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Category: FátimaConteúdo sindicalizado

Os papas e a consagração da Rússia

 

Dominicus

 

Nossa Senhora, na terceira aparição em Fátima, em 13 de julho de 1917, falou pela primeira vez sobre a consagração da Rússia e a comunhão reparadora. Nestes termos ela oferecia o único remédio decisivo e eficaz contra os males do mundo atual:

Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior [...]. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

O terceiro segredo de Fátima

(Nota da Permanência: Tendo em vista a aproximação do centenário de Fátima, julgamos oportuno divulgar esta conferência do renomado fatimólogo Michel de la Sainte-Trinité, publicada no número 272 da Revista Permanência. Embora não conheçamos a integralidade do Terceiro Segredo de Fátima, a sua essência foi revelada pelos especialistas e deve, portanto, ser tema de meditação dos católicos.)

Conferência proferida no Vatican Symposium, em Fátima, no dia 24 de novembro de 1985.

Irmão Michel de la Sainte-Trinité

Visto que ainda não se revelou oficialmente o Terceiro Segredo de Fátima, parece evidente que não se possa conhecer o seu conteúdo. Entretanto, essa é tão-somente uma primeira impressão. Porque se é verdade que esse importantíssimo segredo permanecia absolutamente imperscrutável em 1917, quando foi revelado pela Santíssima Virgem aos três pastorinhos de Aljustrel, ou em 1944, quando foi redigido por Irmã Lúcia, ou ainda em 1960, quando deveria ter sido publicamente revelado ao mundo por João XXIII, já não é assim hoje. Com efeito, ao longo de mais de quarenta anos, muitos fatos a respeito do Terceiro Segredo tornaram-se conhecidos. Eles formam um imenso volume de informações seguras com que o historiador pode traçar toda a sua história e revelar a essência do seu conteúdo. Tal foi meu intento ao escrever o terceiro volume da obra Tout la vérité sur Fatima (Toda a verdade sobre Fátima), que se concentra no mistério do Terceiro Segredo.  Leia mais

Fátima se tornará um santuário inter-religioso?

Apresentamos aos nossos leitores e fiéis, extratos do relato de John Vennari sobre o Congresso Ecumênico realizado em Fátima (Portugal), onde a heresia e a idolatria foram ostentadas como num estandarte, ali mesmo onde por seis vezes a Mãe de Deus apareceu aos três pastorinhos, trazendo para o mundo os mais graves e sérios apelos já ouvidos dos Céus. Mais uma vez somos obrigados a constatar que as autoridades da Igreja estão empenhados, muito empenhados na construção de uma Outra religião. 

 

FÁTIMA SE TORNARÁ UM SANTUÁRIO INTER-RELIGIOSO?

Relato de um jornalista que esteve lá

 

 

por John Vennari

 

De 10 a 12 de Outubro de 2003, uma conferência pan-religiosa ocorreu em Fátima com o nome "O Presente do homem — o Futuro de Deus: o lugar dos santuários em relação ao sagrado”. Foi ela organizada no Centro Pastoral Paulo VI, próximo ao santuário de Fátima em Portugal. Eu viajei à Fátima para cobrir o Congresso e participar dos três dias de evento, que continha algumas das mais explícitas heresias que eu jamais encontrei.

Descrevia-se como um Congresso “Científico”, o que não é a palavra que usaríamos para descrevê-lo na América do Norte, onde o descreveríamos como um Congresso “Acadêmico”. De todo modo, o Congresso era formado por teólogos modernos e sacerdotes, que discutiam a importância dos santuários religiosos — qualquer santuário, seja ele católico, budista ou hindu.  

Os dois primeiros dias continham diversas conferências, unicamente de católicos, entre as quais se incluíam as do Bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim de Souza Ferreira e Silva; do Cardeal Patriarca de Lisboa, José da Cruz Policarpo; do famoso “teólogo ecumênico”, Padre Jacques Dupuis; e de vários outros Ph.D de Portugal.

No Domingo, nas sessões presididas pelo Arcebispo Michael J. Fitzgerald, Prefeito do Conselho Pontifício do Vaticano pelo Diálogo inter-religioso, representantes de diversas religiões — incluindo budistas, hindus, islâmicos, ortodoxos, anglicanos e católicos — deram seu testemunho da importância dos “santuários” em suas tradições religiosas.

Mais tarde, a imprensa portuguesa publicou que o objetivo deste Congresso era o de transformar Fátima em um santuário inter-religioso.

       

 

A sessão inter-religiosa da manhã de Domingo, presidida pelo Arcebispo Fitzgerald. Aqui, ele divide a mesa com um budista, um hindu e um muçulmano.

 

 

O Congresso Ecumênico

O tema dos “Santuários”, escolhido para este congresso, reflete o ‘mínimo denominador comum’ ecumênico, que prevalece há quarenta anos.  É uma abordagem que minimiza as diferenças doutrinais entre as várias religiões e enfatiza “aquilo que temos em comum”.

O que todas as religiões têm em comum? Todas elas acreditam em algum tipo de “Deus”; organizemos, portanto, um simpósio ecumênico para falar sobre os vários aspectos de “Deus”. Todas as religiões acreditam em orações; façamos, então, um encontro pan-religioso para que todos possam “dividir” suas experiências sobre orações. Todas as religiões têm santuários; preparemos, assim, um Congresso inter-religioso para discorrer sobre a importância dos santuários nas várias tradições religiosas. E, assim, “Santuário”, segundo a perspectiva pan-religiosa, foi o foco do recente Congresso em Fátima.

Anátema nestes Congressos é reconhecer o fato de que a Igreja Católica é a única religião verdadeira, estabelecida e desejada por Deus, e que todas as outras religiões são falsas, são sistemas criados por homens, e seus adeptos acreditam em falsos deuses. Como tais, estas religiões constituem um pecado mortal objetivo contra o Primeiro Mandamento: “Eu sou o Senhor teu Deus, não tenhais outros deuses diante de mim”.  Os falsos deuses do budismo, hinduismo e islamismo são os “outros deuses” que o Primeiro Mandamento proíbe a toda humanidade de venerar.

Isto também se aplica ao Protestantismo, uma vez que os protestantes acreditam em um Cristo que jamais existiu. Eles acreditam em um Cristo que não estabeleceu uma Igreja para ensinar, governar e santificar todos os homens. Eles acreditam em um Cristo que não estabeleceu um Papado. Eles acreditam em um Cristo que não quer que honremos Sua Santíssima Mãe. (E nós sabemos, da Mensagem de Fátima, que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria). Eles acreditam em um Cristo que não estabeleceu sete Sacramentos como os principais meios para que alcancemos a graça para a salvação. Eles acreditam em um Cristo que não estabeleceu o Sagrado Sacrifício da Missa. Em resumo, os protestantes prestam culto a um falso Cristo, ou seja, a um falso Deus. É isto o que o bem-aventurado Papa Pio IX ensinou em seu Syllabus de 1864, que é um erro acreditar que o “Protestantismo não é nada mais que outra forma da mesma verdadeira religião Cristã”. [1]  

Assim, na regra objetiva, é impossível a qualquer não-católico, não importa quão bem intencionado, obedecer ao Primeiro Mandamento. [2] Nós podemos, então, compreender porque o Concílio de Trento proclamou infalivelmente que, sem a Fé católica, “é impossível agradar a Deus”.

Esta tradicional e verdadeira doutrina católica é posta de lado nestes eventos inter-religiosos, e, de modo geral, na prática ecumênica. A nova teologia ecumênica, ao revés, diz que os membros de todas religiões fazem parte do “Reino de Deus”, e que são “parceiros iguais no diálogo”. A religião católica pode possuir a “plenitude da verdade”, mas todas as outras religiões fazem igualmente parte do plano de Deus. Esta, particularmente, é a tese do teólogo modernista Padre Jacques Dupuis, que falou no Congresso na tarde de sábado. 

 

        

Pôster com o logo do Congresso.

 

 

As sessões de Sexta:

De início, estava cético de que conseguiria fazer uma avaliação justa do Congresso. As conferências foram feitas em Português, uma língua que não falo. O Congresso tinha tradução simultânea em inglês, mas os tradutores não eram muito bons. Um dos quais era praticamente inútil: transformava parágrafos inteiros dos textos dos palestrantes em simples frases, e frases não muito compreensíveis. Por sorte, duas das mais importantes conferências foram feitas em inglês.

Do que pude compreender dos palestrantes portugueses, eles falavam, de modo geral, sobre “Santuários” na linguagem da moda da nova Igreja: “O Santuário é um altar de purificação e esperança”, um “lugar de refúgio contra a tentação de prazer e poder”. “Santuário” é parte do “mistério” na “busca pela santidade, encarnação e transcendência”. Tenha em mente que os palestrantes se referem aqui aos santuários religiosos de todas as religiões, sejam santuários de Nossa Senhora, sejam templos pagãos.     

Era de se esperar que um Congresso em Fátima sobre Santuários tivesse ao menos uma conferência sobre o Santuário de Fátima. Nada. O Santuário de Fátima foi apenas lembrado incidentalmente, e apenas muito de vez em quando. A mensagem de Fátima, ou mesmo a história de como o Santuário de Fátima veio a existir, não recebeu nenhuma atenção. O Rosário, o Imaculado Coração, a visão do inferno, os cinco primeiros sábados, a reparação pelos pecados, todos os elementos constitutivos da Mensagem de Fátima não foram sequer mencionados. [v. Apêndice I com a programação do Congresso]

Na Sexta-feira, foram realizadas conferências que trataram da “Natureza Pastoral/Científica dos Santuários”. Nos foi dito que “Aquilo que ocorre em um santuário é uma expressão do povo de Deus em ação.” Um professor citou com alvoroço uma bizarra declaração do Padre modernista Eward Schillebeeckx: “a história da salvação não é necessariamente a história da revelação”. Outro conferencista falou indistintamente de Fátima, Meca e Kioto, colocando assim a verdadeira Igreja de Cristo no mesmo nível das falsas crenças; e situando as aparições verdadeiras de Nossa Senhora de Fátima — um evento presenciado por 70.000 pessoas no Milagre do Sol — no mesmo nível das fábulas e supertições das falsas religiões. Não é isto zombar do Deus verdadeiro e blasfemar contra Nossa Senhora de Fátima? [3]

 

Neste Congresso de Fátima, o Padre Jacques Dupuis desdenha publicamente de um dogma definido pela Igreja.

 

 

Padre Dupuis

Conforme o já mencionado, duas das mais importantes apresentações foram feitas em inglês: a do padre ecumênico Jacques Dupuis, no sábado, e um breve discurso do Arcebispo Michael J. Fitzgerald, no domingo. Estas eu compreendi perfeitamente, e fiquei horrorizado com o que foi dito.

Como alguns leitores talvez já saibam, eu cobri vários destes eventos pós-conciliares, incluindo Seminários da Nova Evangelização, Dias Mundiais da Juventude e Rock’n’Roll, barulhentas reuniões do Movimento Carismático, e Noites de Diálogo Judaico-Católico. [4] Mas a mais explícita heresia que jamais ouvi em qualquer destes eventos veio da boca do padre jesuíta Jacques Dupuis, algumas poucas centenas de metros distante de onde Nossa Senhora de Fátima aparecera.

O padre Jacques Dupuis é um teólogo ecumênico, progressista, que entrou para a ordem dos Jesuítas em 1941. Neste Congresso, ele propôs sua tese de que todas religiões são positivamente desejadas por Deus. Disse que não deveríamos nos referir às outras religiões como “não-cristãs”, uma vez que este é um termo negativo que os descreve “por aquilo que pensamos que eles não são”. Ao contrário, disse o padre, deveríamos nos referir a elas como às “outras”.

