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Coronavírus: Entre o medo e a audácia

Abril 4, 2020 escrito por admin

Dom Lourenço Fleichman OSB

Mais uma vez me vejo na obrigação de esclarecer nossa posição católica, diante de crises que se abatem sobre a nossa sociedade. Nosso mundo anda mergulhado no que lhe parece ser um grande sol a iluminá-lo, quando na verdade é apenas uma escravidão consentida e desejada. Sim, os tecnológicos homens desse mundo pós-moderno sabem, percebem sua incapacidade de fugir da compulsão das redes sociais, das massificantes notícias e informações, e sobretudo da sensação que tomou conta de todos, de serem livres como um passarinho a voejar entre galhos de árvores e fios elétricos. 

Poderíamos perguntar a nós mesmos o porquê dessa doença; creio que responderia que o homem busca companhia. Até certo ponto, convenhamos, essa busca é natural, visto a definição mais do que antiga feita pelo Filósofo, segundo a qual o homem é um animal político: vive na companhia dos seus semelhantes. Ora, como o mundo moderno desenhou no pé da mesa do computador (eu sei, eu sei, já não é mais no computador, é deitado na cama ou no sofá com o celular nos dedos, mas não atrapalhem, por favor, a minha história!)... então, retomemos: como o mundo moderno desenhou no pé da cama, ou da mesa, uma bola de ferro virtual, e disse ao ser debruçado na máquina: – veja, caro amigo, esta é uma bola de ferro virtual, nada mais “real” do que o virtual. Portanto, você está preso, velho escravo. Não se mexa, não saia daí.

Edição Hors Série

Março 30, 2019 escrito por admin

Islã, religião do amor?

Agosto 2, 2016 escrito por site_permanencia

 

É preciso distinguir islã e fundamentalismo islâmico? O islã é mesmo uma religião de amor? Existe mesmo um islã moderado? Os responsáveis pelos atentados recentes encontraram no corão sua justificação?

O estudo a seguir vai responder, com clareza e precisão, essas questões fundamentais. As autoridades religiosas e políticas terão interesse em se debruçar sobre estas interrogações. Leia mais

 

O Rosário e a Liturgia

Outubro 16, 2021 escrito por admin

Dom Pius Parsch

Costumam censurar-nos, a nós, os amigos da liturgia, de fazer pouco caso da devoção do Rosário (ou Terço). Será exata essa acusação?

Principiemos por estabelecer uma distinção de princípio: a oração das Horas e a Missa, são ofícios litúrgicos, isto é, do culto público da Igreja. O rosário é uma oração particular, uma devoção particular, que é sem dúvida aprovada e recomendada pela Igreja. Ora, uma oração litúrgica tem direito a uma maior consideração que uma oração particular. Eis aí o princípio. Trata-se de duas coisas inteiramente diferentes. Mas, posto isto, o rosário não deve ser desprezado, em absoluto. De mais, nós, os adeptos da liturgia, combatemos o costume espalhado em certos países de recitar o rosário durante a missa, pois queremos que todos os fiéis tomem tanto quanto possível parte integrante no Santo Sacrifício, coisa que certamente não se pode dar, se se rezar nesse mesmo tempo do ofício uma oração diferente como é o rosário.

A Missa é um Sacrifício e um ato, enquanto o Rosário é uma meditação e uma oração. Não negamos certamente que o rosário possa ser uma boa preparação e um excelente complemento da Missa. A essência dos mistérios do rosário é a "vida, a morte e a ressurreição" do Senhor, e portanto, a obra redentora do Cristo que a Missa representa. Mas, podemos ainda estabelecer um ponto de contato entre o rosário e a liturgia. É ainda hoje chamado o saltério de Maris. As 150 Ave-Marias, de que ele se compõe, são para muitos um sucedâneo resumido da oração das Horas que eles não podem recitar, por falta de tempo, de costume ou de comodidade. O saltério de Maria é, portanto, um "breviário" mais curto e simples (um ofício abreviado) acompanhando de perto o ofício comum da Igreja.

Se considerarmos agora os salmos dentro do conjunto da oração litúrgica das Horas, vemos então quantos pontos de contato há entre o rosário e a liturgia. O símbolo dos Apóstolos acha-se no começo do rosário e das Matinas, e encontra-se várias vezes no curso do ofício. Da mesma maneira, o Pai Nosso aparece no começo de cada dezena como no princípio de cada Hora Canônica. O mesmo acontece com a Ave Maria, que constitui a essência da oração vocal do rosário. Cada salmo termina pela invocação em honra da SS. Trindade; assim também, cada dezena do rosário termina com o Gloria Patri... Os quinze mistérios do rosário que constituem sua própria essência, fazem passar rapidamente aos nossos olhos a vida de Jesus e Maria! Eles nos transportam diretamente ao Evangelho e à Bíblia; não podemos meditá-los convenientemente sem considerar a Bíblia; em vários lugares, antes de recitar a dezena, faz-se uma leitura referente à narração bíblica para facilitar e servir de assunto à meditação, coisa essa profundamente litúrgica. Desta maneira chegamos a recitar o rosário seguindo um método que se assemelha ao método litúrgico.

