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G. K. Chesterton (15)

A ética do país das fadas

A minha primeira e última filosofia, em que acredito com uma certeza inabalável, foi aquela que aprendi no quarto de infância. E eu a aprendi em geral de uma ama-seca, quer dizer, da grave e luminosa sacerdotisa tanto da democracia quanto da tradição. As coisas em que eu mais acreditava então, as coisas em que eu mais acredito agora, são as coisas denominadas contos de fadas. Eles me parecem ser as mais racionais de todas as coisas. Não são fantasias: perto deles, as outras coisas é que são fantásticas. Perto deles, a religião e o racionalismo são ambos anormais, embora a religião seja anormalmente certa e o racionalismo anormalmente errado. O país das fadas não é outra coisa senão o ensolarado país do senso comum. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra; portanto, para mim pelo menos, não era a terra que criticava o país das fadas, mas o país das fadas que criticava a terra. Conheci o mágico pé de feijão antes de ter experimentado o grão de feijão; acreditei no Homem da Lua antes de ter certeza sobre a existência da própria lua. E isto estava de acordo com toda a tradição popular. Os modernos poetas menores são naturalistas, e falam de bosques ou de riachos; mas os cantores dos velhos poemas épicos e das fábulas eram supernaturalistas, e falavam dos deuses dos bosques e dos riachos. Isto é o que os modernos querem dizer quando afirmam que os antigos não “apreciavam a Natureza”, já que diziam que a Natureza era divina. As velhas amas-secas não falavam às crianças sobre a grama, mas sobre as fadas que dançam na grama; e os velhos gregos não conseguiam ver as árvores porque as dríades as encobriam.

A evasão da loucura

Durante as considerações feitas sobre o espírito prussiano, estivemos observando um fenômeno que parece ser, principalmente, uma limitação mental: uma espécie de nó no cérebro. Perante o problema da população eslava, da colonização inglesa ou do armamento e reforço do exército francês, a mesma estranha má disposição filosófica se manifesta. Na medida em que a posso acompanhar, seria possível resumi-la nesta frase: “É muito injusto que vocês sejam superiores a mim porque eu sou superior a vocês”. Os porta-vozes desse sistema parecem dotados de um curioso talento de concentrar confusões ou contradições no mesmo período e muitas vezes na mesma frase. Já mencionei a famosa sugestão do Imperador da Alemanha que nos incitava a nos tornarmos hunos para conjurar o perigo dos hunos. Um exemplo mais eloqüente é o da ordem que recentemente transmitiu às tropas em guerra no norte da França. Como muita gente sabe rezava assim a ordem: “É meu Real e Imperial desejo que concentreis vossas energias, no presente momento, sobre um único objetivo e que apliqueis toda vossa habilidade e todo valor de meus soldados em exterminar antes de tudo os traidores ingleses e em esmagar o desprezível pequeno exército do general French”. A grosseria da observação pode não ser levada em conta por um inglês; o que me interessa é a mentalidade, é o encadeamento de idéias que consegue se embaraçar em tão curto espaço. Se o pequeno exército de French é desprezível, parece evidente que o valor e a capacidade do exército alemão andaria mais avisado não se concentrando sobre ele, e sim sobre maiores e menos desprezíveis forças. Se todo valor e recurso do exército alemão se concentra contra o exército de French, então ele não está sendo considerado como pequeno e desprezível. Mas o retórico da Prússia tem dois sentimentos incompatíveis no espírito, e insiste em enunciá-los ao mesmo tempo. Ele precisa considerar o exército inglês uma pequena coisa, mas precisa também considerar a derrota inglesa uma grande coisa. Tem necessidade de exultar, no mesmo momento, com a completa fraqueza de um ataque inglês, e com a habilidade e o valor dos alemães que repelirem aquele ataque. É preciso, de qualquer maneira, apresentar o mesmo fato como um esperado e banal colapso inglês, e como um ousado e inesperado triunfo alemão. Tentando exprimir simultaneamente essas percepções contraditórias, ele tornou-se um pouco confuso. E por isso ele incitou a Alemanha a cobrir todos os seus vales e montes com os espasmos de agonia desse inseto quase invisível; e a tingir de vermelho as águas do Reno, até o mar, com o impuro sangue dessa barata. Seria, entretanto, injusto basear uma crítica nas alocuções de um príncipe acidental e hereditário, mas o fato é que o mesmo fenômeno aparece com igual evidência nas palavras dos filósofos que têm sido apresentados, mesmo na Inglaterra, como os verdadeiros profetas do progresso. E em circunstância alguma aparece com maior nitidez do que no confuso discurso sobre raça; e ainda mais especialmente sobre a raça teutônica. O professor Havnack, e os indivíduos de sua espécie, nos censuram, se bem os compreendi, pelo fato de termos rompido os “laços do teutonismo”, laço este que os prussianos teriam observado estritamente, tanto nas observâncias como nas brechas. Temos a prova disso na completa anexação de terras exclusivamente habitadas por negros, como a Dinamarca. Outra prova nós temos na rapidez e na alegria com que eles reconheceram os cabelos claros e os olhos azuis dos turcos. Mas é, sobretudo, o princípio abstrato do Professor Havnack que mais me interessa; procurando segui-lo, tenho sempre a mesma complexidade na investigação, mas a mesma simplicidade no resultado. Comparando o meticuloso escrúpulo do Professor a respeito do Teutonismo, com sua displicência a respeito da Bélgica, não posso evitar a seguinte conclusão: “Um homem não precisa manter o que prometeu; mas deve manter o que não prometeu”. Havia certamente um tratado que ligava a Grã-Bretanha à Bélgica, admitindo mesmo que não passasse de um farrapo de papel. Se existia algum tratado ligando a Grã-Bretanha ao Teutonismo, o menos que dele se pode dizer é que é um farrapo de papel perdido. Quase poderíamos dizer que é um farrapo de papel de embrulho. Neste ponto, ainda uma vez, os pedantes que estamos considerando exibem uma perversidade ilógica que produz vertigens em nosso espírito. Há obrigações, e não há obrigações: às vezes parece que a Alemanha e a Inglaterra devem manter mútua fidelidade; às vezes parece que a Alemanha não precisa manter fidelidade alguma. Hoje somos nós os únicos, entre os povos da Europa, que quase merecemos o título de germânicos; amanhã, também os russos e franceses são considerados como se quase alcançassem o encantador caráter alemão. Mas através de tudo isto subsiste, brumoso mas não hipócrita, o sentimento de um teutonismo comum.