Ele se desfaz da verdade de que há apenas uma única Igreja verdadeira, fora da qual não há salvação, apesar deste ensinamento ter sido definido de forma infalível por três vezes. A definição mais explícita e vigorosa do “fora da Igreja não há salvação”, foi pronunciada de fide no Concílio de Florença: 

“A Santíssima Igreja Romana crê, professa e prega firmemente que ninguém que não esteja dentro da Igreja Católica — não apenas pagãos, mas também judeus, heréticos e cismáticos — jamais poderá tornar-se partícipe da vida eterna, mas que será votado ao fogo eterno, “que foi preparado para o demônio e seus anjos” (Mt 25, 41), a não ser que, antes da morte, se una a ela; e que tão importante é a unidade deste Corpo Eclesiástico, que apenas aqueles que permanecem dentro desta unidade podem lucrar dos sacramentos da Igreja para a salvação, e que apenas eles poderão receber recompensa eterna por seus jejuns, suas esmolas, e outros trabalhos de piedade  cristã e deveres de soldado cristão. Ninguém, não importa quão grandes e numerosas sejam suas esmolas, ninguém, ainda que verta seu sangue em nome de Cristo, poderá ser salvo se não permanecer no seio e na unidade da Igreja Católica.”[5]

Como sabem os católicos, sempre que a verdadeira Igreja estabelecida por Cristo — a Igreja Católica — ensina uma declaração solene, de fide, ela está pronunciando de modo infalível que a doutrina definida é uma verdade revelada por Deus “que não pode nem enganar nem ser enganado.” Um católico tem de crer em todas estas verdades definidas para sua salvação. Negar um dogma infalível da Igreja é chamar Deus de mentiroso, dizer a Ele que aquilo que Ele nos revelou não é verdade. [6]

São Luís de Montfort, fiel a esta verdade revelada, ensina, “não há salvação fora da Igreja Católica. Aquele que resistir a esta verdade,  perecerá.” [7] Do mesmo modo, Santo Afonso de Ligório, Doutor da Igreja, reafirma, “A Santa Igreja, Romana, Católica e Apostólica, é a única igreja verdadeira, fora da qual ninguém pode ser salvo.” [8]

No entanto, o padre Dupuis, no recente Congresso de Fátima, demonstrou publicamente desprezo por esta verdade definida e pelo ensinamento de santos e doutores da Igreja. Sobre este ponto, “fora da Igreja não há salvação”, padre Dupuis disse com desgosto, “Não é necessário lembrar aqui aquele texto horrível do Concílio de Florença de 1442”. Ouvi isto com meus próprios ouvidos e gravei em fita.

Deste modo, padre Dupuis disse à platéia que uma definição infalível da Igreja Católica está errada, e que a Revelação divina de Deus é uma mentira.

Esta é a mais explícita heresia que já encontrei em uma destas conferências pós-conciliares.  Normalmente, os conferencistas dançam ao redor do dogma que negam, mas não o padre Dupuis. Não, ele diz abertamente que uma doutrina definida pela Igreja é um “texto horrível” que tem de ser rejeitado.

Como os ouvintes reagiram à audácia da conferência de padre Dupuis? Com grande aplauso no final de sua palestra.

O mais perturbador é que na sala estava a alta hierarquia portuguesa, toda ela alvoroçada com a apostasia de Dupuis.

Sentado exatamente à minha esquerda, estava o Reitor do Santuário de Fátima, Monsenhor Luciano Guerra, que aplaudiu a conferência de Dupuis (eu registrei isto em foto, veja abaixo). À minha direita esta o Delegado Apostólico de Portugal, isto é, o representante papal para Portugal, que também aplaudiu Dupuis. Também aplaudiram o Bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim de Souza Ferreira e Silva, que ainda se recusa a permitir a Missa Tridentina do “Indulto” em sua diocese. 

 

Mons. Luciano Guerra, o Reitor do Santuário de Fátima, aplaudindo a heresia de Dupuis.

 

Durante o aplauso, não pude ver o Cardeal Patriarca de Lisboa de onde estava. Mas é certo que ele concorda com a tese ecumênica de Dupuis. Mais tarde, no mesmo dia, um pequeno grupo de católicos tradicionais questionou o cardeal sobre a nova orientação inter-religiosa [v. apêndice II deste trabalho para saber como pensa o Cardeal]. Um jovem citou uma passagem do livro de Irmã Lúcia, Os Apelos, onde ela explicava fielmente o Primeiro Mandamento. O cardeal respondeu, “Irmã Lúcia não é mais um ponto de referência hoje, uma vez que temos um excelente, que é o Concílio Vaticano II”. [9] Em outras palavras, o cardeal diz que o novo ensinamento ecumênico do Vaticano II eclipsa o ensino tradicional católico sobre o Primeiro Mandamento, que proíbe a adoração de falsos deuses, como transparece nos escritos de Irmã Lúcia. 

Por anos a fio, católicos dedicados disseram que a razão de Fátima ser hoje subestimada e eclipsada é porque a nova religião ecumênica do Vaticano II a substituiu. [10] Sou grato por ter o cardeal abandonado todo fingimento e ter admitido esta desgraça diretamente. Isto explica porque a presente hierarquia ecumênica considera falsamente Fátima como de menor importância. 

No Congresso, padre Dupuis também disse que o propósito do diálogo não é converter os não-católicos mas, contrariamente, ajudar “o cristão a tornar-se um melhor cristão, e o hindu um melhor hindu”.

Padre Dupuis falou mais adiante que “os cristãos e os “outros” são co-membros do Reino de Deus na história”. Ele também disse que “o Espírito Santo está presente e opera nos livros santos dos hindus ou dos budistas; que está presente e opera nos ritos sagrados dos hindus”. Assim, conforme Dupuis, o Espírito Santo está presente e atuante nos “ritos sagrados” e “livros sagrados” das falsas religiões. Não admira que um proeminente católico ecumênico beijasse o Corão.

Uma exposição mais detalhada da conferência apóstata do padre Dupuis aparecerá em uma futura continuação. Por agora, quero re-enfatizar que os delegados do Congresso — incluindo o Cardeal de Lisboa, o Bispo de Fátima e o Reitor do Santuário de Fátima — aplaudiram a conferência de Dupuis como se fora magnífica. Pior ainda, no dia seguinte, o Arcebispo Michael Fitzgerald, chefe do Conselho Pontifício do Vaticano para o Diálogo Inter-religioso, falou que “o padre Dupuis ontem explanou a base teológica da instituição das relações [dos católicos] com pessoas de outras religiões.” Em outras palavras, o Arcebispo Fitzgerald prestou homenagem às heresias de Dupuis.

O Arcebispo Fitzgerald disse mais adiante que ele concordava com o padre Dupuis nisso de que “a união com Deus não se restringe às pessoas que pertencem à Igreja.” A Igreja, conforme esta nova concepção, não deveria proselitizar. Não é o propósito do diálogo “converter” os “outros” ao Catolicismo. Isto é sem sentido, uma vez que membros de todas as religiões, segundo Dupuis, já fazem parte do “Reino de Deus”. Ao invés, “A Igreja”, diz Fitzgerald, “está lá para reconhecer a santidade que há nas outras pessoas, o elemento de verdade, de graça e beleza presente nas diferentes religiões”, e “tentar produzir uma maior paz e harmonia entre os membros das outras religiões”. Talvez este Congresso deveria ter se chamado, “Fátima na Era de Aquário”.

 

Arcebispo Fitzgerald

 

 

A Igreja Católica x A Nova Religião

Qualquer um com um conhecimento rudimentar da Fé Católica sabe que a religião inter-religiosa promovida nesta Conferência de Fátima é contrária ao ensinamento católico e um blasfêmia perante Deus. Como mencionado, o Concílio de Trento definiu infalivelmente que, sem a fé católica, “é impossível agradar a Deus”. [11] A Igreja Católica também definiu três vezes ex cathedra que há apenas uma verdadeira Igreja de Cristo, a Igreja Católica, fora da qual não há salvação. [12] E como ensina o Vaticano I, nem mesmo um Papa pode mudar um dogma definido, caso contrário, verdades dogmáticas jamais teriam sido verdadeiras. [13]

O bem-aventurado Papa Pio IX reiterou a verdade de que “fora da Igreja Católica não há salvação”, ao combater o crescente “catolicismo liberal” de seus dias. Ele disse:

“Temos de mencionar e condenar novamente aquele erro pernicioso do qual se têm imbuído certos católicos, que pensam que aqueles que vivem no erro, que não têm a fé verdadeira e que estão separados da unidade católica, podem obter a vida eterna. Esta opinião é absolutamente contrária à fé católica, como é patente pelas próprias palavras de Nosso Senhor (Mt. 18, 17; Mr 16, 16; Lc 10,16; Jo 3, 18), bem como das palavras de São Paulo (2 Tt 3, 11) e de São Pedro (2 Pd 2, 1).  Entreter opiniões contrárias a esta fé católica é tornar-se um desgraçado incrédulo.” [14]

O Papa Leão XIII, elaborando a mesma doutrina, ensinou, “uma vez que a ninguém é permitido ser negligente com o culto devido a Deus... somos obrigados a cultuá-Lo do modo que Ele nos mostrou ser de Sua vontade ... Não pode ser difícil descobrir qual é a verdadeira religião, se com imparcialidade e seriedade se a procura; pois as provas são abundantes e evidentes ... De todas estas [provas] é evidente que a única religião verdadeira é aquela estabelecida pelo próprio Jesus Cristo, e a que Ele confiou à sua Igreja para que a protegesse e propagasse.” [15]

Do mesmo modo, o Papa Pio XII reafirmou esta doutrina no contexto de uma oração à Santíssima Virgem:

“O Maria, mãe de misericórdia e morada da Sabedoria! Iluminai as mentes envoltas nas trevas da ignorância e do pecado, para que elas possam claramente reconhecer que a única religião verdadeira de Jesus Cristo é a Santa, Católica e Apostólica Igreja Romana, fora da qual nem santidade nem salvação se pode encontrar.” [16]

Desde estas fontes, e desde outros incontáveis ensinamentos do Magistério, é claro que a única religião positivamente desejada por Deus, a única religião na qual “santidade e salvação se pode encontrar” é a Santa Igreja Católica estabelecida por Cristo.

A Sagrada Escritura, do mesmo modo, ensina infalivelmente que as falsas religiões não agradam a Deus, e que a maior caridade que podemos ter pelos “outros” é trabalhar e rezar por sua conversão à única e verdadeira Igreja de Cristo. Nosso Senhor ordenou a Seus discípulos, “ide e ensinai”, não “ide e dialogai”. Ele disse: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.” (Mt 28, 19). “Aquele que acreditar e for batizado será salvo, aquele que não crer, será condenado.” (Mc 15, 16)

Quando Nosso Senhor fala em acreditar, ele não se refere a uma crença vaga em qualquer religião, mas sim crença n’Ele e em tudo que Ele ensinou. É por isso que São João, o Apóstolo do amor, disse, “Quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é um Anticristo, que nega o Pai e o Filho”. (1 Jo 2, 22). Assim, Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo, Budismo, qualquer religião que rejeite o Cristo, conforme a Escritura, é religião do Anticristo. No que diz respeito às religiões heréticas, como, por exemplo, os “ortodoxos” e os protestantes, S. Paulo nos diz que falsos credos são as “doutrinas dos demônios”. 

Contrariamente às noções do padre Dupuis, as religiões do Anticristo e os falsos credos dos heréticos, que são “doutrinas dos demônios”, não podem ser desejadas por Deus. Tampouco se pode considerar que seus adeptos façam parte do “Reino de Deus”.

Assim, não pode existir uma nova “unidade ecumênica” que busque unir católicos com os membros de falsas religiões em uma noção herética do “Reino de Deus”. O Papa Pio XI com razão ensinou em sua encíclica de 1928 contra o ecumenismo, Mortalium Animos: “A Unidade não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer e de uma só fé entre os cristãos.” Do mesmo modo, Papa Pio XII ensinou em sua Instrução sobre o Movimento Ecumênico que “A verdadeira união somente poderá vir do retorno dos dissidentes à única e verdadeira Igreja de Cristo (a Igreja Católica).”[17]

Mas, no presente, a heresia inter-religiosa é dominante, e se ergue para reclamar o Santuário de Fátima como sua próxima vítima.

 

Fátima: Um Santuário inter-religioso?

Na ocasião, não vi relatos deste Congresso na imprensa religiosa ou secular. Duas semanas depois, no entanto, a edição de 1o. de Novembro do periódico Portugal News [V. Apêndice III com o original desta notícia], sediado em Lisboa, publicou em Inglês um artigo intitulado “Fátima se tornará um Santuário Inter-religioso”. O artigo dizia, “Os representantes que participaram do congresso inter-religioso anual “O Futuro de Deus”, promovido pelo Vaticano e pelas Nações Unidas, outubro, em Fátima, foram informados de que o Santuário se tornará um centro onde todas religiões do mundo se reuniram para prestar culto a seus diversos deuses.”     

