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Apologética (37)

A atual perseguição religiosa no mundo islâmico

Nota da Permanência:

Siri Lanka, 21 de abril de 2019. Um grupo de muçulmanos se lançou contra três igrejas deixando um saldo de mais de 200 mortos.

Não se tratou de um caso isolado, no entanto, e sim de apenas um capítulo a mais na longuíssima lista dos crimes do islamismo.

Todos se lembram do massacre do Bataclan ou do assassinato do Padre Hamel, na França; ou ainda, dos atentados do Domingo de Ramos de 2017, no Egito, que deixaram 47 mortos, ou dos ataques em Barcelona no mesmo ano, deixando muitos mortos e mais de cem feridos. Os atentados de 11 de setembro permanecem nas memórias de todos.

No entanto, é pouco conhecida a real extensão da perseguição religiosa atual no mundo islâmico. Afeganistão, Iraque, Egito, Nigéria e Paquistão são alguns dos países em que ela se mostra sistemática, geral e sangrenta. É criminosa a omissão da imprensa em noticiar esses fatos.

O mérito do texto que apresentamos em seguida, tirado do artigo Muslim Persecution of Christians, é precisamente o de revelar a extensão dos horrores que ocorrem nas terras de Alah.

Advertimos o leitor, contudo, contra o uso do termo “cristãos” – adotado pelo autor para designar comumente católicos, protestantes e ortodoxos. Se aos olhos dos algozes islâmicos não há diferença entre eles, tal como a água e o azeite, não se misturam a Verdade e o erro.  

O Santo Sudário — Um retrato da Paixão de Cristo

Tiago Ferreira da Costa

 

Acabamos de assistir ao impressionante filme “A Paixão de Cristo” que tem suscitado tanta polêmica. O trabalho que vou apresentar tem por finalidade mostrar como o Santo Sudário de Turim corresponde perfeitamente a tudo que Nosso Senhor sofreu, em sua flagelação, em sua Via Sacra, na sua horrível morte na Cruz. Permanece para nós a imagem rápida, sutil, mas quão bela e verdadeira, do “esvaziamento" do sudário, como o filme nos apresentou. Que seja esta imagem o ponto de partida do nosso estudo.

 

1 - O objeto Sudário

1.1. - A mortalha

O Sudário é uma mortalha de linho, um tecido de boa qualidade, trançado em “espinha de peixe” no Oriente Próximo; “uma sarja facilmente encontrada nas lojas de Jerusalém no princípio do séc. I”. Mede 4,30 m x 1,10 m e tem estampada a  figura bem esmaecida de um corpo de homem, tanto de frente quanto de costas, em posição de sepultamento. Vêem-se ainda marcas de queimaduras, de dobras e alguns remendos. Muito importante também são as marcas de cor sépia que, à primeira vista, nos leva imediatamente a pensar em sangue emanado das feridas que se pode apenas perceber no corpo, visto a olho nu. Voltaremos a este assunto mais à frente, pois ele tem uma importância capital. 

O quadro de Giovanni Battista della Rovere nos mostra com muita propriedade como os judeus costumavam preparar o morto para o enterro, envolvendo-o numa mortalha comprida que passava por baixo, pelas costas, dobrava pela cabeça e voltava novamente cobrindo a parte da frente do corpo. Esta a razão dos 4,30 m de comprimento. (Continue a leitura)

Qual o problema do espiritismo?

Pe. Sarda y Salvany

Ao leitor

Este opúsculo não tem a pretensão de ser obra teológica ou filosófica, longe disso. É pura e simplesmente uma breve instrução caseira para o uso dos fiéis. Por isso, ao longo dele, e sobretudo na sua primeira parte, apela-se ao bom senso católico do leitor, mais do que a elevadas argumentações científicas. O espiritismo não precisa, para o seu deslustre, mais do que ser conhecido à luz das mais triviais noções da fé cristã e do sentido comum. Decidi, portanto, expô-lo sob estes dois pontos de vistas. Os que desejarem estudos mais profundos, poderão ler a obra excelente do Pe. Pailloux: Le magnétisme, le spiritisme et la possession, e também a série de artigos magníficos publicados em La Civiltà cattolica, e com o título: El espiritismo en el mundo moderno, traduzidos para o espanhol e editados em Lugo, casa editorial de Soto. (Continue a ler)

Os Franco-Maçons

Aviso do Editor

Este opúsculo foi escrito em 1867. Desde então, as coisas se precipitaram, fez-se a luz e a seita maçônica tirou a máscara. Hoje ela confessa às claras que é aquilo que é – uma organização anticristã da Revolução.

É inimaginável a raiva que esta obrinha suscitou e ainda suscita; essa reação é perfeitamente compreensível e, melhor que qualquer raciocínio, comprova a temível verdade das revelações que aqui se dão a público.

Muitos maçons admitiram esse fato. “O autor deste livro está bem informado”, dizia entre outros, em 1868, um velho maçom de Tours. Um dos cabecilhas mais fanáticos da Loja de Marselha, que retornou à prática da Religião, declarava “que uma das coisas que mais o impressionou foi o livrinho de Mons. de Ségur sobre a maçonaria”. E acrescentava: “Eu o li pensando que encontraria terríveis exageros; mas, ao contrário, achei-o ainda tão aquém da verdade, que me deu medo, de modo que senti necessidade de sair da minha abjeta situação”.

Com a ajuda de Deus, este opúsculo impediu que muitas almas fossem seduzidas, e abriu os olhos de uns pobres coitados que se deixaram enredar pelo Grande Oriente. Em Paris, em uma grande escola noturna, freqüentada por operários e moços, em um só mês, por conta da leitura de algumas páginas, mais de cinqüenta decidiram deixar de imediato as Lojas às quais acabavam de afiliar-se.

Quem inspirou René Guénon?

É inegável que René Guénon (1886-1951) exerce uma influência importante nos ambientes intelectuais que reivindicam para si, a torto ou a direto, a Tradição. Para justificar a afirmação, basta citar o livro de Éric Vatré, La droite du père. Enquête sur la Tradition catholique aujourd’hui[1] [A direita do pai. Enquete sobre a Tradição Católica nos dias de hoje]: um terço da obra se dedica aos discípulos de Guénon[2].

O problema da compatibilidade entre as idéias de Guénon e o catolicismo já se discutia enquanto o escritor ainda vivia. René Guénon, de origem católica, colaborou no início com revistas monárquicas e católicas na França, quais La France anti-maçonnique (1913-1914) ou a Revue universelle du Sacré-Coeur, Regnabit (1925-1927)[3]. As primeiras reações vieram dos colaboradores da Revue Internationale des Societé Secrètes, de Mons. Jouin; a disputa terminou em 1930, quando Guénon se “exilou” de própria vontade no Egito, onde se viu livre para praticar o esoterismo muçulmano que abraçara secretamente em 1912.

O suicídio de Lutero

Étienne Couvert

 

Em 20 de maio de 1505, Lutero iniciara seus estudos de Direito na Universidade de Erfurt. Pouco tempo depois, porém, uma desgraça ocorreu. Tendo encontrado seu amigo Jerônimo Buntz, desentenderam-se, travaram um duelo e Lutero acabou por matar seu companheiro. Em junho daquele mesmo ano, preocupado com as consequências da morte, Martinho buscou seu protetor e amigo, João Braun, vigário colegial em Eisenach, para lhe pedir conselho. Este o estimulou a tornar-se religioso, a fim de evitar as consequências judiciais do caso. Lutero acatou a sugestão e em 17 de julho de 1505 entrou para o convento dos Eremitas de Santo Agostinho, em Erfurt. Beneficiou-se assim do direito de asilo, então reconhecido pela justiça civil. Seu primeiro tratado, redigido por ele mesmo, intitula-se: “Sobre aqueles que se refugiam nas igrejas, muito útil para os juízes seculares e para os reitores de uma igreja e os prelados de mosteiros”. (“De his qui ad ecclesiam confugiunt tam judicibus secularibus quam Ecclesiae Rectoribus et Monasterioum Praelatis perutilis”). A obra foi publicada anonimamente em 1517, e depois em 1520 com o nome de Lutero. Nela, é lembrado que quem mata sem ter sido inimigo, por erro ou sem premeditação, não é culpado segundo a lei de Moisés.

