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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Pode-se transigir em religião?

 

O tema que me foi dado, nesta série de conferências, é o da transigência ou dos limites de tolerância em matéria religiosa. Antes porém de aplicá-lo à religião, creio que será útil esclarecer o próprio conceito de tolerância ou transigência, porque, pelo que tenho ouvido, muita gente atribui a esses vocábulos um sentido absoluto e simplificado. A maioria das pessoas, ou melhor, a maioria dos brasileiros, considera a tolerância uma virtude moral, e às vezes a maior das virtudes. Diz-se que Fulano de Tal é tolerante, em tom de elogio, como se diz de outro que é honesto, justo ou temperante. E acusa-se Cicrano de intolerante em tom repreensivo, como se diz de alguém que é injusto ou desonesto.
 
Há outra raça de gente que inverte o tom daquelas proposições, e que vêem a virtude na intolerância. Para começar devo dizer — e nisto conto com a simpatia dos ouvintes — que não simpatizo de modo algum com o intolerante absoluto. Acho-o desagradável e enfatuado. Digo melhor: acho que esse tipo de intolerante é intolerável. Mas sou forçado a acrescentar — e nisto certamente desagradarei a muitos ouvintes — que o tolerante sistemático não é menos errado do que o outro, embora seja mais simpático. Diria até que é simpático demais. E em certas circunstâncias, quando por exemplo reclama a intransigência de alguém, o tolerante é incoerente com seu credo, porque, sendo intolerante em tudo, deveria tolerar também a intolerância; e se não tolera é porque sabe que nem tudo se tolera, e por conseguinte em alguma coisa é intolerante.
 
É preciso, pois, estabelecer que aqueles termos têm valor moral relativo e que ora designam virtude ora vício. A dificuldade em que se encontra o homem de reto agir é a de distinguir bem o caso em que se aplica a transigência e o caso em que se obriga a intransigência. A educação da prudência ou do senso moral consiste precisamente na fina discriminação da atitude que se deve tomar diante da atitude dos outros; ou, no caso vertente, consiste no discernimento da reação diante do erro dos outros. Que fazer ou que dizer quando esbarramos no erro alheio? Corrigir? Nem sempre é recomendável. Silenciar? Nem sempre é generoso.
 
Imaginemos um caso concreto. Um velho amigo meu vem dizer-me que a nossa república foi proclamada por Pedro Álvares Cabral em 1° de abril. Não posso, decentemente, responder-lhe: “Você pode estar com a razão” ou então “vá lá, esse é o seu ponto de vista”. A verdade histórica bem assentada não permite essa capitulação. Que devo então fazer?
 
Tentarei mostrar ao amigo que ele se engana no herói e na data; ou que foi vítima de alguma pilhéria de 1° de abril. Se entretanto não conseguir demovê-lo, posso desistir da retificação porque há muitos casos em que o esforço de convencer é inútil. Há nos livros sapienciais da Sagrada Escritura uma passagem que nos autoriza e até nos aconselha a deixar o tolo andar com sua tolice. Diz lá o autor inspirado que ensinar ao tolo é o mesmo que tentar a cola de um vaso quebrado em muitos pedaços; e é o mesmo que falar a um indivíduo que dorme e que, acordando estremunhado, pergunta: hein? como?
 
Quem vive de ensinar sabe que há casos de irremediável indocilidade. É triste, mas nesses casos, como diz agora o próprio Senhor Jesus, é melhor sacudir o pó das sandálias e ir pregar em outras freguesias.
 
Mas nem por isso — no caso concreto imaginado — deixo eu de manter boas relações com o obstinado indivíduo que se aferra ao seu erro histórico. Seu erro não me impede de visitá-lo, de jantar com ele, de passar telegrama em seu aniversário, etc, etc. Se, como professor não posso capitular, como amigo não posso abandonar o outro somente porque ele se obstina em deslocar uma data nacional. As regras de convivência são mais apertadas, nesse ponto, do que as regras da pedagogia.
 
Pondo em linguagem abstrata o caso anterior, teremos uma primeira aproximação: “Em relação ao erro, e por amor da verdade, sou intolerante; em relação à pessoa que erra, e por amor dela, serei tolerante”.
 
Imaginemos agora que aquele meu amigo se candidata à cátedra de História do Brasil no Pedro II. Já não posso manter a mesma tolerância com ele. Devo adverti-lo. Estou obrigado, em consciência, a prevenir meu amigo que não vejo com bons olhos seu insensato propósito de tornar oficial a perturbação das datas e dos heróis nacionais.
 
Imaginemos finalmente que a banca examinadora — como já tem acontecido em outros concursos — dê grau dez à tese, e entregue a cátedra, e consequentemente os ouvidos dos meninos, ao desvairado historiador. Sendo eu jornalista, e sabendo pertinazmente que a nossa república não foi proclamada por Pedro Álvares Cabral, devo escrever artigos denunciando a impostura do concurso e a estridente injustiça do resultado.
 
