vez mais que o verdadeiro culto dado à Mãe de Deus, assim como o influxo que ela mesma exerce sobre nós, conduz inevitavelmente à intimidade com Jesus. Longe de diminuí-la, mais a consolida, e a torna mais profunda e frutuosa, como a influência da Santa Alma do Salvador aumenta em nós a união com a Santíssima Trindade.

A universalidade dessa mediação ficará cada vez mais clara quando considerarmos Maria como Mãe de Misericórdia e a extensão de sua realeza universal.

  1. 1. Foi negada pelos jansenistas, que quiseram modificar, no Ave Maris Stella, o versículo Bona cuncta posce, com o qual suplicamos a Maria que peça para nós todas as graças que devem conduzir-nos a Deus.
  2. 2. Denzinger, nº 3033.
  3. 3. Encíclica Octobri mense, de 22 de setembro de 1891 (Denzinger, nº 3033): “Nada se nos distribui senão por meio de Maria, porque assim Deus o quer; de modo que, como ninguém pode chegar ao sumo Pai senão pelo Filho, assim ninguém pode chegar a Cristo senão por Maria”.
  4. 4. Idem.
  5. 5. Cf. denzinger, 3034: “A dispensadora de todos os bens que Jesus nos adquiriu por sua morte e seu sangue”. Encíclica Ad diem, de 2 de fevereiro de 1904
  6. 6. Cf. Dict. de Théol. cath., art. Marie (e. dublanchy), col. 2403: essa doutrina da mediação universal de todas as graças “é verdadeira sobre todas as graças sobrenaturais provenientes da redenção de Jesus Cristo. A conclusão, sem nenhuma restrição, deve aplicar-se às graças conferidas pelos sacramentos, no sentido de que as disposições que devem ser levadas para sua recepção e das quais depende a produção sacramental da graça são obtidas pela intercessão de Maria”.
  7. 7. Cf. merkelbach, Mariologia, p. 375.
  8. 8. Isso é o que afirma santo anselmo ao dizer (orat. 46): 

    Te tacente, nullus (sanctus) orabit, nullus invocabit. 

    Te orante, omnes orabunt, omnes invocabunt.

  9. 9. Marie, pleine de grâce, 5.ª edic., 1926, p. 201.
  10. 10. Epist. 52 e Opusc. XXIV: Disput. de variis apparit. et miraculis.
  11. 11. As Glórias de Maria, 1ª parte, c. VIII.
  12. 12. Cf. merkelbach, Mariologia, p. 377.
  13. 13. Mariale, q. 29, 33, 147, 150, 164.
  14. 14. Serm. I, in Nat. Dom.
  15. 15. Certain difficulties felt by anglicans in catholic teaching considered, Londres, 1910, t. II, pp. 91 ss.

Artigo 2: A distribuição de todas as graças. Seu modo de influenciar.

Seria a Santíssima Virgem a distribuidora de todas as graças unicamente por interceder em favor de cada um de nós, a fim de que os méritos precedentes do Salvador e os seus próprios nos sejam aplicados no momento oportuno, ou então nos transmitiria ela também as graças que recebemos, ao modo de transmitir da Humanidade de Jesus, que é, segundo Santo Tomás e muitos teólogos “causa instrumental física dessas graças”, instrumento sempre unido à divindade, superior aos sacramentos, que são instrumentos separados.

Com respeito a Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, essa doutrina foi exposta muitas vezes por Santo Tomás1; pergunta-se agora se é preciso admiti-la também para Maria, já que ela é, segundo a Tradição, como se fosse o pescoço do Corpo Místico, que une a cabeça com os membros e transmite-lhes o influxo vital.

A causalidade moral de Maria pela satisfação, pelos seus méritos passados e por sua intercessão sempre atual é comumente admitida por todos. Mas muitos teólogos detêm-se aqui e negam-se a admitir que Maria transmita as graças por uma causalidade física instrumental, análoga na ordem espiritual ao que ocorre na ordem sensível, como a ação da harpa que, tocada pelo músico, emite sons harmoniosos2.

Mas outros teólogos atribuem-lhe também essa segunda influência de uma forma subordinada à Humanidade de Cristo, insistindo sobre o que diz a Tradição: a Virgem Santíssima é verdadeiramente no Corpo Místico como o pescoço, que, unindo a cabeça aos membros, transmite-lhes o influxo vital 3.

*

*   *

É certo que Santo Tomás ensinou explicitamente que a Humanidade do Salvador e os Sacramentos da Nova Lei são a causa física instrumental da graça, da qual somente Deus pode ser a causa principal, uma vez que é uma participação de sua vida íntima.

Mas não vemos que o Santo Doutor tenha afirmado algo semelhante a respeito de Maria. No dizer de certos autores, ele até a excluiria em um texto, embora pensemos não existir tal exclusão 4.

Em sua obra Exposição sobre a Ave Maria, Santo Tomás atribui à Santíssima Virgem uma plenitude de graça que transborda sobre os homens para santificá-los, mas não diz explicitamente se essa influência contém algo mais que a causalidade moral do mérito, da satisfação passada e da intercessão atual5.

Não sendo ― no julgamento de Santo Tomás e de seus comentadores ― a causalidade física instrumental uma impossibilidade para a Sagrada Humanidade de Cristo nem para os Sacramentos ― por exemplo, nas palavras do sacerdote na Consagração e na absolvição sacramental ― tampouco seria impossível para Maria6. O Santo Doutor chega até a admitir que o taumaturgo é, algumas vezes, a causa instrumental do milagre, que se opera, por exemplo, pela sua bênção7. Não somente o obtém por suas orações, mas às vezes o realiza como instrumento de Deus.

Não se pode afirmar que a Santíssima Virgem não exerça também essa influência. É melhor dizer que as obras-primas de Deus contêm mais riquezas, belezas e vitalidade do que podemos expressar. Não pensamos, no entanto, que se possa provar de uma maneira certa a existência dessa causalidade em Maria. Esse é um dos pontos sobre os quais a teologia, ao que parece, não se atreve a passar da constatação de uma séria probabilidade. Por quê? Porque é muito difícil ver nos textos tradicionalmente invocados onde termina o sentido próprio e onde começa a metáfora. Aqueles que se expressam mesmo habitualmente de uma maneira metafórica, ali onde poderiam e deveriam empregar termos próprios, não prestam atenção à dificuldade que apontamos. Mas quanto mais nos atermos à propriedade dos termos, melhor compreenderemos a verdade dessa observação. Quando a Tradição nos diz que Maria, no Corpo Místico, é comparável ao pescoço que une a cabeça aos membros e transmite-lhes o influxo vital, isso é certamente ao menos uma metáfora muito expressiva, mas não podemos afirmar com certeza que não existe metáfora ou sentido figurado na frase.