Tradição, tradição católica e falsa tradição

 

Paolo Pasqualucci

Sumário:

1. A noção de tradição. 2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.  3. Definição da Tradição católica. 4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica. 5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa. 5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a idéia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, conseqüentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A idéia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecê-la.  Leia mais

Semana Santa e o centenário do espiritismo

Gustavo Corção

 

Por uma infeliz coincidência é nos dias 13 a 18 do corrente, e portanto na Semana Santa, que ocorrerão as solenidades em comemoração do primeiro centenário da codificação do espiritismo. E assim, enquanto os cristãos celebram os passos da obra salvadora de Cristo, e seguem o caminho da dor infinitamente fecunda que culmina na Cruz, os espíritas festejam o centenário da obra do sr. Leão Hipólito Denizard Rivail, mais conhecido pelo pseudônimo de Allan Karden. Foi efetivamente em 18 de abril de 1857 que o mencionado autor publicou “O Livro dos Espíritos”, que até hoje é a principal obra de codificação dos ensinos “dados pelos Espíritos Superiores com o concurso de diversos médiuns”. Nessa doutrina, que a seguir tomou o nome de Espiritismo, pretendem seus adeptos, entre outras coisas, ver a verdadeira doutrina ensinada por Jesus Cristo. Em suas “Obras Póstumas” (10ª. Edição, p. 268 e seg.) diz o festejado codificador: “O Espiritismo... restaurará a religião de Cristo, que se tornou nas mãos dos padres objeto de comércio e trafego vil, instituirá a verdadeira religião natural, a que parte do coração do homem e vai diretamente a Deus...” E mais adiante: “Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o Espiritismo qual ele é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada por Cristo...”.

A pretensão dos seguidores de Leão Hipólito, como se vê, não é pequena. Para começar, pulverizam a Igreja Católica. Vinte séculos de tradição, de culto desenvolvido em torno do Sacrifício da Cruz e da instituição da Eucaristia, de sofrimentos produzidos pelas perseguições externas e pelas internas, que ainda são piores, vinte séculos de doutrina apurada e depurada, de doutrina ofendida e defendida, de pensamento teológico e filosófico trabalhado pelas mais altas inteligências e afiançado pelas vidas dos maiores santos, vinte séculos torrenciais de estudo, de arte, de santidade, de apostolado, de missões – tudo isso – as cruzadas, as catedrais, os mosteiros, as fundações, as obras, as escolas – tudo isso, para os seguidores do espiritismo, é coisa a ser corrigida pelos livros de Allan Kardec e pela telegrafia do Além. Lutero e Calvino também quiseram derrubar a Igreja, e todos nós conhecemos as tremendas repercussões históricas dessas tentativas. Para os espíritas a Igreja são “os padres” que adulteraram o ensino de Cristo. Onde é então que está a verdadeira doutrina? Os protestantes ficaram com os Evangelhos, mas os espíritas além de derrubar a Igreja Católica, acabam também com os evangelhos... Como se vê, não é modesta a pretensão.

Aos católicos que vêem no espiritismo uma inofensiva prática ou uma medicina pouco dispendiosa convém lembrar o antagonismo total das duas doutrinas. Apregoam eles uma “religião natural” que parte do homem, e acrescentam que “a missão do Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da humanidade” porque “cada um deve resgatar-se a si mesmo” (Leão Denis, “Cristianismo e Espiritismo”, 5ª. Ed., pág. 88). Ora, o ensinamento essencial dos Evangelhos consiste em marcar o caráter sobrenatural e transcendente da obra e da herança de Cristo, e em assinalar a iniciativa primeira de Deus em todas as coisas da nossa religião.

Ao contrário do que diz o autor que os espíritas festejam, nossa religião não é natural, é sobrenatural; não parte do homem, parte de Deus. Não é por engenho nosso que perscrutamos os segredos da vida divina, é pela Revelação que temos a notícia que de outro modo seria inacessível. Não é por esforço nosso que galgamos o abismo que separa o Criador das criaturas, é pela Graça que desce de Deus para a Deus nos elevar. “Descida de Deus para subida do Homem”, como disse Camões – eis aí uma fórmula perfeita de nossa doutrina. Dentro dessa doutrina a criatura humana tem uma transcendência sobrenatural, religiosa, pela qual o homem é chamado a viver na intimidade de Deus, em situação acima de tudo, o que poderia ser exigido pela dignidade já bastante alta de sua natureza. A vida religiosa será pois medida pela conformidade com a sobrenatural transcendência de nossa vocação, ou em outras palavras, pela obediência às luzes da Revelação e às operações da Graça. Não nos compete a iniciativa primeira, que é de Deus. Compete-nos responder, corresponder, obedecer. Ainda mais, como é em Cristo que se condensa toda a Revelação e toda a fonte de Graça, a posição religiosa do cristão se aferirá por esse divino Centro. Seremos cristãos se formos seguidores de Cristo; e seremos seguidores de Cristo se estivermos em contacto vivo com a sua herança que são os seus sacramentos e a sua Igreja. E é a realidade dessa obra de Cristo que nos alimenta todos os dias, e que, com ênfase especial, celebramos na Semana Santa, nessa mesma semana em que os seguidores de Leão Hipólito Denizard Rivail celebram, neste ano, o centenário do Espiritismo.

Teologicamente, espiritismo é uma doutrina herética formada pela confusa mistura de diversas heresias antigas. Há um pouco de pelagianismo, de arianismo e de maniqueísmo no conjunto doutrinal recebido do Além por Allan Kardec e seus seguidores. Filosoficamente, e culturalmente, é uma das formas mais espessas e brutais do individualismo que tantas desgraças já trouxe ao mundo nesses últimos séculos de civilização burguesa. Pelo experimentalismo, se liga à filosofia empiricista e assim vem a dar, apesar de todo o seu vocabulário, num mal disfarçado materialismo.

Tomada em seu heteróclito conjunto, a doutrina espírita tem todas as negativas qualidades para medrar numa cultura maltratada. Tem todos os equívocos para agradar, por isto ou por aquilo, às multidões privadas de instrução e de formação religiosa. Tem o nome e o Além, para parecer que é uma espiritualidade; tem os fluidos e a mecânica, para anteder à sede de técnica e de dados sensíveis; tem uma vaga filantropia e uma cômica boa-vontade para nada exigir moralmente de ninguém. Aspira assim à universalidade pela mediocridade, e seduz as almas cansadas pela desvalorização da vida.

O fenômeno do espiritismo brasileiro está ligado a esse conjunto de qualidades negativas. O espiritismo, como o comunismo na ordem social e política, é produzido pelas omissões. No caso brasileiro não hesito em reconhecer que é nossa, dos católicos, a mais grave responsabilidade. O espiritismo se propaga porque o nosso catolicismo é pouco convincente e pouco generoso. A prova disto está na miséria das vocações sacerdotais, e na enorme facilidade com que se misturam com a doutrina católica a convicção divorcista e a prática espírita.