Vejam bem que agora modificou-se a situação. Continuo a ser intolerante em relação à verdade histórica; mas já não tenho a mesma tolerância com a pessoa que erra, por causa dos meninos, isto é, por causa da maior significação social e moral do erro.
 
Se em vez de mau historiador o indivíduo de nosso exemplo se mostra um mau cidadão, ou melhor se seu erro é moral e político, então a minha reação deverá ser ainda mais viva e poderá chegar até o rompimento de relações pessoais. Se na qualidade de jornalista eu denuncio um Fulano de Tal como ladrão, eu não posso mais jantar com ele no Jockey Club, ou abraça-lo quando o encontrar no salão de barbeiro. O adversário do bem comum não pode ser meu amigo particular. Eu devo aos outros essa nitidez de atitudes; e, por incrível que pareça, eu devo principalmente ao ladrão, por amor de sua alma, a sanção de minha intransigência.
 
O Brasil se perde porque os melhores são complacentes com os piores. Os brasileiros se abraçam demais, sem que essa cordialidade sem normas signifique virtude. O jornalista João denuncia o patife José. Mas João abraça Pedro que abraça José. Com poucos elos intermediários, e às vezes sem nenhum, o mais eloqüente denunciador de desordens se encontra, em abraços ou jantares, com os mais indignos aproveitadores das mesmas desordens.
 
Quem fizer o contrário, isto é, quem sair da sala em que é bem recebido um autor de escândalo público, é apontado como intransigente. Quem denuncia a gritante injustiça de um concurso de filosofia é tido por fanático. Espero ter mostrado que a tolerância com a pessoa que erra não se pode manter quando mudam as circunstâncias e quando a persistência no erro tem grave alcance social. E por quê? De onde nasce essa exigente intolerância? Onde se origina esse imperativo novo? Espero que meus ouvintes já tenham descoberto que essa intolerância nasce da justiça e do amor. Concluiremos então que só será incondicionalmente tolerante, que só será sempre amável, cordato, benigno, compreensivo, simpático, o indivíduo que não dá valor à Verdade, que não serve à Justiça e que não ama o Amor.
  
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Li dias atrás, numa folhinha, esta sentença: “o segredo da felicidade conjugal está na mútua tolerância”. Há nessa frase uma boa parte de verdade. Nos casais, para uma razoável convivência, é indispensável que cada um seja tolerante com os defeitos do outro. A regra é boa, mas não pode ser elevada a norma suprema e absoluta. No jogo da convivência a disposição à tolerância deve ser acompanhada da disposição complementar à correção mútua. É difícil, em cada caso concreto, decidir qual dos dois elementos terá a primazia. Muitas vezes o desejo de correção é impertinente e inoportuno; mas muitíssimas vezes a tolerância significa apenas comodismo e capitulação. A grande doença de nossa época, e principalmente de nosso país, é a da insensibilidade moral travestida em bondade. Todos toleram tudo, e depois se espantam com o antinômico resultado dos vagões de gases.
 
Na vida familiar, onde é mais denso o campo de forças afetivas, é difícil manter o equilíbrio entre a salutar exigência e a salutar transigência. Esquecido um dos componentes, desmorona a família. E se todos resolvem seguir à risca a sentença da folhinha, isto é, se todos, na casa de família, resolvem ser tolerantes, a casa de família se transforma em casa de tolerância.
 
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 A dificuldade de discernir, na situação concreta, e determinar os justos graus de tolerância ou intolerância, cresce com a gravidade dos elementos em jogo. E chega a um máximo de tensão no mais importante dos problemas humanos: a religião. Aqui, mais do que em qualquer outra questão, os erros extremos são catastróficos. E esses erros têm sido cometidos. Há na constituição vital da Igreja Católica uma intransigência moral e uma absoluta intolerância dogmática de que falaremos a seguir, mas desde já convém assinalar que essa dupla intolerância se aplica à vida interna da Igreja. Para ser católico é indispensável aceitar a Igreja como ela é, e aderir aos mandamentos e aos dogmas. A Igreja espera de nós uma nitidez de opção que é anterior a qualquer programa de perfeição. Antes de sermos plenamente católicos pela santidade, devemos sê-lo pela aceitação de sua doutrina e de seu governo. Esse tipo de intransigência não pode molestar os espíritas e os protestantes porque começa por nós mesmos e a nós mesmos interessa.
 
Há porém um problema mais difícil para nós; o das relações entre a Igreja e a sociedade, sobretudo no que concerne aos outros cultos. Certos autores, julgando interpretar o pensamento da Igreja, querem estender a intransigência, que livremente aceitamos, à sociedade civil. Dizem que em país de maioria católica os outros cultos não devem ser permitidos. E sonham reprimir o erro religioso com medidas policiais. Eu não acredito muito em país de maioria católica. Faltam-me dados para julgar com exatidão o que se passa na Espanha, que tem servido de exemplo aos autores que praticam esse tipo de intolerância. Admiro-me, se admitir a tal maioria naquele país, que uma sociedade tão piedosa precise ser governada como um presídio. Acho também muito esquisita a necessidade de ofender a dignidade natural do homem para conseguir dele uma dignidade sobrenatural.
 
