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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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A luta de São Pio X contra o modernismo

Pe. Hervé Gresland, FSSPX

 

Louis Jugnet expõe do seguinte modo a situação que São Pio X encontrou ao subir na cátedra de Pedro, em 4 de agosto de 1903:

Hoje em dia todos sabem a que ponto o fim do pontificado de Leão XIII, apesar da sua doutrina tão magnificamente ilustrada, foi marcado pela eclosão de ideias falsas na Igreja, na Alemanha, na França, na Inglaterra e na Itália. Basta ler as Memórias de Loisy para ver o quanto a filosofia, a teologia, a história, a exegese, a disciplina eclesiástica e o pensamento político-social estavam impregnados dos erros da moda. Porém, graças ao que Loisy chamou, com um eufemismo divertido, de ´um forte movimento de opinião e de verdade´, designando assim grupos de pressão muito influentes (São Pio X falará mais tarde de “clandestinum foedus[1]), possuindo ramificações por toda parte, nos seminários, nas faculdades católicas, no Episcopado e mesmo em alguns círculos da Cúria, seria quase impossível de obter do Magistério romano uma medida minimamente eficaz.”[2]

Esta apresentação nos permite compreender o papel capital que São Pio X desempenhou na ação contra o modernismo. Em face deste erro multiforme, a primeira medida do seu pontificado foi a condenação, já no final de 1903, das principais obras do Pe. Alfred Loisyt, um dos chefes de fileira do modernismo.

Em 1907, outras medidas mais genéricas vieram completar essa ação. Em 15 de abril de 1907, em uma alocução consistorial, o papa declarou que os que mais devem ser temidos são os que, dentro da Igreja, professam “erros monstruosos”.

No dia 3 de julho de 1907, a Sagrada Congregação do Santo Ofício publicou o decreto Lamentabili condenando 65 proposições[3].

 

A Encíclica Pascendi

No dia 8 de setembro do mesmo ano, São Pio X promulgou a Encíclica Pascendi pela qual desmascarou e condenou com força e clareza o modernismo. Essa encíclica surpreendeu não apenas os modernistas que trabalhavam às ocultas para espalhar as suas ideias, mas também muitos católicos adormecidos que não haviam percebido de modo algum o mal profundo que ameaçava a Igreja e a doutrina católica. Essa encíclica foi um clarão dissipando as trevas.

Desde as primeiras palavras, São Pio X indicou que seu primeiro dever de papa é o de “guardar com todo o desvelo o depósito da fé”. E continou dizendo que a razão que o levou a se pronunciar sem demoras é que “os partidários do erro já não devem ser procurados entre os inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, eles se ocultam no próprio seio da Igreja.”[4]

Os modernistas não são apenas inimigos da Igreja, mas os seus piores inimigos, diz o papa, pois agem desde o interior da Igreja. Inicialmente, São Pio X usou da paciência e da mansidão para tentar reconduzi-los ao reto caminho, mas foi em vão. Agora, ele os denuncia publicamente: “Há, pois, um dever de quebrar o silêncio, que agora seria culpável. É hora de tornar bem conhecidos à Igreja esses homens tão mal disfarçados.”

A Encíclica expóe longamente as doutrinas modernistas e as analisa para demonstrar o laço lógico que há entre elas; demonstra que o modernismo constitui um sistema bem organizado, e que as partes são solidárias. A Encíclica decompõe os modernistas em diferentes personagens[5] a fim de passar em revista, uma após a outra, as idéias que professam. Ela remonta aos princípios errôneos na origem deste erro: se o modernismo é um erro religioso, sua raiz profunda é uma filosofia falsa. Esta é a fonte envenenada da qual tudo decorre, e é muito normal que assim seja, pois, no progresso do espírito humano – seja consciente ou inconsciente – tudo começa pela filosofia e depende dela. O papa começa, portanto, pela exposição do filósofo modernista.

 

O filósofo modernista

Os modernistas estabelecem como base do seu sistema o que chamamos de agnosticismo, que consiste no seguinte: só podemos conhecer as coisas aparentes, perceptíveis aos nossos sentidos; nossa razão não pode conhecer nada para além disso, não pode estar certa de uma verdade que ultrapassa o domínio dos sentidos, não pode possuir certeza intelectual. As consequências são imensas: a inteligência não pode conhecer nada sobre Deus, nem mesmo a sua existência: Deus é incognoscível. Ela não pode conhecer nada tampouco de uma revelação que Deus nos teria dado, nem dos motivos de credibilidade da fé.