Sendo assim, pouco adiantará combater o espiritismo diretamente, se ao mesmo tempo, e com vigor ainda maior não nos dedicarmos à obra mais positiva de ensinar a doutrina católica, de despertar o gosto por sua coerência, e de formar mentalidades nítidas e sadias que se defendam dos erros. Na verdade, aos kardecistas que sonham acabar com a Igreja Católica, nós podemos responder como um papa respondeu a Napoleão: nós mesmos temos feito o possível para arrasar a Igreja, mas não conseguimos.

(O Estado de São Paulo, 14/4/57)

Lutero, pai do modernismo protestante

Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX

 

Quando se observa um quadro do mundo religioso do século IV até a Reforma, nota-se facilmente a extraordinária unidade de pensamento, de fé e de moral, agrupada em torno da Igreja católica e difundida por todo o mundo civilizado. É claro que aqueles séculos não foram perfeitos e nem sempre sublimes, pois os homens eram humanos com os vícios que são seus companheiros inseparáveis. Porém, ao menos, o mundo cristão era uno. Estava unido pela mesma fé em um Deus bom, que quer a salvação de suas criaturas; pelo mesmo código moral, que estabelecia unanimemente que uma dada ação era boa e outra má; e pela mesma autoridade divinamente estabelecida, a que se obedecia como se obedece a Deus. Um século depois de Lutero, o mesmo quadro (do mundo religioso) mostra uma profunda ruptura na crença religiosa, pois o que era um aparece, dali em diante, como um vaso partido em mil pedaços. Havia ocorrido uma verdadeira revolução. Ela tinha diferentes facetas: política, internacional, sem mencionar o aspecto social dos costumes. Mas o núcleo dessa revolução, que dividiu para sempre a Europa cristã, foi a teologia. O epicentro do ciclone encontrava-se nas concepções irreconciliáveis sobre Deus e seu plano de salvação para os homens.

Falar da teologia da Reforma é como apontar o dedo para Lutero, seu pai. Devemos nos remeter a ele para compreender a raiz da Revolução que produziu a Reforma; é necessário estudá-lo de perto para entender a natureza do movimento modernista, que se desprendeu do luteranismo como uma fruta madura. De Lutero, pode-se dizer com toda exatidão que a doutrina é o homem. Ao retrocedermos à origem de suas ideias, poderemos deduzir facilmente as consequências dos seus princípios nos diversos domínios relativos ao dogma, à filosofia, à exegese e à teologia. Teremos condições de julgar que esses princípios estão em flagrante contradição com o luteranismo tal como se constituiu posteriormente.

 

1. Tal vida, tal doutrina

Se é possível, para ilustrar a doutrina e a vida de Santo Tomás de Aquino, fazer alusão aos escritores clássicos, no caso de Lutero, o começo da época romântica se encaixa como uma luva. O romantismo é o florilégio das grandes sinfonias de Beethoven, em que o passional domina o racional e a força suplanta o espírito. Lutero, como Beethoven, sentia dentro de si os impulsos passionais e agia sob sua influência.

Martinho Lutero (1483-1546) era filho de humildes camponeses. Sua mãe, cristã piedosa, era propensa a ver o demônio em toda parte, enquanto seu pai era a encarnação do juiz intratável, que nunca o perdoará por ter deixado a família para se tornar monge. Aos vinte e um anos, após ter feito os estudos de direito, e tomado de desespero durante uma tempestade, faz votos de entregar-se a Deus e, quinze dias depois, é aceito no mosteiro dos agostinianos de Erfurt, cidade universitária da Saxônia. Sua trajetória de monge sacerdote é fulgurante. No ano seguinte, faz seus votos perpétuos, é ordenado padre alguns meses mais tarde, e só então segue curtos, mas sérios estudos teológicos. Em 1508, é transferido para sua universidade natal, onde trabalha como professor. Em poucos anos, se tornará sub-prior de Wittenberg, doutor em teologia e porta-voz em Roma das disputas entre os conventos agostinianos em litígio. Seus estudos no convento o colocam em contato com Santo Agostinho, de quem pensa poder inferir a inutilidade da razão e da vontade, e com os místicos, de quem acredita poder deduzir o desprezo pelas obras exteriores. Também se familiariza com a escolástica decadente, sobretudo com o pensamento de Ockham, o filósofo que sustentava que as palavras são vazias de sentido e que a vida só se encontra em Cristo e na Sagrada Escritura. Ainda um jovem doutor, em seu comentário à Epístola aos Romanos, o irmão Martinho ensina, desde 1515, seu novo sistema sobre a justificação, que servirá de base para toda a teologia luterana. Havia nascido o movimento da Reforma.

Como Lutero chegou a este ponto? Muitos historiadores evitam esta questão e propõem respostas parciais. Alguns pretendem que em um bom dia ele descobriu na biblioteca de Erfurt uma Bíblia recém-impressa. Outros veem no irmão Martinho um monge incapaz de controlar suas paixões imorais. Com o propósito de chegarmos à verdadeira história, nada melhor que revelar a alma desse frade e o drama que viveu naqueles anos cruciais.

Que caráter tinha esse frade agostiniano? Se dentro do robusto Santo Tomás escondia-se um espírito superior, Lutero é um Hércules de vontade, de paixão e de fogo, dotado de uma inteligência limitada e sobretudo prática. Todos os historiadores o descrevem como um alemão por excelência, um Odin cristão, um verdadeiro Thor. Era dotado de uma natureza realista e lírica, valente, mas impulsiva, sentimental e hipersensível. Um espírito vulcânico nas coisas da vida, veemente em tudo, até mesmo em sua generosidade e em sua ternura. De natureza ardente, enérgica e apaixonada, sofre desmaios súbitos e momentos de profunda tristeza. Nele, a depressão é tão profunda como exuberante é a alegria. Isto se deve, talvez, a uma educação cheia de temores e mal equilibrada? Ou às suas crises de escrúpulos? Ou ao pensamento constante do mistério da predestinação, que o inquieta? Em seus momentos de otimismo natural, a paixão adianta-se facilmente às ideias, como acontecia em seus antepassados. Tem instinto guerreiro e se lança com toda ousadia nas discussões, que saboreia com paixão. Apresenta-se audacioso e veemente na defesa de sua causa, razão pela qual o jovem mestre foi enviado à Roma para advogar a causa do mosteiro. Espírito prático e decidido, prefere antes refutar seu oponente a escutar o lado oposto. Lutero, com sua linguagem vulgar, seu extraordinário poder de imaginação e sua torrente de palavras, é um pregador extraordinário, o que lhe valerá ser considerado como um dos mais poderosos criadores da língua alemã moderna. Suas palavras são armas de guerra. Há energia em seu gênio, veemência em suas palavras, uma eloquência brilhante e impetuosa que transmite admiração e encanta as multidões, uma audácia extraordinária diante dos aplausos, acompanhada de um ar de autoridade que faz com que seus alunos tremam diante dele e não se atrevam a contradizê-lo no que seja, não importa se grande ou pequena. Nisso reside sua força e sua fraqueza.

Tendo entrado na vida religiosa mais por paixão que por simpatia, como confessará mais tarde, o irmão Martinho é, no início de sua trajetória religiosa, um monge zeloso e diligente, certamente desejoso de alcançar a perfeição em seu estado sacerdotal, embora predisposto à ansiedade e ao escrúpulo. Não tarda a observar que todos os seus atos piedosos, suas «boas obras», não produzem aparentemente nenhuma mudança nele, e assim chega à conclusão de que elas não tem importância aos olhos de Deus; ou, para usar suas próprias palavras:

«Quando eu era monge, tinha o costume de acreditar que minha salvação estaria comprometida tão logo eu sentisse a concupiscência da carne, isto é, um movimento mau contra algum de meus irmãos, de inveja, de ira, de ódio, etc. Sempre me atormentava a ideia de que todas as minhas boas obras fossem inúteis»1.

