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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Pe. Peter Scott, Fsspx (11)

Como responder a alguém que crê que sua alma eterna teve vidas passadas?

Como responder a alguém que crê que sua alma eterna teve vidas passadas?

O primeiro ponto a ser estabelecido em qualquer resposta, sempre, é reconhecer o elemento de verdade na afirmação da outra pessoa. O elemento de verdade, aqui, é que a alma é “eterna”, não no mesmo sentido em que Deus é eterno, mas, usando uma expressão católica, no sentido de que ela é imortal, ou seja, de que ela não pode morrer ou deixar de existir de algum modo. Agora, essa alma que não pode morrer é sempre a mesma. Ela não pode ser uma alma diferente ou a alma de um ser diferente e, ainda assim, continuar sendo uma alma imortal.

Disso já podemos refutar a reencarnação, na qual a mesma alma passaria por vários níveis de existência, passando, por exemplo, por uma vida animal. Se tal fosse o caso, ela não seria a mesma alma, o mesmo indivíduo, idêntica a si mesma. Seria uma alma diferente, isto é, um princípio de vida diferente da que era. A razão disso é que a alma é o princípio da vida, e a mesma alma não pode ser o princípio de dois tipos diferentes de vida, animal e humana.

Essa pessoa, porém, parece estar dizendo que ela teve várias vidas humanas. A primeira e mais óbvia pergunta a se fazer a ele é que prove essa afirmação, algo que ele, obviamente, não tem como fazer. Qualquer memória que ele tenha poderia ser só a imaginação dele, e elas têm que ser provadas por algum referencial exterior para que essas afirmações possam ser levadas a sério.

Porém, o mesmo argumento filosófico pode ser usado contra a reencarnação. Se uma alma tivesse tido uma vida diferente, então ela seria uma alma diferente e um ser individual diferente do que ela é hoje. A alma não pode mudar sua matéria e tornar-se a forma de um corpo, e, após, de outro corpo; agora, de um ser, depois, de outro ser. Ela teria que ser uma alma individual diferente para tomar um corpo ou ser individual diferente. Portanto, não pode ser a mesma pessoa que tem vidas diferentes. A pessoa humana é composta de corpo e alma, de modo que, assim que você altera um, imediatamente você altera o outro.

Isso não pode ser negado por ninguém que reconheça que o homem tem um lado espiritual nele (suas faculdades do intelecto e da vontade), bem como um lado corporal. O corpo e a alma andam juntos, a alma dando forma ao corpo, e o corpo, por natureza, sendo o corpo dessa alma. Afirmar que os dois podem ser separados vai contra todos os indícios dos sentidos, que apontam para a unidade do homem, corpo e alma. Portanto é impossível afirmar que uma pessoa teve vidas corporais diferentes.

É permitido a um homem casado servir no altar?

Pe. Peter Scott, FSSPX

 

É permitido a um homem casado servir no altar?

O serviço do altar no Santo Sacrifício da Missa tem tão elevada dignidade que a Igreja consagrou as várias funções do servidor do altar pelas ordens menores. O Hostiário recebe o poder de soar os sinos e de segurar os livros, o Exorcista recebe o poder de despejar água no Lavabo, e o Acólito recebe o poder de carregar as velas e de trazer água e vinho ao altar para o Santo Sacrifício da Missa. Em cada caso, a consagração do clérigo a Deus é simbolizada pelos movimentos exteriores que ele pratica no altar, de modo que o Hostiário dê bom exemplo aos fiéis através de sua vida, para que os chame à oração; o Exorcista dê o exemplo de pureza de alma, e o Acólito dê o exemplo de luz de bondade, justiça e verdade para iluminar os fiéis e a Igreja de Deus, e também de espírito de sacrifício através de uma vida casta e boas obras (cf. Pontificale, Cerimônias da Ordenação)

A adequação do serviço do altar por um clérigo está diretamente relacionada com a sacralidade de sua função, que requer um homem consagrado a Deus. Além disso, é uma função pública, razão pela qual, como São Tomás assevera, “ele assume o papel de todo o povo católico, em cujo lugar ele responde as orações do Padre, que se dirige a ele na forma plural” (III, q. 83, a. 5 ad 12). Consequentemente, é eminentemente adequado que essa função seja desempenhada por um clérigo tonsurado, o qual se tenha, publicamente, revestido “do novo homem, que foi criado de acordo com Deus em justiça e em santidade na verdade” (ibid.), e isso ainda que não haja fiéis presentes.

