Skip to content

Category: Irmão Marie-Dominique, O.P.Conteúdo sindicalizado

Madre Teresa de Calcutá: verdadeira ou falsa caridade?

Pe. Marie-Dominique, O.P.

 

O testemunho dos santos tem o seu valor; a nossa época teve o testemunho de Madre Teresa de Calcutá, humilde filha da Albânia, que – pela graça de Deus – se transformou em um exemplo de exercício da caridade e de serviço à promoção do ser humano para o mundo inteiro.” (Bento XVI, em 8 de março de 2009)[1].

Reuníamo-nos todas as manhãs na casa geral e gozávamos da alegria de nos ajoelharmos ao pé do túmulo de Madre Teresa.

Era impressionante observar um budista em posição de lótus ao lado de um muçulmano de rosto em terra e, próximo a eles, um cristão de joelhos. Nisso há um mistério! Lá estavam os três, sem se defrontarem; melhor ainda, estavam trabalhando juntos, pois é a caridade que os reúne.(Pe. Benoît-Joseph, da comunidade das Beatitudes[2]).  Leia mais

Tenho sede!

Charles Journet

 

Na Quinta-feira Santa Jesus dissera a seus discípulos: “Tenho desejado, ansiosamente, comer convosco esta páscoa, antes de sofrer” 1. Como pôde desejar assim a páscoa na qual vão começar sua agonia e Paixão? A resposta secreta está contida numa só realidade: desde a sua entrada no mundo2, Jesus está devorado e consumido pelo desejo de reparar a ofensa infinita feita a Deus pelo pecado, e abrir aos homens as fontes do perdão prometidas pelo profeta3. A aproximação do suplício sangrento da Cruz, pelo qual todas as coisas na terra e nos céus vão-se reconciliar4, traz-Lhe misterioso reconforto.

A sede do desejo que atormenta a Jesus é salientada por Santo Agostinho nos seus comentários sobre os salmos: “Desejaria o Cristo realmente comer quando procurava os frutos da figueira, para apanhá-los se os encontrasse?” 5. Desejaria Ele, realmente, beber, quando dizia à mulher de Samaria: Dai-me de beber? E quando disse, sobre a Cruz: Tenho sede? Do que teria o Cristo fome? Do que teria sede, senão de nossas boas obras?” 6. E ainda: “Que haverá de mais evidente que os homens devem ser atraídos pelo batismo para esse corpo da cidade de Jerusalém, da qual era imagem o povo de Israel... Até o fim, esse corpo estará sedento: caminha e tem sede. Acolhe multidões nele, jamais, porém cessará de ter sede. Daí provém a palavra de Jesus: Tenho sede, mulher, dá-me de beber. A Samaritana junto ao poço compreende que o Senhor está com vontade de beber e é saciada por Aquele que tem sede. Assim compreende a princípio, e Ele, então, a acolhe quando ela crê. E sobre a Cruz, Ele diz: Tenho sede! Não lhe deram, porém, aquilo do que tinha sede. Era deles que tinha sede, e deram-Lhe vinagre...” 7

Santo Tomás insistirá, ao mesmo tempo, sobre os dois sentidos, um carnal, outro espiritual, do Sitio8: “Se Jesus diz: tenho sede! É antes de tudo, porque morre de morte verdadeira, não da morte de um fantasma. Ainda aqui aparece seu desejo ardente da salvação do gênero humano, conforme diz São Paulo: Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade9. Jesus mesmo dissera: O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido10. Ora, a veemência do desejo exprime-se, muitas vezes, pela sede, como diz o salmista11: Minha alma tem sede do Deus vivo”.