Nesta conjuntura, nosso monge parece ter cometido dois erros sobre os princípios da vida espiritual. Em primeiro lugar, devido ao seu temperamento sentimental, busca com demasiado afinco experimentar as consolações sensíveis. O essencial é sentir-se em estado de graça, como se a graça pudesse ser sentida! A doutrina que ensina que a graça é infundida na alma quando se apaga o pecado, quase o leva a perder a esperança em Deus, porque não havia experimentado em si mesmo essa pureza perfeita da graça. Seu segundo erro é querer alcançar a virtude e a perfeição mais por suas próprias forças do que pela graça de Deus. Este voluntarismo individual é ainda mais perigoso porque, sendo escrupuloso, considera como pecados suas primeiras impressões sensuais involuntárias, e pretende alcançar uma santidade que não manifeste o menor indício da fraqueza humana. Por dez de anos, vive com a alma atormentada pelo terror da condenação eterna. É aconselhado, então, a colocar toda sua confiança no Redentor do gênero humano, que não morreu em vão.

Para sair deste estado de tortura interior em que o haviam confinado seus escrúpulos e seu voluntarismo orgulhoso, lança-se ao ativismo, à pregação e ao ensino. É tentado, então, de desespero: «Contenta-te em ser o que és, anjo caído, criatura deformada; teu encargo é fazer o mal, porque teu próprio ser é mau». É a réplica do drama que viveu o próprio São Paulo:

«Vejo em meus membros uma lei que luta contra a lei do meu espírito, e que me tem cativo sob a lei do pecado, que reside em meus membros. Pobre de mim! Quem me livrará deste corpo de morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor!» 2.

Jesus Cristo! Eis a resposta há mil e quinhentos fora sempre dada à angustiante pergunta da salvação. Saulo se tornou São Paulo porque lançou-se nos braços de seu Deus. Isto o distingue de Lutero, que, em vez de invocar seu Salvador, resigna-se às paixões baixas: «A concupiscência é invencível». Começa, então, a assinar suas cartas como «Luther, filho de Adão, o desterrado».

Vimos até agora a história do monge escrupuloso, deprimido pelo desespero. Mas esse é o momento em que tudo começa para o reformador Lutero, pois, a despeito do desespero e da resignação perversa, a santidade é recuperada. Para celebrá-la, a partir deste momento ele dá a si mesmo o nome de Lutherius - Martinho, o libertado. Há dez anos, Lutero se sentia atormentado pelo problema da salvação, e em vão buscava a maneira de evitar a fúria do justo Juiz. Em 1516, durante a leitura da Epístola de São Paulo aos Romanos, finalmente descobre o argumento decisivo:

«Porque a justiça de Deus revela-se de fé em fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”» 3.

O irmão Martinho explica que, segundo São Paulo, a justificação de Deus consiste em cobrir com um manto puramente exterior esse amontoado de pecados que é o homem. Para ser justo, o homem pecador só precisa da fé. Também acredita poder deduzir de São Paulo que todos os atos do homem são pecaminosos, que o homem não tem liberdade, e que este não é nada mais que um cavalo montado por Deus ou pelo diabo, dependendo de qual dos dois esteja em cima. Como não é mais que um animal depravado, o homem nada pode fazer por si mesmo para salvar-se. É inútil dedicar-se às boas obras, dado que Cristo já fez tudo em nosso lugar. A salvação só é obtida quando o homem põe toda sua fé, quer dizer, uma confiança cega, em Cristo. Esta confiança o leva a proferir a máxima: «Pecca fortiter sed crede firmius» — peca com força, mas crê ainda com mais força — . Este axioma não deve ser entendido como a glorificação do laxismo moral. A primeira parte, pecar ou não pecar, não tem importância; o que importa é crer. Crer, segundo nosso autor, é ter uma confiança tão firme como cega. A vida cristã não é nada mais do que um contínuo exercício por sentir que nós não temos pecado nem sequer quando pecamos, e que nossos pecados são carregados sobre Cristo.

É evidente que toda a doutrina de Lutero é o resultado de uma experiência pessoal. Ele transforma suas necessidades em verdades dogmáticas. Seus sentimentos íntimos convertem-se em princípios teológicos, e seu caso particular é transformado em lei universal. Sedento de segurança moral e de liberdade espiritual, livra-se dos escrúpulos da sua consciência, que desesperava sobre a questão das boas obras, lançando-se, como pecador que é, nos braços de Cristo. Quando surge a controvérsia das indulgências, já há mais de um ano que pregava esta doutrina na universidade. Se, de fato, os abusos das indulgências foram a faísca que deveria causar a explosão, eram tão somente um pretexto para começar a revolta. Quando prega as noventa e sete teses sobre as indulgências nas portas da igreja de Wittenberg, em 1517, Lutero já tem pronta sua própria doutrina sobre os temas fundamentais da salvação eterna, da justiça de Deus, da fé e das boas obras.

Sua reivindicação fundamental, e também a do protestantismo, não tem relação nem com os abusos das indulgências, nem com os escândalos do clero, nem sequer com seus próprios erros teológicos que levam diretamente à imoralidade e à blasfêmia. Não. Todo o drama da rebelião reside no fato de um monge pretender apagar quinze séculos de posse serena da verdade divina e conseguir subjugar com grande sucesso as multidões proclamando-se iluminado diretamente por Deus. O fundo do problema é que Lutero vangloria-se de compreender a São Paulo melhor do que ninguém até aquele momento; melhor que a porta-voz e guardiã da palavra divina, a própria Igreja Católica. A grande vitória de Lutero consiste em que, por meio da oferta sedutora de um paraíso automático e gratuito, esse orador de gênio conseguiu afastar meia Cristandade de tudo que, até aquele momento, ela acreditara sem discussão, e de levá-la a aceitar sua doutrina do paraíso gratuito simplesmente porque ele se dizia mais sábio. O livre exame é, portanto, o núcleo e o eixo da Reforma. Lutero professava o livre exame, que seria, mais que qualquer outro ponto de doutrina, o fermento mais eficaz para destruir o que a Igreja tem de mais precioso. O livre exame marca, de fato e de direito, a morte de todo o tesouro da Igreja.

 

2. Em filosofia: ignorantismo e egologismo

A época da escolástica decadente e do Renascimento pagão, desdenhosa das ideias e promotora de todo individualismo, não foi feita para promover a sã filosofia. Lutero, ao fazer profissão de ceticismo em matéria de ciência, se mostra um filho digno de seu tempo, e ainda mais quando, por inclinação natural, privilegiava a vontade em detrimento da razão. Seus discursos são mais diretos que sutis. Aristóteles é o suporte ímpio dos papistas.  Ele é para a teologia o que as trevas são para a luz. Por outro lado, Santo Tomás nunca entendeu nem um só capítulo do Evangelho ou de Aristóteles. Semelhantes exageros verbais concordam perfeitamente com a doutrina luterana da natureza do homem, totalmente corrompida pelo pecado original. A razão, da mesma forma que a natureza, está intrinsecamente manchada, de maneira que todas as ciências especulativas estão erradas. Lutero não é um pensador que analisa seus princípios, mas um líder carismático que se apodera da multidão e a dirige pelo instinto, desprezando completamente as leis da lógica. A quem reprova suas contradições e inconsistências, ele responde com violência e injúrias verbais, sem preocupar-se em refutá-lo racionalmente.