Portanto, se um clérigo tonsurado estiver presente, ele deve fazer o serviço do altar. Porém, raramente esse é o caso, e, ainda assim, a Igreja requer que haja um servidor do altar. Em sua encíclica de 1947 sobre a Sagrada Liturgia, o Papa Pio XII ensina isso claramente: “É nosso dever e mandamento – assim como mandamento da Santa Madre Igreja –   que, por reverência pela dignidade desse augusto sacrifício, nenhum Padre deve se dirigir ao altar sem um servidor que assista e responda na Missa de acordo com a prescrição do Cânone 813” (Mediator Dei, §97). Esse Cânone afirma, em efeito, que o Padre não deve celebrar sem um servidor (ministro) que o sirva e responda às orações, e, além disso, esse servidor não pode ser uma mulher, exceto no caso de ausência de homem e na presença de justa causa, hipótese em que ela poderá responder às orações à distância e, de maneira alguma, aproximar-se do altar. Nesse caso, é claro, ela não é um servidor do altar. A razão para excluir as mulheres deriva do que se disse acima sobre a natureza pública e litúrgica da função do serviço do altar, que envolve uma espécie de liderança espiritual do povo católico.

Em seu comentário sobre a presente questão, o Pe. O’Connell diz: “Apesar dele [o servidor] dever ser um clérigo, na prática, servidores que não sejam clérigos são permitidos” (The Celebration of Mass, p. 365). Isso é confirmado pela sessão no Missal que enumera os defeitos que podem ocorrer durante a celebração: “se nenhum clérigo ou outra pessoa que possa servir estiver presente, ou se a pessoa presente é alguém que não pode servir, como uma mulher” (X, 1). Isso claramente significa que um homem não-clérigo pode servir e que isso não é um defeito; portanto trata-se de um costume universal.

Se os garotos, frequentemente, são usados no serviço do altar, é porque eles são todos vocações em potencial, presume-se que sejam castos e virtuosos e têm, ao menos, a possibilidade de tornarem-se clérigos no futuro, se assim for a vontade de Deus. A função, certamente, dá aos garotos uma grande oportunidade de desenvolver seu amor às belas cerimônias da Igreja, sua sacralidade e simbolismo, e, assim, eles vão se acostumar a prestar atenção aos detalhes, como os clérigos.

Porém isso não significa que um homem casado esteja, de algum modo, excluído do serviço. A questão chave, aqui, é lembrar que se trata de uma função pública, com um papel de liderança espiritual no que diz respeito aos fiéis na Missa. Consequentemente, é necessário que esse homem seja casto de acordo com seu estado de vida (castidade marital é uma virtude) e que ele seja um exemplo de virtude e que ele viva, ao menos, sua consagração a Deus realizada em seu batismo. Na verdade, seria muito mais adequado que um homem casado em estado de graça servisse do que um homem solteiro ou um garoto que não possa comungar por não estar em estado de graça, ou cujas vida e obras sejam causa de escândalo. Em cada caso, ele não pode esquecer que ele está cumprindo o papel de uma alma consagrada à elevada honra e glória do Deus Todo-Poderoso. A condição importante, porém, é que o homem casado não seja desleixado nas cerimônias, movimentos e respostas em Latim, e que ele preste tanta atenção a desempenhar essas funções quanto um clérigo prestaria, ou como um garoto que as está aprendendo pela primeira vez.

É pecado mortal votar em um candidato pró-aborto?

O ato de votar pode ser um ato virtuoso mesmo nas nossas democracias liberais, nas quais muito do sistema se opõe não apenas à nossa Santa Religião, mas até mesmo ao Direito natural em si. Porém, para um voto ser um ato virtuoso, ele deve ser direcionado ao seu fim, a saber, o bem comum. Consequentemente, é um pecado mortal votar em um candidato indigno, pois a escolha de um candidato cuja vida ou política é imoral é uma cooperação ilícita ao advento de um mal grave à sociedade. Não há a menor dúvida de que o aborto, o assassinato de inocentes, é um dos maiores males que afligem a sociedade moderna, e que esse pecado está clamando aos Céus por vingança. Consequentemente, não pode haver nenhuma justificativa para votar em algum candidato que seja pró-aborto ou tolerante ao aborto de algum modo.