Quem reza o rosário não pensa em cada Ave Maria ou em cada palavra da oração; mas enquanto seus lábios pronunciam as palavras, seu espírito, sua atenção e piedade são empolgados por alguns pensamentos elevados, algumas cenas grandiosas ou altos sentimentos, e sobretudo pelos mistérios. O resto é posto de lado, como faz aquele que recita os salmos, ou qualquer outra oração litúrgica. Em vez de meditar nas idéias em seus detalhes, aquele que recita os salmos frequentemente só se prende à idéia dominante, nem mesmo às vezes considera o salmo todo senão o versículo que o encerra, o texto básico, ou mesmo a antífona.

O método da oração litúrgica não é, portanto, estranho a quem recita o rosário; pelo contrário, suas disposições de alma se harmonizam frequentemente com ela.

Note-se somente que a oração litúrgica das Horas é muito mais rica, mas variada, mais bela e mais profunda, sem falar da Vida que ela encerra. Mas o método ativo de oração litúrgica, esse que vem da origem, a recitação alternada, sempre é possível e fácil àquele que tiver a devoção do rosário: ele está habituado a pronunciar com exatidão e dignidade as orações vocais, ao mesmo tempo que reflete, medita e contempla. O rosário pode assim conduzir à oração litúrgica e andar de par com a oração das Horas. O leigo conhecedor da liturgia recitará uma ou outra das Horas Canônicas, sobretudo em Domingo ou dias de festa; subordinará sua meditação a uma leitura, seja da Bíblia, seja dos Padres da Igreja, seja da vida de um santo. Os dias em que não recitar uma parte qualquer do breviário, especialmente nos dias de doença, o rosário será para ele uma companhia sobremodo apreciada. O saltério de Maria e o saltério litúrgico hebdomadário vão juntos, amigavelmente unidos. Não se colocam como adversários. Há um coro imenso de orações que se unem; enquanto rezam multidões o rosário, por todo o mundo outras multidões recitam a oração litúrgica das Horas. Seja isto portanto um coro harmonioso de orações e de cantos, cujas vozes ressoem e subam alegremente até o trono de Deus!

 

(Traduzido de "Le guide dans l´année liturgique" - A Ordem)

Como "Amoris lætitia" permitiu a um jornalista ter uma visão clara sobre o Concílio

Setembro 3, 2021 escrito por admin

O vaticanista Aldo Maria Valli foi entrevistado na Rádio Spada em 27 de fevereiro de 2021. Durante a entrevista, explicou como havia descoberto a Tradição e os efeitos do Concílio Vaticano II na vida da Igreja. Aqui estão os trechos mais significativos desse testemunho corajoso. As passagens em negrito são da redação do DICI.

 

Rádio Spada: Se o senhor tivesse que resumir em poucas linhas sua posição sobre este acontecimento histórico que foi para a Igreja o Vaticano II e suas consequências, o que nos diria?

Aldo Maria Valli: Cultivei admiração por muitos atores das sessões conciliares, e a Providência permitiu-me conhecer pessoalmente alguns deles. Sempre apreciei sua paixão e amor pela Igreja.

Tendo crescido na Igreja pós-conciliar (no meu caso, em Milão), durante muito tempo nem sequer suspeitei que o Concílio pudesse trazer consigo as sementes de uma evolução teológica e pastoral e, pior ainda, de um desvio em relação à Tradição e ao depósito da fé. Durante os anos que acompanhei os pontificados de João Paulo II e Bento XVI como vaticanista, abracei a visão do que se chama "a hermenêutica da continuidade".

Minhas primeiras perplexidades datam de meados dos anos 90 do século passado, quando, por motivos profissionais, me mudei de Milão para Roma. Por mais paradoxal que pareça, foi precisamente em Roma que percebi os sintomas de uma degradação, sobretudo litúrgica, que me levou a fazer-me algumas perguntas.

Então, no ano 2000, durante o grande jubileu [do Ano Santo], tive pela primeira vez a oportunidade de observar e de conhecer os sacerdotes da Fraternidade São Pio X, durante sua edificante peregrinação. Desde então, minha posição em relação ao Concílio tornou-se cada vez mais crítica até que, com o pontificado de Francisco, vejo nele todas as contradições internas.