Essas palavras, no entanto, não teriam sentido completo ― como disse o Pe. Hugon ― se não admitíssemos a causalidade física instrumental de que estamos falando8.

O Pe. R. Bernard, O. P. declara-se da mesma maneira em seu livro O Mistério de Maria9: “Deus e Seu Cristo servem-se dela [Maria] no sentido em que fazem passar por ela todas as graças que nos destinam... A ação d’Eles, por esse meio, impregna-se de mais humanidade sem nada perder, bem entendido, de sua força divina. Eles fazem nossa Mãe viver a vida que pretendem que vivamos. Antes de tudo, Maria é cheia e transbordante dessa vida; a graça é pré-formada em Maria e impregna-se de uma especial beleza. Toda a graça e todas as graças, socorros e estados, virtudes e dons chegam a nós assim canalizados e distribuídos por ela, impregnados dessa particular suavidade que Maria difunde em tudo aquilo que toca e deixa em tudo o que faz.

“Maria, portanto, por sua ação, intervém em toda a nossa vida e é portadora de todo dom divino em nós. Durante todo o curso da nossa existência, desde o berço até o sepulcro e ainda mais além, não há nada que esteja fora de seu império: nem a graça habitual e as graças atuais, nem a graça e a glória. Ela dá forma e modela todo o nosso ser em Jesus Cristo... Ela imprime a sua forma a tudo e dá um aumento de perfeição a tudo o que passa por suas mãos. Todo cristão é um filho de Maria, e um filho é indigno desse nome se não é realmente moldado por sua Mãe”.

Se admitirmos que a Santíssima Virgem não só nos obtém por sua oração, mas também nos transmite todas as graças que recebemos, o título de tesoureira e dispensadora de todas as graças adquire um sentido mais completo do que lhe é geralmente atribuído.

Isso parece igualmente indicado em certas palavras belíssimas e vigorosas da liturgia, sobretudo no Stabat Mater, onde a repetição admirável do Fac demonstra que Maria não só nos obtém por suas súplicas a graça de alcançar a intimidade de Cristo, mas, de certa maneira, cria em nós essa divina intimidade:

 

Eia, Mater, fons amoris

me sentire vim doloris

fac, ut tecum lugeam.

Faze, ó Mãe, fonte de amor

que eu sinta o espinho da dor

para contigo chorar.

Fac, ut ardeat cor meum

in amando Christum Deum

ut sibi complaceam.

Faze arder meu coração

do Cristo Deus na paixão

para que o possa agradar.

Fac, ut portem Christi mortem,

passionis fac consortem,

et plagas recolere.

Traga em mim do Cristo a morte,

da Paixão seja consorte,

suas chagas celebrando.

Fac me plagis vulnerari,

fac me Cruce inebriari,

et cruore Filii.

Por elas seja eu rasgado,

pela cruz inebriado,

pelo sangue de teu Filho!

 

Essa influência de Maria sobre nossas almas é, sem dúvida, misteriosa, mas parece claro que ela não só intervém moralmente, mas que o faz na própria produção da graça, como instrumento consciente e livre, da mesma forma que o taumaturgo cura por seu contato e bênção. Mesmo na própria ordem natural, o sorriso, o olhar, a inflexão e o próprio timbre da voz transmitem algo da vida da alma.

*

*   *

A essa interpretação dos termos tradicionais comumente admitidos acrescentam-se razões teológicas que não carecem de valor. 

Como diz o Pe. Hugon10: “Uma vez estabelecido que os anjos e os santos são muitíssimas vezes as causas físicas secundárias dos milagres, é muito natural que reivindiquemos essa eficácia para a Mãe de Deus e num grau superior”. E se ela é causa instrumental física dos milagres que Deus só produz como causa principal, por que não admitir que é, do mesmo modo, a causa da graça? Como observa o teólogo que acabamos de citar11: “Toda prerrogativa que é possível e que convém à função, ao ofício ou à dignidade de uma Mãe de Deus, deve encontrar-se na Santíssima Virgem... Ela recebeu por título secundário tudo o que Cristo possui por título pleno e principal: méritos, satisfações, intercessão... por que haveria de cessar essa relação na ordem da causalidade física? É necessária essa exceção?12 Não parece, ao contrário, que o paralelismo sobrenatural deve continuar-se até o fim, e que a Mãe deve ser o instrumento secundário em todos os lugares em que o Filho é o instrumento primário e principal?... Parece algo muito natural que os atos [de Maria] dos quais Deus quer se servir a cada instante na ordem da intercessão sejam elevados, transformados pela fecundidade infinita e encarregados de comunicar instrumentalmente a vida celeste às almas”.

Ademais, se o sacerdote, pela absolvição sacramental, é causa instrumental da graça, em virtude de sua união ao Cristo Redentor, Maria não Lhe está menos unida em sua qualidade de Mãe de Deus e de Corredentora, pois é mais perfeito ter dado ao Verbo a sua natureza humana e tê-lo oferecido na Cruz do que torná-lo presente e oferecê-lo nos altares.

A influência certíssima de Cristo, Cabeça do Corpo Místico, permanece também em profundo mistério, uma vez que é essencialmente sobrenatural. A influência que parece exercer Maria, fora de sua intercessão, não é menos secreta, claro, mas seriamente provável, pensamos nós, sem que possamos nada afirmar além disso. Assim, quando se trata das últimas ondulações do som ou da luz no ar, é muito difícil dizer com certeza onde existem ainda ou onde terminam verdadeiramente.

Notemos finalmente que a influência própria de Maria parece se exercer sobre a nossa sensibilidade, muitas vezes desorientada e distraída, para acalmá-la e subordiná-la às nossas faculdades superiores e facilitar nestas a docilidade para seguir o impulso de Cristo, Cabeça da Igreja, que nos transmite o influxo da graça divina13.

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Embora o modo da influência de Maria permaneça oculto e misterioso, o fato mesmo de sua influência não é duvidoso.

