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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Lutar, Clamar e guerrear

Editorial da Revista Permanência 303

Queremos que este Editorial da Revista 303 ressoe como uma ode de louvor à Santa Igreja Católica, como manifestação do nosso agradecimento a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo por nos terem protegido contra a obra de destruição da Santa Igreja, através de milhares de textos, encíclicas, bulas e afins que levantaram barreiras sólidas, por vezes inabaláveis, de proteção ao dogma católico, à santa Liturgia, ou à prática da vida cristã.

Queremos relembrar aquele ano longínquo, perdido nas brumas do tempo, em que um papa santo, inspirado do alto, escreveu a Bula Quo Primum Tempore, para declarar e ordenar que a Santa Missa católica jamais poderia perder sua força, sua eficácia e sua estrutura de santificação herdada diretamente dos Apóstolos e transmitida fielmente pelos papas e bispos católicos ao longo dos últimos dois mil anos.

Queremos levar nossos leitores ao velho ano de 1975, quando Gustavo Corção e seus companheiros da Permanência, publicaram na revista nº 84-85 a tradução em português da Bula de S. Pio V e os dois trabalhos de comentários à Bula escritos pelo padre francês, Raymond Dulac, publicados na Revista Itineraires. Assim fomos formados pelos nossos maiores, assim temos o dever de transmitir aquilo que recebemos, o Depósito Sagrado, intacto, brilhante, Pedra angular na construção do Templo da Santa Igreja.

Naqueles anos antigos, o pequeno grupo de fiéis que não aceitava a ideia de se tornar protestante precisou de toda a coragem do mundo para resistir aos ataques oriundos do único lugar de onde jamais poderiam surgir: da casa do pai, das autoridades da Igreja. Papas e bispos apontavam para nós o dedo acusador, com o desprezo próprio dos inimigos da fé. De onde viria toda a gana com que nos atacam? Por quê? Por quê?

Corríamos da avalanche como os habitantes da pequena cidade nas montanhas correm da neve e das pedras que descem morro abaixo soterrando tudo. Nossas almas estavam sendo soterradas pelos escombros de um progressismo imposto sob ameaças pelas autoridades, cuspidos em nossas faces por padres laicizados, freirinhas de saias profanas, e pelos falsos amigos que nos abandonavam um após o outro.

A solidão era outro sofrimento. – Como pode? Todos estão errados e só vocês certos? – diziam nos momentos de calorosas discussões. Éramos poucos, tão poucos, e tínhamos medo por estarmos sós. Nesses momentos só tínhamos o recurso da oração, do nosso Terço, ou das reuniões que mantínhamos nas primeiras sextas-feiras do mês, em honra do Sagrado Coração de Jesus.

A missa de sempre era esporádica – hoje temos um padre corajoso a celebrar escondido nas catacumbas modernas, como nos tempos da Revolução Francesa. Amanhã não temos missa, e somos obrigados a santificar nosso domingo pelo Terço e pela oração.

No meio de toda essa angústia, de todo o drama que vivemos, algo nos levava a perseverar. Estudávamos e líamos tudo que se escrevia em francês sobre a crise da Igreja e sobre os grandes defensores da fé. A figura bondosa e franca de Gustavo Corção, aquele pai e amigo dos seus alunos, levantava-se combatente, guerreiro de Deus e da santa Religião, e resumia em si o conhecimento mais profundo das verdades da fé, o gosto de ensinar e passar adiante o que estudara, a sabedoria do santo a aconselhar seus amigos, e os golpes mortais do polemista, lógico e sábio, capaz de derrotar os mais astutos inimigos da fé.

Não há como relembrar este drama, não há como tentar reconstruir para os nossos leitores o ambiente pesado e tenso de um combate que não cessava nunca, sem trazer a figura de Dom Marcel Lefebvre. Pode parecer inacreditável, e de fato é, mas somos obrigados a lembrar que a insignificante Permanência recebeu a honra de manter relações de profunda amizade com o bispo de Ecône. Já contamos essa história no nosso número comemorativo dos 50 anos, mas é preciso salientar o tanto de coragem e de vigor que adquirimos diante do exemplo de um único bispo a resistir diante de todos, enfrentando os erros do papa que nós enfrentávamos, guardando a santa missa que nós amávamos, refugiando-se nas montanhas suíças como nós nos refugiávamos na mata atlântica carioca. Ecône soava aos nossos ouvidos como um canto de esperança.

