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Liberalismo (9)

Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”

 

Louis Veuillot

Pe. Félix Sardá y Salvani

(...) Ele [o liberalismo] prefere acusar incessantemente os católicos de serem pouco caridosos em suas formas de propaganda. É neste ponto, como dissemos, que certos católicos, bons no fundo, mas contaminados da maldita peste liberal, costumam insistir contra nós.

Vejamos o que dizer sobre isso. Nós, católicos, temos razão neste ponto como nos demais, ao passo que os liberais não têm nem sombra dela. Para nos convencermos disso analisemos as seguintes considerações:

1°) O católico pode tratar abertamente o seu adversário de liberal, se ele o é de fato; ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo e não trata de ocultar suas preferências liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do Direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: "Não é injúria repetir o que está à vista de todos". Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a toda hora. Entretanto, quantos liberais, particularmente os do grupo dos mansos ou temperados, consideram grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou de amigos do liberalismo?

O liberalismo de todo matiz e caráter foi já formalmente condenado pela Igreja?

 

Pe. Félix Sardá y Salvany

 

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, foi formalmente condenado; de modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, durante sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI.

Mais tarde, essa doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, até pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que ofereceu a história das monarquias. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

Mirari Vos: uma resposta ao liberalismo

Introdução

Uma pesquisa rápida pela internet, a leitura despretensiosa de livros caros à tradição católica, ou a simples consulta aos nossos padres sobre as causas da crise da Igreja e do caos dos nossos dias levam o pesquisador sério, ou o mero curioso, ao encontro de algumas encíclicas papais do século XIX.

Se a Quanta Cura de Pio IX ou a Libertas de Leão XIII se avultam entre as mais lembradas, para não citar outras tantas desses dois papas, sempre haverá uma primeira, aquela a partir da qual o estudo principia. Nossos autores e professores favoritos são quase unânimes em afirmar que Mirari Vos de Gregório XVI é este documento.

A encíclica tem algumas características que a distinguem das anteriores. Ela é abrangente sem deixar de ser clara; responde a um problema da época com afirmações atemporais; e ratifica condenações anteriores em conjunto, servindo de modelo para as futuras.

Dom Félix Sardá y Salvany, em seu livro “Liberalismo é pecado” (Permanência 292), explica a gênese do problema condenado pela encíclica de 1832:

“Já quando apareceu na França, em sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI. Mais tarde, esta doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, mesmo pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que a história das monarquias ofereceu. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.”

Continua o padre: “Ocorreram as terríveis contendas entre monarquistas e constitucionalistas, que se designaram mutuamente pelos nomes de servis e liberais. Da Espanha, essa denominação estendeu-se por toda a Europa. Pois bem, na maior força da luta, por ocasião dos primeiros erros de Lamennais, Gregório XVI publicou sua Encíclica Mirari Vos, condenação explícita do liberalismo, tal como era então entendido, ensinado e praticado pelos governos constitucionais.”

O grande arcebispo Dom Marcel Lefebvre, no Capítulo X de seu livro “Do liberalismo à apostasia”, reúne as principais condenações papais à liberdade religiosa, uma das facetas do ‘liberalismo’. Começa curiosamente citando Pio VI e Pio VII, papas que reinaram na eclosão da Revolução e na Ascensão de Napoleão ao trono francês, respectivamente, para depois citar Mirari Vos.

Pio VI condena a liberdade religiosa em sua carta Quod Aliquantulum, de 10/03/1791:

“A finalidade da Constituição decretada pela Assembleia é aniquilar a religião católica, e com ela a obediência devida aos reis. O resultado é que se estabelece na sociedade, como se fosse um direito do homem, esta liberdade absoluta que não só lhe assegura o direito de não ser perturbado quanto às suas opiniões religiosas, como também lhe assegura licença de pensar, de dizer, de escrever, e até mesmo de imprimir impunemente tudo o que possa sugerir a imaginação mais desordenada; direito monstruoso que parece à Assembleia ser o resultado da igualdade e liberdade naturais a todos os homens. Mas o que poderia haver de mais insensato do que estabelecer entre os homens tal igualdade e tal liberdade desenfreada que parece afogar a razão, o dom mais precioso que a natureza fez ao homem e o único que o distingue dos animais?”

Pio VII, na carta apostólica ao bispo de Troyes Post tam Diuturnas, de 29/04/1814, incrimina a “liberdade de cultos e de consciência” estabelecida pela Constituição de 1814 do Rei Luís XVIII :

“Um novo motivo que aflige ainda mais o nosso coração, enche-o de tristeza e que, confessamos, causa-nos tormento, opressão e angústia é o artigo 22 da Constituição. Nele não só se permite a liberdade de cultos e de consciência, como também promete-se apoio e protecção a esta liberdade e aos ministros dos chamados ‘cultos’. Certamente não são necessárias muitas explicações ao nos dirigirmos a um bispo como vós, para vos fazer conhecer claramente que ferida mortal este artigo infligiu à religião católica na França. Pelo mesmo artigo que estabelece a liberdade de todos os cultos sem distinção, confunde-se a verdade com o erro e se coloca no mesmo grupo das seitas heréticas, inclusive da pérfida judaica, a Esposa Santa e Imaculada de Cristo, a Igreja fora da qual não há salvação.”

Havia, portanto, a percepção desde muito cedo que a Revolução era a fonte de diversos erros, em especial o “liberalismo”, que acaba por assumir o papel mais importante dentre as consequências práticas de 1789.

Mas afinal, o que é liberalismo?

Por se tratar de termo que abrange muitos significados, e que hoje é capaz de exprimir ideias distintas, resumo abaixo um excerto de um artigo publicado na Revista Permanência 292, escrito pelo padre da FSSPX Grégoire Célier, em 2004.

Segundo o sacerdote “… o liberalismo é o maior de todos os erros da sociedade moderna”, porém, em seguida, ele admite que essa afirmação representa uma ‘esquematização’. “Por que se a verdade é una, o erro é múltiplo, (…) pois se nós detivermos nas relações entre a criatura espiritual e Deus, mediadas pela graça sobrenatural, deve-se falar de ‘naturalismo’; se nos interessarmos pelo exercício da razão humana em face da Revelação divina, deve-se falar de ‘racionalismo’; se considerarmos a situação da vontade em relação à obrigação religiosa, deve-se falar em ‘indiferentismo’; se examinarmos a acção da vontade em relação com os mandamentos de Deus, deve-se falar de ‘moral independente’.”