Esses aspectos são especialmente preferidos por Santa Catarina de Siena. “É a fome e a sede do ansioso desejo que Jesus tinha de nossa salvação, escreve ela, que o faziam exclamar sobre o madeiro da Santa Cruz: Tenho sede! Como se dissesse: Tenho sede e desejo de vossa salvação, mais do que vos pode demonstrar o suplício corporal da sede. Sim, porque a sede do corpo é limitada, mas a sede do santo desejo não tem limites” 12. Em outra carta, explica que, se Jesus foi saturado de opróbrios no seu corpo, Ele é insaciável no desejo. Desde o momento da Encarnação, tomou sobre si a Cruz do desejo de fazer a vontade do Pai e de salvar o mundo. É uma cruz mais pesada do que qualquer outra dor corporal. E assim, quando se aproxima o Seu fim, na Ceia da quinta-feira santa, exulta em espírito: o sofrimento do sacrifício, desde então iminente, vai afastar o sofrimento do desejo; por ela, o desejo será atendido13.

Como teria a Santa de Siena compreendido tão intensamente a sede de fazer a vontade do Pai e de salvar o mundo, que dilacerava Jesus na Cruz, se algo dessa chama não existisse nela para devorá-la? Sua carta n. XVI dirige-se a um importante prelado. Com a impetuosidade de seu desejo, fala-lhe dos apaixonados de Deus que, vendo a ofensa que Lhe é feita no mundo e a condenação das criaturas, chegam a perder o sentimento da própria vida. Não fogem dos sofrimentos, mas vão a seu encontro. Glorificam-se deles como São Paulo nas suas tribulações. Oh! Segui este Apóstolo, acrescenta Catarina com audácia. Abri os olhos. O lobo infernal atira-se sobre as ovelhas que pastam nos jardins da santa Igreja. Ninguém ousa arrancá-las de suas presas. Os pastores dormem no amor de si mesmos, na cupidez, na impureza. O orgulho embriaga-os a ponto de não verem que a graça os desertou. Amam-se a si mesmos e não a Deus. Fingem não ver o mal: calam-se e deixam-no crescer. “Ó Pai muito querido! Deste amor de vós mesmo, quero que sejais isento! Eu vos conjuro, fazei que a Verdade primeira não tenha que vos repreender um dia, dizendo: Maldito sejas tu, tu que te calaste!”.

De Maria da Encarnação temos o seguinte relato: sendo ainda ursulina no Convento de Tours, foi transportada, soerguida pelo espírito apostólico e viu a indigência das terras em estado de missão que se abriam diante dela e inflamavam-lhe o desejo: “Por uma certeza interior, via os demônios triunfarem sobre aquelas pobres almas que ele arrebatava do domínio de Jesus Cristo, nosso divino Mestre e soberano Senhor, que, entretanto, os havia resgatado com seu precioso Sangue. Diante da certeza do que via, fui tomada de tal zelo que, não me contendo mais, estreitei de encontro ao peito todas aquelas pobres almas, e apresentei-as ao Pai Eterno, dizendo-Lhe que já estava em tempo de fazer justiça em favor de meu Esposo. Lembrei-Lhe que Lhe prometera todas as nações por herança, e que além do mais, Ele satisfizera, pelo seu Sangue, todos os pecados dos homens... Que embora houvesse morrido por todos, nem todos viviam, como, por exemplo, aquelas almas que eu lhe apresentava e trazia sobre mim. Queria-as todas para Jesus Cristo ao qual, de direito, pertenciam” 14.

Santa Teresinha sentia seu ardor de salvar o mundo identificar-se com o da Igreja eterna: “Queria esclarecer as almas como faziam os profetas, os doutores. Gostaria de percorrer a terra, pregar vosso nome, e plantar sobre o solo infiel vossa Cruz gloriosa, ó meu Bem-Amado! Uma única missão, porém, não me bastaria: queria anunciar o Evangelho ao mesmo tempo em todas as partes do mundo e até mesmo nas ilhas mais distantes. Queria ser missionária, não somente durante alguns anos, mas gostaria de tê-lo sido desde a criação do mundo e continuá-lo a ser até a consumação dos séculos” 15.