Em suma, creio que a incoerência fundamental em relação à Tradição já se encontra no discurso de abertura de João XXIII, Gaudet Mater Ecclesia. No momento em que afirma que a tarefa do Concílio é defender e difundir uma doutrina certa e imutável, o Papa diz: “Por enquanto, a Esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia ao invés de usar as armas do rigor. "

É aqui que reside o problema. Do ponto de vista católico, não há sentido em se opor a misericórdia ao rigor. Pelo contrário, o rigor na defesa e divulgação da justa doutrina é a forma suprema de misericórdia, porque visa a salvação das almas.

Por meio dessa brecha, aberta desde o início do Concílio, o relativismo se infiltrou na Igreja, os abusos e as traições penetraram nela. Em suma, o [espírito do] mundo adentrou e o homem foi colocado no lugar de Deus. Certamente, o trabalho de subversão já havia começado muito antes, mas o Concílio funcionou como um detonador, também em razão de um otimismo injustificado com relação à modernidade.

RS: Com o passar dos anos, suas posições sobre essas questões foram se aproximando gradativamente do que -- em termos jornalísticos -- pode ser definido (e simplificado) como “tradicionalismo”. Houve um evento desencadeador que determinou esse pensamento de sua parte?

AMV: O desencadeador foi a publicação de Amoris lætitia, em 2016. Se as dúvidas já existiam no início deste século, e foram aumentando gradativamente desde 2013, com a eleição de Francisco, a exortação apostólica “Sobre o amor na família” definitivamente abriu meus olhos.

Devo salientar que a ambigüidade e o relativismo, até hoje, não só entraram na Igreja, mas tomaram a forma de um magistério. Devo dizer que no início, no que concerne a Amoris lætitia, fiquei tão incrédulo que neguei o óbvio. Então, reli várias vezes e finalmente tive que reconhecer, com dor, a realidade.

O documento está imbuído da ideia de que existe um dever de Deus de perdoar e um direito humano a ser perdoado, sem que aja a necessidade de se converter. A lei divina eterna se curva a pretensa autonomia do homem.

O conceito de discernimento é instrumentalizado a fim de exonerar do pecado. Eu diria que Amoris Lætitia validou a revolução que havia ocorrido: não uma mudança de paradigma (expressão nebulosa usada para justificar a subversão), mas o triunfo da visão modernista, tanto no conteúdo quanto no método. […]

 

O preço da fidelidade

RS: [...] Em que medida o senhor acha que existe ou que se desenvolve a consciência de que - além do que o Papa Bergoglio está fazendo - estamos enfrentando uma crise que é causada pelo Concílio Vaticano II?

AMV: É difícil pintar um quadro geral, pois as posições são muito diferentes. Existem os ideólogos, os modernistas que dogmatizaram o Concílio e que atacam todos aqueles que tentam lançar luz sobre suas aporias.

Existem os oportunistas que se conformam com a visão modernista não por convicção, mas pelos benefícios que ela traz.

Há os silenciosos que, mesmo sabendo dos problemas, preferem calar-se, fingindo que só resta rezar, enquanto esperam que passe a tempestade.

Existem aqueles que pouco a pouco abriram os olhos, mas não sabem como agir.

Em geral, tenho notado que existe um problema psicológico generalizado entre aqueles, como eu, que cresceram na Igreja pós-conciliar. Entre as pessoas consagradas e os leigos, é difícil para muitos rasgar o véu, pois isso seria o mesmo que admitir que toda a sua vida foi consagrada a uma Igreja desviante.

Eu os entendo. Posso dizer eu mesmo que “estava melhor quando estava pior [no relativismo da Igreja conciliar. Nota do editor] ". Quando ainda não estava consciente, não sentia a amargura e o desânimo que muitas vezes tomam conta de mim hoje, em face aos abusos litúrgicos, aberrações doutrinárias, às concessões feitas ao mundo, às traições da fé.

Mas a verdade é fonte de divisão. Jesus diz isso claramente: "Não vim trazer a paz, mas a espada" (Mt 10,34). Uma Igreja que é toda de paz e amor, toda de açúcar, é uma construção mental e cultural que não tem equivalente nas Escrituras ou na história da civilização cristã. […]

 

Francisco não age como papa

Nesta entrevista, Aldo Maria Valli esclarece sobre o artigo que publicou em seu blog Duc in altum de 20 de fevereiro de 2021, intitulado “Roma sem o Papa. Bergoglio está lá, mas Pedro não ”(ver FSSPX.News de 26/02/21).

