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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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O Cruzeiro, 12 de Outubro de 1968.

 "Gustavo Corção lança seu protesto contra o "esquerdismo" na Igreja. O movimento já possui sede própria no Cosme Velho e está pronto para promover o lançamento de uma revista, através da qual pretende denunciar aos "bons católicos" a presença do comunismo no clero. (...)".

 

PERMANÊNCIA 

Gustavo Corção lança seu protesto contra o "esquerdismo" na Igreja. O movimento já possui sede própria no Cosme Velho e está pronto para promover o lançamento de uma revista, através da qual pretende denunciar aos "bons católicos" a presença do comunismo no clero.
 
 
 
texto de Anibal Fernando        foto de Ubirajara Oettmar
 
A Igreja anda muito preocupada com as mudanças sociais. Alguns setores do clero já admitem até a violência para uma afronta total às estruturas vigentes. Gustavo Corção está revoltado. Em setembro ele leu em O CRUZEIRO uma entrevista do padre Sérgio Zanella que afirmava que "a Igreja de hoje não passa de uma empresa econômica". Foi a última gota, Corção preparou a resposta:
 
— O movimento Permanência é motivado pela soma de erros e disparates que essa ala católica, cada vez menos católica, tem produzido. Mas a principal razão de um movimento cristão é o testemunho positivo pedido por Nosso Senhor nos últimos momentos de seu convívio entre os homens: "Sereis minhas testemunhas".
 
Igreja Dividida
 
O movimento Permanência nasceu de um artigo de jornal que Gustavo Corção escreveu. Ele, nesse artigo, criticava severamente o esquerdismo católico que começava a se manifestar no país. Quase que imediatamente começaram a aparecer cartas de apoio dos leitores. Corção se entusiasmou e levou a idéia adiante: procurou local para sede do movimento e alugou uma casa na rua Come Velho, 450. Pensou-se no lançamento de uma revista que pudesse servir de porta-voz, e seus colaboradores foram escolhidos entre os católicos que compartilham das idéias defendidas pela Permanência. No último domingo dom Jaime de Barros Câmara celebrou uma missa em ação de graças pelo lançamento da revista e pela inauguração da sede. A revista, que também tem o título Permanência, já tem 1.000 assinantes. Corção diz que sendo ela uma revista de cultura sua circulação será reduzida. No entanto, todos esperam atingir um público católico de 5.000 leitores.
 
— O sr., como conservador, condena o progressismo nos meios católicos?
 
— Não posso aceitar esta divisão com que eles pretendem nos relegar para um passado esquecido e remoto. A divisão que existe não é entre progressistas e conservadores. Todos nós queremos progredir no que se deve progredir e queremos conservar o que se deve conservar. Pessoalmente, não tenho sequer a índole conservadora, sendo até professor de técnicas moderníssimas. A divisão, a cisão por eles provocada, é mais grave e separa a doutrina certa das fantasias e dos erros. Não se trata de dividir os católicos entre esquerda e direita, com critérios da questão social. Todos nós, da Permanência, queremos um mundo melhor, mais justo, em que se possa viver mais dignamente. Repelimos energicamente essas correntes que querem a massificação do homem e que de mil maneiras tornam cada dia mais baixa e vil a condição humana.
 
72 anos, cabelos brancos, seis livros publicados, Gustavo Corção vai falando tudo isso no escritório da sua residência, na rua Marechal Pires Ferreira, no Cosme Velho. As paredes do seu gabinete de trabalho são completamente cobertas por quadros e fotos: Pio XII, João XXIII, Paulo VI, entre outras. O restante do espaço é ocupado por estantes de livros. No canto, uma vitrola, que foi montada pelo próprio Gustavo Corção.
 
Padres de Passeata
 
— Padres em protesto de rua, reforma agrária, reformas estruturais, tudo isto foi provocado pelas preocupações sociais da Igreja?
 
