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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Conferência de Dom Galarreta - 13 de outubro de 2012

 

Diante das interpretações absurdas publicadas na internet, em sites e blogs do Brasil, pareceu-me necessário trazer para os nossos leitores o texto traduzido dessa importante conferência. Uma das causas dessas equivocadas interpretações é o fato de se ter apenas lido a transcrição em espanhol, sem terem escutado o áudio em francês. Cheguei a pensar em produzir legendas para acompanhar o áudio, mas não nos foi possível. Assim, apresento aqui o texto em português, traduzido diretamente do áudio em francês, acrescido dos meus comentários, entre colchetes e em itálico. Recomendamos ao leitor que mesmo não conhecendo o francês, que leia a conferência ouvindo o áudio: http://www.laportelatine.org/mediatheque/audiotheque/audiotheque2012.php, pois as pausas, entoações, insistências, mostram o valor de cada frase, de cada parágrafo, na tranquila e elevada exposição do autor. E que esse esforço da Permanência sirva para eliminar definitivamente a injuriosa acusação feita contra Dom Galarreta, de que teria traído, mudado de posição, e se inclinado a fazer um acordo prático com Roma.

Dom Lourenço Fleichman OSB

Leia a transcrição da conferência com comentários

 

Caros irmãos, caros religiosos, caríssimos fiéis e amigos,

[Assinalamos a importante introdução espiritual feita por Dom Galarreta, sobre o combate]

Minha intenção é falar-lhes das qualidades da milícia espiritual, cristã, católica; das condições que devem revestir o combate pela Fé e, é claro, dizer-lhes algumas palavras sobre a situação da Fraternidade em relação a Roma.

No livro de Jó lemos: “Militia est vita homini super Terram. Et dies eius sicut dies mercenarii”. A vida do homem sobre a Terra é um combate, é a vida do soldado - uma milícia - e seus dias, como os dias de um mercenário. É a Sagrada Escritura quem nos fala, é Jó quem nos dá essa figura, bem interessante. Se a vida de todo homem na Terra é um combate, quanto mais não seria a vida de um católico, cristão, batizado, confirmado, engajado no combate pelo Cristo Rei. E eu diria ainda mais, se a vida de todo cristão é um combate, a vida de um cristão nos tempos atuais é, por excelência, uma luta, um combate, uma milícia. Vejam que nesta frase encontramos proclamada a necessidade do combate. Ele é necessário, é a nossa condição. E isso não é novo. Sempre, e em todo o universo, houve combate e foi necessário lutar pela vida. Sempre houve, sobretudo, um combate pela eternidade, que abrange muitas coisas. É preciso então um espírito combativo. O que se pede a um soldado, claro, é que ele seja capaz de lutar, de batalhar, que seja corajoso e valente.

Esse texto também se refere a uma Providência, pois tanto um soldado quanto um mercenário estão a serviço de um senhor. Logo, nós lutamos por Deus, combatemos por Nosso Senhor Jesus Cristo. E Nosso Senhor Jesus Cristo é nosso chefe, nosso soberano, mas também é o Senhor da História. A Providência governa TODAS as circunstâncias. São João da Cruz diz “Tudo é Providência”, não no sentido de “Tudo é graça”, mas no sentido de que tudo o que nos acontece nos é enviado de maneira completamente consciente e desejado pela Providência.

[Contra os excessos de reclamações e revoltas pessoais contra tudo e contra todos, inclusive na crise da Igreja. Vejam abaixo a visão sobrenatural sobre o combate]

Continuando: um soldado e um mercenário lutam e batalham por um senhor e por uma vitória. E se a vida é um combate, isso quer dizer que a vitória não acontece aqui na Terra. E se a vida inteira é um combate, então nossa vitória está na eternidade. Creio que precisamos ter essa visão de Fé sobrenatural do combate. Nós lutamos nessa vida, sobre essa Terra, mas para possuirmos uma coroa eterna. Mas não devemos nos alienar. Um cristão, um católico, sabe que o combate acontece nesta vida, e é muito real - é preciso batalhar. Assim acontece para que saibamos que a vitória consumada está na eternidade. Nessa vida, então, por assim dizer, não é preciso obter vitórias, se Deus não o quiser. Pois definitivamente, nossa vitória, em última instância, é conquistar a eternidade, para nós e para os nossos.

Esse pequeno texto de Jó também nos mostra outros aspectos desse combate. Por exemplo, ele é penoso, penoso no sentido epistemológico da palavra. O combate pela Fé, o combate sobrenatural, pelo espiritual, supõe sofrimentos e provações, contradições e inclusive derrotas - sim, derrotas, ainda nesta vida ... (PAUSA)

Santa Tereza de Jesus tem um belo texto em que diz que o que se pede ao cristão não é vencer, mas lutar; ou melhor, combater pela Fé já é a vitória do cristão. E um autor dizia, “de fato, Deus não nos exige a vitória. Ele nos exige não nos deixarmos vencer.” É muito interessante essa reflexão. Vejam que podemos aplicar tudo isso à própria crise da Igreja. Deus não nos pede a vitória. É Ele quem dá a vitória, se Ele quiser, quando quiser e como quiser. Não lhe custa absolutamente nada. O que Ele nos pede é defender o bem que possuímos e não nos deixarmos vencer.

