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História da Igreja (3)

Bastião da fé - nota biográfica sobre o Cardeal Ottaviani

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

 

Alfredo Ottaviani (1890-1979) nasceu em Roma numa família humilde; o seu pai era padeiro. Estudou com os Irmãos das Escolas Cristãs, no Pontifício Seminário Romano e no Ateneu Santo Apolinário, onde recebeu os doutorados em filosofia, teologia e direito canônico. Foi ordenado sacerdote em março de 1916.

 

RESUMO BIOGRÁFICO

Logo foi nomeado professor de filosofia escolástica e direito público eclesiástico (sua matéria preferida) na Universidade Urbaniana e, depois, no Ateneu Jurídico Santo Apolinário. Tornou-se substituto na Secretaria de Estado e, em seguida, consultor da Suprema Congregação do Santo Ofício. Após dezessete anos de trabalho, em 1959, tornou-se o seu Pró-Prefeito – o posto de Prefeito era ocupado pelo próprio papa. Foi então consagrado bispo por João XXIII, tomando para si o lema episcopal Semper Idem – Sempre o mesmo – que refletia sua teologia conservadora.

Já como seminarista, Alfredo formou-se na luta contra os inimigos mais ferozes da Igreja, “a maçonaria e o hebraísmo reinam através do Ministro Sidney Sonnino”. Em 1937, Pio XI utilizou seus conhecimentos para escrever a encíclica Divini Redemptoris, contra o comunismo, em que o anatematizou como “intrinsecamente perverso”. Seus estudos políticos, que levaram à publicação de Institutiones juri Publici Ecclesiastici, fez dele arauto de Cristo Rei contra a corrente de John Courtney Murray e dos liberais. Abaixo, alguns dos seus ensinamentos de maior destaque no assunto:

 

“Tenho dito que, antes de tudo, o Estado tem o dever de professar a religião publicamente. Os homens unidos em sociedade não estão menos sujeitos a Deus do que como indivíduos, e a sociedade civil, não menos que o homem individual, é sujeita a Deus, sob o Qual, como seu Autor, ela se encontra unida, por cujo poder é preservada, por cuja bondade recebe o grande tesouro de bens que usufrui. Portanto, assim como não é lícito ao indivíduo deixar de cumprir seus deveres para com Deus e a religião pela qual Deus é adorado, tampouco os estados podem, sem grave ofensa moral, agir como se Deus não existisse ou furtar-se ao cuidado da religião, como se lhes fosse algo estranho ou de pouca importância.”

 

Pio XII preocupou-se muito quando percebeu os movimentos que alguns líderes da Igreja Latina faziam em direção ao comunismo, e também por causa das veredas que os neo-modernistas abriam na Igreja. O Papa convocou secretamente Ottaviani para a formação duma comissão preparatória de um futuro concílio ecumênico cuja meta seria “reafirmar vários pontos da doutrina católica ameaçados por erros, não apenas teológicos, mas também morais e filosóficos, e até mesmo sociológicos”. Mas, vendo que havia divisão na própria comissão, Pio XII interrompeu o projeto. O seu único resultado foi a vigorosa encíclica Humani Generis, de 1950, com a contribuição de Ottaviani, que condenou a Nova Teologia inaugurada  pelo  Pe. Henri de Lubac, no espírito de Teilhard de Chardin.

O Cardeal Ottaviani participou do conclave de 1963, que escolheu Giovanni Battista Montini, o Papa Paulo VI. Foi também Decano dos Cardeais durante o conclave, e como tal teve a honra de coroar com a tiara, em 30 de junho, o mesmo papa que a abandonaria. Esse foi o único conclave de que participou, uma vez que, em 1976, o limite de idade de oitenta anos já estava em vigor.

 

BATALHAS PRÉ-VATICANO II

Logo que Pio XII foi sepultado, começaram a circular os ventos de mudança. No início de 1962, Cardeal Ottaviani notificou o superior dos jesuítas de que o teólogo Karl Rahner fora posto sob quase-censura por Roma e não podia dar conferências nem escrever sem permissão. Poucos meses depois, João XXIII nomeou Rahner como perito do Concílio Vaticano II. A mesma estratégia foi adotada com Henri de Lubac e Yves Congar, que, apesar de suspeitos de neo-modernismo, também receberam do papa os títulos de peritos do Concílio.