Continua o autor: “De fato, somente quando falamos da vida política e social em sua relação com Deus e a revelação podemos empregar com rigor o termo ‘liberalismo’. Assim é que de boa vontade resumimos o conjunto dos erros modernos com essa palavra, enfatizando o aspecto social e político.”

E conclui: “… o liberalismo busca acima de tudo a emancipação diante de Deus como fim último do homem e da sociedade humana. E, para alcançá-la, estabelece como princípio fundamental que a liberdade é o primeiro e principal bem do homem, um bem sagrado e absolutamente inviolável, que não se pode ameaçar de forma alguma.”

O surgimento de Lamennais

No início da Restauração (1814-1830) o pleno entendimento do “liberalismo”, isto é, a apreensão do conceito como ‘esquema’ por parte da cúria, dos papas e da maioria dos estudiosos era extremamente difícil.

E é nesse momento que surge Hugues Felicité Robert de Lamennais, um padre francês brilhante, que faz convergir para si muitas inteligências, e recebe o apoio papal tão logo publica sua primeira grande obra: “Essai sur l’indiference en matière de Religion”, de 1817-23.

Leão XII (1823-29) chega a recebê-lo em Roma, no verão de 1824, e lhe oferece uma distinção particular por seus serviços. Parece inclusive se inspirar na obra do padre para escrever sua “Ubi primum”, encíclica em que condena o “indiferentismo”ou “tolerantismo”:

Ei-la: “Certa seita… mostrando uma agradável aparência de piedade e benevolência, professa e exalta o tolerantismo, ou seja, o indiferentismo, não só nas questões civis, que não são nosso assunto, mas também nas questões de religião, ensinando que por Deus foi dada a cada pessoa ampla liberdade, para que qualquer um, sem perigo para a salvação, possa abraçar e adoptar a seita ou opinião que segundo seu juízo pessoal lhe agradar. A esta afirmação se contrapõe o apóstolo Paulo [Rm 16,17]. Claro que este erro não é novo, mas em Nossos dias ele irrompe com fúria contra a constância e integridade da fé Católica. (…) O indiferentismo corrente desenvolveu-se ao ponto de arguir que qualquer um está no caminho certo… .”

O prestígio de Lamennais era tão grande que o papa seguinte, Pio VIII (1829-30), também o tinha em grande estima. Sua encíclica “Traditi humilitati” de 1829 reforça o ensinamento de seu antecessor, e traça um programa para o seu pontificado em que combateria o indiferentismo:

“… A autoridade da Igreja é enfraquecida e os guardiões das coisas sagradas são afastados e tratados com desprezo. Todas as coisas que concernem à religião são consideradas velhas fabulas e vãs superstições. … pela conspiração dos sofistas deste século, que não admitem qualquer diferença entre diferentes profissões de fé e que pensam que a porta da eterna salvação está aberta para todos de qualquer religião. (…) De facto essa ideia malfadada que afirma a ausência de diferença entre religiões é refutada até pela luz natural da razão. Nós somos assegurados disso porque as distintas religiões não concordam entre si. Se uma é verdadeira, a outra certamente é falsa, e não pode existir nenhuma associação entre a luz e as trevas. Contra esses sofistas experimentados o povo deve ser ensinado que a profissão da fé Católica é a única verdadeira, como o Apóstolo proclama: Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo.”

O decisivo ano 1830

Cada papa do drama que descrevemos era testado pelas obras dos seus “filhos queridos em Cristo”: os reis e imperadores ‘soi disant’ católicos. Pio VI por José II da Áustria, com seu josefismo, Pio VII por Napoleão, Leão XII pelo ressentimento e incompetência dos Bourbons de Espanha e França, e Pio VIII pela Revolução de Julho na França.

De fato, a partir de 1830, as monarquias europeias entraram em ebulição. Lembremos o exemplo português que nos é mais próximo, em que a sucessão de Dom João VI suscitou uma guerra que opôs os irmãos Miguel, católico, e Pedro, maçom.

Mas Pio VIII, ao contrário de seus antecessores, não opôs qualquer resistência à Revolução em curso na França. Censurou clérigos franceses que buscaram refúgio nos Estados Pontifícios (EP) e ‘legitimou’ o “Rei dos franceses” Luis Felipe de Orleans, entendendo a causa como perdida, e escolhendo o que entendeu como o “mal menor” para evitar um conflito. Morreu com apenas 20 meses na cátedra de Pedro, três dias após a visita de Nossa Senhora das Graças à uma freira da Rue du Bac.

Naquele segundo semestre, outras rebeliões eclodiram na Bélgica, na Polônia e nos EP, dificultando ainda mais as tomadas de decisão de Pio VIII e da Cúria, que se veem no fim do ano num interregno e na necessidade de um conclave rápido. Em outubro do mesmo ano, é lançada na França a revista “L’Avenir”, fundada por Lamennais e seus correligionários, entre eles, Lacordaire, Montalembert e Dom Gueranger. A revista defende o impensável: a separação de Igreja e Estado, adota a divisa “Deus e Liberdade”, e apoia indiretamente o governo que se instalara havia três meses.

Sob o pretexto da opressão dos católicos que viviam em países de maioria protestante ou cismática, passam a discutir a legitimidade dos reis, segundo uma nova interpretação da doutrina perene de Igreja: nascia o “catolicismo liberal”.

