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Category: História do BrasilConteúdo sindicalizado

Os papas na história do Brasil

Conferência de D. José Pereira Alves

A atuação criadora dos Papas na formação histórica da nossa catolicidade está documentada nos atos pontificais que demonstram a solicitude augusta dos Supremos Vigários de Cristo pela região brasílica, como se dizia nos primeiros tempos da nacionalidade. Eu não estou aqui para fazer uma história eclesiástica do Brasil. Venho corroborar uma afirmação: Os Sumos Pontífices são os grandes criadores e protetores da nossa Pátria Católica.

Basta-me mergulhar aqui e ali em nossa história para sentir o roçagar da sotaina branca do Papa. É a ação, é a vigilância do Pastor Universal a exercer-se soberana e benfazeja por toda parte.

No reinado de Dom João III, o Papa Júlio III pela Bula Super Specula Militantis Ecclesiae, de 28 de fevereiro de 1550, criou o Bispado do Brasil, com sede na Igreja de São Salvador da Região chamada Bahia de Todos os Santos, desligando a Terra de Santa Cruz da jurisdição do Bispo de Funchal. A nossa Diocese, sufragânea do Arcebispo de Lisboa, tinha cinquenta léguas pelo litoral e vinte pelo interior, mas ao Bispo foi outorgada jurisdição por todo o território brasileiro e ilhas adjacentes. Só cento e vinte e um anos depois, oito meses e quinze dias, foi a Bahia elevada à Arquidiocese, pelo Papa Inocêncio XI com a Bula Romani Pontificis Pastoralis Sollicitudo, de 16 de novembro de 1676. Foi o nosso primeiro Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, vigário geral na Índia quando nomeado Bispo do Brasil que mais tarde, naufragando na sua volta a Portugal, foi devorado com todos os seus companheiros pelos índios Caetés. Dizem que a terra onde foi supliciado o nosso primeiro Bispo nunca mais produziu coisa alguma.

O Santo Padre, na Bula criadora do Episcopado no Brasil, depois de referir-se à ação colonizadora de Portugal, às igrejas paroquiais e outros lugares sagrados já existentes à pregação apostólica dos missionários católicos, e à nobreza da cidade de São Salvador, plantada como uma cidadela titular dos fiéis de Cristo, de campos férteis e clima benigno, notável pelo progresso da gente e do comércio, atendendo à humilde súplica de seu caríssimo filho em Cristo, João Rei de Portugal e dos Algarves, desejoso de propagar a fé católica como os seus maiores, constitui a Região do Brasil na Hierarquia Católica, conferindo a São Salvador o ius civitatis e de Igreja Episcopal autônoma. Júlio III é considerado o criador da Igreja Brasileira, no sentido ortodoxo da expressão.

A terra brasílica, santificada pela benção de Jesus Cristo na Missa da Descoberta, percorrida pelas bandeiras missionárias das Ordens Religiosas; o Brasil cujos ventos já repetiam o nome de Jesus e o nome da Imaculada, já se podia sentar pela munificência paternal do Pontífice Romano, nas assembleias ecumênicas da Cristandade e ter o seu voto nos grandes conselhos da Igreja Universal.

Roma olhava com ternuras de mãe para a Igreja nascente da América portuguesa. Não queria, como se insinua na Bula histórica, que o progresso material das novas terras fosse desamparado pelas forças da Fé e do Espírito.

Super specula militantis Ecclesiae, meritis licet imparibus, divina dispositione locati da universas orbis provintias et loca, praesertim Omnipotentis Dei misericordia per Catholicos Reges et Principes ab infidelibus et barbaris nationibus recuperata, et acquisita aciem nostrae meditationis possi reflectimus et ut lucis ipsis dignioribus titulis decoratis plantetur radicibus Chistiana Religio et eorum incolae ac habitatores venerabilium praesulum doctrina et autctoritate suffulti proficiant semper in Fide et quod in temporalibus sunt adepti, non careant in spitualibus incremento, opem et operam libenter impendimus efficaces.

Na Bula em que o Papa Inocêncio XI eleva a Diocese baiana à metropolitana do Brasil e assim, definitivamente, estatui a autonomia eclesiástica de nossa pátria, vê-se o interesse, sente-se a solicitude pastoral com que a Santa Sé acompanha a nova catolicidade. Fala da cidade de São Salvador na Bahia de Todos os Santos com os mesmos elogios da Bula Juliana que criou o Bispado Nacional. Põe em relevo os suores e trabalhos dos reis católicos lusitanos em sujeitarem e desbravarem a terra e o selvagem. As guerras restauradoras contra os hereges holandeses e as missões abnegadas de vários religiosos e outros varões contra as trevas satânicas, a idolatria, o gentilismo e heresias outras, os templos suntuosos, mosteiros e asilos erguidos pela régia munificência, são lembrados no documento pontifical pela consideração do Pontífice — more vigilis Pastoris — como ele próprio afirma.

Várias de nossas capitais foram cidades por direito pontifício, como por exemplo Bahia, Olinda e São Paulo.

Elevou a Bispado a prelazia do Rio de Janeiro, criada por Gregório XIII em Bula de 19 de julho de 1576, o mesmo Papa Inocêncio XI, a 16 de novembro de 1676. O Pontífice chama a nossa grande metrópole de hoje civitas Sancti Sebastiani Brasiliensis Dioecesis in ea parte quae Rivus Ianuarii applelatur, sede de uma só Igreja Paroquial sob a invocação do mesmo São Sebastião. É cidade insigne, diz o Papa, pelo clima salubérrimo, pela população crescente, comércio, pelos mosteiros vários e pelos habitantes seus, nobres e letrados.

Com a Bula Ad Sacram Beati Petri Sedem da mesma data, é instituída a Diocese de Olinda. A Prelazia de Pernambuco devia a sua criação à Bula de Paulo V, de 15 de julho de 1614.

