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Fraternidade São Pio X (38)

O Estado de Necessidade

    

[N. da P. -- Por que os sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X exercem um apostolado, mesmo não possuindo uma estrutura canônica “oficial”? Neste artigo, o Padre Mauro Tranquillo demonstra como a situação atual “extraordinária” criada na Igreja há 40 anos torna necessário o recurso a “normas extraordinárias”, previstas no Código de Direito Canônico, que, não apenas justificam, mas sim impõem a tais sacerdotes o apostolado em favor das almas, cuja salvação é a suprema lei.]

 

Pe. Mauro Tranquillo, FSSPX

  

Et respondens ad illos dixit:

Cuius vestrum asinus, aut bos in

puteum cadet, et non continuo

extrahet illum die sabbati? (Lc 14, 5)

 

Mesmo após o levantamento das pretensas “excomunhões” -- sobre cuja invalidade muito já se falou e algo se dirá ainda no curso deste artigo – continuam a definir como ilegítimo o ministério dos sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, como não enquadrado em uma forma canônica. De fato, esses sacerdotes atendem a confissões e administram sacramentos quase como se fossem párocos, apesar de as autoridades ordinárias da Igreja não lhes haverem concedido nenhum título para exercer algum tipo de ministério.

Propomo-nos, pois, neste texto, a examinar a que título os sacerdotes da Fraternidade continuam a exercer o seu apostolado, e baseados em que normas divinas e jurídicas. Com efeito, estes invocam frequentemente um “estado de necessidade”: O que é esse estado? É por acaso o estado de necessidade um tipo de selva, de regressão a um estado pré-social, ou, ao contrário, é uma situação extraordinária na qual se aplicam normas extraordinárias, enquanto seria errôneo pretender aplicar ao pé-da-letra aquelas normas ordinárias? Existe, isto é, de fato e de direito, uma situação tal que torne impossível ou inútil ou mesmo danosa a aplicação das leis positivas ordinárias e que exija, ao contrário, o recurso à aplicação de normas mais elevadas, de modo nenhum arbitrárias, mas previstas pelo legislador e pelo Direito divino?

Neste artigo queremos mostrar o quanto o apostolado desenvolvido pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X é absolutamente legítimo, oportuno e adequado à situação presente

O Magistério contra a Tradição?

Pe. Pierpaolo Maria Petrucci, FSSPX

 

Alguns afirmam que o ensinamento atual, que chamam de magistério vivo, temo poder de interpretar de modo a modificar a Tradição. Mas o que a Igreja já ensinou de maneira infalível é imutável.

O motivo de embate entre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) e as autoridades romanas é a oposição daquela ao ensinamento atual na Igreja, que funda raízes no último concílio. Essa oposição é motivada pelo fato de que são agora ensinadas novas doutrinas contrárias ao ensinamento do passado.

O Vaticano nos acusa por isso de ter uma concepção errônea da Tradição e do Magistério da Igreja.

Segundo João Paulo II, a posição da FSSPX tem origem no fato de não considerar a Tradição como algo vivo, permanecendo fixados no passado. Assim se exprimiu em 1988, por ocasião da consagração de nossos quatro bispos: “A raiz deste ato cismático pode localizar-se numa incompleta e contraditória noção de Tradição. Incompleta, porque não leva em suficiente consideração o caráter vivo da Tradição(...)” 1.

Por sua vez, Bento XVI acusa a FSSPX de se ter fixado no Magistério pré-conciliar e não reconhecer, na verdade, o magistério do concílio e do pós-concílio: “Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962 – isso deve estar bem claro para a Fraternidade”. 2

A Tradição deveria ser viva, isto é, interpretada pelo magistério atual que nos diria hoje aquilo que é conforme ou menos conforme à Fé. Quem quisesse opor a Tradição de ontem ao magistério de hoje se arvoraria de juiz da Igreja e de seu ensinamento, substituindo-o, de fato, por seu juízo pessoal.

Para examinar o problema, responder a essa objeção e compreender em que consiste essa oposição que parece ser fundamental resolver, antes de poder chegar a uma solução jurídica entre a FSSPX e Roma, é necessário definir e esclarecer os conceitos de Tradição e de Magistério. (Continue a ler)

  1. 1. João Paulo II, Motu Proprio Ecclesia Dei afflicta, 02.07.1988
  2. 2. Bento XVI, Carta aos Bispos do mundo inteiro sobre a remissão das excomunhões de 1988, 10.03.2009.

O futuro da Igreja e das vocações

O Pe. Davide Pagliarani, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, concedeu uma entrevista exclusiva ao site oficial do Distrito Francês da FSSPX, La Porte Latine, na qual relembra a fecundidade da Cruz para as vocações e as famílias. Ele enfatiza particularmente a necessidade de guardar o espírito autêntico do fundador, Dom Marcel Lefebvre, “um espírito de amor pela fé e pela verdade, pelas almas e pela Igreja”, em face da recente canonização de Paul VI e da promoção da sinodalidade na Igreja.

 

Faz agora cinco meses que o senhor foi eleito Superior Geral da Fraternidade São Pio X, para um mandato de doze anos. Estes cinco meses certamente lhe permitiram uma primeira visão geral sobre a obra fundada por Dom Marcel Lefebvre, em complemento à sua já rica experiência pessoal. Qual a sua impressão e quais as prioridades para os próximos anos?

A Fraternidade é uma obra de Deus, e quanto mais a conhecemos, mais a amamos. Duas coisas mais me impressionaram. Primeiro, o caráter providencial da Fraternidade: ela é o resultado de escolhas e decisões de um santo guiado unicamente por uma prudência sobrenatural e “profética”, cuja sabedoria apreciamos mais e mais à medida que os anos passam e a crise da Igreja se agrava. Depois, pude constatar outra vez que não temos a regalia de sermos poupados: o Bom Deus santifica todos os nossos membros e fiéis mediante os fracassos, as provas, as decepções, em uma palavra, pela cruz e não por outros meios.  (Continue a ler)

Entrevista com o Pe. Davide Pagliarani

INTRODUÇÃO

No último sábado, 15 de dezembro de 2018, o Superior Geral da Fraternidade São Pio X, Padre Davide Pagliarani, concedeu uma admirável entrevista ao jornal austríaco Salzburger Nachrichten, que é classificado pelos especialistas em veículos de comunicação européia como um diário de tendência “cristã e liberal”.

PERMANÊNCIA apresenta aqui a tradução dessa entrevista, na qual o leitor facilmente perceberá duas coisas. A primeira é que cada pergunta do entrevistador, cioso do caráter liberal do periódico austríaco, é uma tentativa de retratar a Tradição como um ajuntamento de teimosos e ingratos, que não sabe corresponder às benevolentes concessões vindas de Roma. Mas também notará a maestria do entrevistado, com respostas tão firmes quanto curtas: simples como a pomba, e prudentes como a serpente.