A Santíssima Virgem é certamente a dispensadora de todas as graças, ao menos por sua poderosa intercessão. Deve observar-se com o Pe. Merkelbach14 que Maria não intercede da mesma maneira que os outros santos ― por uma súplica que poderia não ser satisfeita ― mas sim como Cristo, constituído Mediador e Salvador, cuja intercessão é sempre ouvida não só de fato, mas também de direito. A intercessão de Cristo, diz Santo Tomás15, é a expressão de seu desejo de nossa salvação adquirida com o preço de seu sangue. Como Maria Medianeira está associada muito intimamente à obra redentora de seu Filho, está igualmente associada à Sua intercessão e exprime seu desejo, que Deus decidiu considerar como sempre unido ao de Cristo. Nesse sentido, a Santíssima Virgem dispõe sempre das graças que pede; sua oração é a causa eficiente para a obtenção das mesmas e parece estar associada também à influência de Cristo para a transmissão dessas graças.

Por isso a Igreja canta no hino das Matinas do Ofício de Maria Medianeira de todas as graças:

 

Cuncta, quae nobis meruit Redemptor, 

dona partitur Genitrix Maria, 

cujus ad votum sua fungit ultro

munere Natus.

 

Maria nos distribui todas as graças que seu Filho Redentor nos mereceu, e ao seu menor desejo o bom Jesus derrama, com generosidade, todos os seus dons.

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Se, como parece, Maria, por uma causalidade física instrumental, transmite-nos todas as graças que recebemos, todas as graças atuais que nos são dadas para a respiração da alma ― como o ar que chega incessantemente aos pulmões para a respiração do corpo ― estamos assim constantemente sob sua influência subordinada à de Cristo, Cabeça da Igreja; ela nos transmite continuamente o influxo vital que procede de Nosso Senhor.

Mas, ainda que não aja sobre nós atualmente mais que pela causalidade moral de intercessão, ela está presente nas almas em estado de graça que a ela acodem segundo uma presença afetiva, da mesma forma que o objeto amado, mesmo quando fisicamente distante, está presente naquele que o ama. Maria está presente em corpo e alma no Céu; está, pois, fisicamente distante de nós; mas está presente com uma presença afetiva nas almas interiores e recolhidas que a amam, como o objeto amado que atrai para si nossa afeição e está presente em nós16.

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Essa influência de Maria faz-se mais íntima nas almas interiores fidelíssimas, como São Luís Grignion de Montfort muitas vezes observou. Diz ele: “O Espírito Santo, que era estéril em Deus, isto é, não produzia outra pessoa divina, tornou-se fecundo em Maria. É com ela, nela e dela que Ele produziu sua obra-prima, um Deus feito homem, e que produz todos os dias, até ao fim do mundo, os predestinados e os membros do corpo deste Chefe adorável. Eis por que, quanto mais, em uma alma, Ele encontra Maria, sua querida e inseparável esposa, mais operante e poderoso se torna para produzir Jesus Cristo nessa alma, e essa alma em Jesus Cristo.

“Não se quer dizer com isso que a Santíssima Virgem dê a fecundidade ao Espírito Santo, como se Ele não a tivesse. (...) O que se quer dizer é que o Espírito Santo, por intermédio da Virgem, da qual se quis servir, se bem que não lhe fosse absolutamente necessário, reduziu ao ato a sua fecundidade, produzindo, nela e por ela, Jesus Cristo e seus membros. É um mistério da graça, inacessível até aos mais sábios e espirituais dentre os cristãos”17.

Como observa o Pe. Hugon18 em relação a essas palavras do Santo de Montfort: “A fecundidade exterior do divino Paráclito consiste na produção da graça, não na ordem da causalidade moral, porque o Espírito Santo não é uma causa meritória ou impetratória, mas na ordem da causalidade física. Reduzir essa fecundidade ao ato é produzir fisicamente a graça e as obras de santidade que são próprias da terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Se é verdadeiro que o Espírito Santo reduz ao ato sua fecundidade por meio da Virgem Maria, se se faz operante por ela, por ela produz também fisicamente a graça nas almas: Maria é, pois, instrumento físico secundário do Espírito Santo. Tal nos parece o alcance dessas fortes palavras do santo autor; tal seria essa elevada doutrina que ele chama de ‘um mistério da graça, inacessível até aos mais sábios e espirituais dentre os cristãos’”.

Assim como a Encarnação prolonga-se de certo modo indefinidamente pela influência vivificadora de Cristo, Cabeça da Igreja, sobre seus membros, a maternidade virginal de Maria completar-se-ia pelo fato de transmitir-nos todas as graças que suas orações nos obtêm.

O santo de Montfort fala sempre dessa forma 19. É preciso citar também, com relação a esse assunto, a obra L' union mystique à Marie, escrita por uma religiosa flamenca, Maria de Santa Teresa (1623-1677), que o experimentou pessoalmente. Esses escritos demonstram que existe uma influência profundíssima ― toques secretos de Maria, Medianeira de todas as graças ― para conduzir as almas interiores e fidelíssimas a uma intimidade cada vez maior com Nosso Senhor 20. A alma que segue essa senda entra cada vez mais no mistério da comunhão dos santos e participa dos sentimentos mais elevados que a Mãe de Deus tinha ao pé da Cruz e após a morte de Nosso Senhor, em Pentecostes ou mais tarde, quando rezava pelos Apóstolos e obtinha-lhes as graças sublimes de luz, o amor e fortaleza de que precisavam para levar o nome de Jesus até os confins do mundo conhecido pelos antigos. Mas a influência de Maria, Medianeira universal, tornou-se ainda maior, mais universal e mais esplendorosa após sua Assunção ao Céu.

 

Nota

O modo de presença da Santíssima Virgem nas almas que lhe estão unidas

 

Para esclarecer essa doutrina, é necessário dizer brevemente o que os teólogos entendem por contato virtual, de um lado, e por presença afetiva, de outro.

 

O contato virtual ou dinâmico

A propósito da presença de Deus em todas as coisas ou da presença dos anjos nos corpos sobre os quais agem, distingue-se geralmente o contato virtual (contactus virtualis) do contato quantitativo. Dois corpos estão presentes ou contíguos um ao outro pelo contato quantitativo, quer dizer, pela proximidade da sua própria quantidade ou extensão. 

Um espírito puro, não tendo corpo e, portanto, nem quantidade ou extensão, está presente ali onde age pelo contato virtual, por sua virtude, princípio de sua ação. Esse é o contato dinâmico de uma força espiritual sobre aquilo em que opera. 