Foi assim que, no ano de 1974, Gustavo Corção escreveu alguns artigos nos jornais em que colaborava, contando a história de Dom Marcel Lefebvre, defendendo a coragem daquele bispo solitário a combater pela fé contra todos os seus inimigos. A primeira visita de Dom Lefebvre à Permanência foi em agosto de 1979. É entre nós que ele escreverá, juntamente com Dom Antônio de Castro Mayer, a Carta Aberta ao Papa João Paulo II, o famoso Manifesto Episcopal, no qual os dois defensores da fé faziam uma análise crítica ao novo Código de Direito Canônico. Estávamos em 1983.

E assim atravessamos três longas décadas, no combate e na solidão. Enquanto isso, os papas e bispos começavam a se preocupar com o crescimento dos movimentos fiéis à Tradição, sobretudo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a obra de restauração do sacerdócio católico empreendida por Dom Marcel Lefebvre a partir de 1970. Diversas vezes as autoridades da Igreja armaram situações para atrair a Fraternidade e levá-la a aceitar os erros do concílio, a aceitar a missa nova e todo o resto. Mas a proteção divina parecia evidente, e a Fraternidade permanecia firme como uma rocha.

O exemplo mais patente deste combate nos anos 1980 foi a grave questão da sagração episcopal dos quatro bispos da Fraternidade. O número de ordenações sacerdotais continuava impressionando as autoridades. Em Ecône, Dom Marcel Lefebvre ordenava entre 20 e 30 seminaristas por ano, fora as ordenações realizadas também nos EUA e na Argentina. O sermão do dia das ordenações de 1987 levou o Cardeal Ratzinger a procurar a Dom Lefebvre para conversar sobre a situação da Igreja. Daí resultou o famoso protocolo de 5 de maio de 1988, que estabelecia certos parâmetros iniciais para uma conversa mais profunda. E logo veio a retirada da assinatura do bispo diante das evidências de que o Vaticano estava apenas querendo enquadrar a Fraternidade São Pio X nos moldes de Vaticano II.

Estes eram os dramas que vivíamos nessa época. A presença do bispo defensor da fé era um sustento que trazia a paz necessária para o nosso combate. E a coragem manifestada por ele ao anunciar a sagração para o dia 30 de junho de 1988, confirmava a nossa fé e aliviava as nossas penas. Aconteceu naquele dia o mais importante evento da fé católica da segunda metade do século XX. A Divina Providência nos dava quatro novos bispos para suprir as necessidades espirituais dos fiéis.

Ao longo desses anos de combate, cada instituição, cada mosteiro, cada grupo de fiéis organizou-se em associações civis sem fins lucrativos, para poderem se estabelecer em igrejas, capelas, ou casas, sem serem impedidos pelo bispo local. Era claro que os entraves que os bispos montavam contra a Tradição só tinham um fundamento, uma razão de ser: eles não suportavam a Tradição e queriam subverter a fé na onda modernista do concílio. Isso era inadmissível para qualquer alma católica, era um abuso de autoridade que legitimava a adoção de medidas independentes da autoridade abusiva dos bispos diocesanos, para salvaguardar a fé católica.

Assim viviam os católicos perseguidos nesses longos anos. Não podemos negar que a pressão exercida contra a fé surtiu um efeito salutar pelo aumento dos estudos sobre a vida da Igreja, maior apreço pela Liturgia tradicional, além de uma vida de piedade que voltou a ser o centro da vida dos católicos fiéis.

Enquanto isso, as autoridades do Vaticano, os papas, a Cúria Romana, os bispos diocesanos, continuavam sua rota invariável, evolutiva, destruidora. Tudo pelo Concílio, tudo em torno dessa nova religião liberal e ecumênica. A tática variava, mas o objetivo era sempre o mesmo. Dentro dessa variação, chegamos na eleição do Cardeal Joseph Ratzinger ao Sumo Pontificado. O século já tinha terminado, um novo milênio começado, carregado de ideais humanistas, ecologistas e ilusórios. Bento XVI representava um estilo de vida mais centrado, mais intelectual, apesar de o novo papa manter os mesmos princípios dos seus predecessores pós Concílio Vaticano II.