Para nós é um bálsamo constatar que a obra fundada por Dom Marcel Lefebvre há quase 50 anos, no alvorecer do turbilhão pós-conciliar, segue sendo hoje, como jamais deixou de ser ― apesar do que digam os seus detratores ― o baluarte de defesa da fé sobrenatural, essa fé católica que é afirmada logo no início da entrevista do superior geral.

Peçamos a Nosso Senhor a graça imensa de jamais perder essa mesma fé, há meio século espezinhada por aquela mesma hierarquia constituída para guardá-la e transmiti-la.

_____________

O fundador da Fraternidade São Pio X, Dom Marcel Lefebvre, foi excomungado em 1988 por ter ordenado quatro bispos sem permissão. No ano de 2009, Bento XVI levantou estas excomunhões. O que isso significa para o senhor?

Para nós não mudou nada, pois jamais consideramos que essas excomunhões tivessem fundamento. No entanto, algumas pessoas sentiram-se encorajadas a juntar-se a nós, coisa que até então não ousavam fazer. Isso facilitou igualmente nossas relações com alguns bispos e com parte do clero, sobretudo com os padres mais jovens.

 

Francisco também fez algumas concessões. O que o senhor ainda espera?

Esperamos aquilo que todo católico pede à Igreja no seu batismo: a fé. A revelação divina está encerrada, é dever do Papa transmitir fielmente o depósito da fé. O Papa deve, pois, pôr um fim à terrível crise que agita a Igreja há 50 anos. Esta crise foi desencadeada por uma nova concepção da fé centrada sobre a experiência subjetiva de cada um: julga-se que o indivíduo é o único responsável pela sua fé e pode livremente optar por qualquer religião, sem distinção entre o erro e a verdade. Ora, isso contradiz a lei divina objetiva. (Continue a ler)

50 anos da Permanência

50 Anos da Permanência

​Dom Lourenço Fleichman OSB

No dia 29 de setembro de 2017 a Permanência completou 49 anos. Isso significa que já entramos no quinqüagésimo ano de existência, que se completará em 29 de setembro de 2018.

A inauguração da Permanência se realizou por uma missa celebrada pela então Arcebispo do Rio de Janeiro, o Cardeal Dom Jaime Câmara. Essa missa foi celebrada no auditório da primeira sede do nosso movimento, na rua das Laranjeiras.

Igualmente fora realizada uma cerimônia no auditório do Ministério da Educação e Cultura, na presença de muitas autoridades civis e religiosas, onde Gustavo Corção lançara o movimento católico, anunciando para setembro o primeiro número da Revista Permanência.

Eram outros tempos! Os jornais da época anunciaram o lançamento do movimento Permanência e de sua Revista com chamadas nas primeiras páginas. O catolicismo ainda fazia parte da civilização, mesmo sendo um aspecto apenas cultural da nossa Religião.

Seriam outros tempos? Nem tanto. O Concílio Vaticano II já tinha aberto as portas da Igreja ao mundo, abraçara-o e já se tornara cúmplice das suas liberdades, dos seus valores igualitários, da sua marcha para a socialização. O ciclope do fim do mundo já nascera e cuspia seu fogo que tudo destruiu.

Rumo a um "entendimento doutrinal"?

 

Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX

Numa entrevista recente, Mons. Guido Pozzo declarou que “a reconciliação acontecerá quando Dom Fellay aderir formalmente à declaração doutrinal que a Santa Sé lhe apresentou. É também a condição necessária para proceder à regularização institucional, com a criação de uma prelazia pessoal”. E no retorno da recente peregrinação à Fátima (12-13 de maio), numa conferência concedida à imprensa no avião, o Papa Francisco aludiu ao documento preparado pela Congregação da Doutrina da Fé, em sua última sessão de quarta-feira, 10 de maio. Segundo o espírito de Roma, tratar-se-ia de um entendimento doutrinal. A expressão, porém, é equívoca; com efeito, pode ser entendida em dois sentidos.

Num primeiro sentido, o fim buscado é que a Tradição reencontre todos os seus direitos em Roma, e que, por conseguinte, a Santa Sé corrija seriamente os erros doutrinais que são a fonte da crise sem precedentes que ainda açoita a Santa Igreja. Essa correção é o fim buscado, um fim em si mesmo e causa final, princípio de todo agir subsequente no quadro das relações com Roma. E esse fim é simplesmente o bem comum de toda a Igreja. Nesse sentido, o entendimento doutrinal significa que Roma deve entender-se não com a Fraternidade São Pio X, mas com a doutrina de sempre, e abandonar os seus erros.

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

LEIA A CONTINUAÇÃO

Os Cinquenta Anos da FSSPX

Don Davide Pagliarani, Superior Geral

 

1. QUE REPRESENTA PARA A TRADIÇÃO O 50o ANIVERSÁRIO DA FSSPX?

Em primeiro lugar, este jubileu é ocasião de agradecer à Providência por tudo o que nos concedeu durante esses cinquenta anos, porque uma obra que não fosse de Deus não teria resistido à prova do tempo. Antes de tudo, devemos atribuir tudo isso a Deus.

Mas também e sobretudo, este jubileu é uma oportunidade para reavivarmos o nosso ideal de fidelidade ao que recebemos. Na verdade, depois de tantos anos, pode haver uma fadiga compreensível. Trata-se, portanto, de reavivar o nosso fervor na luta pelo estabelecimento do reino de Cristo Rei: que Ele reine primeiro nas nossas almas e em seguida ao nosso redor. É neste ponto particular que devemos trabalhar, seguindo Dom Marcel Lefebvre.

 

2. POR QUE, NA SUA OPINIÃO, O LEGADO QUE DOM MARCEL LEFEBVRE NOS DEIXOU SE  RESUME NO DESEJO DE INSTAURAR O REINADO DE CRISTO?

A resposta me parece muito simples: é o amor de Nosso Senhor como Rei que fez do Arcebispo Lefebvre um santo prelado e um grande missionário, procurando apaixonadamente estender ao seu redor o reinado daquele que reinava em sua alma. É este amor que o levou a denunciar com veemência todos os que se opunham a ele. Ora, o santo Sacrifício da Missa é o meio por excelência para estender este reino e lutar contra seus inimigos. A voz de Dom Marcel Lefebvre tremia de emoção ao pronunciar estas belas palavras da liturgia, que resumem tanto o seu amor pela Missa como por Cristo Rei: “Regnavit a ligno Deus” (hino Vexilla Regis), Deus reina pelo madeiro da Cruz. Numa carta que escreveu pouco antes de sua morte a um ex-confrade de sua congregação original, o Arcebispo fez questão de dizer que, ao longo de sua vida, nunca havia trabalhado por outra coisa que não o reinado de Nosso Senhor. Isso resume tudo o que ele foi e tudo o que nos legou.