A virtude divina não é distinta do próprio ser de Deus. Logo, Deus está real e substancialmente presente, pelo contato virtual, em tudo o que Ele produz imediatamente, ou sem o intermédio de um instrumento, quer dizer, em tudo o que cria por criação propriamente dita, do nada (ex nihilo), e conserva imediatamente na existência; está assim presente na matéria, nas almas espirituais e nos anjos, que não podem ser produzidos a não ser pela criação ex nihilo, a qual não pode fazer-se por intermédio de um instrumento21.

Pela mesma razão, os teólogos admitem geralmente que o anjo, que propriamente falando não se encontra num lugar, posto que é espírito puro, está realmente presente ali onde age, porque toca por um contato virtual (contactus virtualis) o corpo que ele move localmente22. Um anjo pode também esclarecer a inteligência humana e agir sobre ela por meio da imaginação, como um professor que ensina.

A presença da Alma de Jesus e a da Santíssima Virgem nas pessoas que estão unidas a eles assemelha-se a dos anjos, mas diferem, no entanto, em um ponto. A diferença provém de que a alma humana unida ao seu corpo, como a alma de Jesus e a de sua Mãe Santíssima, está realmente presente (definitive) ali onde está seu corpo e não em outro lugar; ora, o Corpo de Jesus, após a Ascensão, só está no Céu enquanto lugar natural, e o mesmo se pode dizer do corpo de Maria após a Assunção. E a alma, estando por natureza unida ao seu próprio corpo, não age sobre os demais senão por ele. Nisso ela difere de um anjo, pois este não tem corpo.

Mas como Deus pode servir-se dos anjos para produzir instrumentalmente um efeito propriamente divino como o milagre, pode também servir-se da alma de Jesus, de Seus atos, e até mesmo de Seu próprio corpo, ou ainda da alma de Maria, de seus atos e de seu corpo.

Quando Deus se serve da Humanidade do Salvador como de uma causa física instrumental para produzir a graça em nós ― assim o admite Santo Tomás23 ― estamos sob a influência ainda física da humanidade de Cristo. No entanto, ela não nos toca, uma vez que está no Céu. Da mesma forma, se alguém de longe nos fala por um telefone, esse telefone não nos toca imediatamente; nesse caso, há somente contato virtual e não contato quantitativo entre o aparelho e o sujeito sobre o qual ele opera; contato virtual semelhante ao do sol que de longe nos ilumina e aquece.

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Se a Santíssima Virgem é causa física instrumental da graça, de um modo subordinado à Humanidade de Cristo, estamos também sob sua influência física, ainda que, não obstante, toque-nos apenas pelo contato virtual.

Deve-se notar, no entanto, que a alma humana, enquanto é espiritual e domina o corpo, não está, como tal, num lugar. Desse ponto de vista, todas as almas, na medida em que vivem mais amplamente da vida espiritual e estão mais desprendidas dos sentidos, ao aproximar-se espiritualmente de Deus, aproximam-se espiritualmente umas das outras. Assim se explica a presença espiritual da Santa Alma de Cristo e da alma de Maria, sobretudo se admitirmos que ambas são causas físicas instrumentais das graças que recebemos.

Nesse aspecto, pode-se dizer que estamos constantemente sob sua influência na ordem espiritual, como na ordem material está o nosso corpo constantemente sob a influência do sol que nos ilumina e aquece, e sob a influência permanente do ar que respiramos sem cessar 24.

À presença espiritual que acabamos de mencionar podem acrescentar-se a influência da causalidade instrumental denominada física, que é aqui de ordem espiritual, e a presença chamada afetiva, sobre a qual insistiremos, e que não só é provável, mas certa.

 

Presença afetiva

Mesmo se a Santíssima Virgem não fosse a causa física instrumental das graças que recebemos, ela estaria presente em nós com uma “presença afetiva”, como o objeto conhecido e amado naqueles que o amam, e isso nos diferentes graus de intimidade segundo a profundidade e a força desse amor.

Mesmo uma alma muito imperfeita está sob a influência física da Santíssima Virgem, se essa é a causa instrumental das graças recebidas por essa alma. Porém, quanto mais nosso amor por Maria se torna profundo, mais sua presença afetiva em nós se torna íntima. Importa insistir nisso, porque esse modo de presença é certo, e Santo Tomás explicou-o maravilhosamente na passagem da Suma25 onde se pergunta se a união é efeito do amor e se o amor causa a mútua inerência, isto é, se faz com que o amante esteja no amado e reciprocamente.

Respondeu ele que o amor, como disse Dionísio, é uma força unitiva: existem duas uniões possíveis entre aqueles que se amam: 1º, uma união real, quando estão realmente presentes um ao outro (como duas pessoas que estão no mesmo lugar e se vêem imediatamente); 2º, uma união afetiva (como a que existe entre duas pessoas fisicamente muito distantes uma da outra); essa união procede do conhecimento (da memória atual da pessoa amada) e do amor dessa pessoa. O amor é suficiente para constituir formalmente a união afetiva e leva a desejar a união real.

Existe, portanto, uma união afetiva que resulta do amor, apesar do afastamento das pessoas. Se Santa Mônica e Santo Agostinho, mesmo muito distantes um do outro, estavam espiritualmente muito unidos, e assim afetivamente presentes um ao outro de uma maneira mais ou menos profunda segundo o grau ou a intensidade de sua afeição, quanto mais unida estará afetivamente uma alma que a cada dia vive na maior intimidade com a nossa Mãe do Céu?

Santo Tomás vai ainda mais longe26; ele mostra que uma mútua adesão ou inerência espiritual pode ser um efeito do amor, apesar do afastamento das pessoas. Distingue claramente dois aspectos dessa união afetiva: lº, amatum est in amante, a pessoa amada está no amante, como que gravada na afeição deste pela complacência que lhe inspira; 2º, vice-versa, amans est in amato, o amante está na pessoa amada, enquanto se regozija extrema e intimamente com tudo o que agrada a ela.

O primeiro modo é freqüentemente mais sentido e, com respeito a Deus, existe o perigo de simular e imaginar tal união antes da hora; além disso, mesmo quando é verdadeiramente o fruto de uma graça, pode ter grande repercussão sobre a sensibilidade propriamente dita e expor à avidez e gula espiritual.

Quanto mais o amor é desinteressado e ao mesmo tempo forte e íntimo, mais o segundo aspecto tende a prevalecer. Então a alma está mais em Deus que Deus nela; e acontece algo parecido em relação à Humanidade de Jesus e a da Santíssima Virgem.