Há um texto do Cardeal Pio que gostaria de ler, que é cheio de ... cheio de Fé, de ensinamentos, e está muito bem dito:

“O sábio da Iduméia [Jó] disse: “A vida do homem sobre a Terra é um combate. E essa verdade é tão aplicável às sociedades quanto aos indivíduos. Constituído em substâncias essencialmente distintas, todo filho de Adão carrega em seu seio, como a esposa de Isaac, dois homens que se contradizem e lutam entre si. Esses dois homens - ou se preferem, essas duas naturezas - têm tendências e inclinações contrárias. Levado pela lei dos sentidos, o homem terrestre está em perpétua insurreição contra o homem celeste, governado pela lei do espírito, antagonismo profundo, luta necessária, e que, [ouçam bem], só termina aqui embaixo com a deserção vergonhosa do espírito, entregando as armas à carne e aos seus cuidados”.

Ou seja, a única maneira de se chegar à paz nesse combate - ao pacifismo - é deixando a carne vencer. Caso contrário, bem ...  somos obrigados a combater até a morte. O triunfo virá depois. É isso que ele está dizendo.

Podemos dizer então, caros irmãos, que a vida do homem sobre a Terra, a vida da virtude, a vida do dever, é a nobre aliança, é a santa cruzada de todas as faculdades de nossa alma, sustentada pelos auxílios da graça, sua aliada, contra todas as forças reunidas da carne, do mundo e do inferno. Militia est vita homini super Terram”.

É um combate nosso, mas é também um combate social, público.

Ora, se considerarmos esses mesmos males e rivais, essas mesmas forças inimigas, não só para o homem individualmente, mas também nesse conjunto de homens que se chama sociedade, então a luta toma proporções muito maiores. No Gênesis lemos a seguinte passagem: As duas crianças que se colidem, que se chocam entre si em seu seio, diz o Senhor à Rebeca, são duas nações. Seus dois filhos serão dois povos, dos quais um será domado pelo outro e dever-lhe-á obediência.

Dessa forma, meus irmãos, o gênero humano compõe-se de dois povos. O povo do espírito e o povo da matéria. Um, no qual se personifica a alma, com tudo o que ela tem de nobre e de elevado. O outro, que representa a carne, com tudo o que ela tem de grosseiro e de terrestre. A maior desgraça que pode cair sobre uma nação é o cessar fogo entre essas duas potências adversas. Esse armistício viu-se no paganismo”.

 E, evidentemente, tudo fica mil vezes pior se esse armistício se estabelece no seio da Igreja, sendo esta, por definição, uma instituição que por definição, deve lutar contra esse espírito.

“E o Espírito Santo, que nos traçou um quadro de todas as torpezas sociais e domésticas que resultam dessa monstruosa capitulação, [e vemos isso hoje em dia, novamente], concluiu seu quadro com um último traço: o dos homens vivendo num tal afrouxamento, sem se darem conta, mil vezes mais mortífero do que a guerra, abusando a ponto de chamar de paz males tão grandes e numerosos”.

Descreve bem a situação atual, não é? A paz, a paz, a paz...

“Insensibilidade funesta que nada mais é que a da morte, uma paz lúgubre que pode ser comparada ao trabalho silencioso e tranquilo dos vermes que corroem o cadáver em seu túmulo. O gênero humano, num lânguido estado de rebaixamento e prostração moral, pois o Filho de Deus veio à Terra  não trazendo a paz, mas a espada. É a espada do espírito que o Deus criador recolocara nas mãos do homem para que combatesse contra a carne, e que o homem, covardemente, deixou cair de suas mãos. Jesus Cristo, assim como o disseram antes de mim, o recolheu na ignóbil poeira onde por muito tempo dormira e, em seguida, depois de tê-lo embebido em seu sangue, após te-lo provado em seu próprio corpo, devolveu a espada, mais afiada e penetrante do que nunca, ao novo povo que viera fundar sobre a Terra. Assim se reiniciou no seio da humanidade, para só acabar juntamente com o mundo, o antagonismo do espírito e da carne. Non veni pace mittere sed gladium”.

Este é o cardeal Pio. É um texto longo, completo, tudo está dito, e muito bem dito. A necessidade desse combate do qual nos fala Jó nas Escrituras - a palavra de Deus - não é apenas um combate interior, individual, encerrado nos lares ou nas escolas. Também é um combate essencialmente social, político e religioso. Os dois espíritos existem, assim como as duas cidades; é um combate inevitável. E é esse combate que devemos continuar... (diz em tom bem pausado), esse combate no qual nos engajamos.

Terei que encurtar bastante a conferência devido ao tempo, mas a meu ver, esse quadro acima descrito já lhes permite compreender em que consiste o combate da Fé, o combate católico, o combate do cristão nestas duas cidades, o combate da tradição nessa horrível crise da Igreja, nessa apostasia.

A CRISE DESSE ANO

Passarei agora a algumas reflexões sobre nossa última e recente batalha, (diz sorrindo) batalha que tivemos no ano passado, tão difícil..., não por causa do inimigo, que é o mesmo de sempre, mas por causa das diferenças que existiram entre nós, e que, aliás são perfeitamente lógicas, razoáveis e humanas. Não há necessidade de se rasgar as vestes só porque descobrimos que somos homens. Nós temos as mesmas limitações que os outros; quer dizer, graças a Deus não [exatamente] as mesmas, mas compartilhamos da mesma raiz: o pecado original, a ignorância, a malícia, a fraqueza. Em todo caso, o que trouxe toda a dificuldade encontrada neste último ano escolar [setembro 2011 – junho 2012], foram justamente as dificuldades, ou provações, entre nós, que são na verdade as mais difíceis e as mais dolorosas. Não se pode olhar para ela como coisa sem importância, sobretudo não se pode buscar a solução como se fosse sem importância. É como um conflito familiar, que precisa ser bem resolvido, com muita delicadeza, com muita caridade, prudência e fineza; mas tem de ser resolvido, é claro!