A notícia citava o Reitor do Santuário, Monsenhor Guerra, que disse no Congresso que Fátima “mudará para melhor”. Portugal News acrescentava ainda esta citação de Mons. Guerra: “O futuro de Fátima, ou a adoração de Deus e de Sua Mãe neste Santuário sagrado, tem de passar pela criação de um templo onde as diferentes religiões possam se misturar. O diálogo inter-religioso em Portugal, e na Igreja Católica, está ainda em um estágio embrionário, mas o Santuário de Fátima não está indiferente a este fato e já se abriu à idéia de tornar-se, por vocação, um centro universal.”

“Monsenhor Guerra”, diz o periódico Portugal News, “assinalou que o fato mesmo de ser Fátima o nome da filha muçulmana de Maomé, é um indício de que o Santuário tem de se abrir para a coexistência de várias fés e crenças. Segundo o Mons.: “Temos, portanto, de assumir que foi da vontade da Santíssima Virgem Maria que as coisas acontecessem desta maneira.” Católicos tradicionais que se opuseram ao Congresso foram descritos pelo Monsenhor como ‘antiquados, tacanhos, extremistas fanáticos e provocadores’.”

Cito o Portugal News neste ponto porque não ouvi Monsenhor Guerra fazendo estas declarações no Congresso. Mas, novamente, pode ser que eu a tenha perdido. Monsenhor Guerra falou em Português, e, como já fiz notar, a tradução simultânea para o inglês era de péssima qualidade. Apesar de tudo, a idéia de Fátima se tornar um Santuário “inter-religioso” é consistente com tudo que ouvi naquele fim-de-semana, especialmente no domingo, quando membros de várias religiões deram seus testemunhos sobre a importância dos “Santuários” em suas tradições religiosas. 

Os conferencistas deste Domingo incluíam católicos, ortodoxos, anglicanos, hindus, muçulmanos, bem como um budista que convidou a todos para visitar o santuário Budista Zenkoji, no Japão; e até distribuiu a cada um panfletos coloridos do santuário de sua religião.

Mas o testemunho do católico proveu-se o mais problemático, e foi, talvez, um presságio do que em breve teremos em Fátima.

O Padre Arul Irudayam, reitor do Santuário Mariano da Basílica de Vailankanni, na Índia, discorreu inicialmente e belamente sobre a história deste santuário, onde ocorreu uma aparição de Nossa Senhora. O Santuário recebe milhões de peregrinos por ano, incluindo muitos hindus.  

Padre Irudayam então se regozijou que, como mais um avanço da prática inter-religiosa, os hindus executem hoje suas cerimônias religiosas na igreja.

Claro está, os conferencistas ficaram entusiasmados de ouvir que uma igreja católica é utilizada para o culto pagão, mas eu fiquei aterrorizado. A Sagrada Escritura ensina claramente que “os deuses dos gentios são demônios”. (Sl 95, 5). E a verdade de que os deuses hindus são demônios foi confirmada por um dos maiores missionários de todos os tempos, São Francisco Xavier.

 

Um Budista distribui a todos os presentes um panfleto convidando à visita ao santuário budista de Zenkoji.

        

Durante as missões, S. Francisco Xavier encontrava uma particular alegria na companhia de seus pequenos discípulos. Ele se impressionava com o enorme comprometimento que estes moços demonstravam, e com a avidez com que aprendiam as preces e ensinavam-nas aos demais. Os moços “também tinham um grande horror pelas práticas idólatras dos pagãos”, em outras palavras, pelas práticas do hinduísmo. Os moços freqüentemente “reprovavam seus pais e mães se acaso se envolvessem com as cerimônias pagãs, e corriam ao padre, para contar-lhe a respeito.”

Quando S. Francisco Xavier ouvia que, “fora da povoação havia alguém praticando idolatria, ele reunia todos os moços — e isto foi algo que ele também fez em outras aldeias que visitou — e com eles ia ao lugar onde foram erigidos estes ídolos. Os moços destruíam as imagens de barro dos demônios até transformá-las em pó. Depois cuspia e pisava nelas.” O biógrafo de São Francisco Xavier explica que estes moços “agindo assim, mais insultavam os demônios do que os honravam os seus pais.” [19]

Ainda que este episódio possa deixar os sacerdotes ecumênicos indignados, é claro que São Francisco Xavier reconheceu com toda razão que “os deuses das gentes são demônios”; no caso, os “deuses” do hinduísmo. No entanto, estes “demônios” são adorados no santuário Vailankanni de Nossa Senhora, na Índia. O reitor do Santuário de Fátima, bem como os demais participantes, aplaudiram o discurso em que se falou sobre a prática de hinduísmo no Santuário católico.

É claro que, se os católicos não se organizarem e protestarem, será apenas uma questão de tempo para que esta blasfêmia ocorra em Fátima, especialmente uma vez que projetos estão a caminho para a construção de um novo Santuário em Fátima. 

Portugal News informou: “o Santuário de Fátima está prestes a passar por uma total reconstrução, com uma nova basílica, em formato de estádio, a ser construída perto da existente, construída em 1921.” [20] Cerca de um ano atrás, eu vi uma foto da maquetes. Trata-se de uma monstruosidade moderna abominável, que mais parece o hangar futurístico de uma nave espacial. 

 

Acima, o horrendo Santuário de 40 milhões de euros que a hierarquia modernista de Portugal planeja construir em Fátima.

 

Castigo

A nova religião ecumênica proposta em Fátima, ameaça a salvação de incontáveis almas, uma vez que diz aos não-católicos que permaneçam na escuridão de suas falsas religiões. Ela também ameaça ser causa de um grande castigo.

No início do século XX, o eminente sacerdote europeu Cardeal Mercier, citando o permanente ensino dos Papas, declarou que a Primeira Guerra Mundial foi, em verdade, uma punição pelos crimes das nações, que colocaram a única Religião Verdadeira no mesmo nível das falsas crenças (como o faz a religião ecumênica promovida no Congresso de Fátima). Disse o Cardeal Mercier:

“Em nome do Evangelho, e sob a luz das Encíclicas dos últimos quatro Papas, Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII e Pio X, eu não hesito em afirmar que este indiferentismo religioso, que põe no mesmo nível a religião de origem divina e as religiões inventadas pelos homens, para incluí-las no mesmo ceticismo, é a blasfêmia que clama aos céus por castigo na sociedade, mais ainda que os pecados dos indivíduos e de suas famílias.” [21]

O que diriam o Cardeal Mercier e os Papas por ele citados desta nova tentativa de produzir uma “paz e harmonia entre as religiões”, onde os sacerdotes católicos colocam a única religião verdadeira como um “parceiro igual” das falsas religiões e credos pagãos? Como Deus reagirá a esta “blasfêmia que clama aos céus por castigo na sociedade”? Que tipo de castigo o céu enviará, uma vez que à terra de Fátima, santificada pela presença de Nossa Senhora, e ao Santuário a ela consagrado, se permite que seja dessacralizado com o culto de falsos deuses? Em face disto, os católicos não podem ser complacentes.

O mais perturbador de tudo, é que a nova religião ecumênica proclamada neste Congresso de Fátima, é de fato a religião da maçonaria. Disse Yves Marsaudon, maçom, em aprovação:

“Pode-se dizer que o ecumenismo é o filho legítimo da maçonaria... em nosso tempo, nosso irmão Franklin Roosevelt, reivindicou para todos eles a possibilidade de “adorar a Deus, conforme os princípios e convicções de cada um”. Isto é tolerância, e é também ecumenismo. Nós, maçons tradicionais, nos permitimos parafrasear e transpor esta sentença de um celebrado estadista, adaptando-a às circunstâncias: católicos, ortodoxos, protestantes, israelitas, muçulmanos, hindus, budistas, livre-pensadores, livre-crentes, para nós, estes são apenas os prenomes: Maçonaria, é este o sobrenome.” [22]

Esta religião maçônica é hoje promovida em Fátima. Eu a ouvi, da fala macia do padre Jacques Dupuis. No entanto, as palavras de Dupuis eram um torrão de doutrina maçônica do submundo coberta de açúcar. Foi o Papa Pio VIII que disse da maçonaria, “seu deus é o diabo”. [23]

No entanto, não nos deveria surpreender que almas consagradas tenham sucumbido ao poder do demônio. Irmã Lúcia o predisse, quarenta anos atrás. 

 

Os Avisos de Irmã Lúcia

Em sua entrevista de 1957 com o padre Fuentes, irmã Lúcia fez o profético aviso:

“Padre, o demônio está prestes a engajar-se em uma batalha decisiva contra a Santíssima Virgem. E o demônio sabe o que mais ofende a Deus, e o que, em pouco espaço de tempo, conseguirá para ele o maior número de almas. Assim, o demônio faz tudo para conquistar as almas consagradas a Deus, porque, deste modo, o demônio conseguirá deixar as almas dos fiéis abandonadas por seus guias, e assim mais facilmente as derrubará.”

Irmã Lúcia continua,

“O que mais aflige ao Imaculado Coração de Maria e ao Coração de Jesus é a queda das almas religiosas e sacerdotais. O demônio sabe que os religiosos e padres que se afastam de sua bela vocação arrastam consigo um número de almas para o inferno... o demônio quer conquistar as almas consagradas. Ele os tentará corromper para adormecer as almas dos leigos e, assim, levá-los à impenitência final...”[24] 

As palavras proféticas de irmã Lúcia desdobram-se perante nossos olhos no Congresso pan-religioso de Fátima. Aqui vemos o demônio “conquistar as almas” consagradas a Deus. Vemos padres, religiosos, bispos, que “se afastam de sua bela vocação” de ensinar as verdades da fé católica, e que “arrastam consigo um número de almas para o inferno” por seu perverso ensino ecumênico.

O Cardeal de Lisboa, o Bispo de Fátima, e o Reitor do Santuário, todos fizeram o juramento anti-modernista em suas ordenações. [25] Um juramento perante Deus é um ato sagrado, e trair tal juramento é um pecado mortal contra o Segundo mandamento, “Não falarás o nome de Deus em vão”. Contudo, estes todos no Congresso de Fátima traíram este juramento ao propor uma nova religião modernista que diz que as verdades católicas de ontem não podem ser “verdades” católicas de hoje. Como Mons. Fenton assinalou décadas atrás, “o homem que ensinou ou, de qualquer modo que seja, colaborou na disseminação ou proteção do ensinamento modernista” após ter feito o juramento anti-modernista, “se conspurcaria, não apenas como um pecador contra a fé católica, mas também como um vulgar perjuro”. [26]

Podemos concluir que o Padre Jacques Dupuis, o Cardeal José da Cruz Policarpo de Lisboa, o Bispo Serafim de Sousa Ferreira e Silva, de Fátima-Leiria, e o Reitor do Santuário de Fátima, Mons. Guerra, promoveram o modernismo e, assim, são pecadores contra a fé católica e também vulgares perjuros. É um crime contra Deus e contra a justiça que estes homens mantenham a autoridade na terra de Portugal, onde apareu Nossa Senhora.

Na década de 90, em uma estação de rádio mexicana, o reitor do santuário de Guadalupe negou a verdade de que Nossa Senhora de Guadalupe apareceu em Tepayac. A população do México indignou-se e protestou contra a audácia. Em um ano, o Reitor do Santuário tinha saído. [27] O mesmo tem de ser feito em Fátima.

Católicos em todo o mundo tem de unir e protestar contra o escândalo que ocorreu, e que continuará a ocorrer, contra a fé católica e contra a Mãe de Deus. 

Devemos igualmente nos unir em súplicas de reparação pelas blasfêmias contra a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo, cuja Mãe veio em Fátima trazer uma mensagem a todo o gênero humano, Mãe que hoje é traída por sacerdotes da alta hierarquia, e, mais especialmente, da hierarquia de Portugal.

      

Notas:

1. Papa Pio IX, Syllabus, 1864, Proposição Condenada #18. Popes Against Modern Errors: 16 Papal Documents, (Rockford: Tan, 1999), p. 30.

