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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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O apetite da tirania

O Imperador da Alemanha queixou-se da aliança que nosso país firmou com “uma potência bárbara e semi-oriental”. Já esclarecemos o sentido que atribuímos à palavra “bárbaro”: aquele que é hostil à civilização e não o que é insuficientemente civilizado. Mas se passarmos da idéia de barbaria para a idéia de orientalismo, o caso se torna ainda mais curioso. Nada há particularmente tártaro nos negócios russos, exceto o fato de terem os russos expulsado os tártaros. O invasor oriental ocupou e oprimiu o país durante longos anos; o mesmo, porém, aconteceu com a Grécia, a Espanha e com a própria Áustria. Se a Rússia sofreu alguma coisa do oriente, sofreu por lhe resistir, e é um pouco difícil admitir que o milagre de sua libertação venha agora pesar como um equívoco em suas origens. Tenha ou não Jonas vivido três dias no interior de um peixe, nem por isso se tornou um tritão. E no caso de todas as outras nações européias que escaparam de monstruosos cativeiros, admitimos perfeitamente a pureza e a continuidade do tipo europeu. Consideramos a antiga dominação oriental como um ferimento mas não como uma mancha. Homens de pele cobreada, vindos de África, governaram durante séculos a religião e o patriotismo dos espanhóis. Nunca ouvi dizer, entretanto, que Dom Quixote fosse uma fábula africana no gênero de “Uncle Remus”1 Tampouco ouvi dizer que os vigorosos tons negros da pintura de Velasquez fossem devidos à influência de um antepassado africano. No caso de Espanha que está tão próxima de nós, é fácil reconhecer a ressurreição da nação civilizada e cristã depois de séculos de servidão. Mas a Rússia não está tão perto, e a maioria das pessoas, para as quais as nações não passam de letreiros no jornal, é capaz de imaginar, como o amigo de Mr. Baring, que todas as igrejas russas são mesquitas. A terra de Turguenieff não é uma selva de faquires; e mesmo o fanático russo tem tanto garbo de não ser mongol, como o fanático espanhol se orgulha de não ser mouro.

A cidade de Reading, atualmente, oferece poucas oportunidades à pirataria de alto mar; nos tempos de Alfredo foi, entretanto, um couto de piratas. Seria, a meu ver, um pouco excessivo tratar os habitantes de Berkshire de semidinamarqueses, simplesmente porque expulsaram os dinamarqueses. Em resumo, uma temporária submersão em ondas de selvageria foi a sorte de muitas das mais civilizadas nações da cristandade; e é perfeitamente ridículo concluir que a Rússia, tendo sido a que mais duramente combateu, deve ser a que menos recuperou. Em toda parte, sem dúvida, o oriente espalhou uma espécie de esmalte nas regiões conquistadas, mas em toda parte o esmalte estalou. A verdadeira história, de fato, é exatamente o contrário do provérbio barato inventado contra os moscovitas. Não é exato dizer: “Raspe o russo, encontrará o tártaro”. Nas horas mais sombrias da dominação bárbara, ainda era mais certo dizer: “Raspe o tártaro, encontrará o russo”. Era a civilização que sobrevivia sob a barbaria. Esse vital romance da Rússia, a revolução contra a Ásia, pode ser provado por puros fatos, não somente pela atividade quase sobre-humana da Rússia durante a luta, mas também (o que é muito mais raro no decorrer da história humana) pela perfeita coerência de sua conduta desde então. É a Rússia a única das grandes nações que realmente expulsou o mongol de seu solo, e que continuou a protestar contra a presença do mongol em seu continente. Sabendo o que ele tinha sido para a Rússia, sabia bem o que seria para a Europa. Seguia, deste modo, uma linha de pensamento lógico que era, tanto quanto possível, hostil às energias e às religiões orientais. Não é injusto dizer que todas as outras nações tiveram alianças com o oriental, mongol ou muçulmano. A França serviu-se deles, como de peças de artilharia, contra a Áustria; a Inglaterra apoiou-os calorosamente durante o regime Palmerston; até mesmo os jovens italianos enviaram tropas à Criméia. Quanto à Prússia e à sua vassala austríaca, é supérfluo dizer qualquer coisa hoje2. Seja como for, por este ou por aquele motivo, o fato histórico é que a Rússia é a única das potências da Europa que nunca defendeu o Crescente contra a Cruz.
 