Surge a questão, porém, de se poderia haver razão suficiente para votar em um candidato que tolera alguns abortos, por exemplo, para evitar um grave mal maior, como no caso de tentar derrotar um candidato que seja a favor de casamentos homossexuais ou que ativamente promova o aborto ou algum mal maior, como guerras injustas.

Os teólogos respondem que o ato de votar é uma cooperação material no mal que esse candidato pode causar e não necessariamente uma cooperação formal (cf. Prummer, III, §604). Isso significa que a pessoa que vota não necessariamente é diretamente responsável pelo que um mau candidato faz uma vez eleito, ainda que se tenha previsto que ele faria algumas más obras. Nesses casos de cooperação material, a Igreja permite a aplicação do princípio do voluntário indireto. É permitido, pois o ato de votar em si não é mal, e o fim é bom, a saber, evitar um mal maior. Porém, deve haver uma razão grave apta a justificar essa cooperação material, e todo tipo de escândalo precisa ser evitado. Esse poderia ser o caso, por exemplo, de uma pessoa que vota em um protestante cuja plataforma esteja, de modo geral, de acordo com o Direito natural, mas que pode ter alguns princípios equivocados acerca do divórcio ou do financiamento das escolas católicas ou sobre alguma outra questão. Nesse caso, seria permitido escolher o mal menor e votar em um candidato que não é inteiramente bom sob a condição de que haja uma razão muito grave, a saber, evitar um mal maior.

A questão aqui é se poderia haver uma razão grave suficiente a ponto de justificar que alguém vote em um candidato pró-aborto. É possível que haja um mal maior capaz de justificar essa participação no mal do aborto, ainda que seja apenas uma participação materia. -- Eu não consigo conceber como isso seria possível, pois o aborto é um crime horrível e perverso. É possível conceber um mal maior que permitiria alguém votar em um candidato que aceitaria (involuntariamente) abortos sob certas condições excepcionais como estupro, pois isso é frequentemente feito para evitar a eleição de um candidato que é positivamente pró-aborto. Isso é uma ocorrência frequente e certamente é permitido. Porém é inconcebível que um católico vote em um político que é positivamente pró-aborto simplesmente porque ele gosta das suas políticas fiscais ou sociais. Nesse caso não haveria justa proporção, e certamente tal ato seria um pecado grave, ainda que sua intenção fosse, apenas, a de uma cooperação material.

Se, em geral, ser um eleitor de um único tema é ser mente fechada demais, isso, certamente, não se aplica à questão do aborto. O bem comum absoluta e necessariamente requer a abolição dos abortos da vida pública, e isso é de tal maneira importante para o bem da sociedade que nenhuma pessoa poderia ser considerada imprudente por votar apenas baseada nesse tópico apenas.

 

- Pe. Scott, Fevereiro/Março de 2004.

É moralmente obrigatório votar?

Pe. Peter Scott, FSSPX

 

É verdade que os modernistas consideram a democracia e o direito ao voto como sacrossantos, uma consequência imediata da dignidade humana, diretamente conectada com a religião humanista deles.

Ao reagirmos a isso, sabendo como sabemos o quão injusto é o sistema eleitoral, percebendo como muito da democracia moderna é baseado no falso princípio da liberdade humana, alheio a toda lei moral e divina objetiva, estando cientes de quão pouca diferença real há entre os candidatos e de quão falsa é a impressão de que o voto de um único homem realmente vai fazer diferença para um sistema tão secular e ímpio, facilmente concluímos que não há obrigação de votar.

O ensinamento da Igreja nesse tópico não é nada de novo. Sem aprovar o sistema moderno da democracia e seu falso princípio de soberania do povo, a Igreja, de qualquer maneira, obriga-nos a contribuir com o bem comum da sociedade por obrigação de justiça. Esse princípio se expressa bem nas palavras do Papa Pio XII no seu discurso à Ação Católica Italiana de 20 de abril de 1946: o povo é chamado a tomar parte cada vez maior na vida pública da nação. Essa participação traz com ela graves responsabilidades. Daí a necessidade de que os fiéis tenham conhecimento claro, sólido e preciso de seus deveres nos domínios moral e religioso no que diz respeito ao exercício de seus direitos civis e, em particular, o direito ao voto.

