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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Madre Teresa de Calcutá: verdadeira ou falsa caridade?

Pe. Marie-Dominique, O.P.

 

O testemunho dos santos tem o seu valor; a nossa época teve o testemunho de Madre Teresa de Calcutá, humilde filha da Albânia, que – pela graça de Deus – se transformou em um exemplo de exercício da caridade e de serviço à promoção do ser humano para o mundo inteiro.” (Bento XVI, em 8 de março de 2009)[1].

Reuníamo-nos todas as manhãs na casa geral e gozávamos da alegria de nos ajoelharmos ao pé do túmulo de Madre Teresa.

Era impressionante observar um budista em posição de lótus ao lado de um muçulmano de rosto em terra e, próximo a eles, um cristão de joelhos. Nisso há um mistério! Lá estavam os três, sem se defrontarem; melhor ainda, estavam trabalhando juntos, pois é a caridade que os reúne.(Pe. Benoît-Joseph, da comunidade das Beatitudes[2]).  Leia mais

I. Elementos Biográficos

1. Infância

Em 26 de agosto de 1910, nascia Gonxha (Inês) Bojaxhin, na cidade de Skopie – que então se chamava Üsküb – na Macedônia, ainda sob o domínio turco[3]. Os católicos eram ali minoritários, espremidos entre ortodoxos hostis e muçulmanos.

Os pais de Gonxha eram emigrantes da Albânia. Eles já haviam dado à luz Aga e Lázaro, quando Gonxha, a última de seus filhos, veio ao mundo.

Rapidamente a criança revelou saúde frágil, sempre acometida de gripes e problemas respiratórios. Quando atingiu a idade escolar, os pais decidiram matriculá-la, primeiro em uma escolinha administrada por religiosas, depois em uma escola laica sem Deus, no liceu estatal, a exemplo dos outros filhos. Eram pouquíssimos os católicos em Skopje, para que dispusessem de um estabelecimento confessional que assegurasse educação integral.

Kollë (Nicolau), o pai, era empreiteiro da construção civil. O negócio ia bem e lhe angariou considerável riqueza. Deveras cristão, inculcou em Inês o amor aos pobres desde cedo: “Minha filha, nunca aceite levar um pedaço de pão à boca sem que esteja disposta a reparti-lo com o próximo”, lhe repetia quase sempre.

Kölle também atuava intensamente na política: participava com ardor da vida pública da cidade e era conselheiro municipal. Sua casa abrigava numerosas reuniões dos nacionalistas albaneses da cidade, o que lhe atraia a hostilidade de sérvios e búlgaros, uma vez que essas nacionalidades estavam em pé de guerra na região. Por isso Kölle se tornou o homem a ser abatido. Em 1919 viajou a Belgrado a fim de perorar a causa da minoria albanesa, mas no retorno a Skopje passou mal e morreu no hospital para onde o levaram. Falou-se em envenenamento e crime político, mas a dúvida nunca foi sanada.

Seja como for, a mãe de Gonxha, Drana, teve de fazer proezas para atender às necessidades da família; para tanto, abriu uma loja de bordados. Católica fervorosa, desempenhava um papel ativíssimo na paróquia e se dedicava às obras de caridade. O irmão de Gonxha, Lázaro, diz sobre ela: “Nossa mãe era uma mulher forte, com têmpera de aço. Era ao mesmo tempo humilde, generosa, diligente com os pobres e profundamente religiosa. Acredito que devemos tudo a ela”[4]. Depois da morte do marido, ela declarou aos filhos: “Também eu exigirei que vocês sejam bons e sirvam de exemplo a todos”[5]. De fato, afirma Lázaro: “Muitos pobres de Skopje e das cercanias conheciam a nossa porta. Nunca ninguém saiu de lá com as mãos vazias”[6].

A piedosa Gonxha ingressou nas Filhas de Maria e participava do coral da paróquia, de que era uma das melhores cantoras. Ao mesmo tempo, ia se revelando uma pessoa alegre, espontânea e marota, além de uma organizadora nata. Na escola era sempre a primeira da turma, sempre disposta a ajudar os outros.

A infância não determina ninguém, pois o homem permanece livre e, com a graça de Deus, é capaz de corrigir a má orientação inicial. Porém, ainda é de utilidade entender certos comportamentos e observar o que aconteceu nos primeiros anos de vida. Veremos adiante que o que caracteriza Madre Teresa é a “caridade” ecumênica. Ora, Lázaro, seu irmão, revela sobre a infância da irmã: “Ela era muito sociável, e não se preocupava com a religião, a língua ou a nacionalidade de ninguém”[7]. Gonxha viveu a mocidade em um ambiente onde os católicos eram uma minoria espremida entre uma população de ortodoxos e muçulmanos, como já dissemos. Por força das circunstâncias – pois a vida social é necessária – eram diários os contatos com membros de outras religiões. Muçulmanos e ortodoxos compareceram ao funeral do pai, o único católico do conselho municipal. Nesse contexto, há de se ter um espírito de fé verdadeiramente profundo, para não cair pelo menos em certo relativismo religioso. Madre Teresa levará esse relativismo às alturas.

 

2. Vocação religiosa

Aos doze anos, Gonxha sentiu pela primeira vez o chamado do Senhor: ela se apaixonou pela revista Missões Católicas, em que escreviam alguns missionários croatas e eslovenos da Índia. “Posso afirmar, com toda certeza, que foi aquela revista que despertou a paixão de Gonxha pelas missões, e a ajudou a desenvolver a vocação”, declara Lázaro[8].

Mas ela não revelou o desejo à família.

Aos dezoito anos, em uma peregrinação ao santuário mariano de Nossa Senhora de Letnice, decidiu de vez ingressar em uma ordem religiosa, a das Irmãs de Nossa Senhora do Loreto (as loretinas), que era uma congregação missionária de espiritualidade jesuítica devotada à educação, do ensino primário ao superior, e que atuava em Bengala[9]. A escolha, sem dúvida, sofreu a influência de seu confessor, o Pe. Jambrekovic S. J., que era o cura da paróquia.

Antes, porém, ela deveria ingressar na casa geral da ordem em Rathfarnam, perto de Dublin, na Irlanda. Gonxha deixou Skopje em 26 de setembro de 1928, em companhia de outra moça. Umas cem pessoas compareceram à estação a fim de se despedir dela. Nunca mais reveria a mãe.

Recebeu o santo hábito religioso em 12 de outubro, com o nome de Irmã Maria Teresa do Menino Jesus, sob o triplo patronato de Nosso Senhor, Nossa Senhora e Santa Teresa do Menino Jesus. Fez o noviciado em Darjeeling[10], a 600 km de Calcutá, na Índia, que na época era a joia da coroa britânica. Durante a travessia do Mediterrâneo, escreveu aos parentes: “Orem pela sua missionária, a fim de que Jesus a ajude a salvar das trevas da incredulidade o maior número possível de almas imortais”[11].

Depois de dezoito meses, Irmã Teresa pronunciou os votos temporários em 25 de março de 1931.

O encontro com a miséria material da Índia lhe causou verdadeiro impacto, a exemplo de todas as pessoas que aportavam pela primeira vez no país. A colonização britânica e protestante, preocupada apenas com os interesses econômicos de Londres, não mexera uma palha para civilizar o país; mas o que dizer da miséria moral, e sobretudo espiritual, daquelas almas prisioneiras do demônio nas falsas religiões?

 

3. Primeiros passos na Índia

Logo após os votos, designaram Irmã Teresa para um pequeno centro missionário de Bengala, onde haviam construído um posto de saúde. Ali ajudava a cuidar dos doentes que afluíam de todas as confissões. Este foi o primeiro contato dela com as religiões da Índia.

Todavia, passados alguns meses, as superioras, cientes de sua saúde frágil e notando-lhe a inteligência vivaz, acharam que os talentos de Teresa seriam de mais serventia na cidade, em uma das escolas administradas pelas “senhoras irlandesas”. Designaram-na então para o colégio Lorento Entally, uma escola gratuita para crianças pobres. Pediram-lhe que ensinasse história e geografia enquanto prosseguisse os estudos para conseguir o diploma de professor. Rapidamente ela conquistou o amor dos alunos. Nos tempos livres fazia visitas de caridade nas favelas de Calcutá.

Em 24 de maio de 1937, pronunciou os votos perpétuos em Darjeeling. Segundo o costume de Loreto, adotou doravante o nome de “Madre Teresa”.

Já no início das aulas, nova designação: enviaram-na para a escola Santa Maria, estabelecimento privado e não gratuito, onde estudavam as moças da alta sociedade indiana a quem os pais queriam proporcionar uma educação européia. Nomearam-na diretora de estudos. Ela se dedicou de todo coração a essa nova tarefa e lá criou uma seção das Filhas de Maria. Ao escrever à mãe o quão agradável lhe era o novo encargo, recebeu uma resposta que, para ela, serviu de tiro de advertência: “Minha filhinha, não esqueça que você partiu para uma terra distante a fim de cuidar dos pobres”[12].

 

4. Chamado dentro do chamado

Não obstante, passaram-se os anos. Veio a 2ª Guerra Mundial, durante a qual ela fez, em 1942, um voto privado, “sob pena de pecado mortal, de dar a Deus tudo o que Ele pedisse, sem lhe recusar nada”[13]. Desde então, habituou-se a responder de imediato às exigências do momento presente. Sob o influxo do voto, seus empreendimentos se assinalam pelo poderoso anseio da ação imediata.

Sobrevieram as comoções da independência da Índia: caos e guerra civil. Centenas de milhares de refugiados chegavam a Calcutá.

Em 10 de setembro de 1946, no trem que a levava para um retiro no convento de Loreto em Darjeeling, ela experimentou novo chamado de Deus: “Enquanto eu orava no íntimo de mim e em silêncio, percebi muito claramente um chamado dentro do chamado. A mensagem era claríssima: eu devia deixar o convento de Loreto para consagrar-me ao serviço do próximo, vivendo entre eles. [...] Reconheci que Jesus queria que eu servisse aos pobres e abandonados. [..] Jesus me convida a servi-lo e a segui-lo na verdadeira pobreza, abraçando um modelo de vida que me assemelha aos necessitados, nos quais Ele está presente, sofre e vive”[14].

Antes de tudo, conversa com o confessor, o Pe. van Exem, jesuíta belga, que a aconselha sobretudo a rezar e esperar, para que se assegurasse da vontade de Deus. Entretanto concordou em mencionar o caso ao arcebispo de Calcutá, Mons. Ferdinand Périer, jesuíta francês. A resposta do bispo foi negativa. Ademais já existia em Calcutá uma congregação diocesana de bengalesas, as Filhas de Sant’Ana, que visitavam as pessoas mais miseráveis da cidade, vivendo em extrema pobreza e vestindo, como hábito, um sári indiano de cor azul.

De todo modo, Madre Teresa teve um início de tuberculose, que a condenou à inação durante certo tempo.

Mas, no começo do ano de 1948, Mons. Périer acabou dando a autorização, porém não é tão fácil abandonar uma congregação quando já se fizeram os votos perpétuos. Roma exarou um decreto de exclaustração válido por um ano[15]: durante esse tempo, Madre Teresa viveria sob a autoridade direta do arcebispo de Calcutá.

 

5. Nova via no serviço aos mais pobres

Em 16 de agosto de 1948, Madre Teresa deixava a casa das Irmãs de Loreto. Adotara como novo hábito religioso um sári branco ornado de uma risca azul (em homenagem à Nossa Senhora), com um crucifixo pequeno sobre a dobra do ombro esquerdo.

Mons. Périer, contudo, lhe ordenara adquirir conhecimentos médicos que a permitissem cuidar dos pobres. Assim ela partiu para o hospital da Santa Família em Patna, a 500 km de Calcutá, para um estágio de três meses. Enquanto isso, obtinha a nacionalidade indiana, o que lhe facilitaria o trabalho.

Já de volta a Calcutá, antes do Natal, instala-se provisoriamente na casa das Irmãzinhas dos Pobres. Sem perder tempo, começa logo a percorrer as ruas da cidade, que não passa de uma enorme favela, onde as pessoas morrem pelas calçadas sem que ninguém se preocupe: com certeza o hinduísmo é, no plano social, a mais desastrosa das religiões.

Comovida com o abandono das crianças de rua, ela improvisa uma escola em um terreno baldio. Escrevia na terra com um bastão e apagava o escrito com as sandálias. No primeiro dia, tinha 23 alunos, e 41 já no dia seguinte. Abriu também um dispensário ao ar livre.

Algum tempo depois, em fevereiro de 1949, por intermédio do Pe. van Exem, Madre Teresa contatou um católico chamado Michael Gomez, que pôs à disposição dela o último andar de sua casa, na rua Creek Lane 14, que logo ficou lotada de pobres recolhidos nas ruas e favelas.

 

6. Congregação dos Missionários da Caridade

E eis que se precipitaram os acontecimentos.

Em 19 de março de 1949, uma antiga aluna, Shubashini Das, vem oferecer ajuda a Madre Teresa. Em dezembro já três moças lhe faziam companhia.

Diante da experiência bem sucedida, Mons. Périer aceitou em agosto a renovação do estatuto de exclaustração por mais um ano.

Entrementes a ideia de fundar uma congregação ganhava força: para que a obra crescesse, precisava de estabilidade; já não era possível continuar apoiando-se apenas no socorro e na benevolência ocasionais.