Eu sou alheio a qualquer tentação sedevacantista e acredito que Francisco é o Papa. As dúvidas levantadas sobre os supostos constrangimentos que conduziram à renúncia de Bento XVI, bem como sobre a retidão da eleição de Francisco, não levaram a nenhuma prova: há suspeitas, mas nenhuma prova. Em relação à escolha feita por Joseph Ratzinger, creio que foi uma fuga. […]

No que diz respeito a Francisco, acredito que ele não age como papa, ainda que o seja. As razões da minha avaliação são de ordem teológica. Francisco não nos apresenta o Deus da Bíblia, mas um deus adulterado, um deus adaptado às pretensões humanas, um deus que não perdoa, mas exonera.

Como escrevi em meu artigo, esse deus empenhado mais que tudo a exonerar o homem, esse deus em busca de circunstâncias atenuantes, esse deus que se abstém de comandar e prefere compreender, esse deus que "está perto de nós como uma mãe que canta um canção de ninar ”, este deus que não é juiz mas “proximidade ”, este deus que fala da “fragilidade” humana e não do pecado, este deus inclinado à lógica do “acompanhamento pastoral” é uma caricatura do Deus da Bíblia.

Pois Deus, o Deus da Bíblia, é certamente paciente, mas não laxista; é certamente amoroso, mas não permissivo; é atencioso, mas não complacente. Em suma, é pai no sentido mais completo e autêntico do termo.

A perspectiva adotada pelo Papa Bergoglio parece, ao contrário, ser a do mundo: que muitas vezes não rejeita totalmente a idéia de Deus, mas rejeita características que estão menos de acordo com a permissividade reinante.

O mundo não quer um verdadeiro pai -- amoroso, na mesma medida em que julga -- mas um companheiro; melhor ainda, um parceiro de viagem que releva tudo e diz: "Quem sou eu para julgar?" E Francisco apresenta ao mundo justamente esse deus que não é pai, mas parceiro de viagem.

Por isso, afirmo que Francisco não atua como papa, porque não confirma seus irmãos na fé. A prova é que recebe aplausos dos distantes [afastados da fé e da Igreja], que se sentem confirmados no seu afastamento, enquanto com as suas ambigüidades e os seus desvios desconcerta os que estão próximos.

A questão agora é saber se o fato de não agir como papa também significa não ser papa. Na minha opinião, não. Francisco é o Papa, mas no entanto está no erro. Alguns dizem: impossível, porque tem o auxílio do Espírito Santo.

Mas a assistência do Espírito Santo deve ser aceita. Se for recusada, os erros e os pecados podem se propagar, pois o Senhor nunca viola nosso livre arbítrio ao nos forçar praticar atos contrários à nossa vontade.

No paradoxo de sua infinita misericórdia, Deus nos deixa livres para desobedecê-lo, para nos condenar, para recusar a beatitude eterna; Ele nos envia graças sobrenaturais que, no entanto, as podemos recusar. Se assim não fosse, o homem não teria nenhum mérito em escolher Deus e sua lei e em renunciar a Satanás e suas seduções. […]

 

O sofrimento das almas

Desde o meu posto de observação, vejo crescer a perplexidade e o sofrimento.

Mesmo que não faltem encrenqueiros com sua natureza agressiva, vejo e encontro principalmente muitos bons católicos que amam o Papa e rezam por ele, mas que, por isso mesmo, sofrem quando ele não os confirma na fé, mas se reduz a atuar como capelão das Nações Unidas e a defender o politicamente correto, quando é ambíguo em questões de doutrina e moral, dando a impressão de se mover e raciocinar mais como político do que como pastor.

Grande parte do rebanho se sente sem guia. Nem todo mundo tem formação teológica, mas o sensus fidei permite a muitos de ver o que está errado. A adoração idólatra rendida à Pachamama produziu uma verdadeira estupefacção. Uma sensação de perturbação se espalhou quando o Papa Bergoglio se curvou para beijar os pés dos governantes do Sudão do Sul. A assinatura da declaração de Abu Dhabi também suscitou perplexidade. Sem mencionar a abertura aos chamados direitos LGBT.

O grande abismo dos conservadores

Junho 13, 2021 escrito por admin

O pontificado do Papa Francisco tem assistido ao número de “conservadores” aumentar incessantemente

 

Deve-se compreender que “conservadores” são definidos, aqui, como católicos que não estão dispostos a vender a fé católica, que esperam uma renovação ou um reflorescimento da Igreja neste mundo secularizado e que estão, sinceramente, ansiosos para ver o Corpo Místico voltar a fruir, a expandir-se através de novas conversões. Em outras palavras, aqueles que têm mantido o espírito católico.

Mas, ao mesmo tempo, esses conservadores querem seguir todas as reformas operadas pelo Concílio Vaticano II. Algo que parecia possível a eles com alguns contorcionismos... Até a chegada o Papa Francisco.