Assim os santos, à imitação de Cristo, têm sede da salvação do mundo. O sofrimento redentor do Cristo na Cruz, que exteriormente podemos descrever com acerto, não mostra a sua veemência, suas terríveis exigências senão àqueles que, através dos tempos, consentem em perder-se nela, sem nada reservar para si mesmos. É o mistério da co-redenção que lhes abre as portas supremos do mistério da redenção.

Jesus ora pelo mundo inteiro, se por “mundo inteiro” compreendemos todas as criaturas humanas. Entrega-se por todas e cada uma delas. “Filhinhos meus, diz São João, eu vos escrevo estas coisas a fim de que não pequeis, mas se algum de vós pecar, temos por advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, o justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” 16. Se Jesus envia seus discípulos por toda parte, é a fim de que o mundo creia que o Pai O enviou17. É para que “todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” de que Ele é o único mediador entre Deus e os homens, “que se deu a Si mesmo em resgate para todos” 18. Todos aqueles que forem salvos, sê-lo-ão pela única oração redentora que nos foi dada: a oração de Jesus na Cruz.

Entretanto, Jesus não reza pelo mundo, quando “mundo” significa cidade do mal19. Ele roga contra o mundo. Roga por todos os homens, contra o mundo que está neles, para arranca-los do mundo que neles está, e transferi-los integralmente para a cidade de Deus. Todavia, esta oração mesma de Jesus pode ser recusada. Resisto contra ela, fecho-lhe meu coração. O Amor que vem a mim, primeiramente no presépio, depois sobre a Cruz, posso rejeitá-lo. Eis o inferno. Que este possa ser finalmente preferido por muitos, é a suprema causa da indizível agonia do Salvador.

“Pensava em ti na minha agonia; derramei tais gotas de sangue por ti” 20. Teologicamente, essas palavras são verdadeiras. Na essência divina onde mergulhava a sua visão, Jesus abrangia num só olhar todo o desenrolar concreto da história do mundo. Via, em cada minuto da existência, todas as almas imortais pelas quais intercedia. Conhecia cada pecado, cada ofensa infinita feita ao Amor. Nossas infidelidades de hoje e de amanhã O feriram. Desolaram a sua agonia. Foi por elas que — conscientemente — Ele morreu. Uma que fosse..., e essa já reclamaria a redenção infinita. A agonia de Jesus é assim coextensiva a toda a tragédia humana. Toda a duração do tempo, todas as novas faltas e omissões estão contidas nas profundezas do único instante da Paixão redentora. Ora, se Jesus sofreu pelos pecados que ainda serão cometidos, e que virão até o fim do mundo, então, — e esta verdade é tremenda — sou eu que, pecando amanhã, te-lo-ei posto em agonia há dois mil anos. É um dos sentidos de outro pensamento de Pascal: “Jesus estará em agonia até o fim do mundo: não se pode dormir durante esse tempo”.

Referindo-se àqueles que experimentaram o dom de Deus e renegaram-no depois, a Epístola aos Hebreus, usando de uma palavra misteriosa, declara com autoridade “que eles crucificaram em si mesmos o Filho de Deus e O expõem à ignomínia” 21.

Nossos pecados de amanhã contribuíram para a agonia de Jesus. Em compensação, e isso é verdade, nossas fidelidades de amanhã te-lo-ão consolado. Pio XI assim se expressou, na Encíclica Miserentissimus Redemptor22: “Se a previsão de nossas faltas deixava a alma de Cristo triste até a morte, como duvidar que a previsão de nossas reparações futuras não lhe proporcionava, desde aquele instante, alguma doçura? Não nos diz o Evangelho que sua tristeza e angústia puderam ser consoladas pela visita do Anjo? Aquele Coração muito santo, ferido incessantemente, pela ingratidão do pecado, temos que consolá-lo agora, e nós o podemos, de maneira misteriosa, mas verdadeira. Com razão pôde queixar-se o Cristo, na liturgia, pela boca do salmista, de ser abandonado pelos seus amigos: “Tu conheces o meu opróbrio, minha confusão e minha vergonha. A afronta partiu-me o coração. Esperei que alguém se condoesse de mim e não houve ninguém” 23.