Na Bula de criação do Bispado de Pernambuco, como aliás nas outras, o Romano Pontífice sempre se revela movido pelo desejo de confirmar os débeis na Fé, de instruir os indigentes de doutrina, de chamar os íncolas do Bom Pastor que deu por eles a vida, de plantar novos seminários eclesiásticos. E para realizar estes grandes pensamentos de catolização brasileira, julgava conveniente a constituição de novos prelados. É sob essas apostólicas inspirações do Vaticano que se forma a hierarquia eclesiástica do Brasil, composta desta Trindade constelada: Bahia, São Sebastião do Rio de Janeiro e Olinda, glória avoenga da Igreja no Brasil.

O Bispado do Maranhão foi instituído pelo Papa Inocêncio XI, com a Bula de 30 de agosto de 1667, Super Universas Orbis Ecclesias, que por ser mais fácil ir a Lisboa do que à Bahia de Todos os Santos, segundo reza a Bula, sujeitou a nova diocese à metrópole portuguesa. São Luís tinha dois mil habitantes, fama de gente nobre, de muitas letras, homens de armas. Na criação da nova diocese o Papa acentua o mesmo desígnio apostólico: plantar novas sedes episcopais no campo da Igreja Militante, para que por estas novas plantações aumente a devoção popular, floresça o divino culto, sejam conferidos os Sacramentos da Igreja e se promova a salvação das almas. São expressões textuais do ato pontifício de Inocêncio XI. Durante o governo de Dom Frei José Delgarte, da Ordem da Santíssima Trindade da Redenção dos Cativos, quinto prelado maranhense, foi desmembrada do território do Maranhão a nova diocese do Grão Pará pela Bula Copiosus in Misericordia, de Clemente XII, em 4 de março de 1719, no reinado de Dom João V de Portugal, compreendendo a Guiana Francesa. Na Bula paraense, o Santo Padre se afigura no vértice da montanha a estender o seu olhar de Pastor aos confins do mundo, para prover as necessidades espirituais do imenso campo do Senhor. A solicitude do grande pai das almas se sente excitada pela visão das messes que hão de florir, da sua vastidão e dos ásperos e perigosos caminhos que os apóstolos hão de trilhar para promoverem a colheita, a criar igrejas episcopais que ele chama “novas fontes” e “novos pastores”. Desses novos mananciais se hão de abeberar os povos sedentos. É a linguagem do Pontífice.

A 6 de dezembro de 1745 o douto Bento XIV desmembra da Diocese do Rio de Janeiro as igrejas de São Paulo e Mariana e as prelazias de Goiás e Cuiabá, pela Bula Candor Lucis Aeternae. Tem-se vontade de traduzir e citar toda a Bula beneditina para tornar evidente o empenho e o espiritual açodamento com que o Santo Padre, movido dos mesmos sentimentos dos seus augustos predecessores, atende às súplicas do Rei, às preces e apelos de tantas regiões desamparadas, cujas vozes só depois de um ano podem chegar aos ouvidos do próprio Antístite. À Santa Sé, desde aqueles primeiros tempos, não escapa o problema da evangelização brasileira que só pode ter solução satisfatória pela divisão eclesiástica do imenso território.

Haec, ut percepimus, primum manus nostras levavimus ad eundem Unigenitum Dei Filium cuius vices, licet immeriti gerimus in terris, gratias enixe agentes de tam ferventi praefati Ioannis Regis, charissimi Filii Nostri, Filli vere in Christo charissimi, spiritu sibi coelis effuso: inde ad Pastoralem solicitudinem mostram respicientes, votis eiusdem Ioannis Regis catholica pietate dignis Nobis superius expositis, propensius ac celeriter annuimus.

A Bula divide a Diocese do Rio de janeiro em cinco partes para louvor e glória de Deus Onipotente, honra de Sua gloriosa Mãe Maria e de toda a corte celeste e exaltação da própria Fé Católica.

As prelazias de Goiás e Cuiabá foram elevadas à categoria de Bispado a 15 de julho de 1826 por Leão XII, com a Bula Solicita Catholic Gregis Cura, que vem animada dos mesmos intuitos apostólicos pela cristandade brasileira. O mesmo pontífice atendendo às preces de Monsenhor Francisco Correa Vidigal, ministro plenipotenciário do Primeiro Imperador do Brasil junto à Santa Sé, hilari animo sujeita à metrópole da Bahia as Dioceses do Pará e do Maranhão, até então sufragâneas do Patriarcado de Lisboa, pela Bula Romanorum Pontificum Vigilantia, de 5 de junho de 1827.

A Comissão da Assembleia Legislativa, encarregada de examinar essa Bula, mostra-se no seu parecer satisfeita, vendo de certo modo restituída a muito antiga autoridade dos metropolitanos... e diz que os bispos isolados, não reconhecendo outro superior que o Bispo de Roma, sendo tão difícil o recurso, e para muitos, impossível, podiam ser considerados quais monarcas absolutos.

Vê-se que a Comissão ignorava as Bulas de criação daquelas dioceses e que, portanto, sempre para elas existiu o direito metropolitano.

Monsenhor Vidigal comunicava ao Ministro dos Estrangeiros e corte das últimas amarras eclesiásticas a Portugal nestes termos: “Ilmo. e Exmo. Sr. tenho a honra de participar a Vossa Excelência que em conformidade das imperiais ordens, solicitei aqui a separação dos Bispados do Pará e do Maranhão, da sujeição do Patriarcado de Lisboa, como Metrópole, e que ficassem incorporadas na metrópole da Bahia, o que felizmente obtive, e nesta ocasião remeto a competente Bula, a qual vai no próprio original, juntamente com um transunto para ser enviado ao respectivo metropolitano, a fim de que este assim fique inteirado e comunique aos seus novos sufragâneos devendo ficar o original no arquivo do Império. A sua despesa foi de duzentos e noventa e oito escudos e vinte e cinco baiocos, moeda romana, cuja conta remeto também, inclusa. Deus guarde a Vossa Excelência. Roma, 15 de junho de 1827. Ilmo. e Exmo. Sr. Marquês de Queluz, Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, Monsenhor Vidigal”.