No começo dos anos 50, com o subsídio jurídico do Pe. van Exam, Madre Teresa começou a redigir os estatutos da Congregação dos Missionários da Caridade. Escrevia ela:

Nossa missão específica é a de trabalhar na salvação e na santificação dos mais pobres entre os pobres... [...] Nosso dever particular será o de proclamar Jesus Cristo aos homens de todas as nações, e sobretudo às pessoas confiadas aos nossos cuidados.[16]

Denominamo-nos “Missionários da Caridade”. Deus é amor. A missionária deve ser missionária do amor. Na parte mais profunda de si, ela deve estar repleta de amor, a fim de disseminá-lo nas almas dos outros, sejam cristãos ou não.[17]

Veremos adiante o que entendia Madre Teresa a respeito disso.

Junto aos habituais votos de pobreza, obediência e castidade, as irmãs acrescentavam o de consagração aos mais pobres: “Este quarto voto é essencial à nossa congregação. Não podemos aceitar nada que pressuponha a transgressão dele”[18].

A jornada típica dos Missionários da Caridade é bem ocupada: despertar às 4:40h; oração às 5h; às 5:45h (mesmo em dias de festa), missa com prédica. Depois, café da manhã e arrumação. Das 8 às 12:30h, serviço aos pobres e necessitados. Às 12:30h, refeição seguida de pequena sesta. Das 14:30 às 15h, leitura e meditação. Às 15h, chá. Das 15:15 às 16:30h, adoração ao Santíssimo Sacramento. Novamente serviço aos pobres até às 19:30. Às 19:30, refeição. Depois, vem o conselho, quando as religiosas repartem as tarefas do dia seguinte. Perto das 20:30h, pequena recreação, e enfim a oração da noite que encerra o dia. Uma vez por semana, há um dia inteiro de recolhimento.

Mons. Périer submete os estatutos à Congregação para os Religiosos, em Roma. A aprovação chegou a Calcutá em 7 de outubro de 1950. Os Missionários da Caridade já contavam com doze pessoas.

 

 
7. Abrigo para os moribundos

Não é inútil nesta altura descrever com que se parece a cidade de Calcutá. Tal descrição nos permitirá conceber o cenário onde trabalham os Missionários da Caridade. Outrora chamada de “Paris do Oriente”, eis uma amostra da ação do hinduísmo sobre ela, a partir da independência em 1947, segundo a descrição – sempre atual – de um viajante:

Calcutá é um dos maiores desastres urbanos do mundo. Trata-se de uma cidade corroída pela decrepitude, onde dez mil casas e imóveis novos, de doze andares ou mais, ameaçam rachar ou até desabar a qualquer momento. Com fachadas gretadas, telhados vacilantes e muros devorados pela vegetação tropical, alguns bairros parecem ter acabado de sofrer um bombardeio. [...] Na falta de um serviço de esgoto adequado, mil e oitocentas toneladas de imundícia se acumulavam todos os dias nas ruas, atraindo multidões de moscas, mosquitos, ratos, baratas e outras sevandijas. [...] Os artigos e as matérias da imprensa local denunciavam insistentemente este repositório empesteado de vapores, exalações e gases nauseabundos, este cenário devastado com calçadas afundadas, esgotos quebrados, canos d’água estourados e linhas telefônicas arrancadas.[19]

Certo dia, na companhia de Michael Gomez, Madre Teresa avistou na calçada, perto de um hospital, um homem a agonizar. Ela tentou em vão obter ajuda dos funcionários do hospital, mas sem dinheiro não poderiam admitir o moribundo. Então acorreu até a farmácia mais próxima. Contudo, era tarde demais: o infeliz acabara de morrer, sem que um transeunte parasse ou ao menos tentasse socorrê-lo. Em outro dia, descobriu com horror uma mulher ainda viva, cujo corpo os ratos já começavam a devorar. Foi o limite para Madre Teresa: competia-lhe auxiliar os moribundos, pois tais cenas são cotidianas na Índia. Ocorreu-lhe então uma idéia: encontrar um local para onde se levariam os agonizantes, para que pudessem morrer em paz. “Eles precisam sentir que existem pessoas que os amam de verdade, para que, ao menos durante as horas de vida restantes, conheçam enfim o amor humano e divino, e saibam que são filhos de Deus, que não foram esquecidos e são amados, que ainda são importantes e existem jovens seres prontos a lhes servir”[20].

Em 22 de agosto de 1952, no dia da festa do Imaculado Coração de Maria, Mons. Éric Barber, vigário geral da diocese, inaugurava oficialmente o Nirmal Hriday, a Casa do Coração Puro, assim denominada em homenagem ao Imaculado Coração de Maria. Tratava-se de um abrigo para os moribundos abandonados, instalado em uma construção vetusta, cedida pelas autoridades municipais de Calcutá. Outrora o lugar servira para o acolhimento dos “peregrinos” da deusa Káli, a deusa da morte[21], cujo templo é contíguo ao abrigo. A presença de religiosas católicas em um lugar daqueles logo redundou em ameaças de parte dos hindus, que só terminaram no dia em que Madre Teresa acolheu no morredouro um “sacerdote” de Káli, que morreu em seus braços.

As irmãs precisavam de coragem bastante heróica para se devotarem a tal obra. Os agonizantes que levavam ao Nirmal Hriday eram, na maioria dos casos, de uma repugnância atroz: por vezes tinham os membros gangrenados e devorado de vermes. Era um espetáculo insuportável para os estrangeiros.

Entretanto convém observar mais de perto o que se passa no Nirmal Hriday no plano religioso. Demos voz ao Mons. di Falco na obra sobre Madre Teresa:

Ela acolhia sem distinção católicos, protestantes, muçulmanos, hindus e parses.[22] Para os católicos, lá estão os padres para lhes administrar os últimos sacramentos; para os demais, o importante é morrer em paz consigo mesmo e com Deus. Após a morte os pensionistas do Nirmal Hriday são enterrados segundo os ritos da respectiva religião. Há nisso uma grande e admirável lição de tolerância e humanidade, que é propriamente revolucionária. Madre Teresa, amiúde acusada de conservadorismo, não esperou o Concílio Vaticano II a fim de praticar o ecumenismo e dispor-se a escutar as religiões não cristãs. No começo esse comportamento lhe valeu críticas de alguns membros do clero, que lhe lançaram em rosto a negligência da função de missionária.[23]

 

 
8. Expansão da obra

E a obra se foi estendendo. No começo de 1953, aconteceu a mudança do local da casa geral, nome aliás bem pomposo para o singelo apartamento de Michael Gomez.

Ao final de uma novena à Santa Cecília, Madre Teresa encontrou uma casa à venda bem no meio dos bairros populares e miseráveis de Calcutá, na rua Lower Circular 54. Rapidamente Mons. Périer liberou os fundos necessários para a aquisição do imóvel. As irmãs se instalaram no local em fevereiro.

Em 1955 se deu a abertura de um abrigo para crianças abandonadas, o Nirmala Shishu Bavan. Ao longo dos anos recolher-se-ão milhares de crianças:

Nesse orfanato, destinado a servir de modelo para as futuras fundações na Índia e alhures, as crianças só tinham por vezes umas poucas horas de vida [...] Fiel a seus princípios, Madre Teresa não batiza tais crianças in articulo mortis[24] [25].

Em 1957 instalaram uma vila de leprosos, Shantinagar (Cidade da Paz), a 250 km de Calcutá. Reuniram ali quatrocentas famílias de leprosos, cada uma das quais possuía uma casa e um lote de terra. Naquele local construíram também uma escola. Shantinagar deu origem a numerosas experiências semelhantes na Índia.

Em 1963 – já era a época do Concílio – a congregação contava com umas cem irmãs. Em 25 de março, alguns jovens indianos reunidos em torno de Madre Teresa e do novo arcebispo de Calcutá, Mons. Albert de Souza, formaram o núcleo originário de um ramo masculino da ordem. Esse ramo ficou ao encargo do Pe. Ian Traves-Ball (que adotou o nome de Frei André). Como fosse um jesuíta australiano, teve de obter a permissão de deixar a ordem antes da profissão perpétua, com a intenção de se tornar o superior do instituto nascente, que de mais a mais nunca alcançará o êxito das irmãs.[26] O dever dos Irmãos Missionários da Caridade é trabalhar nos lugares onde as irmãs não conseguem ir de jeito nenhum ou aonde só vão com enormes dificuldades. No abrigo dos moribundos eles cuidam mormente dos homens, ao passo que as irmãs cuidam sobretudo das mulheres; eles também tomam conta dos órfãos, dos mineiros abandonados e dos doentes graves. Muitos trabalham entre os leprosos.

Em 1964 aconteceu a visita bombástica de Paulo VI à Índia. O papa não conseguiu um encontro com Madre Teresa, mas lhe doou o seu Lincoln branco, que logo foi vendido em benefício dos pobres. Paulo VI quis recompensar Madre Teresa: em 1965 a Congregação dos Missionários da Caridade foi reconhecida como de direito pontifício, dando a ela a possibilidade de abrir casas no mundo inteiro, em qualquer lugar onde um bispo lhe franqueasse as portas.

A íntima amizade de Madre Teresa com o Papa João Paulo II, que visitou o Nirmal Hriday em 1986, facilitou ainda mais a expansão da obra. Todos os continentes acolheram os missionários da congregação, que se espalhava por todos os lugares onde houvesse pobres a socorrer, até nos países ricos.

A congregação se diversificou em vários ramos: as Irmãs Missionárias da Caridade (ativas), as Irmãs Missionárias do Verbo[27], os Irmãos Missionários da Caridade (ativos), os Irmãos Missionários do Verbo[28], os Padres Missionários da Caridade[29], os cooperadores ordinários[30], e os cooperadores doentes e sofredores. Estes últimos, homens e mulheres “de todas as religiões”, como declaram os textos da congregação, hoje em dia totalizam no mínimo 200.000 pessoas.

Mas o “melhor” ainda estava por vir:

Cerca de oitenta moças hindus vieram exprimir o desejo de serem recebidas na congregação. Dispunham-se à vida comunitária, à aceitação dos votos e demais deveres, mas se recusavam a abandonar o hinduísmo. Madre Teresa ficou contente e surpresa, e as teria aceitado com alegria. Porém não queria precipitar os acontecimentos. Seguindo um velho hábito, começou por pedir conselho e depois se dirigiu a Roma, a fim de explicar o caso. [Estávamos no pontificado de João Paulo II]. No mesmo ano (1981) lhe comunicaram a aceitação do pedido. Os não cristãos poderiam participar dos Missionários da Caridade, sob condição de que aceitassem na íntegra o estilo de vida das irmãs.[31]

Quando da morte de Madre Teresa em 1997, os Missionários da Caridade já contavam com quase 4000 membros, distribuídos em quase 600 fundações em 123 países.

 

 
9. Notoriedade mundial

Madre Teresa, ao que parece, sem buscá-las, viu-se alvo de todas as honras que o mundo atual lhe pôde dar.

Em 1962 o governo indiano lhe concedeu o Lótus de Ouro, uma das maiores honrarias do país.

A conferência dos chefes de estado asiáticos a distinguiu com o prêmio Magseysey[32], de 50.000 rúpias, que lhe permitiram abrir novo abrigo para crianças abandonadas.

No Natal de 1970, o Papa Paulo VI lhe outorgou o prêmio da paz João XXIII, presidindo pessoalmente a cerimônia de concessão do prêmio em 6 de junho de 1971, na presença de todos os membros do corpo diplomático que servia junto à Santa Sé. O secretário geral da ONU, o birmanês U. Thant, enviou um telegrama de felicitações na ocasião.

Nesse ano Madre Teresa recebeu em Boston o prêmio Bom Samaritano, criado pela família Kennedy.

Em 1972 a Índia a laureou com o prêmio Nehru, por sua atividade durante a guerra com Bangladesh.

Em 1973 a Grã-Bretanha a honrava com o gnosticíssimo prêmio Templeton[33], que o duque de Edimburgo lhe entregou na presença da rainha Elizabeth.

Não nos é possível citar todos os prêmios que recebeu.

Em 16 de outubro de 1979, recebeu a distinção suprema e o coroamento: o Prêmio Nobel da Paz. Ela o recebeu na cidade de Oslo, em dezembro. O bispo de sua cidade natal, Skopje, estava presente, encorajado pelas autoridades comunistas da Iugoslávia a comparecer à cerimônia. A entrega do prêmio foi precedida de uma jornada ecumênica: depois da missa solene na catedral católica, ocorreu uma cerimônia na catedral luterana diante dos representantes de todas as confissões religiosas da Noruega, e logo após outra no Centro Pastoral Luterano, onde Madre Teresa recebeu o Prêmio do Povo[34]. Em 10 de dezembro, aconteceu a entrega do Prêmio Nobel na universidade de Oslo, na presença da família real e do corpo diplomático. O marechal Tito, o tirano comunista da Iugoslávia, remetera uma mensagem de felicitação à Madre Teresa: “Vossa nobre atividade [...] vai despertar o interesse que mundo deve dedicar ao bem-estar do homem”[35].

