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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Ele destruiu o mito iluminista

Pe. Paul Robinson FSSPX

 

 

— Padre, quem o senhor considera o mais importante cientista católico do século XX?

Eu considero Pierre Duhem (1861 – 1916).

 

— Pierre quem? Nunca ouvi falar dele!

Infelizmente isso é muito comum. Ele merece ser muito mais conhecido do que é, especialmente entre os católicos. 

 

— Por que?

Porque ele sozinho destruiu o mito iluminista de que a Idade Média Católica era anti-científica; de que a Igreja é uma instituição que, quando adquire poder suficiente, sufoca impiedosamente a investigação científica; e de que, para os católicos manterem a Fé, precisam suprimir o conhecimento científico. (continue a ler)

 

— Esse é um poderoso mito! Como pôde uma única pessoa removê-lo?

Da mesma forma como se remove tantas outras mentiras do Iluminismo: apresentando fatos. Os registros revelando a real disposição da Idade Média a respeito da ciência haviam sido perdidos. E quando os grandes cientistas do “Séculos dos Gênios”, o Século XVII, apareceram – cientistas como Descartes, Galileo e Newton – eles se recusaram a reconhecer seus débitos para com a ciência medieval. Assim sendo, suas descobertas pareciam surgir do nada.

 

— E isso abriu a porta para a mitologia anti-católica, a lenda negra de um tirânica Igreja odiosamente anti-científica?

Sim! Os Inimigos da Igreja, na secunda metade do século XVIII, criaram uma narrativa completa sobre o século XVII. É como um romance com o execrável título de “A Revolução Científica”. O conto começa com os gregos, pagãos bonzinhos, amantes da natureza e apaixonados por matemática, astronomia e outras ciências naturais. Então, o grande Ogro apareceu — a Santa Madre Igreja. Ela supostamente odiava o conhecimento científico porque impedia seu poder tirânico sobre seus subalternos. Quando estes últimos estudavam ciência, percebiam que a Igreja tinha lhes contado histórias terríveis apenas para lhes escravizar pelo medo.

 

— Então, deixe-me adivinhar, Galileu e Newton surgem em cena como cavaleiros em reluzentes armaduras?  

Exatamente! Surgem do nada, subitamente, como Atena saltando da cabeça de Zeus. Galileu, Newton e companhia caem dos benignos céus científicos e matam a multicéfala hidra de mentiras que por séculos atormentou a cristandade ignorante.

 

— Certamente as pessoas não levaram a sério uma mitologia tão estúpida.

Há um fato interessante sobre a natureza humana: quando se está desconfiado de alguém, engole-se facilmente qualquer mentira sobre este alguém. No tempo das revoluções Americana e Francesa, as pessoas fora da Igreja estavam prontas para acatar qualquer “fake news” sobre a Igreja como se fosse uma verdade evangélica, não importa o quão forçadas tais mentiras pudessem ser. Enquanto isso, aqueles que estavam dentro da Igreja não podiam deixar de ser afetados pela influência que tais mentiras obtiveram na sociedade. Os católicos eram continuamente postos na defensiva por elas, o que lhes fazia duvidar de alguns aspectos da história da Igreja e os empurrava a adotar posturas desequilibradas no relacionamento entre Fé e ciência. Assim, apenas tendo em mãos os fatos é possível remediar o problema. 

 

Foi Pierre Duhem o grande averiguador dos fatos?

De fato foi! Duhem lecionava na Universidade de Bordeaux quando perdeu sua esposa prematuramente. Continuou a viver com sua filha Hélène que era apenas uma criança quando sua mãe morreu. Isso o deixou com mais tempo livre para perseguir sua paixão pela Ciência. Ele buscava especificamente estabelecer uma forma perfeita de Física, “uma na qual cada detalhe matemático pudesse ser relacionado a aspectos da realidade física.” 1

 

Isso soa como uma tarefa muito ambiciosa! Ele conseguiu?

Não, ele não conseguiu. Mas suas investigações o levaram a obter um êxito que os não católicos poderiam chamar de acidental, mas nós podemos chamar de providencial. Ele começou realizando pesquisas históricas na livraria da Universidade a fim de traçar o uso da matemática na física desde sua origem.

 

— O que ele achou?

Bem, a principal coisa que ele descobriu foi que a assim chamada “Revolução Científica” não ocorreu no vácuo. Galileu e Newton não foram deuses que desceram dos céus para habitar entre os mortais. Ao contrário, eles estavam de pé sobre os ombros de gigantes, como o próprio Newton indicou. Esses gigantes eram os medievais católicos, os Escolásticos, a mais odiada classe de intelectuais pelas groupies 2 iluministas.

Em outras palavras, Duhem observou que os cientistas do século XVII conheciam e se baseavam em uma riqueza de pensamento científico inovador que surgiu nos séculos XIII a XVI. Ele metodicamente trouxe a luz manuscritos latinos medievais, compreendeu tudo o que os autores estavam dizendo, classificou seus escritos, os comparou e documentou a ponte histórica entre a ciência grega e a ciência moderna, tal ponte sendo de construção medieval.