As batalhas pré-conciliares inauguraram um novo tipo de concílio, com um poder triangular (Papa-Cúria-Concílio), uma vez que o papa, em segredo, era contrário à posição da Cúria e aberto às novidades dos teólogos de vanguarda. Ottaviani, que detinha o poder por trás da Cúria, logo se veria isolado e mal aceito. Acreditava que era seu dever afirmar a pureza e integridade da Doutrina a todo custo, a tempo e contratempo. O Cardeal Siri deixou o seu testemunho: “Nele [Ottaviani], a firmeza nas decisões expressava-se com os mais fortes acentos: a ninguém temia. Na defesa da Fé, seu temperamento o fazia muito combativo”.

Um dos debates acalorados ocorridos nas sessões do pré-Vaticano II tratou da salvação dos infiéis e do dogma Extra Ecclesiam: fora da Igreja não há salvação. Nessa subcomissão estava Monsenhor Fenton, amigo próximo de Ottaviani. Vários cardeais – Leger, Dopfner, Konig e Bea – fizeram várias mudanças substanciais. Ottaviani reagiu ferozmente contra a “perigosíssima” idéia de Bea, que dizia ser possível ser membro do Corpo Místico de Cristo sem ser membro da Igreja, o que colocaria em risco a doutrina da infalibilidade do Magistério da Igreja. Ele lembrou que “A Igreja Católica e o Corpo Místico de Cristo são a mesma coisa. Não há salvação fora da Igreja. O significado dessa tradicional frase está bem explicado na Carta do Santo Ofício ao Cardeal de Boston, em que trata da questão Feeney, que exagerara a força dessa frase. Porém, essa frase não deve agora ser reduzida à insignificância, a fim de tranqüilizar os que estão fora da Igreja.”

Nas últimas sessões preparatórias do Concílio, dois cardeais se confrontaram no assunto da liberdade religiosa: Ottaviani e Bea. Ottaviani opunha-se à separação entre Igreja e Estado e à concessão de direitos iguais a todas as religiões, mas apoiava a tolerância religiosa. Dom Marcel Lefebvre, testemunha do conflito, contou que Ottaviani levantou-se e disse a Bea: “Eminência, não tendes direito a criar este esquema, porque é esquema teológico, e pertence portanto à Comissão Teológica”. E Bea, levantando-se, disse: “Licença. Tenho o direito de criar este esquema como Presidente da Comissão pela Unidade. Se há algo que importa à unidade é essa questão da liberdade religiosa”. E, encarando Ottaviani, adicionou: “E me oponho radicalmente a tudo que afirmais no seu esquema De Tolerantia Religiosa”. O debate se tornou tão inflamado que o Cardeal Ruffini teve de intervir, notando como ficara decepcionado por testemunhar uma “discussão tão séria”. Os confrontos se intensificariam ao longo dos debates sobre o assunto, até a adoção do esquema Dignitatis Humanae.

 

O FURACÃO VATICANO II

Ottaviani foi o líder dos conservadores da Cúria durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), apesar de quase cego. Além do assunto da liberdade religiosa, sua poderosa voz foi ouvida durante os debates sobre a liturgia e sobre as fontes da Revelação Divina.

O caso mais marcante da mudança de guarda e demissão da Cúria ocorreu em 30 de outubro de 1962, quando o Cardeal Ottaviani fez ardente apelo em defesa do antigo Rito Romano: “Não parece que estamos procurando causar pasmo, ou talvez escândalo entre o povo Cristão, ao introduzir mudanças em tão venerável rito, que foi aprovado há tantos séculos e nos é tão familiar? O rito da Santa Missa não deve ser tratado como tecido que é remodelado conforme os impulsos de cada geração.” Como passara em muito o limite de dez minutos, seu microfone foi cortado. Após tocar o microfone e verificar que fora desligado, o quase cego Ottaviani, humilhado, deixou cair o seu peso na cadeira e logo os aplausos estalaram na aula conciliar.

Durante o Concílio, a mídia freqüentemente encontrava em Ottaviani reações vivas nas tempestuosas sessões de trabalho. Certa vez, reagindo aos constantes clamores pela “colegialidade” dos bispos mais liberais, Ottaviani notou que a Bíblia registra apenas um exemplo dos Apóstolos agindo colegialmente – no Jardim do Getsêmani, quando “todos fugiram”. Nessa mesma matéria, outro embate histórico ocorreu com o Cardeal Frings, em 8 de novembro de 1963. Ottaviani defendeu o papado contra a Primazia Papal meramente honorária, proposta pela aliança liberal do Reno. “Quem quiser ser ovelha de Cristo deve ser apascentado por Pedro, o Pastor. Não são as ovelhas [os bispos] que devem guiar Pedro, mas Pedro deve guiar as ovelhas [os bispos] e os cordeiros.”