Lutero, pelo fato de tudo basear na crença em detrimento do bom senso, é fideísta. Com efeito, sua «fé» não se sustenta em nada razoável. É uma pseudo-fé herética que não podia deixar de vir a ser o que hoje é para muitos protestantes: um salto mortal motivado pelo orgulho desesperado, um arrebatamento de angústia e de confiança, oriundo das profundezas de si, em direção ao desconhecido. Essa fé basta-se a si mesma, e a razão só pode corrompê-la. O reformador aniquila, assim, de um só golpe, mil anos de frutíferos esforços teológicos:

«A razão opõe-se diretamente à fé, e assim deve ser; os crentes deveriam exterminá-la e sepultá-la… Ela é a prostituta do diabo. Só sabe blasfemar e desonrar tudo o que Deus diz ou faz. É impossível reformar a Igreja se não for extirpada completamente a teologia escolástica e a filosofia, assim como o direito canônico… A lógica não tem nenhuma utilidade em teologia, pois Cristo não precisa de invenções humanas». «A Sorbonne, mãe de todos os erros, não poderia estar mais errada ao afirmar que, se uma coisa é verdadeira, é verdadeira para a filosofia e para a teologia; é uma impiedade da sua parte condenar aqueles que sustentavam o contrário»4.

Se nos atemos a suas próprias palavras, Lutero adota inteiramente a teoria da «dupla verdade» de Siger de Brabante, segundo a qual uma verdade de fé pode ser ao mesmo tempo um erro científico.

A este aspecto anti-intelectual da doutrina luterana se enxerta um movimento positivo puramente interior. Quando o homem se nega a seguir a luz natural outorgada por Deus e se move pela vontade cega e pelas paixões baixas, expõe-se a todas as aberrações possíveis. Ora, em Lutero reinam o sentimento e o desejo. É dominado pelos apetites afetivos, sobretudo pelos irascíveis, mas também por uma forte tendência à melancolia. Lutero exalta a liberdade, a interioridade da experiência individual e o espírito pessoal. Para ele, sua própria vontade faz as vezes de explicação última e irrevogável: « Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas»5 — assim o quero, assim o ordeno, que a minha vontade sirva de razão — . Lutero opõe interior e exterior. É necessário rejeitar tudo o que vem de fora, particularmente os sacramentos e a Igreja, mas também a Revelação divina. Tudo isto está em consonância com a «lógica» do livre exame. O padre Ives Congar, admirador de Lutero, não se equivoca ao dizer que este havia reformulado todo o Cristianismo. Por quê? Porque era incapaz de receber algo que não proviesse de sua própria experiência. Kant desenvolverá, posteriormente, o princípio de autossuficiência com sua razão pura, emancipada das realidades exteriores.

 

3. A Revelação passada pelo crivo do livre exame

Se Lutero, merecendo com razão o título de protestante, rebela-se contra toda autoridade que imponha seja o que for, invoca a mesma independência de espírito em face da Revelação, seja ela a tradição oral do Magistério eclesiástico, ou a Bíblia escrita. O irmão Martinho rebela-se primeiro contra a Tradição, opondo-lhe a sola Scriptura — a Bíblia apenas — como norma de fé. A sola Scriptura é apenas um pretexto para eliminar a autoridade divina da Igreja, que havia condenado sempre o subterfúgio doutrinal que Lutero acabara de elaborar para tranquilizar sua consciência. A infalibilidade da Igreja, cuja voz ao menos era clara e direta, é demolida. A partir de então, é necessário pôr em seu lugar a infalibilidade de um livro, de per si acessível só a uma fração insignificante do povo, e cujo sentido é causa de violentas discussões entre os eruditos. A Bíblia, de onde o próprio Lutero tirará com frequência teorias perigosas, torna-se então a única fonte de salvação. Cada homem reformado é, ao mesmo tempo, sacerdote e profeta. Não obstante, essa atitude é extremamente perigosa. Os fiéis, que estavam acostumados a crer no que se lhes ensinava por via de autoridade, a partir daquele momento terão de assumir a árdua tarefa de encontrar por si mesmos, nas Escrituras, o que devem crer, e isto sob a ameaça de horríveis penalidades se acontecer de se enganarem.

Nosso heresiarca tem ao menos a intenção de conservar respeitosamente a Sagrada Escritura? Não, este postulado exagerado da sola Scriptura não é mais do que uma camuflagem para ocultar o princípio do livre exame, que o heresiarca estende com generosidade à própria Bíblia. Acaso não afirma que pode julgar «ex gustu et sapore» — pelo gosto e sabor — se um livro é realmente inspirado? Não vacila em modificar o texto sagrado. O texto da Anunciação: «Cheia de graça»6, é transformado em: «A graça está em vós» 7. O famoso texto de São Paulo: “Porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei.” É transcrita: “Consideramos que um homem é justificado sem as observâncias da lei, somente pela fé.”

Declara apócrifos os sete livros deuterocanônicos aceitos pela Igreja católica. Ostenta o mesmo desprezo pelos cinco livros de Moisés. Nem o Novo Testamento é poupado. Acusa a Epístola de São Tiago de ser uma epístola de palha; na Epístola aos Hebreus,

«não é necessário surpreender-se de lá encontrar pedaços de pau, feno e palha»;

e no que se refere ao Apocalipse,

«em minha opinião, não tem nenhum sinal de caráter apostólico ou profético… Cada qual pode formar seu próprio juízo sobre esse livro; da minha parte, sinto aversão a ele, e isto me basta para rejeitá-lo»8.

Sob a aparência do Lutero bibliólatra e da sola Scriptura esconde-se, na realidade, um biblioclasta radical.

Após tudo isso, Lutero queixa-se das liberdades exegéticas as quais se permitem Karlstadt e outros colegas seus! Chegará ao extremo de gravar em sua mesa do refeitório as palavras da consagração: «Este é meu corpo, este é meu sangue», e de exigir em tom ameaçador que se entendam estas palavras em seu significado literal. Na realidade, não compreende que ele mesmo deu o exemplo da mais desenfreada liberdade em matéria bíblica. Retirou das Escrituras seus únicos apoios, a Tradição e o Magistério da Igreja. É como se, antes de escrever as sagradas palavras em sua mesa, ele mesmo houvesse lhe serrado as pernas. Se a Bíblia tem autoridade por si mesma, se é verdade o que eu julgo como tal em meu foro íntimo, como esses textos bíblicos escritos sobre peles mortas podem se impor à minha crença? Na verdade, para Lutero, a Revelação é um assunto pessoal: minha Revelação é a Revelação. Depois de sua ruptura com Roma e com a Igreja, apesar de suas agonias interiores que não fazem senão crescer até o dia de sua morte, seu egocentrismo chega ao paroxismo. Tudo gira ao redor de Lutero. Toda lei externa é um insulto intolerável à sua liberdade cristã.

«Não admito que ninguém julgue minha doutrina, nem sequer os anjos. Aquele que não recebe minha doutrina não poderá salvar-se»9.

Em uma atitude de revolta, Lutero pretende, nem mais nem menos, substituir a Jesus Cristo.

