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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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De “Quaerere Deum” ao Aggiornamento

             

Aldo Maria Valli, 29 de novembro de 2018

 

[Hesitamos em publicar esse texto, escrito pelo vaticanista Aldo Maria Valli, e republicado em Courrier de Rome, pelo tom demasiado condescendente com a situação da Igreja pós-conciliar: trata-se de um conservador, e age como se a Crise da Igreja tivesse começado com Francisco, como se desde o Concílio Vaticano II experimentássemos uma normalidade. 

Os fatos que narra são ilustrativos da disposição de Roma para com a vida religiosa, mas como não ver neles continuidade com a “renovação adaptada” proposta por Vaticano II? Sim, é forçoso admitir que está em curso — e não data de hoje — um verdadeiro combate à contemplação, movida desta vez não por partidários do laicismo, mas por membros da Cúria, gozando da total aprovação do Papa.]  (Continue a ler)

“Não é sadio amar o silêncio e fugir ao reencontro com o outro,
desejar o repouso e evitar a atividade, buscar a oração e fugir ao serviço”.

(Exortação apostólica Gaudete et exsultate, Papa Francisco, 03/2018)

 

De um lado, mais de trezentas religiosas provenientes da Itália e de outros países, pertencentes a diferentes ordens, do outro lado o cardeal brasileiro João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os institutos de vida consagrada e as sociedades de vida apostólica, e o secretário dessa mesma congregação, o espanhol José Rodriguez Carballo.

A data é 21 de novembro de 2018, e estamos na Universidade Pontifícia do Latrão e o colóquio, organizado pelo Secretariado do serviço das religiosas por ocasião do Dia Pro Orantibus, pretende fazer um balanço da constituição apostólica Vultum Dei quarere do Papa Francisco sobre a vida contemplativa feminina (22 de julho de 2016) e sobre Cor orans, a instrução para a aplicação da constituição apostólica, publicada pela Congregação no dia 1 de abril de 2018.

Direi desde já que as intervenções de Braz de Aviz e Carballo suscitaram uma grande perplexidade por conta de uma série de ambiguidades e distorções de conteúdo, mas também pelo seu tom.

Comecemos pelo cardeal. Este, voltando-se para Vultum Dei quarere, põe em primeiro plano a questão da formação. “É preciso se estribar numa formação adaptada às exigências do momento presente: integral, personalizada e bem acompanhada. Para alimentar a fidelidade criativa ao carisma recebido”. A formação é, portanto, o ponto decisivo. Com que objetivo? Uma “fidelidade criativa” no tocante ao carisma. Já aqui nos deparamos com uma primeira ambiguidade. Que significa “fidelidade criativa”? Devemos ser fiéis ou não? O cardeal acrescenta: “Na constituição também se fala de oração e de muitas outras coisas, mas primeiro a formação”. Logo, a oração vem depois, com “muitas outras coisas”, atrás da formação. Mas estamos lidando com religiosas ou executivas?

A conferência do cardeal se intitula “À escuta do Senhor de Pedro na Igreja para modernizar a vida consagrada contemplativa milenar”, e aqui surgem outros motivos de perplexidade: se a vida contemplativa consagrada possui uma tradição milenar, que chegou até nós, é precisamente porque a modernização, neste caso, não chegou a mudar [completamente - ndr] a sua substância e causar os danos que causou em outros setores da vida da Igreja. É difícil não julgar pretensiosa a idéia de se apresentar como alguém apto a “modernizar" um patrimônio de fé e de espiritualidade que antes deveria ser protegido, conservado e salvaguardado.

Outra noção apontada pelo cardeal é a da “escuta”, muito em voga hoje em dia e utilizada aqui para uma defesa protocolar do Papa. O prefeito diz: 

“Não se trata de escutar a um de nós, a um cardeal, bispo ou papa. Não. Trata-se de escutar o Senhor que nos fala atualmente. E nos fala por meio de Pedro. Não interessa saber como se chama Pedro. Mas, nesse momento, Pedro é Francisco e, portanto, todas as formas de nostalgia que nos remetem para fora do tempo são más. Devemos sempre estar com Pedro. A nostalgia não é boa. Devemos sempre estar com o papa que Deus nos deu. Pouco importa quem é o Papa. Neste momento, Pedro é Francisco e, portanto, devemos estar com Francisco, um Papa que é um dom impensável, porque com clareza, transparência e simplicidade, nos indica o caminho a seguir num momento difícil para a Igreja, caracterizado por muitos problemas”.