Em 1960, no seu livro “Revolution and Papacy”, E. E. Y. Hales explica com certa simpatia a reivindicação dos ‘católicos liberais’:

“Por volta dos anos 1830, a teoria liberal se espraiava difusamente em um largo campo de ideias, alguns deles mais revolucionários, outros menos, mas não necessariamente todos eles mereceriam ser classificados como maus porque haviam sido praticados na Revolução Francesa de 1789, ou na República Romana de 1798, ou na Cisalpina, ou porque aqueles regimes haviam sido bastante hostis aos direitos da Igreja. Os cardeais às vezes percebiam isso, mas quando consideravam a filosofia do problema, eles sempre se deparavam com o intrigante fato de que a soberania defendida pelos liberais deveria pertencer, de uma ou outra maneira, ao povo. E isto soava como absurdo a eles, porque eles estavam bem certos de que a soberania pertencia a Deus, e sob Ele deveria permanecer com a Igreja, na esfera espiritual, e com os seus legítimos príncipes na esfera temporal. Este último poderia fazer concessões, mesmo concessões bem consideráveis – assembleias representativas e similares – tais como as que existiam na Inglaterra e na França, mas elas eram concessões. Elas não poderiam existir como um direito, porque o povo não tem direitos soberanos contra os seus príncipes, excepto se os mesmos negassem ao povo sua religião, e mesmo assim seria um erro insistir nesses direitos, se fazer isso significasse destronar um príncipe legítimo, e eles achavam isso um erro muito maior do que Suarez poderia supor.”

Nesse contexto é eleito o papa seguinte, um monge beneditino camaldulense nascido no Vêneto, professor de filosofia e teologia, e até o conclave, Cardeal Prefeito da Propaganda Fidei (PF). Escolheu para si o nome Gregório, uma homenagem ao patrono do seu mosteiro (São Gregório no Monte Célio) e ao fundador da PF (Gregório XV).

Entronizado em fevereiro de 1831, em meio a uma crise política e administrativa nos EP, um regime liberal na França, rebeliões em vários estados europeus e a influência funesta da revista L’Avenir, dirigida e editada por sacerdotes “católicos”, Gregório XVI só consegue publicar uma encíclica respondendo a todos os males do seu tempo em agosto de 1832, um ano e meio depois de escolhido.

Justificou assim seu silêncio: ‘A rebelião dos ímpios’.

Mirari Vos: resposta ao ‘liberalismo’

A encíclica compila em vinte parágrafos [versão em português] as justificativas para sua demora, a exposição e condenação dos erros, a reafirmação da doutrina perene da Igreja e a indicação do remédio para esses males.

Abaixo transcrevo excertos da encíclica, que mais mereceria ser lida in toto 1.

JUSTIFICATIVA PARA A SUA DEMORA

1 – “Creio-vos admirados, porque desde que sobre nós pesa o cuidado da Igreja universal, ainda não vos dirigimos Nossas cartas (…). Mas bem sabeis que a procela de males e aflições que nos combateu (…). E Nós, ainda que com tristeza indizível, vimo-Nos obrigado a reprimir, com pulso firme, a contumácia daqueles homens, cujo furor se exaltava de mais a mais, longe de se abrandar pela constante impunidade e pela Nossa clemência…”

2 – “…O clamoroso estrondo de opiniões novas ressoa nas academias e liceus, que contestam abertamente a fé católica, não já ocultamente e por circunlóquios, mas com guerra cura e nefária; e, corrompidos os corações dos jovens pelos exemplos e ensinamentos dos mestres, cresceram desproporcionadamente o prejuízo da religião e a depravação dos costumes. Por isso, rompido o freio da religião santíssima, somente em virtude da qual subsistem os reinos e se confirma o vigor da potestade, vemos campear a ruína da ordem, a desonra dos governantes e a perversão de todas a autoridade legítima; e a origem de tantas calamidades devemos buscá-la na acção simultânea daquelas sociedades, nas quais depositou, como em sentina imensa, quanto de sacrilégio, subversivo e blasfemo acumularam a heresia e a impiedade em todos os tempos”.

EXORTAÇÃO AOS BISPOS PARA SE MANTEREM UNIDOS À SÉ DE PEDRO

3, 4 e 5 – “… Para reprimir, portanto, os que ora intentam infringir os direitos desta Sé, somente na qual se apoiam e recebem vigor, preciso é inculcar um sentimento profundo de fidelidade e veneração para com ela, (…). Deveis [Bispos], pois, trabalhar e vigiar assiduamente, (…). Portanto todo Bispo deve aderir fielmente à Cátedra de Pedro, guardar o depósito da fé santa e apascentar o rebanho de Deus que lhe foi confiado… .”

DEFESA DA DOUTRINA IMUTÁVEL DA IGREJA, DO CELIBATO CLERICAL E DO MATRIMÔNIO

6 – “… com efeito, como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento, que ‘a Igreja recebeu sua doutrina de Jesus Cristo e dos seus Apóstolos, e que o Espírito Santo a está continuamente assistindo, ensinando-lhe toda a verdade’, é por demais absurdo e altamente injurioso dizer que se faz necessária uma certa restauração ou regeneração, para fazê-la voltar à sua primitiva incolumidade, dando-lhe novo vigor, como se fosse de crer que a Igreja é passível de defeito, ignorância ou outra qualquer das imperfeições humanas;… .”

7 – “Reclamamos, aqui, (…) combater a torpíssima conspiração que se tem tramado contra o celibato clerical, a qual, como sabeis, cresce de momento para outro, porque com os falsos filósofos do nosso século fazem coro alguns eclesiásticos que, esquecidos da sua dignidade e estado, e aliciados pela voluptuosidade, chegaram a licenciosidade tal a ponto de em alguns lugares se atreverem a pedir publicamente a faculdade aos príncipes para infringir tão santa disciplina… .”

8 – “Devemos, pois, ensinar aos povos que o matrimonio, legitimamente contraído, já não pode ser dissolvido, e que os unidos pelo matrimonio formam, por vontade de Deus, sociedade perpétua com vínculos tão íntimos que só a morte os pode dissolver… .”

CONDENAÇÃO DOS ERROS

9 – “Outra coisa que tem acarretado muitos males … é o indiferentismo, ou seja, aquela perversa teoria espalhada por toda parte, graças aos enganos dos ímpios, e que se ensina poder-se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do recto e honesto… .”

10 – “Dessa fonte lodosa do indiferentismo promana aquela sentença absurda e errônea, digo melhor disparate, que afirma e defende a liberdade de consciência. Este erro corrupto abre alas, escudado na imoderada liberdade de opiniões que, para confusão das coisas sagradas e civis, se estendendo por toda parte, chegando a imprudência de alguém se asseverar que dela resulta grande proveito para a causa da religião. Que morte pior há para a alma, do que a liberdade do erro! dizia Santo Agostinho(…) Daqui provém a efervescência de ânimo, a corrupção da juventude, o desprezo das coisas sagradas e profanas no meio do povo; em uma palavra, a maior e mais poderosa peste da república, porque, segundo a experiência que remonta aos tempos primitivos, as cidades que mais floresceram por sua opulência, extensão e poderio sucumbiram, somente pelo mal da desbragada liberdade de opiniões, liberdade de ensino e ânsia de inovações.”