 

(Transcrição parcial da obra “As sete palavras” de Charles Journet).

  1. 1. Lc 22,15.
  2. 2. “É impossível que o sangue dos touros e dos bodes apague os pecados. Eis por que o Cristo, entrando no mundo, disse: Tu não quiseste nem sacrifícios nem oferendas; mas tu me formaste um Corpo. Os holocaustos pelos pecados não te agradaram. Então eu disse: Eis-me que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade”, Hebr. X, 4-7.
  3. 3. “Neste tempo haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e as manchas”. Zacarias, XIII, 1.
  4. 4. Aprouve ao Pai “reconciliar por Ele todas as coisas, pacificando, pelo Sangue de sua Cruz, tanto o que está na terra, como o que está no céu”. Cl 1, 20.
  5. 5. “E no outro dia, ao sair de Betânia, teve fome. E tendo visto ao longe uma figueira que tinha folhas, foi lá a ver se acharia nela alguma coisa. Tendo-se aproximado, nada encontrou senão folhas, porque não era tempo dos figos”. Mr, XI, 13.
  6. 6. Enarr, in Ps. XXXIV, Sermo 2, n.4.
  7. 7. Enarr, in Os. LXI, n. 9.
  8. 8. Commentaire de Saint Jean, XIX, 28.
  9. 9. I Tim., II, 3-4.
  10. 10. Lucas, XIX, 10.
  11. 11. Salmo XLII (XLI), 3.
  12. 12. Epistolário, ed. Misciatelli, Siena, 1913, Carta VIII, t. I, pág. 34.
  13. 13. “Com la pena corporale si cacciava la pena Del desiderio; perocchè vedevo adempito quello che io desideravo”. Carta XVI, t. I, pág. 65.
  14. 14. Ecrits spirituels et historiques, ed. Janet, Paris, 1930, t, II, pag. 310.
  15. 15. História de uma alma, cap. XI. Pouco antes, a Santa se maravilhara de que Deus não “tivesse receado mendigar um pouco d’água à Samaritana. Ele estava com sede! Mas ao dizer: “Dá-me de beber, era o amor de sua própria criatura que o Criador do universo reclamava. Tinha sede de amor!”. Algumas horas antes de morrer, exclamou: “Nunca pensei poder sofrer tanto! Nunca, nunca! Não posso explicar isso senão pelo imenso desejo que sempre tive de salvar as almas” Novíssima Verba, pág. 194.
  16. 16. I João, II, 1-2.
  17. 17. João, XVII, 21.
  18. 18. I Tim., II 4-6.
  19. 19. “Rogo por eles; não rogo pelo mundo, senão por aqueles que me deste, porque são teus” (João, XVII, 10).
  20. 20. Pascal, Pensées, edit. Br., no. 553.
  21. 21. Hebr., VI, 6.
  22. 22. De 8 de maio de 1928.
  23. 23. Salmo LXVIII (LXIX), 20-21. Trad. Do Pe. Matos Soares. Esse salmo é recitado nas Matinas de quinta-feira.