Finalmente, esse amor profundo e desinteressado ― diz Santo Tomás 27 ― produz o êxtase do amor (com ou sem suspensão do uso dos sentidos), o êxtase espiritual, pelo qual aquele que ama sai, por assim dizer, de si, porque quer o bem de seu amigo como o seu e se esquece de si mesmo 28.

A partir disso, poder-se-á ver quão grande pode ser a intimidade dessa união de amor e dessa presença não corporal, mas afetiva. É certo, portanto, que essa união afetiva tende à união real, da qual gozaremos no Céu ao vermos diretamente a Humanidade do Salvador e a Santíssima Virgem. Há, aqui na Terra, como que um prelúdio disso na influência física da Humanidade de Jesus e provavelmente da Santíssima Virgem, que nos transmite uma graça sempre mais elevada e uma caridade que se enraíza sempre mais intimamente em nossa vontade 29.

  1. 1. Cf. santo tomás, IIIª, q. 8, a. 1, ad 1; q. 13, a. 2; q. 48, a. 6; q. 49, a. 1; q. 50, a. 6; q. 62, a. 1, e da Poenitentia, q. 6, a. 4.
  2. 2. Essa resposta negativa encontra-se em suárez, III, disp. 23, sect. I, n. 2; e entre os contemporâneos, em Scheeben, Terrien, Godts, Bainvel, Campana, de la Taille, Bittremieux, Friethoff, Grabmann, Van der Meersch, Merkelbach.
  3. 3. Essa é a opinião do pe. hugon, o. p., La causalité physique instrumentale, 1907, pp. 194-205, de commer, De munere Matris Dei in Ecclesiae gerendo, Lépicier, Girerd, Fernández, Lavaud, Bernard.
  4. 4. Cf. IIIª, q. 60, a. 8. Só diz que não é possível batizar em nome de Maria, como em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, posto que não age no batismo. Mas sua intercessão é útil ao batizado para conservar a graça batismal. Esse texto demonstra que Maria não é a causa principal da graça, mas não nega que ela seja a causa instrumental.
  5. 5. Cf. Expositionem Salutationis Angelicae.
  6. 6. Essa doutrina, com relação ao próprio Jesus Cristo, apóia-se nestes textos: em São Lucas 6, 19: “Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía Dele uma virtude que os curava a todos”. Diz-se também de Cristo (Lc 8, 46): “Alguém me tocou, porque conheci que saiu de mim uma virtude”, o que não pode ser entendido de uma força moral como a da oração, que, sendo espiritual, não sai do corpo.

    E igualmente, quando Jesus não se contentava em rezar para obter os milagres, mas os realizava tocando nos enfermos (Jo 10, 25): “As obras que eu faço em nome de meu Pai dão testemunho de Mim”.

    O primeiro Concílio de Éfeso (Denzinger, nº 123) diz também que “a carne de Cristo, em virtude de sua união com o Verbo, é vivificante, vivificatrix”; logo, a carne de Cristo não produz a vida da graça por uma causalidade moral do mérito ou da oração, mas por uma causalidade física instrumental. É dessa forma que podemos entender as palavras de São Cirilo, São João Crisóstomo e de Santo Agostinho, citados pelos tomistas, principalmente pelo pe. hugon, op. cit., pp. 87 e ss.

    Diz-nos também a razão teológica: agir não apenas moral, mas fisicamente, é mais perfeito que agir somente pela causalidade moral. Deve ser atribuída à Humanidade de Cristo o que é mais perfeito, sempre que não repugne à Encarnação redentora (as objeções feitas contra essa causalidade instrumental foram resolvidas pelos tomistas em IIIam, q. 13, a 2). Esse mesmo argumento de conveniência serve para Maria, guardadas as devidas proporções, a título de argumento de conveniência, que fornece uma probabilidade.

  7. 7. Cf. IIª IIae, q. 178, “Da graça dos milagres”, a. 1, ad 1: “Pode acontecer que, assim como a mente do profeta é levada por inspiração divina a um conhecimento sobrenatural, assim também a alma do que faz milagres seja levada a praticar um ato donde resulta um efeito milagroso, que Deus faz com o seu poder”.
  8. 8. La causalité instrumentale en théologie, p. 201.
  9. 9. O Mistério de Maria, o. c., Buenos Aires, 1946, p. 364-5.
  10. 10. Cf. ibid., pp. 195 e ss.
  11. 11. Ibid.
  12. 12. Seria necessário, ao que parece, uma razão positiva para admitir essa exceção.
  13. 13. Aplica-se então a Maria o que Santo Tomás diz do instrumento que dispõe para receber o efeito do agente espiritual: dispositive operatur ad effectum principalis agentis.
  14. 14. Mariologia, p. 370.
  15. 15. Commentarium in Ep. ad Hebr., VII, 25, e ad Rom., VIII, 34.
  16. 16. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 28, a. 1: “É dupla forma a união do amante com o amado. Uma real, quando este está presencialmente naquele; outra porém pelo afeto... Por onde, a primeira união o amor a causa efetivamente, porque leva a desejar e buscar a presença [real] do amado... A segunda união ele a causa formalmente, pois que o amor em si mesmo consiste nessa união ou nexo”.
  17. 17. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. I, a. 1, pp. 29-30. – Ed. Vozes (Petrópolis), 40ª edição.
  18. 18. Op. cit., p. 203.
  19. 19. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. V, a. 5: caminho fácil, curto, perfeito e seguro; cap. VI, a. 1: como Maria forma os predestinados; a. 2: ela os conduz e os defende; cap. VII, a. 5: comunicação da alma com o espírito de Maria, a. 6: transformação das almas em Maria à imagem de Jesus Cristo. Ver também em La Vie spirituelle, janeiro de 1937, o artigo do Pe. e. neubert, marianista, L' union mystique à La Sainte Vierge, pp. 15-20.
  20. 20. Les Cahiers de la Vierge do mês de maio de 1936 publicou a tradução francesa do texto holandês feita por L. van den Bossche.
  21. 21. cf. Iª, q. 8, a. 1, 2, 3, 4; q. 45, a. 5; q. 104, a. 2
  22. 22. cf. I.ª, q. 52
  23. 23. IIIª, q. 43, a. 2; q. 48, a. 6; q. 62, a. 4
  24. 24. A virtude instrumental que produz a graça é de ordem espiritual e sobrenatural, mas pode, contudo, apresentar-se de maneira transitória, algo assim como uma vibração, na atitude corporal, por exemplo, na adoração exterior ou na bênção, e passar pelas cicatrizes gloriosas do Corpo de Cristo. Pode localizar-se também nas palavras sensíveis, como nas da absolvição sacramental, transmitidas pelo ar entre o sacerdote e o penitente. Essa virtude instrumental produtora da graça pode também ser transmitida pelo meio (ar ou éter) que se encontra entre nós e o Corpo de Cristo ou o de sua Santa Mãe, presentes no céu.