11 e 12 – Devemos tratar também neste lugar da liberdade de imprensa, nunca condenada suficientemente, se por ela se entende o direito de trazer-se à baila toda a espécie de escritos (…). Há quem leve a ousadia a tal requinte, a ponto de afirmar intrepidamente que esse aluvião de erros que se está espalhando por toda a parte é compensada por um ou outro livro que, entre tantos erros, se publica para defender a causa da religião. É por toda forma ilícito e condenado por todo direito fazer um mal certo e maior, com pleno conhecimento, só porque há esperança de um pequeno bem que daí resulte… .”

13, 14 e 15 – “Mas, tendo sido divulgadas, em escritos que correm por todas as partes, certas doutrinas que lançam por terra a fidelidade e submissão aos príncipes, com o que se alenta o fogo da rebelião, deve-se vigiar atentamente para que os povos, enganados, não se afastem do caminho do bem. Saibam todos que, como disse o apóstolo, toda autoridade vem de Deus e todas as que existem foram ordenadas por Deus. Aquele, pois, que resiste à autoridade, resiste à ordem de Deus e se condena a si mesmo… .”

16 – “Mais grato não é também à religião e ao principado civil o que se pode esperar do desejo dos que procuram separar a Igreja e o Estado, e romper com a mútua concórdia do sacerdócio e do império. Sabe-se, com efeito, que os amadores da falsa liberdade temeram ante a concórdia, que sempre produziu resultados magníficos, nas coisas sagradas e civis.”

CONDENAÇÃO DE CERTAS ASSOCIAÇÕES

17 – “… devem-se acrescer certas associações ou assembleias, as quais, confederando-se com sectários de qualquer religião, simulando sentimentos de piedade e afecto para com a religião, mas na verdade possuídas inteiramente do desejo de novidades e de promover sedições em toda parte, pregam liberdades de tal jaez, suscitam perturbações nas coisas sagradas e civis, desprezando qualquer autoridade, por mais santa que seja.”

INDICAÇÃO DO REMÉDIO PARA ESSES MALES

18 – “… Abraçai, de modo especial, e com afecto paternal, aos que se dedicam à ciência sagrada e à filosofia, exortando-os e guiando-os a fim de que não aconteça que, estribando-se imprudentemente em suas forças, se afastem do caminho da verdade, para seguir as sendas dos ímpios. Entendam que Deus é Senhor da sabedoria e emendador dos sábios (Sab. 7,15) e que é impossível compreender a Deus sem Deus; Deus, que pelo Verbo ensina aos homens a conhecer Deus. É próprio de homens soberbos ou antes néscios querer sujeitar ao critério humano os mistérios da fé, que ultrapassam a capacidade humana, confiando unicamente em nossa razão, que por natureza é débil e fraca.”

19 – “Finalmente, secundem os príncipes estes nossos santos desejos de feliz êxito das coisas sagradas e profanas com seu poder e autoridade, pois não a receberam somente para o governo temporal, mas também para a defesa e guarda da Igreja. Saibam que, quanto se faz em favor da Igreja, destina-se, ao mesmo tempo, ao bem-estar do império; convençam-se sempre mais que devem maior estima à causa da fé que à do reino, e que serão maiores se, segundo São Leão, à sua coroa de reis se ajuntar a da fé.”

PEDE A INTERCESSÃO DE NOSSA SENHORA, SS PEDRO E PAULO E A CONSOLAÇÃO A NOSSO SENHOR

20 – “E para que todos estes desejos se realizem propícia e felizmente, elevemos nossos olhares à Santíssima Virgem Maria, ‘a única que destruiu todas as heresias e constitui a nossa maior esperança’ (São Bernardo, sem. De nativitate B.M.V., 57)… Peçamos humildemente aos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo o dom de permanecermos firmes e constantes em não permitir e nem querer outro fundamento… Apoiado nesta doce esperança, esperamos que o autor e consumador da fé, Cristo Jesus, nos consolará nestas grandes tribulações, (…).”

Conclusão

A encíclica termina pedindo à intercessão de Nossa Senhora para o bom êxito dos desejos, conselhos e ações nela expressos, mas já no seu primeiro parágrafo lhe solicitava a inspiração para escrevê-la. Não por acaso, a carta é datada na véspera da festa de sua gloriosa Assunção, 14 de agosto, e publicada no dia seguinte.

Solicitar a intercessão da Virgem Maria é uma nota que acompanhava os documentos papais desde há muitos séculos. Porém, menos comum do que o esperado, sendo mais encontrado os nomes dos apóstolos Pedro e Paulo e de Nosso Senhor. Também vale salientar a frase ‘a única que destruiu todas as heresias…’, atribuída a São Bernardo, que passou a indicar um propósito, e que será repetido por papas posteriores, mas que, de fato, já havia sido lembrada por Pio VIII na sua‘Traditi humilitati”.

Mesma intenção podemos apontar em relação às datas escolhidas para a publicação: Mirari Vos (15 de agosto – Assunção), Traditi humilitati (24 de maio – N. Sra. Auxiliadora), Quanta Cura (08 de dezembro – Imaculada Conceição) e Pascendi(08 de setembro – Natividade). O papa compreendeu de que auxílio necessitava para derrotar inimigo tão pernicioso: daquela “que esmagará a tua [da serpente] cabeça”.

Por fim, parece justo estabelecer a primeira encíclica do papa Capellari como ponto de partida para um estudo sobre a crise sem fim de nossa época. Entretanto, para fazer justiça aos papas anteriores, Gregório XVI não é o primeiro a condenar os erros do seu tempo.

Mirari Vos não rompe, nem inova o magistério da Igreja, mas é como que o resumo e o ajuste de tudo que foi dito antes pelos papas que sofreram o drama da Revolução em sua fase francesa pós 1789, assim como uma demonstração emblemática daquilo que sempre a Igreja ensinou e condenou, opondo-se aos males de cada época, nesse caso o “liberalismo”.