 

3. NESTE 24 DE SETEMBRO, POR SUA SOLICITAÇÃO, O CORPO DE DOM MARCEL LEFEBVRE FOI TRANSFERIDO PARA A CRIPTA DA IGREJA DO SEMINÁRIO DE ECÔNE. APESAR DA CRISE DO CORONAVIRUS, MUITOS SACERDOTES, SEMINARISTAS, RELIGIOSOS E FIÉIS PARTICIPARAM DA CERIMÔNIA. COMO FOI A EXPERIÊNCIA DESTE DIA?

Esta transferência fora solicitada no último Capítulo Geral, em 2018, e estou muito feliz que tenha se concretizado no espaço de dois anos. Embora caiba somente à Igreja canonizar um dia Dom Marcel Lefebvre, creio que ele já merece toda a nossa veneração, e uma sepultura digna de um santo bispo. Neste ano jubilar, este gesto quer ser a expressão da gratidão de todos os membros da FSSPX por aquele que a Providência suscitou como instrumento para salvaguardar a Tradição da Igreja, a Fé, a Santa Missa e para nos transmitir todos esses tesouros. O fato de tornar a ver, depois de trinta anos, o caixão de nosso fundador, e de ver nossos padres carregando-o nos ombros como no dia do seu funeral, foi particularmente comovente. Vi antigos confrades comovidos até as lágrimas.

 

4. QUANDO A FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X FOI FUNDADA, A MÍDIA DESCREVEU-A COMO UM "FENÔMENO FRANCÊS", DESTINADO A UMA EXISTÊNCIA MERAMENTE LOCAL. HOJE, A FSSPX É UMA COMUNIDADE GLOBAL. O QUE ISSO SIGNIFICA PARA SUA ADMINISTRAÇÃO?

Isso significa que a Casa Geral precisa coordenar as mais diversas situações. A própria tradição foi redescoberta em diferentes países, por meios diversos e de acordo com sensibilidades distintas. Isso explica o porquê da FSSPX não ter se desenvolvido da mesma maneira em todos os lugares ou ao mesmo tempo. Não é preciso dizer que uma obra de tal magnitude como a da FSSPX, com todas as suas facetas, não é administrada apenas pelo Superior Geral: ele é auxiliado nesta tarefa pelos Superiores maiores, que trabalham em países diferentes.

Mas a grande diversidade de situações não deve nos fazer subestimar o fato de que a unidade da FSSPX é baseada em um ideal e princípios comuns a todos os membros e a todos os fiéis sem distinção. Esta unidade é a nossa força, apesar das diferenças legítimas e inevitáveis. Além disso, por ser a FSSPX uma obra da Igreja, ela deve, de certa forma, reproduzir a capacidade da Igreja de oferecer aos fiéis de todo o mundo os mesmos princípios e a mesma fé, em que pese as suas diferenças.

 

5. APÓS DOIS ANOS À FRENTE DA FSSPX, QUE JULGAMENTO O SENHOR FAZ SOBRE O SEU DESENVOLVIMENTO?

A FSSPX existe há muito tempo no mundo. Não creio que a Providência nos peça nesse momento abrimos novas casas e ampliarmos mais, o que seria talvez da nossa parte uma falta de prudência. Em vez disso, julgo que a Fraternidade precisa se enraizar mais profundamente onde já está presente, a fim de ter comunidades mais fortes; sobretudo para que os jovens sacerdotes tenham tempo para amadurecer e completar a sua formação, o que nos permitirá prepará-los para diferentes responsabilidades, em particular, para a tarefa de prior, para que um dia sejam verdadeiros pais para os seus confrades e para as almas confiadas aos seus cuidados.

 

6. O SENHOR CONHECE TODOS OS PAÍSES ONDE A FRATERNIDADE ESTÁ PRESENTE? COMO O “TESOURO DA TRADIÇÃO”, DO QUAL O SENHOR FALOU APÓS SUA ELEIÇÃO, É COMUNICADO PELA FRATERNIDADE NO CONTEXTO ATUAL?

Devido ao Covid-19, existem alguns distritos que ainda não pude visitar, pelo que sinto muito. Este "tesouro" é comunicado pelos sacerdotes da Fraternidade em situações que necessariamente diferem entre si, mas que sempre permitem que os sacerdotes demonstrem um verdadeiro zelo. A este respeito, fiquei muito edificado com a inventividade dos nossos confrades, que, na medida do possível, encontraram soluções muito engenhosas para administrar os sacramentos durante o confinamento. Acima de tudo, alguns de nossos padres permaneceram isolados por vários meses em lugares onde a comunicação com outros padres se tornou impossível. Foi grande o seu mérito e gostaria de felicitá-los.

Ao mesmo tempo, também fui tocado pelas reações de nossos fiéis, que demonstraram muito desejo de receber os sacramentos, não pouparam esforços e fizeram sacrifícios consideráveis ​​para demonstrar seu amor por Nosso Senhor. Essa crise certamente nos ajudou a sair da rotina e valorizar mais todos os tesouros que costumamos desfrutar.

 

Além disso, muitos católicos, que até agora nos observavam de longe, foram atraídos às nossas capelas, porque era para eles a única possibilidade de acesso aos sacramentos. Este é um fenômeno bastante difundido e todas essas almas demonstram grande gratidão à FSSPX.

 

7. QUAIS SÃO OS PROJETOS ATUAIS OU FUTUROS?

Por enquanto, os projetos são principalmente de natureza moral e, portanto, não são necessariamente projetos que possam ser constatados externamente. Em suma, trata-se de continuar a trabalhar o máximo possível para tornar a Fraternidade forte, unida, verdadeiramente ancorada em Deus, fiel à graça que a sustenta e, ouso dizer, sólida como um exército em linha, capaz de defender, com todos os meios à sua disposição, os tesouros que Deus lhe confiou e atacar aquilo que se lhe opõe; capaz, finalmente, como um exército digno desse nome, de lidar com os mais fracos de seus membros, os feridos, os desanimados e os que se encontram sob alguma provação.

 

8. O SENHOR É O QUARTO SUPERIOR GERAL DA FRATERNIDADE SÃO PIO X, APÓS DOM MARCEL LEFEBVRE, FRANZ SCHMIDBERGER E DOM BERNARD FELLAY. O SEU ESTILO DE GOVERNO DIFERE DO DELES?

Acho que cada personalidade é inevitavelmente diferente, e por isso traz uma experiência diferente. Além disso, cada época da história da Fraternidade é diferente, pois, depois de cinquenta anos, as circunstâncias e as pessoas não são as mesmas.