O Bispado do Rio Grande do Sul foi criado pela Bula Ad Oves Dominicas Pascendas, de 7 de maio de 1848, pelo saudoso amigo do Brasil, o Papa Pio IX, que se dignou de sagrar o segundo Bispo de Porto Alegre, Dom Sebastião Dias Laranjeiras. É o único Bispo brasileiro sagrado pelo Papa, honra insigne que se dignou a dar ao Brasil o único Pontífice que pisou terras brasileiras — o grande e imortal Pio IX. A cerimônia se realizou na Capela Sistina a 7 de outubro de 1860. Sentou-se o novo apóstolo do Brasil no solo pontifício, deu na presença do Pontífice a benção Papal e na mesa cedeu-lhe o Papa o lugar de honra. Ao despedir-se lhe disse: tome por modelo de suas ações ao Arcebispo da Bahia.

Ainda foi Pio IX que criou o Bispado Diamantino pela Bula Gravissimum Sollicitudinis de 6 de junho de 1854 e a diocese do Ceará pela Bula Pro Animarum Salute de 8 de julho de 1854, tendo como cidade episcopal Fortaleza, que nos mais antigos documentos eclesiásticos aparece no termo latino Arx ou In arce Seará.

Em 1741, escreve o meu pranteado antecessor Dom Agostinho Banassi, a Bula de Bento XIV dirigindo-se a vários bispos, incluía os do Brasil, onde declara os empenhos da Igreja na conversão dos índios e manifesta-se admirado de não haverem cessado todas as vexações, pelo que comina penas eclesiásticas neste sentido e afirma ter escrito a Dom João V para castigar a quem praticasse esses excessos. Era a grande voz romana mais uma vez a vibrar protetora do indígena perseguido.

Pouco tempo depois da descoberta da América, diz Vasconcelos, os naturais dessas regiões eram tidos por vários como não sendo homens. Havia quem os classificasse um pouco acima dos macacos. Doutrina que, espalhando-se pela nova Espanha, foi reprovada pela Bula Veritas Ipsa de Paulo III de 2 de junho de 1537. Assim concluía: “Em vista do que (ele, Santo Padre) determinava e declarava por autoridade apostólica, que os índios eram verdadeiros homens como os mais e não só capazes da Fé de Cristo, senão propensos a ela segundo chegava ao seu conhecimento; e, sendo assim, tinham todo o direito à sua liberdade, da qual não podiam nem deviam ser privados e tão pouco do domínio de seus bens, sendo-lhes livre lográ-los e folgar com eles, como melhor lhes parecesse, dado mesmo que ainda não estivessem convertidos. Pelo que os ditos índios e mais gentes só se haviam de atrair e convidar à Fé de Cristo com a pregação da palavra divina e com o exemplo da boa vida, sendo írrito, nulo, sem valor nem firmeza, todo o obrado em contrário da presente determinação e declaração apostólica”.

Em solene declaração pontifical — doutrina da religião, justiça, liberdade e caridade — recordada apostolicamente para o Brasil, foi defendida e praticada pelo missionário contra a cobiça dos aventureiros sem ideal, sem humanidade, sem cristianismo. Os Papas foram, pois, os grandes e desinteressados amigos de nossa Pátria. No começo da nacionalidade o Papado protege o caráter humano e a propriedade do índio; nos fins do segundo império, se ergue Leão XIII para advogar em nome de Cristo, pai de todos os homens, a liberdade da raça escrava.

“Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a mínima vacilação, a mais leve preocupação de torcer o ensinamento moral para adaptá-lo às circunstâncias políticas. Vi tão somente a consciência moral brilhando como um farol, como uma luz indiferente aos naufrágios dos que não se guiarem por ela”. Assim comentava o grande Nabuco a sua célebre entrevista com o iluminado Pontífice que, depois da Abolição, destina a Rosa de Ouro à Imperial Redentora dos escravos como testemunha eloquente de sua augusta benevolência pela Princesa e pelo Brasil livre.

Na colônia, no império e na república, o Brasil mereceu sempre uma atenção especial da Santa Sé: O reconhecimento dos privilégios apostólicos do Padroado no Brasil colonial, no Brasil monárquico e imperial, a concessão de favores excepcionais e graças em toda a nossa existência política e religiosa até os dias presentes, as seculares relações diplomáticas entre o Vaticano e a nossa pátria e a permuta constante de afetos filiais e cortesias internacionais mostram à evidência que o Papa é uma personagem viva da História Nacional. Que bela e numerosa é hoje a hierarquia eclesiástica no Brasil! A Santa Sé constelou a nossa pátria do Cruzeiro de cruzes peitorais. São dezesseis as províncias eclesiásticas. As dioceses, prelazias e prefeituras se contam por dezenas. A princípio houve, até dos católicos, quem se tomasse de espanto e receio pela multiplicação de tantas mitras. Não ficariam os bispos como uma espécie de Guarda Nacional? Hoje se vê que o bem, resultante desta milagrosa multiplicação do pão pastoral, é incalculável. Esqueciam-se eles de que, no feliz pensamento de São Francisco de Sales, uma só alma, remida pelo Sangue tem direito a um bispo. E no Brasil imenso, vagam dispersos, sem luz, sem amor, sem Cristo, milhares!

Roma, para distinguir a Terra da Santa Cruz, vestiu da amplíssima púrpura romana um dos seus grandes filhos — este velho servidor da pátria, orgulho do meu estado e honra da Igreja brasileira, o Eminentíssimo Cardeal Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro. A púrpura cardinalícia flameja para toda a América do Sul nas mãos do Brasil católico.

De primeira classe é a nossa Nunciatura Apostólica, cuja representação diplomática por varões claríssimos e de grande devoção pela pátria brasileira, chamam-se eles Barona, exaltado calorosamente pelo Barão do Rio Branco, Aversa, Gasparri, nosso grande amigo, Aloisi Masella, já bem da simpatia brasileira em pouco tempo, bem aqui representado pela bela figura de padre e diplomata de Monsenhor Egídio Lari, tão dedicados ambos aos interesses católicos do nosso amado Brasil. Tem sido eles portadores queridos da amizade paterna, delegados nobres do coração do Papa. E como não há amizade sem lágrima, o Papa também tem chorado por nossa causa, e nenhum chorou mais do que Pio IX, chorou quando viu nos cárceres do Brasil dois bispos brasileiros — o douto e apostólico Dom Macedo Costa e o insigne confessor e mártir Dom Vital, de santa memória, arcanjo da Igreja do Brasil.