— Considero um dos mais tristes espetáculos dos tempos a demagogia dos padres de passeata, que assim estimulam os maus estudantes que perturbam toda a vida universitária, no mundo inteiro. Trata-se de uma doença do espírito, tornada contagiosa pelos meios de comunicação. Não, a Doutrina Social da Igreja jamais produziu tais fenômenos. Os agitadores de tipo comuno-católico distorcem os próprios termos dos documentos que citam.
 
No recente Congresso de Medelin, durante a reunião da CELAM, na Colômbia, setores do clero lá presentes manifestaram a necessidade de se fazer uma reforma agrária na América Latina, com as próprias terras da Igreja, e o pensador Gustavo Corção diz que esse fato "prova luminosamente que os autores dessa idéia não entendem nada de reforma agrária, já que imaginam que o primeiro artigo de tal progresso consiste na divisão de terras, e também prova a falta de objetividade, para não dizer que prova a demagogia de seus autores".
 
Movimentos à semelhança de Permanência têm surgido no seio da Igreja depois que o Papa Paulo VI afirmou em documentos a preocupação social. Radicais, conservadores, extremados, moderados, estão cada vez mais acentuando as suas posições. Um desses movimentos, a TFP, com tendências direitistas, vem preocupando todos. Gustavo Corção também tem sua opinião:
 
— Essas coisas mais ou menos acertadas, mais ou menos antipáticas, cabem dentro da Igreja militante. O que não cabe é a ideologia que fere a lei natural e assim ofende seu Autor, como os que pretendem a massificação do homem, à semelhança do que se faz na Rússia, na China e do que se fez anos atrás na Alemanha de Hitler. Isto para a Igreja, como já foi dito por Pio XI, Pio XII, João XXIII, é intrinsecamente mau. O nosso movimento não tem vinculação com aqueles movimentos chamados "de direita".
 
Igreja Afrontada
 
Gladstone Chaves de Melo, Alfredo Lage, Aíla Gomes e Cláudio Braga são os principais membros da Permanência. Na sede, eles estão ainda preparando os últimos detalhes. Há um salão onde serão promovidas reuniões e aulas e três pequenos escritórios. O título da revista está por todo lado, todos preparam o primeiro número. Gustavo Corção tem preocupações para manter o movimento. As aulas que serão promovidas serão pagas e também ser esperam doações que já começam a ser feitas.
 
— As idéias errôneas que já não hesitam em afrontar o magistério da Igreja estão levando para fora dela seus infelizes seguidores.
 
Gustavo Corção se refere às críticas e às declarações que setores do clero têm manifestado. Ultimamente até a violência, empregada nas mudanças sociais, tem sido defendida:
 
— O que importa não é a violência ou a não-violência. Em si mesma a violência é moralmente neutra. Pode ser boa ou má. O que acho péssimo nesses grupos não são os meios com os quais pretendem chegar aos fins e sim os próprios fins desejados. Mesmo sem violência, a comunização seria abominável.
 
— As reformas que a Permanência defende são aquelas preconizadas pela doutrina social da Igreja, a começar pelo homem interior, pelas virtudes, e não pelas estruturas exteriores cuja reforma viria por via de insegurança. A doutrina que nega este primado do homem interior e quer buscar o mundo novo, de fora para dentro, é o que chamamos de massificação do homem. Contra isso lutaremos com todas as nossas forças.
 
Em tese, a Permanência é a favor da continuação das estruturas. Gustavo Corção diz que não existem erros que comprometam qualquer estrutura; o que há de errado está no homem indivíduo, quando ele toma a liderança.
 
— A Permanência se propõe a causar polêmicas, a responder as declarações do clero consideradas esquerdizantes?
 
— Não, nosso propósito é dar testemunho, pregar a verdadeira doutrina social. Mas não fugiremos do que julgarmos errado. Estamos aqui para defender a Igreja.
 
(O Cruzeiro, 12 de Outubro de 1968)
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