Na verdade, o Papa havia explicado claramente que é precisamente tendo em vista o espírito secular e anticatólico ao redor dos católicos que eles têm o dever de defender a Igreja através do exercício correto do direito ao voto. É visando prevenir um mal maior. Ele havia afirmado, no dia 16 de março de 1946, aos párocos de Roma: o exercício do direito ao voto é um ato de responsabilidade moral grave, ao menos no que diz respeito a eleger aqueles que darão ao país sua Constituição e suas leis e, em particular, aquelas que afetam a santificação dos dias de preceito, o casamento, a família, as escolas e a regulação justa e equânime de muitas questões sociais. É dever da Igreja explicar aos fiéis os deveres morais que decorrem desse direito eleitoral.

O Papa Pio XII foi ainda mais explícito dois anos depois, novamente ao se direcionar aos párocos de Roma. Ele explicou que, nas exatas circunstâncias daquele tempo, todos os fiéis estavam obrigados, sob pena de pecado mortal, a votar, inclusive as mulheres. Apesar de ser verdade que, no conceito tradicional de democracia, apenas os chefes de família votam, é perfeitamente lícito às mulheres votar quando esse direito lhes é dado, e, na verdade, torna-se obrigatório fazê-lo quando o bem comum depende de todos os católicos usarem seu voto corretamente.

Aqui está o texto do dia 10 de março de 1948:

“Nas circunstâncias presentes, é obrigação de todos que têm direito de votar, homens e mulheres, tomar parte nas eleições. Quem se abstiver de fazê-lo, particularmente por indolência ou fraqueza, comete um pecado mortal por isso, uma falta mortal. Cada um deve seguir os ditames de sua consciência. Porém, é óbvio que a voz da consciência impõe a cada católico que dê seu voto aos candidatos que verdadeiramente oferecem garantias suficientes à proteção dos direitos de Deus e das almas, ao verdadeiro bem dos indivíduos, das famílias e da sociedade de acordo com o amor de Deus e o ensinamento moral católico.”

Essa aplicação do ensinamento da Igreja àquela situação particular daqueles tempos está de acordo com o ensinamento dos teólogos morais, que falam do grave pecado de se abster de eleger representantes bons, católicos, e do dever de fazer tudo ao nosso alcance para encorajar os leigos capazes a trabalhar no sentido de usar o sistema eleitoral para obter legisladores dignos.

Porém, quão distantes estamos dessa situação! Claramente, nós não estamos mais na circunstância de escolher entre representantes católicos ou não católicos, representantes moralmente retos ou liberais. Todas as alternativas são liberais, e a enganação e manipulação do público pela mídia não tem limites. Na prática, geralmente tudo se resume à questão de se é permitido ou não votar em um candidato indigno (p. ex., um candidato que só é favorável ao aborto em casos de estupro ou incesto) em razão de que ele, ao menos (supomos), seria o mal menor. Nesse caso, não há obrigação de votar, pois todas as razões que obrigariam, mencionadas pelo Papa Pio XII, não se aplicam. Ainda assim, ainda é permitido votar nesse caso, desde que se possa ter certeza de que, realmente, há um mal menor e desde que haja razão grave para agir assim (p. ex., para evitar a proliferação de abortos ou a promoção de métodos antinaturais de controle de natalidade) e desde que se tenha a boa intenção de contribuir com o bem comum da sociedade o melhor possível. Isso se chama cooperação material; ela, porém, não é obrigatória.

Consequentemente, no raro caso de que haja um candidato pública e claramente católico que apoia o ensinamento da Igreja, há a obrigação moral de votar sob pena de pecado mortal. Onde houver, claramente, um possível ganho do uso correto do voto em outro tipo de candidato, pode ser recomendado ou aconselhado. Porém, se não houver nenhuma vantagem clara, seria melhor abster-se até mesmo de uma cooperação material.

 

- Pe. Scott, Fevereiro de 2007.
 

É pecado omitir as orações antes e depois das refeições quando estou entre não católicos?

Pe. Peter Scott - FSSPX

 

Quem faz essa pergunta, talvez, tenha em mente a reação do pequeno João Maria Vianney, o futuro Cura d’Ars, que, quando à mesa com um mendigo que omitiu essa ação, deixou a mesa e passou a noite em jejum. Quando perguntado sobre essa reação por seus pais, ele simplesmente disse que não conseguiria comer diante de alguém comportando-se como um animal! Essa história nos lembra que fazer orações antes e após as refeições é um piedoso costume entre os católicos. Nosso Senhor, frequentemente, abençoava o pão e o repartia de uma maneira tão especial e religiosa que esse ato entregou Sua identidade aos discípulos de Emaús.