 

Essas honrarias a consagraram como modelo. Durante os anos setenta elevaram-na à posição de celebridade universal, sem dúvida contra a sua vontade. Escolheram-na como o moderno símbolo do compromisso humanitário e da “solidariedade”, transformando-a em figura emblemática. O “establishment” internacional fez dela um mito vivo, e a sua quase santidade lhe atraíra grande veneração. Já em vida lhe conferiram o título de santa. Quando ela recebeu o Prêmio Nobel, o New York Times inventou para ela uma categoria inédita ao intitulá-la Madre Teresa, uma santa secular, ou seja, uma santa reconhecida pelo mundo profano e laico. Já lhe haviam conferido o título de “santa”, quando a revista Time a elegeu “a mulher do ano” (29 de dezembro de 1975). O Nouvel Observateur a denominou “a maior das mulheres vivas” (4 de novembro de 1983). Quando Javier Perez de Cuellar a recebeu, em outubro de 1984, na assembleia geral das Nações Unidas, qualificou-a de “a mulher mais poderosa da terra”[36].

 

10. Relações com governos

Antes do Prêmio Nobel, Madre Teresa já era uma personalidade influente, mas aquela distinção lhe valeu um acréscimo de autoridade, que lhe permitia falar pessoalmente com chefes de Estado acerca da expansão de sua obra de assistência aos desgraçados.

Ela se relaciona com todos os regimes, até com os menos recomendáveis, e assume compromissos. Parece que não atina que serve de caução e imagem abonadora a tais governos:

Em julho de 1985[37], ela visitou Cuba para preparar uma fundação na ilha. Aparentemente estava encantada com a visita a La Havana e a entrevista com Fidel Castro, o algoz que transformou Cuba em um imenso gulag, com milhares de presos em campos de concentração. O mínimo que se pode afirmar é de que se tratava de ingenuidade política.

Madre Teresa viajou à União Soviética em 1987, a convite dos camaradas soviéticos; deu uma entrevista coletiva sob o retrato de Karl Marx (ou de Lênin, segundo as fontes). Ao fim da visita o Comitê Soviético para a Paz a condecorou com a medalha de ouro do “combatente da paz”[38]. Não abriu a boca sobre o regime comunista. Por que o silêncio, quando tinha oportunidade de usar da credibilidade de que gozava para envergonhar o regime? Na verdade ela prestou um favor aos dirigentes do Kremlin. Qual fosse a intenção dela, há de se constatar que lhe faltou discernimento, pois caiu na armadilha das maquinações políticas dos apparatchiks comunistas, servindo-lhes objetivamente de “idiota útil”. Porque ela era uma personagem de grande prestígio moral, tais visitas foram um êxito e uma bela vitória de propaganda para os comunistas[39].

Acrescentemos que, no início de dezembro de 1990, Madre Teresa estava em visita à terra natal, Albânia, ainda sob o julgo comunista, onde recebeu a medalha da Ordem de Naim Frasheri das mãos da viúva de Enver Hoxda, mulher sanguinária que dirigia a Frente Democrática Popular, que era a fachada do partido comunista[40].

 

11. Chamado de Deus

Madre Teresa entregou a alma a Deus na noite de 5 de setembro de 1997, em um hospital de Calcutá, em decorrência de uma moléstia cardíaca que datava de 1983. Tinha 87 anos de idade.

Desde o capítulo geral de março de 1997, convocado às pressas por causa da deterioração da saúde de Madre Teresa, a Irmã Mary Nirmala Joshi, de 64 anos, hindu convertida e superiora do ramo contemplativo da ordem, a substituíra no comando dos Missionários da Caridade.

Realizaram-se os funerais na manhã do dia 13 de setembro, no estádio Netaji, em Calcutá, “durante uma celebração inter-religiosa[41]” e na presença de chefes de Estado e de governo do mundo inteiro. O corpo de Madre Teresa foi trasladado em procissão pelas ruas de Calcutá, com escolta do exército, sobre o veículo militar que também transportara os despojos mortais de Gandhi e Nehru.

 

 

12. Noite estranha

Dez anos depois da morte de Madre Teresa, a publicação de quarenta e quatro de suas cartas provocou certa comoção no mundo, até entre os colaboradores mais próximos de Madre Teresa, que não suspeitavam das trevas interiores em que vivera a fundadora dos Missionários[42]. Nelas se lêem frases bem surpreendentes:

Senhor meu Deus, quem sou eu para que vós me rejeiteis? A filha de vosso amor – e agora transformada como em filha do ódio – que rejeitastes? [...] As trevas são tão sombrias – e estou só – indesejada, abandonada. [...] Onde está a minha fé? Até no mais profundo, bem lá no fundo, só existe vazio e escuridão. [...] Não tenho a fé[43].

Agora, Pai – desde os 49 ou 50 me vem esta terrível sensação de perda – estas trevas indizíveis – esta solidão – este desejo contínuo por Deus – que me fere tanto o interior do coração – as trevas são tão espessas que não consigo enxergar de verdade – nem com o espírito nem com a razão. – O lugar de Deus na minha alma está vazio. – Não há Deus em mim. – Quando a dor do desejo é tão grande – só o que faço é desejar a Deus cada vez mais – é isso que sinto. – Ele não me quer. – Ele não está aqui. O Céu, as almas, pois bem, para mim são só palavras sem sentido. A minha vida me parece tão contraditória. Ajudo as almas – para ir aonde? Por que tudo isto? [...] Deus não quer servir-se de mim[44].

Se algum dia me tornar santa, certamente serei uma santa das “trevas”. Estarei continuamente ausente do Céu – a fim de acender a luz para as pessoas que habitam nas trevas subterrâneas[45].

Claro, deve-se ler o livro inteiro. Nele se encontram passagens como esta:

Ficareis contentíssima em saber que, no dia em que celebrastes a santa missa por alma do Santo Padre[46] na catedral, orei para que ele me desse uma prova de que Deus estava satisfeito com a congregação. Rapidamente desapareceram as trevas duradouras e a sensação de perda e solidão, esse estranho sofrimento que já dura dez anos. Hoje a minha alma está cheia de amor e de alegria indizível, gozando uma união de amor imaculada[47].

No livro chega-se a mencionar locuções (palavras) interiores, êxtases, aparições de Nosso Senhor e Nossa Senhora:

Em 10 de setembro (de 1946), Madre Teresa começou a receber várias locuções interiores, que duraram até metade do ano seguinte. Ela escutava realmente a voz de Jesus e travava íntima conversação com ele[48].

Tu te vestirás com simples vestes indianas, ou melhor, como se vestia minha Mãe – com simplicidade e pobreza. [...] O teu sári se tornará objeto santo, porque será símbolo de mim.” [49]

Poderia alcançar rapidamente o estado de êxtase, pois a união com Nosso Senhor era contínua; o arrebatamento, de tão profundo e violento, parecia estar sempre às portas.[50]

Na segunda visão, estava ela na companhia de Nossa Senhora, que suplicava: “Conduz [os pobres] a Jesus. Leva Jesus a eles”. Maria a encorajava a atender ambas as súplicas, apontando-lhe um meio para que tudo saísse a contento: ensinar os pobres a recitar o terço em família, assegurando que Nossa Senhora estaria presente[51].

As primeiras citações parecem indicar uma noite, cuja causa é a perda da fé. As demais parecem espelhar uma via mística, de modo que as provações de Madre Teresa se afiguram antes como trevas purificadoras. Como distinguir?

Antes de ir adiante, precisamos examinar a questão dos favores extraordinários.

 

13. Favores extraordinários

Antes de tudo, palavras interiores, êxtases, visões de Nosso Senhor e de Nossa Senhora são evidências da santidade de uma pessoa?

São João da Cruz examina longamente, na obra Subida do Monte Carmelo, caps. IX a XXX, os favores extraordinários que por vezes acompanham a contemplação infusa[52], ou seja, revelações privadas, palavras sobrenaturais e visões, distinguindo-as com bastante cuidado da contemplação infusa que está ligada à graça das virtudes e dos dons, ou seja, a graça santificante.

Esses favores extraordinários podem acompanhar a santidade, mas não a constituem. “O menor grau de graça santificante é infinitamente superior ao fenômeno do êxtase e à visão profética dos acontecimentos futuros”, escreve ainda o Pe. Garrigou-Lagrange[53], porque tais fenômenos só são sobrenaturais em razão da causa e do modo de produção[54] deles, ao passo que a graça santificante e o seu cortejo de virtudes e dons pertencem essencialmente ao sobrenatural.

A santidade consiste em essência no estado de graça e na prática heróica das virtudes morais e teologais, com o socorro dos dons do Espírito Santo. São estas as virtudes que sobretudo se devem examinar, a fim de proclamar a santidade de alguém.

Acrescente-se que tais fenômenos extraordinários são terreno fértil para ilusões, um campo onde o demônio se intromete facilmente para enganar os homens.

As locuções, visões etc., que Madre Teresa afirma haver experimentado, não são de per si prova de santidade. Examinemos agora o problema de sua estranha noite.

 

14. Purificações ou noites escuras da alma

A perfeição cristã consiste principalmente na caridade. Contudo, é evidentíssimo, não basta possuir essa virtude, não basta estar em estado de graça, para alcançar a perfeição propriamente dita[55].

Não é possível alcançar a plena perfeição da caridade sem provar as purificações passivas dos sentidos e do espírito[56].

As purificações dos sentidos são necessárias para purificar a alma das complacências que experimenta nas consolações sensíveis. As purificações da inteligência libertam a alma do orgulho espiritual. As purificações da vontade a libertam do amor próprio. São João da Cruz as descreve admiravelmente nas obras A Noite Escura e Chama Viva de Amor.

Seriam as trevas, que Madre Teresa descreve nas cartas, noites purificadoras e reparadoras, sobre as quais versa a teologia mística? Os editores da obra Madre Teresa o afirmam sem hesitações, fundamentando-se no Pe. Garrigou-Lagrange:

Quando a noite do espírito é sobretudo purificadora, sob o influxo da graça que se exerce principalmente pelo dom da inteligência, são purificadas de toda escória humana as virtudes teologais e a humildade. [..] Então, apesar das tentações contra a fé e a esperança, a alma acredita com firmeza, por um ato direto, puríssimo e elevadíssimo, que suplanta a tentação. [...] Quando a provação é sobretudo reparadora, cuja finalidade principal é estimular a alma já purificada a trabalhar na salvação do próximo, ela ainda conserva as mesmas características elevadíssimas que acabamos de mencionar, mas assume outro caráter que a inclina a pensar nos sofrimentos íntimos de Jesus e de Maria, pensamentos estes que não precisam de purificação[57].

 

O Pe. Garrigou-Lagrange acrescenta que os sofrimentos da purificação passiva do espírito “duram às vezes toda a vida[58]”, como duraram, de 1950 até o falecimento, as provações interiores de Madre Teresa.

O Pe. Brian Kolodiejchuk chega a encontrar uma solução para explicar as noites de Madre Teresa:

Madre Teresa se conscientizou de que as trevas eram o lado espiritual de sua obra, uma participação no sofrimento redentor do Cristo, [e não] uma purificação das imperfeições que caracterizam os iniciantes da vida espiritual, ou mesmo das imperfeições encontradiças nas almas mais avançadas no caminho de união com Deus. [...] Aquelas trevas eram uma identificação com as pessoas a quem servia: de modo místico era Madre Teresa arrastada até a dor profunda que elas experimentavam, porque se sentiam indesejadas e rejeitadas e, acima de tudo, porque viviam sem a fé em Deus[59].

Seria, pois, uma noite reparadora.

Todavia, para distinguir entre verdadeiros e falsos profetas, Nosso Senhor nos dá um critério infalível:

Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos. [...] Vós os conhecereis, pois, pelos seus frutos. Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, este entrará no reino dos céus. (Mt 7, 18-21)

Quais são os frutos da purificação da fé?

No final de tal provação, a fé sai consideravelmente aumentada, em dez vezes ou até mais. A noite do espírito se transforma em uma noite estrelada, em que se entreveem as profundezas do firmamento; para tanto, convinha que o sol se escondesse[60].

Essa transformação nada mais é que a iluminação do entendimento pela luz sobrenatural, unindo-o ao divino e divinizando-o[61].

O efeito da purificação passiva do espírito é a decuplicação da fé. Ora, as linhas seguintes mostrarão que a atitude de Madre Teresa em face das falsas religiões estava nos antípodas da fé católica, como já começamos a constatar. Somos até obrigados a afirmar que nunca na história da Igreja se viu um santo ou bem-aventurado se comportar daquele jeito. O mínimo que se pode dizer de Madre Teresa é que nela não se observa o aumento da fé que caracteriza as noites passivas do espírito, mas sim o contrário. Vejamos sem mais delongas.

 

II. A “santa” do ecumenismo

1. Memorável aniversário de vinte e cinco anos

De 28 de setembro a 7 de outubro de 1975, no 25º aniversário de fundação dos Missionários da Caridade, Madre Teresa foi convidada, em comemoração ao acontecimento, para as várias cerimônias organizadas nos templos das dezoito religiões presentes em Calcutá.

Uma das religiosas escreveu, para uso exclusivo das irmãs da congregação, um resumo dessa semana espantosa. A revista Missi, no entanto, dele publicou excertos ilustrados com fotografias, que dão ideia dos “fastos” dessa jornada.

