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Category: Família e moralConteúdo sindicalizado

Vocação e família

Irmãs da FSSPX

 

Durante um sermão em Ecône, em 11 de fevereiro de 1979, Dom Marcel Lefebvre saudou as famílias dos seminaristas assim:

“Penso que seria uma ingratidão deixar de invocar o papel da família católica na vocação sacerdotal ou religiosa. Certamente devemos muito das nossas vocações aos nossos queridos pais. Foram eles que, por seu exemplo, por seus conselhos, por suas orações, lançaram nas nossas almas o germe da vocação. Devemos desejar que existam muitas famílias católicas que favoreçam a eclosão de boas, santas vocações.”

A vocação vem de Deus, mas o canal ordinário que permitirá à alma responder generosamente a esse apelo é a genuína educação católica. É na célula familiar que Deus habitualmente prepara as almas que escolheu para si. É preciso, portanto, que os pais compreendam a importância da sua missão de educadores e não temam sonhar grande: o que queremos é formar católicos para que sejam santos!

Muitas vezes, os pais tem planos para o futuro das suas crianças: meu filho seguirá tal carreira que paga bem; minha filha fará um ótimo casamento e eu terei muitos netinhos… e não raro, infelizmente, os pais se opõem a uma vocação nascente. Contudo, não há benção maior nem honra superior a uma família do que ter sido escolhida por Deus para lhe entregar um ou mais dos seus filhos. Se por um lado jamais devemos forçar uma vocação, tampouco devemos impedir o seu despertar por meio de deboches, objeções materialistas ou por quaisquer outros meios dos quais os pais terão de prestar conta no tribunal de Deus.

 

Não se critica o padre!

Na prática, para favorecer a ação da graça, os pais deverão demonstrar respeito pelos padres e religiosos. É verdade que nem todos os padres são como o Santo Cura d’Ars, e que nem todas as religiosas são como Santa Bernardette… Mas não devemos criticar o padre ou a religiosa diante dos filhos, sobretudo por ninharias. Nas famílias em que as almas consagradas são criticadas, não há vocações, pois mata-se na alma da criança a estima pelo estado sacerdotal ou religioso.

Não é o suficiente não se opor a uma vocação, é ainda preciso cultiva-la por meio de uma educação religiosa sólida, conforme ao espírito dos conselhos evangélicos indicados por Nosso Senhor como via da perfeição: pobreza, castidade e obediência. Vigiem as amizades dos seus filhos, afastem deles as más companhias, os livros, revistas e eletrônicos perigosos; cuidem para que não busquem o supérfluo, mas se contentem com o necessário; ensinem a eles a obediência à Deus e às autoridades que o representam (pais, professores, padres…)

No nosso século amolecido pelo liberalismo vigente e pela procura incessante do conforto, a vocação, que exigirá uma renúncia constante, só poderá ser sólida se a pessoa que a recebe tiver o sentido do espírito de sacrifício. “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.” 

O papel da mãe é importantíssimo para fazer com que as crianças aprendam a transformar com generosidade os menores incidentes diários e as obrigações do dever de estado em sacrifícios “por amor de Jesus” ou por algum outro motivo sobrenatural: converter os pecadores, consolar Jesus, ganhar o Céu…

 

Ingressar na escola de Lu   

“Grande é na verdade a messe, mas os operários poucos”, constata Nosso Senhor. Qual é o meio que Ele apresenta para remediar a esse mal? “Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a sua messe.” Que as mães não hesitem em suplicar a Deus que suscite vocações no meio dos seus filhos. Em Lu, pequena comuna da Itália, as mães decidiram rezar e assistir a cada primeiro domingo do mês a missa nessa intenção: o resultado foi que nessa pequena localidade de 4.000 habitantes surgiram 500 vocações de padres, religiosos ou religiosas em cinquenta anos!

Não há ninguém como a mãe para compreender o coração do seu filho. Quanto mais profundo for o amor maternal, mais buscará, em todas as circunstância, ajudar seu filho a conhecer e amar o bom Deus. E se, mais tarde, o divino Mestre chamar aquela alma, ele a encontrará disponível, inteiramente receptível graças à educação recebida. Que tesouros de graça o bom Deus quer comunicar pelo intermédio das famílias católicas!

Shhh… silêncio!

Irmãs da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

 

A família Ducroit acaba de terminar o jantar. "Ufa, finalmente!" pensa a mãe, cansada pela conversa incessante dos seis filhos durante o jantar, que não sabem ouvir um ao outro. Como sempre, todo mundo lava a louça enquanto o pai vai ao escritório ler o jornal. Para acalmar os filhos, a Sra. Ducroit põe um CD com alguma música. As crianças ouvem um pouco, mas logo retomam a conversa infantil enquanto a música invade a cozinha. Terminada a louça, todos se reúnem para rezar o terço na sala, onde há uma gaiola com alguns canários bonitos. Os pássaros unem seu palreio às Ave Marias enquanto, não distante, o bebê Vicente chora a plenos pulmões. Para piorar, Marcelo brinca com seu caminhão de brinquedo ... Onde está a calma de que todos tanto precisamos?

 

A necessidade de silêncio

É necessário silêncio e calma para o desenvolvimento saudável. Infelizmente, as pessoas não toleram mais o silêncio. Nas lojas, nas salas de espera, nas estações de trem, em toda parte toca-se música. O barulho nos é imposto. Que o silêncio encontre lugar ao menos em nossas próprias casas!

No início, o silêncio pode exigir um esforço dos pais e dos filhos. No entanto, isso se tornará um hábito e será benéfico para todos. Em certos momentos, é apropriado gritar ou se envolver em brincadeiras alegres; por exemplo, durante um jogo de queimado no jardim. Mas, depois, ao voltar para casa, a mãe deve acalmar seu pequeno rebanho.

 

Por que silêncio?

As crianças estão na escola: a mãe passa a roupa em silêncio. Isso a ajuda a recordar, enquanto trabalha, do sermão do domingo anterior. Às quatro horas, ela entra no carro para ir buscar os filhos na escola. Fica feliz ao ver que eles têm muitas histórias para contar, mas faz com que apenas uma criança fale de cada vez, e que as outras saibam ouvir. Além disso, faz perguntas a Catarina, que é sempre quieta e de temperamento lento e, por isso, fica facilmente esquecida no meio dos seus irmãos tagarelas!

Sim, aprender a ouvir é uma coisa importante: ouvir as pessoas ao redor, ouvir a natureza — como o murmúrio de um riacho, a melodia dos pássaros, o barulho da chuva... Isso pode ser ensinado desde a tenra idade com joguinhos: o pai abre a janela e as crianças fecham os olhos para se concentrar e ouvir. Depois de dois ou três minutos, o pai fecha a janela e, por sua vez, todos podem relatar o que ouviram. Este exercício acalma as crianças, e a calma é muito benéfica!

O bebê está chateado e chora com frequência... Por que razão? Talvez seja porque estão movimentando-o mais do que preciso. Durante uma caminhada, passa de um braço para o outro, erguem-no se chora, levam-no daqui para lá.

Também é em silêncio que a mãe da família extrai energia e força para ensinar tranqüilidade aos seus queridos filhos. Para isso, ela deve saber como se sacrificar às vezes e desligar o telefone...

Para a criança, escutar é sinônimo de docilidade e receptividade: qualidades necessárias para crescer e construir caráter.

 

Seguindo o ritmo da criança

Além disso, o silêncio é contrário a um certo espírito de competição, que consiste no desejo de produzir muitas coisas rapidamente. Uma criança é normalmente lenta e, quando deixada no seu ritmo, é capaz de passar minutos inteiros olhando para uma foto, jogando incansavelmente o mesmo jogo, ouvindo a mesma música, a mesma história… ela precisa de certo tempo para se vestir, comer, pensar. Quando nós adultos exigimos que as crianças trabalhem rapidamente, quando compartilhamos nosso estresse com as crianças, estamos destruindo uma pequena parte do reino do seu silêncio interior!