 

O DESMANTELAMENTO DO SANTO OFÍCIO

O Concílio Vaticano II não tinha ainda fechado as portas quando um motu proprio papal, Regimini Ecclesiae Universale, retirou da Congregação do Santo Ofício o título de “Suprema”, suplantando-a pela Secretaria de Estado. A partir daí, a política prevaleceria sobre a pureza da fé.

Ottaviani comentou a mudança: “Lembrem-se, esse é um dia negro na história da Igreja, porque essa mudança não afeta apenas o título, mas a substância. Com efeito, até agora, o princípio supremo do governo da Igreja foi a verdade revelada, cuja preservação e interpretação correta é confiada primeiro ao Papa, que usava a Suprema Congregação do Santo Ofício para esse propósito. Agora, temo que o critério decisivo para o governo da Igreja será o diplomático e o contingente. Posso ver que a Igreja sofrerá muito dano.”

Apesar de cego, tinha penetrante percepção dos eventos futuros. Em 1967, ofereceu sua renúncia, pois não desejava contribuir com o desmantelamento do Santo Ofício.

 

A ÚLTIMA BATALHA DE OTTAVIANI

Em 25 de setembro de 1969, Ottaviani, junto com Cardeal Bacci, redigiu veemente carta a Paulo VI em defesa de um estudo feito por um grupo de teólogos que, sob a direção de Dom Marcel Lefebvre, criticaram o Novus Ordo Missae, o qual viria à luz uns meses depois. Ottaviani escreveu o seguinte:

 

“O breve estudo crítico em anexo é o trabalho de um grupo seleto de teólogos, liturgistas e pastores de almas, e, ainda que breve, examina os elementos de novidade implícitos na Missa do Novus Ordo, aos quais podem se dar diferentes interpretações. Este estudo demonstra suficientemente que o Novus Ordo Missae representa, no todo e nos detalhes, um afastamento visível da teologia Católica da Missa como elaborada na Sessão XXII do Concílio de Trento, a qual, fixando permanentemente os ‘cânones’ do rito, erigiu uma barreira intransponível contra toda heresia que pretendesse minar a integridade do Mistério.

 

“As reformas recentes demonstraram amplamente que as novas mudanças na liturgia não podem ser feitas sem escandalizar os fiéis, que já mostram que essas mudanças são intoleráveis e diminuirão com certeza a sua fé. Em conseqüência, grande parte do clero passa agora por uma torturante crise de consciência, que vemos diariamente e em grande número. Temos certeza de que estas considerações, que se inspiram diretamente nas vozes vibrantes de pastores e do rebanho, encontrarão eco no coração paternal de Vossa Santidade, que está sempre tão profundamente atento às necessidades espirituais dos filhos da Igreja. No entanto, aqueles para quem as leis são feitas têm o direito, e mesmo o dever, de pedir ao legislador que ab-rogue leis comprovadamente danosas.”

O Cardeal Palazzini, em sua apresentação de Il Balluarto, explicou que a chave para ler a pessoa e o trabalho do Cardeal Ottaviani é que a verdade nos faz livres. “Ele sabe como perceber com excepcional agudeza e impressionante visão a desordem profunda e os amargos desenvolvimentos da novidade que começou a se infiltrar nos anos 1940 e que explodiu no Vaticano II. No curso do ano de 1965, Ottaviani escreveu no seu diário: ‘Peço a Deus que me permita morrer antes do fim desse Concílio. Assim, ao menos, morrerei católico.’”

Um teólogo anti-liberal

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

O HOMEM

O Cardeal Louis Billot (1845-1931), natural da Lorena, na França, entrou jovem para a Companhia de Jesus e logo foi nomeado professor de teologia. Em 1885, foi chamado a Roma pelo Papa Leão XIII para ensinar teologia dogmática na Universidade Gregoriana. Ao longo de 26 anos (1885-1911), foi professor sem páreo de gerações de estudantes eclesiásticos, futuros bispos e cardeais.

Leão XIII teve de lutar contra os que queriam remover o Pe. Billot de Roma. Para mantê-lo na Sé Romana, São Pio X em 1909 nomeou-o consultor do Santo Ofício, e em 1911, contrariando a tradição jesuíta de não aceitar dignidades, elevou-o a cardeal-diácono.