Não é esse, aliás, o pensamento de Pio XII. Em recente alocução dirigida aos jornalistas católicos. Sua Santidade ensina que nem sempre constitui dever a repressão positiva ao erro religioso e moral e que, ao contrário, em certas circunstâncias, a tolerância e o convívio com outros grupos religiosos é ensinamento evangélico: “Deixai que no campo do mundo cresçam juntos o joio e o trigo”... (Mat. XIII, 24 a30). E logo em seguida diz o Papa: “Não pode, portanto, ser norma última de ação, o dever de reprimir os desvios morais e religiosos. Cumpre que esse (dever) se subordine a normas mais altas e mais gerais que, em algumas circunstâncias permitem e até recomendam, como melhor solução, não impedir o erro, para promover um bem maior”.
 
Não afina, pois, com o pensamento oficial da Igreja, a idéia de fazer incondicional apelo a medidas repressivas contra as práticas religiosas erradas. Não representam bem o sentimento da Igreja os autores que invocam o caso da Espanha para sonhar com uma Igreja Policial, mais madrasta do que mãe.
 
Outra coisa entretanto, errada em sentido oposto, seria imaginar que a Igreja tolera o erro religioso e o erro moral. Esse tipo de intolerância, dogmática e moral, que muitos, de fora, vêem como um anacronismo ou como uma dureza, é o mais alto apanágio da Igreja, que deriva de sua intrínseca santidade.
 
Mas não devemos confundir a intransigência moral que repele o divórcio, o aborto, o anticoncepcionalismo, etc. com a idéia de ser preciso ser perfeito para pertencer à Igreja. Essa idéia seria insensata porque a Igreja não é um fim, não é uma sociedade para exclusivo abrigo dos puros, e sim um instrumento de salvação.
 
Santa por seu Fundador, santa por seu Espírito, santa por seus membros que vivem na Glória, e santa pelo princípio de divinização participada que em nós opera, a Igreja, na sua peregrinação pelo mundo, envolve membros dignos e indignos, justos e pecadores. Intolerante no seu estatuto salutar, a Igreja é solícita e acolhedora de todos os que , malgrado todas as humanas fraquezas, querem aceitar os mandamentos e procuram na eficácia de graça um divino remédio.
 
A Igreja, na sua passagem histórica, é uma arca. É uma enorme Casa de Saúde. Ora, se é verdade, pelo nome e pelo fim, que as casas de saúde são feitas para dar saúde, é também verdade que nelas se encontram numerosos enfermos. É pueril admirar-se que existam doentes nos hospitais; mas é insano pensar que só existam doentes. Não. Em nossa grande e santa Casa de Saúde existem médicos, e existem almas robustíssimas que dia e noite renovam o plantão da enfermagem.
 
Ainda mais insano, porém, seria a idéia de uma casa de saúde em que, por espírito de tolerância, os médicos resolvessem abrir mão dos estatutos e passar a ver na própria doença uma coisa admirável e tolerável. Só é possível curar acolhendo doentes para expulsar as doenças. E isto só é possível quando se une à solicitude do acolhimento a intransigência em relação ao mal.
 
Moralmente, podemos distinguir o pecador e o mau católico. O primeiro, por mais grave que seja seu ato, quer curar-se, quer obedecer, e do fundo do abismo clama pela misericórdia de Deus. O segundo, ainda que não cometa atos muito reprováveis, recusa os estatutos, e pretende em sua estultícia ter um pronunciamento próprio sobre o divórcio ou sobre o jejum. E esse orgulho, que se encontra nos católicos liberais, é certamente pior do que a pobre miséria do pecador que não pretende dar nomes diferentes na lama em que escorregou.
 
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Quanto à intransigência dogmática, permitam que lhes avive a memória para alguns dados essenciais de nossa doutrina. Como sabem, a nossa Fé teologal é uma virtude infusa, que Deus nos dá, e que nos capacita para ver com nova pupila e aderir com a vontade à Revelação. Nossa Religião é essencialmente constituída de Graça e Revelação. Deus mesmo nos dá a virtude sobrenatural para ver e aderir ao fundamento divino de sua Revelação. E é dessa Revelação divina que nos vêm os dogmas, que são o tesouro guardado pela Igreja. Um resumo desses dogmas está no Símbolo dos Apóstolos: “Creio em Deus Pai Todo Poderoso, Criador do céu e da terra, em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor; o qual foi concebido pelo Espírito Santo; nasceu de Maria Virgem, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, etc”.
 
Nós cremos em cada um dos artigos desse credo por causa de seu motivo central: porque eles vêm de Deus; porque Deus revelou; e porque Ele mesmo nos deu o princípio sobrenatural, a Graça, que nos capacita a esse ato de sobrenatural confiança. Creio em cada um e em todos os artigos, porque Deus disse.
 
Se desprezar um só, se duvidar de um só, então não é só esse que perde para mim o teor divino. São todos. Pois se duvido de um, é do critério central que duvido. Para quebrar a confiança não preciso descrer de tudo o que uma pessoa me diz; basta duvidar de algumas coisas; basta descrer de uma só.
 