A verdadeira face das cruzadas

Jacques Heers

Estes homens, certamente, acreditavam em Deus, e não iam para o combate sem rezar e colocar-se sob a proteção de Cristo e da Virgem, e dos seus santos protetores. Eles queriam-se como milícia de Cristo. Suportavam pesadas penas e ganhavam batalhas contra inimigos bem mais numerosos, enquanto proclamavam que os anjos estavam a seu lado, mostrando-lhes o caminho e apoiando-lhes nos piores momentos. Mas não era uma “guerra santa”, uma “guerra de religiões”. Os cruzados não iam exterminar o islã ou converter os muçulmanos, pela boa razão de que, nessa época, ninguém ou quase ninguém tinha a mínima idéia desse islã. Nenhuma das narrações da primeira Cruzada, escritas por homens que estavam no local e não por compiladores, fala de muçulmanos ou de maometanos. Para eles, os inimigos são os sarracenos, à semelhança dos piratas mouros do Mediterrâneo, ou sobretudo os babilônios e assírios, os persas e os partos, ou outros povos “bárbaros” da Antiguidade. As crônicas referem-se à História antiga do Oriente.

Guerra da conquista? Nada disso. É verdadeiramente curioso continuar-se a falar desta Cruzada como se os cristãos tivessem a caçar povos aí instalados desde sempre. É esquecer que as terras da Palestina e da Síria, berços do cristianismo, estiveram durante séculos sob a autoridade dos imperadores de Constantinopla, focos notáveis da civilização cristã. Jerusalém, Antióquia e Alexandria foram sedes de patriarcas da Igreja de Cristo. É esquecer, além disso, que os imperadores de Constantinopla tinham, mais de cem anos antes dos cruzados, conduzido os seus exércitos à reconquista destes países: Alepo foi retomada em 962, Antioquia em 969 e João Tsimiscis (imperador de 969 a 975) só parou diante de Trípoli, após ter reconquistado Beirute. Os turcos, vindos de muito longe, expulsaram as guarnições imperiais, mas é bom lembrar que quando os francos, em 20 de outubro de 1097, se apresentaram de Antióquia, estes turcos eram donos da cidade havia apenas catorze anos. Em relação a Espanha dizemos Reconquista, mas em relação ao Oriente aceitamos que nos imponham a terminologia e a idéia de uma simples conquista, açambarcamento de terras nas quais outros viviam em seu pleno direito.

 

Uma aventura espiritual

Intolerância? É preciso ser-se mau observador para acusar de intolerância os homens do passado, cristãos bem entendido, enquanto nós vivemos, aparentemente satisfeitos, num tempo em que todas as formas de escrita e de pensamento são submetidas a um controle cada vez mais severo. Certamente que se proclama a intolerância como detestável, mas dela só são acusados os homens livres que ousam manifestar as suas próprias convicções, e levam a insolência até à sua defesa contra-ataques odiosos. Os “intolerantes” são os dissidentes, apontados a dedo, agredidos, excluídos. Não são os guardiões estipendiados do templo, que não suportam a mínima resistência aos seus esquemas, nem a mínima crítica aos seus discursos sempre “conformes”, de um conformismo risível. Observemos a vida atual, antes de falar de tempos que não queremos sequer conhecer verdadeiramente e tentar compreender.

A Cruzada de 1095-1099 foi, primeiramente e antes de tudo uma aventura espiritual. Para pesquisar as origens e analisa-la, as teses materialistas visaram longe. Invocar a sede de conquista, ou a procura de novos espaços e a busca de especiarias, era de bom tom há cinqüenta anos, época em que o materialismo histórico era imposto nas universidades francesas. Os tempos, enfim, mudaram e sabemos que nenhuma destas afirmações pode ser seriamente defendida. Simples reflexões de bom senso deitam-nas a perder. Os camponeses dos anos mil eram, sem dúvida, mais numerosos que outrora. Freqüentemente, dividiam as suas heranças e procuravam novas terras de lavoura. Mas ir tão longe para isso, a idéia não se agüenta. Iniciava-se precisamente o arroteamento das grandes florestas da Germânia, da Europa central e do sudoeste francês. A secagem e beneficiação dos pântanos tinham apenas começado. Porque, então, afrontar tantas fadigas e tantos perigos, para se estabelecerem em terras longínquas, das quais se sabia, no dizer dos peregrinos que regressavam, serem áridas na maior parte, próprias para a vida pastoril semi-nômade, totalmente contrária à sua maneira de viver e de trabalhar? Negligenciar as terras próximas para ir tão longe, onde tudo teria de ser construído de novo ou reconstruído?