Em 12 de fevereiro de 1922, Pio XI foi coroado. O cardeal-diácono que devia coroar o novo pontífice estivera enfermo e o Cardeal Billot foi apontado para substituí-lo. Ao receber a tiara deste cardeal, o Papa Ratti não tinha idéia de que cinco anos depois teria que retirar das mesmas mãos o barrete cardinalício.

Em 1927, o Cardeal Billot “aposentou-se” para “preparar-se para a morte”. Essas foram as palavras no anúncio oficial, mas as verdadeiras razões foram outras, como veremos. Na verdade, a aposentadoria não foi nenhuma sinecura para o octogenário. Ocupou-se da republicação de suas obras, mantendo o vigor intelectual até o fim de sua vida, como evidenciado nas suas correspondências e conversas. Um “apaixonado por Deus, pela Igreja e por Cristo, Rei da França”, morreu no noviciado jesuíta de Galloro, aos 86 anos.

O Pe. Henri Le Floch, que foi reitor do Seminário Francês em Roma por 23 anos, posto que deixou três dias após a renúncia do cardeal, escreveu-lhe um tributo: Cardeal Billot, homem da Igreja, teólogo, professor, patriota, e defensor da verdade contra os erros do Liberalismo, Modernismo e Sillonismo. O título do livro revela o seu teor: Le Cardinal Billot, lumière de la théologie – Cardeal Billot, luz da teologia.

 

ATRITOS COM O GOVERNO DE PIO XI

Pio XI queria continuar os trabalhos do Concílio Vaticano I e consultou os cardeais sobre a conveniência da sua reconvocação. De acordo com as investigações do Pe. Giovanni Caprile, 26 respostas se conservam nos arquivos do Vaticano, e apenas duas foram negativas: as do Cardeal Andreas Frühwirth (1845-1933) e a do Cardeal Billot. Este argumentou que, por causa das dificuldades e perigos, a era dos concílios ecumênicos parecia terminada, sobretudo pelo risco de os modernistas se aproveitarem do concílio para “fazer a revolução, o novo 1789, objeto dos seus sonhos e esperanças”.

Como francês, Billot só pôde estar exasperado com a virada dos acontecimentos na França dos anos 1920. O núncio papal em Paris pareceu ter apoiado a coalizão maçônica da esquerda de Herriot-Blum. Alguns dias depois, em audiência, Pio XI reclamou amargamente a Billot:

— Eminência, vossos compatriotas votaram muito mal.

— Santidade, vosso núncio tudo fez para que isso acontecesse.

— O meu núncio? Meu núncio? Ele obedece às minhas ordens! É a minha política, minha política, minha política...

Noutro tópico, algumas páginas de Charles Maurras, líder do movimento monárquico Action Française, tiveram o privilégio invejável de serem reproduzidas no tratado De Ecclesia, do Cardeal Billot, sobre as relações entre as autoridades religiosa e secular. Vale aqui citar a opinião de Maurras sobre a democracia:

“Nosso profundo respeito pela nação nos obriga a dizer que, para resolver questões importantes e de interesse geral, as quais requerem anos de estudo, prática e meditação, basta considerar a voz dos incompetentes. E para ter êxito  nas escolhas mais delicadas, basta o sufrágio dos ignorantes... O governo do número tende à desorganização do país. Destrói à força tudo o que o tempera, o que por natureza é diferente: religião, família, tradições, classes, organizações de todos os tipos etc.”

O Cardeal Billot teve conhecimento direto da Action Française, a qual descreveu como “estimada pelos bons e temida pelos maus”. Ele teve de encarar o Cardeal Gasparri, Secretário de Estado, na véspera da condenação do movimento. O infeliz encontro foi o duelo de duas grandes mentes, o maior dos teólogos e o maior dos canonistas disputando sobre um movimento político. O canonista invocou apenas a “vontade superior”. Não há dúvida de que, no julgamento da Action Française, as obras pagãs de Charles Maurras não causaram tanta preocupação quanto seu espírito contra-revolucionário. Numa carta, Billot expressou seu pensamento: “Não é tanto o seu Chemin de Paradis ou Anthinée que eles odeiam, mas o seu anti-liberalismo, anti-democratismo, anti-republicanismo.”

Em 19 de setembro de 1927, o Cardeal Billot foi despido da púrpura que aceitara tomar somente por causa da ordem do seu venerado Pio X, tendo recebido em troca uma pequena estátua de Nossa Senhora; e em seguida aposentou-se. O cardeal, que nunca fora consagrado bispo, voltou a ser o Pe. Louis Billot da Companhia de Jesus.