Se eu disser: “nisto eu creio, naquilo não”. sou eu então que estou escolhendo, sou eu que estou julgando. E nesse momento deixou de ser, para mim, divina, a revelação e passou a ser opinião pessoal, minha, escolhida por mim, julgada por mim. Não é Deus que me diz que é Senhor do Céu e da Terra; sou eu que lhe dou esse título. Sou eu que nomeio Deus para o alto cargo de governar os astros do céu, os peixes do mar, as flores do campo, e as almas do mundo. E, se sou eu que decido o que é e o que não é verdade a respeito de Deus, então eu sou maior e mais divino do que Deus.
 
Salta aos olhos o ridículo dessa atitude. Entende-se bem que os índios e os pagãos, que não receberam a Revelação, tenham procurado, cada um com os recursos de sua cultura, um modo de pensar em Deus e de honrá-lo. A religião natural vem do homem, da natural inclinação da alma humana para seu fim. Nesse estado, pré-religioso, o homem faz um Deus à sua imagem, e tira de si mesmo a religião. Entende-se a variação, e diria até a falta de certo rigor lógico nessa religiosidade natural.
 
Mas para o cristão que recebeu a Revelação, que conhece o preço do seu selo, é ridícula qualquer atitude que fuja à intransigência dogmática.
 
Uma coisa lhes digo. Se me viessem oferecer, anos atrás, quando eu procurava a notícia de Deus, uma religião em cujo credo eu pudesse escolher os artigos de minha simpatia, e em cujos livros santos pudesse dar a interpretação que bem entendesse, eu recusaria indignado tal religião e tal Deus sem exigências de verdade. Meus antigos professores de geometria ou de física eram maiores do que esse deus da tolerância dogmática, pois haviam ensinado que a verdade da geometria ou da física não dependem de minha interpretação e sim da natureza dos corpos e das definições das figuras. E se me oferecessem uma religião em cujo culto se pudesse tirar, acrescentar ou modificar, eu a recusaria enfadado, porque esse culto seria inferior a uma partida de futebol onde as regras são regras.
 
Ninguém me obrigou a aceitar o cristianismo. Eu também não posso obrigar ninguém a correr atrás de Jesus Crucificado e a entrar nesse jogo de amor e justiça cujas regras nos foram dadas por Deus e por sua Igreja. Admito que alguém não queira sequer examinar essa doutrina e experimentar esse jogo, alegando, por exemplo, que tudo isso foi inventado pelos papas. No momento em que encontrei o Fato, a Coisa católica eu tive pelo menos uma grande tranqüilidade: essa religião tinha uma imensa vantagem: não fora inventada por mim. Mais tarde, vi que também não fora inventada pelos papas, e então a idéia de origem divina se impôs e me forçou a dobrar o joelho endurecido.
 
Torno a dizer: eu poderia ter recusado em bloco o Símbolo dos Apóstolos; mas nunca me passou pela idéia a estupidez de aceitá-lo em parte. Bem sabia que se fizesse tal discriminação seria eu o fundador dessa variante cristã. Com material cristão eu estaria fabricando uma seita e um deus de minha invenção. Felizmente nunca me ocorreu essa cômica idéia; e continuo a admirar-me que ela possa ocorrer a alguém. O protestantismo consiste precisamente nisto. À Igreja Católica, única, global, maciça, os protestantes opõem mais de mil glosas que apareceram ao sabor da livre interpretação e do relativismo dogmático. E essa multiplicação de seitas, em confronto com a unidade católica, é a prova da decomposição de um corpo sem alma.
 
Mas não vim aqui para me esgrimir com os protestantes, nem para apontar os erros internos do espiritismo que considero uma forma de materialismo com todos os seus fluidos que nada tem de espiritual. Transijam eles, protestantes ou espíritas; tolerem todas as variações que em suas doutrinas complacentes surgirem; nós acharemos razoável essa tolerância interna de doutrinas frouxas que confessadamente não fazem questão absoluta da verdade. Transigiremos nós com eles, e com outros, no que concerne ao convívio humano, nos termos ensinados por Pio XII; mas não transigiremos com a estrutura dogmática e moral de nossa Igreja. Se nos julgam loucos ou tolos por aceitarmos as arestas traçadas por Deus, toleraremos que assim nos julguem e que não queiram partilhar da mesma loucura. Mas não toleraremos que um católico, continuando a dizer-se católico, queira ser divorcista, ou queira inventar uma explicação sua para o mistério da Trindade.
 
O católico que escolhe seus dogmas e seus mandamentos não é católico, é protestante. O católico que freqüenta sessões espíritas, ou utiliza médicos fantasmas, comete pecado contra a virtude da religião, ou contra a Fé, e sobretudo demonstra um insensato orgulho ou uma intolerável falta de caráter.
 
Como Fr. Boaventura lhes mostrou abundantemente, e como poderão ler no seu artigo publicado na Revista Eclesiástica Brasileira, o espiritismo nega a transcendência da Revelação, nega o milagre, nega a inspiração divina da Sagrada Escritura, nega a autoridade do magistério eclesiástico, nega a instituição divina da Igreja, nega o mistério da SS. Trindade, e nega a divindade de Cristo. Como pode um católico pactuar com qualquer cerimônia dessa crença sem trair a doutrina que custou o sangue de nosso Salvador?
 