É por isso que nem sempre é bom impor uma série de atividades nos fins de semana e subtrair das crianças o tempo precioso que passariam calmamente em seus quartos, em seus pequenos universos. Elas devem “baixar a bola", como se diz hoje, envolver-se em atividades que desenvolverão a sua imaginação e lhes farão descobrir, no seu ritmo, a beleza do mundo que as rodeia.

 

Algumas Práticas

Neste mundo agitado, é preciso reaprender a valorizar e amar o silêncio. Junte-se aos momentos de silêncio alguma atividade que seus filhos gostem. Clarinha gosta muito de desenhar. Às 19:00, quando seus irmãos vão dormir, ela, que é a mais velha, ainda tem meia hora acordada. Seus pais pedem que faça silêncio para não incomodar os pequenos. Durante esse período, Clarinha desenha e, até hoje, tem boas lembranças desses momentos.

O contato com a natureza também promoverá o gosto do silêncio: um belo passeio na floresta, nas montanhas, à beira-mar permitirá ouvir o canto dos pássaros, o som de uma cachoeira e rejuvenescerá toda a família.

O sono dos mais novos, durante o dia, pode ser uma ocasião de responsabilidade para os mais velhos: “Quietinhos! Não façam barulho porque sua irmãzinha dormiu e não devemos acordá-la!"

Finalmente, durante a oração em família, que, de acordo com a idade das crianças, será mais ou menos breve, os pais devem insistir desde cedo para que os brinquedos sejam deixados de lado, a fim de que a criança esteja totalmente presente em tudo o que faz. Para ajudar, devemos tentar que nossos filhos pequenos participem o máximo possível. Da mesma forma, durante a Missa, se os mais jovens precisarem de algo "material" para ocupá-los, daremos preferência a objetos religiosos que não fazem barulho (rosários de plástico, cartões sagrados em um álbum, livro de pano ou missal...)

Trabalhemos corajosamente para que esses momentos de silêncio, que pedimos a nossos filhos, não sejam um estorvo, mas um tempo de paz, um tempo desejado pelos seus benefícios. É também assim que a vida interior é capaz de se desenvolver, porque “O silêncio é a ajuda que damos a Deus para que Ele nos encha (com Sua vida), como deseja” (Madre Maria de Jesus, O.C.D.).

Vamos ler?

Irmãs da FSSPX

"Se meus filhos gostassem de ler, receberiam uma formação sólida, não enlouqueceriam em dias de chuva, não seriam alvos fáceis para a propaganda na mídia". Mas, como podemos despertar nas crianças esse hábito tão desejável?

O número de qualidades que uma criança adquire imitando os que estão à sua volta é incalculável. Se os pais lêem regularmente com prazer e nítido interesse, se as conversas familiares giram em torno de livros lidos por membros da família, grande parte do trabalho já terá sido realizado.

Antes de aprender a ler, a criança se familiariza com os livros no colo da mãe. Muitas vezes, se deixada sozinha, uma criancinha "lerá" um livro de gravuras em 30 segundos; ela terá visto tudo e não terá olhado nada. Com a mãe por perto, aprenderá a examinar todos os desenhos: onde está o galo? Qual a cor do gato? Ao fazer isso, a criança desenvolve a capacidade de se concentrar enquanto adquire um vocabulário rico e preciso.

Quando os livros fazem parte do universo da família, por volta dos cinco ou seis anos, a criança pedirá para aprender a ler. Ela quer fazer como os adultos: está cansada de ter se receber ajuda para ler uma história, e quer entender as alusões que ouve nas conversas das crianças mais velhas. Ofereça-lhe um livro sobre o alfabeto e, até o momento de poder ir para a escola, ensine-a a reconhecer os sons do seu idioma. A instrução em casa pode ir mais longe se a mãe tiver algum treinamento ou conselhos de um professor.

O aprendizado da leitura é fundamental. A leitura tem de se tornar fácil o suficiente para que a atenção da criança não esteja mais voltada para o ato de ler do que para o conteúdo do livro. É preciso banir intrepidamente os livros que empregam o método de alfabetização global ou semi-global, responsáveis por uma quantidade catastrófica de analfabetos ou leitores medíocres. Somente o método fonético está em conformidade com os processos analíticos do intelecto, exercidos pelo cérebro.

Assim que a criança começar a aprender a ler, forneça livros adaptados à sua capacidade ainda limitada (vocabulário simples, grandes letras, histórias curtas ou mais longas, divididas em capítulos curtos) e não hesite em ler com ela, revezando-se para ajudá-la e despertar seu interesse. Isso deve ser feito se sua leitura ainda não for fluente até o final da primeira série. Nem todas as crianças progridem no mesmo ritmo. Se a mãe não puder ajudar a criança a recuperar o atraso nas férias de verão, ou se a diferença for muito grande, talvez seja melhor que ela repita a primeira série, com o consentimento do professor, para garantir uma base sólida, em vez de avançar para a próxima série, onde pode vir a ter problemas para acompanhar as aulas e correr o risco de desanimar.

Um livro agradável pode se tornar a base de outras atividades que, por sua vez, podem exigir uma leitura complementar adicional: um romance sobre as Cruzadas pode inspirar a criança a construir no papelão seus próprios apetrechos de cavalaria, mas, para aperfeiçoar o trabalho, terá de pesquisar mais em outros livros. E como eram as fortalezas? E a vida de S. Luís, rei da França?

Para leitores verdadeiramente relutantes, pode-se inventar um grande concurso de jogos que ocupará a família durante as férias e remeterá as crianças para os Contos de Fada, aos irmãos Grimm ou à Terra Média em busca de pistas e respostas.

A leitura precisa de condições favoráveis: um pouco de solidão e silêncio. Os jogos barulhentos dos pequenos e os quartos compactos podem constituir obstáculos reais para algumas crianças, que precisam ser ajudadas. Durante as férias de verão, as horas quentes no início da tarde oferecem um tempo propício para a leitura. Enquanto os pequenos se deitam para tirar uma soneca, os mais velhos voltam-se para os livros e a família desfruta de um momento de silêncio.

É claro que só podem entrar na casa livros bons. Para que um livro seja considerado bom, não é preciso que o herói seja um santo, mas é indispensável que a ação se desenrole num contexto honesto e salutar. Ganha-se muito conversando com as crianças sobre o que estão lendo, perguntando o que gostaram e por quê, e o que elas podem ter encontrado para criticar e por quê.

A leitura de revistas em quadrinhos pode contribuir para o desenvolvimento do gosto da leitura? Sem entrar no debate sobre as vantagens e deficiências dos quadrinhos, sejamos realistas: a experiência mostra que a criança que já gosta de ler e costuma ler livros de verdade poderá relaxar com uma revista em quadrinhos sem prejuízo; mas que o leitor exclusivo desse tipo de revistas raramente se torna um leitor genuíno, já que sua preguiça é satisfeita apenas com a "leitura" dos desenhos.

Onde as famílias podem encontrar boas leituras com um orçamento razoável? As bibliotecas públicas oferecem muitos livros francamente ruins para que seja prudente deixar que as crianças as explorem sozinhas. Os pais poderão encontrar nas livrarias os clássicos da literatura infantil a preços modestos. O empréstimo de livros entre famílias é uma solução, além de oferecer uma oportunidade para se ensinar as crianças a terem cuidado com os livros e respeitarem a propriedade dos demais. 

Os editores católicos tradicionais se esforçam para oferecer livros de alta qualidade para crianças, e os avós e padrinhos encontrarão muitas idéias de presentes por lá.

Então, boa leitura para você!