Dito isso, a Fraternidade foi sempre fiel ao que Dom Marcel Lefebvre ensinou e nos legou: salvaguardar a herança do nosso fundador e ser fiel ao seu espírito, essa é a principal preocupação de qualquer Superior Geral, seja ele quem for, e qualquer que seja sua personalidade. Por outro lado, a continuidade também é garantida pelo fato de que todo Superior Geral visa o mesmo fim: a salvaguarda do sacerdócio católico e da Tradição da Igreja, para o serviço das almas e da própria Igreja. Esta é uma realidade que transcende as diferenças de estilos e que permite que a necessária renovação dos superiores não seja uma ameaça à estabilidade da obra.

De minha parte, manter esta continuidade é um pouco mais fácil uma vez que tenho o privilégio inestimável de contar com o apoio de meus dois predecessores, Dom Fellay e Padre Schmidberger, eleitos conselheiros do Superior Geral no capítulo anterior. Para mim, não se trata de uma eleição puramente formal, para a realização de tarefas administrativas, mas a feliz possibilidade de apoiar-se em dois ex-superiores gerais, que conheceram bem o Fundador e a vida da Fraternidade durante décadas, dedicando-se ao seu serviço e merecendo hoje a mais elevada estima. Em particular, tive a alegria de contar com os valiosos conselhos de Dom Bernard Fellay, que continuou a residir na Casa geral durante dois anos. Pude admirar nesta ocasião uma grande disponibilidade para ajudar, aliada a uma notável discrição. A presença dos meus dois predecessores, portanto, compensa um pouco aquilo que definitivamente me faltaria se eles não estivessem lá.

 

9. OS ESTATUTOS DA FRATERNIDADE DÃO AO GERAL SUPERIOR DOIS OBJETIVOS ESPIRITUAIS: “1) Fazer tudo para manter, entreter e aumentar ´no coração dos membros uma grande generosidade, um profundo espírito de Fé e um zelo fervoroso no serviço da Igreja e das almas´; 2) ajudar os membros ´a não caírem na tibieza e fazerem concessões ao espírito do tempo´”. COMO O SENHOR PRETENDE ATINGIR ESSES OBJETIVOS?

O Superior Geral deve, antes de tudo, lembrar-se de que não poderá alcançar esses objetivos sem a obra da graça. Ele estaria errado se julgasse ser capaz de conseguir isso por meio de textos, lembretes ou outras medidas puramente exortativas.

Quanto a mim, estou profundamente convencido de que a chave da nossa fidelidade a estes objetivos está na virtude da pobreza. De fato, com o tempo, é inevitável que os membros da Fraternidade corram o risco de "se instalar" num certo conforto e permitir, desta forma, que o espírito do mundo se infiltre imperceptivelmente em nossas comunidades. Se isso acontecesse, acabaria repercutindo na generosidade dos membros e, portanto, na fecundidade de seu zelo apostólico.

 

10. O PARÁGRAFO IV DOS ESTATUTOS PREVÊ: “Assim que a Fraternidade poussuir casas em dioceses distintas, adotará as medidas necessárias a fim de obter o Estatuto de Instituto de Direito Pontifício”. ISSO CONDUZ À SEGUINTE PERGUNTA: COMO PODEMOS CUMPRIR ESSE DESEJO DE NOSSO VENERADO FUNDADOR EM FACE DA ATUAL CRISE DA IGREJA?

Os Estatutos da Fraternidade foram aprovados em 1970 a nível diocesano. Era normal que nosso Fundador já tivesse em mente uma aprovação a nível superior, uma vez que a Fraternidade estava destinada a se expandir por todo o mundo.

No entanto, como todos sabem, apesar de todos os seus esforços nessa direção, o Arcebispo, ao invés de receber uma aprovação de direito pontifício, sofreu em 1975 uma supressão pura e simples da Fraternidade São Pio X. Desde então, os Superiores da Fraternidade, a começar pelo próprio Dom Marcel Lefebvre, pensaram em soluções, mas essas têm se chocado sistematicamente com exigências doutrinais inaceitáveis por parte da Santa Sé. Certamente, essas exigências teriam permitido o reconhecimento canônico da Fraternidade, mas, ao mesmo tempo, teriam destruído seu valor moral. Assim, para dar o exemplo mais recente, quando a Congregação para a Doutrina da Fé, em 2017, quis exigir que a FSSPX aceitasse os ensinamentos do Concílio Vaticano II e reconhecesse a legitimidade da nova Missa: se a FSSPX tivesse aceitado as condições impostas naquela época, ela simplesmente teria se negado a si mesma, teria negado aquilo a que está apegada com todas as fibras do seu ser.

Portanto, parece-me que, como sempre foi a conduta de nosso fundador, convém seguir a Providência e não precedê-la.

 

11. OS CONTATOS COM O VATICANO CONTINUARÃO ESTAGNADOS?

Não depende da Fraternidade, nem de seu Superior Geral. O próprio Vaticano preferiu no momento não retomar as discussões doutrinárias, que a Fraternidade propôs para melhor expor sua posição e mostrar sua adesão à Fé católica e à Sé de Pedro.

O que é surpreendente é que o Vaticano nos pede ao mesmo tempo que regularizemos nossa situação canônica: isso cria uma situação inextricável e intrinsecamente contraditória, uma vez que a possibilidade de um reconhecimento canônico da Fraternidade São Pio X está constantemente sujeito a pré-requisitos doutrinários que permanecem absolutamente inaceitáveis ​​para nós.

Acrescentaria que, quaisquer que sejam as opiniões pessoais sobre este assunto, é importante ter o cuidado de não se preocupar de forma quase obsessiva com questões tão delicadas, como às vezes acontece. Devemos recordar que, assim como a Providência nos orientou e nos assistiu desde a nossa fundação, também, a seu tempo, não deixará de nos dar sinais suficientes e proporcionados que nos permitirão tomar as decisões que as circunstâncias exigem. Esses sinais serão tais que sua evidência será facilmente perceptível pela Fraternidade, e a vontade da Providência se deixará perceber claramente.

 

12. NESTE ANO DE 2020, A CRISE RELACIONADA À COVID-19 TAMBÉM AFETOU A IGREJA E CONDICIONOU SUAS ATIVIDADES. COMO O SENHOR VÊ ISSO?

É interessante notar que, com a crise do Coronavirus, a hierarquia eclesiástica perdeu uma oportunidade de ouro para mover as almas para a verdadeira conversão e penitência, o que é sempre muito mais fácil quando os homens redescobrem de alguma forma a sua natureza mortal. Além disso, teria sido a ocasião de lembrar à humanidade, tomada de pânico e desespero, que Nosso Senhor é "a Ressurreição e a Vida".