Um espírita pode negar tudo aquilo continuando a ser credor de nossa respeito como homem. Ele tem, ao menos, a coerência de desprezar as coisas que julga não serem verdadeiras. Mas o católico-espírita é uma espécie de monstro que desobedece a Igreja em que crê e colabora nas práticas do que diz não acreditar. É incoerente na doutrina e incoerente nas atitudes práticas. Há certamente torcedores de futebol que são mais fiéis ao seu clube do que esses católicos à sua Igreja.
 
Querem transigir? Por que não começam pelo futebol? Por que não praticam a livre interpretação dos sinais de tráfego? Porque não toleram, antes dessa amálgama de religiões, a amálgama das relações conjugais, trocando maridos e esposas? Vamos, vamos transigir? Sendo professor, pouco me importará que o aluno aproveite ou não; pouco me interessará, ao examiná-lo, que ele conheça ou não a matéria. Admitamos que ele é protestante em geometria e espírita em química. Sendo médico, não irei zangar-me com a enfermeira por causa de uma troca de injeções. Sendo engenheiro, transigirei com os fornecedores que roubam nas medidas e nas especificações. Por que deverei ser zeloso nos negócios dos homens se sou tolerante nas coisas de Deus? Vamos transigir em tudo se podemos transigir em religião.
 
Agora mesmo, se eu aqui me pusesse a cantar, ou a recitar poesias, todos diriam severamente: — O conferencista fugiu ao tema. Se eu chegasse atrasado meia hora, diriam: — o homem não é pontual; será verídico? Se eu desandasse a falar num idioma inventado por mim, comentariam: — Ele está zombando de nós ou ensandeceu...
 
E teriam razão. Há regras. Há compromissos. Há convenções a que não se pode fugir sem tornar possível a convivência. Que dizer então das verdades, que dizer então da natureza das coisas que são o que são? Posso eu, usando o privilégio da livre interpretação, dizer que o cão mia e que o gato ladra?
 
É claro que não. Todos concordam que não podemos transigir com o tema, com o horário, com o idioma, e com o miado dos gatos. Mas parece que se pode transigir com a Santa Doutrina que foi arrematada com o grito de dor de um Deus crucificado.
 
Dirijo-me aos católicos-liberais, e digo-lhes que a sua transigência doutrinária prova simplesmente que, para eles, a Religião é a coisa menos importante do mundo. Ora, o catecismo nos ensina, ao contrário, que a Religião é infinitamente mais importante do que o mais alto dos negócios humanos. Nós outros que em tempo e contratempo procuramos ser fiéis à doutrina, e que levamos a sério a nossa religião, seremos necessariamente intolerantes. E seremos lógicos, porque uma religião-sem-importância é um absurdo impensável!
 
Na verdade, a inconsistência moral do catolicismo complacente se explica por uma espantosa subversão: o que se procura nesse tipo de religião é um deus vantajoso, um deus que nos sirva, que acorra aos nossos caprichos. Ora, mal ou bem, às vezes indignamente, nós outros professamos uma religião e procuramos um Deus como os magos de Belém: para adorá-lo e para servi-lo. Não podemos, por isso, parar nas esquinas mais próximas, para oferecer nosso incenso aos ídolos mais acessíveis, porque o nosso Deus é um Deus de absoluta intransigência que disse: “Eu sou aquele que sou”; e logo acrescentou: “Não terás outros deuses diante de minha face”.
 
Nosso Deus quer ser amado sem erro de pessoa. Quer ser louvado e adorado como Ele próprio, pela santa humanidade de seu Filho, nos ensinou. Quer ser seguido. Quer ser ouvido e obedecido: “O meu discípulo é aquele que ouve e guarda os meus preceitos”.
 
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A tradição católica sempre comparou a tolerância religiosa a um adultério. No Livro dos Provérbios (VI, 20-35) encontramos passagens como estas: “Meu filho guarda os preceitos de teu pai e não recuses os ensinamentos de tua mãe. Fixa-os no teu coração. Amarra-os ao teu pescoço. Eles te preservarão da mulher perversa, da língua sedutora da estrangeira...”. E também: “Meu filho, sê atento à minha sabedoria e inclina o ouvido à minha inteligência, a fim de conservares a reflexão e para que teus lábios guardem a ciência. Porque os lábios da estrangeira destilam o mel e o seu paladar é suave, mas no fim ela é amarga como o absinto e aguda como a faca de dois gumes. Seus pés conduzem à morte...”.
 
Essa mulher perversa é a heresia; é a sedução que faz cócegas nos ouvidos como dirá mais tarde o Apóstolo.
 