O sepultamento, um rito desejado por Nosso Senhor

Pe. Olivier Parent du Châtelet - FSSPX

Atualmente, costuma-se falar em favor da cremação ― ou incineração ― do corpo dos defuntos. Contudo, a Igreja sempre se opôs mui firmemente a essa prática. Por quê? Agora que a Igreja modernista já não é tão firme neste assunto, o que devemos pensar?

 

A mentalidade da Igreja


Para nós, católicos, o primeiro reflexo deve ser a consulta ao ensinamento e à disciplina da Igreja. Ora, ela se pronunciou com precisão e firmeza sobre esse assunto, o que demonstra que ela atribui a ele uma importância real.

Leão XIII estabeleceu uma lei em 15 de dezembro de 1886: “Se alguém fez um pedido público de cremação e morreu sem se retratar desse ato culpável, é defeso conceder-lhe funeral e enterro eclesiásticos.”

O Código de Direito Canônico de 1917 reproduz essa lei e especifica: “Se alguém prescreveu que seu corpo seja entregue à cremação, não se poderá executar sua vontade. Se ela constar de um contrato, testamento ou qualquer outro ato, deve ser tida por não escrita.” (Cânon 1203, 2).

A cremação é um ato humano e, como todo ato humano, é governada por princípios, segue leis; é uma maneira de tratar o término da vida humana que molda costumes e mentalidades. De fato, há um estreito vínculo entre o culto dos mortos, a maneira de enterrá-los, os ritos funerários, e as idéias filosóficas e religiosas que estão por detrás. Os homens não agiram por acaso, e a história desses ritos, mesmo entre os pagãos, é reveladora.

 

História


Antiguidade greco-romana

Se recuarmos o máximo possível no tempo, veremos que as gerações antigas “encaravam a morte, não como dissolução do ser, mas como simples mudança de vida” (Fustel de Coulanges, La Cité antique). A alma permaneceria próxima dos homens e continuaria a viver sob a terra; ela permaneceria como que associada ao corpo. O melhor testemunho são os ritos fúnebres que atravessaram os séculos, mesmo à medida que mudavam as crenças.

Dizia-se ao morto: “Que fiques bem. Que a terra seja luz para ti.” Como o falecido continuava a viver, era preciso fornecer-lhe todo o necessário para a vida: roupas, vasos, armas, comida e bebida. Não só no dia do funeral, mas também em determinados dias do ano, trazia-se-lhe comida. Lucien de Samosate, em De luctu, explica: “um homem morto a quem nada se oferece está condenado à fome perpétua”. Essa prática ainda era observada entre os pagãos no início da era cristã.

Ademais, a alma continuava a viver, mas num lugar fixo; era preciso, portanto, que se cobrisse de terra o corpo ao qual ela permanecia ligada. A alma que não tinha um túmulo, não tinha morada: ficava errante, infeliz e, em geral, maléfica. A privação de alimentos tinha o mesmo efeito. Assim como a comida, o enterro era necessário para a sua felicidade. Pela mesma razão, havia de se cumprir todos os ritos prescritos e pronunciar as fórmulas determinadas.

Foi por isso que os atenienses puseram à morte os generais que, depois de uma vitória no mar, negligenciaram o dever de trazer os mortos de volta à terra firme para serem sepultados.

A privação de sepultura e demais cerimônias funerárias era um castigo que a lei impunha a crimes graves: infligia-se à alma um suplício como que eterno. É por isso que, na peça de Sófocles, Antígona prefere morrer a deixar de enterrar seu irmão, pois, diz ela, o enterro é uma lei dos deuses e homem nenhum tem o direito de transgredi-la.

À medida, entretanto, que evoluía o pensamento filosófico e religioso, o lugar dos mortos passou a ser uma região subterrânea, o Hades, onde as almas ficavam todas reunidas, e onde se distribuíam as penas e as recompensas. Já em Homero, nota-se que a existência após a morte se reduzia a uma imagem, uma sombra intangível, que todavia era o retrato físico e moral do falecido.

O ritual da cremação foi então introduzido para, segundo se pensava, acelerar a transição para esse estado evanescente da alma totalmente separada do corpo. A Ilíada e a Odisseia testemunham isso.

A mesma evolução se deu em Roma, especialmente no fim da República e sob o Império. Contudo, tal como observa Fustel de Coulanges, os ritos permaneciam inalterados (La Cité antique, p. 12).

Por outro lado, as almas dos mortos, que se chamavam Manes, recebiam um culto quase divino: “Prestai aos deuses-manes o que lhes é devido”, diz Cícero; “são homens que deixaram esta vida; tomai-os por seres divinos” (De Legibus II, 9). Eles tinham seu altar, e eram invocados em busca de socorro.

Outras religiões

Ter-se-á notado como os antigos costumes gregos e romanos são comparados àqueles, bem conhecidos, dos egípcios. Entre os japoneses, o xintoísmo tinha as mesmas práticas que os romanos, mas acentuava a dependência dos vivos para com os mortos: se um jovem homem estava para estudar na Europa, ia despedir-se de sus ancestrais mediante visita à sua tumba (Christus, p. 274). Os hindus tinham de início a mesma noção e as mesmas práticas que gregos e romanos. Esse culto aos mortos persistiu mesmo sob a religião de Brahma, e o redator do Código de Manu foi obrigado a levá-lo em conta, apesar das novas crenças, em particular a metempsicose (N. da P.: reencarnação), lhe fossem contrárias. Fustel de Coustanges observa: “Se é preciso muito tempo para que as crenças humanas se transformem, ainda mais é necessário para que mudem as leis e as práticas exteriores” (La Cité antique, p. 17).

Judeus e cristãos

Semitas, hebreus e cristãos sempre fizeram uso da inumação, devido à sua fé na imortalidade da alma e na ressurreição dos corpos. E se às vezes introduziu-se a cremação, foi sempre ligada a práticas idólatras: os pais queimavam vivos os seus filhos em honra aos deuses (cf. o rei Acaz, II Reis 16, 3). Mesmo nos primeiros séculos da Igreja, os católicos sempre preferiram o enterro dos corpos, ainda que cercada de dificuldades e perigos em razão das perseguições.

Assim, em Roma, sob a Basílica de São Pedro, encontram-se mausoléus pagãos que geralmente contêm urnas nas quais foram depositadas as cinzas dos mortos. Mas ao mesmo tempo, ao lado, estão as tumbas cristãs, nas quais os corpos dos católicos estão enterrados, e enterrados próximos ao corpo de São Pedro.

A Revolução e seus efeitos

Não foi até a Revolução Francesa que a incineração ressurgiu. Ainda assim, não logrou grande êxito. Foi só a partir da segunda metade do século XIX que começou a se impor e se espalhar, sob a ação da Maçonaria, através de sociedades para a propagação da cremação. E isso com um espírito materialista, utilitarista. As seguintes leituras bastarão para demonstrá-lo:

“Não encontrei nada mais simples do que colocar os corpos numa retorta de gás e destilá-los até que sejam reduzidos a cinzas, e acrescentaria que o gás proveniente dessa destilação bem poderia servir para a iluminação…” (Carta de M. X. Rulder ao Doutor Catte)

“Dado o número de mortes na cidade de Londres, poder-se-ia coletar ao cabo de cada ano, por meio de aparelhos crematórios, 200.000 libras de ossos humanos destinados a fertilizar o solo.” (H. Thompson ― ambas as citações são extraídas do artigo do DAFC, Dictionnaire apologétique de la foi catholique, sobre a cremação)

 

Dos ritos às convicções


Para além do caráter assaz grosseiro e inexato do culto aos mortos na Antiguidade greco-romana, essas práticas revelam dois pontos principais: a convicção na imortalidade da alma, bem como a consequente piedade filial.