Porém, desde o começo deste pontificado, e de maneira particular em certas ocasiões – como os dois Sínodos sobre a família, a exortação pós-sinodal Amoris Laetitia, o Sínodo da Amazônia e, especialmente, seu instrumentum laboris, ou, ainda, o Documento sobre a Fraternidade Humana – os conservadores têm se sentido cada vez mais desconfortáveis.

Isso se manifesta através de protestos cada vez mais frequentes, cujas origens estavam situados cada vez mais alto na hierarquia eclesiástica: protesto contra Amoris Laetitia por várias petições, incluindo a famosa correctio filialis, bem como as cartas dubia de quatro Cardeais; ataques frequentes contra documentos romanos ou atos de Eminências como os Cardeais Müller, Brandmüller, Burke ou Zen, bem como por Bispos.

Esse desafio é uma novidade. Quase não havia algum traço dele até 2013 e a chegada do atual Soberano Pontífice ao Trono de Pedro. Portanto, há uma clara conexão entre as duas coisas. E devemos acrescentar que essa contradição, às vezes, assume formas graves entre vários Cardeais e Bispos.

Tudo isso é um sinal de inquietação crescente entre os “conservadores” tais quais definidos acima. Uma ilustração possível apta a descrever a situação: um homem cujos pés estão situados sobre duas pedras diferentes, equilibrando-se acima de um vão. Devido a movimentos tectônicos, as duas pedras estão começando a se afastar uma da outra. A situação já quase chegou ao ponto em que a distância entre ambas está grande demais.

Só há três soluções para essa situação: perder o equilíbrio e cair; tomar refúgio na pedra da direita; ou aderir à pedra da esquerda. Nada é mais desconfortável que esse tipo de posição.

Infelizmente, os conservadores obstinados ainda querem crer que as pedras vão unir-se um dia e que eles não precisarão fazer uma escolha. Claro, isso é uma possibilidade, se olharmos para o plano meramente físico. Uma força contrária poderia aproximar as duas pedras.

Mas, no plano das ideias, e, especialmente, no plano da Teologia, a história é completamente diferente. Não há a menor possibilidade do erro aproximar-se da verdade, ou vice-versa. Pretender manter-se fiel a ambos ao mesmo tempo seria uma distorção da inteligência. E, se o sujeito possuir um mínimo de integridade intelectual, a violência da divisão parecerá cada vez mais intolerável.

De fato, desde o Concílio, a distância apenas aumentou entre os erros modernos e a Tradição da Igreja, com mais ou menos intensidade de acordo com a personalidade dos Papas que se sucederam na cátedra de Pedro. E, é claro, deve-se reconhecer que essa distância tem aumentado consideravelmente desde 2013.

A vantagem dessa situação é que podemos mostrar, com maior clareza, as posições “tradicionalistas”, que desafiaram o Concílio desde que ele ocorreu, baseadas em fundações sólidas. E, gostem eles ou não, a linha conservadora está começando a ser forçada a reconhecer isso.

Além disso, e talvez ainda mais doloroso de se reconhecer: sem essa firmeza doutrinal, os conservadores, há muito tempo, já teriam perdido uma das pedras sobre a qual um de seus pés se situa e teriam sido forçados a adotar uma linha apenas. Porque, se certos pilares ainda estão de pé – se, por exemplo, a Missa tradicional ainda pode ser celebrada hoje com alguma liberdade – isso se deve à tenacidade e firmeza daqueles que se recusaram a compactuar com o erro.

Portanto, é profundamente inconsistente declarar e repetir que essa tenacidade assemelha-se a uma obstinação desarrazoada ou a uma teimosa desobediência.

E tão inconsistente quanto isso seria, como é feito por vários conservadores que temem ser tachado de extremistas, relegar como “marginais fora da Igreja”, com um aceno de mão ou um estalar de dedos, aqueles que guardam a Tradição sem fazer concessões.

Só há uma maneira verdadeiramente eficiente e intelectualmente satisfatória de sair dessa posição tão decepcionante e desagradável: com honestidade, tomar um lado e declarar-se por Jesus Cristo incondicionalmente. Desse modo, eles poderão prestar um enorme serviço à Igreja, e isso é o que importa.

Não são petições e pedidos de explicações que farão as coisas progredirem, mas a profissão pública da fé, acompanhada dos atos que devem se seguir a ela.

Com o cisma alemão em processo de consumação, e a preocupação crescente com os fundamentos básicos da vida moral, a defesa integral da fé torna-se cada vez mais urgente. Em breve, não haverá sequer espaço para colocar um pé na pedra do Concílio.