 

— Pode nos dar um exemplo?

Certamente! Vamos considerar sua pesquisa na história da Estática. Estática é “o ramo da mecânica preocupado com os corpos em repouso e as forças em equilíbrio.”3 De acordo com o Iluminismo, a Estática nasceu no século XVII sem nenhuma ajuda da Idade Média. Duhem provou que não era esse o caso em sua obra A Origem da Estática.

 

— O Sr. Pode citar suas descobertas?

Com prazer. No prefácio da citada obra, ele afirma o seguinte: “Desde o início, esta pesquisa levou-nos a fazer algumas observações imprevistas. Elas nos provaram que os trabalhos de Leonardo da Vinci, tão ricos em novas idéias na mecânica, de forma alguma permaneceram desconhecidos aos físicos mecânicos da Renascença, como é usualmente assumido. Elas provaram, além disso, que seus trabalhos foram usados por muitos cientistas do século XVI, em particular, por Cardano e Benedetti, dotando Cardano com profundas intuições sobre operação de máquinas e a impossibilidade do movimento perpétuo.”

 

Então, da Vinci fez algumas importantes descobertas no final do século XV e no início do século XVI?

Sim. Mas há muito mais! Duhem continua: 

“Nós já tínhamos começado a refazer esse desenvolvimento na Revue des Questions Scientifiques, quando por acaso nos deparamos com um texto de Tartaglia, em nenhum lugar mencionado em qualquer história da Estática, que nos provou que o que havíamos feito até agora precisava ser repensado e um nível totalmente diferente.”

 

O que continha o texto de Tartaglia?

Plágio. Ele foi um matemático veneziano que viveu de 1500 a 1557. Duhem descreve sua decepção como segue: 

“Foi Tartaglia que, muito antes de Stevin e Galileu, determinou o peso aparente de um corpo no plano inclinado. Ele deduziu muito corretamente essa lei de um princípio que Descartes mais tarde afirmou em sua completa integralidade. Mas essa magnífica descoberta não veio de Tartaglia, coisa que nenhum historiador da mecânica menciona. Tudo não passa de um imprudente ato de plágio da parte dele. Ferrari4 o repreendeu severamente por isso e deu crédito pela descoberta a um matemático do século XIII chamado Jordanus Nemorarius5.

 

Então, a descoberta principal foi feita na Idade Média?

Sim! O achado de Duhem de que Jordanus era o gênio por detrás deste princípio particular da mecânica foi substancial. Ferrari citou o nome de Jordanus e isso levou Duhem a virar a biblioteca de cabeça para baixo para achar os textos autênticos: “Na intenção de determinar precisamente o que a mecânica devia a Jordanus e seus estudantes, tivemos de remontar a fontes da época, aos manuscritos. Assim, fomos forçados a percorrer todos os manuscritos lidando com Estática que fomos capazes de encontrar na Bibliothèque Mazarine”.

 

— Graças a Deus ele empreendeu esse esforço incrível! O que acabou encontrando?

O que Duhem descreveu como “conclusões totalmente inesperadas”, e que acabaram por revolucionar a sua carreira científica. Após ter descoberto Jordanus em 1904, dedicará o resto de sua vida, com a vasta capacidade de pesquisa e de escrita de que era dotado, para estabelecer sua conclusão de uma forma tão minuciosa que é quase impossível refutá-lo.

 

— A conclusão de que a ciência nasceu na Idade Média?

Precisamente! A verdade é que a Cristandade medieval era dotada de uma curiosidade científica que o mundo nunca tinha visto antes.

 

— Como Duhem expressou isso no texto que o senhor citou?

Como segue: “A Idade Média ocidental não apenas direta ou indiretamente através de intermediários árabes, herdou a tradição de certas teorias helênicas sobre a alavanca e teorias romanas sobre o equilíbrio, mas através de sua própria atividade intelectual deu nascimento a Estática autônoma, desconhecida na antiguidade. Logo no começo do século XIII, e provavelmente ainda mais cedo, Jordanus Nemorarius demonstrou a lei da alavanca procedendo do seguinte postulado: o mesmo trabalho é necessário para levantar diferentes pesos quanto estes estão na proporção inversa às alturas nas quais deslocam-se.”

 

— E esse conhecimento não foi perdido nos séculos seguintes?

Não! Ao contrário, ele foi passado e desenvolvido. “Essa ideia, que pode ser achada em germe no tratado de Jordanus, foi progressivamente desenvolvida nos trabalhos seguintes de Leonardo da Vinci, Cardano, Roberval, Descartes e Wallis, e chegou a sua formulação final na carta que John Bernoulli enviou para Varignon bem como na Méchanique Analytique de Lagrange e nos trabalhos de Willard Gibbs. Portanto, a ciência de hoje da qual nós somos legitimamente tão orgulhosos, ramificou-se da ciência nascida por volta de 1300.”

 

— Espantoso! Isso é uma destruição de mito em uma escala nuclear.