Porém, o que pensar de quem omite essas orações em público e entre não católicos? Por uma questão de princípio, devemos começar dizendo que não há nenhum preceito formal sobre orações nas refeições em qualquer dos ensinamentos de Cristo ou da Igreja. E, se não há nenhuma obrigação de rezá-las, então não há pecado em omiti-las. Além disso, essa omissão não necessariamente significa que a fé de alguém está esmorecendo ou que essa pessoa está sendo negligente com suas orações.

Estaríamos, aqui, lidando com um caso de dissimulação da fé? Poderia haver ocasiões em que o mero fato de fazer um sinal da cruz em público poderia causar uma intriga entre trabalhadores e levar a zombarias contra nossa religião. Esse fato, por si só, é uma razão suficiente para omitir essas orações em público, e bastaria rezá-las mentalmente.

Porém, em geral, a questão de rezar ou omitir as orações das refeições quando na presença de não católicos é mais uma questão de coragem vs respeito humano. Com mais frequência que o contrário, principalmente em um restaurante, onde as pessoas têm mais o que fazer além de denegrir a religião dos outros clientes, o fato de rezar as orações das refeições em família vai gerar respeito entre os outros clientes e entre os garçons. E isso pode levar até ao início de uma conversa sobre a fé com algum dos presentes.

A usura é pecado?

Pe. Peter Scott, FSSPX

Usura é a cobrança de juros pelo uso de dinheiro como se ele tivesse algum tipo de poder produtivo por si próprio. São Tomás de Aquino pergunta-se essa pergunta – a saber, a usura é pecado? - na Suma Teológica (II-II, q. 78, art. 1) e responde, categoricamente, de maneira afirmativa. A razão que ele dá para isso é que o dinheiro não é algo que permanece após ser usado (p. ex., uma casa, cujo uso é remunerado quando ela é alugada), mas que é consumido quando é usado (p. ex., comida, cujo uso não tem preço, apenas seu valor de venda). Essas são suas palavras:

Comete injustiça aquele que vende vinho ou trigo e que pede pagamento duplo, isto é, um pelo retorno da coisa vendida em igual medida, o outro pelo preço do uso, que se chama usura… Agora, o dinheiro, conforme o Filósofo, foi inventado principalmente com o propósito de troca; e, consequentemente, o fim principal do dinheiro é seu consumo ou alienação, através do qual ele se converte em troca. Consequentemente, é ilícito em essência receber pagamento pelo uso do dinheiro emprestado, cujo pagamento é conhecido como usura: e, assim como um homem está obrigado a devolver bens adquiridos ilictamente, também está obrigado a devolver o dinheiro que recebeu a título de usura.

Não há dúvida de que a usura é o que movimenta a sociedade capitalista moderna ao longo do seu caminho destrutivo do materialismo, e que isso é responsável por depressões e guerras mundiais. Se, porém, a usura sempre é um pecado mortal, isso não significa que não pode haver um juro justo, desde que ele não seja cobrado pelo valor do dinheiro em si, pois este é um mero meio de troca e não tem nenhum poder produtivo em si mesmo, como o trabalho ou um bem imóvel têm. O Pe. Walter Farrell, O.P., resume essa idéia bem em A Companion to the Summa (III, 239):

Onde houver usura, ela será errada, e sua malícia é evidente. É absurdamente simples entender que cobrar um homem duas vezes pela mesma coisa é sempre injusto, e é precisamente nisso que a usura consiste: ela vende a mesma coisa duas vezes. O truque só é possível quando a coisa vendida ou emprestada é consumida no seu primeiro uso, coisas como vinho, sanduíches ou dinheiro. Quando nós exigimos, além do montante original de dinheiro emprestado, uma quantia adicional pelo uso do dinheiro, nosso ato é o mesmo que vender a um homem um copo de vinho e, então, cobrar dele para que ele possa bebê-la.

Se mantivermos essa noção simples da usura em mente, não será difícil entender a distinção absolutamente necessária entre usura e juro lícito. Este é cobrado não pelo simples uso do dinheiro como na usura, mas a título extrínseco.

Títulos extrínsecos para um juro lícito podem incluir coisas como o risco de perder o dinheiro, o dano positivo causado ao credor por externalidades como inflação ou a produtividade humana que se torna possível se o dinheiro for investido para comprar ações de uma empresa, produzindo, assim, dividendos.