  1. 1. Usamos a tradução realizada pela Associação Cultural Montfort [N. da P.]

Breve história do liberalismo católico

Nesta conferência, vamos falar de um tipo de liberalismo que se tornou de fato um inimigo real: o liberalismo católico. Podemos dizer que o liberalismo em geral, como uma posição na ordem metafísica, baseia-se principalmente no nominalismo - a idéia de que a única realidade vem do indivíduo; isso cria para seus adeptos um obstáculo fundamental para a compreensão de uma realidade diferente, por exemplo, a dos grupos da sociedade. Mas a maioria dos liberais não chega a alcançar um entendimento desenvolvido sobre esse assunto, porque eles estão presos ao que podemos chamar de questão principal, que é o problema do conhecimento.

O liberalismo em geral sempre se apresenta como cético quando se trata do problema de verdade; o proto-liberal é Pilatos, que no julgamento de Nosso Senhor lhe perguntou: "O que é verdade?" e depois se afastou sem ouvir a resposta. O liberal não acredita que o homem seja capaz de saber o que as coisas são realmente. 

Outro desafio vem dos relativistas, que acreditam que não há realidade; que a realidade muda,  e por si mesma está em constante mutação. Portanto, aquele que crê compreender ou pensa ter uma concepção verdadeira da essência da realidade apenas termina por deformá-la.

Uma terceira variante do liberalismo é o subjetivismo. O subjetivista acredita que a realidade varia segundo a percepção do sujeito, e não é determinada pelo objeto em si mesmo. Daí o ditado: "Cada cabeça uma sentença" ou "Tudo depende do ponto de vista”.

A partir dessa negação da realidade e da idéia de que o homem possa conhecer o que as coisas são, a antropologia liberal torna-se fundamentalmente individualista. O indivíduo é a única realidade. Desse modo, quando surge a questão ética, se não há normas objetivas para orientar a conduta humana, a decisão do indivíduo é a única regra que deve ser levada em conta. Em princípio, essa falsa idéia até pode ser sustentada na teoria, mas enfrenta problemas incontornáveis quando se pretende construir uma sociedade a partir dela.

Se todo homem vivesse como Robinson Crusoé em uma ilha deserta, ele poderia até certo ponto fazer o que quisesse. Mas quando há muitos indivíduos livres, autônomos e soberanos que precisam viver juntos, o problema começa a ficar mais complicado. Por esse motivo, em geral, doutrinas políticas baseado no liberalismo, têm de resolver esse enigma: Como homens criados livres, soberanos e autônomos, podem viver juntos? E, na verdade, eles ainda não encontraram a solução. 

Eles passaram do ideal hobbesiano, em que o homem renuncia totalmente a sua soberania em prol do Leviatã, à famosa "quadratura do círculo" do Contrato Social de Rousseau, em que - sob o mito de uma vontade geral - todo homem obedece a vontade geral, mas acaba obedecendo apenas a si mesmo, cumprindo uma liberdade obrigatória. 

Existe também o esquema de Kant, que é um pouco mais complicado, onde é preciso admitir que existem limites para a liberdade, porque, caso contrário, não poderíamos sequer exercer a liberdade que temos. 

Ora, essas teorias liberais, que vêm se espalhando pelo mundo praticamente desde o século XVII, tiveram uma influência muito grande dentro da Igreja, especialmente desde o acontecimentos cruciais da Revolução Francesa. Até aquele momento, podíamos dizer que as posições liberal e católica estavam claramente separadas. Esse acontecimento terrível, que  afetou profundamente não apenas a França, mas a Europa inteira e a América com seus ecos e repercussões, foi a primeira tentativa de criar um estado que dispensasse diretamente Deus e a religião. 

Todas as tentativas anteriores enfrentaram problemas. Poderíamos dizer que as primeiras tentativas de formar um Estado liberal vieram junto com o protestantismo. Mas essas experiências protestantes - na Inglaterra, por exemplo - consistiram simplesmente em separar a Igreja inglesa da romana, e transformá-la em religião do Estado. O rei tornou-se a autoridade suprema da igreja na Inglaterra, como é até hoje. Nos territórios alemães, sobretudo, o protestantismo também favoreceu essas religiões de Estado, não apenas por uma questão de oportunidade, mas por causa de uma necessidade que podemos dizer que provém da própria lógica do protestantismo. O protestantismo, no momento em que afirma a livre interpretação da Bíblia como um ponto, faz de todo protestante um seguidor de coração de uma religião particular. Eles não têm Magistério; não há autoridade. 

Tal estado de coisas até pode funcionar  nas questões religiosas. Mas quando é preciso construir uma sociedade protestante, tudo se torna mais difícil. 

Por isso, em todos os países protestantes, o rei teve de fundar sua própria igreja protestante, para impedir a divisão do país em inúmeras seitas. Os Estados Unidos são a exceção a isso, mas por outras razões. Isso foi o que aconteceu na Suécia, na Noruega, na Holanda, na Alemanha… 

A Revolução francesa, no entanto, trouxe o novo elemento do liberalismo.

 

Religião Civil

Alguns anos depois, Pio VII assinou sua famosa Concordata com Napoleão. Já escrevi muito sobre o assunto, e não pretendo repassar todos os detalhes, mas basicamente a primeira intenção da Revolução era seguir ao pé da letra o Contrato Social e criar uma religião civil. Há um capítulo no livro de Rousseau que aborda muito superficialmente o tema. De fato, na Argentina, na primeira tradução da obra, impressa por Mario Moreno, em Buenos Aires, pouco depois da Revolução de Maio de 1810 (o estabelecimento da primeira governo local na América do Sul) esse capítulo sobre religião civil foi omitido. Moreno disse que o suprimiu porque "naquele ponto, o autor está delirando!" (Na verdade, o trabalho inteiro de Rousseau é um delírio. Mas, tudo bem, é nesse ponto que isso é mais evidente, e Moreno o suprimiu).