 

(traduzido da versão em inglês, disponível em: https://fsspx.news/en/news-events/news/conservatives-straddling-gap-66694)

O Pe. Mateo e a Adoração noturna ao Sagrado Coração de Jesus

Maio 30, 2021 escrito por admin

No começo do Século XX, um Padre meio inglês, meio peruano que havia crescido no Chile, foi a Paray-le-Monial, França, onde Nosso Senhor em pessoa havia aparecido a Santa Margarida Maria. Esse Padre, Pe. Mateo Crawley-Boevey, da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, havia sido enviado à França por seu Superior na esperança de que sua frágil saúde iria se recuperar após trabalho intenso.

Pe. Mateo, que tinha uma grande devoção ao Sagrado Coração, sempre havia desejado ir a Paray-le-Monial para estar no exato lugar onde Nosso Senhor havia aparecido à sua santa favorita. Enquanto rezava no santuário das aparições do Sagrado Coração, no dia 24 de agosto de 1907, repentinamente sentiu todo o seu ser estranhamente movido: não apenas se viu curado, mas também compreendeu, com clareza, o plano metódico da obra que deveria realizar pela regeneração cristã das famílias e da sociedade. Ele se determinou a tomar sobre si o trabalho delineado por Santa Margarida Maria, de organizar a prática da Entronização do Sagrado Coração nos lares, escolas e locais de trabalho e, em uma cruzada mundial de amor, fazer do Sagrado Coração de Jesus o Rei das famílias e, portanto, estender seu reinado por todo o mundo.

 

América do Sul

Naquela mesma noite, de joelhos, Pe. Mateo definiu e revisou o plano e o cerimonial de sua cruzada. Então peregrinou à Terra Santa, onde inaugurou seu apostolado da Entronização. Àquela altura, tinha recebido a bênção e o encorajamento do Papa S. Pio X, do Cardeal Vives e do seu próprio Superior-Geral. Então, retornou a Valparaiso, Chile, onde, em 1908, lançou sua campanha, continuando, ao mesmo tempo, seu curso na Faculdade de Direito. No Chile, a Entronização foi coroada com sucesso surpreendente, espalhando-se por toda a América do Sul.

 

Europa

Quando a 1ª Guerra Mundial estava em seu auge, Pe. Mateo encarregou-se de pregar o Reinado do Sagrado Coração na França. Seu zelo e entusiasmo atraíam multidões de pessoas onde ia, e uma grande renovação de piedade resultava em muitas famílias que, solenemente, entronizavam o Sagrado Coração. Diocese após diocese sentiu os efeitos de seu zelo apostólico. Indiferença e tepidez deram lugar ao amor, e milagres de graça eram registrados diariamente.

Da França, o Pe. Mateo foi à Holanda, onde até mesmo os protestantes aglomeravam-se em suas conferências. Em seguida foi à Itália, onde foi recebido em audiência pelo Papa Bento XV, que lhe pediu que pregasse e organizasse a obra naquele país. Duas semanas mais tarde, o Santo Padre lhe presentou com uma carta escrita de punho próprio, na qual dava sua bênção apostólica à cruzada de amor.

Por anos, o Pe. Mateo cruzou os países da Europa (França, Espanha, Itália, Suíça, Holanda, Bélgica, Inglaterra e Escócia, Portugal), dando inúmeras conferências e retiros aos Bispos, Padres, seminaristas, associações católicas, leigos, Reis e Princesas. Fazia cinco ou seis pronunciamentos por dia, todos os dias, em Igrejas lotadas, auditórios e salões. As pessoas voltavam continuamente para lhe ouvir. Graças a seu zelo interminável, a Espanha, a Bélgica e Portugal foram consagrados ao Sagrado Coração de Jesus.

 

Hora Santa em casa

Após 20 anos de promoção da Entronização, o Pe. Mateo começou a promover a Hora Santa em casa. Ele havia percebido que, para manter acesa a chama da fé nos lares, era preciso mais. Muitos católicos generosos, devido a obrigações familiares, distância ou doenças, não podiam ir à Igreja, especialmente à noite, para participar na adoração perpétua do Santíssimo Sacramento. Então, o Pe. Mateo pensou que os poderia alistar como adoradores pedindo-lhes que fizessem uma hora santa no lar. Três anos após começar a promoção da Hora Santa em casa, a adoração se tornou perpétua em dezesseis países. A Entronização é como os tijolos de uma construção, e a Hora Santa é a argamassa que mantém o conjunto unido.

Dali em diante, a Entronização e a Hora Santa em casa eram pregadas em conjunto. O Papa Pio XI deu seu selo de aprovação com sua carta encíclica Miserentissimus Redemptor, na qual aprovou enfaticamente e encorajou tanto a Entronização quanto a Hora Santa em casa: a Entronização (ou Consagração), como o ato de dar o devido lugar a Nosso Senhor como Rei da sociedade, das famílias e países... E a Hora Santa como expiação, para dar satisfação por nossos “inúmeros pecados, ofensas e negligências”. Não apenas por nossas ofensas, mas também pelas de outras pessoas, para reparar a honra de Cristo e para promover a salvação eterna das almas.