    Mas, como diz santo tomás, IIª IIae, q. 178, a. 1, ad 1 e De Poenitentia, q. 6, a. 4, Deus pode servir-se como de instrumento de um ato puramente espiritual, de uma oração interior do Salvador ou de Sua Mãe; então a virtude instrumental produtora da graça é transmitida sem meio corporal. Como? Deus, que está presente em todos os lugares, em todos os corpos e nos espíritos os quais conserva na existência, pode tornar essa virtude instrumental de ordem espiritual presente ali onde deve atuar; ela que por si só não está em nenhum lugar, mas que está como o espírito numa zona acima do real. Os tomistas dizem que Deus leva-a ali onde deve operar, mas que não pode desempenhar o papel de meio, porque o meio, como o ar ou o éter, é uma causa material posta em movimento, e Deus não pode ser além de causa eficiente e final.

  25. 25. Iª IIae, q. 28, a. 1 e a. 2.
  26. 26. Ibid., a. 2, corp. et ad 1.
  27. 27. Ibid., a. 3.
  28. 28. Iª IIae, q. 28, a. 3: “O êxtase da segunda espécie o amor produz direta e absolutamente, quando é amor de amizade; não assim, mas de certo modo, quando é amor de concupiscência... Pelo amor de amizade, porém, o afeto se alheia absolutamente ao sujeito, porque quer bem ao amigo e pratica o bem, por causa mesma do amigo, quase dele tomando cuidado e providência”.
  29. 29. Ver, ao final da presente obra, o capítulo penúltimo sobre a União mística com Maria.

Artigo 1: O poder de intercessão de Maria

Desde sua vida terrena, a Santíssima Virgem aparece no Evangelho como a dispensadora das graças. Por ela, Jesus santificou seu precursor, quando sua Mãe foi visitar sua prima Isabel e cantou o Magnificat. Por ela, Jesus confirmou a fé dos discípulos em Caná, realizando o milagre que sua Mãe lhe pedia. Por ela, Jesus confirmou a fé do Apóstolo João no Calvário, ao dizer: “Filho, eis aí tua mãe”. Por ela, finalmente, o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos, pois está escrito1 que rezava com eles no Cenáculo quando se preparavam para o apostolado para o qual foram iluminados e fortalecidos pelas graças de Pentecostes.

Com maior fundamento, após a Assunção, depois de ter entrado nos Céus e de ter sido elevada acima de todos os anjos, Maria é poderosa por sua intercessão.

O senso cristão de todos os fiéis considera que uma mãe beatificada conhece no Céu todas as necessidades espirituais dos filhos que deixou na Terra e que intercede pela salvação deles. Em toda a Igreja, os cristãos rencomendam-se às orações dos santos que já chegaram ao término da sua viagem. Como diz Santo Tomás2, se quando estavam na Terra, sua caridade os levava a rezar pelo próximo, com maior razão no Céu, uma vez que sua caridade, iluminada não só pela fé, mas pela visão beatífica, é muito maior, posto que seu ato é ininterrupto e que conhecem muito melhor nossas necessidades espirituais e o preço da vida eterna, a única necessária.

O Concílio de Trento, na sessão XXV3, definiu que os santos no Céu rogam por nós e que é útil invocá-los. O mérito e a expiação cessaram no Céu, mas não a súplica; não é mais, certamente, a oração suplicante com lágrimas, mas a oração intercessora.

Jesus Cristo vive sempre para interceder por nós 4, disse São Paulo. Jesus é, sem dúvida, o intercessor necessário e principal, mas a Providência e Ele mesmo ordenaram que recorramos ao auxílio de Maria, para que nossas orações, apresentadas por ela, tenham mais valor.

Em sua qualidade de Mãe de todos os homens, ela conhece todas as suas necessidades espirituais e tudo o que está relacionado com a sua salvação; em virtude de sua imensa caridade, roga por eles; e como é onipotente sobre o coração de seu Filho por causa do amor mútuo que os une, obtém-nos todas as graças que recebemos e todas as graças que recebem aqueles que não querem obstinar-se no mal.

O senso cristão formado pelas sublimes orações da Igreja, expressão da Tradição, afirma tudo isso ao recorrer cotidianamente à intercessão da Santíssima Virgem por meio da Ave Maria.

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A teologia explica essa crença universal dos fiéis considerando as três razões fundamentais do poder de intercessão de Maria.

Em primeiro lugar, como Mãe de todos os homens, Maria conhece todas as suas necessidades espirituais.

É um princípio admitido por todos os teólogos que a beatitude dos santos no Céu não seria completa, como deve sê-lo, se não pudessem conhecer tudo o que lhes interessa aqui na Terra por razão de seu ofício, de sua função e de suas relações conosco. Esse conhecimento é motivo de um desejo legítimo que deve ser satisfeito pela beatitude perfeita, tanto mais que, se se trará do conhecimento de nossas necessidades espirituais, esse desejo procede da caridade dos santos a nosso respeito; é ela que os induz a desejar a nossa salvação, para que glorifiquemos a Deus eternamente com eles e sejamos partícipes de sua beatitude.

Por isso um pai ou uma mãe que tenham ido para o Céu conhecem as necessidades de seus filhos, sobretudo as referentes à salvação e tudo o que se relaciona direta ou indiretamente com esta. Da mesma forma, um fundador de alguma ordem entrando na glória conhece os interesses da sua família espiritual e os de cada um dos seus membros. Com maior razão, pois, Maria, Mãe de todos os homens e que tem o mais alto grau de glória diante de seu Filho, Nosso Senhor, deve conhecer tudo o que se relaciona direta ou indiretamente com a vida sobrenatural que está encarregada de nos comunicar e de conservar em nós: os atos bons e meritórios que a engrandecem, as faltas que a diminuem ou a destróem e, por conseguinte, todos os nossos pensamentos, desejos, perigos que nos ameaçam, graças de que temos necessidade, e mesmo interesses temporais que tenham alguma afinidade com a nossa salvação, como, por exemplo, o sustento diário.