Mas o que exatamente Rousseau diz nesse capítulo? Rousseau tem um problema: para que a “vontade geral” funcione, é preciso eliminar qualquer outro tipo de associação de grupo entre seus cidadãos que não seja o Estado. Por quê? Porque se isso não acontecer, quando as pessoas tiverem de votar para determinar o conteúdo da vontade geral, eles irão preferir as idéias de suas corporação, de sua família, de seu grupo - de sua Igreja. 

Rousseau viu que na França, naquela época, além do catolicismo, havia uma seita protestante de relativa importância. Sua ideia então era simples: criar uma religião civil que substituísse o cristianismo como ortodoxia pública. Foi o que se tentou na França. Primeiro, com a famosa Constituição Civil do Clero, que fracassou. Foi uma tentativa de “organizar” a Igreja: já que o catolicismo não podia ser suprimido diretamente, buscou-se uma maneira dele ser diretamente controlado pelo governo. 

Isso acabou por dividir a Igreja na França. Uma parte significativa do clero rejeitou a Constituição, recusando-se a jurar; e daí surgiu a guerra épica da Vendéia, em que grande parte da população francesa se insurgiu em defesa dos padres e bispos que se recusaram a prestar juramento de submissão à Constituição Civil do Clero, e travou uma guerra contra a Revolução que durou anos. 

Quando Napoleão Bonaparte viu quão complicado o assunto se tornara, impôs uma mudança, dizendo "Precisamos fazer um acordo diretamente com Roma" e assinou a Concordata com o papa. Esta Concordata, embora tenha trazido a vantagem da reabertura das igrejas e do retorno do culto público na França, no entanto, estabeleceu como condição que os bispos que prestaram o juramento à Constituição fossem reconhecido pela Santa Sé. 

Esta situação permaneceu depois da queda de Napoleão e a restauração da monarquia. E quando houve uma tentativa de retornar a uma ortodoxia católica mais forte, no século 19, houve uma oposição radical dos que haviam aceitado a Constituição do Clero. E aqui, pela primeira vez, o liberalismo católico vem à tona. 

Nesse momento, surgem em cena um personagem importante, um padre católico chamado Felicité de Lamennais, que em muitos de seus trabalhos e escritos sustentava o conceito por ele resumido em uma frase: Estado livre, Igreja livre. Isto é, separação entre Igreja e Estado, mas de um modo em que a Igreja tivesse absoluta liberdade para pregar, dar os Sacramentos, designar seus ministros, sem a intervenção dos poderes políticos. 

Lamennais expôs sua doutrina; e, é claro, uma época em que os papas cumpriam seu dever, ele se viu condenado pelo Papa Gregório XVI na encíclica Mirari Vos, publicada em 1834. No entanto, apesar da condenação, as idéias de Lamennais continuaram circulando pela Europa e por todo o resto do mundo. Mais tarde, no século 19, após a queda da monarquia francesa na revolução de 1848 — um momento de muitas revoluções políticas em toda a Europa — houve um novo ressurgimento desse liberalismo católico, encarnado principalmente na figura de Montalembert, outro pensador francês. 

Mais uma vez, a Cátedra de Pedro os desafiou com o documento magnífico que foi a Encíclica Quanta Cura do Papa Pio IX; e com o Syllabus, uma coleção de erros modernos condenáveis. A partir desse momento, o Syllabus dos erros se tornou a bête noire do liberalismo católico. Em muitos debates, inclusive na Argentina, na segunda metade do século XIX, uma acusação comum contra os católicos era "Eles defendem o Syllabus!" — um insulto que poucos eram capazes de suportar.

 

Legislação Católica

O século XIX prosseguiu e o novo Papa, Leão XIII, começou a executar uma política, especialmente na França, mas também na Espanha e na Argentina, de uma certa aliança com os liberais católicos. Isso passou para a história com o nome de Ralliement, uma palavra difícil de traduzir, mas que pode ser traduzida como "tratado" ou "acordo". A idéia de Leão XIII era distinguir entre a república, como estrutura política, e a republica como legislação. 

Assim, ele pediu aos católicos da França que rejeitassem a ideia da monarquia como a única solução possível e aceitassem de boa fé o governo republicano, mas continuassem lutando contra a legislação anti-católica. Isso é claramente um sofisma, uma confusão do abstrato com o concreto. De fato, na doutrina política católica, em princípio, a forma de governo é uma questão indiferente. Pode haver uma monarquia católica, bem como uma aristocracia ou república católicas — por outro lado, qualquer uma delas pode igualmente ser anti-católica. Mas isso é puramente abstrato. Concretamente, em cada nação, em qualquer ponto definido da história, existem certas possibilidades políticas definidas — e impossibilidades. Na França, naquele ponto do século XIX, a única república possível era uma república maçônica. Na Irlanda do século 19, por outro lado, a única monarquia possível era a monarquia protestante inglesa. 

Este conceito provocou a divisão entre católicos. Houve quem continuasse a defender a  monarquia católica como a única solução possível, prática e concreta; e aqueles que apoiaram a ideia da República. 

No entanto, a política de Leão XIII estava fadada ao fracasso. Depois da queda de Napoleão III, no final da Guerra Franco-Prussiana, os elementos jacobinos mais fortes - os personagens maçônicos mais revolucionários - assumiram o controle do stablishment na França e passaram a instituir uma série de leis completamente contrárias à Igreja, até que, em 1905, finalmente chegou a conhecida lei da completa separação entre Igreja e Estado.

Nesta fase, São Pio X reinava como papa e, vendo os problemas da situação com clareza, imediatamente interrompeu a política de aliança e rompeu com a facção liberal. Ele também condenou a versão final do catolicismo liberal: le Sillon, um movimento fundado por um pensador chamado Marc Sagnier. O movimento foi condenado em um documento de São Pio X: Notre Charge Apostolique, em que o papa condenava de maneira claríssima os erros do catolicismo liberal, daquela Democracia Cristã tão proeminente naquele momento.

No século 20, na década de 1920, dois eventos muito importantes ocorreram. No México, estourou a Guerra dos Cristeros -- na qual a intervenção papal de Pio XI foi deplorável, porque ele ordenou aos católicos rebelados que desistissem do combate armado, o que os levou a depor suas armas e a serem prontamente assassinados -- sem repercussões - pelo governo maçônico que não depôs suas armas. 