A imortalidade da alma

Note-se que não se trata dos mistérios da fé sobre a natureza da vida após a morte, mas da realidade natural de que a alma é espiritual e, portanto, não pode morrer. Sobre este tema, fazemos nossa a conclusão de Fustel de Coulanges: “Talvez tenha sido à vista da morte que o homem teve pela primeira vez a noção do sobrenatural, e que quis esperar para além dos que os olhos veem. A morte foi o primeiro mistério. Ela elevou seus pensamentos do visível ao invisível, do efêmero ao eterno, do humano ao divino.” (La Cité antique, p. 20). Certamente, por si só, a morte do corpo leva a pensar na imortalidade da alma, mas esses são mistérios naturais dos quais Deus se serve para, com sua graça, ir levando os homens a considerar não somente o imortal, mas o sobrenatural.

Práticas cheias de piedade

Como o nome sugere (“culto” vem do latim colere, que significa “honrar” e que deu cultum, que significa “honra”), damos honra àqueles de quem recebemos a vida, àqueles de quem somos devedores. Somos gratos a eles, sejam nossos pais pela vida e todos os benefícios que deles recebemos, os antigos pela sua sabedoria, os grandes homens por suas façanhas. É nesse sentido que os heróis e grandes homens eram elevados ao patamar de deuses. Os gregos e romanos não eram estúpidos a ponto de considerar deuses aqueles que haviam sofrido a morte; eles erguiam à dignidade dos deuses aqueles através dos quais recebiam tantas bênçãos. Essa piedade tem duas consequências. Por um lado, como a alma do defunto não desaparecia, os vivos continuavam ligados a ela e, portanto, deviam ajudá-la tanto quanto podiam. Por outro lado, o culto dos mortos é importante para os próprios vivos. Com efeito, se quem é honrado em vida pode tirar algum proveito dela, o mesmo não se diz de quem é recebe honrarias depois da morte. Mas os vivos, estes tiram certo proveito da honra que prestam aos mortos: é o reconhecimento e a gratidão de tudo o que receberam deles, quer dizer, uma certa humildade.

Templos do Espírito Santo

Para os cristãos se acrescenta uma terceira realidade, a saber, que o corpo do fiel defunto era templo do Espírito Santo. Assim como, na missa, o incenso, que não é devido senão a Deus, estende-se aos fiéis porque são templos do Espírito Santo; assim como os corpos dos santos, e particularmente dos mártires, são venerados por causa do que o Espírito Santo neles realizou; assim também os corpos de todos os cristãos. Existe, portanto, um vínculo estreito entre a prática e as crenças, entre a maneira de se despedir dos mortos e o que se pensa sobre a morte, entre o visível e o invisível.

Ímpios, materialistas e orgulhosos

Na medida em que as crenças e filosofias se modifiquem mais rapidamente que as práticas exteriores e os ritos, não se pode negar que a alteração de ritos exteriores acabará, a pouco e pouco, influenciando o modo de pensar de seus participantes. Foi o que perceberam os propagadores da incineração no século XIX. Dom Chollet (citado no artigo do DAFC), arcebispo de Cambrai, fez conhecer a seguinte circular dos franco-maçons:

“A Igreja Romana nos lançou um desafio ao condenar a cremação (…) Os franco-maçons devem empregar todos os meios para difundir o uso da cremação. A Igreja, ao proibir a incineração dos mortos, afirma seus direitos sobre os vivos e os mortos, sobre as consciências e os corpos, e busca conservar no vulgo as velhas crenças, hoje dissipadas à luz da ciência, relativas à alma espiritual e à vida futura.”

 

Todo um estado de espírito


É à luz do parágrafo anterior que devemos ler e compreender os argumentos que se seguem.

Rumo a uma vida renovada

Os antigos ritos fúnebres pagãos, que acima mencionamos, ou ainda as cerimônias católicas de inumação, nos mostram que a morte não é uma destruição definitiva e absoluta. Ademais, “cemitério” bem do grego e significa “dormitório”. No cemitério, as almas descansam, num sono muito particular, decerto, mas à espera de alguma coisa, ou de um despertar para uma nova vida. A incineração suprime o simbolismo dos ritos e do cemitério, e a verdade que de que são portadores. O corpo enterrado, de fato, é como um grão de fermento lançado na terra e que se decompõe: dele, pela misteriosa ação da onipotência divina, brotará a vida. Mas o corpo incinerado é como o grão cozido ou torrado, que jamais fará nascer uma nova vida. Queimado, dele já não há mais nada a esperar. Um corpo reduzido a cinzas não espera mais nada: a destruição parece definitiva. Não é indiferente a passagem do simbolismo expressivo das cerimônias católicas para o simbolismo negador da incineração. Ao longo de séculos, essas cerimônias modelaram a mentalidade humano sobre o além. Suprimi-las não é algo sem maiores consequências. A passagem de um simbolismo a outro modifica nossas ideias, orienta-as para a negação de toda a vida após a morte. O homem passa a ser visto como não mais que um punhado de matéria, uma partícula entre outras… É por isso que, com razão, os novos cemitérios se chamam “parques ou jardins de memória”, a memória de algo que passou para sempre, que nunca mais voltará: ali não se conserva outra presença senão apenas “no coração dos vivos”, e não uma vida real após a morte.

Sepultados com Jesus

São Paulo nos ensina, e a Igreja no-lo recorda na noite de Páscoa: com Jesus somos sepultados na morte e com ele ressuscitaremos. É o significado do batismo, que, como todo sacramento, é um sinal. Se o símbolo se perder, o sacramento também perderá gradualmente o seu valor.

Respeito

Os antigos ritos pagãos, e mais ainda as cerimônias católicas, demonstram um grande respeito para com o corpo do defunto. Esse respeito associado à inumação prossegue com o túmulo, devidamente ornamentado, junto ao qual se vai rezar. Esse respeito em relação ao corpo se reverte para o próprio defunto. Deve-se vê-o sob dois aspectos: o enterro é uma destruição oculta, tudo se passa no subsolo, põe-se um véu sobre a miséria da corrupção e do retorno ao pó; por outro lado, é progressiva, de acordo com as leis da natureza, que vêm de Deus e são boas em si mesmas. Pelo contrário, a cremação é visível pode-se assistir a ela e ver o resultado nas cinzas que são depois entregues: a realidade da destruição é cruelmente posta diante dos olhos; além disso, é brutal: é quase uma violência que o fogo faz ao corpo e, através do corpo, uma violência feita ao viúvo ou viúva, ao pai, ao filho, ao amigo.

Aceitação do castigo

Sabemos, pela fé católica, que a morte é um castigo infligido por Deus em razão do pecado: “Tu és pó e ao pó retornarás”. Deus dissera a Adão e Eva que, se desobedecessem, seriam punidos com a morte. O homem deve humildemente reconhecer que Deus é o senhor de todas as coisas, e se submeter a esta sentença: Deus, em sua sabedoria, impõe este castigo; o homem, em humildade e confiança, deve se submeter a esse retorno ao pó. Pela inumação, essa sentença é executada como Deus a quer: o homem sofre em seu corpo esse regresso ao pó. Às vezes, para honrar seus santos, Deus os livra dessa miséria: seus corpos permanecem incorruptos. Na cremação, ao contrário, o defunto ordena que seu corpo se torne, não pó, mas cinzas. É ele mesmo que se impõe tal destruição, não Deus. Ele já não se submete, mas ordena. Queira ou não, essa maneira de proceder faz pensar que o homem já não sofre a sentença de Deus: ele escapa à autoridade de Deus e ao dever de se submeter a ela.

Humildade ou soberba risível

 Como escreveu o franco-maçom citado acima, “a Igreja, ao proibir a incineração dos mortos, afirma seus direitos sobre os vivos e os mortos”. Mas o homem de hoje quer ser o mestre absoluto. Ele se arroga o direito de suprimir a vida mal iniciada, e de interromper a vida prestes a terminar. Da mesma forma, também cobiça o poder de destruir seu corpo a seu gosto. Quer ser senhor de si mesmo não só até a morte, mas até mesmo depois da morte. Todavia, não possuindo o poder de restaurar a vida, nem tampouco de impedir a destruição, não lhe resta outra saída, para demarcar seu pretenso poder, senão ir mais longe na destruição.