Ao invés disso, a hierarquia preferiu interpretar a epidemia de forma ecológica, em perfeita coerência com os princípios caros ao Papa Francisco. Desse modo, o Covid-19 seria tão-somente o sinal de rebelião da Terra contra a humanidade, que abusou da exploração desmensurada dos seus recursos, da poluição das águas, da destruição das florestas etc. Isso é lamentável e incompatível com uma análise em que subsista um mínimo de fé e consciência do que é o pecado, que se mede em relação à majestade ofendida de Deus, e não à poluição da Terra.

Em sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (Jubileu da Terra), 1º de setembro de 2020, o próprio papa nos ensina a que conclusão moral a pandemia deve nos levar:

“De algum modo, a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis. [...] Foi possível constatar como a Terra consegue recuperar, se a deixarmos descansar: o ar tornou-se mais puro, as águas mais transparentes, as espécies animais voltaram para muitos lugares donde tinham desaparecido. A pandemia levou-nos para um encruzilhada. Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores...”

Em suma, a crise do Covid-19 nos leva de volta para a “conversão ecológica”, pedra Angular da Encíclica Laudato si ´. Como se a santidade pudesse se resumir no respeito ao planeta.

 

13. TIVEMOS, NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS, O SÍNODO SOBRE A AMAZÔNIA E A DECLARAÇÃO DE ABU DHABI, SOBRE A QUAL O SENHOR REAGIU EM UM COMUNICADO EM 24 DE FEVEREIRO DE 2019. COMO VÊ A SITUAÇÃO ATUAL APÓS TAIS EVENTOS?

Os últimos ensinamentos do Papa Francisco parecem, infelizmente, confirmar definitivamente a direção errada tomada no início de seu reinado. Com efeito, no dia 3 de outubro, o Papa assinou a Encíclica Fratelli tutti, que será supostamente o guia da segunda parte do seu pontificado, assim como Laudato si ' foi o ponto de referência da primeira parte. Esta encíclica é um verdadeiro desenvolvimento da Declaração de Abu Dhabi, Na qual se baseia. É preciso lembrar que esta última pretendia reconhecer a diversidade de religiões como expressão da vontade de Deus, todas elas chamadas a construir a paz. Aqui temos o resultado catastrófico do ecumenismo, do diálogo inter-religioso, da liberdade religiosa e, acima de tudo, da negação da Realeza universal de Cristo e de seus direitos intangíveis.

É um texto longo que trata de muitos assuntos diferentes, mas possui uma unidade de fundo bastante clara: na verdade, este longo discurso do Papa desenvolve-se de forma ordenada e coerente em torno de uma ideia fundamental, a saber, a ilusão de que possa haver uma verdadeira fraternidade universal mesmo sem qualquer referência, direta ou indireta, a Cristo e sua Igreja. Ou seja, em torno de uma "caridade" puramente natural, uma espécie de filantropia vagamente cristã, à luz da qual se relê o Evangelho. Com efeito, ao lermos esta encíclica, temos a impressão de que é a filantropia que nos dá a chave de interpretação do Evangelho, e não o Evangelho que nos fornece a luz para iluminar os homens. Esta fraternidade universal é, infelizmente, uma ideia de origem liberal, naturalista e maçônica, e é sobre essa utopia apóstata que a sociedade contemporânea se construiu.

 

14. BISPOS COMO DOM ATHANASIUS SCHNEIDER E DOM CARLO MARIA VIGANÒ SUBLINHARAM A RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO ENTRE O CONCÍLIO VATICANO II E A CRISE ATUAL. COMO O SENHOR COMPREENDE O POSICIONAMENTO DESSES PRELADOS? DEVEMOS "CORRIGIR" O CONCÍLIO (SCHNEIDER) OU "ESQUECE-LO" (VIGANÒ)?

Desnecessário dizer que estamos muito contentes com essas reações, pois bispos que não são da FSSPX, nem possuem relação direta com ela, chegam finalmente, por outros meios e por outros caminhos, a conclusões semelhantes às que possuímos e, sobretudo, a conclusões capazes de iluminar e fazer com que muitas almas confusas reflitam. Isso é muito encorajador.

Infelizmente, não creio que possamos “esquecer” o Concílio sic et simpliciter, pois se trata de um acontecimento maior da história, assim como a queda do Império Romano ou a Primeira Guerra Mundial. Em vez disso, ele terá de ser seriamente discutido e, tudo o que contém de incompatível com a fé e a Tradição da Igreja, certamente terá de ser corrigido.

A própria Igreja resolverá a delicada questão da autoridade deste Concílio atípico e bizarro, e decidirá sobre a melhor maneira de corrigi-lo. Mas o certo é que um erro enquanto tal -- e o Concílio contém muitos -- não pode absolutamente ser considerado a voz da Igreja e atribuído a ela: podemos e devemos dizê-lo já. Além disso, os acontecimentos dos últimos anos, desde o pontificado de Bento XVI, mostraram aos homens de boa vontade que qualquer esforço hermenêutico, buscando interpretar o "erro" para fazer dele "uma verdade mal compreendida", não pode senão falhar miseravelmente. É um beco sem saída no qual, no qual é vão ingressar.

 

15. O JUÍZO DE DOM MARCEL LEFEBVRE SOBRE O CONCÍLIO E AS REFORMAS PÓS-CONCILIARES EM SEU LIVRO J´ACCUSE LE CONCILE (1976), E EM SUA CARTA AO CARDINAL OTTAVIANI (1966), GUARDAM A SUA ATUALIDADE?

Esse julgamento corresponde à posição que sempre foi, e sempre será, a da Fraternidade São Pio X -- não pode e não vai mudar. Vemos que, quanto mais os eventos se desenrolam, mais eles confirmam esse julgamento e ressaltam a perspicácia excepcional e sobrenatural do nosso fundador.

 

16. DOM ATHANASIUS SCHNEIDER, EM SEU LIVRO CHRISTUS VINCIT (PP. 152-155 DA EDIÇÃO FRANCESA), RECONHECE QUE SUA POSIÇÃO EM RELAÇÃO AOS ARGUMENTOS DA FRATERNIDADE EVOLUÍRAM POSITIVAMENTE. COMO O SENHOR ANALISA ESTA MUDANÇA?  ACREDITA QUE É POSSÍVEL EM OUTROS PRELADOS?

Dom Schneider sempre demonstrou muita boa vontade, fruto de um espírito humilde e intelectualmente honesto. O que mais chama a atenção neste prelado é sua gentileza, combinada com a coragem de falar publicamente em favor da Tradição. Penso que são estas qualidades -- infelizmente muito raras -- que o permitiram seguir o curso que o conduziu às conclusões que hoje conhecemos.