 

PIO XII E O CARDEAL BILLOT

Pio XII, tão-logo eleito, levantou a excomunhão que pesara sobre a Action Française e os seus membros.

Em 1º de Outubro de 1939, em audiência especial, o Pe. Le Floch apresentou o seu trabalho sobre o Cardeal Billot a Pio XII, que muito o apreciou. Da mesma forma, na alocução pelo quarto centenário da Universidade Gregoriana, em 18 de outubro de 1953, Pio XII mostrou ter o cardeal em boa memória, pois entre tantos professores da sua juventude, mencionou somente o seu nome.

“Para os mais velhos dentre vós, relembremos com alegria nossos professores, como Louis Billot, para nomear um que, com distinção de espírito e inteligência, nos estimulou a venerar os estudos sagrados e amar a dignidade do sacerdócio.”

A influência doutrinal do Cardeal Billot em Roma durou muitos anos após a sua morte. Eis um exemplo: a Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, de 8 de agosto de 1949, contra o Pe. Feeney sobre o batismo de água, foi reprodução quase literal de um artigo do cardeal publicado em Études.

 

TEÓLOGO ANTI-LIBERAL

Cardeal Billot foi um dos teólogos que viu mais claramente a maldade intrínseca do neoliberalismo resultante da Revolução. Falando do Sillon, o movimento político cristão que fora finalmente condenado por São Pio X devido aos seus princípios ideológicos, Billot explicou: “O cristianismo do Sillon baseia-se sempre no democratismo, e o cristianismo democrata, tratando-se de uma ideologia revolucionária, é uma distorção do Evangelho”.

Ninguém julgou melhor o liberalismo, o filho da Revolução, do que o “teológo de ferro”. Analisou a intrínseca discrepância deste para com os princípios de hierarquia e autoridade, trazendo à luz suas conseqüências sociais divisoras. No livro De Ecclesia, especialmente na seção sobre a relação entre Igreja e Estado, o Cardeal Billot golpeia a essência da Revolução Francesa, ao citar o Presidente Clemenceau: “Desde a Revolução, estamos em estado de revolta contra a autoridade humana, a qual destruímos com um só golpe em 21 de janeiro de 1793 [data do assassinato de Luís XVI]”. E num longo texto explica o ambiente histórico dessa luta hercúlea:

 

“Sem dúvida, a religião havia sido difundida por todo o corpo da sociedade, dos pés à cabeça. Toda a nossa civilização nasceu do cristianismo, e nela o clero detinha lugar proeminente na estrutura política; assim, em todos os lugares, as instituições civis e religiosas interligavam-se fortemente... Pode ver-se porque o ódio anti-religioso dos ímpios revolucionários teve como elemento necessário o ódio às instituições sociais, uma vez que, pela natureza delas, seria impossível divorciá-las da fé... Decretaram, portanto, que deviam ser tiradas pela raiz e completamente destruídas, para que o campo ficasse limpo para a nova ordem social e política, cujo primeiro e principal objetivo era destruir a religião por inteiro.

 

“O pretexto para instalar essa nova ordem era a liberdade; a sua lei era o contrato social; seu método, a demagogia; sua razão última, a criação de um Estado colossal e ateu... com poder ditatorial e absoluto para ditar o que é permitido ou proibido. Nesse Estado, o nome e o culto de Deus seria abolido para sempre... Esse é o fim para o qual tudo mais está ordenado como meio. Essa é a razão da destruição das famílias, da destruição das corporações, da destruição das liberdades municipais e das províncias – para que assim reste apenas uma só autoridade: o Estado ímpio... Esse é o objetivo, e não a liberdade civil. A liberdade é pretexto, é ídolo para seduzir o povo... deus oco que Satã vem criando para reduzir as nações a uma escravidão muito pior do que a da antigüidade.”

 

CONTRA OS CATÓLICOS LIBERAIS

O Cardeal Billot, portanto, pensou que a tarefa mais urgente era a de combater a revolução infiltrada entre os católicos, cujos frutos são “o anti-clericalismo jacobinista e o liberalismo pseudo-católico”. Com sua sólida formação doutrinal, ele não apenas evitou transigir com o liberalismo “católico”, mas considerava necessário “lutar contra esse grande mal dos nossos tempos que é querer agradar a Deus sem ofender o diabo, ou melhor, servir o demônio sem ofender a Deus”.