Esse conhecimento universal, certo e preciso de tudo o que concerne ao nosso destino, é uma prerrogativa que pertence a Maria pelo título de sua Maternidade Divina e por sua maternidade espiritual em relação a todos os homens5.

Conhecendo todas as nossas necessidades espirituais e mesmo as de ordem material que tenham alguma afinidade com a nossa salvação, Maria está evidentemente inclinada, por sua imensa caridade, a interceder por nós. É suficiente a uma mãe suspeitar das necessidades de seu filho para que trate de aliviá-las. Para nossa Mãe do Céu, assim como para Nosso Senhor, não se trata de adquirir novos méritos, mas de fazer com que os méritos anteriores de seu Filho e os seus próprios nos sejam aplicados no momento oportuno.

Essa oração da Santíssima Virgem é onipotente? 

A Tradição tem chamado Maria de omnipotentia supplex, a onipotência suplicante6.

É, com efeito, um princípio certo que o poder de intercessão dos santos é proporcionado ao seu grau de glória no Céu, ou de sua união com Deus 7. Igualmente, segundo o testemunho constante da Tradição, Maria, cuja glória ultrapassa incomparavelmente a de todos os outros santos, possui a onipotência de intercessão. Antes do século VIII, essa doutrina encontra-se explicitamente em Santo Efrém; no século VIII, as declarações mais claras são as de Santo André de Creta, São Germano de Constantinopla e São João Damasceno. No final do século XI, Santo Anselmo e seu discípulo Eadmero afirmaram formalmente essa onipotência de intercessão, que São Bernardo explicou e transmitiu aos teólogos que lhe seguiram.

Bossuet, em seu Sermão sobre a Compaixão da Santíssima Virgem 8, demonstra admiravelmente os fundamentos dessa doutrina, recordando esta verdade da fé: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o Seu próprio Filho9, e “se o entregou à morte por nós, como não nos dará também com Ele todas as coisas?10; como não dará as graças necessárias para a salvação a todos os que as pedem com humildade, confiança e perseverança? Ora, Maria amou a Deus e as nossas almas de tal modo a ponto de entregar seu próprio Filho no Calvário. Ela é, portanto, onipotente sobre o coração de Deus Pai e sobre o coração de seu Filho para obter os bens necessários à salvação daqueles que não se obstinam na resistência à graça, mas que, ao contrário, pedem-na como convém.

Em seu sermão, Bossuet assim se expressa: “Intercedei por nós, ó bem-aventurada Maria; tendes em vossas mãos, atrevo-me a dizê-lo, a chave das bênçãos divinas. Vosso Filho é essa chave misteriosa pela qual são abertas as arcas do Pai Eterno: Ele as fecha e ninguém pode abri-las; Ele as abre e ninguém pode fechá-las; é Seu sangue inocente que faz descer sobre nós os tesouros das graças celestes. E a quem mais que a vós, Virgem Maria, dará mais direitos sobre esse sangue, a vós que lhe destes todo o seu sangue?... Ademais, viveis com Ele numa amizade tão perfeita que é impossível não fôsseis ouvida”. Basta, diz São Bernardo, que Maria fale ao coração de seu Filho.

Esse ensinamento da Tradição assim formulado por Bossuet foi proclamado pelo Papa Leão XIII na primeira encíclica sobre o Rosário, a 1º de setembro de 1883, onde Maria é chamada de “dispensadora das graças celestiais”, coelestium administra gratiarum. Na encíclica Jucunda semper, de 08 de setembro de 1894, o mesmo Papa fez suas estas duas frases de São Bernardo: que Deus, em sua amorosa misericórdia, fez de Maria a nossa Medianeira, e que Ele quis que todas as graças nos venham por ela. A mesma doutrina é encontrada no início da epístola Diuturni temporis, de 5 de setembro de 1898. O Papa Pio X disse o mesmo na Encíclica Ad diem illum, de 02 de fevereiro de 1904. Maria é chamada de “a dispensadora de todas as graças que nos foram adquiridas pelo sangue de Jesus Cristo”. Nosso Senhor é a fonte dessas graças e Maria é o aqueduto, ou, segundo outra imagem muito utilizada, é como o pescoço que, no corpo místico, une a cabeça aos membros, transmitindo-lhes o influxo vital: “Ipsa est collum capitis nostri, per quod omnia spiritualia dona corpori ejus mystico communicantur. O Papa Bento XV consagrou essa doutrina aprovando, para toda a Igreja, a Missa e o ofício litúrgico de Maria Medianeira de todas as graças.

Como observa o Pe. Merkelbach11, é preciso notar aqui três coisas.

Em primeiro lugar, é de fé que a Santíssima Virgem roga por nós, e até por cada um de nós, em sua qualidade de Mãe do Redentor e de todos os homens, e que sua intercessão nos é utilíssima, segundo o dogma geral da intercessão dos santos12. Assim a Igreja canta: Sancta Maria, ora pro nobis. E como “Lex orandi statuit legem credendi, o dogma e a oração são regidos pela mesma lei13.

Em segundo lugar, é certo, segundo a Tradição, que o poder de intercessão de Maria pode obter para todos aqueles que a invocam devidamente 14 todas as graças da salvação e que ninguém é salvo sem ela. Também a Igreja diz a Maria: “Sentiant omnes tuum juvamen, que todos experimentem tua ajuda.

Em terceiro lugar, enfim, é uma doutrina comum e segura, ensinada pelos Papas, pela pregação universal e pela liturgia, que nenhuma graça nos é dada sem a intervenção de Maria; isso é o que diz o Ofício e a Missa de “Maria Medianeira de Todas as Graças” (31 de maio), e seria ao menos temerário negar tal doutrina.

Essa doutrina aprovada pela Igreja está implicitamente contida, até o século VIII, na afirmação geral da mediação universal de Maria. Posteriormente, do século VIII ao XV, está mais explicitamente afirmada, ao se dizer que todos os dons de Deus nos vêm por meio da Santíssima Virgem. Desde o século XVI até nossos dias, essa verdade tem sido teologicamente exposta sob seus diversos aspectos, e se ressalta que se trata de todas as graças sobrenaturais provenientes da Redenção de Jesus Cristo, mesmo das graças sacramentais, no sentido em que as disposições necessárias para receber os sacramentos são obtidas pela intercessão de Maria15. Se, ademais, a Santíssima Virgem nos mereceu de congruo tudo o que Cristo nos mereceu de condigno, como vimos anteriormente, ela nos mereceu de um mérito de conveniência as próprias graças sacramentais.