Cúmplices de quem?


Infelizmente, em 1963 as autoridades romanas permitiram a cremação sem realmente aprová-la (sempre essa ambiguidade dos documentos posteriores ao Concílio Vaticano II). As associações de cremação não cessam de espalhar a notícia. Isso foi inserido no novo Código de Direito Canônico, de 1983. Roma coloca algumas reservas: a cremação “não deve ser desejada como negação dos dogmas cristãos em um espírito sectário, por ódio à religião católica ou à Igreja”. Abre-se a porta, fingindo fechá-la. Onde está a falsidade de tal raciocínio? Ei-la: por meio dessa reserva, os modernistas se permitem crer que o único problema com a cremação é a possível negação dos dogmas cristãos (dogmas da vida eterna e da ressurreição dos corpos), enquanto que se trata de muito mais, como vimos. É toda uma riqueza de convicções e de práticas cristãs que a Igreja abandona com essa atitude, ao passo que, até então, ela as mantinha com o mais zeloso cuidado. É tudo o que querem os maçons, ao menos por enquanto.

Todavia se dirá que a cremação, em si mesma, é neutra. Ora, não! Nesta vida nada é neutro, nada existe em si mesmo, mas apenas em consequência das razões pelas quais praticamos nossos atos. Ora, aceitar a cremação é abandonar a inumação. Qual razão, sim, qual razão pode justificar esse abandono em princípio?

Ouve-se dizer que em caso de necessidade, seria legítimo. Efetivamente, é preciso conceder que a sepultura é dessas práticas que comportam exceção, ao contrário do adultério ou do aborto. Mas quem não vê, antes de tudo, que as exceções são por natureza excepcionais e só revogam o curso ordinário fixado pela sabedoria divina por motivos específicos e raros que devem, eles também, corresponder à superior sabedoria de Deus? Por conseguinte, que não nos venham falar em epidemia, porque em tal caso o uso de pó de cal é desde sempre conhecido e preferível. Que não nos venham falar de falta de espaço, pois é precisamente aos vivos que compete criar o espaço adequado para o culto dos mortos, assim como se cria o espaço necessário para os templos… ou para o lazer.

 

Conclusão


Em uma frase, um escritor resumiu o princípio que nos guia: “Quem não vive tal como pensa, acaba pensando tal como vive”.

Por força de não rezar segundo sua crença, a pessoa termina por crer segundo reza.

Por força de não sepultarmos os mortos segundo nossas crenças, acabaremos por pensar conforme o modo como sepultamos os mortos. Ora, a cremação carrega consigo, em razão de seu simbolismo, uma outra maneira de pensar: o homem como senhor de si mesmo depois da morte; o homem sem alma imortal, nem esperança de uma outra vida após a morte; o homem reduzido à matéria e que, após a morte, só lhe resta retornar ao “grande todo”, à mãe-terra, e “fundir-se com ela”, como afirma o documento publicado pela Federação Francesa de Cremação em Paris.

(Fonte: La Porte Latine - Tradução: Permanência)

Quem vai arrumar a mesa?

Irmãs da FSSPX

Em uma família, as crianças não são como hóspedes de um hotel onde tudo lhes é servido. É essencial que participem das tarefas da família, e a primeira que vem à mente, por ser uma atividade diária simples, é pôr a mesa. Essa é até uma das primeiras tarefas que as crianças podem cumprir e terão orgulho de que as julguemos capazes de pôr a mesa.

Talvez os pais temam que os mais pequenos acabem por quebrar a louça. O risco não é tão grande. Veja como estão ansiosos para provar-lhes que são dignos da confiança que lhes foi dada. As crianças sabem como prestar atenção e ter cuidado quando necessário. Não é melhor correr esse risco mínimo de um vidro quebrado do que arriscar transformar os filhos em criaturas egoístas, pouco dispostas a prestar serviços? Se necessário, é possível utilizar pratos de plástico no início de seu aprendizado.

Quantas vezes devemos pedir-lhes isso? Pôr a mesa é uma tarefa diária, portanto, devemos solicitar sua ajuda diariamente, a fim de acostumar as crianças ao esforço, e não nos contentarmos com uma ajuda ocasional. Podemos nos organizar de acordo com a composição da família: é possível pedir um voluntário a cada vez, mas o risco é que seja sempre a mesma criança com temperamento mais generoso; e o que fazer se não houver voluntário? Pôr a mesa também pode ser um privilégio do filho mais novo, ao passo que os mais velhos teriam tarefas mais difíceis. Ou cada criança pode revezar: uma põe a mesa no almoço, outra no jantar. Essa é uma tarefa que pode ser requisitada tanto a meninos quanto a meninas quando mais jovens. Mas, à medida que envelhecem, seria melhor pedir aos meninos outros serviços mais masculinos, como tirar o lixo ou cortar a grama.

Não devemos hesitar em lembrar às crianças que é hora de pôr a mesa, principalmente as crianças. As outras crianças perceberão que estamos chegando perto da hora da refeição, e esse será o sinal para que deixem de lado seus jogos ou dever de casa e lavem as mãos antes de irem para a sala de jantar.

No começo, solicita-se aos pequenos que definam apenas as coisas essenciais: pratos, copos e talheres, mas aos poucos podemos ensiná-los a fazer todo o trabalho, sem esquecer os detalhes: utensílios de cozinha, jarra de água, cesto de pão, faca e prato de manteiga, guardanapos, sal e pimenta ... Para ter uma refeição bem organizada, certifique-se de que, no final da mesa, você tenha os últimos pratos, sejam queijo ou sobremesa, com os pequenos pratos que os acompanham. Isso evitará viagens desnecessárias à cozinha.

Quando houver convidados, é o momento de treinar as meninas mais velhas para o papel de futura dona de casa. Preparar uma mesa agradável não é uma tarefa onerosa: não falamos das artes da mesa? Toalhas de mesa e guardanapos combinados, pratos festivos, uma peça central será apresentada. Elas também terão que prever os diferentes pratos e a troca de pratos em função do menu, sem esquecer os detalhes: por exemplo, lavar pratos raramente usados, colocar os copos de vinho à direita e os copos de água à esquerda etc.

Por mais simples que pareça a mesa, é uma maneira de desenvolver muitas qualidades nas crianças: saber servir, atenção, perseverança, o senso de trabalho bem-feito, ou seja, nos mínimos detalhes, um senso de harmonia, conhecendo as regras de etiqueta e boas maneiras ... Seria uma pena não pedir isso a seus filhos, seja por não saber como fazê-lo ou por não querer ser ajudado!

Um ambiente familiar feliz

Irmãs da Fraternidade São Pio X

 

As flores, para desabrocharem, precisam dos raios quentes do sol. E no jardim das almas, é a alegria que proporciona a atmosfera necessária para os corações se expandirem. 

 

Não deixemos as crianças se fecharem em si mesmas

Há temperamentos alegres, otimistas, que nunca se mostram apáticos ou abatidos; sabem ser gratos ao bom Deus, e isso é um dom precioso. 

Ao lidarmos com crianças mal-humoradas, emburradas, ranzinzas e tristes (e que acabam por se afastar de todos), precisamos ensiná-las a serem alegres. Que saibamos apontar o lado bom das coisas — porque sempre há um. O tempo está ruim? A chuva nutre a Terra e ajuda as plantações a crescer. Se um motivo de aborrecimento se apresenta, encaremo-lo como uma oportunidade de oferecer um sacrifício ao Bom Deus! Recebi um pedaço menor de bolo que o meu irmão? Fico feliz por ele!