Escarneceu o liberalismo católico como a “mais perfeita e absoluta incoerência”. Esse tipo de “católico” quer professar ao mesmo tempo tanto o catecismo, com o qual crê que o homem foi feito para servir a Deus em todas as coisas, quanto a Declaração de Direitos do Homem de 1789, que quer o homem independente de Deus, e a esfera civil da religiosa. Os católicos liberais são incoerentes também quando aceitam os princípios católicos, mas rejeitam pô-los em prática. Crêem que, em princípio, a união da Igreja com o Estado é boa, mas na prática é sempre danosa à Igreja. Em suas mentes, a liberdade é a última instância, e todos sabemos que a liberdade, deixada por si só, inclina-se ao mal e à impiedade. O que se apresenta como remédio é, na verdade, a causa de todo o mal.

Um exemplo deve ser suficiente para ilustrar o método dos católicos liberais: Com respeito à religião, a posição católica é a de que há somente uma religião verdadeira e que o Estado deve adotá-la. Os liberais, no entanto, professam o indiferentismo, em que todas as religiões são iguais. Concluem que o pluralismo é a condição ideal para o Estado. O católico liberal, com espírito fraco e conciliador, aceita que a religião católica é verdadeira e deve dirigir as famílias e os indivíduos, mas rejeita a conclusão de que o Estado deve a ela submeter-se, e assim professa abertamente a liberdade religiosa.

O católico liberal, objeto da Ilusão Liberal (título de um livro de Louis Veuillot), em luta com sua incoerência, acaba sendo desprezado por Deus e pelos homens. Encarna em si mesmo o dualismo mencionado na Sagrada Escritura: “Se um edifica, e outro destrói, que proveito lhes resulta daqui senão trabalho? Se um ora, e outro amaldiçoa, de qual ouvirá Deus a voz?” (Eclesiástico 34, 28).

(The Angelus no. 442. Tradução: Permanência)

Nota biográfica do Cardeal Merry del Val

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

O Papa São Pio X e Rafael Merry del Val: difícil imaginar duas personalidades mais diferentes. Aquele nasceu no interior da Venécia, no seio duma família humilde, que conheceu dificuldades e provavelmente até fome. Antes de ser eleito papa, passou a vida em reitorias rurais e chancelarias provinciais, distante da publicidade e dos centros de poder.

Merry del Val (1865-1930), por outro lado, veio duma das mais proeminentes famílias do continente, recebeu educação cosmopolita e poliglota, e foi familiar às embaixadas e círculos mais exclusivos das capitais européias. As vidas desses dois prelados, que pareciam destinadas a trilhar caminhos separados, cruzaram-se quase por acidente e acabaram tão ligadas que mesmo hoje é difícil separá-las.

 

DE FILHO DE EMBAIXADOR A EMBAIXADOR DO PAPA

De acordo com Pio Cenci, biógrafo de Merry del Val, o próprio Leão XIII o pôs na Academia dos Nobres Eclesiásticos, devido à sua linhagem nobre e suas habilidades lingüísticas, uma vez que dominava perfeitamente os principais idiomas europeus. Antes de se tornar sacerdote, o papa utilizou-o em missões diplomáticas na Inglaterra, Alemanha e Áustria. Na cúria pontifícia, que procurava tão esforçadamente retornar sua presença internacional após a perda do poder temporal em 1870, esse descendente dos ilustres ingleses Merry e da ainda mais ilustre casa espanhola Val foi um enviado de Deus.  A ascensão rápida de Merry del Val deveu-se, além dos antecedentes familiares, à sua sólida formação histórico-jurídica, sua capacidade inata de bem relacionar-se, e à sua prontidão, como Bento XV diria, para resolver problemas.

Após graduar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana, tornou-se figura de influência em Roma, especialmente na questão anglicana. Seu perfeito conhecimento do ambiente, as viagens freqüentes que fazia sobre o Canal da Mancha, e a estima do Cardeal Vaughan conferiram-lhe a autoridade necessária. Confiou-lhe Leão XIII com a espinhosa questão da validade das ordens anglicanas, e ele conduziu a Santa Sé à resposta negativa, dada oficialmente em setembro de 1896 com a bula Apostolicae Curae, da qual foi o principal arquiteto. Com base na prática estabelecida ao longo de trezentos anos, e numa exaustiva investigação histórica, Leão XIII confirmou a “nulidade” das “ordenações realizadas segundo o rito anglicano”, portanto negando que os seus bispos tenham a sucessão apostólica.

No ano seguinte, viajou para uma longa missão no Canadá como delegado apostólico. O jovem catolicismo canadense, dividido entre as tentações opostas de severidade e lassidão, pedia a ajuda de Roma. Merry del Val agiu com moderação, especialmente no problema das escolas católicas de Manitoba, e foi objeto de um reconhecimento público da parte do Papa na encíclica Affari Vos, de dezembro de 1897.