Quanto aos demais prelados, estou convicto de que também eles podem seguir o mesmo percurso, mas apenas na medida em que tenham a mesma liberdade moral e o mesmo amor pela verdade. Certamente é uma intenção de oração para todos nós.

 

17. A MISSA TRIDENTINA É HOJE CELEBRADA POR OUTRAS COMUNIDADES, QUE NÃO EXISTIAM QUANDO A FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X FOI FUNDADA. ALÉM DISSO, HÁ SACERDOTES QUE TAMBÉM ESTÃO DESCOBRINDO ESSE RITO. COMO VÊ A EVOLUÇÃO DESSA SITUAÇÃO?

Constatamos que, sobretudo nos últimos anos, certo número de sacerdotes, descobrindo a Missa de todos os tempos, iniciou um itinerário que os levou gradualmente a descobrir a grandeza do seu sacerdócio e, de modo mais geral, o tesouro da Tradição. Este é um desenvolvimento muito interessante, porque é realmente tudo o que a Missa traz. Lembro-me bem do testemunho que recebi um dia de um padre que havia escolhido, não sem encontrar forte oposição, celebrar apenas a Missa Tridentina. Declarou enfaticamente que, ao celebrar esta Missa, foi levado a reconsiderar todo o seu sacerdócio e, consequentemente, tudo o que estava chamado a fazer como sacerdote: pregar, aconselhar às almas, ensinar o catecismo etc. Isso é muito bonito, e só podemos nos alegrar com tal regeneração, que aqui vemos nascer na própria alma do sacerdote.

Dito isto, é imperativo guardar a Missa Tridentina pela razão profunda de que constitui a expressão da nossa fé, em particular na divindade de Nosso Senhor, no seu Sacrifício redentor e, consequentemente, na sua realeza universal. Trata-se de viver a Santa Missa, entrando completamente em todos esses mistérios e, mais particularmente, no mistério de Caridade que ela contém. Tudo isso é incompatível com uma fé ecumênica, morna, centrada no homem; ou com uma apreciação puramente estética das riquezas do rito tridentino, como às vezes se verifica, infelizmente, entre aqueles que se sentem tentados a dissociar o uso do rito tridentino da necessidade de vivê-lo realmente, de penetrá-lo e, sobretudo, de se deixar assimilar por Nosso Senhor e por sua Caridade.

Em última análise, podemos dizê-lo: a própria Missa é esterilizada se não nos leva a viver em Cristo: per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso. De pouco serve se não produz em nós o desejo de imitar a Nosso Senhor pelo dom de nós mesmos. Essa generosidade mostra-se impossível em um contexto imbuído do espírito do mundo, ou sempre inclinado a se comprometer com ele. A fecundidade da Missa será tanto maior quanto as almas forem dispostas por um espírito ardente de sacrifício a doar-se generosamente a Cristo.

 

18. RECENTEMENTE, A MÍDIA DEU CONSIDERÁVEL REPERCUSSÃO AO ESCANDALO RELACIONADO AO CARDEAL BECCIU. O QUE O SENHOR ACHA ?

Não é preciso dizer que não cabe à FSSPX comentar sobre as responsabilidades uns dos outros neste assunto, ou investigá-lo. Dito isto, como filhos da Igreja, não podemos deixar de lamentar este escândalo que, infelizmente, a atinge e a humilha. Isso nos entristece inevitavelmente, pois a santidade da Igreja é obscurecida por ela. No entanto, devemos lembrar que, infelizmente, escândalos desse tipo sempre existirão na Igreja, e que Deus os permite misteriosamente em sua Sabedoria, para a santificação dos justos. Portanto, seria impróprio ficar escandalizado de forma farisaica, à maneira dos protestantes.

Para ir mais longe, acho importante sublinhar a atenção dispensada pela mídia secular acerca desse assunto. Essa atenção excede a que dedicam a outros acontecimentos da vida da Igreja, ou mesmo a que os imperadores da Idade Média podiam dedicar aos papas de seu tempo. Se lermos nas entrelinhas dos muitos artigos de jornais dedicados a este tema, reconheceremos uma certa complacência, uma satisfação doentia. Parece que o mundo secular não pode desperdiçar tão bela oportunidade de cuspir na face da Noiva de Cristo, a quem ainda juram indiferença. Isso deve nos fazer pensar e, acima de tudo, deve levar à reflexão todos aqueles que vivem sob a ilusão de que hoje a Igreja pode viver em paz diante de um mundo que se tornou efetivamente laico e teoricamente respeitador de todos. É falso. Por detrás da retórica liberal está sempre o desejo de ver a Igreja, não purificada, mas desacreditada e aniquilada. Não há acordo possível com este mundo.

 

19. COMO A FRATERNIDADE PODE LEVAR REMÉDIO, NA MEDIDA DOS SEUS MEIOS, À CRISE ATUAL?

Em primeiro lugar no nível doutrinário, a Fraternidade está ciente de que não pode abandonar suas posições. Queira ou não, elas constituem um ponto de referência a todos que, na Igreja, procuram a Tradição. É, portanto, em espírito de serviço uns aos outros, e à própria Igreja, que devemos manter a luz fora do alqueire, sem esmorecer.

No nível prático, os membros da Fraternidade devem demonstrar que seu apego ao Santo Sacrifício da Missa é um apego a um mistério de Caridade que deve refletir em toda a Igreja. Isso significa que uma Missa verdadeiramente vivenciada, que nos permite penetrar no mistério da Cruz, é necessariamente apostólica, e sempre nos incitará a buscar o bem do próximo, mesmo dos mais distantes, sem distinção. É uma atitude fundamental, uma disposição moral de benevolência que deve permear todas as nossas ações.

 

20. O OBJETIVO DA FRATERNIDADE É O SACERDÓCIO CATÓLICO E TUDO RELACIONADO COM ELE. ESSA É A RAZÃO DO SENHOR PREOCUPAR-SE PRINCIPALMENTE COM AS VOCAÇÕES, COM A SANTIFICAÇÃO DOS SACERDOTES E COM A FIDELIDADE À MISSA SE SEMPRE. QUAIS SÃO SUAS PREOCUPAÇÕES ATUAIS?

Eles são exatamente as que acaba de enumerar. Estou persuadido de que, na medida em que conseguirmos cumprir esses três objetivos de todo coração, nos serão dadas, no momento oportuno, as graças e as luzes de que necessitamos para o nosso futuro e para as decisões que teremos que tomar.