Todos conhecem, ao menos vagamente, as perseguições sangrentas que os cristãos sofreram nos primeiros séculos de nossa história. Os católicos complacentes terão visto talvez o filme “Quo Vadis”, e na falta de melhor informação já terão uma pequenina idéia do tratamento que era ministrado aos cristãos daqueles tempos. Ora, querem agora saber o que exigiam os juizes romanos dos réus que lhes traziam? Muito pouco. Queriam apenas que os cristãos incensassem os ídolos, ou que pronunciassem uma palavra negando o Cristo. Bastava um gesto insignificante, uma palavra sem grande importância — diriam hoje — para que o acusado salvasse a vida. Ora, milhares e milhares de cristãos recusaram-se e foram supliciados. Com o preço da vida a jovem Perpétua, moça, mãe de filhos, esposa amada, e Inês, quase adolescente, e Lourenço, e Sebastião, e tantos, tantos outros pronunciaram essa palavra formidável que, nós aqui repetimos hoje, sem perigo imediato de vida, mas pedindo a Deus que a grave em nossos corações: Não podemos transigir!
 
Essa é a intolerância católica, a santa intolerância dos mártires.
 
Agora consideremos o catolicismo complacente que faz vista grossa aos mandamentos. A atitude de seus praticantes é outra: por uma dor de cabeça procuram tendas espíritas, amuletos, curandeiros desencarnados, caboclos do astral ou não sei que mais. Para reatar um namoro eles fazem o que os mártires recusavam fazer para fugir ao dente dos leões.
 
No fim de contas o que querem é uma religião que nada queira deles; o que exigem é uma religião sem exigências; o que procuram é uma coisa vaga e mole que combine com a falta de caráter de seus adeptos. Muitos desses católicos são divorcistas porque a simples idéia de um compromisso sério lhes causa horror. Acham então que a Igreja precisa evoluir, nessa matéria, sem perceberem que justamente foi por evolução moral que o casamento chegou à forma monogâmica e indissolúvel. Querem o divórcio, que Ruy Barbosa chamou o “sacramento do adultério”; como querem praticar a superstição curandeira que é o adultério do sacramento.
 
Aos católicos mais conscientes de seus deveres eu diria que precisamos redobrar nosso trabalho de esclarecimento e de doutrina. Discordo nesse ponto, com o devido respeito, das vozes que apontaram no espiritismo o maior flagelo religioso do Brasil. Será, na linha das conseqüências. Mas na consideração das causas o número um, a triste primazia, deve ser dada ao catolicismo liberal, ao catolicismo complacente, ao catolicismo tolerante, ao catolicismo que traz a Igreja a moleza, a falta de caráter, a esperteza, que são os vícios de nossas virtudes, o modo brasileiro de deteriorar o que seria bondade e magnanimidade se lograsse retificação e purificação.
 
Mais do que em qualquer outro ponto do planeta, nós, aqui no Brasil, precisamos aprender a dura e viril arte de não transigir.
 
E para isso temos de lutar em duas grandes frentes: na formação moral, e na difusão da Doutrina. Em fórmula mais vulgar e concisa eu diria, parodiando Capistrano de Abreu, que no Brasil católico o que falta é catecismo e vergonha na cara.
  
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 Volto a dirigir-me agora aos não-católicos, às pessoas mal informadas que nos acusam de intolerantes e que confundem, às vezes por culpa nossa, a santa intolerância com a intolerância política dos que vêem na Espanha um ideal católico. A essas pessoas, se têm boa vontade, eu peço que não meçam a Igreja pelos nossos desatinos, mas pela doutrina de Cristo e pelo sangue dos mártires. E se querem ler autores modernos que exprimam o pensamento e o sentimento da Igreja eu lhes pediria que começassem por ler Pio XII. 1
 
Considerem a Igreja no seu conjunto, no seu grande itinerário. Mesmo sem fé é impossível não ver o milagre visível da Igreja. É impossível não ver a grandiosa confusão que através dos séculos vem trazendo intato o seu grande tesouro que seria frágil se fosse apenas humano.
 
Dizem que ela é rígida demais, anacrônica e intolerante. Como se explica então a maravilhosa plasticidade que garantiu sua sobrevivência através dos tempos, dos choques de raças, das transformações dos costumes? Nascida entre asiáticos ignorantes ela passa à Roma imperial. Penetra o que parecia inacessível. Converte escravos e fidalgos. Pobres e ricos. Explode o Império Romano. E logo, em meio da latinidade culta chega a onda dos bárbaros. Parece um fim de mundo! A Igreja está em perigo, diziam os assustados cristãos do Mediterrâneo. Mas os bárbaros se convertem. A mesma doutrina que triunfara nas famílias romanas vai agora plantar-se entre hordas de bárbaros. E nasce o mundo medieval, saldo dessa combinação estranha de selvagens com o apuro romano e com o requinte bizantino.
 
Chega a Renascença, época de audácias, e a Cruz singra os mares e vem cravar-se em novos continentes. Tornam-se orgulhosos os homens por causa das conquistas e da ciência. Alguns deles profetizam o fim próximo da Igreja, mas quando menos se espera, em pleno século XX, vê-se no mundo inteiro o ressurgimento do cristianismo. E aqui no Brasil já ninguém ousará, como há 50 anos, contrapor a ciência à Fé ou inculcar-nos como imbecilizados pela água benta. Já são muitos, louvado seja Deus, os que poderão confundir nos seus próprios domínios os cientificistas pedantes que no séculos passado pareciam triunfantes.
 