Na França, ocorreu outro evento importante: a condenação da Action Française e de Charles Maurras. Maurras era um pensador interessante que fora positivista e discípulo de Comte; não um católico, mas um homem de boa fé que amava seu país e a verdade. Seu estudo objetivo das condições sociais o convenceu de que o catolicismo estava certo, o que produziu um paradoxo interessante: no final do século 19, esse movimento chamado Action Française, em um centro de estudos que eles criaram, promoveu um simpósio sobre o Syllabus, ministrado por um padre cujo trabalho era ensinar o Syllabus. 

Sobre o Syllabus, Maurras dizia que “não há nada neste documento que se oponha ao bom senso”. Esse documento, inaceitável para os católicos liberais, foi aceito e defendido, e até promovido por um agnóstico! Um paradoxo da história, de fato.

A Action Française foi condenada por Pio XI, o que levou ao desaparecimento, ou ao menos à perda de influência, de um movimento político que questionava com veemência a República francesa. Esse fato foi muito importante porque, acima e além do aspecto puramente político da condenação, uma espécie de expurgo interno na Igreja desenvolvido ao mesmo tempo, afastou todos os membros da Igreja que favoreciam ou pareciam favorecer a Action Française

Isso fez com que posições de influência nas universidades, dioceses etc., fossem assumidas pelos personagens que estavam até ali, por assim dizer, nos bastidores por serem suspeitos de modernismo. Personagens como Henry de Lubac, por exemplo, na Companhia de Jesus, foram promovidos porque estavam dispostos a perseguir e atacar os membros da Action Française. Padre Calderón emprestou-me um livro de que gostei muito, de um autor contemporâneo chamado Philippe Prévost, L’Église et le Ralliement, que nos dá uma descrição detalhada de todo esse processo.

Foi nesse momento que apareceu uma pessoa muito importante em nossa história, e que acredito ser, no século XX, a figura mais importante para se compreender o catolicismo liberal: Jacques Maritain. Ele seria o homem que proclamaria o liberalismo católico no coração da Igreja e influenciaria profundamente o Concílio Vaticano II. Mas isto já é tema para outra palestra.

 

(Professor Luis Roldán, traduzido a partir de Angelus Press - tradução: Permanência)

Liberalismo mortífero

Pe. François-Marie Chautard

“O fim dos modernos é a segurança na fruição privada; e eles chamam de liberdade
as garantias concedidas pelas instituições a essa fruição”
(Benjamim Constant)

 

Fecundação artificial, “barriga de aluguel”, uniões homossexuais, eutanásia, aborto, contracepção, divórcio, a lista dos vícios validados, avalizados e encorajados pelas leis não cessa de crescer.

E se por acaso os católicos buscam — ainda que timidamente — impedir uma nova legislação imoral, lança-se ao seu rosto o repetitivo argumento: Como vocês ousam se opor a uma disposição legal que não faz mal a ninguém? Com base em quê a opinião dos católicos deveria prevalecer sobre a dos demais cidadãos, quando se trata de práticas que em nada lesam os católicos? Não é prova de intolerância querer impor aos demais uma conduta que não lhes diz respeito? 

O argumento é revelador do princípio fundamental que caracteriza os tempos modernos: a autonomia absoluta do homem como único limite da liberdade dos demais.

Desde que uma lei não fira um “direito” individual nem [incomode] uma minoria, desde que não gere transtornos à ordem pública, o homem é soberanamente livre de promulgar leis: eis o credo do “homo modernus”.

Benjamin Constant exprimia esse princípio de um modo límpido: 

“Eu defendi por quarenta anos o mesmo princípio, a saber, liberdade em tudo, em religião, filosofia, literatura, indústria e política: e por liberdade, compreendo o triunfo da individualidade, tanto sobre a autoridade que gostaria de governar pelo despotismo, como sobre as massas que reclamam o direito de sujeitar a minoria à maioria. O despotismo não tem direito algum. A maioria tem, sim, o direito de obrigar a minoria a respeitar a ordem: mas tudo o que não perturba a ordem, tudo o que é meramente interior, como a opinião; tudo o que, na manifestação da opinião, não perturba o próximo, quer provocando violências físicas, quer impedindo a manifestação contrária; tudo o que, de fato, em assuntos industriais, permite à indústria rival operar livremente, é individual e não poderia ser legitimamente submetido ao poder público.”

Essa pretensão é duplamente especiosa. Primeiro porque essa autonomia é a recusa categórica de uma autoridade transcendente que veio dar uma regra à qual o homem está obrigado a se submeter. Jacques Chirac é conhecido por ter dito esta máxima digna das lojas maçônicas: “Não pode haver leis ‘religiosas’ acima das leis da República”, isto é, das leis humanas.

Creonte não se exprimia de outro modo a Antígona: “É preciso obedecer àquele que a cidade escolheu como senhor, tanto nas coisas pequenas como nas grandes, nas justas e nas iníquas”. 

No fundo, nessa recusa obstinada de uma autoridade superior à do homem, ouve-se o eco do grito de Lúcifer: non serviam, não servirei.

Essa legislação dita liberal é, na verdade, uma legislação intrinsecamente blasfematória. A autoridade humana erige-se em juiz supremo da boa conduta humana, e recusa-se a se submeter à autoridade de seu criador. E quando os católicos repetem o grito de São Miguel, “Quem é como Deus?”, um ódio surdo vindo dos infernos se levanta contra eles.

Em segundo lugar, o individualismo congênito dos “Direitos do homem” supõe que as ações imorais, mesmo privadas, de uma parte considerável da população, não exercem nenhum impacto sobre o resto da nação e não lesam em nada os demais cidadãos.

Isso equivale a esquecer que o homem não é, nem de longe, um ser isolado de seus semelhantes. Por suas escolhas, seus julgamentos, suas afirmações, suas ações e mesmo seus hábitos de consumo e todo o resto do seu comportamento, ele imprime uma marca ao redor.

Quando uma lei iníqua é votada, a virtude é ipso facto humilhada, a tentação facilitada, o pecado banalizado, o vício encorajado. O simples fato de autorizar legalmente o pecado põe, publicamente, o vício em pé de igualdade com a virtude. Isso é começar uma falsificação da consciência pública, é abrir as portas à degradação moral de uma parcela importante do país. Pouco a pouco, esse vício que rompeu as amarras se espalha tão facilmente quanto uma epidemia. O nível moral do país se rebaixa, e já se prepara para novas quedas, ainda mais graves.