Os Padres da Igreja primitiva denunciavam a usura nos termos mais severos, e vários decretos eclesiásticos nos séculos XII e XIII corroboravam essa opinião sob pena de excomunhão e negação de exéquias. Houve, porém, um relaxamento das leis da Igreja nesse tema, pois o desenvolvimento do protestantismo a tornou socialmente aceitável, e o Capitalismo de livre mercado do Século XIX a tornou uma realidade inescapável da vida cotidiana. Esse relaxamento das leis da Igreja está presente no Código de Direito Canônico de 1917, Cânone 1543:

Se um bem que se consome com seu primeiro uso é emprestado sob a condição de que ela se torne propriedade do mutuário, que está obrigado a devolver ao mutuante não a coisa em si, mas apenas o seu equivalente, o mutuante não pode receber nenhum pagamento em razão do empréstimo em si. Ao dar ou emprestar esse bem, porém, não é ilícito em si mesmo fazer um acordo para recuperar juros à taxa permitida pela lei civil, exceto se essa taxa for claramente excessiva.

O Pe. E. Cahill, SJ, em The Framework of a Christian State, comenta e explica essa mudança da lei da Igreja:

“Pode-se, sem preocupações com a existência ou não de títulos extrínsecos (como perdas acidentais ocasionadas pelo empréstimo, o risco de não receber o pagamento, etc), receber juros ao índice estabelecido pela lei civil, desde que esse índice não seja manifestamente excessivo. A razão para essa mudança, ou mudança aparente, da atitude da Igreja em relação à usura é que, nos tempos modernos, em razão da organização capitalista da vida econômica, o dinheiro, praticamente, tornou-se uma forma de capital, e a Igreja segue sua política tradicional no que diz respeito a regular sua atitude em relação a ele. Como sempre, ela temporariamente ajusta sua disciplina, na medida do possível, às necessidades dos tempos, mesmo quando essas necessidades são resultado de um estado de coisas que ela não aprova, e ela permite que os fiéis ajam de acordo com costumes sociais permitidos pela lei civil, desde que esses costumes não sejam manifestamente imorais ou injustos” (p. 49)

Esse não seria o caso, porém, de uma sociedade que reconhecesse e canonizasse o Reinado Social de Cristo.

 

- Pe. Scott, Julho de 1998

É permitido a um católico especular na bolsa de valores ou no mercado de câmbio?

A lei natural do direito à propriedade privada traz consigo o direito de comprar e vender, possuir e, conseqüentemente, negociar bens como ações de empresas públicas ou privadas. Esse investimento privado é, de fato, absolutamente essencial para o bem comum, pois sem capital não pode haver produção. O fato de o resultado de tais investimentos ser altamente arriscado não altera a moralidade, desde que um homem não invista os fundos necessários para o sustento de sua família. Tampouco se o ganho de um homem for, paralelamente, a perda de outrodesde que não haja engano, fraude ou que se tire proveito da ignorância dos demais.

Especulação, no entanto, não é a mesma coisa que investimento, mas é a colocação de dinheiro a curto prazo, em ações ou moedas, a fim de obter um ganho rápido com uma venda rápida no momento em que o mercado estiver forte. 

Tal especulação não é contrária à justiça, uma vez que os termos do contrato são mantidos, nem pode ser considerada em si um pecado, uma vez que todos os termos dos vários contratos de compra e venda e os requisitos do direito civil são observados. No entanto, "eles não são moralmente louváveis, a menos que sejam exigidos por alguma necessidade comercial" (Merkelbach, Summa Theologiae Moralis, II, §604).

O princípio é dado pelo Papa Pio XII em uma mensagem de rádio para o mundo inteiro, em 1º de setembro de 1944, na qual ele condena não apenas o comunismo, por sua negação do direito à propriedade privada, mas também “o capitalismo... fundado em uma concepção errônea que arroga para si um direito ilimitado sobre a propriedade fora de toda subordinação ao bem comum", tendo isso sempre sido condenado pela Igreja "como algo contrário à lei natural”1

O católico de reta consciência deve fazer uso do seu capital e de seus investimentos não apenas para seu próprio lucro, mas também para o bem comum da sociedade. É altamente duvidoso que especulações transitórias nos mercados acionários ou monetários redundem em alguma contribuição real ao bem comum. Ao contrário, devem ser supostas como egoístas e prejudiciais ao bem comum.