Ora, uma vez que nos dirigimos aqui a religiosas, a pessoas que vivem radicalmente sua escolha de vida consagrada a Deus, esse é um apelo bem estranho. Na realidade, percebe-se aqui o verdadeiro problema: chegaram manifestadamente à Congregação protestos e censuras da parte das religiosas, inquietas com o fato de que hoje, Pedro, sob muitos aspectos, não está em continuidade com Pedro. E se assim é, não se trata, como insinua o cardeal, de nostalgia do passado, e sim de inquietude, a qual deveria ser tomada seriamente em consideração.

Em seguida, de modo surpreendente, afirma o prefeito: “Não houve nenhum litígio no conclave, todos estávamos de acordo sobre Bergoglio, tanto que o elegemos em um dia e meio, mesmo tendo o que comer e beber por duas semanas”. Verdadeiramente curiosa essa observação, aparentemente fora do tema. Significará isso que certos mosteiros comunicaram à Santa Sé sua perplexidade a respeito da legitimidade da eleição de Bergoglio?

Avancemos. O cardeal diz: “O Concílio nos pede tornarmo-nos discípulos de Jesus, dos fundadores e dialogar com a cultura do momento, que não é a do passado”, sem esconder que “tudo isso é fatigante”, mas sabendo bem que “O Espírito Santo é hoje mais um sinal de instabilidade que de estabilidade: ele mexe as águas e nos deixa submersos até o pescoço para que nós não nos fixemos nas nossas certezas”. Ora, dado que o Concílio pede aos religiosos voltar às origens do carisma dos seus fundadores1, ouvir falar do Espírito Santo como um fator de dúvida e instabilidade, enquanto que o Paráclito é, ao contrário, Espírito de verdade e defensor dos crentes, só pode nos desconcertar profundamente. O Espírito Santo não nos deixa “com água até o pescoço”, não ama a dúvida nem a incerteza. Ao contrário, Ele é o Espírito que conforta e consola na Verdade.

Com Vultum Dei quaerere, afirma em seguida o cardeal, o Papa considerou necessário oferecer à Igreja uma nova constituição apostólica acerca da vida dos mosteiros “à luz do Concílio e com atenção às novas condições sócio-culturais”, porque “não podemos olhar apenas para o passado”. Encontramos aqui outras expressões surpreendentes. Até prova ao contrário, as religiosas consagram-se à contemplação e à oração: Por que, portanto, colocar no primeiro plano o diálogo com o mundo? Antes seria preciso sublinhar que a característica da vida contemplativa é de não relacionar-se com o mundo com meios humanos, próprios a outras vocações (encontros, colóquios, reuniões, sessões de estudo etc), com o fim de privilegiar a relação direta e contínua com o sobrenatural.

Continua o cardeal: “A modernização da vida contemplativa à luz de Vaticano II, nesse tempo de rápido progresso da história humana, é uma necessidade. Silêncio, escuta, interioridade, estabilidade, são valores a serem reencontrados. A vida contemplativa é um desafio para a mentalidade dos dias de hoje”. Claro, a vida contemplativa sempre foi um desafio, mas silêncio, escuta, interioridade e estabilidade são valores que se perderão completamente se continuarmos a seguir o aggiornamento e colocar em primeiro plano o diálogo com o mundo. Onde estão a união com Deus, a oração, a oblação, ou seja, todos os termos que a Igreja utilizava outrora para designar o dever que cabia às religiosas? O cardeal parece quase temê-los. E, com palavras que mais parecem tirados do New Age do que do catolicismo, não fala de oração e sim, genericamente, de “interioridade”.

Outra afirmação do cardeal que suscita a perplexidade é a seguinte: “Os contemplativos não são [pessoas] isoladas, não são uma ONG, e sim uma parte da Igreja. Não são ilhas, são partes de um corpo vivo”. Evidentemente, os contemplativos não são ilhas, vivem em comunidades nas quais levam uma vida fraternal. O mosteiro é que é uma ilha, e deve ser assim, pois esta é a sua natureza.