A decadência de um país segue um itinerário semelhante à decadência de um indivíduo. Uma primeira queda — sobretudo se não é corrigida, mas admitida em seu princípio — facilita uma outra, torna a queda seguinte menos chocante e até mais sedutora.

É impressionante ver um país manter-se numa indiferença tão avassaladora diante das leis iníquas votadas por um Parlamento democraticamente eleito. Como milhões de homens podem aceitar sem pestanejar que se permita que crianças não sejam concebidas, gestadas, paridas, amadas e educadas como eles mesmos o foram, e como o foram os seus pais desde a aurora dos tempos?

Mas nos impressionaremos menos se considerarmos que o vício tão difundido da luxúria, exibido por toda parte na nossa sociedade, penetrou tão completamente a alma, o coração e o espírito de nossos contemporâneos que eles já não vêem mal algum em liberar novas depravações. Mesmo privado, mesmo escondido, o vício produz, mais dia, menos dia, os seus efeitos na esfera pública. Uma alma que decai, diminui o mundo.

Segue verdadeiro, no entanto — e a esperança católica estriba-se nesse belo dogma da comunhão dos santos — que uma alma que se eleva, eleva consigo o mundo. Cabe a nós sermos uma dessas almas, discípulas do Salvador.

Os escravos da imaginação

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Uma oposição sistemática entre o mundo e a Igreja, entre a sociedade civil apóstata e a família católica: realidade mais do que conhecida, denunciada e lamentada. Todos nós sabemos disso e procuramos nos orientar de modo a não perder a fé, a não nos entregarmos aos prazeres e aos critérios desse mundo mau. Temos, sim, os Evangelhos e São Paulo que já nos alertavam e nos alertam ainda hoje, pela Revelação das Sagradas Escrituras. Temos a Igreja, com sua palavra forte, sua Tradição, seu depósito da fé, transmitindo, de papa a papa, de concílio a concílio, os conselhos e mandamentos que devemos seguir para não cair no abismo. E os padres lembram, em sermões e artigos, que devemos viver no mundo sem ser do mundo, que devemos estudar, nos armar contra a enganação do mundo, defender as crianças contra as escolas deformadoras, a televisão invasora e destruidora da moral católica.

Tudo isso nós sabemos e por isso devemos estar atentos e fortalecidos pela graça.
Mas não adiantou muito! Leia mais
 

Prefácio à Ilusão Liberal

Lançamento da Editora Permanência
 
 
"A ILUSÃO LIBERAL"
 
 
 
R$21,00

 

Dom Lourenço Fleichman OSB
 
Pode parecer temerário para uma editora católica, aqui no Brasil, publicar um livro sobre a doutrina dos Liberais, tantos são os equívocos despertados por este assunto. Não poderíamos, portanto, deixar de tecer algumas explicações preliminares ao apresentar este livro de Louis Veuillot.
 
Comecemos pelo autor. Ilustre desconhecido para a grande maioria dos brasileiros, Louis Veuillot (1813 – 1883) é um dos grandes nomes da literatura católica do século XIX, na França. Polemista temido por seus adversários, coube a ele dar vida a um jornal católico da época, L´Univers, que estava em plena decadência. Seus artigos vigorosos em favor da liberdade de ensino, tema que sempre apaixonou os franceses, transformaram o jornal em referência do Catolicismo Romano. Numa França oscilando entre o espírito revolucionário liberal e a restauração da Monarquia, o combate católico era o combate pela liberdade, e isso naturalmente reuniu católicos que defendiam a liberdade da Igreja a todos aqueles que defendiam toda e qualquer liberdade. Com o passar do tempo, Veuillot se afastará dos Liberais, combatendo em favor da restauração da Monarquia. Na época do Concílio Primeiro do Vaticano, apoiará de forma vigorosa o dogma da Infalibilidade papal, sendo defendido várias vezes pelo papa Pio IX contra bispos que o criticavam. Quando Pio IX achou por bem apontar certos exageros nas expressões polêmicas do grande escritor, Veuillot aceitou humildemente a paternal admoestação e procurou melhorar o tom dos seus escritos. Leia Mais
 

O Bispo e o Imperador

[Nota da Permanência] O texto que se vai ler é o relato de Dom Macedo Costa da Conferência que ele e o Sr. Bispo do Rio de Janeiro tiveram com sua Majestade Dom Pedro II a propósito dos boatos da condecoração do livre-pensador e filólogo francês Ernest Renan (1823-1892), autor de A Vida de Jesus e obras contrárias à religião católica.

Pastoral coletiva do Episcopado brasileiro contra a Liberdade Religiosa

INTRODUÇÃO DA PERMANÊNCIA
 
"Este é um bispo, meu Deus!", exclamou Corção do martírio de S. Inácio de Antioquia. Proporções guardadas, queremos repetir a exclamação do velho mestre, estendendo-a a todo o episcopado brasileiro que, em 1890 — mal finda a revolução — ergueu-se condenando, na mais enérgica pastoral jamais escrita neste país, a infâmia que então se promovia graças a aliança liberal-maçônica: a Separação Igreja e Estado e a promulgação da Liberdade Religiosa.   
 
O redator desta pastoral foi Dom Antônio de Macedo Costa, o célebre companheiro de Dom Vital nos combates e no cárcere, e líder intelectual do clero brasileiro. Sua posição inflexivelmente anti-liberal, aliada a um talento literário e firmeza incomuns, dão ao texto que se vai ler toda a gravidade que a ele convinha:   
 
"Mas o que pedis à Igreja Católica é a tolerância ou é o suicídio? Ela não pode, sem contradizer toda a sua história, sem renegar a sua própria essência, sem anular-se, sem aniquilar-se completamente, sem trair a Jesus Cristo, admitir o princípio que todas as religiões são igualmente verdadeiras, ou que todas são falsas, ou que sendo uma só verdadeira, seja indiferente abraçar esta ou as outras; como se a verdade e o erro tivessem os mesmos direitos perante a consciência!"

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