[Foi uma semana] absolutamente única na história espiritual da humanidade[62], por causa da participação das dezoito religiões presentes em Calcutá: budistas, vários jaínes vestidos de branco ou de ar [quer dizer, totalmente nus], sikhs, parses, muçulmanos, judeus, diversas confissões cristãs [quer dizer, protestantes], um carrossel de cerimônias, até cinco no mesmo dia, que obrigavam Madre Teresa e sua brigada de jovens religiosas de sári azul e branco a correr pelos quatro cantos da imensa cidade da terrível deusa Káli, donde o seu nome Kalicata (Calcutá)[63].

[LEGENDA DA FOTO: Madre Teresa (no canto inferior à esquerda) rezando no templo budista, durante as comemorações do 25º aniversário dos Missionários da Caridade.]

 

Forneçamos alguns detalhes, a fim de apreciar melhor essa semana ímpar.

Tudo começou na manhã de 28 de setembro, na igreja armênia. Então, após uma visita ao templo dos protestantes metodistas:

A Madre desceu até o templo Digambard Jaim com um grupo de religiosas[64]. Quando entraram ali, sete tambores, dois címbalos e três pares de “Jerry Jerries” as recepcionaram. Era uma grande construção quadrada: havia tapetes esticados sobre a terra. Primeiro, nos conduziram até os quatro digambardos (monges jaínes). Esses monges pertencem à seita mais rigorosa dos jaínes, e são contemplativos que observam cinco votos: não violência, respeito pela propriedade, fidelidade, celibato e pobreza, incluindo neste último as vestimentas (estavam totalmente nus). Só comem uma vez por dia e de pé. Os quatro estavam sentados à esquerda do altar, enquanto à direita se viam religiosas jainitas, vestidas com sáris brancos. Cinco mocinhas cantaram “Meri Bhaivana” (Minha Contemplação[65]), e a assembleia respondia em coro[66]. Depois ocorreu a procissão e a entronização da estátua de Mahariva. Cinco adoradores, adornados de belas roupas, banharam a estátua derramando água e punhados de moedas, enquanto a assembleia aclamava. Após o que a Madre falou do “serviço ao próximo”. O principal monge digambardo disse algumas palavras sobre os principais ensinamentos de Mahariva: “Vivei e deixai o outro viver”.

O primeiro dia terminou na igreja de São Tiago, que estava completamente iluminada, onde adentraram ao som do acordeão.

Em 3 de outubro, foram até o templo dos hinduístas, para assistir à oração solene de Brahmo Samaj.

Depois se dirigiram ao templo hindu de Sri Iakshmi Narayaun:

As pessoas mais ricas de Calcutá estavam reunidas a fim de esperar Madre Teresa. Todos lhe tocavam os pés e a conduziram ao santuário. Os assistentes invocaram os cem nomes de Deus mui devotamente, tudo em sânscrito e em tom soleníssimo.

Ainda naquela tarde, às 16:40h, estávamos junto aos parses[67], louvando a bondade do Senhor.

Em 5 de outubro houve missa solene de ação de graças na catedral católica de Calcutá, que o arcebispo concelebrou rodeado de vinte padres. Finda a missa, a Madre e as religiosas se encaminharam para uma cerimônia organizada por outro grupo jainista da cidade.

Em 6 de outubro, o serviço de ação de graças aconteceu na sinagoga Maghen David. Madre Teresa teve o privilégio único de ser admitida a ingressar no “santo dos santos” com um grupo de irmãs. Ato contínuo leram uma oração composta para a circunstância.

Nós, os judeus de Calcutá, unimo-nos em ação de graças e oramos para que o Pai, em sua misericórdia, preserve Madre Teresa e suas religiosas, e as guarde e livre das preocupações e trabalhos. Venha o dia em que os filhos dos homens compreendam que eles têm um Pai, e um só Deus os criou[68]. Nesse dia a luz da justiça universal iluminará o mundo, e o conhecimento de Deus cobrirá a terra, assim como a água cobre o mar. Amém.

Estamos a onze anos do encontro inter-religioso de Assis, organizado por João Paulo II (em 27 de outubro de 1986). É compreensível que Madre Teresa tenha ido até lá: para ela essa jornada foi “o mais belo dom de Deus[69]”.

Quanta diferença em relação à atitude de São Francisco Xavier (1506-1552), o grande apóstolo da Ásia:

São Francisco Xavier já não se contentava em apregoar pelas ruas e às portas das bonzerias: tinha de adentrar o mosteiro dos monges, provocar controvérsias, indo e vindo, entrando e saindo, como se estivesse em casa. Não temia exprobar na cara dessas veneráveis personagens a infâmia[70] que não escondiam de ninguém[71]. [...]

[Francisco Xavier] mandou que Fernandez [seu companheiro] proclamasse que o Dai-Nitchi [ou o Buda Primordial] dos monges de Shingon era uma invenção do diabo. Imediatamente as bonzerias lhe fecharam as portas e a luta começou. [...] Era frequente que lhe batessem com varapaus e o xingassem, mas ele a tudo suportava por amor de Deus. [...] Eles contrapunham prédica à prédica. O povaréu se espremia diante dos sermões. Ali eles diziam todo o mal possível contra o nosso Deus. [...] Mas tais palavras não surtiam efeito, e as conversões continuavam, multiplicando-se, sobretudo entre os prosélitos dos bonzos. Os moços e os alunos os abandonavam em massa e vinham ao pé do sacerdote revelar mistérios de libertinagem e devassidão[72].

 

2. Pecado de idolatria e assistência aos cultos idolátricos

O comportamento de Madre Teresa nos leva a ponderar sobre o pecado de idolatria nos adeptos das falsas religiões, e da licitude da assistência a tais cultos. Desde a declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II e de suas consequências práticas – o encontro inter-religioso de Assis em 1986 e a multiplicação de cerimônias semelhantes – a idolatria como que se banalizou e já não escandaliza, daí a importância de trazer o assunto à baila.

Não terás outros deuses diante de mim (Ex 20, 3).

O sumo Deus, melhor que eles, é credor de nossas melhores homenagens, que são as do espírito [escreve Santo Tomás de Aquino (II-II, q. 94, a.2)].

Relativamente ao próprio pecado. E então o de idolatria é de todos o mais grave. Pois, assim como na república terrena a falta considerada mais grave é atribuir honras reais a outrem que não o verdadeiro rei, porque, como tal, essa falta perturba a ordem de toda a república; assim também, dos pecados mais graves cometidos contra Deus, é considerado gravíssimo o que comete quem presta honras divinas à criatura. Porque, como tal, esse pecado diminui o primado divino, admitindo, no mundo, outro Deus. [II-II, q.94, a.3].

Comenta o Pe. Pègues:

Para Santo Tomás, dentre todos os pecados – no sentido mais absoluto da palavra, ao comparar os pecados entre si na razão dos objetos de cada um deles – o mais grave é o de idolatria, que chega a ser mais grave que os outros pecados contra Deus, sem excetuar os três pecados que se opõem diretamente às três virtudes teologais [fé, esperança e caridade]. A razão disso é simplíssima: a idolatria compreende estes pecados e a eles acrescenta algo a mais, a saber, a exteriorização que constitui o culto idolátrico. Pois o culto idolátrico, em si mesmo e a despeito da intenção interior de quem o pratique, é a negação e a destruição do Ser Divino naquilo que o distingue propriamente, que é precisamente o de ser único e absolutamente sem rival; negação e destruição cuja gravidade específica reside no fato de que ambas se afirmam exteriormente de forma gravíssima e soleníssima, que é a forma religiosa[73].

Que pensar agora dos católicos que assistam a um culto idolátrico?

A participação dos fiéis nas cerimônias de um culto não católico pode ser ativa e formal[74], ou passiva e material.

Ela se apresenta na primeira forma quando um católico participa de um culto heterodoxo com a intenção de honrar a Deus por esse meio, de maneira não católica. A participação é passiva e tão-somente material quando um católico participa da cerimônia de um culto herético por sérios motivos que se originam de conveniências sociais, sem que tenha intenção de participar do culto associando a ele o pensamento.

Proíbem-se os fiéis de assistirem ativamente e de tomarem parte, de qualquer modo que seja, das cerimônias públicas de um culto não católico [cismático, herético ou pagão][75].

Interdita-se tal participação porque implica professar uma falsa religião e, portanto, renegar a fé católica. Em todo caso, ainda que a ideia de renegação esteja afastada, representa risco de perversão para o autor, risco de escândalo para os fiéis e aprovação exterior das crenças errôneas que inspiram os cultos dissidentes[76].

O Pe. Prümmer ressalta que “nunca é lícito simular exteriormente a adoração a um ídolo, mesmo para evitar a morte”[77]. De mais a mais, quantos cristãos morreram mártires durante o império romano, porque se recusaram a lançar um grão de incenso aos falsos deuses! A Igreja primitiva castigava severamente quem fraquejava e jogava um grãozinho ao pé do ídolo. Já não existem penalidades específicas para esse pecado no direito atual, mas como tais pecados são amiúde anexos à heresia, os autores incorrem nas penas cominadas contra os heréticos, em particular na pena de excomunhão.

Ao lermos o escrito de uma das religiosas, não parece que Madre Teresa se tivesse contentado com a mera participação passiva por razões de conveniência. Aquela atitude, que no mínimo é uma aprovação exterior dos cultos idolátricos, constitui-se em imenso escândalo para a Igreja.

Mas precisamos ir mais longe.

 

3. Recusa de converter à verdadeira fé

Escuta-se por vezes que, se Madre Teresa não batizava nem evangelizava, é porque lhe era impossível.

É verdade que na Índia existem leis “anticonversão”, que tornam dificílima a evangelização direta[78]. Hoje em dia, um missionário imprudente se arrisca a terminar expulso ou assassinado. Se uma pessoa quiser converter-se ao catolicismo, deve comunicar essa intenção aos oficiais de polícia mais graduados com uma antecedência de trinta dias da data do batismo, e o sacerdote deve enviar a lista dos catecúmenos para aprovação; para que a autorizem a se converter à religião católica, é necessário ter no mínimo 18 anos de idade.

Certo dia, Madre Teresa segredou ao Pe. Le Joly:

Veja só, talvez não preguemos ao Cristo como gostaríamos, porque aceitamos a ajuda do governo e de várias organizações. Assim, ficamos de mãos atadas[79].

Ao que poderíamos ripostar: deveria Madre Teresa dificultar ainda mais a tarefa da evangelização, ao aceitar a ajuda do governo? O missionário não pode acorrentar o Evangelho, ainda que fosse em uma corrente de ouro. A Igreja considera que a liberdade de prédica para a salvação das almas é o mais precioso dos bens.

Por outro lado, que quer dizer Madre Teresa ao segredar que não pode pregar a Cristo como gostaria?

Deixemo-la falar, para que conheçamos a sua ideia de evangelização:

A um jornalista que lhe perguntou: “O exemplo da senhora é capaz de converter?”, respondeu Madre Teresa:

Oh! Tomara que eu converta alguém! Mas não entendo a palavra no mesmo sentido em que você a entende. O que tentamos fazer é cumprir a nossa tarefa ao servir as pessoas e nos aproximar de Deus. Se, quando postos diante de Deus, o aceitamos em nossas vidas, aí então nos convertemos, tornando-nos um melhor hindu, um melhor muçulmano, um melhor católico. Qual seria a estratégia que eu usaria? Certamente, para mim, seria a estratégia católica, para vocês talvez fosse uma estratégia hindu, para outro, quem sabe, uma estratégia budista. Vocês devem adotar a estratégia de acordo com a consciência, com o que Deus é dentro de sua alma[80].

 

 

[LEGENDA DA FOTO: Madre Teresa venera o túmulo de Gandhi. “Sempre procurei inspirar-me na vida do ‘satiagraha’ não violento, a fim de colaborar para uma sociedade mais justa e fraternal” (Madre TERESA, citada pelo Pe. Gresland, Nouvelles de Chrétienté nº 84, pág. 10).

 

Essa resposta é a negação do dever de acreditar na Revelação Divina, a fim de se salvar. Segundo o novo dogma do primado da consciência subjetiva, cada pessoa deve acreditar na imagem de Deus que formou dentro da alma – e tudo bem. Era essa a religião de Madre Teresa.

 

Mas continuemos a citação:

Jesus não disse: “Apegai-vos ao mundo”, mas: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Vocês não podem amar como Ele sem a oração. Qualquer que seja a maneira de orar e a religião, oremos juntos[81].

Mesmo sendo hindu, muçulmano ou cristão, o que prova se você pertence a Deus ou não é a maneira de viver[82].

Vocês o chamam Ishvara, outros chamam Alá, outros ainda Deus, mas devemos reconhecer que ele é quem nos fez os maiores favores: amar e ser amado. O pai de nossa pátria, Gandhi[83], disse: “Quem serve ao pobre, serve a Deus”. [...] Oro para que vocês organizem um dia de orações em todo o país. Os católicos do país pediram que a sexta-feira, dia 6 de abril, fosse [para a comunidade católica] um dia de jejum, oração e sacrifício, em prol da manutenção da paz e harmonia entre todos, e para que se garanta a liberdade religiosa na Índia. Peço-lhes que proponham um dia semelhante para todas as comunidades [das diversas religiões] de nosso país, para que alcancemos a paz, a unidade e o amor, e nos tornemos um só coração cheio de amor, de modo a nos transformarmos no sol do amor de Deus, na esperança da felicidade eterna e da chama ardente do amor de Deus e da compaixão, em nossas famílias, em nosso país e no mundo[84].