Como se explica que a dureza e a intransigência tenham realizado tão prodigiosa adaptação e tão extraordinária conquista? Terá a Igreja transigido para comprar adeptos? Terá alargado sua tolerância dogmática e moral? Os próprios adversários nos prestam essa homenagem: não transigimos. Como se explica então esse misterioso resultado?
 
Responderíamos muito simplesmente: explica-se tudo pela Verdade da doutrina, e pela presença de Deus na sua Igreja.
 
Mas para completar essa resposta eu acrescentaria que a Igreja não é pura e simplesmente intolerante. Dissemos no princípio desta conferência que a tolerância aqui é virtude e ali é vício. Que em certas coisas devemos transigir e noutras não. Ora, é na Igreja que se realiza, ao máximo, esse duplo aspecto, esse complementarismo que conjuga a santa intolerância com a santa tolerância.
 
Há na Igreja um mistério semelhante ao de Maria Santíssima: o mistério da maternidade virginal. Pela maternidade ela é solícita e conquistadora; pela virgindade é zelosa e intransigente. Onde pode adaptar-se, ela se adapta, se debruça, com generosidade de mãe; onde não pode transigir, ela se firma com castidade de Virgem Santa. Pela boca de seu ardente apóstolo a Igreja mãe diz aos seus inquietos gálatas: “Ó filhinhos meus por quem sofro as dores do parto até que o Cristo Jesus esteja formado em vós!” (Gal. IV, 19). Mas na mesma Epístola fala a Virgem intolerante: “Eu me espanto que tão depressa tenhais abandonado o Evangelho de Cristo para buscar um outro Evangelho (...). Ah! Quando vos aparecer alguém anunciando um evangelho diferente — ainda que seja um anjo do céu — rejeitai-o!”.
 
Ouçam agora, na mesma voz, os inconfundíveis acentos da maternidade católica: “Sendo livre, fiz-me servo de todos, a fim de conquistar um número maior. Com os judeus, fiz-me judeu para ganhar os judeus. Com os que estão sob a Lei, eu que não estou sujeito, fiz-me sujeito para ganhar os que estão sob a Lei. E com os gentios, que não estão sob a Lei, eu que não estou isento, fiz-me livre para ganhar os que estão fora da lei. Com os fracos fiz-me fraco para ganhar os fracos. Fiz-me tudo de todos para salvá-los todos. E eu faço isto por causa do Evangelho, e a fim de cumpri-lo” (I Cor. IX 9 e seg.).
 
Em outra Epístola (II Cor. XI, 26 e seg.) temos um pequeno e dramático resumo da história da Igreja, isto é, do seu zelo missionário: “Labores, fadigas, vigílias numerosas, fome, sede, jejuns freqüentes, frio, desamparo! E antes de tudo o mais, meu cuidado de todos os dias, e a solicitude por todas as igrejas. Quem é fraco que eu também não seja fraco? Quem tropeça sem que eu me consuma de febre?”.
 
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Há, pois, na vida da Igreja, em vez de uma tolerância mediana, a complementar exaltação de dois máximos: o zelo máximo para adaptar o que pode ser adaptável; e o zelo máximo, levado até o sacrifício da vida, de não transigir no que não pode admitir transigência. Sem a insaciável maternidade não se explicaria a história da Igreja. Sem a intransigente virgindade, não se explicaria a unidade da Igreja e a integridade da doutrina.
  
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 Sendo apostólica e missionária, como podem julgar que seja ela em tudo intolerante? Sendo depositária da palavra de Deus, como podem esperar que ela transija? A maternidade virginal da Igreja, pela qual a figura do Corpo Místico de Cristo se assemelha à de Maria, exalta a solicitude de adaptação para a conquista das almas, e exalta ao mesmo tempo o rigor, a dureza adamantina, a santa intransigência daquilo que não passará ainda que passem os regimes e as civilizações.
 