Não deixemos que as crianças fiquem ensimesmadas em seu mal-humor. Tão logo isso se apresente, devemos aliviar as tensões com uma piada ou um gracejo como “Cuidado, seu beicinho está crescendo! Vamos, tire rápido um sorriso do bolso!”, ou algo do tipo. Crianças irritadiças, que nunca estão satisfeitas, devem ser interrompidas com comentários do tipo: “Pare de reclamar. Você reclama tanto do que não tem, que esquece de perceber o que tem!”.

Não obstante, é necessário procurar identificar as causas se surgir alguma tristeza incomum, por exemplo, por uma má influência ou dificuldades na escola, sobre as quais a criança não se atreva falar. Se a criança puder confiar em algum adulto para ajudá-la, a alegria retornará.

Devemos tirar tempo para apreciar as pequenas alegrias da vida familiar, como as alegrias que se seguem ao trabalho: contemplar belos campos, admirar jardins ou mesmo um cômodo recém-limpo. Há também a beleza do reencontro após a semana passada no internato, a alegria de cantar enquanto lavamos a louça, os piqueniques e passeios, a felicidade de ser grande o bastante para ajudar o papai e tantas outras pequenas alegrias disseminadas entre nós por Deus. — Se a criança não encontra na vida familiar a atmosfera alegre de que precisa, é de se temer que irá procura-la em outro lugar, e só Deus sabe onde isso se dará.

Devemos mostrar, através de nossos exemplos, que a virtude (longe de a extinguir) é fonte da verdadeira felicidade. Uma virtude rígida, fria e por demais austera, porém, não é comunicável. Ao invés de atrair a criança, o excesso afasta-a e arrisca torná-la rebelde. A verdadeira virtude católica é naturalmente alegre, pois nos proporciona o conhecimento de sermos filhos amados de Nosso Pai Celestial, o gosto de lhe oferecermos os pequenos eventos de nossa vida diária e a satisfação de sermos perdoados de nossos erros e curados de nossas fraquezas. 

Nosso Senhor, nas “Bem-Aventuranças”, fala de oito promessas para nos fazer felizes. Ele abençoa e encoraja a alegria. Pode-se dizer que, depois do amor, a alegria é o presente mais doce que vem das Suas mãos.   

 

Os efeitos da tristeza

A tristeza, por outro lado, destrói as almas, mata o sabor do esforço e estimula o vício. Não sejamos educadores pessimistas, que nunca estão satisfeitos com os esforços da criança, fazendo comentários do tipo “Você não se saiu tão mau como de costume. Para você, até que não foi tão ruim”. Pelo contrário, devemos saber encorajar até mesmo quando repreendemos: “Sei que você é capaz de fazer melhor. Na próxima vez, tenho certeza que isso não se repetirá”. Que saibamos dar os fundamentos para uma boa reputação à criança, fazendo justiça aos seus esforços e regozijando-nos de seus sucessos.

Há certamente muitas cruzes em toda vida, por vezes muito duras. Para não entristecer a atmosfera familiar, devemos deixar as preocupações com os adultos: crianças não têm a força necessária para lidar com elas. Algumas provações não lhes escaparão, no entanto, como a dor de um falecimento ou uma doença: será preciso ajudá-las a lidar com elas sem se afogarem na tristeza. Com efeito, quando nos entregamos inteiramente à Vontade de Deus, mesmo se sofremos em demasia e a despeito de qualquer dor, ainda há um pouco de alegria no centro de nossas almas. Talvez não possamos senti-la, mas é real porque a alma ama a Deus — que está sempre presente. A alegria é um dos frutos da presença do Espírito Santo em nossas almas.

Dom Bosco usava a alegria como um dos pilares de seu método de Educação. Ele sabia que o demônio é um eterno infeliz e estende essa infelicidade às almas que leva para o inferno. Uma alma em estado de Graça, ao contrário, é cheia de alegria. Deixemos que as crianças brinquem, corram, riam e façam barulho — mas que não pequem! O santo até mesmo chegou a fundar a “Sociedade da Alegria”. São Domingos Savio bem compreendeu seus ensinamentos ao afirmar: “Fazemos a santificação consistir em estarmos estarmos sempre felizes”.

A criança desleixada

Eis uma parte verdadeiramente importante da educação das crianças: ensiná-las não apenas a fazer o que lhes é pedido, mas a fazê-lo bem. De que são compostas nossas vidas humanas? De uma série de pequenos eventos. Como os milhões de grãos de areia que compõem uma praia, eles parecem insignificantes. Mas, uma vez juntos, compõem o tecido da nossa vida.

As pequenas ações de seus filhos a todo momento, suas pequenas reações de alegria ou raiva, estão cheias de um poder inesperado. A ruína de muitas almas começa com pequenos erros: uma mentira para encobrir a preguiça, uma hora passada com maus amigos... Não é grande coisa, alguém poderia dizer. Mas os hábitos são formados rapidamente e, embora a consciência grite um pouco na primeira vez, logo ela é abafada.

Para a maioria das crianças, não há uma oportunidade decisiva de heroísmo em suas vidas. Mas elas podem ser heróicas todos os dias, fazendo as mesmas pequenas coisas repetidas vezes, após o exemplo de Nosso Senhor, que “fez tudo bem” (Mc 7). Como?

Apenas contemple a obra-prima de Deus que chamamos de Criação. Dê uma olhada no microscópio neste cristal com seus tons cintilantes de verde. Uma esmeralda? Não, um cristal de açúcar! Deus faz todas as coisas perfeitamente. E Ele deseja que o imitemos: "Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito". Ser perfeito naquilo que Ele nos deu: os momentos da nossa vida.

 

Agir por Caridade

Alguns exemplos: limpar o quarto porque a mãe mandou é uma boa ação, mas "limpá-lo bem para fazê-la feliz" é um ato de caridade. Aprender a lição por necessidade é uma boa ação, mas aprendê-lo "da melhor maneira possível" é um ato de caridade. Com esta varinha mágica chamada “fazer o nosso melhor para agradar Jesus”, nossas ações diárias são transformadas de grãos de areia em pedras preciosas. Ler um livro com cuidado, sentar-se adequadamente à mesa, responder educadamente quando questionado... Obedecer prontamente, não conversar durante as aulas, oferecer-se para ajudar, não responder… tudo isso pode ser ato de caridade.

No entanto, não devemos esquecer que nem todas as crianças têm os mesmos talentos. Portanto, o objetivo não é necessariamente a perfeição material do trabalho ou ação. Devemos sugerir um objetivo adaptado a cada criança, sem comparar uma criança menos dotada a um camarada mais talentoso que obtém os mesmos resultados sem nenhum esforço.

 

A Catedral de Milão

Procurar fazer tudo bem também significa trabalhar sem buscar recompensas. Nosso mundo moderno tem outros padrões: "relação custo-benefício", "salário", "realização rápida" e não apenas "realização". Um dia alguém perguntou ao escultor das magníficas estátuas no alto da Catedral de Milão por que ele estava se esforçando tanto. Quem veria as estátuas do chão? Ele respondeu: “Do chão, ninguém; mas Deus as verá.” Isso é amor verdadeiro, amor que não busca outra recompensa senão a de agradar a Deus. Antes de chegarem ao ponto de agir habitualmente “para fazer Jesus feliz”, as crianças precisam que suas ações sejam recompensadas de vez em quando, mas sem que isso se torne uma obrigação, o que seria o caso se toda boa ação lhes desse o direito a um "salário."

Não devemos nos vender: as crianças não são naturalmente atraídas pelo esforço, elas preferem o prazer imediato. Como podemos incutir nelas um senso de dever? A oração obtém todas as coisas. Reze e ensine seus filhos a rezar.