Era esse o ânimo que impedia Madre Teresa de buscar a conversão e o batismo dos pagãos moribundos abrigados nos refúgios:

Não. Batizá-los, não. Não busco converter os meus doentes ao cristianismo. É essencial que cada um encontre a Deus na prática da própria religião. Mas ponho um bilhete na mão de cada um: o bilhete de entrada no paraíso[85].

“Os hindus [agonizantes] recebem água do Ganges sobre os lábios; aos muçulmanos, se leem trechos do Corão[86]”. Depois de mortos, “são enterrados segundo os ritos da própria religião”[87].

Não é a cor da pele, a religião ou a nacionalidade que nos devem dividir, pois somos filhos de Deus[88].

Para resumir em poucas linhas:

O papel [de Madre Teresa] não era de forma nenhuma fazer proselitismo nem provocar conversões. [...] A sua regra constante durante o trabalho era ajudar os hindus a serem bons hindus e os muçulmanos a serem muçulmanos melhores na fé em Alá[89].

Tudo isso é ainda pior que as visitas escandalosas de Madre Teresa aos templos das falsas religiões, na ocasião do aniversário de vinte e cinco anos de sua congregação. As contínuas declarações e a maneira constante de agir manifestam um indiferentismo religioso elevado ao grau de princípio; e o que se refere aos princípios é sempre mais grave que uma ação cujas conseqüências talvez não se tenha enxergado em determinado momento, quiçá oriunda de uma imprudência passageira, embora grave[90].

Ora, a Igreja é severíssima contra os propagadores do indiferentismo religioso:

Outra causa que tem acarretado muitos dos males que afligem a Igreja é o indiferentismo, ou seja, aquela perversa teoria espalhada por toda parte, graças aos enganos dos ímpios, e que ensina a possibilidade de se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do reto e honesto[91]. Podeis, com facilidade, patentear à vossa grei esse erro tão execrável, dizendo o Apóstolo que há um só Deus, uma só fé e um só batismo (Ef 4, 5): entendam, portanto, os que pensam poder-se ir de todas as partes ao porto da Salvação que, segundo a sentença do Salvador, eles estão contra Cristo, já que não estão com Cristo (Lc 11,23), e os que não colhem com Cristo dispersam miseramente, pelo que perecerão infalivelmente os que não tiverem a fé católica e não a guardarem íntegra e sem mancha (Simbol. Sancti Athanasii) [92].

 

4. Verdadeira ou falsa caridade?

Verdadeira ou falsa caridade? Pusemos a pergunta como subtítulo do presente artigo. Agora tentaremos respondê-la. Aqui tratamos da caridade ao próximo.

Devemos amar o próximo, para que ele permaneça em Deus e glorifique a Deus agora e na eternidade – comenta o Pe. Garrigou-Lagrange. Assim, amamos o próximo por causa de Deus, pois Deus o ama e, como nós, também ele está ordenado a Deus. [...] Devemos amar o próximo, para que adote a Deus como fim último, e Deus seja amado, louvado e glorificado pelo próximo, em razão da infinita bondade Dele. Daí decorre que a razão formal que nos leva a amar o próximo é a bondade infinita de Deus em si mesma, que é amável por si mesma. [...] O motivo formal de todos os atos das virtudes teologais deve, com efeito, ser algo de sobrenatural e incriado. Eis que surge maravilhosamente a grandeza da caridade fraternal: é forçoso apregoar o dever de amar o próximo com um amor não apenas sobrenatural, mas teologal, para que ele permaneça em Deus.

O primeiro corolário é – amar o próximo por motivo diverso não é amor de caridade, mas mero amor natural. [...]

O segundo corolário é – não se confunda a caridade ao próximo com o humanitarismo ou a filantropia, o que seria confundir os objetos formais e as essências das coisas. [...] Seria a corrupção da noção de caridade. O humanitarismo é o culto da humanidade, já a filantropia é o amor da humanidade em si mesma [e não em Deus][93].

É bem verdade que Madre Teresa sempre declarava que era Deus quem a levava a agir, e só por Deus agia.

Nada faço, gostava de repetir Madre Teresa, mas é Ele quem faz tudo.

Mas é difícil acreditar que Deus lhe tenha inspirado as palavras seguintes, que nos dão vertigens quando provêm de uma religiosa católica:

Milhares de famintos morreram entre nossos braços, felizes, na paz do Deus em que criam[94].

Madre Teresa só aos católicos falava de Nosso Senhor[95]. Quando estava com os pagãos, não lhes mencionava o nome do único salvador deles. Ao se esforçar para que fossem melhores hindus, muçulmanos, etc., Madre Teresa os desviava do único caminho que os conduziria a Deus: Nosso Senhor Jesus Cristo, único mediador entre Deus e os homens.

A caridade que não leva a Deus não passa de caricatura da caridade sobrenatural. “Ainda que distribuísse meus bens no sustento dos pobres [...], se não tiver caridade, nada disto me aproveita” (1 Co 13, 3).

Demais, parece que Madre Teresa em certos momentos intuía a ineficácia de sua obra, apesar do imenso sucesso midiático:

Por vezes, a Madre ficava acabrunhada. Repetia: “Pai, fazemos tão pouco. Elogiam a nossa atividade, mas é ela apenas uma gota d´água no oceano, que se perde na imensidade do sofrimento humano”.

De fato é desencorajadora, quando não apavorante, a imensidade dos dramas humanos nas numerosas regiões da Ásia. As irmãs trabalhavam em dúzias de áreas de barracos em Calcutá, mas uma estimativa oficial menciona três mil barracos só nessa cidade. Além disso, existem ao menos cem mil pessoas vivendo nas ruas. Embora as irmãs cheguem a atender cem mil leprosos, há outros dois milhões em todo o país, bem como dois milhões de cegos e, segundo uma declaração oficial de maio de 1976, setecentos e cinqüenta mil erráticos e vagabundos. [...]

Repisava a Madre: “Pai, nossa obra em favor dos filhos dos barracos é desesperadora. Quando conseguimos educar uma criança, ela vai viver em um lugar melhor, porém os moradores dos barracos quase nunca contam com pessoas de escol capazes de promovê-los”. [...]

Certa vez, afirmou a Madre com tristeza: “Pai, não construí a Igreja”[96].

Sim, esse é o problema. Porque não anunciou a Nosso Senhor, nem estimulou o crescimento da Igreja na Índia, Madre Teresa não poderia administrar nenhum remédio eficaz contra a miséria material do país. A miséria material dessa terra é conseqüência da miséria espiritual: a falsa religião hindu[97]. Ao aconselhar os hindus a se tornarem melhores hindus, Madre Teresa se limitava a afundá-los na infelicidade e na degradação espiritual e material.

A única salvação da Índia está no reinado social de Nosso Senhor, na civilização cristã. Para que se encontre a confirmação disso nos fatos, basta ir até Goa – antigo enclave português – outrora denominada “A Roma do Oriente”. Goa é, a uma só vez, um estado e uma cidade de mesmo nome. Para o viajante que chega de Bombaim ou de Calcutá, a descoberta de Goa é um verdadeiro encanto, permitindo-lhe entrever o que o catolicismo tem a oferecer à Índia: ruas limpas, rostos sorridentes, numerosas igrejas; calvários e oratórios caiados, enfeitados de guirlandas de flores e iluminados à noite. Mas, desde que o exército indiano obrigou Portugal a deixar o lugar[98], os hindus aos poucos estão invadindo a cidade, construindo aqui e ali templos e oratórios aos seus deuses horríveis[99], introduzindo “vacas sagradas” etc. Miséria e sujeira aumentam com o hinduísmo: contra factum, non fit argumentum. A quantidade de católicos diminuiu de 60 para 40% da população. Logo não sobrará nada do antigo esplendor de Goa.

Não é a liberdade religiosa nem o ecumenismo do Vaticano II e de Madre Teresa que tirarão a Índia do impasse. Que fazem tais doutrinas de morte, senão precipitá-la na ruína?

 

III. Beatificação apressada e duvidosa

Em março de 2001, somente três anos e meio após a morte de Madre Teresa, o arcebispo de Calcutá, Mons. Henry Sebastian Da Souza, entregava um requerimento ao Papa João Paulo II, para que se iniciasse um processo de beatificação antes do tempo previsto[100]. A autorização para a antecipação do prazo foi deferida imediatamente.

No antigo procedimento, a investigação da causa começava com o exame severíssimo da ortodoxia dos escritos do servo de Deus, ao encargo de dois doutores de teologia. O “advogado do diabo” se encarregava de rebuscar todos os impedimentos possíveis à elevação do servo de Deus aos altares. A constatação de um só erro de fé, de uma só opinião nova, estranha ou contrária ao sentimento da Igreja, era suficiente para que se extinguisse de imediato o processo, antes mesmo que houvesse o exame das virtudes.

Neste lugar recordemos o adágio: “Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu[101]:

As virtudes levadas à perfeição são necessariamente conexas [ligadas umas às outras], de sorte que, se uma falta, nenhuma é perfeita, não sendo possível falar em santidade. Meu venerável mestre, o Pe. Garrigou-Lagrange O.P., sob cuja direção redigi a minha tese de doutorado, que versava justamente sobre o tema da conexão das virtudes, insistia, em uma lição dada aos postulantes[102] de diferentes ordens [religiosas], que no processo de canonização havia de se examinar profundamente – a fim de julgar se as virtudes no sujeito atingiram o grau de perfeição – a coesão vital e a sinergia entre elas, pois se uma delas não fosse perfeita, nenhuma seria. Em conseqüência, se um homem possui imensa caridade, mas lhe falta coragem moral, oriunda da virtude da força, ou prudência clarividente, seria considerado bom e excelente cristão até, menos um santo no sentido pleno do termo[103].

É evidente que, se o processo de Madre Teresa tramitasse antes do Concílio Vaticano II, não seria possível beatificá-la. Se a fraqueza de uma só virtude basta para que uma pessoa não suba aos altares, que se há de dizer das palavras inverossímeis e do comportamento de Madre Teresa, acerca da salvação nas falsas religiões[104]?

O novo procedimento de beatificação exige que os bispos examinem “se não há nos escritos nada que contrarie a fé e os bons costumes”[105]. Mas à luz de que doutrina se estudará a causa? Atualmente esse é o problema, conforme se vê no exemplo de Madre Teresa, que está sob o crivo da nova teologia do Vaticano II[106].

A pesquisa sobre a vida e as virtudes de Madre Teresa durou três anos e meio, e terminou com a declaração de heroicidade de virtudes.

A última fase era encontrar um milagre. Na legislação nova basta um milagre, quando antes se exigiam de dois a quatro, de acordo com as circunstâncias. O caso apresentado foi o de Monika Besra, uma moça indiana de 30 anos. Casada e mãe de dois filhos, sofria de tuberculose e de um tumor maligno no abdômen. Os médicos achavam que a metástase avançara muito, deixando-a fraca demais para uma operação. Diz ela que em 8 de setembro de 1998, na capela, viu um raio de luz saindo da fotografia de Madre Teresa, ficando assim curada. Todavia, médicos indianos afirmaram que em outubro de 2002 – portanto, durante o inquérito – Monika se curou do tumor graças a medicamentos potentíssimos e a um tratamento de vários dias no hospital de Balurghat, no estado de Bengala Ocidental – assim declarou o Sr. Partho, antigo secretário de saúde do estado, à agência France Presse[107].

A cerimônia de beatificação aconteceu em Roma, na praça São Pedro, em 19 de outubro de 2003, teletransmitida para o mundo inteiro.

Prepararam para a ocasião uma liturgia hinduizada[108]. Naquele dia, integraram a missa papal[109] diversos ritos que sucedem habitualmente em templos pagãos.

Após o Kyrie e a beatificação, realizou-se a cerimônia do pujá, que consiste na adoração de um ídolo com oferendas de flores e lâmpadas acesas.

Em certos cultos, para aplacar a cólera das divindades, ou melhor, dos demônios, oferta-se sangue de animais sacrificados[110]. Foi em recordação a tais costumes a cerimônia no Vaticano? Em todo caso, após o pujá, levou-se em procissão, dentro de um grande coração, uma ampola com sangue de Madre Teresa[111]; colocaram o “relicário” sobre uma mesinha ao lado do altar.

Depois de uma oração universal, de sabor bem maçônico[112], rezou-se o cânon.

Justo antes do Pater, mulheres hindus se aproximaram do altar para executar um arati. Nessa cerimônia, sacodem-se corbelhas de flores, incensos, e um turíbulo de cânfora que simboliza o ciclo das reencarnações purificadoras[113], tudo ao som de um hino em língua tâmil e do dobre dos sinos OM[114]. Certamente os cantos se dirigiam ao “Senhor[115]”, mas as danças e a música reproduziam fielmente os ritos que os hindus executam nos templos... em honra aos demônios: “As coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus” (1 Co 10, 20); devemos dar às coisas os verdadeiros nomes, pois “os deuses dos pagãos são demônios”, diz o salmo (95, 5).