 

Extremo Oriente

O Pe. Mateo sempre havia desejado ir ao Extremo Oriente e, finalmente, conseguiu ir ao Japão com a ordem do Papa Pio XI de “ir e pregar santidade aos Padres”. Ele passou cinco anos de apostolado zeloso e frutífero no Japão, China, Ilhas do Pacífico, Filipinas, Havaí, Indochina (Camboja, Laos e Vietnã), Malaca, Macau, Índia e Ceylon (Sri Lanka)

 

América do Norte

Então, foi aos EUA, chegando em São Francisco em 1940. Em uma carta escrita antes de sua chegada, Pe. Mateo expressou a alegria e a determinação com as quais estava pronto a se entregar “nessa terra promissora para fazer as almas amarem o Amante Adorável, e para espalhar e fortalecer o Reinado Social do Sagrado Coração em casa. A casa é o santuário da família, e a família é a rocha sobre a qual a Igreja constrói o presente e o futuro da sociedade”. Ele trabalhou por quatro anos, nos quais retiros para os sacerdotes, dias de recolhimento, conferências e simpósios se seguiam uns aos outros em rápida sucessão.

Em seguida, foi para o Canadá por dois anos, até que a doença finalmente o forçou a internar-se em um hospital.

 

De volta ao começo

Após ter se recuperado, retornou a Valparaiso, Chile. Continuou sua obra orando, sofrendo (ele teve ambas as pernas amputadas devido a gangrena) e escrevendo. Pouco antes de morrer, Pe. Mateo disse ao seu Superior-Geral: “Diga a todos que Pe. Mateo prega de sua cama e que insiste na adoração noturna, a flor mais bela de sua obra. Essa é a oração da casa: orações em união com o Coração de Jesus, orações no espírito de reparação à noite, durante as horas da escuridão”

 

Essas informações foram retiradas de “Jesus, King of Love” pelo Pe. Mateo Crawley-Boevey e The Firebrand, The Life of Father Mateo por Marcel Bocquet, SS.CC, Corda Press.

Um mínimo de violência

Maio 23, 2021 escrito por admin

Pe Xavier Beauvais, FSSPX

Diz-se que a violência é condenável por atentar contra a liberdade do outro. Ora, isso imediatamente suscita uma questão: A que nível se situa essa liberdade, e que uso se faz dela? O mau uso é considerado por todos os moralistas como uma alienação da liberdade. Esquece-se muitas vezes que a liberdade não é um dado imutável e definitivo: costuma-se ser pressuposta quando deve ser buscada. A liberdade no homem é um esboço sempre aperfeiçoável e sempre ameaçado; é um começo sem fim, uma elaboração contínua, e a violência sempre tem um lugar aí. Uma absoluta não-violência nesse domínio só poderia resultar no triunfo de todos os instintos de preguiça e anarquia, ou seja, na ruína de toda a liberdade real.

Daí a necessidade e mesmo a legitimidade de certas formas de violência, não só para melhorar o indivíduo, mas para proteger a sociedade. 

Existe uma violência educadora: É aquela que exercemos sobre a criança que educamos. Ao educar uma criança, nós a obrigamos a renunciar agora a uma parte da sua liberdade para garantir melhor a sua liberdade amanhã. Sacrificamos algo no presente para o repormos amanhã.

“A cultura -- dizia Alain, que não é suspeito de ser um direitista – a cultura começa com o aborrecimento.”

Começa quando se faz com que uma criança faça o que não quer fazer. Hoje em dia, esse tipo de violência é negado. Quantas crianças pisariam na escola se tivessem escolha? Como dizia o poeta: “Com a recusa, tudo começa; com a liberalidade, tudo acaba”.

Hoje em dia é exatamente o oposto: as crianças são pequenos deuses que aprenderão todas as coisas de modo espontâneo, com boa vontade, tudo será maravilhoso. -- É assim que fazemos delas uns monstrinhos.

Existe uma violência repressiva, representada pelos organismos da terapêutica social que são, para citar alguns, a polícia e a justiça penal. Como ensinava Santo Agostinho: “o castigo é a ordem do crime”. Sua função é reeducar os delinquentes.

Exista uma última forma de violência que é muito legítima: a violência defensiva, que consiste, por exemplo, em resistir a agressão anticristã, ou na revolta de uma nação contra outra, ou contra uma casta opressora. Há também a guerra justa, ou a sublevação desencadeada contra uma tirania.