Ainda se lê, num ou noutro manual de ensino, que os “grandes mercadores” italianos foram os instigadores desta Cruzada, com o fim de trazer do Oriente as especiarias a preço mais baixo. Mas é falso: genoveses, venezianos e pisanos não participaram nas primeiras expedições; intervieram mais tarde, como guerreiros, com os seus cavalos e as suas máquinas de guerra, e não como mercadores. A Terra Santa não era muito de seu interesse. Estabelecidos em Constantinopla, onde beneficiavam-se de privilégios fiscais, e no Cairo, onde os negociantes se alojavam nos fondouks, já se encontravam no verdadeiro coração dos grandes tráficos do Oriente. A costa da Síria e da Palestina não ofereciam, nem de longe, os mesmos recursos; à margem das rotas das grandes caravanas, estes países não possuíam, então, nem culturas exóticas (cana-de-açúcar, algodão) nem manufatura de artigos de luxo. Para terminar, face a Constantinopla, a Damasco, Bagdá e Cairo, Jerusalém fazia, neste particular, figura de aldeia.

 

Historiadores sectários

Grandes senhores, apressados na fundação de principados sem vastos territórios e em cidades de sonho? São imagens forjadas de fio a pavio, para ilustrar a tese de historiadores sectários, entretidos a maldizer o cristianismo e o feudalismo. Os chefes dos cruzados, os das primeiras levas e os que se seguiam com reforços, não eram de nenhuma maneira cavaleiros andantes, filhos segundos ou excluídos da grei, à procura de pousada, obrigados a correr a louca aventura. Godofredo de Bulhões, duque da Baixa-Lorena, era senhor de bons feudos e castelos, no meio de ricas terras. Raimundo de Saint-Gilles, conde de Tolosa, sem contestação o mais ativo dos “barões”, o que reuniu maior número de homens de armas e gastou maiores somas, era, depois do rei, o mais poderoso príncipe do reino, nunca contestado ou ameaçado. A sua partida privou-o de uma magnífica herança, e morreu na Terra Santa antes de ter podido conquistar Trípoli.

A Cruzada, em 1095, respondia ao desejo dos fiéis de ver o túmulo de Cristo e aí rezar. É certo que as crônicas da época falam de “francos” e de “cristãos”, sempre qualificando-os como “peregrinos”. Os homens reuniam-se e armavam-se porque sabiam que os peregrinos que iam à Palestina o faziam com risco de vida, suportando duras humilhações e pesadas taxas que aumentavam a cada ano. A peregrinação foi, desde o princípio, o centro de todas as preocupações e iniciativas e os cruzados, na sua maioria, só queriam libertar a cidade santa, visitar os lugares de Cristo, da Virgem e dos Apóstolos, rezar e regressar à casa. Com Godofredo de Bulhões ficou apenas um punhado de cavaleiros. A construção de praças fortes, e a defesa do reino latino de Jerusalém contra os ataques dos egípcios ou dos turcos, só foi possível pela chegada de novos peregrinos, que participavam nos combates e nos trabalhos e depois partiam.

 