Também é importante que elas terminem o que começaram, seja trabalho, jogo, desenho... Terminar em todos os sentidos da palavra: completar e fazer bem. Não aceite um trabalho pela metade ou mal feito nem termine o que seu filho começou e desistiu na primeira dificuldade. Ajude-o a terminar o trabalho se precisar de ajuda. Pouco a pouco, ele aprenderá a pedir conselhos e perseverar: é preciso paciência e humildade. Incentive-o a voltar às mesmas ocupações todos os dias com alegria. O objetivo precisa ser claro: é para Deus, Ele ama coisas bonitas! Os pais podem contar com o tesouro da generosidade que está no coração dos seus pequenos.

Há uma alegria legítima e benéfica em ver nosso trabalho bem feito, e este é um excelente incentivo para continuarmos a "fazer o nosso melhor". Um trabalho malfeito, no entanto, após o alívio de nos livrarmos da tarefa, deixa uma sensação desagradável de insatisfação, de trabalho inacabado. A alma nunca encontra satisfação no “aproximado".

Dê aos seus filhos pequenas responsabilidades na vida familiar, como alimentar o peixe, pôr a mesa ou varrer uma escada. Obviamente, você precisará verificar e eles precisam ser corrigidos se falharem em seu dever; mas assim que fazem o melhor possível, o sorriso da mãe e algumas palavras gentis de encorajamento podem fazer maravilhas. As crianças precisam aprender em tenra idade que, quando pai e mãe são felizes, Jesus também é feliz.

E, por fim, lembre-se bem deste provérbio que é a chave do Céu: "Ser santo não significa fazer coisas extraordinárias, mas fazer coisas comuns extraordinariamente bem".

Refeição em família

Irmãs da Fraternidade São Pio X 

 

São sete horas e Kevin, de onze anos, volta para casa. O apartamento está vazio pois seus pais ainda estão trabalhando. Ele abre a geladeira e escolhe um sorvete para devorar, então se senta em frente ao seu Play Station enquanto mastiga amendoins. Provavelmente, de tão absorto no jogo, só tirará os olhos do mesmo quando finalmente sua mãe chegar em casa. Ela, por sua vez, estará cansada, esquentará o chá e comerá uma maçã enquanto folheia uma revista.

Nessa mesma noite, num apartamento vizinho, Vianney já está em casa há umas duas horas. Sua mãe lá estava para recebê-lo, pronta para ouvir as histórias da escola e ajudá-lo com os deveres. Quando o pai chega, ele se senta com os outros membros da família para tomar uma sopa de abóbora fumegante seguida de uma deliciosa caçarola de vegetais com bacon.

Em poucas palavras, mostramos aqui dois exemplos de vida familiar – e são quase como duas civilizações distintas. Sem hesitação, escolhemos a mais autêntica, onde pais e filhos reúnem-se ao redor da mesa de refeições.

Por que é importante que as crianças não comam sozinhas? Em primeiro lugar, pela questão da saúde. Com certeza, se deixadas livres para escolher, escolherão pizza e biscoitos ao invés de saladas e vegetais.  

Numa análise mais profunda, a refeição em família também serve para trabalhar a vontade, uma vez que ensina o autocontrole. Aprende-se a comer o que é servido sem reclamar, ao invés de encontrar terreno livre para caprichos e gostos. Claro que não estamos falando de proibir que se tenha preferências alimentícias, mas aprende-se também a comer até o que nos apetece menos. Que oportunidade maravilhosa para “fazer sacrifícios”! Deste modo, nosso “lado animal” vai dando lugar à razão e à vida de Graça. Por esse motivo, não encorajamos os lanches entre refeições (para os menores, porém, o lanche é considerado como uma refeição). Apenas a mãe pode abrir o refrigerador para preparar a comida de todos. Se assim não for, pode incitar os instintos caprichosos que não são dignos de um filho de Deus.

Por fim, há uma outra razão pela qual a hora da refeição se torna um momento de união familiar: é nela que são contadas as aventuras, as descobertas e as dificuldades do dia. É papel dos pais cuidarem para que esse momento seja instrutivo e divertido, e nunca pessimista ou negativo. Uma família não é a junção de indivíduos justapostos e sim um organismo vivo, onde todos dão um pouco de si para a felicidade coletiva. Sim, é quase o oposto do individualismo mostrado no exemplo do início do artigo. À mesa há muitas ocasiões para se educar; muitas oportunidades de elevar as almas de nossas crianças através de comentários criteriosos, encorajamento e leves provocações – que são o sal da amizade!

No Evangelho, o Reino de Deus é comparado a um banquete. Que nossas humildes refeições terrenas sejam ao menos um leve reflexo dele!   

 

Cometo o pecado de fofoca se falo à minha esposa de pessoas que fizeram algo errado a mim?

A doutrina moral católica nos ensina que uma das coisas mais importantes que uma pessoa tem é sua reputação, pois ela é a base a partir da qual nós nos relacionamos entre nós em nossas interações sociais.

Santo Tomás enumera (IIa-IIae, qq. 72-76) todas as maneiras pelas quais podemos danificar o próximo com nossas palavras, ou seja, como nós podemos, injustamente, macular a reputação ou a honra de uma pessoa, que não está presente normalmente, seja contando mentiras sobre ela ou compartilhando verdades sobre ela de forma inapropriada. O murmúrio consiste em falar pelas costas de uma pessoa, danificando sua imagem. A calúnia consiste em contar mentiras que atingem a reputação de uma pessoa. Detração refere-se a revelar certas verdades sobre alguém que, apesar de verdadeiras, não devem ser compartilhadas e que, na verdade, diminuem ou atingem a imagem daquela pessoa ante os outros. Derrisão refere-se a fazer graça de uma pessoa de tal maneira que diminua sua honra e compostura aos olhos dos outros. Maldição é o desejo falado de que uma pessoa sofra um mal.

Todos esses pecados da fala são reunidos, na nossa linguagem comum, sob o nome de “fofoca”.

A gravidade desses pecados é variável, de acordo com o grau de dano causado pelas nossas palavras, com as circunstâncias em que essas palavras são ditas (onde, quando, na presença de quem, que tipo de linguagem etc) e, mais importante, de acordo com a intenção da pessoa que fala.

Certamente, sempre é proibido contar mentiras, e muito mais se essas mentiras causam dano à reputação de uma pessoa. Também é proibido revelar verdades desnecessariamente sobre alguém, verdades que essa pessoa preferiria que não soubessem. Obviamente, pode haver ocasiões quando é necessário compartilhar certas verdades sobre os outros, como para evitar um dano a um terceiro – mas essa revelação deve ser feita com discrição, ou seja, apenas para aqueles que precisam saber, e deve-se contar apenas o que é certamente verdadeiro e, apenas, a verdade que precisa ser revelada, não tudo o mais sobre aquela pessoa.

Não obstante, há momentos em que precisamos falar sobre defeitos ou idiossincrasias de pessoas que não estão presente – por exemplo, quando buscamos conselhos para lidar com alguma pessoa ou com as consequências do que algo que essa pessoa fez conosco, ou quando precisamos de encorajamento em uma situação difícil na qual alguém nos colocou, ou quando nós simplesmente precisamos colocar algo “para fora do nosso peito” antes que esse sentimento nos leve a ressentimentos ou outros atos não caridosos.

Nesses casos, e mantendo o máximo de discrição possível, nós podemos falar a alguém que julgamos confiável e capaz de fornecer ajuda através de um conselho razoável ou apoio solidário.

Se sou casado, não deveria haver ninguém mais próximo de mim que minha esposa, ninguém mais confiável e solidário em meus momentos de necessidade.

Nessas circunstâncias, minhas palavras sobre alguém – mesmo que sejam danosas à sua reputação – não são fofocas, desde que eu transmita o que é certamente verdade, que não busque atingir a reputação do outro, que não encontre nenhuma alegria em expor suas faltas e não tenha nenhuma intenção de que o que contei se espalhe para mais alguém. Mas, ainda assim, devemos ter muito cuidado com esse tipo de conversa, pois podemos cair em pecado muito facilmente.