 

4. Uma teologia invertida, centrada no homem

Toda a doutrina luterana deriva da vida íntima do escrupuloso irmão Martinho que, desesperado de não conseguir jamais vencer a concupiscência, acaba em um egocentrismo exacerbado. Faz desse drama pessoal sua doutrina universal, «urbi et orbi». Mas esta doutrina é falsa, ímpia e blasfema. Vejamos como ela reprova a teologia católica sobre o tema do pecado original:

«Logo, nada além de erro e cegueira a respeito desse artigo ensinam os doutores escolásticos [católicos], isto é, que desde a queda de Adão… o homem é livre para fazer o bem e evitar o mal, ou de evitar o bem e fazer o mal. Do mesmo modo, que o homem, por suas forças naturais, pode observar e cumprir os mandamentos de Deus. E igualmente, que o homem, por suas forças naturais, pode amar a Deus sobre todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo. E ainda, que, se  o homem fizer o que dele depende, Deus lhe concede certamente sua graça»10.

Sua doutrina a respeito do assunto é a seguinte:

«Mesmo depois da regeneração, todos estão sob o que é mandado, e não podem deixar de ser incapazes, pois herdam uma natureza corrompida que fatalmente predispõe ao pecado. Tudo procede da graça, nada das obras, e o dom da graça é só por um ato de Deus. Tudo o que o homem é ou faz já foi determinado por Deus desde toda a eternidade; alguns nascem para salvar-se, outros para condenar-se, sem que conte para nada sua própria escolha, que na realidade nunca é livre»11.

Esta doutrina da justificação exterior, que lança um véu pudico sobre a miséria humana, gera sepulcros caiados. É profundamente imoral e impura, uma vez que anula as forças naturais do homem, especialmente sua liberdade; impede-o de realizar qualquer obra boa; e o torna incapaz de merecer o céu com a ajuda de Deus. Encurta o braço de Deus, que se vê impotente para santificar o homem a partir do seu interior. De acordo com essa doutrina, Deus é uma abstração distante, que salva por uma ficção jurídica e não por uma verdadeira conversão do coração efetuada desde o mais íntimo de cada um. Há mais. Esta doutrina torna Deus injusto, ao imputar-lhe o duplo crime de mandar o impossível e de predestinar, tanto ao inferno como ao céu, almas desprovidas de liberdade. Semelhante doutrina exige o sacrifício da consciência humana, ao impor que se adore como sumamente justa a arbitrariedade divina. Esse Deus, que Lutero fabricou do início ao fim, foi feito à imagem e semelhança do homem luterano, caído, injusto e privado da razão.

Dizíamos que o egocentrismo luterano é doutrinal. Mas o péssimo é que se torna teológico. Chegamos ao fundo do mistério da «teologia» luterana. Na doutrina católica, tudo gira ao redor de Deus, que é a fonte, o centro e o fim do homem. Pelo simples fato de estar ordenada a Deus, a teologia católica é uma ciência sobretudo especulativa. Como Deus é seu centro, a alma católica sente-se plenamente satisfeita quando conhece os mistérios de Deus e Seu amor misericordioso para com os homens. Como sabe quem é seu Deus e quão poderosamente Ele age nela, não se sente torturada pelo temor servil da condenação. Sabe que dispõe de todo o necessário para assegurar sua salvação: a fé, a esperança e a caridade.

O luterano, por outro lado, não pode reconhecer em Deus o seu Criador benéfico e misericordioso. O Deus protestante é o mesmo que criou o homem perverso, incapaz de santificá-lo e disposto a castigá-lo. O protestante só pensa em uma coisa: escapar da cólera divina do Todo-Poderoso, apesar da concupiscência indomável que envenena sua natureza. Por ter se tornado o centro da religião, a alma humana busca a salvação na justiça com que se cobre a si mesma. Lutero, que elimina a caridade e preserva um certo grau de temor servil, faz girar a ciência das coisas divinas ao redor da corrupção humana. Por esta razão, sem a absoluta certeza de seu estado de graça, a alma protestante não pode existir sem sucumbir no desespero.

Em quê Deus se converte nessa antropoteologia? É reduzido à uma entidade abstrata e distante, impotente e injusta. Pode-se pensar que, de acordo com Lutero, Deus estaria tanto mais implicado na salvação humana quanto mais impotente é o homem. Mas é o contrário. Na realidade, apesar das aparências, o luterano não deve esperar nada de Deus, porque segundo ele, somos nós mesmos que fazemos uso da

«habilidade de saltar de nosso pecado para a justiça de Cristo, e, portanto, para estar também seguros de possuir a piedade de Cristo como o estamos de ter nosso corpo»12.

Lutero, com sua absurda graça exterior recebida de Deus, mostra-se, na realidade, como o fundador do naturalismo mais desenfreado. Encarcera o homem em si mesmo e tudo deduz a partir do homem em todos os domínios, até mesmo em teologia.

 

5. Lutero nas antípodas do luteranismo

Ao estudarmos Lutero e sua relação com os princípios modernistas, não temos a intenção de nos determos no luteranismo. Por quê? Porque os princípios de Lutero são modernistas, mas os do luteranismo, não. De fato, a Igreja Reformada que Lutero fundou, com sua hierarquia, seu culto e seus dogmas, encontra-se nas antípodas dos princípios protestantes. Há solução de continuidade, há ilogismo completo e contradição absoluta no coração mesmo do protestantismo. O erudito protestante Harnack sublinhou com perfeição esta trágica esquizofrenia do sistema:

«O protestantismo padece de uma antinomia interna que é derivada de seu próprio princípio. Se não tens confissão de fé, o que és? Que sociedade formas? Por que existes? E se promulgas uma profissão de fé, se queres impô-la a mim sem dar-me explicações e apesar da resistência de minha consciência, como podes continuar sendo protestante? O que fazes tu que não faça o católico, e contra quem dizes que Lutero e Calvino tiveram razão de rebelar-se?».

Do mesmo modo, Hauser, referindo-se a Calvino, afirma que

«não viu, ou não quis ver, a espantosa antinomia que se encontra no núcleo mesmo de sua obra: refazer uma autoridade, um dogma e uma Igreja partindo do livre exame»13.

O livre exame não é um princípio viável, e a História não tardou em colocar um pouco de bom senso nas ideias do irmão Martinho, o libertado. Lutero viu-se obrigado a suavizá-lo e aplicá-lo de modo seletivo, apesar da flagrante contradição. Não significa que a meio caminho tenha renunciado a seu princípio do livre exame, mas que, oportunista e pragmático acima de tudo, o grande libertador transforma-se rapidamente em um sectário furioso, a partir do momento em que atentam contra sua própria liberdade, vale dizer, contra sua autoridade. Mas o princípio da liberdade para tudo e para todos, o livre exame, não poderia produzir logicamente nada além de caos, anarquia e rebelião universal, com relação a todos e a Lutero, em particular. Em 1525, Lutero proclama em alta voz que as autoridades não podem impedir nenhuma pessoa de ensinar e professar suas crenças. Cinco anos mais tarde, já consumado o cisma dos Anabatistas, ordena que as autoridades entreguem estes canalhas aos verdugos. Neste ínterim, o heresiarca vendera aos príncipes sua doutrina da liberdade de religião em troca da proteção deles. E, por isso, se separara dos camponeses radicais, a quem agora enchia de insultos e entregava à justiça dos príncipes alemães. Era uma escolha astuta, porque deste modo punha sua religião a salvo sob a tutela dos príncipes todo-poderosos. Havia retirado do Papa sua autoridade espiritual para oferecê-la aos príncipes, que seriam, ao mesmo tempo, déspotas e papas. Esses tiranos, promovidos a papas pela vontade de Lutero, não tardaram a apresentar exigências que superavam todos os limites, e, em pouco tempo, Lutero foi forçado a lhes entregar o resto do dogma e da vida moral a que ele próprio ainda não havia renunciado, a rejeição do divórcio e da poligamia, entre outros.