 

IV. Nova concepção da santidade das missões

Antes de tudo, temos de enquadrar o caso de Madre Teresa na nova concepção de santidade, proveniente do último concílio:

Desde o Vaticano II, a santidade se tornou ecumênica; é ela um dos elementos que colaboram na unidade das religiões. O Cristo Redentor opera a salvação e a santidade ao revelar aos homens a dignidade da condição humana, que se fundamenta na liberdade de consciência: a verdade já não é o princípio fundamental a que adere livremente o homem, nem o objeto a que se submete a consciência individual; o princípio é, antes, a liberdade da consciência do homem, é o sujeito dessa consciência. Ora, a consciência individual persuade o homem a acreditar em Deus, cuja concepção porém difere da existente na consciência de outro homem. Qualquer que seja a profissão religiosa do homem, por força tem de ser respeitada, porque nela celebra a própria liberdade. Por conseguinte, as religiões se equivalem, reduzindo-se tão-somente às diversas expressões da dignidade que Cristo conquistou para o homem. Santo é o homem que professa livremente a sua religião e tem consciência da dignidade que tal profissão lhe confere. Ora, é possível realizar essa santidade em qualquer religião: em plenitude na religião católica, e de forma parcial – mas ainda real – alhures. Daí decorre uma comunhão de santidade que transcende as diferentes religiões; essa transcendência se manifesta na ação redentora do Cristo e na efusão de seu espírito sobre a humanidade inteira, preparando destarte o caminho para a unidade ecumênica perfeita[116].

À nova concepção da santidade e, portanto, da salvação, deveria corresponder uma nova maneira de encarar a missão.

Até aqui, missão era “qualquer expedição apostólica cujo objetivo é conquistar almas para Cristo[117]”, em acordo com o mandamento de Nosso Senhor: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28, 19).

Mas agora que todas as crenças se equivalem, prevalece sobre a fé católica, que se torna facultativa, uma caridade desprovida do fundamento que a sustentava: “A caridade é o primeiro e mais necessário dos dons”, declara a constituição Lumen Gentium do Vaticano II (nº 42)[118]. A missão consiste, pois, em difundir a caridade e o amor:

Nosso objetivo é levar o amor de Deus aos mais pobres entre os pobres, qualquer que seja a origem étnica ou a profissão de fé, dizia Madre Teresa. [...] Nunca tentamos converter ao cristianismo as pessoas a quem ajudamos, mas damos o testemunho do amor da presença divina em nosso trabalho; se católicos, protestantes, budistas ou agnósticos se tornarem melhores – simplesmente melhores – ficaremos satisfeitos. Crescendo no amor, estarão mais próximos de Deus e encontrarão a bondade Dele. [...] Seja você hindu, muçulmano ou cristão, o que prova que você pertence totalmente a Deus ou não é o modo de viver [...] Alguns o chamam Ishvara, outros Alá, outros simplesmente Deus, mas devemos reconhecer que Ele nos destinou para grandes realizações: amar e ser amados. O importante é amarmos uns aos outros. É impossível amar sem rezar, assim, qual seja a nossa religião, devemos rezar juntos[119].

Nesse sentido, dez anos após a morte da fundadora, a irmã Mary Nírmala Joshi, sucessora de Madre Teresa, declarava:

Levamos a todos a bondade do amor de Deus, através da oração e das tarefas humildes. Nossos pequenos atos de amor mostram aos irmãos e irmãs sofredores o terno amor que Deus lhes dedica; por isso, se eles se arrependerem das más ações e perdoarem aos que lhes fizeram mal, reencontrarão o Coração de Deus e receberão a paz divina. Essa forma de evangelização é bem-vinda em todos os povos, em todos os tempos[120].

João Paulo II quis consagrar essa nova forma de evangelização ao beatificar Madre Teresa.

O título Missionários da Caridade indica de mais a mais a mudança radical da missão: os novos missionários têm a função de propagar a caridade, mas caridade sem fé, que não passa de caricatura da caridade sobrenatural, chegando mesmo a ser oposta a ela, porquanto essa nova espécie de apostolado encoraja as almas a permanecer nas falsas crenças e, portanto, no caminho da perdição.

O Pe. Garrigou-Lagrange não hesitava em fustigar essa corrupção do apostolado:

Existe uma falsa caridade, feita de indulgência culpável e fraqueza, a exemplo da suavidade de quem não fere a ninguém, porque teme a todos. Há também uma pretensa caridade, feita de sentimentalismo humanitário, que busca a aprovação da verdadeira caridade, mas que amiúde, por causa do contato, a mancha.

Um dos principais conflitos do tempo presente se origina do embate entre a verdadeira e a falsa caridade. A falsa caridade nos remete aos falsos cristos, de que fala o Evangelho; são eles mais perigosos mascarados que desmascarados, quando então se revelam verdadeiros inimigos da Igreja. “Corruptio optimi pessima”, a pior corrupção é a que corrompe o que há de melhor em nós, a maior das virtudes teologais. O bem aparente que atrai o pecador é tanto mais perigoso, à medida que simule um bem mais elevado: esse é o ideal dos pancristãos que buscam a união das Igrejas[121] em detrimento da fé que tal união pressupõe.

Então, se por certa estupidez ou covardia consciente, os pretensos representantes da verdadeira caridade aprovarem aqui e ali as afirmações da falsa caridade, é possível que daí decorra um mal incalculável, maior do que o mal causado pelos perseguidores declarados, com os quais está manifesta a impossibilidade de comunhão[122].

A beatificação de Madre Teresa, que é um dos exemplos dessa corrupção da caridade, nos conduz ao largo caminho que leva à apostasia[123]. E é claro que essa nova concepção de missão agrada e muito ao mundo.

 

Conclusão

Figura emblemática do ecumenismo conciliar, adulada pela mídia e pelas personalidades políticas, Madre Teresa – decerto contra a vontade – prestou ótimo serviço à maçonaria internacional, que, na busca de uma espiritualidade ecumênica capaz de reunir todos os homens sob a Nova Ordem Mundial, soube aproveitar o comportamento de Madre Teresa.

Essa concepção de missão, que a hierarquia não só não fulminou, mas ainda consagrou com a beatificação, demonstra a que ponto se escureceu nos dias de hoje a inteligência dos homens de Igreja. Vem-nos logo ao pensamento a advertência de Irmã Lúcia de Fátima:

É doloroso ver tanta desorientação, e em tantas pessoas que ocupam lugares de responsabilidade!... [...] De boa vontade me sacrifico e ofereço a Deus a vida; pela paz da Sua Igreja, pelos sacerdotes e por todas as almas consagradas, sobretudo por aquelas que andam tão iludidas e tão transviadas! [...] É que o demônio tem conseguido infiltrar o mal, com capa de bem, e andam cegos a guiar outros cegos, como nos diz o Senhor no seu Evangelho; e as almas vão-se deixando iludir.[124] 

Nossa Senhora pediu e recomendou que se reze o terço todos os dias, repetindo o mesmo em todas as aparições, como que prevenindo-nos para que, nestes tempos de desorientação diabólica, nos não deixemos enganar por falsas doutrinas, diminuindo na elevação da nossa alma para Deus, por meio da oração.[125]

O caso de Madre Teresa é uma ilustração (dentre outras) do drama que atinge os homens da Igreja, como castigo pela negligência em difundir a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados do mês e à recusa de consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria para salvar o mundo, conforme o pedido expresso de Nossa Senhora em Fátima:

Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição. Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e Maria [126]

Esta última frase fundamenta a nossa esperança.

 

Tradução: Permanência

[Fonte: Mére Teresa de Calcutta: vraie ou fausse charité?, Ed. Le Sel de la terre, Avrillé, 2013; 48 págs.]


[1] BENTO XVI, Angelus, de 8 de março de 2009, durante a “Jornada da Mulher” (ORLF, de 10 de março de 2009, pág. 1).

[2] Depoimento do Pe. BENOÎT-JOSEPH, “pastor” de uma casa da comunidade das Beatitudes (carismática), após uma viagem a Calcutá (Revista Feu et Lumière, nº 176, de setembro de 1999, pág. 48).

[3] Nove anos depois, no tratado de Versalhes, Skopje será anexada à Iugoslávia.

[4] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 38.

[5] Lush GJERGJI, Une Vie, Mère Teresa, Paris, Cerf, 1985, pág. 17. Depoimento de Lázaro. Esta biografia de Madre Teresa, escrita a pedido dela, é a única da lavra de um dos seus compatriotas.

[6] Lush GJERGJI, Une Vie, pág. 17.

[7] Lush GJERGJI, Une Vie, pág. 19.

[8] Lush GJERGJI, Une Vie, pág. 23.

[9] Quem fundou a congregação foi a irlandesa Mary Ward, no séc. XIX, após uma peregrinação ao santuário mariano de Loreto. Essas irmãs são apelidadas de “As senhoras irlandesas”.

[10] Darjeeling é conhecida pela produção de chá. Era ali, a dois mil metros de altitude, que a alta sociedade britânica de Calcutá se refugiava durante o estio, para se entregar a uma vida mundaníssima.

[11] Madre TERESA, Vien, sois ma lumière. Les écrits intimes de “la sainte de Calcuta”, textos editados e comentados pelo Pe. Brian KOLODODIEJCHUK, Missionário da Caridade, Paris, Lethielleux, 2007, pág. 35. Veremos adiante que Madre Teresa tem uma concepção bem especial sobre a missão.

[12] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 68.

[13] Madre TERESA, Viens, pág. 50, trecho de uma carta a Mons. Périer.

[14] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 75.

[15] Indulto de exclaustração é a autorização de residir por tempo determinado ou indeterminado fora das casas de um instituto sem submeter-se à autoridade dos superiores religiosos naturais, mas decerto sob a autoridade do bispo diocesano.

[16] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág, 91.

[17] Lush GJERGJL, Une Vie, pág. 56.

[18] Citado por Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 92.

[19] Dominique LAPIERRE, La Cité de la joie, Paris. Robert Laffont, 192, citado por Mons. DI FALCO, Mère Teresa, págs, 104-105.

[20] Citado por Mons. DI FALCO, Mère Terese, págs. 109-110.

[21] As divindades hindus são o cúmulo do horror. Káli, a Negra, com traços negróides, é símbolo da morte e da destruição. Ela tem quatro braços. As imagens dela, no mais das vezes, usam um colar de cabeças cortadas ou de craniozinhos de pedra. Em Calcutá, milhares de hindus frequentam o seu templo, que acolhe hordas de mendigos e ladrões. Próximo ao templo, queimam quase perpetuamente piras funerárias sobre as quais o fogo consome os corpos dos defuntos. Na Índia, expirar diante de uma estátua de Káli é considerado favor insigne.

[22] É normal acolher todas as misérias corporais, mas de que serve isso se não se tenta curar as misérias espirituais, incomparavelmente mais graves e perigosas?

[23] Mons. DI FALCO, Mére Teresa, pág. 117. É importantíssima essa meditação. Não raro escuta-se que a obra de Madre Teresa decorreu dos erros do Concílio Vaticano II. Vê-se aqui que Madre Teresa renunciou a conversão das almas à verdadeira religião desde o início, o que lhe valeu as críticas do clero. Madre Teresa foi uma precursora audaciosa do ecumenismo conciliar.

[24] Em artigo de morte.

[25] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 130.

[26] Note-se que as relações entre os dois ramos da ordem serão difíceis. O Pe. Ian não insiste tanto sobre a importância da oração e da vida comunitária, e prefere que os religiosos não usem hábito.

[27] Instaladas em Nova Iorque, em 1976, essas religiosas levam vida mais contemplativa, adorando a Jesus na Eucaristia e meditando na Palavra de Deus na Santa Escritura, consagrando algumas horas diárias ao cuidado dos pobres.

[28] Congregação masculina paralela à das Irmãs Missionárias do Verbo, fundada em Roma, pouco tempo após aquela outra.

[29] Eles se estabeleceram em 1984, por obra do Pe. Joseph Langford.

[30] Eles são leigos que levam vida de oração igual à dos irmãos e irmãs, e cuidam dos pobres. Os cooperadores ordinários começaram as atividades na Índia em 1954, por iniciativa de alguns europeus agrupados em torno da Sra. Ann Blaikie, de nacionalidade inglesa. A futura Associação Internacional dos Cooperadores de Madre Teresa foi afiliada à Congregação dos Missionários da Caridade em 1969. Os estatutos receberam a aprovação do Papa Paulo VI.

[31] Lusj GJERGJI, Une Vie, págs. 123-124. A vida religiosa é em essência a imitação de Cristo, pelas vias da pobreza, castidade e obediência. Perguntamo-nos que concepção de vida religiosa reinaria em Roma e entre os Missionários da Caridade, para que aceitassem o ingresso de idólatras em uma congregação de irmãs católicas. Que significa a exigência de terem o mesmo “estilo de vida” das irmãs? A vida dessas hindus é tão-somente uma caricatura exterior, puramente material, da vida religiosa.

[32] Batizado com o nome de um presidente filipino católico, que havia morrido pouco antes em um acidente de avião de origem criminosa.

[33] Sir John Templeton instituiu o prêmio em 1972, para ser o sucedâneo religioso do prêmio Nobel, a fim de recompensar “o progresso em religião”. O objetivo dele é recompensar os trabalhos realizados em prol da liberdade de consciência. Interessante notar que esse prêmio já foi concedido a membros de todas as religiões: ao pastor Schutz de Taizé, ao cardeal Suenens, a Chiara Lubich, fundadora dos Focolari – movimento militante para a “unidade”, aberto a pessoas de todos os credos (ver artigo do dr. Regina HINRICHS, “O movimento dos Focolari e suas ramificações internacionais”, em Sel de la terre 25, especialmente as páginas 68-76).