Quem é meu filho?

A mãe se debruça sobre o berço de seu filho: “Aqui está meu pequenino, a quem amarei, cuidarei e educarei pelos próximos vinte anos. Quem é você, pequeno Pedro, que foi confiado a mim por Deus?”. Com efeito, essa é uma questão fundamental. Quem é esse pequeno homem? Da resposta à essa questão depende a escolha do tipo de educação que ele irá receber. Se a resposta for de acordo com Jean-Jacques Rousseau (“A criança é boa por natureza”), ela será educada segundo os padrões da sociedade atual. O resultado, lamentavelmente, não é muito empolgante.

 

DAS SENSAÇÕES À INTELIGÊNCIA

Santo Tomás de Aquino baseou-se no filósofo grego Aristóteles ao dizer que o Homem é um “animal racional”. A mãe protesta: “Meu Pedrinho não é um animal!”. Não; claro que não! Há um abismo entre um felino e um homem: a inteligência. O pequeno Pedro, porém, tem um corpo e seus sentidos — e são esses que solicitam primeiramente a atenção dos pais. Ele precisa receber cuidados físicos, mas desde o início de sua vida, há os bons hábitos que também necessitam ser-lhe transmitidos. Essas são as primeiras bases da educação: ter uma rotina regular para as refeições e a hora de dormir, aprender a obedecer sem chorar, não pôr o dedo na tomada elétrica (e, caso o faça, receberá um tapinha na mão), sentar reto numa cadeira sem se contorcer etc.

É claro que não limitaremos seu desenvolvimento a isso porque sua inteligência e sua vontade precisam ser formadas. Porém, é somente de forma gradual que sua inteligência floresce. É também de forma gradual que a criança adquire a linguagem, que é a ferramenta do pensamento, e que será aperfeiçoada desde a infância até as dissertações filosóficas próprias do último ano escolar. Pouco a pouco ela adquire o hábito do julgamento e da reflexão, e terá muitos momentos de tentativa e erro antes de chegar aos pensamentos que serão totalmente seus. Por esse motivo faz-se necessária uma adaptação da educação à capacidade de compreensão da criança. No início, os pais é que pensam por ela, pela sua incapacidade de fazê-lo sozinha. É inútil dizer a uma criança de três anos que ela precisa comer feijão “porque esse alimento contém vitaminas indispensáveis ao seu crescimento”! É mais eficaz dizer apenas “Coma o feijão ou não terá sobremesa”. Pronto. O resto seria supérfluo. O que a criança é capaz de entender com essa idade, e o que precisa aprender, não são os princípios da boa nutrição, e sim que os pais mandam e o filho obedece. Somente mais tarde a criança entenderá que tudo isso é para o seu bem. 

Obviamente, quanto mais a criança cresce, mais receberá as explicações necessárias. Um adolescente não obedece simplesmente porque seu pai mandou. Mas o que ele precisa, entretanto, é de explicações, e não de justificativas. Uma autoridade não precisa “justificar” em detalhes os motivos de suas ordens. Os pais dão as ordens por serem os responsáveis, perante Deus, pela criança a eles confiada. Porém, para que as crianças obedeçam, é necessário dar-lhes alguns motivos e circunstâncias — afim de que aprendam, com isso, a caminhar sozinhas quando adultas. Por exemplo: “Não, Pedro, você não vai passar o fim de semana com o Kevin. Ele tem uma coleção enorme de video games e vocês passariam o tempo todo jogando. Você sabe bem o que penso desses jogos! Convide-o para vir até aqui. Ele pode se beneficiar do contato com um ambiente familiar sadio. O valor de uma amizade é medido pelo bem que um proporciona ao outro”. Esse exemplo poderia ser utilizado como uma boa ocasião para pai e filho conversarem sobre amizades verdadeiras.

Tomem cuidado! Mesmo que a criança ainda não saiba se expressar bem, a inteligência está nela; e os menores compreendem o que dizemos muito mais do que pensamos. Cuidado com os comentários feitos entre adultos sobre as crianças, porque elas certamente estão ouvindo, sem aparentar fazê-lo. “Minha amiga, como a Ágata está bonita com esses olhos azuis e esses cachinhos! E o vestido que você mesma costurou! Ela é adorável!”. Observe que esse tipo de declaração nunca deixa de ser ouvido...

 

DO PECADO À GRAÇA

Não teremos completado a descrição da criança dizendo apenas que é um animal racional. Pedrinho também é filho de Adão, marcado pelas consequências do pecado original. Após seu Batismo, foi elevado à categoria de filho de Deus e ao estado sobrenatural pela graça santificante, e destinado à vida eterna.

Pedrinho é marcado pelo pecado original, e pela tendência ao mal que dele decorre, como infelizmente se observa desde a mais tenra idade; isso é uma verdade muitas vezes confirmada pela experiência. As primeiras birras surgem muito cedo. Desde os seis meses, a criança já é capaz de criar complicações injustificáveis. Emília, por exemplo, cai no choro assim que sua mãe a coloca no berço, fazendo com que precisem pegá-la. Ela só dorme quando está no limite da exaustão. João tem fome de sobremesas, mas não de espinafre; está sempre cansado quando é hora de arrumar seu quarto, fazer lições ou ajudar sua mãe. Sua vitalidade reaparece, porém, quando quer jogar futebol ou implicar com sua irmãzinha. Sem falar na capacidade incrível que possui de inventar mentiras para soar importante. Não; não importa o que Rousseau disse, ao afirmar que o homem é naturalmente bom. Seria um crime deixar uma criança fazer exatamente o que quer e quando quer. Pobres crianças de hoje a quem nunca lhe negam nada e não são nada além do objeto de seus impulsos e suas paixões desenfreadas! Ao se tornarem adultas, perceberão que são essas mesmas paixões que as destróem (preguiça, impurezas, ambição, álcool, prazeres etc.). Porém, acorrentadas aos maus hábitos por vinte anos, já não possuem forças para resistir a eles.

Por sorte a graça de Deus está presente nas almas dos batizados para curar, pouco a pouco, essas tendências más e elevá-las às alturas de futuros habitantes do paraíso. Uma criança batizada abre-se muito rápida e espontaneamente para o universo sobrenatural. Ela prontamente sopra um beijo para Jesus antes de dormir — sinal de suas futuras orações noturnas. Há todo um universo sobrenatural no qual mergulha de cabeça. A história de Jesus e Maria chama a alma ungida pela graça a explorar os mistérios divinos. A prática do bem é outra motivação. Quanto entusiasmo a jovem alma mostrará ao perguntarem a ela: “O que você fará durante a Quaresma para consolar Jesus, tão triste por causa dos nossos pecados? Você fará um esforço e limpará seu quarto toda noite sem que eu precise mandar? Isso deixará Nosso Senhor muito feliz”. Para ajudar os missionários, por exemplo, as crianças podem ficar sem presentinhos e enviar o dinheiro que seria destinado a eles, com a ajuda dos pais, para missões em países pobres. Para converter os pecadores ou livrar almas do purgatório, crianças são capazes de grandes atos de generosidade. Cabe aos adultos provocar, encorajar e canalizar esses atos. No Batismo, essa vida de fé planta nas almas as sementes e precisarão de uma educação abundante para se desenvolverem integralmente: os bons exemplos, as orações em família, a educação religiosa e o recebimento dos sacramentos…

Dividido entre tantas tendências contrárias (É um animal; porém é inteligente. Pecador; porém assistido pela graça), como no surpreender que a alma de uma criança lembre por vezes um campo de batalha, onde tendências opostas se confrontam? É aqui que se encontra o equilíbrio da educação: ao nos darmos conta, como adultos, de que o pequeno indivíduo necessita compreender que é um general pronto para o combate. Ele deve assumir a responsabilidade de suas lutas durante a vida, para que a graça triunfe no objetivo de santificá-lo.

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