2. Em 1944, o eminente teólogo belga, Padre Francis Connell, tendo por base o ensino constante dos Papas, lembrou aos católicos que eles têm um dever de caridade de dizer aos não-Católicos que eles estão em grande risco de perder suas almas se permanecerem no erro. Ele disse, “longe de minimizar a exclusividade da religião católica, nosso povo deveria ser instruído sem hesitação, sempre que a ocasião permitir, e deveria ser avisado aos não-católicos que nós os consideramos privados dos meios ordinários de salvação, ainda que seja ótima as suas intenções.” Citado do Padre Francis Connell, "Communication with Non-Catholics in Sacred Rites, American Ecclesiastical Review, Set., 1944.

3. Nossa Senhora de Fátima pediu especificamente pelos primeiros cinco sábados em reparação pelas blasfêmias contra Seu Imaculado Coração, blasfêmias que são o fruto destas falsas religiões. 

4. Publicado em Catholic Family News.

5. Papa Eugênio IV, Concílio de Florença, 4 de Fevereiro de 1442. 

6. V. The Source of Catholic Dogma, Ludwig Ott (primeira edição em 1960, reprint feito por Tan Books, Rockford, IL), pág. 4-6.

7. Extraído de Hail Mary, Full of Grace, Still River, MA, 1957, pág. 107. Também poderíamos citar São Francisco de Assis, que disse firmemente, “Todos aqueles que não acreditaram que Jesus Cristo é realmente o Filho de Deus, estão condenados. Também o estão todos que vêem o Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo e não acreditam que é verdadeiramente o Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor ... também estes estão condenados!”. Citado de Admonitio prima de Corpore Christi (Quaracchi edition, pág. 4), citado de Johannes Jorgensen, St. Francis of Assisi, (New York: Longmans, Green and Co., 1912), pág. 55. 

8. Instructions on the Commandments and Sacraments. Devemos notar que Mons. Joseph Clifford Fenton, antigo editor do The American Ecclesiastical Review, e um dos mais eminentes teólogos do século XX, alertou que a doutrina do “fora da Igreja não há salvação” é um dos principais dogmas negados em nosso tempo.” Em 1958, quatro anos antes do Vaticano II, Mons. Fenton escreveu, “Em cada era da Igreja houve alguma porção de sua doutrina que os homens estiveram inclinados a mal interpretar ou mesmo negar. Em nosso tempo, é a parte da verdade católica trazida com especial clareza e força por São Pedro, em seu primeiro sermão de missionário em Jerusalém. É, de algum modo, impopular hoje insistir, como o fez S. Pedro, que aqueles fora da verdadeira Igreja de Cristo estão necessitados de abandonar suas próprias posições e ingressar na ecclesia. Não obstante, esta verdade é parte da própria revelação de Deus.”( V. Mons. Joseph Clifford Fenton, The Catholic Church and Salvation, Newman Press, 1958, pág. 145.) 

9. Documentation Information Catholique Internationale (DICI), November 3, 2003. 

10. V. "It Doesn’t Add Up", de John Vennari, especialmente a última parte, "Don’t Rain on My Charade", The Fatima Crusader, Edição #70, Primavera 2002. Disponível on-line:http://www.fatima.org/library/cr70pg12.htm

11. Sessão V, sobre o Pecado Original. V. Denzinger #787. 

12. V. texto do Concílio de Florença supracitado.

13. “O Espírito Santo não foi prometido ao sucessor de Pedro para que, pela revelação do Santo Espírito, possam eles revelar novas doutrinas, mas para que, com Seu auxílio, possam eles guardar santamente a revelação transmitida pelos Apóstolos e pelo depósito da Fé, e o possam fielmente expor.” (Concílio Vaticano I, sessão II, cap. IV, Dei Filius). O eminente teólogo Mons. Fenton emprega este texto para explicar que “os dogmas católicos são imutáveis... as mesmas idênticas verdades são sempre apresentes ao povo como reveladas por Deus. Seu significado nunca muda.” (We Stand With Christ, Mons. Joseph Clifford Fenton, (Bruce, 1942) pág. 2.)

14. Citação do livro The Catholic Dogma, de padre Michael Muller (Benzinger Brothers, 1888), p. xi. É nossa a marcação em negrito.

15. Papa Leão XII, Encíclica Immortale Dei, citada a partir de The Kingship of Christ and Organized Naturalism, padre Denis Fahey (Regina Publications, Dublin, 1943), págs. 7-8. 

16. The Raccolta, Benzinger Brothers, Boston, 1957, No. 626 (O Destaque é nosso).

17. Instructio (Instrução da Santa Sé sobre o Movimento Ecumênico, 20 de Dezembro de 1949). A íntegra da tradução em inglês foi publicada em The Tablet (London), 4 de Março de 1950. 

18. Portugal News, edição on-line, 1o. de November de 2003.

19. Francis Xavier, His Life and Times, Volume II, India, 1541-1545, George Schurhammer, S.J. (tradução inglesa publicada pelo Instituto Histórico Jesuita de Roma em 1977), pág. 310.

20. Talvez seja este um erro tipográfico do Portugal News. A pequena Capelinha foi construída em 1921. A presente Basílica do Santuário de Fátima foi construída em 1951. 

21. Carta pastoral do Cardeal Mercier, 1918, The Lesson of Events. Citado em The Kingship of Christ and Organized Naturalism, padre Denis Fahey (Dublin: Regina Publications, 1943), pág. 36. 

22. Yves Marsaudon, Oecumènisme vu par un Maçon de Tradition (págs. 119-120). Tradução inglesa tirada de Peter Lovest Thou Me? (Instauratio Press, 1988), pág. 170. 

23. Papa Pio VIII, citado em Papacy and Freemasonry, Mons. Jouin.

24. Fatima in Twilight, Mark Fellows, (Niagara Falls: Marmion, 2003), pág. 145.

25. Todos padres tinham de fazer este Juramente anti-modernista até que, tragicamente, foi ele abolido por Paulo Vi em 1967. Aparentemente, todos os padres que menciono foram ordenados antes de 1967. Mas, mesmo se um padre não fizer o juramente, ele está, ainda assim, proibido de promover o Modernismo ou qualquer outra heresia. É ainda contra a Fé Católica fazê-lo.

26. "Sacrorum Antistitum and the Background of the Oath Against Modernism," Mons. Joseph Clifford Fenton, The American Ecclesiastical Review, Outubro de 1960, págs. 259-260.

27. V. Fatima Priest, Francis Alban (Pound Ridge: Good Counsel Publications, 1997), Capítulo 14, pág. 160 (2a. edição).

A devoção reparadora dos cinco primeiros sábados do mês

Parece difícil o rude combate pela fé? Quantos descobrem a verdade, recebem a graça de ver os graves erros de Vaticano II e, depois, não têm coragem ou forças para perseverar no bom combate. O que lhes falta? Eles estudam, passam horas na internet em bate-papos e leituras, mas mesmo assim, fraquejam. Falta-lhes talvez o essencial: vida de oração e fé, no sentido de levar sempre nossos pensamentos e nossas conclusões para as causas sobrenaturais da Revelação e da Santa Igreja. Ora, a Virgem Maria veio nos ensinar o caminho da última batalha pela conquista do céu. A devoção ao Imaculado Coração de Maria é a Cruzada dos últimos tempos. Comecemos logo, e o mais simples de tudo, é a prática da devoção aos 5 primeiros sábados do mês(Nota da Permanência).

 

 

 

Preâmbulo

 

 

Os dois pedidos de 13 de julho de 1917.

 

A 13 de junho de 1917, a Santíssima Virgem disse à Lúcia: “Jesus quer estabelecer no mundo a devoção do meu Imaculado Coração”. Depois os três pastorzinhos viram Nossa Senhora tendo em sua mão direita um coração cercado de espinhos. Compreenderam que era o Coração Imaculado de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que pedia reparação.

 

No dia 13 de julho, a rainha do céu repetiu as mesmas palavras e as esclareceu fazendo dois pedidos concretos e precisos: “Se fizerem o que vou vos dizer, muitas almas serão salvas e haverá paz. [...] Voltarei para pedir a consagração da Rússia ao meu Coração Imaculado e a devoção reparadora dos primeiros sábados (do mês).”

 

De fato, Nossa Senhora realizou perfeitamente sua promessa:

 

- Ela veio pedir expressamente a consagração da Rússia à irmã Lúcia, em Tuy, na Espanha, em 13 de junho de 1929:

 

É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena pelos pecados contra mim cometidos, que venho pedir reparação:  sacrifica-te por esta intenção e ora.

 

- Quanto à devoção reparadora dos primeiros sábados do mês, Nossa Senhora veio explicar à Lúcia, no dia 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra na Espanha, onde a vidente era jovem postulante à vida religiosa, nas irmãs dorotéias. Em dezembro de 1927, irmã Lúcia, por ordem de seu confessor, escreveu um relatório dessa aparição, mas por humildade, escreveu este texto na terceira pessoa:

 

Dia 10 de dezembro de 1925, apareceu-lhe a Santíssima Virgem e, ao lado, suspenso em uma nuvem luminosa, um Menino. A Santíssima Virgem pondo-lhe no ombro a mão, mostrou-lhe ao mesmo tempo um coração que tinha na outra mão, cercado de espinhos. Ao mesmo tempo disse o Menino: “Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe que está coberto de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar”. Em seguida, disse a Santíssima Virgem: Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar, e dize que todos aqueles que durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço, e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.”

 

Notemos que se o ato de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria depende diretamente da boa vontade da autoridade hierárquica da Igreja (papa e bispos), a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês foi pedida a todos os católicos. Desta prática depende a salvação de muitas almas e mesmo a paz do mundo. Daí a importância de todo aquele que é batizado, saber exatamente em que ela consiste.

Mas antes, vejamos como a divina Providência preparou as almas para receber esta devoção.

 

Premissas de uma devoção

 

Nossa Senhora, quando pediu à irmã Lúcia, em 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, a prática da devoção reparadora dos cinco primeiros sábados do mês, não estava inovando: este pedido celeste aparece como o apogeu de um movimento de piedade nascido muito tempo antes e encorajado pela Santa Sé desde de 1889.

 

Sábado, dia consagrado especialmente à Santíssima Virgem

 

Esta tradição  imemorável data, com toda certeza, dos primeiros séculos da Igreja: a presença da Missa de Nossa Senhora nos Sábados,1  no missal romano de São Pio V, de 1570, mostra a antigüidade desta prática que consiste em honrar especialmente a Santa Mãe de Deus nesse dia da semana, depois de ter consagrado o dia da sexta feira para comemorar a paixão de Nosso Senhor e os sofrimentos de seu Sagrado Coração.

 

Foi apoiando-se nesta piedosa tradição que os membros das Confrarias do Rosário habituaram-se a consagrar especialmente à Nossa Senhora, quinze sábados consecutivos de cada ano litúrgico: durante esses quinze sábados, eles se aproximavam dos sacramentos e cumpriam exercícios de piedade particulares em honra dos quinze mistérios do santo rosário. Em 1889, o papa Leão XIII concedeu a todos os fiéis uma indulgência plenária a ser ganha durante um desses quinze sábados.

 

O primeiro sábado do mês

 

Foi com o grande papa São Pio X que a devoção dos primeiros sábados do mês foi aprovada e encorajada por Roma.. Em 10 de julho de 1905, ele indulgenciou pela primeira vez esta devoção:

 

“Todos os fiéis que, no primeiro sábado ou primeiro domingo de doze meses consecutivos, consagrarem algum tempo com a oração vocal ou mental em honra da Virgem Imaculada em sua Conceição ganham, cada um desses dias, uma indulgência plenária. – Condições: confissão, comunhão e oração nas intenções do soberano pontífice”.

 

A devoção reparadora dos primeiros sábados do mês.