Isto, sem dúvida, não parece ser um assunto muito importante; mas pode tornar-se em certas condições especiais. Suponhamos, para maior facilidade de raciocínio, que existisse na Europa um poderoso príncipe que se desviara de seu caminho, com ostentação, para tributar homenagens aos tártaros, aos mongóis e aos muçulmanos que ainda se mantinham em postos avançados da Europa. Suponhamos que existisse um Imperador cristão que nem sequer pudesse visitar o túmulo do Crucificado sem se deter para congratular o último crucificador vivo. Se existisse um imperador que oferecesse canhões, guias, mapas e instrutores militares para defender os remanescentes mongóis na cristandade, que lhe diríamos nós? Creio que poderíamos, pelo menos, pedir contas de sua impudência quando ele alude ao apoio dado a uma potência semi-oriental. Não é exato que tenhamos apoiado uma potência semi-oriental; o que é exato é que aquele imperador apoiou uma potência inteiramente oriental, e isso ninguém poderá contestar, nem ele mesmo.
 
Deve ser notada aqui, porém, a diferença essencial entre a Rússia e a Prússia, e chamo a especial atenção daqueles que usam os habituais argumentos liberais contra a Rússia. A Rússia tem uma política que ela vem seguindo — se quiserem — através do mal e do bem. Em todo caso, e por isso mesmo, tem produzido ora o bem ora o mal. Admitamos como certo que essa política a levou a oprimir os finlandeses e os poloneses, observando de passagem que os poloneses russos se sentem menos oprimidos que os poloneses prussianos. É entretanto um fato histórico que a Rússia, tendo sido despótica para alguns pequenos países, foi libertadora de outros. Emancipou, na medida que pôde, os sérvios e os montenegrinos. Mas quais são os países que a Prússia um dia libertou, mesmo por acidente? Não deixa de ser assaz extraordinário que nas perpétuas mutações de sua política internacional os Hohenzollerns nunca, jamais!, se tenham extraviado para o caminho da luz. Fizeram e desfizeram alianças com quase todas as nações: com a França, com a Inglaterra, com a Áustria, com a Rússia. Haverá um indivíduo bastante cândido para descobrir o mais leve vestígio de progresso e de libertação, deixado por eles nesses povos? A Prússia foi inimiga da monarquia francesa, mas ainda pior inimiga da revolução francesa. Foi inimiga do Czar, mas pior inimiga da Duma3. Ignorou totalmente os direitos austríacos, mas hoje está pronta para servir às injustiças austríacas. Esta é precisamente a forte diferença entre os dois impérios. A Rússia está procurando atingir certos fins inteligíveis e sinceros, que para ela são ideais, pelos quais será capaz de sacrifícios e protegerá os fracos. Mas o nórdico alemão é uma espécie de tirano teórico, sempre e em toda parte devotado à tirania materialista. Esse teutão uniformizado tem sido visto em lugares estranhos: fuzilando fazendeiros diante de Saratoga4 e açoitando soldados no condado de Surrey5; enforcando negros na África e raptando moças em Wicklow; mas jamais, por alguma misteriosa fatalidade, foi ele visto prestando auxílio para a libertação de uma única cidade, ou ajudando a independência de uma só bandeira. Onde houver, porém, uma orgulhosa e próspera opressão, aí estará o prussiano, inconscientemente lógico, instintivamente coercivo, inocentemente cruel; “perseguindo as trevas como um sonho”.
 