O Pe. Merkelbach explica o porquê de não considerar a especulação como algo moralmente louvável: 

“[tais especuladores] retém indevidamente seu capital em operações intermediárias que não têm utilidade real; e buscam obter riquezas sem mão de obra proporcional e sem subordinação ao bem comum, com prejuízo aos outros que não se expõem livremente ao acaso, mas são obrigados a fazê-lo por razões comerciais. Além disso, o costume de se preocupar com especulações monetárias leva a um desejo avassalador de ganhos, ao qual subordinam todas as coisas e todas as atividades; engendra uma ansiedade constante e expõe empresas e famílias a um grande perigo de desperdício, ociosidade e ruína financeira." (Ibidem)

É lamentável que alguns católicos tradicionais considerem que esse modo de vida seja compatível com o Reinado Social de Jesus Cristo, engajando-se, como fazem, em tais comércios pela Internet, sem se perguntarem se esse comércio especulativo poderia servir a Cristo Rei, ou talvez seguindo o falso princípio de que os fins justificam os meios. Podemos conhecer o pensamento da Igreja sobre esse ponto na tradicional interdição do Código de Direito Canônico (1917) desse tipo de especulação dessa sorte para todos os clérigos e religiosos, mesmo se feita em benefício da Igreja ou de outras pessoas (Can. 142).

-Fr. Scott, maio de 2007

  1. 1. Disponível no site do Vaticano (em espanhol): http://w2.vatican.va/content/pius-xii/es/speeches/1944/documents/hf_p-xii_spe_19440901_al-compiersi.html

O uso de armas nucleares em tempos de guerra pode ser justificado?

Os princípios tradicionais da moralidade católica expressamente proíbem todo e qualquer uso de armas nucleares em tempos de guerra. A razão para isso é que, como os autores dizem, assassinar inocentes é um ato ilícito e imoral que não pode ser justificado pelo objetivo de vencer a guerra. Os não-combatentes, isto é, aqueles que não contribuem direta ou indiretamente para o sucesso dos atos de guerra do inimigo, devem ser considerados como inocentes. Atacá-los diretamente por qualquer razão, como abalar o ânimo da nação, é um ato imoral. Entende-se que a morte de inocentes pode, ocasionalmente, acontecer como um efeito colateral da guerra, mas não como um efeito primário, diretamente buscado. Nesse caso, não é imoral, mas desde que não seja algo desejado, mas apenas um efeito colateral inevitável de uma ofensiva agressiva ou do bombardeiro de alvos militares.

Porém, as armas nucleares provocam destruição em massa de populações civis inteiras e não podem ser utilizadas para atacar alvos militares isoladamente. Portanto, a morte de civis inocentes e de não-combatentes não é um mero efeito colateral: é o que se busca diretamente. Isso é manifestamente imoral, não importando que a guerra seja justa.

Essa realidade deve, porém, ser modificada em razão da natureza dinâmica da guerra no mundo moderno. Surgiu uma nova forma de barbarismo que responde pelo nome de “guerra total”. Desde a Guerra Civil Americana, as guerras modernas não têm sido um simples conflito entre combatentes de ambos os lados, e essa realidade tem aumentado de maneira cada vez mais intensa. Todos os recursos de um povo passaram a ser direcionados para a guerra e para a destruição total do inimigo, incluindo a indústria, a educação e toda a infraestrutura de uma sociedade. Esse conceito de guerra é manifestamente imoral e não pode, de maneira alguma, ser usado para justificar a morte de inocentes ou de não-combatentes.

A dificuldade surge quando uma nação inimiga passa a empregar a técnica da guerra total. Pode acontecer de a única maneira de se defender contra um agressor injusto em uma guerra imoral como essas seria responder à altura, alocando todos os recursos do país e atacando os alvos civis do inimigo (cf. Fagothey, Right and Reason, p. 572). A justificativa para essa resposta seria que, nesse caso, não existem não-combatentes e que, como a população inteira está envolvida na atividade de guerra inimiga, então todos podem ser alvos de agressão para autodefesa. Apesar disso poder ser admitido como uma possibilidade teórica, seria uma decisão extremamente difícil de se tomar.