Então, como o homem pode conhecer Deus e a religião? Posto que não pode lhes encontrar fora de si mesmo, todo acesso lhe estando vedado desse lado, ele vai encontrar-lhes em si mesmo. Eis a segunda face do modernismo, o seu segundo princípio, que chamamos de imanentismo. Isso quer dizer que a explicação da religião encontra-se no homem, mais precisamente, na vida do homem: “Em consequência, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade da divindade”. “O sentimento religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da subconsciência, é pois o gérmen de toda a religião”, inclusive da religião católica. Esse sentimento que aparece na consciência é a “revelação” e, ao mesmo tempo, aquilo que os modernistas chamam de “fé”. Vê-se a importância fundamental do sentimento interior, da experiência individual, para os modernistas.

Na doutrina católica, o objeto da fé, o seu conteúdo, é exterior a nós. No modernismo, a fé vem do coração do homem, do seu foro interno. Somos nós que fazemos a fé, que forjamos aquilo em que cremos. A fé é, antes de mais nada, “vivida”; é preciso “partir da vida”, isso é uma verdadeiro lugar-comum na Igreja nos últimos 50 anos.

Assim, o modernismo não crê mais nas verdades contidas no Credo, mas produz sua própria opinião pessoal em função do que descobre e sente: “Para mim, Deus é isso ou aquilo, Jesus Cristo é isso ou aquilo”. A fé torna-se puramente subjetiva, e toda afirmação da realidade sobrenatural colide com esse muro subjetivo: “Isso é verdade... para você. Portanto, creia no que quiser, mas não queira impô-lo aos demais.”

 

O teólogo modernista

Posto que o modernismo coloca a fé (ou aquilo que chama de “fé”) na experiência vivida do divino, muitas consequências se seguem em todos os domínios: o conteúdo da fé deve ser relativizado, assim como a teologia.

A fé reside no sentimento religioso, mas o homem possui uma inteligência que quer exercer o seu papel de reflexão, é para ela uma necessidade natural. Por meio da sua inteligência, o crente vai trabalhar a sua fé, vai pensá-la, especificá-la, traduzir em formulas o que se passa na sua consciência: esses serão os dogmas, que buscam exprimir a fé de maneira mais ou menos adequada. Os dogmas são, pois, obra humana.

Se o sentimento interior do homem muda, se a consciência evolui, a fé que é o seu produto também evolui, e é necessário modificar o dogma para adaptá-lo ao novo pensamento. Como os sentimentos religiosos que traduzem, os dogmas devem, portanto, ser vivos, eles podem e devem evoluir. Daí esse aspecto de permanente construção a partir do “vivenciado”, de perpétua reinterpretação, que não poupa até mesmo os dogmas.

Do mesmo modo, não há mais verdades estabelecidas, definitivas, às quais o homem tenha de aderir, pois os modernistas não as querem. A verdade deve viver, e quem diz vida diz movimento: “A verdade não é mais imutável que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele.”[6] Permanece o núcleo, todo o resto evolui ao sabor dos tempos, das culturas, das circunstâncias históricas, da experiência e da vivência do “povo de Deus”. Finalmente, o dogma não se reveste mais de grande importância. O modernismo é, portanto, um evolucionismo radical.

 

Consequências desses princípios

Apliquemos esses princípios a diferentes pontos para mensurar a sua repercussão:

- A tradição católica transmite o objeto da fé; a tradição modernista se torna a transmissão da experiência da fé, daquilo que os crentes experimentam nas suas vidas. Ela é viva -- repetem sem cessar – e, portanto, evolutiva.

- O modernismo possui uma “fé” que, ao invés de se fundar no Deus que se revela, enraíza-se em um terreno puramente humano. Posto que a fé provém do sentimento religioso, “chega-se a afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto inteiramente espontâneo da natureza. Em verdade, há algo mais capaz de destruir toda a ordem sobrenatural?”

- Esse naturalismo tem por consequência o indiferentismo religioso. Com efeito, a que título certas experiências religiosas seriam mais verdadeiras ou melhores do que outras? Todos os sentimentos religiosos são respeitáveis, dignos de serem acolhidos e, portanto, todas as religiões são válidas. O ecumenismo é uma consequência do imanentismo. Não há uma verdade, mas tantas quantas pessoas. É a fantasia subjetiva do homem no lugar da realidade objetiva de Deus.