Ao perservar o sacerdócio, preservamos o que a FSSPX e a Igreja mais valorizam. Na verdade, cada vocação tem um valor infinito. A vocação é, sem dúvida, a graça mais preciosa que o Bom Deus pode dar a uma alma e à sua Igreja. Portanto, um seminário é o lugar mais sagrado que pode ser imaginado ou encontrado na terra. O Espírito Santo continua a atuar ali, como no Cenáculo, para transformar as almas dos candidatos ao sacerdócio e torná-los apóstolos. Devemos continuar a empenhar todos os nossos esforços nisso e a investir todas nossas energias morais e humanas nesse propósito. Tudo o que construirmos com base no sacerdócio de Nosso Senhor, e para perpetuar o sacerdócio de Nosso Senhor, permanecerá na eternidade.

 

21. QUE ENCORAJAMENTO O SENHOR DÁ AOS SACERDOTES E FIÉIS PERTENCENTES À TRADIÇÃO?

Gostaria de dizer-lhes que a Providência sempre guiou a Fraternidade e sempre a protegeu em meio a mil dificuldades. Esta mesma Providência, sempre fiel às suas promessas, sempre vigilante e generosa, não irá nos abandonar no futuro, porque deixaria de ser o que é -- o que é impossível, pois Deus permanece sempre o mesmo.

Em outras palavras, após cinquenta anos de existência da FSSPX, nossa confiança está ainda mais enraizada nos inúmeros sinais dessa benevolência manifestada durante todos esses anos.

Mas prefiro deixar a última palavra a Nosso Senhor mesmo: “Não temas, ó pequenino rebanho, porque foi do agrado do vosso Pai dar-vos o (seu) reino.” (Lc 12, 32)

 

Menzingen, 11 de outubro de 2020,

Festa da Maternidade Divina da BVM

Romanos até o pescoço

Entrevista com Dom Bernard Tissier de Mallerais feita pela revista norte-americana The Angelus.

 

The Angelus: Sua Excelência, como o senhor entende o termo romanità?

Dom Tissier: A palavra traz consigo a idéia da Roma cristã, ainda que não exclua a da Roma pagã, que estabeleceu a unidade da futura Cristandade por meio da língua latina e da organização da Roma imperial; afinal, os primeiros príncipes cristãos foram imperadores romanos. É por isso que não negligenciamos a Roma pagã ou mesmo os autores latinos pagãos em nossos estudos. É um fato que a Providência tenha querido que a Roma pagã tenha se tornado cristã, e esta é a transformação que celebramos com a Festa de São Pedro em 29 de junho. É o que o Papa São Leão Magno expressou nesta bela passagem na qual enaltece a conversão de Roma: “e tu, que eras mestra do erro, te tornaste discípula da verdade.”

 

The Angelus: O senhor está sugerindo primeiro uma Roma pagã e então...?

Dom Tissier: Então Roma se tornou a Roma dos Papas. Uma vez que os imperadores se transferiram para Bizâncio, Roma tornou-se inteiramente a Roma dos Papas, juntamente com os Estados Papais. Seria Roma, por meio dos Papas, que iria iluminar a Cristandade e organizá-la contra seus inimigos.

 

The Angelus: Quais foram as circunstâncias que levaram Marcel Lefebvre a descobrir Roma?

Dom Tissier: O jovem Marcel foi enviado a Roma por seu pai, o Sr. Lefebvre, uma vez que seu irmão René já estava no Seminário Francês de Roma, então sob a direção do padre Le Floch, a quem seu pai tinha em alta conta. O Sr. Lefebvre obrigou o seu filho a ir para lá: “Você vai para Roma, sem discussões. Não há como ficar na diocese de Lille, onde já existem influências liberais, modernistas. Em Roma, você estará sob a direção do padre Le Floch”, a quem ele via como um diretor que transmitiria a doutrina dos papas.

 

The Angelus: O que a romanità significava para o jovem seminarista?

Dom Tissier: Para ele, significava a continuidade da doutrina papal. Assim, por exemplo, durante as refeições no seminário, por ordem do padre Le Floch, as encíclicas papais sobre os tópicos importantes da política cristã eram lidas em voz alta. E o próprio padre Le Floch dava aulas sobre as encíclicas papais dos últimos dois séculos, começando com aquelas dos papas que condenaram a Maçonaria até a Revolução Francesa. Os Papas Pio VI e Pio VII foram suas vítimas. Pio VI viria a condenar os princípios da Revolução. Pio VII viria a assinar a Concordata com Napoleão como que para reviver a Igreja na França. Havia também a carta encíclica de Pio VII ao bispo de Troyes, lamentando que Luís XVIII tivesse reconhecido a Religião católica não como a religião do reino, mas apenas como aquela da maioria dos franceses. Já se tratava da apostasia de um líder de um Estado católico. Então vinham as grandes encíclicas de Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII, São Pio X e Pio XI, todas as quais, numa admirável continuidade, condenavam os erros liberais na política e ensinavam a doutrina do reinado social e político de Cristo Rei.

 

The Angelus: Seria correto dizer que Dom Lefebvre não teria sido o bispo tradicionalista que conhecemos se ele não tivesse estudado no Seminário Francês de Roma?

Dom Tissier: Bem correto, ainda que a expressão “bispo tradicionalista” não fosse a sua linguagem. Ele dizia a nós seminaristas: “Minha vida foi completamente transformada por minha estadia em Roma. Se eu não tivesse freqüentado o seminário em Roma, teria me tornado um simples padre diocesano sem a herança de São Pio X, que recebi em Roma dos padres Le Floch, Voegtli, Le Rohellec, Frey e Haegy.” Esses cinco professores transmitiram-lhe o espírito de São Pio X. Quando ele chegou em Roma pela primeira vez, o odor de santidade, as virtudes e a doutrina de São Pio X ainda estavam no ar, porque este havia morrido há apenas nove anos. A vida de Dom Lefebvre foi completamente transformada em virtude da graça de ter vivido em Roma.

 

The Angelus: Essa graça foi uma iluminação? Uma convicção? A visão idílica da Igreja em sua essência?

Dom Tissier: O arcebispo nos contava que durante seus dias de escola havia sido bem liberal. Eles pensavam que a separação entre Igreja e Estado era uma coisa boa — não em sua família! Ainda assim, na escola ele não havia aprendido os princípios da Cidade Católica. Foi em Roma que aprendeu que o Estado deve professar publicamente a Religião católica e defendê-la. Então, ao ir para o seminário, passou por uma conversão intelectual sobre a qual freqüentemente falava conosco. Dizia: “Fiquei muito feliz por ter me dado conta de que estava errado ao pensar que a separação entre Igreja e Estado era uma coisa boa. Eu era um liberal!” Quando ouvíamos isso de sua própria boca, ríamos e batíamos palmas; apesar de ser um pouco preocupante, porque diziam que “uma vez liberal, sempre liberal” — talvez o arcebispo tivesse mantido alguns vestígios de liberalismo. Mas nós não pensávamos isso dele.