Digo logo meu pensamento, visto que nessa crise ouvimos tantas opiniões diferentes, muitas vozes diferentes, talvez ainda com consequências funestas; assim, pensei que ao menos pudessem conhecer meu pensamento. Retomarei rapidamente, para explicar-me, alguns fatos a partir do fim da cruzada do rosário – fazendo um histórico - esta cruzada de orações cujo objetivo era oferecer 12 milhões de terços, número alcançado, concluída em Pentecostes desse ano. Ao cabo dessa cruzada, recebemos três respostas, uma após a outra, de Roma. Nesse momento estava sendo analisada a proposta da Fraternidade apresentada no mês de abril, e logo depois de Pentecostes recebemos uma primeira resposta da Congregação para a doutrina da Fé.

Nessa resposta [as autoridades romanas] diziam claramente que rechaçavam e rejeitavam nossa proposta e faziam várias correções. No fundo diziam: devem aceitar Vaticano II, devem aceitar a validade, a licitude da missa nova, devem aceitar o magistério vivo, ou seja, aceitar que elas [as autoridades romanas] sejam os intérpretes autênticos da tradição; são elas que dizem o que é Tradição e o que não é. Há que aceitar o novo Código, etc. Esta foi a resposta.

Em seguida – e acredito que isso tenha sido uma resposta da Providência – houve a nomeação do cardeal Muller. Nomearam-no chefe da congregação para a doutrina da Fé, com o que também se torna presidente da comissão Ecclesia Dei, a responsável por todos os que estão ligados a Ecclesia Dei e por manter os contatos com a Fraternidade São Pio X. Ora, esse bispo, nomeado à frente do mencionado dicastério e sendo presidente da comissão Ecclesia Dei – além de questionar várias verdades da Fé – seria o guardião da Fé. Na Fraternidade já o conhecemos há bastante tempo. Ele era bispo de Ratisbona - diocese onde se encontra o seminário de Zaitzkofen – e já aí tivemos algumas dificuldades e enfrentamentos. Há três anos ele ameaçou excomungar o bispo que presidiria as ordenações em Zaitzkofen. No caso tratava-se de mim.  Ameaçou excomungar-me assim como todos os diáconos que receberiam o sacerdócio, os novos padres. Depois voltou atrás; mas trata-se de alguém que não nos estima, não gosta de nós, está claro; disse que aos bispos da Fraternidade só lhes restam uma coisa: entregar seu episcopado nas mãos do Santo Padre e se fecharem em um convento. É cruel, não é? (dito entre risos). Depois disso, simplesmente disse que tínhamos que aceitar o concílio, e isso era tudo. Não havia nada mais a discutir.

Enquanto esperávamos as luzes do Espírito Santo, de Deus, recebemos essa resposta.

Em seguida, nosso superior geral escrevera ao papa antes do capítulo geral para saber se realmente era essa sua resposta, visto que uma grande parte dos problemas que enfrentávamos era devida à existência de uma dupla mensagem vinda de Roma. Algumas autoridades diziam: a resposta da Congregação para a Fé é oficial, corresponde ao trabalho deles, mas não tem de ser levada em conta; arquivem-na. Seja como for, queremos um acordo e queremos reconhecê-los tais como são.

Entretanto, a resposta da Congregação para a Fé e a nomeação do cardeal Muller não iam nesse sentido, no sentido da segunda mensagem. Então, para saber de fato do que se tratava, Dom Fellay escreveu ao Papa para saber se aquela era realmente sua resposta, seu pensamento. E logo antes do capítulo, durante o retiro que o precedeu, Dom Fellay recebeu uma resposta – foi a primeira vez que houve uma resposta do Papa a Dom Fellay - e no domingo, já no final do retiro, nos disse à mesa: Recebi uma carta do papa onde confirma que a resposta da Congregação para a Fé é a sua resposta e que ele a aprovara. E relembra, em três pontos, suas exigências, suas condições sine qua non da parte de Roma para um reconhecimento canônico:

Reconhecer que o magistério vivo é o intérprete autêntico da Tradição [ou seja, que as autoridades canônicas o são];
Reconhecer que o concílio Vaticano II está perfeitamente de acordo com a Tradição, que se deve aceitá-lo;
Aceitar a validade e licitude da missa nova.

Colocaram licitude – provavelmente em francês essa palavra tem um significado um pouco ambíguo. Poderia ser dito simplesmente legal, que tem as formas legais, mas em linguagem eclesiástica, canônica, é muito mais profundo que isso. Quer dizer que é uma lei verdadeira e que se impõe como tal. Contudo, a Igreja não pode ter uma lei contrária à Fé católica. Neste sentido, sempre contestamos a legalidade da reforma litúrgica e da nova missa: não se pode fazer disso uma lei, é impossível, porque é contrária à Fé, destrói a Fé. E escreveram tal qual se lê: validade e licitude.

Dito de outra forma, tínhamos que abandonar e trair o essencial de nosso combate - do combate entre as duas cidades, entre os dois espíritos. Então, evidentemente, a Divina Providência marcou o caminho do capítulo sobre este ponto. A própria Roma dizia: não, não, nós ficamos na questão doutrinal e vocês têm que aceitar tudo o que rejeitaram até agora.