- Para os modernistas, a Igreja, os sacramentos etc., são fruto de uma construção progressiva[7]. A inspiração das Sagradas Escrituras reduz-se a uma experiência pessoal. Os livros santos são compêndios de experiências religiosas. Os Evangelhos não são relatos de acontecimentos históricos por testemunhas oculares: possuem um fundo histórico, mas são em grande parte subjetivos, pois são o eco da “fé” cristã. Eles foram escritos para exprimir o que os cristãos das primeiras gerações criam de Jesus e queriam comunicar aos demais. Os sacramentos resultam de uma necessidade sensível dos crentes e são puros símbolos para alimentar nossa fé.

Cada crente continua, por sua vez, a elaborar a doutrina cristã, cada um acrescentando algo por si mesmo. De todos esses elementos individuais se desprende uma síntese coletiva. Mas esse edifício jamais será arrematado, e sempre deverá ser reconstruído. O magistério da Igreja é apenas o interprete de um movimento cujos resultados ele recolhe.

Fé, dogmas, Igreja, culto... tudo isso provém do sentimento, da experiência “vital”, necessariamente mutável e sujeita à evolução. Compreende-se que São Pio X chame o modernismo de “cloaca de todas as heresias”; ele utilizará muitas vezes essa expressão que revela o seu pensamento profundo[8].

Os modernistas estavam dentro da Igreja e pretendiam nela continuar. Sem dúvida, é essa a principal novidade dessa heresia. Os heresiarcas precedentes terminavam por abandonar a Igreja abertamente; continuavam a ataca-la, mas desde o exterior. O principal equívoco dos modernistas é pretender permanecer em uma Igreja com a qual estão em desacordo, com o intuito de mudá-la aos poucos, de fazer com que ela evolua desde o interior.

Os modernistas não são inimigos declarados, são inimigos de dentro. É essa uma característica essencial do modernismo: um modernista que abandona a Igreja não é mais um modernista. É talvez um racionalista, um protestante liberal... mas um modernista, não.

 

Os remédios

A salvação das almas estava em jogo, por isso, São Pio X não se contenta em demonstrar o erro: na última parte da sua encíclica, lança uma verdadeira campanha para impedir o modernismo de se estender pela Igreja, ele traça o plano de uma reconquista contra os modernistas. Percebe-se o homem de governo, que sabe o que quer e que lança mão de meios eficazes. Manda os bispos adotarem medidas imediatas contra os modernistas e suas doutrinas.

Como o modernismo é, na sua origem, um erro filosófico, o primeiro remédio é de ordem filosófica: São Pio X impõe que a filosofia de Santo Tomás de Aquino seja a base dos estudos.

Para a Santa Igreja não é possível submeter os seus filhos a autoridades manchadas de modernismo: São Pio X ordena que sejam excluídos das cátedras de ensino, nos seminários e universidades católicas, todos aqueles que estão imbuídos de modernismo, ou que favorecem esses erros. Os modernistas também devem ser excluídos do sacerdócio.

Os bispos impedirão a publicação e a leitura de livros ruins e instituirão conselhos de vigilância que terão “a incumbência de ver se, e de que modo, os novos erros se ampliam e se propagam.”

 

A continuação do pontificado

No dia 18 de novembro de 1907, São Pio X publicou um motu próprio que ajunta a pena de excomunhão aos contraditores do Decreto Lamentabili e da Encíclica Pascendi

Depois, em 1 de setembro de 1910, ele endereçou a toda a Igreja um motu próprio[9] “estabelecendo leis para repelir o perigo do modernismo.” Neste documento, o papa não hesita em afirmar que, apesar das condenações precedentes, os modernistas “não cessaram de arregimentar e filiar em uma associação secreta novos adeptos, e inocular neles, nas veias da sociedade cristã, o veneno das suas opiniões.” O perigo é muito atual: no interior mesmo da Igreja, notadamente entre o clero, os modernistas formaram uma sociedade mais ou menos fechada. O papa promulga, portanto, um juramento antimodernista, que deve ser prestado por todo o clero, ao menos antes de receber as ordens maiores, pelos professores e, de modo geral, por todos os padres que acedem a uma função[10].

O Santo Padre via longe, e sabia que muitos não o seguiam, pois os santos têm um amor pela verdade e uma detestação do erro que lhes são inspirados por Deus, mas que os outros homens compreendem mal. Ao bispo de Bergamo, confidenciava: “Alguns me acusam de ser pessimista e de ver o mal em toda parte. Mas o mal latente é muito mais grave e extenso do que se pode imaginar, e jamais haverá vigilância o bastante para descobri-lo”[11]. No dia 27 de maio de 1914, escreveu aos novos cardeais que acabava de introduzir no Sacro Colégio: “Entre tantos perigos, e em toda ocasião, não deixei de fazer com que minha voz fosse ouvida a fim de admoestar os que estão em erro, assinalar os danos e traçar aos católicos o caminho a seguir. Mas minha palavra não foi sempre, nem por todos, bem escutada ou interpretada, por mais clara e precisa que tenha sido.”