 

Em 13 de junho de 1912, São Pio X concedia novas indulgências à devoção dos primeiros sábados do mês, insistindo muito na intenção reparadora com a qual esta devoção devia ser praticada:

 

“A fim de promover a devoção dos fiéis para a gloriosa e imaculada Mãe de Deus, e para favorecer o piedoso desejo de reparação dos fiéis (et ad fovendum pium reparationis desiderium) diante das blasfêmias execráveis proferidas contra o seu augusto nome e as celestes prerrogativas desta mesma bem-aventurada Virgem, Pio X, papa pela divina Providência, dignou-se conceder uma indulgência plenária, aplicável às almas dos defuntos, no primeiro sábado de cada mês, por todos aqueles que, nesse dia, se confessarem, comungarem, cumprirem exercícios particulares de devoção em honra da bem-aventurada Virgem Maria, em espírito de reparação como indicado acima (in spiritu reparationis, ut supra) e rezarem nas intenções do soberano pontífice. 2

 

Notemos a providencial coincidência das datas: 13 de junho de 1912, são cinco anos, dia por dia antes da segunda aparição de Nossa Senhora em Fátima, durante a qual os três pastorinhos testemunharam a primeira grande manifestação do Imaculado Coração de Maria vendo-o “cercado de espinhos que pareciam enterrados nele”. “Compreendemos, escreveu Lúcia sobre isto em 1941, na sua quarta Memória, que era o Imaculado Coração de Maria  ultrajado pelos pecados da humanidade que queria reparação”.

 

Os termos empregados por São Pio X anunciam quase exatamente os termos do pedido de Nossa Senhora em Pontevedra, em 1925: nos dois casos, é sublinhada a extrêma importância da intenção reparadora, única capaz de afastar e apaziguar a cólera de Deus.

 

Em Fátima e em Pontevedra, Nossa Senhora não é, pois, inovadora: ela veio dar a ratificação do Céu e um novo impulso a um movimento de piedade mariano enraizado na mais pura tradição católica, para encorajar a todos nós, a participarmos dele.

 

A intenção reparadora, chave desta devoção.

 

Respondamos, primeiramente, a uma objeção que muitas vezes escutamos da parte de pessoas pouco esclarecidas no domínio da fé. Essas pessoas contestam esta devoção afirmando que ela se opõe à perseverança na vida cristã: com efeito, dizem, bastaria praticar uma só vez na vida a devoção reparadora para ter assegurado sua salvação eterna; depois, as almas poderiam fazer o que quisessem, deixar a prática religiosa e cair nos piores pecados, pois estariam de qualquer maneira salvos para a eternidade! É fácil refutar esta objeção: uma alma que cumprir a devoção reparadora com tal espírito não obteria a graça da perseverança final, ligada por Nossa Senhora a esta prática, já que ela não a faria com reta intenção (condição indispensável a todos nossos atos religiosos e de devoção, para receber as bênçãos e graças de Deus) nem com o cuidado de reparar e consolar o Coração de Maria! Tal prática equivaleria, ao contrário, em abusar gravemente da misericórdia de Deus, utilizando a promessa da salvação eterna feita por Nossa Senhora para legitimar todos os pecados que fossem cometidos em seguida; isto é o pecado de presunção de sua salvação que é um dos sete pecados contra o Espírito Santo!

 

Reparar pelos pecadores.

 

As almas que querem praticar a devoção dos primeiros sábados do mês conforme a vontade do Céu, devem fazê-la na intenção geral de reparar e consolar Nossa Senhora, em substituição dos pobres pecadores que ultrajam e blasfemam contra ela: trata-se, por caridade fraterna, de “implorar o perdão e a misericórdia em favor das almas que blasfemam contra Nossa Senhora porque, a essas almas, a misericórdia divina não perdoa sem reparação”.3 Foi isso que afirmou Nosso Senhor a Lúcia em 29 de maio de 1930, depois de ter revelado as cinco espécies de ofensas e de blasfêmias que se trata de reparar (infra):

 

Eis, minha filha, porque motivo o Imaculado Coração de Maria me inspirou  para pedir esta pequena reparação e em consideração a ela, comover minha misericórdia  para perdoar às almas que tiveram a infelicidade de ofendê-lo. Quanto a ti, procure sem cessar, por tuas orações e teus sacrifícios, comover minha misericórdia em relação às pobres almas.”

 

Esta intenção reparadora, movida pela caridade fraterna, deveria nos dar um grande zelo para cumprir a devoção dos primeiros sábados não apenas cinco vezes em nossa vida, para assegurar a salvação pessoal, mas cada  primeiro sábado, a fim de permitir a salvação  eterna do maior número possível de pecadores. Porque aí está um dos grandes objetivos da devoção reparadora ao Imaculado Coração de Maria: “salvar almas, muitas almas, todas as almas”.4

 

Ora, o conjunto de acontecimentos sobrenaturais de Fátima, Pontevedra e Tuy nos mostra claramente e repetidas vezes, que são muitas as almas condenadas à eternidade:

 

- A 13 de julho de 1917, os três pastorinhos têm a visão do inferno, que está longe de ser um lugar vazio:

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo [...]. Mergulhado nesse fogo, os demônios e as almas [...] almas flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas, que delas mesmas saíam, com nuvens de fumo caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e de desespero que horroriza e fazia estremecer de pavor. 5

 

- A 19 de agosto de 1917, no fim da aparição, Nossa Senhora diz aos três videntes:

Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores; que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas. 6

 

- A 13 de junho de 1929, na aparição de Tuy, Nossa Senhora concluiu a teofania trinitária com a qual Lúcia foi gratificada, por essas terríveis e surpreendentes palavras:

 

São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra mim cometidos que venho  pedir reparação. Sacrifica-te por esta intenção e reza.

 

Irmã Lúcia sempre afirmou que o número de almas danadas era muito grande. Ela conclui assim sua carta para um jovem, tentado a abandonar o seminário: “Não se surpreenda se falo tanto do inferno. Esta é uma verdade que é necessária lembrar muito nos tempos presentes, porque é esquecida: é um turbilhão de almas que caem no inferno. Então, o senhor não acha que são bem empregados todos os sacrifícios que é preciso fazer para não ir para lá e para impedir que muitos outros caiam lá?”.7 E ao Padre Lombardi que, em outubro de 1953, a interrogou sobre o inferno, ela respondeu: “Padre, numerosos são aqueles que são condenados.[...] Padre, muitos, muitos se perderão.”

 

Obter a conversão de um pecador

 

É também louvável e frutífero praticar esta devoção para obter a conversão desse ou daquele grande pecador de nossas relações. A carta da irmã Lúcia ao bispo titular de Gurza, de 27 de maio de 1943, já citada, esclarece muito bem sobre o poder e eficácia sobrenatural da devoção aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria:

 

Os Santíssimos corações de Jesus e Maria amam e desejam este culto [para com o Coração de Maria] porque dele se servem para atrair todas as almas a eles e isto é tudo o que desejam: salvar as almas, muitas almas, todas as almas”. Nosso Senhor me dizia, há alguns dias: “Desejo ardentemente a propagação do culto e da devoção ao Coração de Maria porque este Coração é o ímã que atrai as almas para mim, a fornalha que irradia na terra os raios de minha luz e de meu amor, fonte inesgotável de onde brota na terra a água viva de minha misericórdia”.

 

Pondo toda sua confiança no Imaculado Coração de Maria, muitos católicos portugueses praticaram a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados em favor de um próximo, grande pecador e bem afastado da vida cristã. Entre outros, este belo testemunho de uma senhora de Guimarães (norte de Portugal), publicado no boletim de agosto de 2001 da Cruzada Eucarística das crianças de Portugal: esta mulher conta que ela tinha um irmão repatriado de Moçambique, que era um revoltado e um blasfemador. Tinha abandonado a esposa legítima para viver com outra mulher, da qual tinha dois filhos. Para obter do Imaculado Coração de Maria a sua conversão, sua irmã fez por ele e em seu lugar, a devoção dos cinco primeiros sábados do mês:

No começo de agosto de 1981, meu irmão estava muito mal. Quando lhe perguntaram se queria ver um padre, proferiu blasfêmias contra os padres. Como a doença se agravava, deu entrada em um hospital de Braga. Os outros doentes diziam que ele não tinha um momento de repouso, nem de dia, nem de noite e que não deixava ninguém em paz. Para grande estupefação de todos, em 18 de agosto de 1981, pediu várias vezes um padre. Dois padres vieram administrar os últimos sacramentos. Imediatamente depois que eles saíram inclinou a cabeça para o lado e morreu. Sem dúvida, foi o Coração Imaculado de Maria que salvou meu pobre irmão, que fora tão pecador. Não queria olhar para ele depois de morto, temendo ver seu rosto deformado como o tinha durante sua doença. Mas não pude resistir e me aproximei durante a missa, que teve lugar na capela do hospital. Ele não parecia o mesmo homem! Estava tão bonito, sorridente. Parecia que sua amargura se transformara em alegria”.

 

O que é preciso fazer

 

Uma alma cristã que deseje realizar perfeitamente a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês deve fazer, durante cinco primeiros sábados consecutivos, na intenção geral de reparar seus próprios pecados e os de toda a humanidade, junto ao Coração Imaculado de Maria, quatro atos diferentes de piedade:

 

1 -  A confissão, que pode ser antecipada, até mesmo mais de oito dias, se for impossível ou muito difícil se confessar no primeiro sábado. O mais importante é ter a intenção, se confessando, de reparar o Coração Imaculado de Maria. (É preciso também, naturalmente,  estar em estado de graça no primeiro sábado do mês a fim de fazer uma boa e frutífera comunhão.) A intenção reparadora deve ser dita ao confessor? Irmã Lúcia nunca mencionou se é preciso dizer alguma coisa ao padre. Uma formulação interior, puramente mental, é suficiente. Nosso Senhor até mesmo acrescentou que aqueles que esquecessem de formular a intenção reparadora “poderão formulá-la na confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem para se confessar.” 8

 

2 – Recitação do terço: Nossa Senhora, em Fátima, insistiu muito na recitação quotidiana do terço. Foi esse o único pedido que ela repetiu para as crianças em todas as seis aparições, de 13 de maio a 13 de outubro de 1917: nesse dia revelou aos pastorinhos sua identidade: “Sou Nossa Senhora do Rosário”. Não é, pois, de espantar que a recitação do rosário seja encontrada na devoção reparadora dos primeiros sábados . Além disso, como não existe oração vocal mais mariana do que o terço, convém que este seja integrado a essa devoção já que se trata de reparar as ofensas feitas à Nossa Senhora e a seu Coração Imaculado.

 

3 – Os 15 minutos de meditação sobre os 15 mistérios do rosário: Trata-se de “fazer companhia a Nossa Senhora durante15 minutos, meditando sobre os 15 mistérios do rosário, em espírito de reparação”. Isto não quer dizer que se deva meditar todo primeiro sábado sobre os 15 mistérios em sua totalidade, passando um minuto em cada mistério. Ao contrário, cada alma está livre para organizar seu quarto de hora de meditação como entender, desde que o objeto da meditação seja os mistérios do rosário. Algumas almas preferirão meditar o mesmo mistério durante vários primeiros sábados, outras um mistério diferente cada primeiro sábado, outras ainda três mistérios cada primeiro sábado (cinco minutos por mistério), etc. Sendo as almas diferentes umas das outras, é normal que tenham gostos e necessidades espirituais diferentes; é por isso que a Igreja sempre teve o cuidado de deixar aos fiéis uma grande amplidão para cada um organizar sua vida espiritual.

 

4 – A comunhão, que é o ato essencial da devoção reparadora. Para compreender bem toda sua importância, convém colocá-la em paralelo com a comunhão das nove primeiras sextas-feiras do mês, pedidas pelo Sagrado Coração em Paray-le-Monial e com a comunhão milagrosa dos três pastorinhos de Fátima, no outono de 1916: o Anjo da Guarda de Portugal deu então a esta comunhão um espírito eminentemente reparador, repetindo seis vezes com as crianças (três vezes antes da comunhão e três vezes depois) as palavras que são chamadas a segunda oração do Anjo:

 

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu vos adoro profundamente e vos ofereço o preciosíssimo Corpo, Sangue Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que ele mesmo é ofendido; e pelos méritos infinitos de seu Sacratíssimo Coração e do Imaculado Coração de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.”

No contexto da atual crise da Igreja é certo que esta intenção reparadora toma uma nova dimensão: quantas irreverências, sacrilégios são causadas pela reforma litúrgica de Paulo VI: não apenas pela comunhão dada na mão, como também distribuída a todos os assistentes sem nunca lembrar a necessidade do estado de graça; pela supressão das marcas de adoração ao Santíssimo  Sacramento, etc. Hoje, a comunhão dos primeiros sábados deve ser feita para reparar todas essas profanações.