Chorava pela religião a majestade daquele augusto Pontífice que recebia entre carinhos os meninos do Colégio Pio Latino, destinando ao seminário uma verba especial, para que nas quintas-feiras jamais faltassem doces para os filhos da América. Sublimidade e doçura de Pai!

Quando o Brasil entendeu que devia ser uma República e os seus primeiros estadistas, num momento de ilusão, que a República deveria ser, para infelicidade nossa, agnóstica, os Papas não perderam o amor pelo Brasil. Leão XIII pensou logo no seu batismo e, numa recepção vaticana diante do Arcebispo Dom Jerônimo Tomé, dizia, acarinhando uma criança brasileira: “Havemos de fazer o Brasil uma República bem católica”. E puxava pelo r...

Os Sumos Pontífices são os criadores e protetores da nossa catolicidade, eles que abençoaram os nossos primeiros missionários, educadores da nacionalidade, enviaram os nossos pastores, suscitaram os nossos seminários, restituíram os nossos claustros gloriosos, martelaram os inimigos descobertos ou ocultos da verdadeira religião, criaram as nossas catedrais e basílicas e mandaram coroar solenemente as imagens da devoção nacional como p. ex. a Milagrosa Conceição Aparecida, Rainha do Brasil. Eles que tem honrado os nossos governos e as datas grandes da pátria com mensagens, condecorações raríssimas e representações esplendidas, como a embaixada brilhantíssima do Centenário; eles que em cada discurso a qualquer peregrinação nacional deixam palpitar um grande amor pelo Brasil.

Muito melhor do que eu, os brasileiros que vão a Roma o sentem. E o nosso grande patrício que ali está, o Exmo. Arcebispo Dom Sebastião Leme neste longo encontro de uma hora, bem melhor poderá dar testemunho da ternura do Pontífice pela nossa terra, nossa gente, nossos destinos históricos. E também, nessa ocasião solene, o Papa sentiu, por um dos mais belos, dos mais ricos, dos maiores e melhores corações da nossa raça, quanto o Brasil quer bem ao Vigário de Jesus Cristo na terra.

Pois bem, senhores. Esta nobre e tradicional Paróquia da Glória se reuniu hoje no seu belo e majestoso santuário, para cantar a glória sacerdotal desse continuador da amizade pontifical ao Brasil, desse grande missionário que por abnegados e cultos visitadores apostólicos percorreu o litoral e o sertão brasileiro, dessa águia apocalíptica que, olhando fixamente o sol do futuro nacional, resolve a fundação do seminário brasileiro, auxiliando o próprio pontífice esse centro cultural da intelectualidade católica e sacerdotal da Pátria com um avultado donativo.

Amor com amor se paga. É verdade que o amor como disse Lacordaire, desce mais do que sobe. É maior o amor do Pai do que o do filho. Mas o Brasil quer que o mundo todo saiba que no seu peito há uma flor que não murcha: a gratidão. As homenagens de toda a pátria católica são homenagens filiais ao grande benfeitor da consciência nacional.

A Paróquia da Glória, pelos expoentes maiores da sua espiritualidade católica, de sua cultura católica, de sua graça cristã e de sua família religiosa e do seu povo fiel ao Cristo, ajoelha-se diante do Grande Sacerdote, puro e sublime na sua velhice de outro, branco na sua batina pontifical e na imaculada alvura de seu longo apostolado e pede-lhe a benção de Pai e Hierarca Supremo, a benção do amigo da nossa grande Pátria providencialmente católica, a benção suave e carinhosa do maior de todos os Padres, mas também do Padre que um dia no Vaticano, num gesto indescritível, beijou a bandeira trêmula do Brasil.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

As missões guaraníticas

A expressão “REDUÇÕES GUARANÍTICAS” designa as Missões de evangelização dos índios guaranis organizadas pelos missionários jesuítas no século XVII inicialmente no Paraguai e que se estenderam até o Brasil, na região do atual Rio Grande do Sul. Estes religiosos não se contentaram com um apostolado em pontos de catequese longínquos, isolados uns dos outros. Em vez disso, reuniram os índios em “mini-cristandades”, dedicando-se a uma evangelização profunda, protegida de uma possível má vontade dos colonizadores em relação aos índios.

Infelizmente, a cobiça, conflitos políticos europeus, e a influência da maçonaria provocaram o trágico desaparecimento dessas admiráveis Missões, mas a boa semente, cujos frutos Deus conhece, foi plantada e o exemplo dos missionários ficou como testemunho perene da caridade apostólica da Igreja.

Percorramos um pouco essa página da história...

I – Origem das Reduções

Em 1603, o governador Hernandarias reuniu em sínodo os prelados do território de Assunção (atual capital do Paraguai) e lhes anunciou sua intenção de:

  • pedir ao Conselho das Índias e ao Rei da Espanha a vinda de missionários jesuítas para evangelizar 150.000 indígenas guaranis
  • promulgar leis proibindo a escravização dos índios, praticada por espanhóis.

Seu desejo foi atendido, pois em 1608, o Rei enviou 13 jesuítas europeus decididos a empregar sua fé e suas forças a serviço deste nobre ideal: a conquista espiritual dos guaranis. Além disso, um visitador, Francisco de Alfaro, foi enviado para investigar sobre a situação miserável dos aborígines nas províncias. Como conseqüência dessa visita foram promulgadas Ordens visando melhorar a situação dos índios.

Os missionários estrangeiros aprenderam o guarani e reuniram os indígenas em Missões ou “Reduções” para melhor promover sua evangelização. Eles tiveram de enfrentar o ressentimento dos chefes das províncias e mais tarde as incursões dos bandeirantes de São Paulo, que fizeram calúnias e intrigas contra os missionários sob o pretexto de que eles “super-protegiam” os índios. O conhecido filme “A Missão” nos dá, sobre este ponto, uma idéia exata do terrível conflito em que os religiosos se tornaram corajosos advogados de defesa dos guaranis.