[notemos que Dom Galarreta demonstra grande firmeza e clareza na análise das exigências recebidas do papa. Isso é muito importante para entender, adiante, o que ele quer dizer quando lança uma hipótese, de um futuro papa que quisesse impor o retorno à Tradição. Alguns leitores mais afoitos, sem ouvir o áudio em francês, e sem ligar essa simples hipótese com a firmeza do que acabamos de ler, pretenderam que Dom Galarreta teria capitulado, o que chega a ser ofensivo]

O CAPITULO GERAL [9 A 14 DE JULHO DE 2012]

Então veio o capítulo. Não posso lhes dar muitas precisões - pois somos obrigados ao segredo – mas o próprio Dom Fellay já lhes fez conhecer algumas coisas indicadas na Declaração final. São as condições que todos conhecem. O que posso dizer é que a Divina Providência nos assistiu durante o capítulo de maneira clara e evidente. Tudo se passou muito bem; digo-lhes assim muito simplesmente: foi possível falar tranquilamente, livremente, abertamente. Abordamos os problemas cruciais, mesmo que tenha sido à custa da supressão de outros assuntos que estavam previstos. Usamos de todo o tempo necessário para discutir, confrontar pontos de vista, tal como deve ser feito entre membros de uma mesma Congregação, de um mesmo exército. Nisso não há problemas. Vejam bem: a Fraternidade não é uma escola de meninas, certo? Por isso, se há alguma discussão entre nós, não é preciso fazer toda uma história em cima disso [não desprezo as escolas de meninas, certo?! Não é isso!! risos]. Bom, que tenha algumas discussões entre nós, é assim... Leiam o cardeal Pio, o que escreveu propondo a discussão pública dos bispos da França, no século XIX. Discussão pública dos bispos! Ele justifica tudo isso, explica por que, diz que é um combate, e pronto! Também não precisa fazer disso um drama! Um drama seria abandonar a Fé e não as discussões sobre oportunidades e prudência, sobre isso ou aquilo, com espíritos diferentes, temperamentos distintos; tudo isso é complicado..., muito complicado. Numa tal situação não se pode sacar a espada e sair cortando a garganta dizendo: Tchou! (barulho de espada) Resolvo a questão com um único golpe! Não.

O capítulo desenvolveu-se então nessa atmosfera, e eu realmente penso que dali já tiramos as lições e utilidades das provações que tivemos, mesmo que ainda não esteja tudo perfeito - e esse é outro aspecto que se deve levar em conta. Tudo em nossa vida acontece na imperfeição. Leiam a história da Igreja! Não se pode pedir uma perfeição que não é deste mundo... ; devemos, sim, ter os olhos fixos no essencial, sobre o que realmente conta. E ainda assim, passa-se sobre muita coisa nessa vida, não é? Não acontece assim em suas famílias? Sim, pois caso contrário nada mais se sustenta nessa vida, nem mesmo entre nós.

Alguns dizem: “Sim, sim, tudo bem, sim”,... mas tinham que ver a complexidade do problema, da situação; era preciso ir além. Mas também não nos esqueçamos das paixões, hein! Elas existem, até mesmo dentro de nós. Tudo isso para lhes dizer que não se deve ser mesquinho e rabugento nessas situações. É preciso ver se o essencial está presente ou não. A meu ver nós superamos a crise, a deixamos para trás e de maneira conveniente, sobretudo nas medidas práticas, graças às discussões que nos permitiram esclarecer algumas coisas, pensar nos argumentos sobre todos seus aspectos, classificá-los e chegar a uma clarividência mais perfeita e uma lucidez sobre a situação; e isso é o próprio das provações – (é o que se espera delas) – tirar benefícios. Fora as discussões extremamente importantes e ricas, estabelecemos condições que nos permitissem considerar, hipoteticamente, uma normalização canônica. Se pensarem bem sobre isso, verão que o que foi feito consistiu justamente em levar em conta toda a questão doutrinal e litúrgica e transformá-la numa condição prática.

[Fico impressionado de ver como algumas pessoas usaram essa última frase para dizer que Dom Galarreta agora aceitava um acordo prático com Roma, sem a conversão das autoridades. Não percebem que se trata de outra coisa completamente diferente, e eu diria mesmo, contrária. O que o bispo está dizendo é que, diante da grave crise que aconteceu, o Capítulo aprofundou o princípio de que não se pode fazer um acordo prático com Roma sem que antes haja o acerto doutrinário, sem que antes as autoridades romanas tenham se convertido à verdadeira Tradição (ele mostrará que as autoridades de Roma só aceitam elas próprias como critério do que é Tradição). Como foi essa maior profundidade? Estabelecendo critérios que provem que houve essa conversão, de modo muito prático e claro. Ou seja, não basta o papa dizer que quer a Tradição, ele vai precisar provar isso na prática, dando à Fraternidade algo que só uma alma católica daria, só uma autoridade que, antes de qualquer outro, atacasse o Concílio, como ele dirá adiante. O lado prático de que fala aqui é da parte de Roma, não da parte da Fraternidade. Todo o contexto do que segue prova essa interpretação que estou dando aqui, de modo que eu rechaço como equivocada, senão maliciosa, essa tentativa de denegrir o pensamento de Dom Galarreta.]