 

Um último ponto importante: a prática da devoção reparadora em seu conjunto “será aceita no domingo que segue o primeiro sábado, quando meus padres, por motivos justos, o permitirem às almas.”9

 

É pois, aos padres, e não à consciência individual de cada um, que Jesus confia o cuidado de conceder esta facilidade suplementar, tão misericordiosa. Por essa concessão, talvez Nosso Senhor fizesse alusão a estes tempos em que estamos, onde não é sempre fácil aos fiéis assistir à verdadeira missa no sábado. Em todo caso, esta disposição torna mais fácil a prática da comunhão reparadora para os católicos fiéis de hoje.

 

Disposições requeridas

 

É muito simples praticar a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês. Está ao alcance de toda alma que põe um mínimo de generosidade na base de sua vida cristã, ainda mais que o Céu deu uma grande amplidão para a confissão e a comunhão. Infelizmente, muitas vezes, a ignorância, a moleza espiritual e a negligência se conjugam para afastar as almas, mesmo as mais fiéis, desta prática que, no entanto, é tão salutar, já que Nossa Senhora a ligou à perseverança final e à salvação eterna: “Prometo assisti-las na hora da morte com todas as graças necessárias à sua salvação.” 10

 

A desproporção entre a pequena devoção pedida (os primeiros sábados de cinco meses  consecutivos, uma só vez na vida!) e a graça prometida (a salvação eterna de sua alma) ilustra de maneira estrondosa o grande poder de intercessão concedido à Virgem Maria para a salvação de nossas almas: Nossa Senhora é verdadeiramente, em virtude de sua maternidade divina, nossa advogada e nossa medianeira junto ao coração de Deus. Padre Alonso,  claretiano espanhol que foi o grande especialista de Fátima até sua morte em 1982, escreveu sobre este assunto:

 

A grande promessa [da salvação eterna] não é nada mais do que uma nova manifestação deste amor de complacência da Santíssima Trindade para com a Virgem Maria. Para aquele que compreende isto é fácil admitir que a humildes práticas estejam ligadas maravilhosas promessas. Ele se entrega então filialmente à elas com um coração simples e confiante na Virgem Maria.” 11

Em algumas linhas o Padre Alonso nos desvenda algumas boas disposições necessárias para fazer bem esta devoção:

 

- uma grande simplicidade e humildade de coração;

- uma devoção marial inteiramente filial e cheia de confiança.

 

O Menino Jesus, aparecendo à irmã Lúcia em 15 de fevereiro de 1926, nos dá a terceira disposição necessária:

 

- um fervor profundo.

 

Com efeito, nesse dia, irmã Lúcia dirigiu estas palavras ao Menino Jesus:

 

Mas meu confessor dizia em sua carta que esta devoção não fazia falta ao mundo porque já havia muitas almas que  vos recebia  todo primeiro sábado, em honra de Nossa Senhora e dos quinze mistérios do rosário”.

 

O Menino Jesus lhe respondeu:

 

É verdade, minha filha, que muitas almas começam, mas poucas vão até o fim; e aquelas que perseveram, não fazem para receber as graças que estão prometidas. As almas que fazem os cinco primeiros sábados com fervor e com o fim de reparar o Coração de tua Mãe do Céu me agradam mais do que aquelas que fazem quinze, sem ardor e indiferentes”.

 

Para falar agora da quarta disposição requerida para esta prática é preciso lembrar que o Céu nos pede cinco primeiros sábados de cinco meses consecutivos, e não nove, doze ou quinze. Porque este número? Lúcia perguntou a Nosso Senhor durante uma Hora Santa, em 29 de maio de 1930, em Tuy, e lhe foi respondido:

Minha filha, o motivo é simples. Há cinco espécies de ofensas e de blasfêmias proferidas contra o Coração Imaculado de Maria:

 

1 – as blasfêmias contra a imaculada conceição da Virgem Maria;

2 – as blasfêmias contra sua virgindade;

3 – as blasfêmias contra sua maternidade divina, recusando ao mesmo tempo reconhecê-la como mãe dos homens;

4 – as blasfêmias daqueles que procuram publicamente por no coração das crianças a indiferença ou o desprezo, ou mesmo o ódio em relação a esta Mãe imaculada;

5 – as ofensas dos que a ultrajem diretamente nas suas santas imagens.

Ai está, minha filha, o motivo pelo qual o Coração Imaculado de Maria me inspirou para pedir esta pequena reparação”.

 

Como, hoje em dia, não pensar nos ataques à dignidade, aos privilégios, às honras devidas à Virgem Maria, perpetradas pelos próprios homens da Igreja? Lembremos o que se passou no concilio Vaticano II, onde, longe de definir a mediação universal e a corredenção de Nossa Senhora, como muitos pediam, os bispos progressistas conseguiram fazer rejeitar o esquema sobre a Virgem Maria para pô-lo como simples anexo no esquema sobre a Igreja e isto para agradar aos protestantes; triste concílio, onde nem mesmo um só texto cita o terço como devoção a ser encorajado junto aos fiéis. Seguiu-se uma diminuição considerável do culto mariano em toda a Igreja. A impiedade da nova religião para com Nossa Senhora é certamente para ser incluída na intenção reparadora daqueles que praticam a devoção dos primeiros sábados.

 

Notemos que as três primeiras espécies de blasfêmias que se trata de reparar vão contra três dogmas de fé definidos. Pode-se então acrescentar uma quarta disposição às três já citadas:

 

- convém fazer esta devoção reparadora com espírito de fé e para pedir a Nossa Senhora a insigne graça de conservar a verdadeira fé católica em nossas almas, até a hora da nossa morte, no meio da apostasia geral do mundo que nos cerca, nutrido por utopias malsãs, de revoltas e de impiedade.

                                                                      

Tomemos a peito reparar a honra de Nossa Senhora, tão ultrajada pela ingratidão dos homens e para isso utilizemos a devoção que ela mesmo veio nos indicar, pedindo-lhe com insistência e perseverança as boas disposições de alma para bem praticá-la.

 

 Revista Le Sel de la Terre, nº 53

  1. 1. De Beata Maria Virgine in sabbato
  2. 2. AAS, t. 4, 1912, p 623.
  3. 3. Carta de irmã Lúcia de 31 de março de 1929.
  4. 4. Carta de irmã Lúcia em 27 de maio de 1943 ao bispo titular de Gurza
  5. 5. Terceira  Memória de irmã Lúcia, 31 de agosto de 1941
  6. 6. Quarta memória, 8 de dezembro de 1941.
  7. 7. Citado por A.  M. MARTINS, Cartas da Irmã Lúcia,  Porto. 1979, p.122.
  8. 8. Aparição de Nosso Senhor a irmã Lúcia em 15 de fevereiro de 1926
  9. 9. Aparição de Nosso Senhora a irmã Lúcia , na noite de 29 para 30 de maio de 1930.
  10. 10. De Nossa Senhora à irmã Lúcia em 10 de dezembro de 1925.
  11. 11. Padre Joaquim Maria ALONSO, La gran promesa Del corazon de Maria en Potevedra, Madri, Centro Mariano, 1977, p.45.

A vida mística de Francisco e Jacinta de Fátima

Lúcia, Jacinta e Francisco eram, antes de 1916, crianças católicas do vilarejo de Aljustrel, na diocese de Leiria, Portugal. Brincavam como todas as crianças, gostavam de jogos e de dançar animados, enquanto pastoreavam as ovelhas da família. Viviam um catolicismo verdadeiro, porém como muitas crianças, limitavam-se ao mínimo necessário. Lúcia conta que às vezes, para que o terço passasse mais depressa, em vez de rezar as orações completas, limitavam-se a dizer: Pai Nosso, Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria.... Ora, para que estas alminhas, inocentes e comuns, pudessem ter a honra de ver Nossa Senhora, um anjo lhes aparecerá por três vezes, fazendo dessas crianças verdadeiras almas de oração.

 

Vamos acompanhar a transformação.

 

Estamos em 1916.

 

Na primavera deste ano (março ou abril), Lúcia, Jacinta e Francisco estavam na Loca do Cabeço pastoreando as ovelhas quando viram um ser luminoso vindo em sua direção. Ele tinha os traços de um rapaz de 14 a 15 anos. O anjo lhes disse:

 

«Não tenham medo. Rezem comigo».

 

E num gesto de grande familiaridade e simplicidade, pôs-se ao lado das crianças e prostrando-se com o rosto por terra disse esta oração:

 

«Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-Vos; peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e Vos não amam.

 

Orai assim; os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas» (2ª Memória).

 

E o anjo desapareceu.

 

Esta primeira aparição do anjo foi como uma aproximação do sobrenatural na vida das crianças. Servirá para familiariza-las com os seres e os costumes do céu: a adoração, os atos de fé, esperança e caridade, a reparação e o nome de Deus, deste Deus atento às suas súplicas. A própria Lúcia, na 4ª Memória, dirá que «Levados por um movimento sobrenatural, imitamo-lo e repetimos as palavras que o ouvimos pronunciar».

 

Nossos pastorinhos, doravante alunos do céu, sentirão imediatamente o peso da presença da vida sobrenatural. Passarão vários dias num estado de abatimento físico, de recolhimento, de um silêncio difícil de ser rompido e principalmente de paz interior.

 

«Acontece, porém, ainda depois de passado, ficar a vontade tão embebida e o entendimento tão absorto, que assim permanecem o dia todo e até vários dias...Quando volta a si, está com tão imensos lucros e tem em tão pouco as coisas da terra que todas lhe parecem cisco em comparação do que viu. Daí em diante vive muito penada, e tudo o que lhe costumava causar prazer não lhe infunde a menor consolação.» - Sta Tereza d'Avila, Castelo Interior, Sextas Moradas, cap. IV e V

 

Tinham dificuldade de brincar, de falar e até mesmo de se mover. Daí em diante eles passarão várias horas em oração, prostrados como o amigo do céu, repetindo: Meu Deus eu creio, adoro, espero e vos amo.... Só muitos dias depois que este estado de alma diminuirá pouco a pouco.

 

Eis como nos conta Lúcia, na 4ª Memória:

 

«A atmosfera do sobrenatural, que nos envolveu era tão intensa que quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima, que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera, que só muito lentamente foi desaparecendo. Nesta aparição, nenhum pensou em falar, nem em recomendar segredo. Ela de si o impôs. Era tão íntima, que não era fácil pronunciar sobre ela a menor palavra. Fez-nos talvez também maior impressão por ser a primeira assim manifesta».

 

A segunda aparição foi no verão deste mesmo ano (julho ou agosto). Será a segunda lição de vida sobrenatural, centrada sobre o espírito de sacrifício. Após lhes dizer para rezar muito, o anjo acrescenta:

 

– Os Corações Santíssimos de Jesus  e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. E acrescenta: Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

 

– Como nos havemos de sacrificar? pergunta Lucia.

 

– De tudo o que puderes oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria a Paz....sobretudo aceitai e suportai com submissão os sofrimento que o Senhor vos enviar. (2ª Memória)

 

Eis, então, que Deus pede a Lúcia e seus companheiros muito mais do que na primeira vez. É normal que eles tenham perguntado ao anjo como se sacrificar. Para crianças daquela idade a palavra sacrifício tem um sentido limitado, infantil. Deus queria que eles fossem além. Por isso o anjo lhes ensina a se sacrificar, e traz para eles algumas noções até então ignoradas: ato de reparação pelos pecados, súplica pela conversão dos pecadores, aceitação das cruzes que Deus nos envia.

 

Que impressão causou esta nova lição do anjo, em suas almas? Lúcia nos conta:

 

«Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus; como nos amava e queria ser amado; o valor do sacrifício, e como ele lhe era agradável; como, por atenção a ele, convertia os pecadores. Por isso, desde esse momento começamos a oferecer ao Senhor tudo o que nos mortificava, mas sem discorrermos a procurar outras mortificações ou penitências, exceto a de passarmos horas seguidas prostrados por terra, repetindo a oração que o Anjo nos tinha ensinado». (4ª Memória)

 

Vemos neste texto a origem da grande mortificação das três crianças. Ela não nasceu de uma vontade mórbida qualquer, de um fanatismo fabricado pela imaginação; ela não lhes foi inspirada por nenhum sacerdote exagerado. A luz divina que invadiu suas almas as levou com mansidão e naturalidade a um conhecimento tal da vida divina, do olhar de Deus sobre nós, que eles não conseguiriam mais viver sem este espírito e prática do sacrifício reparador.