[34] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 212.

[35] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 216.

[36] Pe. Hervé GRESLAND (FSSPX), “Mère Teresa, une béatification équivoque”, Nouvelles de Chrétienté nº 84, pág. 6.

[37] De acordo com o Mons. DI FALCO (Mère Teresa, pág. 259), os primeiros contatos com Fidel Castro se deram em 1985, mas a visita oficial aconteceu somente no início de 1986. Ela conseguiu a abertura de uma casa na ilha, em 7 de outubro.

[38] A visita de Madre Teresa lhe possibilitou enviar oito religiosas a Moscou no começo de 1989. O acordo foi assinado com o ministro soviético da saúde. “Pela primeira vez desde a revolução de outubro de 1917, autorizaram uma instituição estrangeira de caridade religiosa a trabalhar em caráter permanente no território da União Soviética”, comentava La Documentation Catholique nº 1977, de 5 de fevereiro de 1989. (pág. 147).

[39] Pe. Hervé GRESLAND, “Mère Teresa, une béatification équivoque”, págs 7-8 – O próprio Mons. DI FALCO (Mère Teresa, pag. 256) reconhecia, ao escrever sobre a Alemanha Oriental, que “autorizar [os Missionários da Caridade] não importava em nenhum perigo [para o regime], podendo até mesmo ser útil – e foi esse o caso – para demostrar a existência de liberdade religiosa na RDA.”

[40] Remetemos o leitor ao artigo de Daniel MARTIN: “Aider l’Albanie à sortir du cauchemar”, publicado no jornal Monde et Vie nº 507, de 20 de dezembro de 1990, pág. 8.

[41] Em 6 de setembro de 2001, no dia seguinte à cerimônia que reuniu milhares de pessoas por ocasião do aniversário de quatro anos da morte de Madre Teresa, Mons. Henry Sebastian Da Souza, arcebispo de Calcutá, revelou o seguinte sobre os últimos momentos de Madre Teresa: “Madre Teresa e eu estávamos no mesmo hospital. Notei que ela ficava agitadíssima à noite, enquanto de dia permanecia calma. Como não havia explicação médica para o fato, cheguei à conclusão de que estava possuída pelo diabo. Então pedi a um padre para que lhe fizesse a oração de exorcismo. O rito durou uma meia hora”. O Pe. Dominique Emmanuel, porta-voz da conferência episcopal da Índia, declarou que as palavras do arcebispo de Calcutá não punham em dúvida a “santidade” de Madre Teresa. Essas informações foram divulgadas no jornal Présent, de 15 de setembro de 2001. Já que não temos mais detalhes sobre o caso, não estamos capacitados para julgamentos de valor, mas quisemos citá-lo para que não faltasse informação.

[42] Essa obra é o livro Viens, de Madre Teresa, que já citamos. Notemos que ela ordenou explicitamente aos destinatários que destruíssem as cartas, o que eles acharam por bem não fazê-lo. Consultar, por ex., as págs. 27, 217, 232, 243, 248 dessa obra.

[43] Madre TERESA, Viens, pág. 14.

[44] Madre TERESA, Viens, pág. 244, carta ao Pe. Joseph Neuner S.J., sem data, provavelmente escrita durante o retiro espiritual de abril de 1961.

[45] Madre TERESA, Viens, pág. 266, carta ao Pe. Joseph Neuner S.J., de 6 de março de 1962.

[46] Trata-se do Papa Pio XII, a quem Deus chamou em 9 de outubro de 1958.

[47] Madre TERESA, Viens, pág. 207, carta a Mons. Périer, de 16 de novembro de 1958.

[48] Pe. Brian Kolodiejchuk, em Madre TERESA, Viens, pág. 66.

[49] Locução recebida durante comunhão de Madre Teresa, que ela atribuiu a Nosso Senhor (Madre TERESA, Viens, pág. 123). Teria sido Ele então que indicara a Madre Teresa a vestimenta dos Missionários da Caridade.

[50] Madre TERESA, Viens, pág. 108, carta do Pe. van Exem a Mons. Périer, em 8 de agosto de 1947.

[51] Pe. Brian Kolodiejchuk em Madre TERESA, Viens, págs. 127-128.

[52] A contemplação infusa ou sobrenatural é o auge da vida espiritual. Diz-se infusa ou passiva porque não está no poder do homem produzi-la à vontade. Ela é um conhecimento simples e afetuoso de Deus e suas obras, que provém da inspiração divina. Consulte-se a obra do Pe. GARRIGOU-LAGRANGE O.P., Perfection chretienne et contemplation, Milicia INC, 1923, t.1, págs. 272-290.

[53] Pe. GARRIGOU-LAGRANGE O.P., Les Trois âges de la vie interieure, Paris, Cerf, 1951, t.2, págs. 749-750.

[54] Uma palavra, por ex., não é algo cuja essência é sobrenatural. Mas se a escutamos no interior de nós mesmos, por ex., torna-se sobrenatural pela maneira por que a escutamos, a não ser que venha do demônio; neste caso, já não é sobrenatural mas preternatural e diabólica.

[55] Pe. GARRIGOU-LAGRANGE O.P., Perfection chrétienne et contemplation, ibid., t.1, pág. 174.

[56] Dizem-se purificações passivas, porque o homem não é o autor delas, mas as padece. Quem as causa é Deus.

[57] Pe. GARRIGOU-LAGRANGE O.P., Les Trois âges de la vie intérieure, Paris, Cerf, 1938. T.2, págs. 668-669, citado em Mère Teresa, ibid., pág, 253, nota 9.

[58] Pe. GARRIGOU-LAGRANGE O.P., ibid., edição de 1951, t.2., pág. 552.

[59] Pe. Brian Kolodiejchuck em Madre TERESA, Viens, págs. 250-251.

[60] Pe. GARRIGOU-LAGRANGE, Les Trois âges de la vie intérieure, ibid., t.2, pág. 538.

[61] São JOÃO DA CRUZ, Noite Escura, Livro II, cap. XIII.

[62]             Quem está dizendo é ela.

[63]             “Mère Teresa aux dimensions du monde”, Missi, de março de 1976.

[64]            Os jainitas são uma seita que nasceu cerca do séc. VI ou VII antes de Cristo, dum cisma do bramanismo. Eles acreditam na reencarnação, da qual somente uma vida extremamente ascética irá libertá-los, elevando-os ao nirvana. Em razão da crença na reencarnação, para eles o maior dos crimes é a supressão da vida, ainda que a de um inseto. Daí vem que eles só bebam água com o uso dum filtro, andem varrendo o chão com uma pluma, e cubram a boca com um véu, para não engolir sequer um mosquito. Remeto o leitor ao Dictionnaire des connaissances religieuses, “Inde”, col. 974-975.

[65] Eis um sugestivo trecho do cântico: “Ele, que dominou as suas paixões e desejos, e concretizou o segredo do universo na sua entidade, e percorreu o caminho de libertação em benefício de todos, e sem traço de egoísmo, e se denomina Buda, Mahariva, Jaim, Hari, Hara Brahma, que tal espírito nele habite eternamente, cheio de profunda devoção”.

[66] “Enquanto liam as escrituras sagradas deles e oravam a Deus, testemunhara Madre Teresa, uma mulher vestida de branco arrancava os cabelos. Em espírito de penitência, acredito eu. Por meu lado, tentei arrancar alguns fios. Dói demais, como sabem.” (citado na obra de Edouard LE JOLY, Mère Teresa et les Missionaire de la Charité, pág. 210).

[67] Parses são os zoroastristas da Índia; o zoroastrismo [ou masdeísmo] é uma religião maniquéia oriunda da Pérsia. Para eles, dois princípios governam o mundo: o deus do bem, simbolizado pelo fogo, e o deus do mau.

[68] Recordemos que a religião judaica pós-cristã não está mencionando, de forma alguma, um Deus em três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo.

[69] Time Magazine, de 10 de novembro de 1986.

[70] Menciona-se aqui o pecado contra a natureza, praticada entre os bonzos. Santo Tomás sublinha que esse pecado é comum nos idólatras: “O pecado que serve de punição a outro há de ser mais manifesto, de modo a tornar o pecador detestável a si mesmo e a outrem; mas, não é preciso que seja mais grave. E, assim sendo, o pecado contra a natureza é menos grave que o da idolatria. Mas, por ser mais manifesto, é considerado, por assim dizer, como uma pena imposta ao pecado de idolatria. De modo que, assim como pela idolatria o homem perverte a ordem da honra divina, assim, pelo pecado contra a natureza, sofre a perversidade que lhe transtorna a própria natureza”. (II-II, q.94, a.3, ad.3). É bem útil esta recordação, no momento em que se busca dar uma imagem honrosa às falsas religiões.

[71] A. BROU S.J., Saint François-Xavier, Paris, Beauchesne, 1912, t.2, livro sete, La mission du Japon, pág. 163.

[72] A. BROU S.J., Saint François-Xavier, ibid., t.2, pág. 217.

[73] Pe. Thomas PÈGUES O.P., Commentaire français littéral de la Somme théologiqye de saint Thomas d’Aquin, Paris, Téqui, 1918, t.XII, págs. 331-332.

[74] Essa participação se chama communicatio in sacris (comunhão com os não católicos no ato do culto sagrado que lhes é próprio).

[75] Haud licitum est fidelibus quovis modo active assistere seu partem habere in sacris acatholicorum” (Código de Direito Canônico de 1917, nº 1258 §1º).

[76] Raoul NAZ, Traité de Droit canonique, Paris, Letouzey et Ainé, 1948, pág. 77.

[77] Numquam licet exterius et simulate adore idolum, etiam ad mortem vitandam”

[78] Remontam ao tempo do domínio britânico as primeiras dessas leis, que eram sancionadas pelos marajás nos territórios que estavam fora do controle da Inglaterra. Mais tarde, quando o estado de Madhya Pradesh promulgou uma em 1936, elas se disseminaram em várias partes da Índia.

[79] Édouard LE JOLY, Mère Teresa et le Missionnaires de la Charité, Paris, Éditions du Seuil, 1977, pág. 131. O Pe. Le Joly, missionário jesuíta e belga, foi o primeiro confessor das irmãs, exercendo essa função durante vinte anos em Calcutá.

[80] Citado por Desmond DOIG na obra: Mother Teresa, her people and her work, Glasgow, William Collins, 1976, pág. 136.

[81] Madre Teresa, citada na obra de Kathryn SPINK, For the brotherhood of man under the brotherhood of God, New Malden (Surrey, England), a Myer publication by Colour Library International Ltd, 1981, pág. 31.

[82] Madre Teresa, citada na obra de Kathryn SPINK, For the brotherhood of man under the brotherhood of God, ibid., pág. 199.

[83] O Mahatma Gandhi (1869-1948) – mahatma quer dizer grande alma – é chamado de “o pai da pátria” na Índia, porque conseguiu por sua ação a partida dos ingleses. Mas a que preço e com que resultados? Ao pregar a resistência não violenta contra os colonizadores, aquele homenzinho, que fazia as necessidades em público, por onde passava incitava tumultos, revoltas e manifestações sangrentas. Enquanto declarava que não rejeitava nenhuma religião, defendia com fanatismo o hinduísmo, recusando-se a contestar o sistema de castas. Morreu assassinado em 03 de janeiro, pelas balas dum hinduísta mais hinduísta do que ele. Na História da Revolução Russa (Paris, Seuil, 1950) escrevia Leon TROTSKY: “A tendência de dissimular os primeiros atos de revolta sob aparência de legalidade, clerical ou leiga, caracterizou, em todas as épocas, a luta das classes revolucionárias, até o momento em que tivessem juntado força e garantias suficientes para cortar o cordão umbilical que as ligavam à antiga sociedade. [...] Neste sentido, muito tempo antes da revolução, já atuavam outros fatores. No seio mesmo da classe nobre, surgiram pregadores da reconciliação. Leon Tolstói penetrava na alma do mujique com mais profundidade do que ninguém. A sua filosofia da resistência não violenta ao mal era uma generalização das primeiras fases da revolução dos mujiques. Atualmente, o Mahatma Gandhi cumpre na Índia a mesma missão, porém de uma forma mais prática” (págs. 367-368).

[84] Carta de Madre Teresa ao primeiro ministro indiano Morarji Desai e aos parlamentares, em 1979, citada por Kathryn SPINK, For the brotherhood of man under the brotherhood od God, ibid., págs. 202-207. Trechos desta carta estão reproduzidos em Mons. DI FALCO, ibid., págs.118-119.

[85] Resposta de Madre Teresa a uma pergunta sobre o assunto, feita pelo cardeal Pio Laghi, protetor da congregação dos Missionários (Il Regno, de 15 de setembro de 1997, pág. 460). Passagem citada na obra de Dom Andrea MANCINELLA, 1962, Révolution dans l’Église, Brève chronique de l’occupatuon néo-moderniste de l’Église catholique, Publications du Courrier de Rome, 2009, pag~185. – É muito espantosa a idéia de que seria suficiente para a salvação ter entre as mãos, já dentro do féretro, um bilhete assinado pela Madre Teresa. “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”, disse Nosso Senhor (Mc 16, 16). Os limites deste artigo não nos permitem pormenorizar o sentido exato e a amplitude dessas palavras à luz da Tradição da Igreja, mas é possível consultar os artigos do Pe. Laisney em Le Sel de la terre 11 e 12, e a obra do Pe. Hugon O.P., Hors de l’Église, point de salut, reeditada pela Clovis em 1995.