Consequentemente, pode-se imaginar uma situação na qual a morte de um grande número de civis através do uso de armas nucleares poderia ser justificado através do princípio do efeito duplo, ou seja, como um meio necessário para se vencer uma guerra justa. Porém, mesmo nessas circunstâncias, teria que haver uma razão proporcional ao mal que a morte de inocentes representa, a saber, o bem desejado. Meu ponto é que, no mundo moderno, essa razão proporcional jamais poderia ser imaginada. O uso de uma arma nuclear acarreteria o uso de outras armas nucleares pelo inimigo ou por seus aliados, e um ciclo de destruição inacreditável seria criado, o que faria a situação geral ser um mal muito maior do que mesmo perder uma guerra justa.

Consequentemente, parece-me que, ainda que se conceda a possibilidade teórica de a guerra total ser respondida com uma guerra total, na prática, o uso de armas nucleares jamais seria permitido.

É patente que o uso de armas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, em 1945, foi imoral. Naquele momento, não havia ameaça às populações civis nos países aliados, nem se poderia dizer que havia uma guerra total. Certamente não havia razão proporcional ao sofrimento dos civis, destruição e miséria que resultaram, sem mencionar o escândalo público e o horror de que uma nação “civilizada” perpetrou um ato tão bárbaro contra inocentes.

 

— Pe. Scott, Maio de 2003.

Pode um apóstata salvar sua alma se morrer no estado de apostasia sem arrepender-se?

Apóstata é a pessoa que já foi católica e que abandonou toda a prática da religião. Por ter recebido e crido na fé católica e por ter conhecido ao menos alguma coisa da ordem sobrenatural da graça, não é possível que tal pessoa esteja de boa fé, como seria possível a um protestante que parou de praticar sua falsa religião. A razão para isso é que a boa fé pressupõe ignorância invencível. Ignorância invencível só é possível para aqueles que não têm possibilidade de conhecer a verdade acerca da revelação divina, e cuja ignorância, portanto, não é culpável. Alguém que já teve a virtude teológica da fé infundida no batismo e que recebeu ao menos alguma instrução na fé católica não pode estar em ignorância invencível. Ele pode, certamente, estar em ignorância quanto à verdadeira Igreja e seus ensinamentos, mas, se ele estiver nesse estado, é por culpa própria, e sua ignorância é vencível. Aparentemente, as únicas exceções a essa regra seriam católicos batizados que nunca receberam ensinamento algum sobre a fé, ou que não receberam exemplos de vidas católicas.

A Igreja Católica recusa exéquias cristãs a todos os pecadores públicos, incluindo apóstatas públicos que não se arrependeram. Se eles deram algum sinal de arrependimento antes da morte, ainda que seja um sinal ao menos provável, como palavras de tristeza pela sua teimosia ou o desejo de receber um Padre, a Igreja pode ter alguma esperança quanto à sua salvação eterna e, portanto, autoriza um funeral cristão. Desnecessário dizer, porém, que apenas Deus pode julgar a alma, então é permitido rezar em privado e oferecer Missas privadas pelos apóstatas que não deram sinais de arrependimento.

 

- Pe. Scott, Agosto de 2005.

 

Tenho um parente na casa dos 30 que não foi batizado. Ouvi falar que qualquer pessoa pode batizar se um padre não estiver disponível.

É verdade que um leigo pode batizar validamente, porém só é lícito a um leigo batizar alguém quando o não batizado está em perigo iminente de morte e quando um padre não estiver disponível. Além disso, um leigo só pode dar a matéria e a forma necessários para a validade do sacramento. Ele não pode administrar as demais cerimônias, que só podem ser separadas da forma sacramental em caso de perigo de morte.

Ademais, um adulto só pode ser batizado se ele acredita e aceita todos os artigos da fé católica, se ele houver estudado e aprendido seu catecismo, se ele estiver arrependido de seus pecados e se houver requerido ser recebido na Igreja Católica. Apenas um padre pode julgar se essas condições foram preenchidas. Se não foram, o batismo corre risco de ser infrutífero e não dar a graça.

Um caso em que um leigo poderia batizar seria aquele em que um não batizado está em leito de morte e não há tempo para chamar um padre, e o moribundo faz atos de fé, esperança, caridade e de contrição, afirmando que crê em tudo que a Igreja Católica acredita, está arrependido de seus pecados e quer tornar-se um católico. Porém, deve-se fazer todo esforço para encontrar um bom padre tradicional que julgue as disposições do catecúmeno.

- Pe. Scott, Agosto de 1999.

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