 

É de se notar que os efeitos da primeira aparição limitam-se a um estado de alma por certa presença do sobrenatural. Nesta, trata-se de um verdadeiro conhecimento de Deus e de seu relacionamento com suas almas.

 

Por aí se vê que é impossível proceder da imaginação. Também não pode ser obra do demônio, pois não tem ele poder para apresentar coisas que tanta operação e paz e sossego e aproveitamento produzem na alma. Especialmente três são os frutos que deixa em subido grau.

Primeiro: conhecimento da grandeza de Deus, a qual se nos dá a entender na medida das luzes maiores que temos sobre Ele.

Segundo:  conhecimento próprio e humildade, ao ver como criatura tão baixa em comparação do Criador de tantas grandezas, ousou ofendê-lo; até mesmo não sabe como se atreve a por nele os olhos.

Terceiro: baixo apreço de todas as coisas da terra, com exceção das que lhe podem ser úteis para serviço de tão grande Deus. - Sta Tereza d'Avila, Castelo Interior, Sextas Moradas, cap. V

 

A terceira aparição do Anjo levará a formação espiritual das crianças a um ponto altíssimo, onde a própria comunhão eucarística marcará a Caridade que Deus lhes comunica.

 

Estavam eles numa gruta de difícil acesso, para rezar escondidos. Estavam assim, prostrados, repetindo a oração do Anjo: "Meu Deus eu creio, adoro...etc."

 

«Não sei quantas vezes tínhamos repetido esta oração, quando vemos que sobre nós bilha uma luz desconhecida. Erguemo-nos para ver o que se passava, e vemos o Anjo, tendo na mão esquerda um cálice, sobre o qual está suspensa uma Hóstia, da qual caem algumas gotas de sangue dentro do cálice. O Anjo deixa suspenso no ar o cálice, ajoelha junto de nós e faz-nos repetir três vezes:

 

         Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

 

Depois levanta-se, toma em suas mãos o cálice e a Hóstia. Dá-me a Sagrada Hóstia a mim, e o Sangue do cálice dividiu-O pela Jacinta e o Francisco, dizendo ao mesmo tempo: – Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos! Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus. E prostrando-se de novo em terra, repetiu conosco outras três vezes a mesma oração e desapareceu. Nós permanecemos  na mesma atitude, repetindo sempre as mesmas palavras, e quando nos erguemos vimos que era noite, e por isso horas de virmos para casa» (2ª Memória)

 

Na quarta Memória, Lúcia dá detalhes sobre as conseqüências desta última aparição do Anjo:

 

«A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias, fazíamos as ações materiais como que levados por  esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico que nos prostrava também era grande».

 

Um pouco antes ela escrevia: «Na terceira aparição a presença do sobrenatural foi ainda muitíssimo mais intensa. Por vários dias nem mesmo o Francisco se atrevia a falar. Depois dizia: Gosto muito de ver o Anjo; mas o pior é que depois não somos capazes de nada! Eu nem andar podia! Não sei o que tinha».

 

Era tanto o abatimento espiritual e corporal, era tal o  êxtase dessas crianças, que nem viram a noite chegar: «Apesar de tudo, foi ele (Francisco) que se deu conta das proximidades da noite. Foi quem disso nos advertiu e quem pensou em conduzir o rebanho para casa».

 

Procurei citar toda a passagem das Memórias de Lúcia devido ao seu caráter eminentemente sobrenatural. É muito difícil ler estas palavras e dizer que tudo foi invenção. Os detalhes de vida espiritual são muito fortes. Já estavam as crianças levadas espiritualmente à oração constante e mortificada. O Anjo lhes ensina uma oração nova, onde destacamos:

-          a adoração à Santíssima Trindade
-          o oferecimento de Jesus na Sagrada Hóstia como reparação
-          o Imaculado Coração de Maria medianeira de todas as graças, participando dos méritos do Sagrado Coração.

 

Lúcia conta que recebeu uma verdadeira hóstia. Jacinta recebe o Preciosíssimo Sangue sabendo que é a comunhão. Já Francisco não percebe de imediato que está comungando.

 

Só passados alguns dias, quando conseguem falar novamente, é que o menino pergunta:

 

«O Anjo, a ti deu-te a Sagrada Comunhão; mas a mim e à Jacinta, que foi o que ele nos deu?!

 

 Foi também a Sagrada Comunhão! respondeu a Jacinta numa alegria indizível. Não vês que era o Sangue que caía da Hóstia?!

 

E Francisco diz então estas palavras, que são a prova da veracidade das graças com as quais Deus enchia estas almas infantis:

 

«–Eu sentia que Deus estava em mim, mas não sabia como era!

 

E prostrando-se por terra, permaneceu por largo tempo, com sua irmã, repetindo a oração do Anjo: Santíssima Trindade...etc.».

 

Aqui se lhe comunicam todas três Pessoas, e lhe falam, e lhe dão a compreender aquelas palavras do Senhor no Evangelho, quando disse que viria Ele com o Pai e o Espírito Santo a morarem na alma que o ama e guarda os seus mandamentos... E cada dia se admira mais esta alma, porque lhe parece que as Pessoas Divinas nunca mais se apartaram dela; antes, notoriamente vê que, do modo sobredito, as tem em seu interior, no mais íntimo, num abismo muito fundo; e não sabe dizer como é, porque não tem letras, mas sente em si esta divina companhia.  - Sta Tereza d'Avila, Castelo Interior, Sétimas Moradas, cap. I

 

É no exemplo vivo desta criança que aprendemos o que muitos espirituais nos ensinam com palavras humanas e que nos torna difícil a compreensão do que seja a Santa Comunhão. Que extraordinária ação de graças fazem estas crianças, dias depois de receberem a comunhão, milagrosamente, das mãos de um Anjo, elevadas a um júbilo sobrenatural ao compreenderem que era Jesus escondido que os visitara.

 

A lição estava dada, a formação espiritual alcançara um grau em que já era possível que elas entendessem profundamente as graças que a Mãe do Céu viria lhes dar.

 

A história da vida de oração, da vida interior deles, apenas começava. E se foi com razão que disseram que o grande milagre de Lourdes foi a alma de Santa Bernadete, podemos dizer o mesmo destas três crianças, ou pelo menos das duas menores, visto que Lúcia ainda vive.

 

As aparições de Nossa Senhora

 

Chegamos ao dia 13 de maio de 1917.

 

Comecemos pela descrição que Lúcia nos faz na sua 4ª Memória. Transcrevo-a toda para os que nunca a leram. As crianças viram um reflexo de luz no céu, como um relâmpago, e com medo de uma chuva, vão tocando as ovelhas em direção à casa, quando vêem um segundo clarão e, logo depois, uma senhora sobre uma carrasqueira «Vestida de branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio d'água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente...estávamos tão perto que ficávamos dento da luz que a cercava ou que ela espargia. Talvez a metro e meio de distância, mais ou menos». Esta proximidade com a luz  que dela saía tem sua importância pelo que virá.

 

«– Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.
– De onde é vossemecê? perguntei.
– Sou do Céu.
– E o que é que Vossemecê me quer?
– Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.
– E eu também vou para o Céu? – Sim, vais.
– E a Jacinta?  – Também.
– E o Francisco? – Também, mas tem que rezar muitos Terços.»

 

Depois desta introdução, que segue com perguntas sobre as amigas de Lúcia já falecidas, Nossa Senhora dirá o que realmente quer das crianças, dizendo coisas parecidas com as palavras do Anjo, já conhecidas dos três. Não vemos aqui Nossa Senhora ensinando-os a rezar ou as crianças perguntando do que se trata. Tudo é claro e rápido:

 

– «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos.
– Ide pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

 

Dentro do nosso estudo das graças místicas das três crianças, temos os seguintes elementos nesta primeira aparição:

 
-          elas se encontram dentro da luz que emana da Virgem.
-          Nossa Senhora lhes pede sofrimentos e eles aceitam já sabendo do que se trata.
-          Ela confirma que sofrerão muito e terão o socorro especial da graça de Deus.

 

O que segue, é a conseqüência disso:

 

«Foi ao pronunciar as últimas palavras que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que nos penetrava no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos.»

 

Estando dentro da luz que emana de Nossa Senhora elas vêem, das palmas das mãos da Senhora, brotar mais luz ainda. E essa nova luz penetra no íntimo de suas almas, dando-lhes  um conhecimento que uma simples criança não poderia ter: conhecimento de si mesmos em Deus que era aquela luz. Ora, isso é o que acontecerá conosco no céu. Durante alguns instantes, que não foram demorados, mas também não foram muito rápido, elas estiveram no céu. O que mais impressiona é que elas não tenham morrido de amor, passando do êxtase para a glória. O fato é que a terra, naquele momento desapareceu para eles:

 

«Então, por um impulso íntimo, também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente: "Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento". Passados os primeiros momentos Nossa Senhora acrescentou: Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra».

 

Nossa Senhora não repetiu para eles a oração. Ela brota da iluminação em que estão mergulhados. A Santíssima Trindade já era deles conhecida pela oração do Anjo, assim como o amor por Jesus escondido no Santíssimo Sacramento. Ambos lhes foram comunicados na terceira aparição do Anjo, quando as crianças comungam de suas mãos.

 

É preciso compreender que o que há de mais rico e elevado nesta aparição de Nossa Senhora está escondido no coração das crianças: «Omnis glóriae filiae Regis ab intus – toda a glória da filha do Rei vem do interior» (Sl.44). E a Virgem Maria permanece ali, no silêncio das colinas de Fátima, rodeada por três inocentes criancinhas, mergulhadas num êxtase de amor. Quanto tempo ficou ali a Mãe de Deus? Ninguém sabe.

 

Na verdade, o que Nossa Senhora comunicou às almas das crianças naquele momento foi algo diferente das aparições do Anjo: «A aparição de Nossa Senhora veio de novo a concentrar-nos no sobrenatural, mas mais suavemente. Em vez daquele aniquilamento na Divina presença, que prostrava mesmo fisicamente, deixou-nos uma paz e alegria expansiva que nos não impedia falar, em seguida, de quanto se tinha passado.» (4ª Memória).

 

E, de fato, os três falavam entre si com facilidade sobre o grande acontecimento. Jacinta será mesmo indiscreta, contando em casa o acontecido, o que será motivo de muito sofrimento e humilhações para os três.

 

«...foi ela que, não podendo conter em si tanto gozo, quebrou o nosso contrato de não dizer nada a ninguém. Quando, nesta mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo: Ai! que Senhora tão bonita!» (1ª Memória)

 

E Francisco também expansivo:

 

«Oh! Minha Nossa Senhora, terços rezo todos quantos Vós quiserdes!» E ainda: «Gostei muito de ver o Anjo; mas gostei ainda mais de Nossa Senhora. Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus! Mas Ele está tão triste por causa de tantos pecados. Nós nunca havemos de fazer nenhum.»

 

A vida dos pastores se transforma e seria muito longo nós comentarmos todas as impressionantes mortificações que eles farão, pela conversão dos pecadores, para que as almas não se percam no inferno, para consolar o Bom Deus já tão ofendido.

 

No entanto devemos marcar a vocação própria dos dois menores: Jacinta fica muito impressionada com o inferno, antes mesmo de terem a visão da terceira aparição; a pequenina pensa com freqüência nos pobres pecadores que sofrerão para sempre ali.

 

Francisco, o mais interior dos três, isola-se em oração, rezando o Terço, pensando sempre em consolar a Deus.

Mas as graças não param na primeira aparição. Suas almas ainda têm mais a aprender sobre Deus e sobre elas mesmas. E a lição de vida mística continuará na segunda aparição.

 

A Segunda Aparição: 13 de junho de 1917.

 

Tanto pelas palavras de Nossa Senhora quanto pela visão da luz que se irradia novamente de suas mãos, esta segunda aparição nos mostra a missão de cada uma delas e a  importantíssima revelação da devoção ao Imaculado Coração de Maria:

Queria pedir-lhe para nos levar para o Céu.
  Sim, a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá m ais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.
  Fico cá sozinha? perguntei com pena.
  Não filha. E tu sofres muito?! Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio, e o caminho que te conduzirá até Deus.

