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G. K. Chesterton (16)

Conhecendo a Idade Média

É bastante natural que os homens prósperos de nosso tempo desconheçam mesmo história. Se a conhecessem, conheceriam a muito pouco edificante história de como se tornaram prósperos. É bastante natural, digo, que eles não saibam história: Mas por que eles pensam que sabem? Eis aqui uma opinião tirada a esmo de um livro escrito por um dos mais cultos dentre nossos jovens críticos, uma opinião muito bem escrita e de todo confiável em seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz o escritor: “Existiu pouco avanço social ou político na Idade Média” até a Reforma e a Renascença. Ora, eu poderia tão propriamente quanto dizer que houve pouco avanço nas ciências e invenções no século dezenove até a vinda de William Morris: e então me desculpar dizendo que não estou pessoalmente interessado em máquinas de fiar ou águas-vivas — o que certamente é o caso. Pois isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: ele quis dizer que não está pessoalmente interessado em Arautos ou Abades com mitras. Tudo isto está bem; Mas por que, ao escrever sobre algo que não teria existido na Idade Média, deveria ele dogmatizar sobre uma história que ele evidentemente não conhece? No entanto, esta pode tornar-se uma história muito interessante.    

Discussão um pouco no ar

A nave voadora do professor Lúcifer silvava atravessando as nuvens como dardo de prata; a sua ponta, de límpido aço, refulgia no vazio azul-escuro da tarde. Que a nave se achava a grande distância da terra é dizer pouco; aos dois ocupantes parecia-lhes estar a grande distância das estrelas. O professor mesmo inventara a máquina de voar e quase todos os objetos do seu equipamento. Cada ferramenta, cada aparelho tinha, portanto, a aparência fantástica e atormentada própria dos milagres da ciência. Porque o mundo da ciência e o da evolução são muito mais enganosos, inominados e quiméricos do que o mundo da poesia e o da religião — nestes últimos, imagens e idéias permanecem eternamente as mesmas, ao passo que a idéia toda de evolução funde os seres uns com os outros, como sucede nos pesadelos.

A era das Cruzadas

 

Um tanto por acaso, começou o último capítulo pelo nome de Santo Eduardo; calha muito bem a este começar pelo de São Jorge. Contam que sua primeira aparição como patrono do nosso povo deveu-se aos instantes rogos de Ricardo Coração de Leão, durante a campanha na Palestina; e isto, como veremos, veio muito a propósito para uma nova Inglaterra, que haveria de ter um novo santo. Os confessores sempre foram presença marcante na história inglesa, enquanto São Jorge – apesar de sua participação no martirológio romano – parece não fazer parte de história alguma. Se desejamos compreender a maior e mais nobre das revoluções humanas, só conseguiremos vislumbrá-la à condição de aceitar o paradoxo que representa o enorme progresso e esclarecimento de sua passagem da crônica para o romance.

 

A eterna revolução

Não temos necessidade de discutir meros vocábulos como evolução ou progresso. Pessoalmente prefiro o termo reforma. Porque reforma implica a idéia de forma, e por conseguinte supõe que tentamos dar ao mundo uma feição particular que de antemão já possuímos na mente. Evolução é uma metáfora tirada da idéia de um simples desenrolar automático. Progresso é outra metáfora tirada da idéia de um caminhar — muito provavelmente num caminho errado. Mas reforma é uma metáfora para pessoas razoáveis e determinadas: esta palavra quer dizer que vemos uma coisa privada de uma forma e que desejamos dar-lhe a forma que previamente conhecemos.

Sobre certos escritos modernos e a instituição da família

A família pudera-se muito bem definir como uma instituição humana essencial. Ninguém negará que ela foi a célula principal e a unidade central de quase todas as sociedades que até hoje existiram, excetuando-se, é claro, sociedades tais como a da Lacedemônia, que teve por objetivo supremo a eficiência e pereceu sem deixar vestígio de sua passagem sobre a terra. A despeito de sua profunda revolução, o Cristianismo nem por isso alterou aquela antiqüíssima e bárbara relíquia; não fez senão inverter-lhe a ordem. Não negou a trindade de pai, mãe e filho. Apenas a leu ao contrário, convertendo-a em filho, mãe e pai. E ela passou a chamar-se, não simplesmente família, mas Sagrada Família, pois acontece que muitas coisas ficam sagradas quando são vistas ao contrário. Entretanto, alguns sábios de nossa decadência têm atacado a família. Impugnaram-na, segundo creio, erroneamente; ao passo que outros a têm defendido, mas também equivocadamente. O argumento mais comum de defesa é o de que, em meio à tensão e ao torvelinho da vida, a família representa algo tranqüilo, agradável e coeso. Mas há um outro possível argumento de defesa, que me parece evidente, qual seja o de que a família não é algo tranqüilo, agradável ou coeso.

A antigüidade da civilização

Um viajante observa a aurora em uma terra para ele desconhecida. Espera vê-la clarear, levantando-se sobre as planícies desoladas e os cumes selvagens. Tal é o estado de ânimo do homem moderno que aborda o estudo das origens da Humanidade. Mas, à medida que o Oriente clareia, vê-se surgir na penumbra o perfil gigantesco de cidades sepultadas na noite dos tempos, edificações colossais, mansões de titãs adornadas com bestas esculpidas, que ultrapassam as copas das palmeiras, e retratos pintados, doze vezes maiores que o tamanho natural; túmulos como montanhas, edificados pela mão do homem, e touros barbudos e alados, que montam guarda eterna à porta dos templos, enormes, silenciosos e imóveis, como se acreditassem que um só golpe de seus chifres comoveria o mundo.

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