AS CONDIÇÕES RELATIVAS A UMA EVENTUAL NORMALIZAÇÃO CANONICA

Como já disse, nem tudo está perfeito, e nós mesmos, depois, percebemos rapidamente que a nossa distinção entre condições sine qua non e condições desejáveis não era...  muito exata, pois não era apena desejável. Na realidade, para nós, entre as condições que indicamos como desejáveis também há condições sine qua non, porém estas são de ordem prática, canônica, concreta. Na verdade, a Casa Geral já havia exigido de Roma essas condições e, em sua maior parte – depois de vários enredos, idas e vindas – Roma já estava disposta a concedê-las, inclusive atualmente. O objetivo do capítulo, sua preocupação, não era definir as consequências, o que se seguiria, mas bem definir o essencial, que não estava bem definido antes. Em outras palavras, no caso de figura hipotética de um papa, de um próximo papa que realmente queira fazer um acordo com a Fraternidade, nos perguntávamos quais seriam as condições de ordem doutrinal exigidas, que dizem respeito à doutrina, à fidelidade à Fé, à Tradição, à confissão pública da Fé, e inclusive à resistência pública lançada contra os que difundem erros, os fautores de erros - mesmo que se tratem de autoridades eclesiásticas. Foi sobre esses pontos que definimos, com muita precisão, que estão nas duas primeiras condições sine qua non. É evidente que tudo está aí. Posso voltar a lê-las.

[Este parágrafo veio reforçar o que eu dizia acima. O princípio de que era preciso resolver o problema doutrinal necessitava de maiores precisões. Foi essa a finalidade do Capítulo. Na prática, o que devemos exigir de Roma para que se prove a mudança profunda das autoridades? Estamos diante de um fato histórico e é muito triste ver como alguns não o entenderam, saindo em guerra contra Dom Galarreta!]

A primeira: “Liberdade de conservar, transmitir e ensinar a santa doutrina do magistério constante da Igreja e da Verdade imutável da Tradição divina”. Talvez isso lhes pareça uma linguagem um pouco ... difícil. Mas na verdade ela é muito precisa. Usamos o termo “conservar”, para termos a garantia, para se pensar numa normalização, que um Papa que nos reconheceria, verdadeiramente nos daria garantia, um acordo por escrito, de poder conservar, transmitir e ensinar a santa doutrina, a santa doutrina, do magistério constante. Porque eles têm uma noção evolutiva do magistério, e se falarmos somente “magistério”, não é suficiente. Se falarmos “magistério de sempre” ainda é duvidoso, na linguagem deles (dito em tom explicativo). “Verdade imutável da tradição divina”. Por que “Verdade Imutável”? Porque, para eles, a Tradição é viva. Reparem como tudo é muito preciso; isso é fruto das experiências anteriores que tivemos durante quase um ano e meio com a comissão romana, não é?

Mas continuemos com o primeiro ponto: “Liberdade de defender a verdade, corrigir, condenar, inclusive publicamente, os fautores de erros ou novidades do modernismo, do liberalismo, do Concílio Vaticano II e de suas consequências”. Penso eu que dificilmente pode-se acrescentar alguma coisa. Tudo está aqui. Trata-se da liberdade para confessar e atacar publicamente os erros, ensinar publicamente as verdades negadas, ou diminuídas, assim como para nos opormos publicamente aos que difundem os erros, mesmo que sejam as autoridades eclesiásticas. Quais erros? Os erros modernistas, liberais, os do Concílio Vaticano II e os das reformas que daí resultaram, ou os de suas consequências, que são ainda maiores, na ordem doutrinal, litúrgica ou canônica. Tudo está aqui, até mesmo a resistência pública ao novo Código de direito canônico, na medida em que está imbuído do espírito colegial, ecumênico, pessoal, etc.

O segundo ponto é “usar exclusivamente a liturgia de 1962”. Ou seja, toda a liturgia de 1962 e não somente a missa. Tudo, inclusive o Pontifical. “Conservar a prática sacramental que temos atualmente, inclusive, é claro a da Ordem, da Confirmação e do Matrimônio”. Nesta parte incluímos certos aspectos da prática sacramental e canônica que nos são necessários para realmente termos, no caso hipotético de um acordo ou reconhecimento, a liberdade prática e real, num caso que continuaria sendo mais ou menos modernista. Reordenaríamos, sendo necessário; reconfirmaríamos, e quanto aos casamentos, é claro que não aceitamos... por exemplo, certas novas causas de anulação.

[Não seria justo ouvir ou ler esta passagem como se fosse uma negociação de acordo prático. Dom Galarreta está falando hipoteticamente, e insiste nisso mais de uma vez, para mostrar que a Fraternidade não poderia se aproximar de Roma novamente nas mesmas condições que estavam presentes nessa crise atual. O que já ficou dito mostra claramente que um papa precisaria de uma firme vontade de atacar o Concílio e retornar à Tradição, para aceitar as condições impostas pelo Capítulo.]

Ainda entre as condições sine qua non: “garantia de pelo menos um bispo”. Como lhes disse, nem tudo está perfeito; isso não está perfeito. Todos na Fraternidade estão de acordo quanto ao fato de que é necessário pedir vários bispos auxiliares, uma prelazia, isenção dos bispos... todos estão de acordo e nisso não há problema. Isso não era problema antes e também não o é agora. Não se deve insistir nisso [com tom firme]. A diferença é que agora definimos bem o que antes era um problema. Antes, precisamente esse aspecto não estava tão claramente definido e também havia uma ambiguidade da parte de Roma, evidente!