Este foi o resultado inevitável do livre exame. Abandonava-se a fé da Igreja e recebiam-se os dogmas imperiosos de Lutero, de Calvino, de Isabel e de Gustavo Adolfo. E a tal ponto eram imperiosos que - em Genebra, talvez mais do que em qualquer outra parte – pagava-se com a vida o uso demasiado amplo do direito do livre. Calvino, que não tolerava nem contradição nem concorrência, mandava para a fogueira todo aquele que se atrevesse a dogmatizar a seu lado, e em seus livros, hostilizava com insultos atrozes àqueles a quem não podia atingir de outra maneira. Assim, já não se estava com o Papa, mas seguiam-se os Quakers, os irmãos Moravos, a Knox e a milhares de outros que não faziam mais que demonstrar sua impotência para encontrar a verdade. Erasmo queixava-se disso, não sem malícia:

«Que bom defensor da liberdade evangélica é Lutero! Graças a ele, o jugo que suportamos tornar-se-á duas vezes mais pesado. Simples opiniões converter-se-ão em dogmas»14.

*
*    *

Numerosos protestantes sinceros fizeram eco a essas críticas severas dos frutos da Reforma. No começo do século XX, alguns eminentes protestantes da Alta Igreja alemã lamentavam os frutos amargos da Reforma e estimavam que, em vez de celebrar o quarto centenário das teses de Lutero, eles deveriam, ao contrário,

«fazer penitência vestidos de saco e cinza; o movimento da reforma, que aconteceu em 1517, alcançou alguns bons resultados; porém, contribuiu muito mais para piorar a situação; e, se tal movimento expulsou um diabo, introduziu outros sete ainda mais cruéis15. Lutero avançou sobre seu século como um demônio, esmagando sob seus pés o que mil anos haviam venerado16. Quanto diminuiu nossa estima pelo Reformador depois dos estudos que nossos próprios investigadores fizeram sobre Lutero! Quanto diminuíram seus méritos! Tínhamos acreditado que lhe devíamos o espírito de tolerância e a liberdade de consciência, e não é assim absolutamente! Tínhamos reconhecido em sua tradução da Bíblia uma obra-prima que ostentava o selo da originalidade: hoje, devemos nos dar por contentes de que não seja considerada como um simples “plágio”! Ao julgar o conjunto dos “resultados” de seu trabalho, não podemos deixar de nos perguntarmos: Então, o que resta de Lutero?» 17.

O que resta de Lutero, respondem os católicos, é a ruína dos fundamentos da religião cristã e de toda religião, sob o efeito do princípio do livre exame, que é o eco do «Non serviam» de Lúcifer. A Reforma, em vez de reformar verdadeiramente o homem, o deformou e literalmente o perverteu. Como? Bastava separar o homem do elemento divino, isto é, reduzi-lo a suas próprias forças. Tratava-se de isolar o homem e separá-lo de Deus até no seio da religião. Lutero conseguiu realizar esse espantoso prodígio. Ele inventou a religião do livre exame, em que toda a fé do crente procede do mais recôndito de sua pessoa. Criou um cristão que, em face da Igreja, da intérprete da verdade divina, proclama a soberania da sua própria razão. Assim, na pessoa de Lutero, assistimos o aparecimento do Eu no âmbito espírito e da vida religiosa. Essa é a essência do modernismo, desde Kant até nossos dias. 

(100 anos de modernismo. Tradição: R. Bellei)

  1. 1. Lutero, ao fim de sua vida, em Hughes, A Popular History of the Reformation, p. 104.
  2. 2. Rom 7, 23-24.
  3. 3. Rom 1, 16-17.
  4. 4. Maritain, Trois réformateurs, «Lutero», cap. 4.
  5. 5. Frase de Décimo Junio Juvenal (55-138 d.C.), escritor satírico romano, em sua obra Sátiras. Juvenal colocou  a expressão, em seu texto, na fala de uma mulher cheia de caprichos e, principalmente, autoritária. É uma frase comumente utilizada para representar até onde pode ir a prepotência daqueles que não querem seguir a lógica, mas preferem impor sua vontade de forma arbitrária e, muitas vezes, tirânica, aos outros. (Nota do Tradutor).
  6. 6. Lc 1, 28.
  7. 7. Na versão da bíblia luterana, “atualizada” por João Ferreira de Almeida, o versículo citado é assim descrito: “E, entrando o anjo onde ela estava disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo”. (Nota e grifo do Tradutor).
  8. 8. Sammtliche Werke (Obras reunidas) 63, 169-170, em O’Hare, pp. 202-203.
  9. 9. Escrito em junho de 1522, em Maritain, Trois réformateurs, «Lutero», cap. 3.
  10. 10. Articles Smalcaldiques, 1537.
  11. 11. Lutero, Le serf arbitre.
  12. 12. Lutero, Tischreden, 1531, em Maritain, Trois réformateurs, «Lutero», cap. 3.
  13. 13. Citado por A. Sabatier, Journal de Genève, 5 de maio de 1896, Cf. Mourret, Histoire de l’Église, V, p. 350.
  14. 14. Em Ploncard d’Assac, La Iglesia ocupada, p. 10.
  15. 15. DAFC, «Réforme», col. 686.
  16. 16. Professor Seeberg de Berlín, em O’Hare, Facts about Luther, p. 4.
  17. 17. Braun, em Evangelische Kirchenzeitung, março de 1930, p. 195, citado por O’Hare, Facts about Luther, pp. 4-5.

Catolicismo e astrologia

 

Parte I: O Ensinamento dos santos doutores

Santo Tomás, logo no início de sua epístola sobre o tema, afirma que não procurará escrever senão sobre aquilo que ensinaram os santos doutores (ea quae a sacris doctoribus traduntur). Com efeito, a oposição às adivinhações astrológicas e outras supertições não é uma peculiaridade do Aquinate — ao contrário, é ela quase tão antiga quanto a própria Igreja. Façamos um breve retrospecto e ouçamos a voz da Igreja.

Talvez a primeira coisa que se deva dizer acerca da consulta aos astros é que ela está formalmente condenada desde os primeiros séculos da Igreja, como se vê no Denziger:

[Dz 35] Se alguém pensa que se deve crer na astrologia, seja anátema. [Concílio de Toledo, ano 400].

E, novamente, pelo Papa João III, no século VI:

[Dz 239] Se alguém crê que as almas humanas estão ligadas a um signo fatal, como disseram os pagãos e Prisciano, seja anátema.

Estas definições, suficientes para todo católico que não tem nem quer ter espírito de revolta, foi ainda repetida por inúmeros Santos, Doutores e Teólogos. Mesmos em tempos mais recentes, não deixou o Magistério de condená-la, como se vê em trechos do Catecismo de S. Pio X.

As condenações à astrologia são antiquissimas. Se tentássemos fazer uma história destas condenações, começaríamos com as próprias Sagradas Escrituras: Dt. 4:19, 17:3, 2 Rs. 17:16, 21:3 Jr. 8:2.

Passaríamos, em seguida, ao Catecismo dos Apóstolos, chamado Didaqué:

“[...] Também não pratique encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira ver ou ouvir sobre essas coisas, pois de todas essas coisas provém a idolatria.” [Didaqué, ed. Paulus, 1989, pp. 12-13]

Mais um passo, e encontraríamos as objeções dos Padres da Igreja. Citemos alguns autores:

— Tertuliano: “Observamos entre as artes algumas acusáveis de idolatria. Dos astrólogos, nem deveríamos falar; mas como nesses dias um deles nos desafiou, defendendo em proveito próprio a perseverança nesta profissão, direi algumas palavras. Alego não que ele honre ídolos, cujo nome escreveu nos céus, para quem atribui todo o poder de Deus... Proponho o que segue: aqueles anjos, os desertores de Deus [demônios]... eram muito provavelmente os descobridores dessa curiosa arte [a astrologia] por isso mesmo condenada também por Deus” (Idolatria 9 [211 D.C ]).