 

Foi no momento em que disse estas últimas palavras que abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco parecia estarem na parte dessa luz que se elevava para o Céu, e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um coração cercado de espinhos que parecia estarem-lhe cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação.» (4ª Memória)

 

Esta visão sublime e tão importante foi como um segredo que eles conseguiram guardar, pois tratava-se da vida deles. Só em 1941, ao redigir estas Quartas Memórias, é que irmã Lúcia revelará ao mundo esta luz.

 

Porém, o modo como Deus se serviu de seus inocentes amiguinhos para revelar ao mundo o Imaculado Coração de sua Mãe Santíssima é outra marca da grandeza dos acontecimentos de Fátima.

 

«Parece-me que neste dia, este reflexo teve por fim principal infundir em nós um conhecimento e amor especial para com o Coração Imaculado de Maria, assim como das outras duas vezes o teve, me parece, a respeito de Deus e do mistério da Santíssima Trindade.» (3ª Memória).

 

Vemos assim que não foi por causa da visão do Coração na palma da mão que os corações das crianças passaram a ter grande amor pelo Imaculado Coração, mas sim pela luz divina que lhes foi comunicada, com o conhecimento infuso da realidade de fé que se escondia por detrás daquela visão extraordinária. Devoção real, sólida, profunda, sem nada de sentimental. «Desde esse dia sentimos no coração um amor mais ardente pelo Coração Imaculado de Maria.A Jacinta dizia-me de vez em quando: "Aquela Senhora disse que o Seu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus. Não gostas tanto? Eu gosto tanto do seu Coração. É tão bom!» E antes de ir para o hospital ela insistia com Lúcia para não ter medo de, chegada a hora, dizer ao mundo que Deus queria a devoção ao Imaculado Coração de Maria.

 

Não sei se as longas citações das Memórias de Irmã Lúcia nos desvia das considerações de ordem espiritual, no sentido da vida mística das crianças. Mas tudo o que foi citado mostra as principais etapas e acontecimentos que foram formando e elevando as suas almas.

 

Assim é que, entre a segunda e a terceira aparição aconteceu um fato de grande importância para o que estamos a tratar. Lúcia passa por uma grande noite da Fé. Ela, cheia de dúvidas, achando que tudo aquilo pode ser do demônio, e os seus priminhos chorando e sofrendo por ver a prima naquele estado. Grandes purificações para grandes almas. Todos os esforços foram vãos para convencer a mais velha, que só foi ao encontro por ter sido arrancada de sua casa por um impulso mais forte do que ela, indo encontrar os dois pequenos chorando de joelhos em sua casa. E Francisco dirá depois como se comporta os santos diante das grandes decisões: «Credo! Aquela noite não dormi nada; passei-a toda a chorar e a rezar para que Nossa Senhora te fizesse ir!» (4ª Memória)

 

Eles estavam, enfim, prontos para a grande revelação que Nossa Senhora queria lhes fazer.

 

A Terceira Aparição: 13 de julho de 1917.

 

A narrativa da terceira aparição nos afastaria do nosso assunto. Lembremos apenas que ela é o centro do conjunto de aparições e de fatos sobrenaturais que as três crianças assistiram:

- a visão do inferno para onde vão as almas dos pecadores
- o Imaculado Coração de Maria como remédio para salvar a humanidade desse inferno
- a Rússia, castigo para esse mundo pecador
- a terceira parte do segredo, que segundo testemunho de altas personalidades da Igreja, que a leram, fala da terrível crise de fé que assola o mundo e a Igreja desde o último Concílio.

 

O que mais nos interessa aqui é a impressão que lhes ficou da visão do inferno e das profecias ditas por Nossa Senhora: «Na terceira aparição, o Francisco pareceu ser o que menos se impressionou com a vista do Inferno, embora lhe causasse também uma sensação bastante grande. O que mais o impressionava ou absorvia era Deus, a Santíssima Trindade, nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma. Depois dizia: "Nós estávamos a arder naquela luz, que é Deus e não nos queimávamos! Como é Deus!...não se pode dizer! Isto sim, que a gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar!...» (4ª Memória)

 

Esta elevada e bela afirmação vem se juntar a todas as outras que já fizemos da vida de Francisco Marto, onde sua alma de criança e de santo se desenha com tanta clareza, inundada desta graça de vida mística, de vida perdida em Deus.

 

Jacinta, ela, viverá até o fim com esta visão do inferno diante de si, como um aguilhão que lhe dará sempre mais forças para sofrer: «A vista do Inferno tinha-a horrorizado  a tal ponto que todas as penitências e mortificações lhe pareciam nada, para conseguir livrar de lá algumas almas... Algumas pessoas, mesmo piedosas, não querem falar às crianças do Inferno, para não as assustar; mas Deus não hesitou em mostrá-lo a três e uma de seis anos apenas, e que Ele sabia se havia de horrorizar a ponto de, quase me atrevia a dizer, de susto se definhar.

 

Com freqüência se sentava no chão ou nalguma pedra e pensativa começava a dizer: "O inferno, o inferno! Que pena eu tenho das almas que vão para o inferno! E as pessoas lá, vivas, a arder como a lenha no fogo! E meio trêmula ajoelhava, de mãos postas, a rezar a oração que Nossa Senhora nos havia ensinado: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem".» (3ª Memória)

 

Muitas graças extraordinárias são descritas por Lúcia sobre seus primos. A visão que Francisco tem de um demônio, como o que eles viram na visão do inferno, a visão que Jacinta tem do Papa, bi-locação, as profecias sobre as modas que ofenderão a Deus. Um pouco antes de sua morte, Nossa Senhora aparece para ela e lhe pergunta se ela aceita continuar a salvar as almas do inferno. Todas elas são confirmações, conseqüências da elevação a um alto grau de santidade operada pelo aprendizado do Céu, desde as aparições do Anjo até a morte das duas crianças. Mas voltemos ao dia 13 de julho:

 

Quando Nossa Senhora chega sobre a azinheira, Lúcia fica muda, em êxtase, diante dessa luz intensa, da qual ela tinha duvidado. Foi Jacinta que a alertou: fale pois ela já está falando com você. Lúcia, sempre discreta sobre as graças recebidas por ela própria ficará sempre com saudades do céu, e quando ela manifestava isso a eles, Jacinta lhe lembrava que o Imaculado Coração de Maria seria o seu refúgio. Sua missão quase profética de anunciar a revelação do Imaculado Coração de Maria parece, aliás, ter começado ainda no dia da última aparição. Eis o que nos conta o Dr. Carlos Mendes:

 

«Quando o sol voltou ao normal, tomei Lúcia nos meus braços para leva-la até o caminho. Meus ombros foram assim o primeiro púlpito de onde ela pregou a mensagem que acabara de lhe confiar Nossa Senhora do Rosário. Com grande entusiasmo e Fé ela gritava: "Façam penitência, façam penitência! Nossa Senhora quer que façais penitência. Se fizerdes penitência a guerra acabará". Ela parecia inspirada. Era impressionante ouvi-la. Sua voz tinha entoações como a voz de um grande profeta

 

A Continuação

 

Depois da morte de Francisco e Jacinta, Lúcia continuará recebendo muitas graças e procurando desempenhar seu papel de testemunha da vontade de Nossa Senhora. No dia 10 de dezembro de 1925, apareceu-lhe a Santíssima Virgem e ao lado, suspenso numa nuvem luminosa, um Menino. Nossa Senhora pôs sua mão no ombro da religiosa e mostrou-lhe na palma da outra mão, seu Coração cercado de espinhos. Disse o Menino: "Tem pena do coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar."

 

E Nossa Senhora pede, então, que irmã Lúcia espalhe pelo mundo a devoção dos 5 Primeiros sábados do mês. A todos os que se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de desagravar ao Imaculado Coração de Maria, a boa Mãe do Céu promete assistir na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação. E mais tarde Nossa Senhora explicará porque pediu 5 sábados: porque são cinco as espécies de ofensas e blasfêmias proferidas contra o Imaculado Coração de Maria:

-          blasfêmias contra a Imaculada Conceição
-          contra sua Virgindade
-          contra a Maternidade divina, e recusa de recebe-la como Mãe
-          os que procuram infundir nos corações das crianças a indiferença, o desprezo e até  o ódio para com esta Imaculada Mãe.
-          os que a ultrajam em suas sagradas imagens.

 

Os grandes mistérios revelados e vividos pelas criancinhas de Fátima continuam, portanto, diante de nós, diante do mundo indiferente. Cabe a cada um de nós tomar a iniciativa de se entregar ao amor desta incomparável Mãe, que trouxe o Céu até a terra, nas terras de Portugal, para a nossa salvação. Que os bem-aventurados Francisco e Jacinta de Fátima intercedam por nós, para que nós estejamos à altura deste amor Maternal que Nossa Senhora quer nos comunicar. Rezemos o Terço todos os dias.

 

 

Um grande milagre de Fátima: A renovação espiritual e política de Portugal

Preâmbulo: grandezas e renúncias do Portugal católico, das origens a 1917.

 
 
Uma terra de eleição.
 
A Rainha do céu jamais faz algo por acaso. Assim, não foi sem razão que, em 1917, escolheu Portugal para trazer ao mundo a devoção ao seu Coração Imaculado: Portugal sempre foi uma terra mariana.

Quem se lembra de Fátima?

Abril 22, 2010 escrito por admin

 

O presente artigo foi publicado em português no jornal Sim Sim Não Não há mais de dez anos. Muita coisa mudou desde então: o Papa reinante não é mais João Paulo II, a última das videntes de Fátima, a Irmã Lúcia, morreu e o Vaticano apresentou um documento e uma interpretação que diz corresponder à totalidade do Terceiro Segredo revelado por N. Sra. Uma coisa, porém, permanece: o generalizado menosprezo pela mensagem de Fátima, que levou Irmã Lúcia a dizer: "Padre, a Santíssima Virgem está muito triste porque ninguém faz caso de Sua mensagem, nem os bons nem os maus. Os bons continuam seu caminho, mas sem se preocupar da mensagem. Os maus, visto que o castigo de Deus não os fere no momento, continuam sua vida de pecado sem fazerem caso da mensagem". Que nessa data, em que celebramos os 90 anos das aparições, possam todos sair de sua indiferença.
 

A imagem peregrina de N. Sra de Fátima

 

À sua passagem pela América, como pela Europa, África, Índia, Indonésia e Austrália, chovem bênçãos e maravilhas da graça de tal modo que mal podemos crer naquilo que nossos olhos vêem.” (PioXII)1
 
Não hesito em qualificar de milagrosa a peregrinação de Nossa Senhora de Fátima, através do mundo, porque, está acompanhada desde o começo e em todo o país, de circunstancias que não tem explicação natural. E não sei se há na história acontecimento comparável.” (Cardeal Cerejeira) 2.
  1. 1. Pio XII, “Rádio-mensagem aos peregrinos de Fátima”, 13 de outubro de 1951, documentos Pontifícios da Santa Sé . Pio XII, São Mauro, Editora Santo Agostinho 1954, pág. 415.
  2. 2. Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, prefácio do Cônego Barthas, Fátima e os destinos do mundo, Toulouse, Editora Fátima, 1955 pág. 9. Do mesmo autor: Fátima, a maravilha do século XX, Toulouse, editora Fátima, 1952, pág.273-278; e “As Pombas da Virgem, Fiorete de Fátima”, Montsurs, Toulouse, editora Résiac/Fátima 1985 – Ver também Frei Miguel da Santíssima Trindade “Toda a verdade sobre Fátima” – 1985, t3, pág. 73-83, 142-144, 166-168.

Porque a Rússia?

Ao iniciarmos a Cruzada do Imaculado Coração de Maria, atendendo ao chamado de Dom Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, convém procurarmos entender as razões profundas que levaram a Fraternidade a convocar os católicos para tal empresa. Se nossa conversa na saída da missa dominical ou nos salões modernos das listas e blogs se ater a comentários superficiais, como seria a quantidade de terços propostos ou as reais possibilidades do episcopado mundial aceitar realizar tal ato, nós mesmos estaremos fugindo do essencial. A meu ver o que mais importa nessa hora é analisarmos a questão da Rússia e de sua conversão, pois só assim podemos entender o que significa consagrar esta nação ao Imaculado Coração de Maria.

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