Suponhamos um personagem (dotado de certa longevidade) que tenha ajudado Alva a perseguir os protestantes holandeses, e depois tenha ajudado Cromwell a perseguir os católicos irlandeses, e depois ajudado Claverhouse a perseguir os puritanos escoceses; acharíamos mais razoável chamá-lo de perseguidor do que chamá-lo de protestante ou católico. Tal é a curiosa posição que o prussiano ocupa na Europa. O fato que nenhum argumento pode alterar, é que em três casos convergentes e concludentes, ele esteve ao lado de três governos distintos de diferentes religiões, que nada tinham de comum senão o exercício da opressão. Nesses três governos, tomados separadamente, é possível encontrar algo de desculpável ou pelo menos de humano. Quando o Kaiser encorajava os russos a esmagarem a revolução, os dirigentes russos acreditavam sem dúvida que estavam combatendo um inferno de ateísmo e de anarquia. Um socialista, de uma espécie comum na Inglaterra, pôs-se a gritar diante de mim quando falei em Stolypin6, e disse que sua maior fama provinha do sistema de forca chamado “gravata de Stolypin”. Na verdade, a respeito de Stolypin, há muitas outras coisas dignas de interesse além de sua gravata: sua política sobre a propriedade rural, sua extraordinária bravura pessoal, e, mais interessante ainda, o gesto que fez no leito de morte, quando traçou o sinal da cruz na direção do Czar, coroa e cabeça da cristandade. Mas o Kaiser não considera o Czar como chefe de uma cristandade. Longe disso. O que ele prestigiava em Stolypin era a gravata, apenas a gravata. Era a forca e não a cruz. O chefe russo acreditava na ortodoxia da Igreja Ortodoxa; o arquiduque austríaco realmente desejava tornar católica a Igreja Católica, e acreditava que se batia pelo catolicismo batendo-se pela Áustria. Mas o Kaiser não era pró-catolicismo ou pró-Áustria; ele era, pura e simplesmente, anti-Sérvia. Ainda mais: mesmo no cruel e estéril esforço da Turquia, um indivíduo dotado de imaginação poderá ver algo da trágica e portanto da comovente sinceridade do crente. O pior que se pode dizer do muçulmano, como disse o poeta, é que ele oferece ao homem a escolha entre o Corão e a espada. O melhor que se pode dizer do Imperador da Alemanha é que ele não faz questão do Corão e que lhe basta a espada. Tenho para mim que os próprios pecados dos outros três esforçados impérios, em comparação, se revestem de tristeza e dignidade: eles não merecem que esse pequeno velhaco luterano venha patrocinar o que neles há de mal, ignorando o que neles há de bem. Ele não é católico; não é ortodoxo; não é muçulmano. É apenas um velho cavalheiro que deseja ter parte no crime, não podendo ter parte nas crenças. Deseja ser o perseguidor pela tortura sem a palma. Tão fortemente é o prussiano arrastado por seus instintos contra a liberdade, que seria capaz de oprimir os súditos de outras nações por não suportar a idéia de existirem pessoas privadas dos benefícios da opressão. É uma espécie de déspota desinteressado. Desinteressado como um demônio que está sempre disposto a fazer um serviço sujo para alguém.
 