Vê-se, por isso, que a intercessão de Maria é muito mais poderosa e eficaz que a de todos os outros santos, mesmo reunidos, pois os outros santos não obtêm nada sem ela. A intercessão deles fica compreendida na de Maria, que é universal, ainda que sempre subordinada à de Nosso Senhor. Ademais, as graças que Maria pede para nós, ela já no-las mereceu, e não é assim com os santos; eles pedem freqüentemente para nós os auxílios que não nos têm merecido. Sua oração, ademais, não tem a mesma eficácia que a de Maria.

E, finalmente, em relação à eficácia das orações de Maria, convém recordar um princípio que se aplica até mesmo à oração de Jesus Cristo. Este é sempre ouvido naquilo que pede, não de uma forma condicionada, como quando rezou no Jardim das Oliveiras, mas de uma maneira absoluta e conforme as intenções divinas completamente conhecidas por Ele16. Deve-se dizer o mesmo de Maria: por sua intercessão, obtém infalivelmente de seu Filho tudo o que lhe pede de maneira não condicional, mas absoluta e em conformidade com as intenções divinas, que ela não ignora.

Pode haver, para a realização de certas orações, algum obstáculo que a Divina Providência podia impedir, mas que, de fato, não impede sempre. Esse obstáculo pode advir ou porque não se pede à Santíssima Virgem com as disposições requeridas, com humildade, confiança e perseverança, ou porque se pede algo que não é julgado útil ao bem espiritual, ou porque a vontade daquele por quem se roga recusa deliberadamente a conversão exigida 17. Às vezes isso é permitido por um bem superior, que entenderemos claramente no Céu: a manifestação das perfeições divinas, o esplendor da Misericórdia ou da Justiça.

Vê-se por essas explicações que a onipotência da intercessão de Maria, baseando-se nos méritos do Salvador e no seu amor por sua Mãe, longe de antepor-se à mediação universal de Cristo, é um reflexo esplêndido da mesma e manifesta a Redenção soberana realizada pelo Redentor perfeito naquela que lhe é mais intimamente associada na obra da salvação da humanidade.

  1. 1. At 1, 14.
  2. 2. IIª IIae, q. 83, a. 11: “Se os santos que estão na pátria oram por nós”.
  3. 3. Denzinger, nº 984.
  4. 4. Hb 7, 25; Rm 8, 34.
  5. 5. Cf. e. dublanchy, Dict. Théol. cath, art. Marie, col. 2412: “Pode ser dito que Maria, em sua vida mortal, conheceu em detalhes tudo o que concerne à santificação e à salvação de cada um dos membros da humanidade? Parece que não é possível dar uma prova convincente, sobretudo quando se trata de um conhecimento universal e estendendo-se aos detalhes de cada indivíduo. No Céu, depois de sua Assunção, exerce a função de intercessão universal e de mediação para todas as graças decorrentes da redenção e possui esse conhecimento perfeito em relação a cada um dos membros de toda a humanidade”.
  6. 6. Afirmam isso em termos equivalentes: santo efrém, Opera, t. III, gre. lat., pp. 511, 537, 540; santo andré de Creta, Triod.; são Germano de Constantinopla, Homilia in Dorm. II; Teodoro Estud., P. G., CXXIX, 1779; são Nicéforo de Const., P. G., C, 341; Jorge de Nicomedia, ibid., 1438; Santo Anselmo, Orat., XLVI, P. L., CLVIII, 944; Eadmer, De excel. B. M., XII, P. L., CLIX, 579; são Bernardo, Serm. de acquaeductu, 7, P. L., CLXXXIII, 441, ibid., 415, 432, 436; Adão de Perseigne, Mariale, serm. I, P. L., CCXI, 703; Hugo de São Caro, Postilla in Eccli., xxiv, 15. — E. Dublanchy, Dict. Théol. cath., art. Marie, col. 2436 traz também as declarações de Santo Alberto Magno, Jacobo de Vorágine, Raymond Jordán, Gerson, São Bernardino de Sena, São Lorenzo Justiniano, Gabriel Biel, Viguier, Santo Tomás de Villanueva, Luis de Blois e Santo Afonso de Ligório. — Muitas dessas declarações são citadas mais ou menos amplamente pelo Pe. E. Hugon em seu livro Marie, pleine de grâce, 5ª edição, 1926, pp. 160-66, e acrescenta ainda as de Suárez, De Mysteriis Vitae Christi, d. 23, sect. 3, parágrafo 5, de Vega, Theol. Mariana, palestra XXIX, cert. IV, de Contenson, Theol. mentis et cordis, 1. X, diss. IV, c. I, de são luís Grignion de Montfort, Tratado, Iª parte., c. I, de Bossuet, Sermon sur la Compassion de la Sainte Vierge, e a declaração dos teólogos contemporâneos: Petitalot, Sauvé, de la Broise, Lépicier, Terrien, Bover. — Cf. também Merkelbach, Mariologia, pp. 345-371.
  7. 7. santo tomás, IIª IIae, q. 83, a. 2.
  8. 8. Ver o final do primeiro ponto.
  9. 9. Jo 3, 16.
  10. 10. Rm 8, 32.
  11. 11. Mariologia, p. 345-349.
  12. 12. Concílio de Trento, sessão XXV.
  13. 13. Denzinger, nº 139.
  14. 14. Dizemos “para todos aqueles que a invocam devidamente” para indicar que um obstáculo à obtenção dessa graça pode proceder de que não se rogue a Maria com as disposições necessárias ou de que se rogue por alguém que se nega a converter-se e se obstina no mal. Mas por outro lado, não é necessário para o exercício dessa mediação universal de intercessão que se peça explicitamente a Maria, nem mesmo que se peça efetivamente. De fato, em virtude de rogar a Deus ou aos santos, pede-se implicitamente a Maria, segundo a economia geral do plano divino, e ademais, muitas graças nos são concedidas sem que as peçamos: por exemplo, a graça atual necessária para começar a rezar. Mas a oração dirigida a Maria e com as devidas disposições confere maior segurança de obter a graça divina.
  15. 15. Cf.. Dict. Théol. Cath., art. Marie, col. 2403.
  16. 16. santo tomás, IIIª, q. 21, a. 4.
  17. 17. Cf. santo tomás, IIª IIae, q. 83, a. 15, ad 2.
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