 

The Angelus: Como Dom Lefebvre pretendia instilar esse apego a Roma, esse espírito romano, em seus seminaristas?

Dom Tissier: Uma vez que a Fraternidade foi fundada, primeiramente em Friburgo e depois em Ecône, a primeira coisa que ele quis fazer foi inaugurar um ano de espiritualidade, que ele não havia recebido em Roma, mas que depois tinha experimentado no noviciado dos Padres do Espírito Santo em Orly. No currículo havia um curso especial intitulado “Os Atos do Magistério”. Esse curso motivava a reflexão sobre os erros modernos e o engajamento na batalha contra eles. O objetivo era alistar os seminaristas, por assim dizer, no combate dos papas contra o liberalismo e o modernismo.

    Mas alguns de seus colegas no noviciado realmente não alcançavam o propósito do curso. Para eles, era uma questão de discussão, enfrentamento e vitória intelectual sobre o liberalismo e o modernismo. Mas aquela não era a idéia do arcebispo. Para ele, era uma questão de compreender o espírito com o qual os papas haviam condenado os erros. E esse espírito era o espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dom Lefebvre sempre conectava o combate intelectual contra os erros com o combate sobrenatural no nível da graça e, portanto, com Cristo Rei. Tinha sido pelo reinado de Cristo Rei que todos aqueles papas condenaram o modernismo. Então, não se tratava simplesmente de um curso sobre os erros modernos, mas de um comentário sobre os próprios textos das encíclicas dos romanos pontífices sobre esses grandes temas. Porque, apesar de algumas fraquezas em suas políticas, a doutrina desses papas era absolutamente esplêndida e em perfeita continuidade com o constante ensinamento da Igreja.

 

The Angelus: Roma é a sé do sucessor de São Pedro. Quando a suprema autoridade docente pronuncia algo tão seriamente como nessas encíclicas...

Dom Tissier: Em princípio, é a verdade! Mesmo que todos esses escritos pontifícios não fossem infalíveis, ainda assim o ensinamento do papa era obedecido, recebido com piedade e devoção, com obediência. Mas tenhamos cuidado! Para Dom Lefebvre, a romanità não é meramente: “O Papa falou numa encíclica, então é preciso seguir e obedecer.” A romanità é uma tradição. Uma ruptura seria o fim da romanità. Nesse sentido, o Concílio Vaticano II foi a morte da romanità. Por isso a morte prematura de dois excelentes padres e teólogos romanos: Mons. Joseph Clifford Fenton, que havia lutado por anos e anos contra os teólogos modernos na década de 1950 na revista American Ecclesiastical Review e escrito seu explosivo diário manuscrito dos quatro anos do Concílio; e padre Alain Berto, um colega de classe de Dom Lefebvre no Seminário Francês de Roma, que havia sido secretário do Coetus durante o Concílio. Ambos não conseguiram aguentar a morte da romanità.

 

The Angelus: A Fraternidade tem uma casa em Albano, perto de Roma. Como isso veio a acontecer?

Dom Tissier: Dom Lefebvre comprou a propriedade em Albano, que estava esperando por ele e caiu em suas mãos graças a uma doação inesperada. Na noite de sua primeira visita a Albano ele lamentava não ter dinheiro suficiente para a compra. Seu chofer, Rémy Borgeat, lhe disse: “Monseigneur, vá em frente e compre! Preencha o cheque e deixe que São José o assine.” E eis que um benfeitor o convida para jantar, e ele tinha o milhão e meio necessário para comprar a propriedade.

 

The Angelus: Qual era sua intenção de uso para a propriedade de Albano?

Dom Tissier: O que ele queria fazer com ela? Ele queira que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X tivesse uma presença em Roma, da mesma forma que a Congregação do Espírito Santo tinha. Ele queria proporcionar um ano romano para todos os seus padres. Os padres, após sua ordenação, iriam a Albano para absorver o espírito romano. Eles teriam aulas sobre Roma, sobre o espírito romano, sobre a arqueologia e a história de Roma. E visitariam os monumentos, as igrejas, as relíquias e os papas em Roma.

 

The Angelus: Então os padres da Fraternidade não são antipapais e sedevacantistas?

Dom Tissier: Longe disso! É justamente o contrário. Dom Lefebvre tinha uma grande devoção pelos papas, mesmo por Pio XI, que havia condenado a Action Française. Mesmo por Paulo VI, o papa da Missa Nova, que suspendeu Dom Lefebvre, o arcebispo tinha um grande respeito.

 

The Angelus: O que de fato foi feito de Albano?

Dom Tissier: O ano dos padres só existiu mesmo por alguns meses. Em 1976, um pequeno grupo de padres, do qual eu não tive a boa sorte de participar, passou seis meses lá e depois foram enviados para seus ministérios. No fim, o ano dos padres acabou não se efetivando. Em seu lugar, nós tivemos um mês em Roma. Os seminaristas da teologia passariam um mês inteiro em Albano e todos os dias visitariam Roma.

 

The Angelus: Houve também um seminário estabelecido lá por um tempo, não foi?

Dom Tissier: Ah, sim! Eu havia esquecido! Entre 1978 e 1982, sob a direção do padre Bonneterre, havia dois anos de filosofia em Roma entre o ano de espiritualidade e a teologia em Ecône. Foi muito recompensante para eles.

 

The Angelus: O mês romano foi benéfico?

Dom Tissier: Eu fiz o meu e tenho memórias muito boas dele. Ficávamos hospedados em Albano e levantávamos todas as manhãs para sair, mas não muito cedo. (Os alemães, mais enérgicos, levantavam uma hora antes de nós.) Nós, franceses, levávamos as coisas com mais leveza; íamos de trem até a Estação Termini e então seguíamos para visitar as grandes basílicas romanas. Visitamos muitas igrejas praticamente desconhecidas com o padre Boivin, para os franceses, e com o padre Klaus Wodsack, para os alemães. Obviamente não seguíamos os mesmos itinerários, já que não tínhamos os mesmos interesses. Para o padre Wodsack, o objetivo era mostrar a influência dos imperadores do Sacro Império Romano, e para o padre Boivin, era mostrar o papel dos reis da França.

 

The Angelus: Os seminaristas obtiveram algum benefício?

Dom Tissier: Sim, de fato. Agora nossos jovens padres são capazes de liderar nossos fiéis na peregrinação a Roma e passar para eles algo do espírito romano — a romanità.

Estudo Canônico das Sagrações Episcopais de 1988

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"Uma excomunhão NULA, um cisma INEXISTENTE"

Reflexões Feitas 10 Anos Após as Sagrações de Écône

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