[86] Mark Mikael ZIMA, Mother Teresa, The Case for the Cause, Nashville, Cold Tree Press, 2007, pág. 142.

[87] Mons. DI FALCO, Mère Teresa, pág. 117.

[88] Madre Teresa, Discurso na ONU, em outubro de 1985 (Christian News, de 11 de novembro de 1985, pág. 17). É útil confrontar essas palavras com o Evangelho: “Eis que este menino está posto para a ruína e para a ressurreição de muitos em Israel, e para ser sinal da contradição” (Palavras do velho Simeão, na apresentação de Jesus ao Templo. Lc 2, 34). “Quem não é comigo, é contra mim; e quem não junta comigo, disperdiça” disse Nosso Senhor em pessoa (Mt 12, 30). Agora, a seqüência do que Nosso Senhor disse ao demônio no Gênese, depois que a serpente convenceu os nossos primeiros pais a pecarem: “Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela” (Gn 3, 15).

[89] Lush GJERGJI, Une Vie, pág. 124.

[90] Aproveitando o azo, a visita aos templos em 1975 não foi um fato isolado, um erro lamentado ou uma distração: Madre Teresa repetiu esse ato dois anos depois, em comemoração aos 25 anos do Nirmal Hriday, o morredouro de Calcutá, escolhendo desta vez a data de 1º de novembro, pois, dizia ela, “para os cristãos é a festa de Todos os Santos, de todos que morreram no amor de Deus e cujas almas gozam da felicidade do Céu. Acredito que os pobres que morrem tão maravilhosamente no Nirmal Hriday [na sua falsa religião], oferecendo a vida a Deus [que Deus?], gozam agora da visão divina” (citado pelo Pe. Hervé GRESLAND em Fideliter nº 182, de março-abril de 2008, pág. 28).

[91] Este é exatamente o pensamento de Madre Teresa.

[92] GREGÓRIO XVI, carta encíclica Mirari vos, de 15 de agosto de 1832, publicada em www.montfort.org.br (página consultada em 30/05/2014).

[93] Pe. GARRIGOU-LAGRANGE O.P., De Virtutibus Theologicis, Turin, Berruti & C., 1949, págs. 433-434.

[94] Carta escrita em 1979 ao primeiro ministro indiano Moraji Desai e aos parlamentares, ibid. “Na paz do Deus em que criam”: esse deus é Ganesh, o deus com cabeça de elefante; de Víshnu, o deus da destruição, protegido pela serpente de mil cabeças; de Káli, a horrível deusa da morte? A cantilena poderia continuar dias e dias, pois o panteão hindu tem mais de 330 milhões de deuses, ou melhor, de demônios que se fazem adorar por outras tantas representações repugnantes.

[95] Nas regiões católicas, e nas regiões pagãs próximas às católicas, as irmãs realizavam batismos, davam catecismo e preparavam as crianças para a primeira comunhão (Ver Lush GJERGJI, Une Vie, pág. 87).

[96] Édouard LE JOLY, Mère Teresa, pág. 130-131.

[97] Nesta religião existe a lei do carma, palavra que significa “ação”, e quer dizer que as ações encontram a retribuição na vida presente ou em uma vida terrena posterior. Assim, considera-se a miséria o justo castigo de uma vida passada de desordens. O combate à miséria e ao sofrimento é uma contraposição à lei do carma: a pessoa em desgraça deve esperar a transmigração para outra vida, que talvez lhe proporcione uma existência mais feliz. Depois que se sabe disso, quem vai à Índia não se espanta de ver pessoas passarem ao lado de doentes e moribundos na rua sem lhes dar assistência. Remetemos o leitor à obra do Pe. Maurice QUEGINER M.E.P., Introduction à l’hindouisme¸ Paris, Éditions de l’Orante, 1958, págs. 101-117.

[98] As tropas de Nehru investiram contra Goa em dezembro de 1961. Leia-se a emocionante descrição dessa ação militar na obra do Irmão FRANÇOIS-DE-MARIE-DES-ANGES, Jean-Paul I, le pape du secret, Saint-Pares-lès-Vaudes, CRC, 2003, pág. 196-202. Com exceção da tese insustentável de que João Paulo I seria o papa da visão do terceiro segredo de Fátima, a obra contém numerosos documentos interessantíssimos.

[99] Os portugueses nunca tolerariam isso.

[100] A legislação atual data de 18 de dezembro de 1983: constituição Divinus Perfectionis Magister, do Papa João Paulo II (publicado em DC 1864, págs. 1138-1143). Segundo as novas normas, devem-se aguardar cinco anos após a morte dum servo de Deus para começar o processo de beatificação. Antes disso, na legislação que remontava à época do Papa Urbano VIII (1568-1644), obrigava-se a esperar cinqüenta anos. Era desejo da Igreja que, nesse lapso de tempo, se amainassem as paixões, acalmasse o entusiasmo e dissipassem as nuvens que obscureceriam a história. Os papas só de raro em raro derrogavam essa lei e por razões seriíssimas; por ex., o processo de beatificação de Santo Afonso de Ligório foi aberto dezesseis anos após a morte dele, prazo considerado célere.

[101] O bom vem do perfeito; o mau, de qualquer defeito.

[102] Pessoas encarregadas de estudar as virtudes dos servos de Deus, em vistas à beatificação ou canonização.

[103] Pe. Innocenzo COLOSIO O.P., em artigo sobre a (também controversa) beatificação de João XXIII, publicado na revista italiana Rassegna di Ascetica e Mistica, reproduzido na maior parte no Courrier de Rome nº 178, de abril de 1996, e traduzido na íntegra na revista Le Sel de la terre nº 42, pags. 39-56.

[104] Ninguém nos obrigue a admirar Madre Teresa, porque recolhia os moribundos da rua, combatia o aborto, ou ainda recusava certo progressismo na Igreja. A única resposta católica é: “Bonum ex integra causa”, como acabamos de afirmar. Quanto ao aborto, a ação dela, enquanto católica e religiosa, deixa a desejar: “O maior destruidor da paz, hoje em dia, é o crime contra a criança inocente e nascitura”, declarou ela ao receber o Prêmio Nobel da Paz. Não, o maior destruidor da paz é o pecado, e o pior dos pecados é a idolatria (supra), por que Madre Teresa professa a inverossímil indulgência que já conhecemos.

[105] Constituição Divinus Perfectionis Magister, ibid., cap. 1.

[106] Evidentemente, o novo procedimento deixa no mínimo uma dúvida grave sobre a validade das novas beatificações. Neste ponto, remetamo-nos à revista Fideliter nº 182, Les Saints du Concile, de março-abril de 2008, onde examinam o problema, com a conclusão bem prática e prudente do Pe. de Cacqueray: “Escolher santos que nos agradem e convêm, ao passo que rejeitamos os que achamos indignos, seria nos substituir ao Magistério, que é o único competente. A Fraternidade São Pio X escolheu não escolher e aguardar as decisões do Magistério, quando este voltar a ser claro” (pág. 2) – Remetemos o leitor ao texto de Mons. LÉFEBVRE, publicado em Le Sel de la terre 42, pág. 244-254, intitulado: “L’infaillibilité des canonisations faites par le pape Jean-Paul II”. Consulte-se também o trabalho do Pe. Jean-Michel GLEIZE (FSSPX), “L’infaibillité des canonisations dans la logique de Vatican II”, intervenção no terceiro simpósio de Paris, realizado nos dias 7, 8 e 9 de outubro de 2004, número especial de Vu de Haut, Revue de l’Institut Universitaire Saint-Pie X, págs. 300-322.

[107] Ver o jornal Présent, de 24 de dezembro de 2002.

[108] Relataram os pormenores dessa estranha cerimônia a agência Zenit (“Pope beatifies Mother Teresa in front of 3000”) e, com registros fotográficos, Cornelia R. FERREIRA, no jornal Catholic Family News, de janeiro de 2001, págs. 13-16. – Para a descrição do simbolismo do culto hindu, o autor se remeteu à obra do Pe. J. A. DUBOIS, Hindu Manners, Customs and Ceremonies, Oxford, Oxford University Press, 1906.

[109] O cardeal Lourdusamy, arcebispo de Bangalore, oficiava ao lado do papa. Aquele dia foi o auge da carreira desse prelado, que desde 1969 consagrara a vida à hinduização da liturgia católica na Índia, sob os estímulos de Mons. Bugnini, mas com oposições locais. No sínodo dos bispos da Ásia, em 1998, ele declarou diante do papa: “A Igreja da Ásia precisa escutar o que o Espírito diz pela voz das crenças diferentes da fé cristã, onde permanece escondida a semente do Verbo. A Igreja da Ásia deve inculturar a fé, a fim de permitir que o Cristo renasça e revele o seu rosto asiático” (Discurso na sala do sínodo, 3ª congregação geral, em 21 de abril de 1998, zenit.org).

[110] Assim acontece no culto de Káli, deusa da morte, cujo templo em Calcutá acolheu em suas dependências o morredouro de Madre Teresa.

[111] Ninguém sabe quando e em que ocasião retiraram o sangue. Mons. Wren, que comentava a transmissão televisiva da cerimônia, disse que o sangue foi extraído durante a exumação do corpo. O problema é que nunca houve exumação do corpo (Catholic Family News, ibid., pág. 15).

[112] “Senhor, dignai-vos conceder-nos a fraternidade universal, a promoção das culturas e o diálogo entre as religiões.”

[113] O arati é o mais importante rito hindu, executado em quase todas as cerimônias. Quem o pratica se diviniza e escapa do ciclo de reencarnações após a morte.

[114] Na religião hindu, o som OM é o nome universal do Senhor. Também significa Krishna, o deus supremo, e possui acepções sexuais e de magia negra.

[115] “Senhor, adoramos-te com a luz, adoramos-te com o incenso, adoramos-te com as flores.”

[116] Pe. Jean-Michel GLEIZE, “L’infaillibilité des canonisations dans la logique de Vatican II”, ibid., págs. 313-314. O autor expõe nesse artigo a nova concepção da santidade, apoiando-se em numerosas citações.

[117] Definição de missão dada em DTC, “Missões”, colunas 1865-1866.

[118] A fórmula é muito ambígua, quando a comparamos com a declaração infalível do Concílio de Trento (repetida pelo Concílio do Vaticano I, DS 3008): “A fé, sem a qual é impossível agradar a Deus (He 11, 6), é o início da salvação, e o fundamento e a raiz de toda justificação”, quer dizer, da passagem do estado de pecado para o estado de graça (DS 1532). A fé católica é o fundamento indispensável da caridade, pois é ela que nos mostra a necessidade e a maneira de amar, para que sejamos salvos.

[119] Madre TERESA, Dans le Silence du coeur, Méditations, Paris, Cerf, 2003, pag. 83.

[120] Asia News, de 9 de abril de 2007.

[121] O Pe. Garrigou-Lagrange está se referindo a alguns contemporâneos seus, que buscavam a união sem a fé entre a Igreja Católica – que é a verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo – e as diversas confissões protestantes. Não poderia ele imaginar que esse movimento se estenderia às religiões não cristãs e teria o encorajamento dos papas. Pio XI condenou os pancristãos na encíclica Mortalium Animos, de 6 de janeiro de 1928.

[122] Pe. GARRIGOU-LAGRANGE O.P., Les Trois Âges de la vie intérieure, t.1, nota (1) da pág. 202.

[123] Podemos consultar o estudo De l’oecumenisme à l’apostasie, enviado aos cardeais, na ocasião dos vinte e cinco anos de pontificado de João Paulo II, por Mons. Tissier de Mallerais, Mons. de Galarreta, Mons. Williamson e Pe. Schmidberger. Publicado na Lettre à nos frères prêtres, 2245, av. des Platanes, 31380, Gragnague, 2004.

[124] Carta de Irmã Lúcia de Fátima a uma religiosa amiga, citada pelo Pe. Sebastião MARTINS DOS REIS, Uma vida ao serviço de Fátima, Porto, 1973, pág. 377-379; reproduzida pelo Irmão François de MARIE-DES-ANGES em Fatima, joie intime, événement mondial, Saint-Parres-lès0Vaudes, CRC, 1991, pág. 411.

[125] Outra carta de Irmã Lúcia citada pelo Pe. MARTINS DOS REIS, ibid., págs. 371-374; reproduzida parcialmente pelo Irmão François de MARIE-DES-ANGES, ibid., págs. 409-410.

[126]            Palavras de Nosso Senhor à Irmã Lúcia, em agosto de 1931, citadas pelo Irmão MICHEL DE LA SAINTE-TRINITÉ em Toute la vérité sur Fatima, Saint Parres-lès-Vaudes, CRC, 1986, t.2, pág. 344. Recomendamos sobre o assunto a leitura de Le Sel de la Terre nº 53, consagrado à Fátima [e do artigo “Os papas e a consagração da Rússia”, de autoria de DOMINICUS, publicado na Revista Permanência nº 264, edição de Natal, 2011].

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