O apetite da tirania

O Imperador da Alemanha queixou-se da aliança que nosso país firmou com “uma potência bárbara e semi-oriental”. Já esclarecemos o sentido que atribuímos à palavra “bárbaro”: aquele que é hostil à civilização e não o que é insuficientemente civilizado. Mas se passarmos da idéia de barbaria para a idéia de orientalismo, o caso se torna ainda mais curioso. Nada há particularmente tártaro nos negócios russos, exceto o fato de terem os russos expulsado os tártaros. O invasor oriental ocupou e oprimiu o país durante longos anos; o mesmo, porém, aconteceu com a Grécia, a Espanha e com a própria Áustria. Se a Rússia sofreu alguma coisa do oriente, sofreu por lhe resistir, e é um pouco difícil admitir que o milagre de sua libertação venha agora pesar como um equívoco em suas origens. Tenha ou não Jonas vivido três dias no interior de um peixe, nem por isso se tornou um tritão. E no caso de todas as outras nações européias que escaparam de monstruosos cativeiros, admitimos perfeitamente a pureza e a continuidade do tipo europeu. Consideramos a antiga dominação oriental como um ferimento mas não como uma mancha. Homens de pele cobreada, vindos de África, governaram durante séculos a religião e o patriotismo dos espanhóis. Nunca ouvi dizer, entretanto, que Dom Quixote fosse uma fábula africana no gênero de “Uncle Remus”1 Tampouco ouvi dizer que os vigorosos tons negros da pintura de Velasquez fossem devidos à influência de um antepassado africano. No caso de Espanha que está tão próxima de nós, é fácil reconhecer a ressurreição da nação civilizada e cristã depois de séculos de servidão. Mas a Rússia não está tão perto, e a maioria das pessoas, para as quais as nações não passam de letreiros no jornal, é capaz de imaginar, como o amigo de Mr. Baring, que todas as igrejas russas são mesquitas. A terra de Turguenieff não é uma selva de faquires; e mesmo o fanático russo tem tanto garbo de não ser mongol, como o fanático espanhol se orgulha de não ser mouro.

  1. 1. Figura do folclore negro norte-americano.