           

II – Os índios guaranis

Na época da descoberta da América, os povos guaraníticos se distribuíam de maneira descontínua por praticamente toda parte sul do continente americano. Eles são descendentes dos índios caraíbas que viviam ao norte da América do Sul. Alguns pesquisadores crêem que os caraíbas são de origem fenícia, outros afirmam que eles são de raça amarela, e muitos situam seus ancestrais na Polinésia. O certo é que provêm de regiões longínquas.

Ao longo de suas migrações, os guaranis se dividiram em diversos grupos, cujos nomes se originavam numa característica de seu território ou de seu chefe, o cacique. Por exemplo: os que viviam na região de Assunção, os índios cariós devem sua denominação ao cacique Caracará.

Alguns se cobriam com um manto de pele de onça ou com um avental de algodão adornado de plumas em toda volta, mas a maioria vivia praticamente nua. Os homens se enfeitavam com penachos e as mulheres com colares e pulseiras de garras e dentes de macacos. Todos andavam descalços.

A palavra “guarani”  significa “guerreiro”. De índole belicosa, eles estavam sempre em guerra uns contra os outros, por motivo de rivalidades de caça ou pesca. Entretanto, o historiador Werner Hoffman afirma que “o povo guarani foi o mais dócil e o mais receptivo à educação entre todos os índios sul-americanos”!

Bem proporcionados, eles eram robustos, de altura mediana e rosto redondo. Seus olhos eram muito escuros, o cabelo negro e liso e a pele de tom amarronzado. Eles não exteriorizavam seus sentimentos com gritos ou choros; seus sentimentos interiores nunca apareciam em seus rostos.

Era a murros e socos, jamais com uma arma, que resolviam os litígios entre parentes e amigos. Os homens se ocupavam da guerra e da caça, as mulheres, da tecelagem, do cultivo da terra e da cozinha.

Na guerra, eram fiéis ao chefe e se mostravam ferozes, corajosos e infatigáveis no combate.

Para se orientar, utilizavam o Ñandú-Pisá, o Cruzeiro do Sul. Esse povo nômade não era apegado a um solo e ignorava o patriotismo e a economia. Filhos de uma floresta rica em frutos e animais que lhe serviam de alimento, eles eram indolentes, aproveitavam o momento presente sem medo do futuro e não desconfiavam dos estrangeiros.

Os guaranis viviam pobremente, na dependência das semeaduras, da caça e da pesca. Para semear, guiavam-se pela posição das estrelas, depois de abater as árvores esperavam a chuva umedecer a terra e então plantavam as sementes. Obtinham colheitas abundantes de milho, mandioca. Sua alimentação era completa e equilibrada, suficiente para lhes assegurar uma boa saúde. Conhecendo perfeitamente o mundo animal e vegetal que os rodeava, eles apreciavam em particular a infusão de ‘mate’.

O sentimento religioso do guarani era interior. Eles ignoravam os ídolos. Seu templo era a natureza. Acreditavam em Tupã, o deus bom, o Ser supremo do universo que se encontrava na brisa e nos sons da floresta. Espiritual,Tupã não podia ser representado. Esse deus criou primeiro os animais e a floresta; depois, de muitas luas, criou o homem, a quem deu inteligência para dominar a natureza e vencer as feras. Um dia deus se retirou para ir viver no sol, que anuncia a alegria, a força e a saúde.

O ser mau é “Añá” e seu astro, a lua minguante, anúncio de desgraças e doenças.

Os guaranis acreditavam na imortalidade da alma e achavam que passariam a uma vida mais feliz, junto às estrelas do céu. Eles eram muito supersticiosos: sempre usavam um saco de couro sobre o ombro contendo três amuletos que o feiticeiro lhes dava, e que deviam lhes trazer felicidade: algumas garras, dentes e pedaços de pele de jaguar para obter uma caça abundante, espinhas de peixe para uma boa pesca e o “payé” para o amor: penas de caburé de irresistível poder.

Seus mitos vinham da natureza que os rodeava: havia o deus do raio, do trovão, da tempestade, das planícies, das águas e outros gênios tropicais. O “Caáyary”, espírito da erva, o “Caagüi-porá”, senhor da floresta, o “Chochí”, pássaro-bússola na imensidão da natureza. Recitavam cantos simples em que os personagens eram o macaco, o papagaio, a raposa, a tartaruga, o jaguar... e a lenda do peregrino branco que percorreu estas regiões, ensinando o cultivo do milho, transformada com o tempo na lenda cristã de “Pai-Zumé”, São Tomás, cujos passos ficaram gravados principalmente no Paraguai.

O guarani contava o tempo em luas que equivaliam aos meses, e em invernos que representavam os anos. Ele conhecia as estações e algumas estrelas como o Cruzeiro do Sul e as Sete Cabras.

Tinham bons conhecimentos de botânica, zoologia e medicina. O médico, na realidade, era o feiticeiro, um homem que se consagrava aos cuidados dos doentes, e transmitia sua ciência de geração a geração. Os mais experientes eram tidos como sábios. O bruxo usava analgésicos e praticava a cirurgia, abria os abscessos, usava cataplasmas, ventosas, utilizava a argila para as fraturas. A flora da região lhes oferecia numerosos remédios naturais para qualquer tipo de doença. Respeitado, o feiticeiro facilmente recebia presentes de sua escolha: peles de jaguar e alimentos variados. Rico, ele podia ter várias mulheres, a exemplo do chefe da tribo.

Os guaranis não sabiam ler nem escrever; seu maior patrimônio cultural era a própria língua, e eles se mostravam orgulhosos disso, esforçando-se por falar com fineza e eloqüência. O padre Lozano escreveu em 1754: “Esta língua é uma das mais ricas e eloqüentes do mundo. Ela foi o francês da América antiga, a língua de referência entendida por todas as tribos”. O guarani dizia que sua língua fazia murmurar as águas e as florestas, porque tinha sido criada pelos ventos. A língua guarani, de fato, sobreviveu à contingências históricas posteriores ao descobrimento e perpetuou-se até nossos dias, no Paraguai e no nordeste argentino.