A convocação de um Capitulo deliberativo

Nesse capítulo extraordinário também ficou decidido que, se a Casa Geral conseguisse algo válido e interessante com essas condições, (e enfatiza “com essas condições”) convocar-se-ia um capítulo deliberativo. Isso significa que sua decisão obriga necessariamente. Quando há um capítulo consultivo, pede-se conselho, mas é a autoridade quem decide livremente. Já um capítulo deliberativo significa que a decisão tomada pela maioria absoluta – a metade mais um, o que nos pareceu razoável – será observada pela Fraternidade. Através das grandes dificuldades e desentendimentos que tivemos, no Capítulo vimos que este foi um momento onde pudemos superá-los, conseguindo conversar entre nós como deveria, e superamos os problemas. Está claro que um capítulo deliberativo constitui uma medida muito sábia e suficiente para que eventualmente se aprove o que se tiver conseguido. Pois é quase impossível que a maioria dos superiores da Fraternidade – depois de uma discussão franca, de uma análise profunda de todos os aspectos e de todas as consequências – é impensável que a maioria se equivoque, em matéria de prudência. Isso é quase impensável. E se por acaso, isso acontecesse, tanto pior, mas será feito o que a maioria pensa.

Nesta vida não existem garantias absolutas, já que cada um de nós – começando por nós mesmos – nem temos garantias sobre o que faremos amanhã. Dessa maneira, é amplamente suficiente para sair do impasse em que estávamos. Se analisarem bem, nosso último capítulo pôs as mesmas condições que Roma, mas no sentido contrário: exigem-nos uma coisa, e nós, o contrário. É evidente que a possibilidade de um acordo se afasta. Sobretudo, se falamos da realidade do perigo e do risco de um mau acordo, isso parece, a meu ver, definitivamente afastado. Definitivamente: não quer dizer para sempre, mas dessa vez.

[Me parece importante explicar que Dom Galarreta está abordando a chance de um Capitulo deliberativo que deveria decidir sobre um hipotético acordo futuro, dentro das graves condições exigidas doravante pela Fraternidade, (que inclui a conversão das autoridades, como vimos) tomar uma decisão errada mesmo com todos os membros do Capítulo presentes. Ele considera quase impossível, mas deixa aberta essa possibilidade nada desejável. Isso porque, dentro da vida da Igreja, os institutos religiosos são regidos por voto. Se o instituto for de padres e religiosos piedosos e sobrenaturais, as chances são pequenas de um erro fatal. Mas não existem garantias humanas contra isso. A Divina Providência, que rege do Céu esse tipo de decisão, teria permitido assim, por razões que desconhecemos, por castigo, ou para a provação e santificação dos seus membros, que uma ordem religiosa fosse destruída. No final do parágrafo, Dom Galarreta mostra que essas decisões do Capítulo afastaram qualquer perigo iminente de um acordo nos moldes anteriores.]

O CAPÍTULO EVITOU UMA DIVISÃO

Também evitamos uma divisão, e isso não é pouca coisa. Tínhamos que pensar nisso! Era preciso compreender que íamos causar uma grande divisão na Fraternidade, nas Congregações, nas famílias. E como somos temíveis no combate, teríamos nos autodestruídos com muita força e constância... Imaginem! Essa era a realidade!... E graças a essa compreensão, lucidez, união, decisão, mesmo se era imperfeita, superamos esta divisão que teria sido uma espécie de desonra, ao que nós defendemos, à Fé, à verdadeira Fé, a nosso combate, aos que nos precederam, Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer ... Imaginem...!

CONDIÇÕES EM RELAÇÃO AO BEM QUE PODERÍAMOS FAZER À IGREJA

Em seguida, me parece, como lhes dizia, graças ao que já vivemos, às provações, às discussões, a algumas contradições, conseguimos chegar a uma melhor compreensão e melhor definição da realidade. A posição da Fraternidade está muito mais precisa, está muito mais lúcida depois desses seis meses; está muito melhor. Pois não excluímos a possibilidade de que o caminho escolhido pela Providência para um retorno à Fé, que comece com a conversão, com o retorno à doutrina, com o retorno de um papa ou de uma parte dos cardeais. De maneira alguma excluímos essa possibilidade. Isso não é mais difícil que o outro caminho, o caminho prático. O que pensamos, simplesmente, é: se isso não acontecer, se não houver um retorno da parte de Roma, de um próximo Papa, à Tradição - na Teologia, nos princípios, na Fé, no ensinamento - nesse caso, admitamos que tal papa queira permitir a Tradição, quais são as condições para aceitarmos uma normalização canônica, nesse caso hipotético, de aceitar, ou de chegar a uma normalização canônica, tendo em vista o bem que podemos fazer à Igreja? - que é considerável, não se pode negar.