De fato, é difícil acusar Duhem de hipérbole quando ele termina dizendo: “As assim chamadas revoluções [científicas] intelectuais consistiram, na maior parte dos casos, em nada mais do que um desenvolvimento ocorrido por longo período de tempo. A assim chamada Renascença foi frequentemente nada além de injustas e estéreis reações".

 

A Renascença e o Iluminismo sempre pareceram superficiais à mente católica, mas é muito bom ter provas documentais! Escreveu Duhem algo mais?

Certamente. Ele foi um escritor prolífico. Além dos seus muitos artigos acadêmicos publicados na Revue des Questions Scientifique e mesmo uma dezena ou mais de artigos na Catholic Encyplopedia6 de 1913, ele produziu um constante fluxo de trabalhos em vários volumes sobre história da ciência. Padre Stanley Jaki estava certo ao referir-se aos esforços de Duhem como “sobre-humanos” e colocou a sua incrível produção em contexto: 

“Sem assistentes para ajudá-lo, sem nenhuma das conveniências modernas para pesquisa – máquinas de xerox, microfilmes, nem mesmo uma máquina de escrever ou uma esferográfica – a sua disposição para salvar precioso tempo para reflexão e escrita, ele trabalhou de uma forma inconcebível hoje em dia. O aspecto menos conhecido disso está relacionado a sua mão direita – muito predisposta a tremer durante seus últimos dez anos quando ele preencheu 120 cadernos, cada um com 200 páginas, com trechos de quase 100 manuscritos medievais.”7

 

— Existe algum trabalho em particular que se destaca?

Sua obra prima, publicada em 10 volumes de 5.000 páginas cada, chamava-se Système du Monde, uma história da ciência em uma escala que o mundo nunca antes vira.

 

— Existe algo mais de interessante sobre esta obra?

Sim, o fato de que apenas poucos volumes foram publicados durante sua vida e que sua filha Hélène teve de lutar com o editor por décadas a fio para ter os outros volumes publicados, como foi prometido no contrato. Seus esforços finalmente bem-sucedidos em lidar com o gerente mexicano da editora francesa são recontados pelo Padre Jaki em Relectant Heroine: The Life and Work of Hélène Duhem.

 

— E sobre Pierre Duhem? Existe alguma coisa sobre sua vida de católico?

Há muitas coisas: o seu grande amor pela Fé e a santidade da sua vida. Ele tinha a Imitação de Cristo praticamente memorizada, engajou-se em muitos trabalhos de caridade e suportou algumas difíceis cruzes com paciência sobrenatural.

 

— O senhor pode nomear alguma dessas cruzes?

Além da repentina morte de sua esposa e de seu filho recém-nascido, Duhem sofreu durante sua vida de uma doença de estômago crônica. Ele também foi vítima de inveja intelectual de Berthelot, que era “quase onipotente na França em matéria relacionada a ciência na época”. Duhem corretamente arguiu contra o “princípio do máximo trabalho” de Berthelot, e este revidou tentando prejudicar a carreira acadêmica de Duhem, bloqueando com sucesso uma lucrativa posição de professor em Paris e atrasando propositalmente a nomeação dele à Academia Francesa de Ciências até 1913. Além disso, Duhem foi plagiado não poucas vezes durante sua vida, mas seu usual recurso em resposta era o silêncio.

 

— Parece que ele era edificante e brilhante! É uma vergonha que tão poucos católicos saibam sobre ele!

Bom, pelo menos os leitores da The Angelus estão entre esses poucos!

 

— Mas nós apenas arranhamos a superfície sobre Duhem? O Sr. Mencionou a origem da Estática da Idade Média. Não foram os escolásticos medievais responsáveis por muito mais que isso?

De fato, eles inventaram a própria ferramenta com a qual a investigação científica é conduzida atualmente, o método científico. Para aprender sobre isso, leia o próximo artigo!

 

(Fonte: Angelus Press - Setembro de 2019 - Tradução: Fábio Almeida e Sousa)

  1. 1. The Realist Guide to Religion and Science, p.155.
  2. 2. Termo pejorativo que não tem uma tradução exata para o português, seu sentido original é de um grupo de pessoas (geralmente jovens mulheres) que segue alguém ou um outro grupo de pessoas com pouco ou nenhum discernimento, de forma histérica. [N. do T.]
  3. 3. Oxford Dictionary of English.
  4. 4. Lodovico Ferrari, matemático italiano nascido em Milão, viveu de 1522 a 1565. Tartaglia e Ferrari eram adversários no campo da matemática o que os levou a um célebre debate público na Igreja de Santa Maria del Giardino, Milão em 1548. [N. do T.].
  5. 5. Também conhecido como Jordanus de Nemore e ainda Giordano de Nemi, matemático provavelmente italiano do Século XIII. Muito pouco é conhecido sobre sua vida. Alguns historiadores sustentam que ele e o Beato Jordão da Saxônia (Primeiro sucessor de São Domingos como mestre geral da Ordem dos Pregadores) foram a mesma pessoa. Porém essa conclusão é muito contestada. [N. do T.]
  6. 6. Ver especificamente a “História da Física”.
  7. 7. Scientist and Catholic: Pierre Duhem, pp. 88-89.
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