Gostavam de dança e de música.

Os guaranis dançavam desde os tempos mais remotos; com a dança eles expulsavam os castigos, a tempestade, o inimigo e triunfavam do mal.

Gostavam muito de cantar. Cantavam em honra de “Tupã”, pedindo-lhe uma vida longa; cantavam também uma espécie de “melisma” antes de sair de casa, para encontrar numerosos javalis. Eles cantavam para que “Tupã” diminuísse a ferocidade dos ventos que arrancam as árvores onde as abelhas guardam o mel. Seu único instrumento musical era uma simples flauta de bambu, com a qual eles imitavam os sons da floresta.

Mais tarde, os missionários acharam na música um aliado precioso para atrair e conquistar os guaranis. É claro que precisariam também, sobretudo, de paciência, de bondade e abnegação para civilizar a cristianizar essas almas pagãs. As Reduções constituirão o campo fértil e privilegiado de sua ação.

 

III ― As primeiras Reduções guaraníticas

Os primeiros jesuítas chegaram ao Paraguai em 1609. Os R.P. Roque Gonzáles de Santa Cruz e Vicente Griffi foram designados para o trabalho junto aos guaycurués, os R.P. Marcial Lorenzana e Francisco San Martin junto aos Paranaés e os R.P. José Cataldino e Simon Masseta foram enviados a Guayrá. O governador Hernadarias fez de tudo para facilitar a instalação dos missionários, oferecendo-lhes guias guaranis e o material necessário; foi oferecida até mesmo uma soma de dinheiro correspondente ao que podia receber um “Cura nas Índias”.

A primeira redução jesuíta foi a de “San Ignácio-Guazú” (Santo Inácio o Grande), fundada no Paraguai em 1609 pelos padres Lorenzana e San Martin. Os aborígines paranaés mostraram-se muito receptivos à ação dos missionários, que conseguiram lhes mostrar as vantagens de ter uma família e um lugar estável para viver. Suas paixões selvagens foram vencidas pela força da convicção, da paciência, da bondade e exemplo dos jesuítas.

Infelizmente o mesmo não ocorreu com os índios guaycurués: depois de dois anos de intensos esforços para civilizá-los, o zelo do Padre Roque, futuro mártir, ainda não tinha dado resultados. Nem mesmo a música foi capaz de movê-los. O missionário juntou-se então à redução de “San Ignácio-Guazú”, onde substituiu o P. Lorenzana no comando da missão.

Em Guayrá, os Padres Cataldino e Masseta fundaram, em 1610, as reduções de Loreto e San Ignácio-Mini, que reuniram várias tribos; o Padre Montoya, eleito mais tarde superior da missão, fundará as missões de San Javier de Tayatí, Encarnacion de Nantinguin, San José de Tucutí, Concepcion e San Pedro de Gualacós, Siete Angeles de Tayaobá, Santo Tomás, San Pablo, San Antonio e Jesus e Maria.

Os esforços sobre-humanos dos missionários foram recompensados espiritual e materialmente: as missões eram tão prósperas que as tribos vizinhas por pouco não as atacavam para pilhá-las; os jesuítas criaram então um pequeno exército de guaranis comandados pelo cacique Maracanã que destacou-se em famosos combates.

O bem-aventurado Roque Gonzáles de Santa Cruz

Nascido em Assunção em 1507, esse padre trabalhou no Paraguai, no Brasil, na Argentina e no Uruguai, especialmente junto dos indígenas mais humildes. Jesuíta enérgico e culto, cognominado o “Demóstenes paraguaio”, compôs inúmeros escritos em guarani, assim como numerosas orações aprovadas por todas as reduções (antes disso, o Padre Bolaños, franciscano, tinha composto um catecismo em guarani, cuja capa vemos aqui). Ignorando o repouso, ele percorreu distâncias consideráveis, afrontando os feiticeiros e os chefes de províncias espanhóis. Venerado pelos indígenas, foi agricultor, criador de gado, mineiro, pedreiro, lenhador, médico, artesão... Ensinou o canto, a pintura e o comércio, edificou as igrejas e moradias para o bem-estar de seus guaranis. A redução de San Ignácio-Guazú brotou de suas mãos. Seus habitantes viviam felizes sob sua paternal direção. Ele fundou a missão de Itapuã em 1615, logo depois a de Yaguapuá em 1618 onde os guaranis formaram uma grande comunidade; atacado pela peste, o Pe. Roque conseguiu curar-se preparando um licor à base de plantas da região.

Por ordem de seu superior, ele explorou em uma piroga o rio Paraná, depois fundou, em 1620, a redução de Conceição num afluente do Uruguai. Os habitantes da região eram conhecidos por sua ferocidade; o Pe. Roque não temia a morte, trazendo sempre consigo um quadro da Virgem Maria, a Conquistadora, ao qual ele atribuía seus sucessos apostólicos.

Mais tarde, em 1626, atravessou o Uruguai e fundou a missão de São Nicolau, em terra brasileira.

Depois, ele iniciou a missão de Yapeyú, destinada a ligar as reduções a Buenos Aires; após essa fundação, organizou a de Santa Maria Del Iguazú, nas proximidades do magnífico espetáculo das cataratas. Ele fundará em seguida, perto da embocadura do rio Ibicuy, a vila de Purificação. Os indígenas da região, nômades, não gostavam de cultivar a terra e, aproveitando-se de uma ausência de seu pai espiritual, eles fugiram em direção ao norte. O missionário partiu a procura deles e explorou em sua companhia a região, atualmente os estados brasileiros de Rio Grande do Sul e Santa Catarina, famosos por suas florestas exuberantes e suas terras ricas em pedras preciosas. O Pe. Roque fundou então a redução de Candelária, onde os indígenas finalmente acharam seu equilíbrio.