Eis-nos aqui em face de um outro ponto que suscita estupefação. “O Papa — diz o cardeal — fala do reencontro de Moisés com Deus na sarça ardente e daí tira uma realidade muito importante: ser atraído pelo rosto de Deus e pela terra santa que é o outro. Ele sublinha a importância da mulher ou do homem que caminha comigo na vida contemplativa. A relação com o outro é a experiência do mistério de Deus. Devemos tirar nossas sandalhas diante da terra santa do outro. Não devemos deixar nossas relações na mediocridade. Uma espiritualidade demasiado individual não ajuda a entrar nessa espiritualidade. Numa sociedade dominada por uma curiosidade malsã, a Igreja tem necessidade de um outro tipo de relação: a sacralidade do outro”. Pode-se insistir na sacralidade do outro e enfatizar uma expressão empregada pelo Papa Francisco em Evangelii gaudium, mas colocar em primeiro plano a relação interpessoal é uma inversão de perspectiva. No caso da vida contemplativa, tudo tira sentido na relação com Deus. Na escolha de vida dos contemplativos, tudo, inclusive a relação com o outro (com minúsculas) tira seu sentido da relação com o Outro (com maiúsculas). E isso dá um exemplo que concerne toda a Igreja, pois ela, muitas vezes reduzida a uma agência de ação social, está carente de se colocar em relação com a sacralidade de Deus. O cardeal continua: “Recordemo-nos do que diz Thomas A Kempis no livro A Imitação de Jesus”: quando nossa vocação está em crise e queremos partir, é melhor ficar pois, senão, quando vir o Senhor, não encontrará ninguém”. Trata-se de uma alusão entre linhas às religiosas que, em face dos abusos do Vaticano, resolveram partir, como no caso bem conhecido das Pequenas Irmãs de Maria Mãe do Redentor, em Laval: trinta e quatro feiras em trinta e nove decidiram renunciar aos seus votos após terem sido inspecionadas por um Comissário, porque seriam demasiadamente “tradicionalistas” e adeptas da oração. É melhor não partir, diz o cardeal. Significará isso que as demais irmãs manifestaram a mesma intenção?

Agora prestem atenção: “Devemos ingressar nessa constituição apostólica sem reservas criadas por nossas tradições, ou com dúvidas sobre as idéias do Papa, ou sobre os desejos do Papa de destruir alguma coisa. Eu confio em Pedro, confio na necessidade de que a vida contemplativa se mostre atenciosa à nova mentalidade que está na nova cultura. A cultura de hoje não quer mais pessoas dominando as outras. Temos dificuldade em suportar palavras como superior e inferior. Por que superiores e inferiores? Superior a quem, inferior a quem? Não devemos ser apenas irmãos e irmãs?”

Resumindo: a tradição é algo que só cria “reservas” perigosas, a vida contemplativa deve se harmonizar com “a nova mentalidade”, e os superiores não devem mais ser superiores. Quer isso dizer que ninguém tem mais poder de ensinar? Todos iguais? Como não perceber aqui o eco de uma ideologia com o perfume de 68 manifestando-se nos dias de hoje? Se estas linhas fossem postas em prática, teríamos uma reviravolta não apenas na vida do claustro, mas na vida religiosa como tal. E que visão pouco elevada possui o cardeal de quem ensina e de quem recebe! Ele fala de pessoas dominando outras, mas as religiosas garantem que não é assim que isso se dá nos mosteiros. Na obediência, o religioso se realiza em Cristo, porque possui a certeza de que cada ação, mesma a mais pequena, leva à união com Deus.

Vamos agora para um resumo da conferência de Mons. José Rodriguez Carballo, consagrada à instrução Cor orans.

O arcebispo começa com uma captatio benevolentiae que, no entanto, também é uma censura: “É realmente bonito estarmos juntos! Sabemos que os muros dos mosteiros tem muitas portas, assim, uma porta que se abre para um reencontro como este é muito bonita! Digam a todas que não quiseram vir, digam!”. Com efeito, a maior parte das religiosas (há mais de 3.500 mosteiros no mundo) não estavam presentes no encontro de Roma. E deve haver uma razão para isso.