Há no homem faculdades e tendências que exigem um mínimo de violência. De um lado, os mecanismos da sensibilidade e dos humores precisam ser adestrados e disciplinados; de outro, a inclinação ao mal que deve ser freada ou, no limite, extirpada. E aos indivíduos ou às coletividades que se mostram incapazes de exercer essa violência sobre si mesmas – em outras palavras, de curar-se desde o interior – é legítimo e mesmo benfazejo que lhe sejam impostas desde fora.

[...] 

Não se esqueçam de que a vida do homem será sempre um combate; as virtudes guerreiras sempre terão o seu lugar, pois o mal sempre adquirirá novas faces e disfarces. Para a boa violência, à serviço da verdade e do bem, sempre haverá emprego. O homem se reduz com a paz falsa: O que tiraríamos de uma espécie de tranquilidade no pântano? Não devemos esquecer, enfim, que toda facilidade exterior que não cria uma exigência interior, degrada o homem. Não devemos nos iludir. Enquanto existir o mal, o bem não poderá jamais se defender sem um mínimo de violência.

 

(L´Acampado, 170)

A ressurreição de Cristo

Maio 2, 2021 escrito por admin

Meditada pelo Padre Leonardo Castellani

 

“Ao terceiro dia ressurgiu dos mortos”: não significa dizer que Cristo Nosso Senhor tenha estado três dias no sepulcro, senão que, morto na Sexta-feira, ressuscitou e saiu do sepulcro no Domingo de manhã. Esteve no sepulcro por mais de 30 e menos de 40 horas.

A Ressurreição de Nosso Senhor é um acontecimento histórico, o evento sustentado com maior peso de testemunho histórico do que qualquer outro evento no mundo.

Os quatro evangelhistas narram os fatos do Domingo de Páscoa de forma totalmente impessoal, assim como o resto da vida de Cristo; não há exclamações, comentários, afetos, espantos ou gritos de triunfo. Os Evangelhos são quatro crônicas inteiramente excepcionais: o cronista registra uma série de eventos de maneira inteiramente enxuta e concisa. Aqui, os fatos são as aparições de Cristo revivido, as quais viram, ouviram e tocaram aqueles que iriam dar testemunho.

Este testemunho pode ser resumido brevemente pelas seguintes circunstâncias:

1° - São quatro documentos distintos, escritos em momentos diferentes e sem conivência mútua, cujos autores não tinham o menor interesse em fabricar uma enorme e incrível impostura, mas, pelo contrário, arriscaram a própria vida ao escrevê-los.

2° - Os Fariseus e Pôncio Pilatos não fizeram nada. Eles teriam que ter feito alguma coisa para criar uma impostura, e seria uma impostura facilíma de se inventar: bastava mostrar o cadáver. Depois julgar e condenar os impostores. Mas, ao invés disso, mentiram e usaram de violência para fazê-los calar.

3° - Na manhã de Pentecostes, os antes amedrontados apóstolos corajosamente saíram para pregar à multidão que Jesus era o Messias e que havia ressuscitado. Na multidão havia muitas testemunhas oculares das obras de Cristo, inclusive de Sua Paixão e Morte. A multidão acreditou nos apóstolos.

4° - No espaço de uma vida humana, por todo o vasto Império Romano havia grupos de homens que acreditavam na Ressurreição de Cristo, e se expunham aos piores castigos por crer e confessa-la.

5° - Três séculos depois, todo o Império Romano, ou seja, todo o mundo civilizado acreditou na Ressurreição de Cristo; e a religião cristã era a religião oficial de Roma; para chegar até aí, houve milhares e mesmo milhões de mártires, entre as quais as doze primeiras testemunhas que deram suas vidas em meio a tormentos atrozes. “Eu acredito em testemunhas que dão suas vidas” - disse Pascal no século XVII.

Claro que havia incrédulos no Império Romano: sempre os há. Contra eles, Santo Agostinho escreveu seu famoso argumento: "Os Três Incríveis".

INCRÍVEL é que um homem tenha ressuscitado dentre os mortos; INCRÍVEL é que tantos tenham acreditado nesse incrível; INCRÍVEL é que doze homens rudes, simples e plebeus, sem armas, iletrados e desconhecidos, tenham convencido o mundo, sábios e filósofos, daquele primeiro INCRÍVEL.

 “O primeiro INCRÍVEL não queirais crer; no segundo INCRÍVEL, não tens outro remédio que constatá-lo; de onde tereis que admitir o terceiro INCRÍVEL. Mas esse terceiro incrível é uma maravilha tão assombrosa quanto a Ressurreição de um morto

Assim dizia Santo Agostinho; e isso é o que o Concílio Vaticano I chamou de "o milagre moral" da Igreja.

 

Padre Leonardo Castellani, em “El Rosal de Nuestra Señora”, Buenos Aires, Ediciones Nuevas Estructuras, 1964 – páginas 103 a 105.

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