Em seus últimos anos de vida, o Pe. Roque teve como colaboradores dois jovens jesuítas: os Padres Alonso Rodriguez e Juan de Castillo. Ele penetou com eles as florestas de Caaró, ricas em flores de perfumes exóticos, povoadas de pássaros esplêndidos mas também de animais ferozes. Reinava nessa região Ñezú, cacique poderoso, chefe de 500 famílias. O Pe. Roque os catequizou e reuniu-os numa vila antes de confia-los ao Pe. Juan de Castillo que construiu sua cabana perto da de Ñezú. O cacique era rebelde e orgulhoso. Arrependendo-se de ter prometido deixar suas numerosas esposas, ele negou a religião cristã e resolveu eliminar os jesuítas.

Os Padres Roque e Alonzo, longe de suspeitar das intenções do cacique, tinham-se afastado das redondezas de Ñezú para construir, com a ajuda dos indígenas, uma nova vila. Ñezú, com o coração cheio de ódio, procurava livrar-se dos jesuítas, que passou a considerar como rivais. Ele encarregou os caciques Cuniaracuá, Carupé e Caaburá de matar os religiosos, de incendiar a capela e de atirar ao fogo os corpos para que nenhum vestígio de cristianismo ficasse em sua vila. Ñezú, em pessoa, se encarregaria de fazer desaparecer o Pe. Juan Del Castillo.

Seu plano foi realizado: no dia 15 de novembro de 1628, quando o Pe. Roque instalava o sino da nova capela, um aborígine bateu violentamente em sua cabeça; o Pe. Rodriguez foi morto da mesma maneira enquanto recitava seu breviário. Os indígenas arrastaram os corpos até a capela, incendiaram-na e destruíram a estátua de Nossa Senhora Conquistadora, o cálice e o crucifixo. Um cacique, catecúmeno, tendo repreendido os assassinos, também foi morto imediatamente.

No dia seguinte, eles constataram que os corpos dos missionários tinham sido poupados pelas chamas e do coração do Pe. Roque elevou-se subitamente uma voz: “Vocês mataram aquele que os amava e que queria seu bem; mas vocês só mataram o corpo porque minha alma está no céu. O castigo não tardará a vir, meus filhos virão puni-los por terem maltratado a imagem da mãe de Deus. Mas eu voltarei para os ajudar porque vocês hão de sofrer muito por causa de minha morte”. Trinta e três testemunhas assistiram a esse prodígio. Ouvindo esta voz, os assassinos encolerizados arrancaram o coração, transpassaram-no com uma flecha e lançaram de novo os restos mortais dos padres no fogo. O coração do Pe. Roque ainda permaneceu intacto.

Na sexta-feira, 17 de novembro, às 15 horas, começou o martírio do Padre Juan Del Castillo, que tinha acabado de rezar vésperas. Os emissários de Ñezú amarraram-lhe os braços, alguns índios cobriram-no de golpes enquanto o empurravam em direção à floresta. O missionário, surpreso, perguntou: “Meus filhos, o que estão fazendo?” Eles responderam que iam matar todos os missionários e que os padres Roque e Alonzo já estavam mortos. “Nesse caso, conduzam-me para perto deles e matem-me em sua companhia”, respondeu oreligioso que foi imediatamente jogado por terra. Seu corpo, ferido pelas pedras e espinhos, tornou-se rapidamente, da cabeça aos pés, uma só ferida. O mártir repetia: “Tupanrekê”. “seja por amor de Deus”, em guarani, e “Jesus, Maria”; um testemunho ouviu-o dizer também: “Prendei-me! Vós matareis meu corpo; mas eu irei para o céu!” Depois de ter transpassado seu corpo com flechas, eles lapidaram-no às margens do Ijui e abandonaram-no dizendo: “Que as onças o devorem!” Estas feras, numerosas naquela região, foram menos cruéis que os homens e respeitaram o seu corpo. Mais tarde, alguns índios queimaram o cadáver. Eles entraram também na cabana do jesuíta, destruíram seu cálice e paramentos. Ñezú, triunfante, vestiu-se com a alva e a casula do mártir e, enfeitado de penas, dirigiu-se ao povo: “Doravante, todos vocês serão felizes, suas plantações prosperarão e vocês poderão viver segundo os costumes de seus antepassados. Sou eu quem agora batizará seus filhos”. Fez então que se aproximassem alguns batizados, raspou-lhes a língua para tirar o sabor do sal bento, raspou-lhes a cabeça para eliminar a unção do Santo Crisma, e por fim, lavou-lhes a cabeça, pretendendo assim poder arrancar-lhes todas as graças batismais.

O superior dos religiosos, O Padre Romero, rapidamente informado, enviou duzentos guerreiros a Caaró para recolherem os restos mortais dos mártires. Eles combateram e venceram os indígenas rebeldes. Ñezú teve um trágico fim, seus cúmplices (doze dos principais assassinos, dentre os quais onze se converteram) foram condenados à morte pela justiça espanhola, mesmo tendo os religiosos pedido indulgência. A profecia do coração do Pe. Roque realizou-se ao pé da letra. Esta insigne relíquia foi colocada em seguida num relicário e encontra-se hoje no Paraguai, em Assunção, na Igreja de Cristo Rei, onde muitos milagres lhe são atribuídos.

No dia 22 de janeiro de 1934, o Papa Pio XI declarou bem-aventurados os “Três Mártires das Missões”. O local do martírio, perto da Missão de São Miguel, tornou-se rapidamente um centro de peregrinação, inaugurado pelos próprios guerreiros do Padre Romero.

 

IV ― A organização e a vida nas missões

As Reduções, compostas de três ou mais jesuítas e mais ou menos 4.000 indígenas, eram sempre construídas segundo um mesmo plano.

A planta (abaixo) da Missão de São Miguel mostra muito bem o esquema de uma Redução: uma praça central (com 130m de extensão) em torno da qual se encontrava a igreja, com a casa das viúvas e órfãos (“cotiguaçu”) de um lado e a escola, a casa dos missionários e os ateliês do outro; atrás da igreja se estendiam o pomar e a horta. As moradias dos guaranis se erguiam do outro lado da praça. Nos outros dois lados situavam-se o conselho da Missão, uma portaria, uma hospedaria, capelas, um relógio de sol e mais adiante, uma prisão. No centro erguia-se uma imagem da Santíssima Virgem  ou do santo padroeiro da Missão. A praça servia para as grandes festas religiosas ou civis.