Em 2007 o papa surpreendeu a todos ao publicar o Motu Proprio Summorum Pontificum, que mudaria nosso combate pelos anos a seguir. Não podemos deixar de assinalar o fato de o papa afirmar, pela primeira vez desde 1969, que a missa de sempre, também chamada de tridentina, ou de missa de São Pio V, nunca tinha sido revogada. A questão que se levanta é: então, por que razão, durante 40 anos nos acusaram de desobediência, de cisma, nos excomungaram, nos marginalizaram, sob o pretexto de que a missa estava proibida?

O fato é que o Motu Proprio de Bento XVI mudou a face da Terra. Em poucos anos a missa de São Pio V, restrita até então aos grupos ligados à Fraternidade São Pio X, espalhou-se por toda parte. Os bispos queriam atrair os fiéis que se tinham afastado das paróquias por conta dos abusos e da missa nova. Mas o que se viu foi o contrário: fortes da autorização do papa para a missa da Tradição, muitos fiéis se sentiram mais à vontade e se aproximaram das nossas Capelas. Descobriram atônitos o tamanho da crise, e procuraram recuperar o tempo perdido.

Com a renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco, subiu ao trono pontifício um perfeito liberal. A liberdade total move as intenções do papa, e a Fraternidade São Pio X recebeu alguns benefícios desse espírito liberal, no que toca a aceitação dos padres da Fraternidade pelos bispos diocesanos. O papa chegou a afirmar que, sendo receptivo para com protestantes que não são católicos, porque não seria também para com a Fraternidade São Pio X, que é católica! Foi assim que ele determinou que os padres da Fraternidade estavam aptos para ouvir confissões e para assistir validamente aos casamentos.

Os padres da Fraternidade e todos os que gravitam em torno dela, sabem perfeitamente que suas confissões e seus casamentos são válidos, e que não precisavam dessas autorizações do papa para exercerem válida e licitamente o seu ministério sacerdotal. Estas disposições eram, no entanto, importantes para que os bispos aceitassem este fato, e para que os fiéis não tivessem medo de se aproximar dos nossos sacramentos. Por outro lado, esta nova situação não era isenta de perigos para o nosso combate. De fato, as coisas se tornavam mais ambíguas e alguns sacerdotes da Tradição não aceitaram bem estas novas disposições do papa, com medo de serem envolvidos na trama da legalidade que os poderia conduzir àquela armadilha de caírem na aceitação do concílio. Era preciso muito cuidado e atenção para manter a fé, o afastamento das novidades do concílio, e a liberdade a duras penas conquistada na prática da Tradição. De um modo geral, após um início tenso e temeroso, a situação se estabilizou, e conseguimos guardar o bom espírito no combate pela fé.

O que de fato aconteceu foi um aumento significativo de novos fiéis nos nossos centros de missa, nossas capelas e Priorados. A Tradição saía da toca, por assim dizer, mostrava-se à luz do dia, ocupava um espaço na vida dos católicos.

Após esses anos em que as perseguições contra a fé haviam diminuído de intensidade, eis-nos de volta à lide. Como nos tempos das grandes perseguições romanas, também para nós a perseguição aumenta e diminui, segue em vagas de maior ou menor intensidade. Felizmente, em todas elas, cada vez que as autoridades de Roma se levantam contra os defensores do dogma, constatamos um aumento do interesse pela verdadeira fé e pela Tradição, um movimento de conversão, de retorno ao catolicismo dos santos.

Devemos reconhecer que o próprio Papa Francisco ajudou muito este movimento de conversão ao produzir em seus Sínodos e em suas declarações situações repetidamente escandalosas, o que levou muitos bispos e cardeais a se levantarem, pela primeira vez desde o Concílio, contra o papa reinante. No Sínodo da Família, em 2015, vimos alguns bispos se unirem no lançamento de um livro contra aquele escândalo que aprovara a recepção da comunhão sacramental por pessoas divorciadas e vivendo em adultério. Em 2019, foi a vez do escândalo ainda maior do Sínodo da Amazônia, que levou o Vaticano a promover o culto pagão da Pacha Mama dentro dos seus muros, e a escandalosa religião pagã do ecologismo amazônico.