 

DE SECRETÁRIO DO CONCLAVE A SECRETÁRIO DE ESTADO

No tempo do conclave de 1903, reunido após a morte de Leão XIII, Merry del Val era bispo e presidente da Academia dos Nobres Eclesiásticos. Por um concurso de circunstâncias, foi promovido in extremis a secretário do conclave, na ocasião da morte do papa. Assim, embora não tivesse podido votar porque não era cardeal, teve de carregar a pesada carga de preparar e conduzir o mais difícil conclave dos últimos dois séculos.

O primeiro encontro com o Cardeal Sarto aconteceu durante o conclave. A Áustria vetara a eleição do Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro e, após quatro dias, à sétima votação, escolheu-se para o papado, com o nome de Pio X, o relativamente desconhecido Patriarca de Veneza, Giuseppe Sarto. O jovem Merry del Val, que foi encarregado de buscá-lo e encorajá-lo a aceitar a nomeação, teve então uma primeira vista da santidade do “seu” Papa, que ele encontrou debruçado em oração diante do sacrário, rogando para que lhe afastasse a cruz do papado. Com o fechamento do conclave, Sarto pôde observar o prelado em ação e, assim, avaliá-lo. Dessa maneira, poucas horas após tornar-se Papa, Sarto informou-o, para sua completa surpresa, que decidira manter Mery del Val como Secretário de Estado interino. “Até agora não tenho ninguém”, conta-se que lhe teria dito calmamente. “Fique comigo. Depois veremos.”

Mas São Pio X, com sua aguda intuição, observou e analisou Merry del Val diariamente, e não demorou a entender que esse era o “homem de Deus” que a Providência colocara ao seu lado no Pontificado. Após período probatório de apenas dois meses, Pio X dissipou as dúvidas e, em 18 de outubro de 1903, nomeou-o Secretário de Estado e o fez cardeal. Abençoou-o e, com afeição paterna, lhe disse: “Aceite: é a vontade de Deus. Vamos trabalhar juntos e sofrer juntos por amor à Igreja”, ecoando dessa maneira o “coragem, Eminência” que Merry del Val sussurrara ao Cardeal Sarto poucos meses antes, encorajando-o a aceitar o Pontificado.

Pio X certamente levou em consideração outra qualidade de Merry del Val: sua vida de piedade. O louvor que o Papa Sarto lhe fez em 11 de novembro de 1903, dia em que recebeu o barrete de cardeal, é de uma linguagem tão incomum que merece ser citado na íntegra: “O bom perfume de Cristo, Sr. Cardeal, que espalhastes em todos os lugares, mesmo na vossa residência temporária, e os muitos trabalhos de caridade a que vos dedicastes no vosso ministério de sacerdote, principalmente na nossa cidade de Roma [ele subsidiou um grupo de jovens em Trastevere], granjeou para vós, com admiração, a estima universal.” Um Papa essencialmente religioso escolheu para si um Secretário de Estado com suas próprias características.

O novelista francês René Bazin louvou a decisão de Pio X, que “nomeando o Cardeal Merry del Val como Secretário de Estado, mostrou possuir as principais qualidades de um príncipe, que são conhecer os homens e saber escolher seus ministros para o bem do reino. Elevar de súbito o jovem prelado a tão alta posição exigiu coragem: mas Pio X reconheceu em Rafael Merry del Val um caráter extraordinário e uma inteligência superior.”

No primeiro Consistório, o Papa explicou aos cardeais que pessoalmente observara os seus “nobres dons de alma e caráter, sua notável prudência ao lidar com os assuntos da Igreja. Escolhi-o porque é um poliglota: nasceu na Inglaterra, foi educado na Bélgica, de nacionalidade espanhola, e vive na Itália; filho de diplomata, e ele mesmo um, está acostumado com os problemas das nações. Ele é muito modesto, um santo. Vem todas as manhãs e me informa de todos os assuntos do mundo. Nunca preciso adverti-lo de nada, e ele não conhece transigências”.

 

A CÚRIA DA IGREJA E A REFORMA DA IGREJA

Merry del Val movia-se graciosamente no mundo diplomático, era capaz de manejar problemas de política internacional, e compreendia a Cúria Romana perfeitamente. Alguém poderia dizer que o novo Secretário de Estado tinha tudo que faltava no papa. São Pio X costumava referir-se a Merry del Val como o “seu” Cardeal. Camille Bellaigue escutou do papa: “Separar-me do Cardeal Merry del Val? Preferiria separar-me da minha cabeça”. Em diversas ocasiões disse que “não podia agradecer suficientemente a Nosso Senhor por ter-lhe conferido tão precioso colaborador”.