A recusa da reciprocidade

No capítulo anterior eu procurei mostrar que barbaria, no sentido que adotei, não é mera ignorância, ou mesmo mera crueldade. Tem um sentido mais preciso, e significa uma hostilidade militante a certas idéias necessárias ao homem. Tomei o caso do juramento ou do contrato, que o intelectualismo prussiano quereria destruir. Disse com insistência que o prussiano é um bárbaro espiritual porque se considera desligado de seu passado, tanto como um homem que tivesse simplesmente sonhado. Confessa ele que, tendo prometido respeitar uma fronteira numa segunda-feira, não pode prever a “necessidade” de a desrespeitar na terça-feira. Resumindo, ele é como a criança teimosa que, depois das mais razoáveis explicações, e das lembranças de arranjos já admitidos, diz sempre que “quer porque quer”.
 

A guerra pela palavra

É inegável que existe uma persistente dúvida no espírito de muitas pessoas, que reconhecem a legítima defesa na viva réplica da espada britânica, e que morrem de amores pelo sabre devastador de Sadowa e Sedan1. Duvidam que a Rússia, comparada com a Prússia, seja suficientemente democrática e decente para ser aliada de potências liberais e civilizadas. Começarei, pois, por essa questão de civilização.

  1. 1. [N. da P.]Chesterton alude às batalhas de Sadowa e de Sedan, ambas vencidas pela Prússia. A primeira ocorreu em Hradec Králové, em 3 de julho de 1866, e foi o confronto decisivo da guerra Austro-Prussiana; a segunda ocorreu próximo à cidade francesa de Sedan, em 1 de setembro de 1870, durante a guerra Franco-Prussiana. Resultou na captura de Napoleão III.

Os Fatos

A menos que todos sejamos loucos, existe sempre uma história por trás do mais estranho e inquietante caso; e se todos somos loucos, então não existe o que se chama loucura. Se eu ateio fogo a uma casa pode acontecer que venha, com esse ato, iluminar fraquezas alheias ao mesmo tempo que evidencio as minhas. É possível que o dono da casa seja queimado porque estava embriagado; é possível que a dona da casa seja queimada por ser avara, e sucumba discutindo a despesa de um aparelho de salvamento. A verdade, porém, é que ambos foram queimados porque eu lhes pus fogo na casa. Essa é, no caso, a história. Os simples fatos da história, relativos à atual conflagração européia, são igualmente fáceis de contar.

Viagem de um ao mesmo lugar

Alguém que me pareceu ser um viajante, a julgar pelas aparências, aproximou-se de mim e indagou-me: "Qual é o caminho mais curto para se ir de um lugar ao mesmo lugar?"
 
O sol ocultava-se atrás de sua cabeça, de modo que não pude decifrar-lhe o rosto.
 
— Certamente, respondi, é permanecer no mesmo lugar.
 
— De modo algum, replicou. O caminho mais curto para se ir de um lugar ao mesmo lugar é dar volta ao mundo.
 
E foi-se.

O Deus na caverna

Este esboço da história humana começou em uma caverna: a ciência popular associou o conceito de caverna ao de cavernícola. Nas cavernas descobriram-se desenhos arcaicos de animais. A segunda metade da história humana, que equivale a uma nova criação do mundo, começa, também, numa caverna. E para que a semelhança seja maior, também existem animais nesta caverna. Porque se trata de uma cova usada como estábulo pelos montanheses que habitavam as terras altas dos arredores de Belém e que, ainda hoje, recolhem ao cair da noite, seus gados a esses lugares. A ela chegou, uma noite, um casal sem lar, que teve de compartilhar, com as bestas, daquele refugio subterrâneo, depois que todas as portas das casas da povoação se lhe fecharam, surdas às suas súplicas.

Conhecendo a Idade Média

É bastante natural que os homens prósperos de nosso tempo desconheçam mesmo história. Se a conhecessem, conheceriam a muito pouco edificante história de como se tornaram prósperos. É bastante natural, digo, que eles não saibam história: Mas por que eles pensam que sabem? Eis aqui uma opinião tirada a esmo de um livro escrito por um dos mais cultos dentre nossos jovens críticos, uma opinião muito bem escrita e de todo confiável em seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz o escritor: “Existiu pouco avanço social ou político na Idade Média” até a Reforma e a Renascença. Ora, eu poderia tão propriamente quanto dizer que houve pouco avanço nas ciências e invenções no século dezenove até a vinda de William Morris: e então me desculpar dizendo que não estou pessoalmente interessado em máquinas de fiar ou águas-vivas — o que certamente é o caso. Pois isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: ele quis dizer que não está pessoalmente interessado em Arautos ou Abades com mitras. Tudo isto está bem; Mas por que, ao escrever sobre algo que não teria existido na Idade Média, deveria ele dogmatizar sobre uma história que ele evidentemente não conhece? No entanto, esta pode tornar-se uma história muito interessante.    

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