Nas dioceses os escândalos são igualmente constantes. A cidade do Rio de Janeiro foi palco de uma missa escandalosa na morte de certo artista homossexual, aplaudida por toda a mídia, e aprovada pelo cardeal arcebispo da cidade. Em toda parte, bispos desobedecem à disciplina ainda vigente nas Congregações romanas e celebram casamentos entre pessoas do mesmo sexo, sem que o Papa Francisco dê os ares de sua indignação. Mas esse tipo de situação dura há mais de 50 anos, e a lista de escândalos encheria muitos livros. Para Francisco nada disso tem importância: o grande perigo é a missa católica, é a Tradição.

A reação de alguns bispos tem sido ainda mais forte. Alguns se aproximaram ainda mais da Fraternidade São Pio X, passaram a elogiar a Dom Marcel Lefebvre e sua obra, como é o caso do Mgr. Schneider e de Mgr. Viganò. Por mais que estes bispos não comunguem em todos os pontos com a defesa da fé mantida pelos padres e fiéis da Tradição ao longo dos últimos 60 anos, já é um consolo saber que eles não nos atacam, e hoje compreendem nosso combate.

O Motu Proprio Traditionis Custodes representa um retrocesso calculado e frio, um ataque frontal contra a missa católica, inspirado por alguma força infernal assustada com o constante retorno das almas às práticas religiosas da Tradição católica.

As intenções apresentadas pelo papa no início deste documento parecem querer desfazer uma situação criada pelo Motu Proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI, o qual deu autonomia a todos os padres para celebrarem a missa de sempre, independentemente da autorização do bispo diocesano. Na prática, esta independência dos sacerdotes não se verificou, e os bispos sempre determinaram se haveria ou não a missa tridentina, quando, onde, e por qual sacerdote ela seria celebrada. Ao anular esta prerrogativa, Francisco dá um golpe na própria existência da missa dentro da Igreja, relegada por ele a uma peça de museu, a qual só poderá ser retirada do armário para uso, dentro de condições quase impossíveis.

A partir daí, o Papa Francisco demonstra que seu documento não pode ser considerado um documento papal, objeto do magistério da Igreja Católica. E todas as colocações que ele faz sobre a unidade da Igreja, sobre a guarda da tradição e o bem dos fiéis, só farão sentido se considerarmos que ele não fala ali da Igreja Católica, Apostólica e Romana, mas tem em mente outra instituição, essa falsa igreja de Vaticano II que usurpa o lugar da Igreja Católica. Traditionis Custodes é um documento da Outra.

Os demônios vivem nas trevas, na mentira, no mais profundo orgulho, e por isso não enxergam muito bem as consequências dos seus golpes malignos e erram muitas vezes. Acreditamos que não será diferente com o Motu Proprio do Papa Francisco. O êxodo de fiéis na procura pela Religião Católica, a verdadeira, só fez aumentar depois desta atitude do papa. Uma hora veremos Nosso Senhor Jesus Cristo manifestar a verdade sobre a sua Igreja diante de todo o mundo, e a fé católica voltará a brilhar para todos. Diremos, enfim: vejam! Não estamos sós, valeu a pena esperar por tantos anos, Nosso Senhor Jesus Cristo combate por nós, pela verdade e pela Santa Igreja.

Terminamos este Editorial com a citação que Gustavo Corção usou ao terminar o seu O Século do Nada:

“Que fazer? Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sabendo que lutamos não somente contra a carne e o mundo, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez e pela perversidade de seus levitas, o mundo se tornará por um milênio espantosamente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpido e cruel.

Roguemos, pois, a Deus, com todas as forças; desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos Senhor, ainda este século, um reforço de grandes santos de grandes soldados que queiram dar a vida, no sangue ou na mortificação de cada dia, pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extrema miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor!”

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