A “política internacional” não foi tão primordial para São Pio X como o fora para Leão XIII. Ainda assim, o papa teve de lidar com várias crises internacionais que lhe exigiram toda a atenção e a de seu fiel colaborador, e a mais notável delas foi a dramática separação da Igreja e do Estado na França em 1905. Enfrentando óbvia chantagem, com um só golpe, a firmeza do papa limpou três séculos de galicanismo — a Igreja nacional — tornando o catolicismo francês novamente fiel a Roma. Merry del Val apoiou essa política com lealdade e convicção, tal como o fizera nas decisões de Pio X para reforma radical da Igreja: desde a supressão do direito de veto nos conclaves, seguindo com a reforma da Cúria, até a codificação do Direito Canônico.

A reforma da Cúria Romana, aprovada em 1908, embora visasse diretamente à expansão de seus poderes, fazia-o de tal modo que a Secretaria de Estado passava a ocupar o penúltimo lugar em relevo, dentre os cinco dicastérios romanos. O coração da Cúria de São Pio X não estava na Secretaria de Estado, ao contrário do que aconteceria sessenta anos mais tarde, na reforma de Paulo VI. O coração estava representado pelas onze congregações, sobretudo o Santo Ofício. Talvez por essa razão o papel de Merry del Val, diferentemente de qualquer dos seus antecessores ou sucessores, tenha coincidido com o do papa quase a ponto de se fundirem. Ao se dedicar pouco ou nada à política, mas sim a governar e renovar a Igreja, São Pio X extirpou da Secretaria de Estado muito da margem de manobra que fazia dela um agente autônomo, e estreitou sua vinculação ao papa.

Muito se tem escrito e muitos têm criticado a atitude decisiva do papa no combate ao modernismo, essa ameaça mortal que forjou uma crise interna na Igreja. Novamente, Merry del Val, mais que ninguém, teve o preciso entendimento da gravidade da situação, em que o rebanho universal corria o risco de gangrenar-se por toxinas internas. O anti-modernismo do cardeal precedia sua promoção ao cargo de Secretário de Estado. Ele se opôs à heresia do Americanismo, condenada por Leão XIII na Carta Apostólica de 1899 Testem benevolentiae. No mesmo ano, o prelado se pronunciou sobre outro livro, External Religion, do futuro modernista George Tyrrell, e escreveu ao Cardeal Vaughan sobre as heresias do cientista St. George Jackson Mivart. Ele prometeu a esse cardeal a aprovação pontifícia à sua carta pastoral conjunta, de 1900, que condenava o catolicismo liberal.

Logo que alcançou posição de autoridade como braço direito do Papa, Merry del Val escreveu ao Cardeal Ricardo de Paris o prefácio ao decreto do Santo Ofício que lançou cinco obras do Pe. Alfred Firmin Loisy no Índice de Livros Proibidos, e repudiou a sujeição imperfeita de Loisy. Escreveu a carta de 1904 que dissolveu a seção italiana da Opera dei Congressi, sujeitando o grupo leigo à autoridade da Igreja, em conformidade com os legítimos princípios de ação católica. Favoreceu similar subordinação à Igreja do partido do centro na Alemanha. Em 1910, ainda, participou na condenação papal ao movimento liberal francês Sillon.

Após a morte do Papa, o Cardeal Merry del Val manteve sua enorme devoção a Pio X: elaborou a petição que iniciou seu processo de canonização. No dia 20 de cada mês, o dia da morte do Papa, rezava missa pelo descanso da sua alma. Pediu que fosse sepultado “o mais próximo possível do meu amado pai e pontífice Pio X”. Quando morreu em 1930, seu corpo foi carregado por jovens de Trastevere à cripta de São Pedro e enterrado perto de Pio X. Lê-se a inscrição no mármore: Da mihi animas - Coetera tolle (“dá-me almas - leva o resto”), aplicação mística das palavras de Abraão, “Dá-me a mim as pessoas, e os bens torna-os para ti” (Gen. 14:21). Por requerimento do clero espanhol, sua causa de canonização foi iniciada em 1953. O processo informativo foi completado em 1956 e publicado em 1957. A causa, porém, pouco progrediu desde o Vaticano II.

(The Angelus no. 441. Tradução: Permanência)

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