Peregrinos nas Cruzadas

Mais que uma Cruzada, correto seria, já para 1096-1099, dizer as Cruzadas, expedições que reuniram gente de diferentes origens, que não partiram juntas nem seguiram os mesmos caminhos. Falar de cristãos “de todo o Ocidente” respondendo ao apelo de Urbano II, é mera figura de estilo. A Cruzada foi pregada pelo Papa apenas em algumas partes do reino de França, principalmente em Auvergne e no Languedoc, mas não em Paris nem na Ile-de-France. A pregação não se estendeu a Alemanha e ao Norte da Itália, dada a querela existente entre o Papa e o imperador germânico, que apoiava ainda um anti-papa cismático. Além das quatro Cruzadas promovidas pelas pregações do Papa, dos legados e dos bispos (exércitos dos lorenos, dos normandos de Normandia e dos normandos do Sul da Itália, chefiados por Raimundo Saint-Gilles) deve mencionar-se uma outra Cruzada, dita da “gente humilde”. Esta foi fruto de pregações menos controladas, feitas por eremitas e monges errantes, por vezes em ruptura com o pregão das Cruzadas, que invocavam o Apocalipse e clamavam o extermínio dos impuros. Tal levou essa pobre gente, lançada numa longa e miserável caminhada, obrigada a comprar víveres por alto preço, à invasão das cidades, principalmente na Renânia, e a massacrar os seus burgueses, judeus ou não, denunciados como culpados. Tudo isto apesar da intervenção dos bispos locais, que tentavam protege-los.

Os exércitos dos “barões” são mal conhecidos e fazemos deles, geralmente, uma idéia errada. De fato, falar de “exércitos” é já um erro, porque faz pensar em tropas de homens aguerridos, armados e prontos para o combate. Os textos mostram coisa diferente: consideráveis multidões de pobres sem quaisquer meios, sem armas e sem experiência, freqüentemente acompanhados pelas suas mulheres e filhos, conduzidos e protegidos por uma milícia de cavaleiros pouco numerosa. Todos os testemunhos são concordes e os próprios historiadores muçulmanos, mais tarde, o reconhecem: não se tratava de verdadeiros exércitos, mas, realmente, de multidões heteróclitas. Eram milhares, talvez várias dezenas de milhares, de peregrinos expostos a todas as adversidades, à fome e às doenças. Conduzi-los, esperar e organizar a sua reunião antes de empreender a caminhada, reabastece-los de água e víveres, todas estas responsabilidades pesaram na condução desta multidão, aventurada para tão longe dos locais da partida.

Esta gente sofreu, no decurso dos meses e dos anos, de fome e de sede, de expectativa e de miséria. Na tarde da vitória, Jerusalém conquistada, invadiram as casas, pilharam tudo que encontraram, massacraram os habitantes. Hoje, a História retém esses massacres para cobrir de vergonha toda a empresa e tornar responsável (ora, pois!) a Igreja. Quer-se uma vez mais que peça perdão, e arrependida, confesse a sua culpa? Insistir deste modo, isolando o acontecimento, é falsear o debate, porque estes massacres são atrozes, revoltam os nossos sentimentos, mas são, todavia, vulgares nessa época... como em muitas outras. Deu-lhes origem a guerra de cerco, exarcebando as paixões e os ódios entre inimigos que se observavam e injuriavam durante muito tempo. Pode-se citar, no decorrer dos séculos, um grande número de cidades conquistadas pela força e que ficaram indenes? Menos de um ano antes dos cruzados, em 26 de agosto de 1098, os muçulmanos egípcios assenhorearam-se da mesma cidade de Jerusalém e massacraram todos os turcos, assim como uma grande parte dos habitantes seus aliados ou cúmplices.

Os nossos historiadores moralistas, sempre prontos a descrever em detalhes os atos de crueldade atribuídos aos homens dos tempos “medievais”, aos seus senhores, seus padres e monges, dizem alguma vírgula do saque de Cápua, em 24 de julho de 1501, pelos exércitos do rei Luís XII? E do saque de Roma pelos huguenotes alemães, os espanhóis e as tropas do contestável de Bourbon, que em 1517 puseram a cidade a fogo e sangue? E não foi no decorrer de uma Cruzada, durante a “noite da Idade Média”, mas na época da “Renascença”, tempos ditos de luz, de liberdade e de progresso. 

 

(Traduzido pela Semper, revista da Fraternidade Sacerdotal São Pio X n° 41, Maio-Junho de 1999, Lisboa.)

AdaptiveThemes