 

O modernismo depois de Pascendi

A publicação da Encíclica Pascendi representou um formidável golpe ao desenvolvimento do modernismo. Os leigos de boa fé que haviam sido atraídos para as idéias modernistas, sem verdadeiramente as compreender, rejeitaram os erros. A imprensa católica, por sua vez, denunciou o modernismo. Uma tal energia e uma tal constância no combate contra o erro enfraqueceram consideravelmente a corrente modernista. No momento da morte de São Pio X, em 1914, essas diversas medidas tinham começado a dar fruto.

Os modernistas, séria e eficazmente combatidos pelas autoridades romanas e por numerosos bispos, deram continuidade, no entanto, à sua ação. Souberam abaixar a cabeça para reergue-la progressivamente quando a repressão mostrou-se menos firme, o que veio a acontecer após a morte de São Pio X: os erros condenados recobraram ímpeto. A rede modernista se comportava como uma corrente subterrânea reaparecendo com força nos anos 1930 e 1940, para triunfar a partir do Concílio Vaticano II.

Hoje, o modernismo segue mais do que nunca vivo na Igreja. Esses erros reinam por toda parte, e os modernistas ou neo-modernistas detém todas as alavancas de comando. A encíclica de São Pio X não perdeu em nada o seu valor: esse texto que foi escrito há cem anos parece ter sido escrito para a Igreja de hoje, tal é a sua atualidade. Poder-se-ia dizer que São Pio X foi um verdadeiro profeta para os nossos tempos.

Esse papa foi o homem chamado por Deus para o papel capital de defender a fé, ameaçada pela mais terrível das heresias. A inteligência esclarecida pela luz da graça, mediu a gravidade do perigo que a Igreja corria, e lutou contra a heresia com uma coragem digna dos maiores pontífices de outrora. Como declarou Pio XII, foi a santidade que lhe deu a força de ser um campeão da fé: “A lucidez e a firmeza com as quais Pio X conduziu a luta vitoriosa contra os erros do modernismo, atestam a que grau heroico a virtude da fé queimava no seu coração de santo (...) Teve a consciência clara de lutar pela mais santa das causas, que é a de Deus e das almas”[12]

É com palavras do mesmo Pio XII que rogaremos a São Pio X guardar-nos firmes na fé:

“Ó Santo Pio X, pontífice de fé íntegra e de intrépida firmeza, volvei vosso olhar para a Santa Igreja, que tanto amastes. Obtende para ela a integridade e a constância no meio das dificuldades e perseguições de nosso tempo.”[13]

 

(Le Rocher, 90. Tradução: Permanência)

 


[1] Associação secreta.

[2] Comment combattre une hérésie, Itinéraires, 1964, pp. 126-127.

[3] Reconhecemos [nessas proposições] grandes clássicos da teologia e da catequese atuais. Damos dois exemplos: “Pode conceder-se que Cristo, tal como história o representa, é muito inferior ao Cristo, objeto da fé.” (proposição 29); “A ressurreição do Salvador não é propriamente um fato de ordem histórica, mas de ordem meramente sobrenatural que não foi demostrado, nem é demonstrável, e que a consciência cristã insensivelmente deduziu de outros fatos.” (proposição 36).

[4] Citações tiradas de Pascendi.

[5] O filósofo, o crente, o teólogo, o historiador, o crítico, o apologista e o reformador.

[6] Lamentabili, proposição no. 58.

[7] Lamentabili, proposição 54: “Os dogmas, os sacramentos e a hierarquia, tanto em sua noção quanto em sua realidade, não passam de interpretações e evoluções do pensamento cristão que, por meio de incrementos externos, desenvolveram e aperfeiçoaram um pequeno germe que existia em estado latente no Evangelho”.

[8] “Certo é que se alguém se propusesse fazer, por assim dizer, o destilado de todos os erros que a respeito da fé até hoje se produziram, nunca poderia chegar a resultado mais completo do que aquele que os modernistas alcançaram” (Pascendi).

[9] Sacrorum antistitum.

[10] A obrigação de prestar esse juramento foi suprimida após o Concílio Vaticano II, em 1967.

[11] Dal-Gal, Pie X, p. 306.

[12] Discurso por ocasião da canonização, 29 de maio de 1954.

[13] Idem.

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