— Hipólito: “Quão impotente é o sistema [astrológico] para comparar as formas de disposições dos homens com os nomes das estrelas!” (Refutação de Todas Heresias 4:37 [228 D.C.]).

— Taciano o Sírio: “[Sob a influência de demônios] os homens formam o material de sua apostasia. Tendo a eles mostrando o plano da posição das estrelas, como jogadores de dados, introduzem o Destino, uma injustiça patente. O julgamento e o julgado são feitos pelo Destino, os assassinos e os assassinados, os afluentes e os necessitados – [todos são] o produto do mesmo Destino” (Discurso Aos Gregos 8 [D.C. 170])

 

Escutemos agora os Doutores da Igreja:

— Sto. Atanásio: “Donde ser verdade que os autores de tais livros [os astrólogos] acarretaram a si próprios uma dupla reprovação, pois aprofundaram-se em uma desprezível e mentirosa ciência”. (Carta de Páscoa 39:1 [D.C. 367])

— Sto. Basílio Magno: “Aqueles que ultrapassam os limites, fazendo das palavras da Escritura sua apologética para a arte de calcular temas de genitura [horóscopos], pretendem que nossa vida dependa da moção dos corpos celestes, e assim os Caldeus leem nos planetas o que nos ocorrerá”. (Os 6 dias da Criação 6:5 [D.C. 370])

— Sto. João Crisóstomo: “(...) E de fato uma treva profunda oprime o mundo. É ela que devemos fazer dissipar e dissolver. E tal treva não se encontra somente entre os heréticos e os gregos, mas também na multidão do nosso lado, no que diz respeito às doutrinas da vida. Pois muitos [os Católicos] descrêem inteiramente na ressurreição; muitas fortificam-se com o horóscopo; muitos aderem a práticas supersticiosas, augúrios e presságios”. (Homilias sobre Coríntios I, 4:11 [D.C. 392])”.

— Sto. Agostinho: "O bom cristão deve precaver-se de astrólogos e outros adivinhadores ímpios" (cit. na Suma Teológica de Sto. Tomás, IIa IIae., q.95, art.5).

Para não nos alongarmos demasiadamente em citações, mencione-se apenas que também condenaram a astrologia Sto. Isidoro de Sevilha, na sua obra Etimologias, Sto. Boaventura, no Hexaemeron (onde qualifica a astrologia de “abuso da razão”), Sto. Afonso Maria de Ligório, doutor em teologia moral, para quem praticar astrologia é incorrer em pecado mortal (Comentário aos Dez Mandamentos).

Parte II: A posição de Santo Tomás de Aquino

Para maior esclarecimento quanto à posição de Santo Tomás de Aquino, publicamos estas notas extraídas das “Conclusões” do capítulo X do livro "Les corps célestes dans l´univers de saint Thomas d´Aquin", de Thomas Litt, O.C.S.O (Publications Universitaires — Louvain, Belgique, 1963, p. 240-241). Entre colchetes, algumas observações de nossa autoria:

 

Finalmente cremos poder resumir como segue a posição de Santo Tomás com respeito à astrologia:

 

1. Ele afirma como absolutamente certo o princípio geral de uma influência universal dos corpos celestes sobre todos os eventos corporais da terra, incluídos os eventos fisiológicos concernentes aos animais e aos homens.

É para ele uma certeza filosófica absoluta; é, ademais, uma verdade de senso comum (II Sent., 15, 1, 2, c.) e é também uma verdade ensinada pelas "autoridades dos santos" (ibidem); ele cita notadamente Dênis e Santo Agostinho (p.ex., Ia, 115, 3, sed contra).

[A influência admitida restringe-se aos eventos corporais. Nisso, na Suma Contra os Gentios, Santo Tomás é taxativo: "é impossível que a operação intelectual esteja sujeita aos movimentos celestes" (III. 84). Da mesma forma, nega qualquer influência dos astros sobre nossa vontade, como se vê na epístola supra, "... é preciso absolutamente compreender que a vontade do homem não está sujeita à necessidade dos astros". Assim, Santo Tomás exclui do raio de influência dos astros justamente as faculdades que especificam o homem — os intelectos e a vontade.]

 

2. Ele afirma com igual certeza que a influência dos corpos celestes sobre os atos humanos é indireta e jamais necessitante. Acrescenta que a opinião contrária é herética, porque exclui a liberdade humana.

[Isso fica claro nessa passagem da C. G. (III. 85): "[os corpos celestes] podem ser, não obstante, causa ocasional indiretamente (...)". E o exemplo clarifica: "por exemplo, quando por disposição dos corpos celestes o ar se esfria intensamente, decidimos esquentar-mo-nos no fogo ou outras coisas em consonância com o tempo".]

 

3. Ele não se pergunta nem uma única vez se o axioma ou postulado astrológico fundamental é fundado ou não: a importância decisiva, sobre todo o futuro de um homem, da configuração do céu no momento de seu nascimento (tema de genitura).

Não encontramos senão uma só vez em Santo Tomás a palavra nativitas no sentido de tema de genitura: na citação do Centiloquium que referimos na p. 233. Esta citação é aliás a única predição astrológica concreta que encontramos, e é introduzida por uma formula muito dubitativa.

Sucede-lhe outra vez mencionar os patronatos estrelares dos sete dias da semana, mas é para observar que se pode, sem perigo para a fé, adotar ou rejeitar essa teoria.

 

4. Ele admite que, em princípio, os astrólogos predizem corretamente o futuro dos homens. Eis as dez referências que conhecemos. Nas três últimas em data, diz que as predições são justas ut in pluribus.

II Sent., 7, 2, 2, ad 5: Quando as predições têm em vista os atos humanos livres, são amiúde falsas.

II Sent., 15, 1, 3, ad 4: As predições são verdadeiras, mas porque os demônios ajudam o astrólogo.

II Sent., 25, 2, ad 5: As predições fazem-se conjecturaliter et non per certitudinem scientiae.

C. G. III, 84: Os astrólogos podem julgar do nível intelectual de um homem (não há indicação sobre a frequência dos julgamentos justos).

C. G. III, 85: A impressão das estrelas produz seu efeito na maior parte dos homens, a saber, naqueles que não resistem a suas paixões.

C. G. III, 154: Os demônios podem fazer muitas predições justas (mais acima Santo Tomás mais ou menos equiparou a ciência das demônios e a dos astrólogos).

De sortibus, c. 4, n. 660: Os astrólogos predizem justamente quandoque, e enganam-se amiúde nas predições particulares.

Ia., 115, 4, ad 3: Os astrólogos predizem justamente ut in pluribus, sobretudo nas predições gerais.

Ia.IIae., 9, 5, ad 3: Eles predizem justamente ut in pluribus.

IIa. IIae., 95, 5, ad 2: Eles predizem justamente frequenter.

5. Acerca da licitude da adivinhação astrológica, temos seis textos, onde o ensinamento permanece constante ao longo da carreira de Santo Tomás, sem que se possa discernir uma evolução nem para mais nem para menos severidade.

A doutrina resume-se a isto: não é supersticioso nem ilícito buscar prever pelos astros as secas, as chuvas etc. É supersticioso e ilícito buscar prever pelos astros as ações livres humanas, e, segundo a autoridade de Santo Agostinho, o demônio imiscui-se amiúde nesse gênero de consultas, que se tornam por isso mesmo um pacto com o demônio.

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