Assim, em minha opinião, houve melhora nesse sentido. Definimos quais seriam as condições que nos protegeriam totalmente na Fé e no combate integral pela Fé. Mas, enfim, conjecturar sobre o futuro compete à profecia ou à adivinhação, não é? Não sabemos o que o bom Deus nos enviará. Apresento-lhes uma figura, uma hipótese: suponhamos que amanhã haja um papa, na situação atual, mas que não seja modernista, em seu pensamento, como é o caso atualmente; suponhamos que não seja modernista em sua teologia, em seu pensamento, em seu coração, e que queira realmente voltar à Tradição, mas que lhe falte um pouco de convicção, pois se para resistir e perseverar na verdadeira Fé, imaginem, para fazer frente a todo o modernismo que infesta a Igreja. É preciso uma convicção realmente heroica. Suponhamos que não tenha essa convicção, ou que esteja suficientemente convencido porém débil, temeroso, condicionado por aqueles que o rodeiam – faço aqui reflexões que a história da Igreja nos proporciona;  houve bispos e papas desse tipo. Houve papas muito bons na doutrina, mas que eram muito ruins em seus costumes; por outro lado, houve papas fracos, do mesmo modo que houve excelentes papas que se equivocaram. Hoje dizemos que se equivocaram em certas decisões históricas que tiveram consequências graves. Assim, na possibilidade de um papa que não tivesse a convicção, a fortaleza ou os meios para, ele próprio, endireitar a situação atual da Igreja, nesta crise de Fé, ele poderia muito bem servir-se de nós como ponta de lança; poderia muito bem nos dar as condições necessárias para que possamos, nós, ser a ponta da lança contra esse abscesso. E além disso, pensando bem, se um Papa um dia nos outorga essas condições, ele próprio dará o primeiro golpe contra o edifício do concílio Vaticano II e da Igreja conciliar. Porque a própria realização do fato já admitiria que o concílio contém erros, que pode ser refutado e que se deve voltar à Tradição. Imediatamente após um papa atender essas condições exigidas, quase impossíveis aos olhos humanos, estaria declarada guerra entre eles [entre as autoridades romanas]. A dita Igreja conciliar seria dinamitada. Por essa razão, a nossos olhos, as questões práticas, canônicas, etc. nos aparecem como detalhes. Pois quando um papa quiser conceder os dois primeiros pontos, estará disposto a nos conceder tudo, e é claro que pediríamos.

[Vemos aqui a razão de ser desses longos parágrafos em que as duas hipóteses, de um papa modernista que quisesse voltar à Tradição, e de um papa não modernista mas fraco, que se servisse da Fraternidade para restaurar a Igreja, foram apresentadas. Era para mostrar que a questão prática, canônica, é vista pela Fraternidade após o Capítulo, como um detalhe, pois um papa que concedesse as duas primeiras condições sine qua non, que são doutrinárias, já estaria admitindo as questões menores e práticas que estão nas demais condições. Estamos muito longe da suposta mudança de atitude de Dom Galarreta, levantada de modo precipitado e equivocado por alguns, na internet.]

Ainda tenho muita coisa a dizer, mas creio que já lhes disse o mais importante.

[Dom Galarreta vai terminar com outro ensinamento espiritual de grande importância para nosso combate]

Trago-lhes agora uma reflexão sobre a necessidade e a utilidade das provações: é um ensinamento católico, tradicional, que está na Sagrada Escritura. Quando o Anjo diz a Tobias: “Como foram agradáveis a Deus, era necessário que viessem provações”. Pois tiram-se muitos bens das provações! Santo Agostinho diz que o pior que pode acontecer a um homem, o pior dos males, é o de não tirar as lições, os ensinamentos e as vantagens das provações. O homem mais infeliz do mundo é o que não tira dos males as lições e os bens que poderia tirar. Consequentemente, depois dos males, ele fica pior ainda. Atenção, hein! Atenção... (diz em tom de advertência). Se há utilidades, se há frutos numa provação, é preciso vê-las e recolhê-las. Normalmente temos a tendência de tirar para os outros as lições trazidas pelas calamidades, pelos sofrimentos e pelas provações. “Viu, eu tinha razão. Você foi castigado”. Mas há muitos outros ensinamentos numa provação. E pode-se dizer que todas nossas fraquezas e defeitos são desnudadas, postas à luz do dia, através das provações. Assim, cada um deve tirar os ensinamentos para si, para se corrigir, para não refazer os mesmos erros, as mesmas besteiras, os mesmos males. Frequentemente, mesmo defendendo uma boa causa, causamos algum mal. Nisso tudo também há lições de humildade, ...foi uma cura da humildade, hein. Melhor assim, isso é bom! (diz sorrindo). Talvez isso nos chame à vigilância - um aspecto um pouco diferente. Talvez não estejamos transmitindo suficientemente bem às futuras gerações o espírito de combate, talvez tenhamos que recorrer mais a Deus, talvez precisemos de mais paciência, de forças, de esperança no combate, é um conjunto. Força, coragem e paciência... Precisamos da virtude da força para os atos - sustinere et agredere, que significa sofrer, suportar, aguentar, mas também empreender, atacar... Não é agredir; não se traduz agredere por agredir, mas por atacar, sim, e empreender também. A magnanimidade também faz parte da virtude de força. Magnânimo.... E é a paciência, diz S. Paulo, que gera a esperança, a paciência nos combates, nas tribulações. E prestem atenção à esperança praticada hoje em dia! Podemos perfeitamente cair por falta de Fé, por falta de caridade, mas também por falta de esperança. Podemos nos tornar pessimistas ou derrotistas – tudo isso são formas de se render. Quando não temos mais esperanças, nos deixamos levar, somos vencidos.

As provações também são um canal de mérito, de expiação – muitas vezes são como uma vacina. Talvez o que tenhamos passado tenha sido uma gripe, para amanhã evitar uma pneumonia. Eu penso que foi isso. Muitas vezes as provações também são uma preparação para outros combates, para que estejamos melhores, mais lúcidos, mais decididos e vigilantes para o que virá. Quem sabe?