O arcebispo continua: “Cor orans é uma instrução de aplicação. Não é uma repetição de Vultum Dei quaerere: em uma estão os princípios, na outra, as aplicações. Acolhamos a voz da Igreja com abertura e disponibilidade, mesmo se isso não coincide plenamente com nossos desejos!”. Nossos desejos? Aqui não se trata de “desejos”, mas de votos, de consciência, de juramentos feitos a Deus, de vidas totalmente engajadas na consagração, de discípulos de fundadores, de tradições milenares. 

Carballo prossegue: “Acompanhem-nas com amor fraternal, tratando-as sempre como mulheres adultas, respeitando as suas competências próprias, sem interferências injustificáveis. Essas são as palavras do Papa aos delegados e vigários da vida consagrada. Mulheres adultas! Gosto muito dessas palavras. Vocês são mulheres adultas! Vivam como adultas, não como adulteras: o que me convém, sim, o que não me convém, não!”. Considero esse tom inadmissível. O jogo de palavras “adultas” e “adulteras” é ofensivo. O Monsenhor julga falar com crianças ignorantes? Não é uma questão do que convém ou não, mas de fidelidade ao carisma, de fidelidade ao juramento feito a Deus. O emprego da palavra “adultera” é também sinal de um tempo em que a Igreja não respira mais a castidade. Alguns anos atrás jamais ocorreria a um arcebispo falar de modo tão vulgar em presença de almas consagradas. Mas atualmente a vulgaridade entrou na Igreja.

Carballo continua: “Não se deixem manipular! São vocês que devem conduzir as suas vidas, como mulheres adultas! Não basta uma, mas três grades para vocês se separarem das pessoas que querem manipular vocês, ainda que sejam bispos, cardeais, monges ou outras pessoas. Quem tem de ter discernimento são vocês, porque há alguns que fazem muito mal a vocês. Porque projetam em vocês a idéia que eles tem”. Aqui estão outras afirmações graves. Se Monsenhor está realmente convencido de que alguém manipula as religiosas, deve apresentar os nomes e precisar as circunstâncias. Por que inquietar assim as religiosas, que já tem muitos problemas?

O arcebispo diz em seguida que o dicastério elaborou seus documentos “após ter levado muito a sério” as respostas a um questionário enviado aos mosteiros: “Posso dizer que as presentes são as autoras destes dois documentos nas suas linhas principais. Respeitamos escrupulosamente a opinião da maioria e creio que é a primeira vez que foram vocês que escreveram!” Na realidade, soubemos que apenas uma minoria de conventos respondeu.

O tom do arcebispo torna-se novamente pouco respeitoso, diria até debochado, ao falar da autonomia que os mosteiros tanto prezam: “O mosteiro sui iuris goza de uma autonomia jurídica, da qual as federações, devemos dizer uma enezima vez, não retirará a autonomia que vocês tanto querem conservar. Conservem-na! Se pensam que o Senhor deu às senhoras dogmas que temos de defender, está bem…” Aqui parece que a autonomia é apenas uma idéia fixa das religiosas, enquanto é o coração do problema, e o arcebispo não tem o direito de debochar de uma preocupação legítima. “Ninguém está tirando a sua autonomia, absolutamente. A autonomia não é um direito, não é um privilégio que se adquire uma vez para sempre. É algo que se adquire, mas que se pode perder”. De acordo, a autonomia não é um privilégio, mas é um pressuposto da vida do monastério. Parece, contudo, que isso não interessa à Congregação de valorizá-la, mas antes de penalizá-la.