Nós outros que vivemos na Igreja, com a Igreja, para a Igreja, e que da Igreja vivemos, temos de afinar nossas vidas por esse dualismo feito de uma forte intransigência e de uma larga transigência. Temos de ser tudo de todos; servos dos que procuram o Evangelho; perdigueiros do bom Pastor; pacientes na espera das almas; impacientes na busca; ressonantes com as aflições. Quem chorará que não choraremos com ele? Quem cairá sem que a febre nos abrase? Quem se alegrará sem que nos alegremos? Ah! bem quiséramos nós agradar a todos para trazê-los todos! Mas se nos pedem agrados dos homens que são desagrados de Deus, não podemos, não queremos transigir. Se esperam negociar conosco propondo cem mil adeptos novos pelo preço de um iota, nós não podemos e não queremos negociar. Aliás, permitam-me um reparo: aquela concessão seria errada até sob o ponto de vista da esperteza e do cálculo. Não são os transigentes, os moles, os simpáticos, os afáveis, os mundanos, os maneiros que conquistam as almas. Pela flacidez de seus instrumentos são maus pescadores. Ao contrário, os grandes pescadores de corações foram homens severos e duros. Duros e severos consigo mesmos e com a Doutrina. De São Paulo, por aquelas amostras, já vimos que sua imensa ternura pelos discípulos não anulava a severidade moral e a absoluta intransigência pela integridade do Evangelho. Sua alma era um enorme cristal líquido. Seu ímpeto era o que Maritain chamou “un ouragan docile”. Em São Bento, o patriarca do Ocidente, notamos a mesma nitidez inflexível e ao mesmo tempo o zelo discreto, a sabedoria pastoral, a brandura de exigências “para que os fracos não desanimem e os fortes possam ser generosos”. São Bernardo, o asceta terrível que misturava cinza na comida, enche as salas de Claraval, enche a Igreja de Deus. São Domingos, Santo Inácio, São Francisco com seu rigor na pobreza, Santa Catarina de Sena com seu ódio ao pecado, Santa Teresa D’Ávila, a reformadora, eis aí as almas de cristal e os corações de fogo, que não transigiram, e que atraíram a Deus milhares de almas perdidas!
 
A Igreja é, como seus santos, virgem na inteireza de sua Verdade, casta na custódia de sua doutrina. Mas é mãe dos homens. Debruça-se. Corre atrás dos que se extraviam, chora os que perde, ri com os que ganha. É dona de casa que varre o chão, o grande chão do mundo, à procura da dracma perdida. É pastora que anda pelos montes no encalço da ovelha tresmalhada. É mulher que vive curvada, debruçada, atenta, na posição clássica das mães. Abaixa-se. Faz-se criança com as crianças; é índia entre os índios; amarela entre os amarelos; negra entre os negros. Se o tempo é propício para gravar em pedra as orações, levantam-se as catedrais. Mas se é preciso espalhar-se, branca e humilde, constrói capelinhas de roça, caiadas de branco, nos lugares ingênuos e pobres. É tudo de todos. Universal. Católica. Estuda com os estudiosos. Canta, se é tempo de cantar. Brinca, se é tempo de brincar. É a mulher forte que retém o grande riso venturoso do seu dia definitivo. No meio tempo, enquanto espera, multiplica seus cuidados e providencia o agasalho de seus filhos.
 
Mas agora vejam o que acontece quando cai um coração novo nas malhas da incontestável pescadora. Observem: a Igreja que correu mundo, que debruçou-se, que tolerou, que foi tudo para todos, espera agora o catecúmeno na porta da Casa de Deus. Espera-o imóvel, de pé, implacável, quase como se fora ele um inimigo, e só lhe abrirá as portas do Batismo se ele pedir, se ele insistir, se ele renunciar à vida do mundo. A mãe é agora virgem intolerante. Noiva castíssima. E o zelo de conquistar transmutou-se em zelo de guardar.
  
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Nós, que vivemos da Igreja, devemos afinar nossos gestos por seu Espírito. Ela nos ensina onde devemos ser tolerantes, e onde não podemos transigir. Ela nos dá o exemplo da fome de almas e nisto, no fogo da caridade, não nos traça nenhum limite.
 
Venham, espíritas, protestantes, indiferentes, venham como homens, criaturas de Deus, corações desejados, e saibam todos que nós temos o santo dever de recebê-los e de encaminhá-los. Estamos oferecidos aos dentes que procuram a verdade. Não podemos economizar. Não podemos negar. Não podemos fugir. Vejam! Vejam que imprudente propaganda fazemos de nosso suor e de nossas lágrimas, para seguir de perto a propaganda que o Cristo fez de seu sangue. “As raposas têm as suas tocas, as aves têm os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde descansar a cabeça”. E como pode o discípulo ser maior que o mestre? Estamos expostos. Oferecidos. Qualquer pessoa, em nome do Cristo Jesus pode fazer de um de nós um servo. Venham pois. Fomos dados em espetáculo do mundo! Venham, peçam pregação, canseira, vigília, compreensão, suor e até lágrimas. Devorem-nos.
 
Se, porém, nos pedem o cancelamento de um iota; se nos convidam a tomar parte de uma sessão espírita; se querem discutir conosco em mesa-redonda ou quadrada as verdade de Deus; se esperam que concordemos com o divórcio ou com o aborto; se nos oferecem, para nossas cólicas, uma consulta médica com almas do outro mundo; então, nós não poderemos transigir; porque, se transigimos, daríamos prova de que não fazemos caso da Verdade, não servimos à Justiça e não amamos o Amor.
 
 
Conferência pronunciada em 26 de novembro de 1953, no programa organizado pela J.F.I. da Paróquia de São José.
 
 
Revista A Ordem, fevereiro de 1954.
 

 

  1. 1. Nota da Permanência: Corção só vai conhecer os massacres dos comunistas na Espanha mais tarde. Ele fará as retratações necessárias em  O Século do Nada. Também nesse livro escreveu um admirável capítulo sobre a Guerra da Espanha