Queria lhes dizer isso pois se não tirarmos os frutos e os benefícios das provações, nós desviamos.  Muitas vezes o bom Deus nos envia essas provações para nos manter na via correta. Ele nos faz reexaminar tudo, para vermos onde nossa fraqueza se manifestava, ou vermos para onde desviávamos, para a esquerda ou para a direita.. frequentemente para baixo! Um dos ensinamentos tirados ao longo dessa crise é o fato de sairmos mais fortes; é justamente a intenção das provações: ver onde estavam os excessos ou as faltas. Algumas vezes há tanto excessos quanto faltas, os dois. Dito de outra maneira, ver onde há desordem – falo da desordem da razão, da prudência primeiro. É claro que, antes de tudo, essa questão da prudência é uma questão da inteligência. É preciso enxergar um contrassenso ou um ato desmedido. Por vezes há excessos na defesa, exatamente naquilo que é preciso defender. Mas às vezes também nos deixamos levar pelas paixões desmedidas, pelos excessos. Vejam as impaciências na hora de resolver a crise – nossas urgências. E isso pode acontecer em muitos sentidos.  É preciso tomar muito cuidado em toda essa situação. Se vemos fraquezas nesse sentido, corrijamo-las. Eis aí a lição, eis aí a razão pela qual Deus permitiu a provação. Se fizermos isso, em conjunto, todo o corpo sairá muito fortalecido e preparado para combates ainda maiores.

Prestemos muita atenção ao falso dilema que se nos apresenta e ao qual sempre fomos tentados pela própria situação. É algo inerente à situação atual. Diríamos que é preciso ou ir contra a verdade ou contra a caridade, contra a Fé ou contra a misericórdia, contra a prudência ou contra a força. Mas não! De jeito nenhum! É preciso manter tudo isso. Precisamos de todos esses elementos para permanecermos no caminho reto. E todos nós temos a tendência a privilegiar o que está mais conforme nosso temperamento, nosso caráter, o que nos é mais fácil, e muitas vezes negligenciamos o outro aspecto. Quando dizemos que é preciso uma ordem, um equilíbrio e uma medida certa, não significa que tem que se fazer uma média para tudo. Vocês sabem muito bem que a virtude não é isso. A virtude moral é o cume entre um excesso e uma falta. E inclusive as virtudes teologais, quando aplicadas à vida, às obras, às ações e às circunstâncias, podem sofrer excessos e faltas. Não a virtude em si, enquanto tal, em seu objeto próprio, que é Deus – nunca podemos amar a Deus demasiadamente, mas certamente podemos amá-Lo mal, achando que o amamos bem. Quantas vezes vemos isso, não é verdade? sobretudo entre nós.

Vemos então que existe aí um duplo e constante risco. Dessa maneira, no momento das provações – já levando em conta que é preciso tirar delas o proveito para nós e para todos – não é para se fazer tantas previsões sobre as pessoas, sobre a evolução das pessoas... tem a graça de Deus também, e todos nós somos capazes de remissão e redenção, mas também de decadência.  Então, enquanto a crise não acaba, não se deve tirar conclusões. Pode acontecer de alguns despreparados no momento da provação, da crise, mudarem e terem agora uma reação muito boa.  E outros, que a princípio tinham uma reação muito boa, evoluírem muito mal.

Reafirmo o que já disse: não há somente a Fé a se guardar, não há só a questão da confissão da Fé. Também há a verdadeira caridade, o verdadeiro amor; há a prudência, a força, o amor à Santa Igreja – somos católicos e temos a intenção de permanecer totalmente católicos. E para isso não basta guardar a Fé.

Para terminar, penso que temos três estrelas, três faróis que nos precederam e que podem nos guiar sem risco de nos extraviarmos, seja em relação à doutrina, à prudência ou ao espírito católico. Essas três personalidades são o cardeal Pio, o papa São Pio X e Dom Lefebvre. Vejam, aliás, que cada um deles estava ajustado à sua época ...estavam perfeitamente adaptados às necessidades da Igreja, naqueles momentos. Tinham estilos diferentes, qualidades diferentes; mas quantas qualidades eram exatamente as mesmas! E são precisamente estas qualidades que nos são exigidas atualmente no combate pela Fé. Ou, se preferem, podemos traçar uma linha entre o cardeal Pio, São Pio X e Dom Lefebvre; continuando nessa mesma linha, tem-se o caminho a ser seguido. É exatamente isso, tanto sob o aspecto doutrinal, da Fé, da santidade de vida – ainda há um longo capítulo sobre isso - da oração, da confissão da Fé, da força ou da prudência. Eis nossos exemplos! Eis os que absolutamente devemos tomar como exemplo, como modelo a ser seguido. Por assim dizer, a linha está toda traçada.

Especialmente hoje - sábado, dia 13 de outubro, aniversário da aparição em Fátima, durante a qual aconteceu o milagre do sol - peçamos a Virgem Maria, peçamos a graça de perseverar na verdadeira Fé, no verdadeiro combate da Fé, mas também a de conservarmos o verdadeiro espírito da Igreja. E que a cada dia sejamos mais fiéis à graça, a Deus e às exigências de santidade específicas de nossa época. Que Nossa Senhora nos conceda a graça de sermos dignos sucessores e filhos desses grandes combatentes da Fé católica. Muito obrigado.

[Ao contrário do que dizem alguns afoitos internautas brasileiros, esta conferência de Dom Galarreta é um marco no combate que, há quase 50 anos, mantemos pela Tradição católica. Sinto profundamente por esses jovens não poderem experimentar o fortalecimento do nosso combate contra a Roma modernista que nos é dado presenciar, juntamente com a consolação de podermos sorrir na companhia do nosso bispo protetor, aliviados por esta grande graça que recebemos de Deus. Saimos da crise fortalecidos, mas para tal, é preciso um mínimo de visão sobrenatural, olharmos mais para a visão de Deus do que para a visão dos homens; confiarmos mais nos sinais divinos do que nas ideias que possam brotar em nossas cabeças inquietas].

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