Tudo isso pareceria fantástico, evidentemente, se não fosse o apoio de sólidos fatos que de outro modo seriam inexplicáveis. Na verdade, isso seria inconcebível se se tratasse de um povo inteiro composto de indivíduos livres e vários. Mas na Prússia a classe dirigente é de fato uma classe que dirige: e muito poucas pessoas são necessárias para estabelecer a linha de conduta que os outros seguirão. O paradoxo da Prússia é o seguinte: seus príncipes e nobres, enquanto só têm, no mundo, o objetivo de destruir a democracia onde quer que se manifeste, conseguiram se convencer que são eles, os prussianos, não os guardiães do passado, mas os precursores do futuro. Mesmo sem acreditarem na popularidade de suas teorias, crêem na possibilidade de sua expansão. Novamente encontramos aqui um abismo espiritual entre as duas monarquias em questão. As instituições russas, em muitos casos, estão realmente atrasadas em relação ao povo russo; e muitos são entre eles os que não ignoram esse fato. Mas as instituições prussianas são consideradas como estando adiantadas em relação ao povo da Prússia; e muitos são, entre eles, os que crêem nisso. Torna-se, assim, muito mais fácil aos senhores da guerra ir por toda parte impondo uma escravidão desesperançada, visto que conseguiram impor uma esperançosa escravidão aos homens de sua própria raça. E quando nos vierem falar das decrépitas iniqüidades russas e de suas retrógradas instituições, saberemos responder: “É exato; esta é a superioridade da Rússia”. Suas instituições fazem parte de sua histórica, já como relíquias, já como fósseis. Seus abusos foram um dia usos que se tornaram usados.
 
Se possuem velhos engenhos de tortura e terror, com o tempo e a ferrugem eles se desmantelarão como as velhas cotas de malhas. Mas no caso da tirania prussiana — proclama-se que ela não é antiga e que, ao contrário, “vai começar agora” como no circo. Há na Prússia florescentes indústrias de algemas, movimentadas lojas de rodas, cavaletes e pelourinhos — tudo conforme os mais modernos e perfeitos modelos — com os quais pretende recuperar a Europa para a causa da Reação... infandum renovare dolorem. Se quisermos examinar o quanto isso é verdadeiro, podemos adotar o mesmo método que nos mostrou que a Rússia, com sua raça e sua religião, dando às vezes invasores e opressores, dará outras vezes um libertador e um cavaleiro andante. Do mesmo modo, se é exato que as instituições russas estão fora de moda, também é exato que eles exibem honestamente o bom e o mau que sempre existem nas coisas fora de moda.
 
Em sua organização policial, eles mantém uma desigualdade que contraria a idéia que temos de lei. Mas em suas organizações comunais, eles têm uma igualdade que é mais velha do que a própria lei. Mesmo quando se esbordoam mutuamente, como bárbaros, eles se tratam pelos nomes de batismo, como crianças. No que têm de pior, mantém o que há de melhor numa sociedade rústica. No que têm de melhor, são bons, com simplicidade, como meninos bons, como boas irmãs de caridade. Mas na Prússia, tudo o que há de melhor, em matéria de civilizados maquinismos, está ao serviço do que existe de pior, em matéria de mentalidade bárbara. Ainda aqui o prussiano não tem um dos méritos fortuitos, uma dessas sobrevivências felizes, um desses arrependimentos tardios, que formam a heteróclita mas autêntica glória da Rússia. Aqui, tudo está apurado em ponta, e apontado para um propósito, e esse propósito, se as palavras e os atos ainda conservam algum sentido, é a destruição da liberdade nos quatro cantos do mundo.

  1. 1. Figura do folclore negro norte-americano.
  2. 2. Em 1915 a Turquia era aliada à Alemanha e à Áustria.
  3. 3. Conselho de Estado criado na Rússia (1905) e dissolvido (1909). (N. T.).
  4. 4. [N. da P.]Nas imediações do condado de Saratoga, Nova York, ocorreram as Batalhas de Saratoga (19 de setembro e 7 de outubro de 1777), que marcaram a reviravolta da Guerra de Independência dos EUA. Boa parte dos soldados eram alemães contratados como mercenários.
  5. 5. [N. da P.]Ver, do mesmo autor, “The Crimes of England”, capítulo V, “The Lost England”.
  6. 6. [N. da P.] Pyotr Arkadyevich Stolypin (1862-1911) serviu a Nicolau II e é considerado um dos maiores estadistas da Rússia imperial. Reprimiu duramente revoltosos.
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