Em seguida, criticando alguns superiores que seguem no cargo por trinta anos, diz o arcebispo: “Acabemos com todas essas histórias, queridas irmãs. Parece que algumas irmãs nasceram para governar por toda a sua vida, e as outras para obedecer. Não, o serviço da autoridade é um serviço que acolhemos para servir e, em seguida, abandonamos. Não é uma catástrofe. São Francisco renunciou. Entre os jesuítas, o superior geral renuncia. E o papa também! Levemos em conta!”. “Acabemos com todas essas histórias”? De novo, o tom é inaceitável. Ademais, o arcebispo parece esquecer que a superiora ou a prioresa é eleita, e eventualmente reeleita com maioria de dois terços. Ela não é uma usurpadora que se ocupa de uma função. Claro, nos mosteiros, as religiosas normalmente confirmam a mesma superiora, pois não gostam de mudanças e querem estabilidade. Mas na Congregação, onde se raciocina em termos ideológicos,  tudo isso não vale: para eles, o que conta é a mudança.

Após ter sublinhado, por sua vez, a importância da formação, Monsenhor aborda novamente a questão do isolamento, e torna a admoestar as religiosas em tom ofensivo: “É preciso absolutamente evitar o isolamento dos outros monastérios, do instituto ou da diocese. Há pouco tempo, um mosteiro nos escreve para pedir a dispensa da federação porque, dizia ele, “nós somos os mais pobres, os mais observantes, os mais isso, os mais aquilo…”. É orgulho espiritual, e eu não digo o que penso que provocará perante Deus! Cuidado para se preservarem da doença da autoreferência. É uma doença!”  Tirando o fato de que é difícil de crer que religiosas tenham escrito tais coisas, resta que muitos mosteiros escreveram à Congregação para pedir de serem dispensadas da federação. É a realidade. Realidade que querem negar, contudo, parar impôr uma visão. Assim, recorrem ao termo “autoreferência”, outro temo em voga na Igreja hoje em dia, e utilizado para tirar a legitimidade toda pessoa ou comunidade inoportuna.

Escutem ainda: “Não se separar totalmente do mundo! É importante o elo com o mundo! O papa disse. De outra maneira, para quem vocês rezam? Para um mundo que não existe mais?” Ainda uma vez a perspectiva é invertida. O arcebispo sabe que fala com religiosas enclausuradas, com religiosas que consagraram suas vidas a oração na separação com o mundo?

[…]

O desprezo substancial pelas religiosas, mas também pela história mesma do monaquismo, aflora quando Mons. Carballo passa à defesa das federações entre monastérios, imposta pela Santa Sé mesmo contra a vontade dos próprios mosteiros, em nome de uma “coordenação” que tem o sabor de uma “regulamentação”: “Não se dão conta? O isolamento faz com que vocês se tornem manipuláveis! Quanto mais estiverem isoladas, mais haverão manipuladores ao seu redor”. Eis que uma tradição milenar, a da autonomia e do isolamento, que permitiu ao monaquismo chegar até nós transmitindo um tesouro de espiritualidade (…) é liquidado como fonte de “manipulação”. Uma bela análise, realmente.

Em seguida, à propósito do grande número de mosteiros que pedem dispensa da federação, eis um novo desrespeito: “Foram vocês que pediram que o presidente [da federação] fosse uma mulher, mas agora tem medo! Porque sabem que a mulher põe o dedo na ferida mais do que o homem!” Mas a verdade quase escapa da boca do arcebispo: “a presidente tem de verificar a situação administrativa dos mosteiros”. A verdadeira razão pela qual tanto se insiste nas federação é esta, como efeito: poder se ocupar dos bens e propriedades dos conventos.

As intervenções relatadas acima são inacreditáveis. Se Pio XII falava das virgens católicas como da “parte mais nobre do rebanho de Cristo”, de “vida angélica”, de “tesouros de perfeição religiosa escondidos nos mosteiros”, de “flores e frutos de santidade”, atualmente nos deparamos com eclesiásticos que se permitem dirigir-se às religiosas com sarcasmo, como a alunas indignas e ignorantes, e mesmo como a “adulteras”.

Nossas queridas freiras que, apesar de tudo, querem viver sob a marca de quarere Deum, realmente não merecem ser tratadas assim.

Tradução: Permanência

  1. 1. Não é exato. Se o Concílio falava em “retorno contínuo… à inspiração original dos institutos”, também propunha a “correspondência destes às novas condições de existência”, não excetuando disso os “membros da vida religiosa leiga” de “adaptar sua vida às exigências do mundo atual” (Perfectae Caritatis, 10) [N. da P.]
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