As casas eram de pedra, retilíneas, separadas por corredores largos; os tetos eram de telha, os muros tinham um metro de espessura. Essas habitações tinham uma chaminé e, às dependências principais juntavam-se outros aposentos. Mais além, ao redor da Missão, trincheiras e um muro de defesa a protegiam contra os indígenas selvagens e os bandeirantes.

A igreja era o único luxo da vila. Os talentos artísticos dos guaranis e suas aptidões manuais permitiram a edificação de verdadeiras obras primas de pedra talhada. O altar mor era dourado, os cálices ornados de pedras preciosas brasileiras, os sinos fundidos na redução de ‘Apóstolos’ com o cobre da região. As imagens de madeira pintada também eram feitas por escultores indígenas, sob a direção dos jesuítas.

Os altares eram abundantemente ornados de flores, muito numerosas na região durante todo o ano. Cerimônias esplêndidas, com coros e orquestras embelezavam as festas solenes. A Semana Santa era acompanhada de representações da Paixão; Natal e festas de Nossa Senhora eram particularmente solenizadas, assim como Corpus Christi, com uma magnífica procissão, e também a festa de Santo Inácio, padroeiro ilustre das Reduções. Depois da missa da manhã, seguiam-se uma procissão e alguns exercícios militares na praça, assim como provas de cavalaria e um simulacro de luta. Ao meio dia, todos se reuniam para uma grande refeição. À tarde, uma peça de teatro, alusiva ao acontecimento, era interpretada; seguiam-se danças coreográficas acompanhadas de uma orquestra; nos entreatos, artistas recitavam poesias ou tocavam música com instrumentos de sopro ou de corda.

A perfeição artística era tal que as representações podiam ser dignamente feitas diante de reis e imperadores.

E quando a noite estendia seu manto estrelado, fogos de artifício multicolores concluíam essas horas de alegria e de luzes.

O Governo Civil era exclusivamente indígena: era constituído de um conselho (“cabildo”) composto pelo cacique ― a maior autoridade ― por três oficiais reais, três administradores, alguns almotaceis e pelos representantes dos bairros da Missão. O cargo do cacique era hereditário, mas em certos casos o governo civil de Buenos Aires e do Paraguai o designava, sob a recomendação dos padres jesuítas. Todos os outros membros do conselho eram eleitos por votos (o novo Conselho era eleito pelo anterior) ao fim de cada ano. Outros dois cargos eram importantes: o de “Carapiraracuara” (porteiro) e o de “Tuparerecuara” (sacristão). A execução da justiça era atribuição dos jesuítas: a pena era um autocastigo ou chicotadas; algumas vezes a prisão. Certas fontes falam do exílio como pena suprema.

Se eram os jesuítas que davam as instruções, eram os próprios guaranis que asseguravam a organização e o cumprimento dos trabalhos. Assim reinavam a harmonia e a disciplina sob a presença da silhueta amiga do missionário. O sino chamava às atividades: orações, catecismo, escola, trabalho...; ir à Missa durante a semana era voluntário. O trabalho durava seis horas por dia. A partir de sete anos, a criança participava da vida civil e religiosa da Redução. Completava sua educação cristã e sua instrução musical e coreográfica num atelier se tivesse dons artísticos. Caso contrário, trabalhava nos campos. As escolas tinham bons professores indígenas que ensinavam os pequenos a ler, escrever, contar, assim como as bases da doutrina cristã. As mulheres aprendiam também a cozinhar e a costurar. Os mais jovens trabalhavam, colhiam frutos, cuidavam das flores do jardim, caçavam os insetos e animais nocivos, treinavam o arco e flecha.

Cada família dispunha de partes de terra, uma chamada “Tupambae” (propriedade de Deus), a outra “abambae” (propriedade do guarani), que ela devia trabalhar e cultivar para mais tarde passar a seus descendentes.

As primeiras culturas eram a de milho, mandioca, batata, legumes, árvores frutíferas e erva mate, muito consumida na Redução. Como falamos acima, esses tipos de trabalho eram novos para os guaranis, especialmente o de fazer provisões.

A “propriedade de Deus” era destinada à comunidade e para as necessidades de base da Missão: pagamento de impostos , trocas, vendas, etc. O indígena devia trabalhar nesse local dois dias por semana, três horas pela manhã e três pela tarde. A “propriedade do indígena” era destinada ao seu próprio consumo.

Além do mais, os guaranis consagravam-se também à extração de pedras para o trabalho de construção. Faziam pontes de pedra, moinhos hidráulicos, subterrâneos, canais de irrigação e fontes de água pura (fotos).

Aprimoravam também a criação de gado, sobretudo na atual região de Corrientes. Em 1768, contavam-se 656.333 cabeças, sem falar dos outros animais que completavam sua economia.

Faziam trocas entre eles mesmos e com as Reduções vizinhas. Vendiam também nos centros urbanos espanhóis de Santa Fé, Córdoba, Buenos Aires e exportavam para outros países. O mercado central das Reduções situava-se em Santa Fé (Bs. As.). Os padres procuradores, ecônomos da Companhia de Jesus nas Reduções, faziam as trocas comerciais e defendiam os interesses da ordem face às autoridades. Iam também à Europa para vender o couro. Podiam levar numa só viagem 30.000 vacas, o que era uma fortuna. Os navios voltavam carregados de papel, livros, seda, telhas, pinturas, ferramentas, instrumentos de cirurgia, metais e sal em abundância...

A capital das trinta Reduções era Candelária e a sede principal de todas elas encontrava-se em Córdoba.

 

Atividades do dia

4h00: O hebdomadário tocava o sino para o despertar.

4h30: Oração mental.

5h00: O porteiro abre as portas para os sacristãos, os cozinheiros e os tocadores de tambor acordam as crianças. Os padres do setores são informados.

5h30: O sino chama para a Missa.

6h00: Missa.

7h00: Os trabalhos do dia são distribuídos de acordo com a autoridade civil. O café da manhã é servido às crianças. Ensaio de orações.

8h00: Visita aos doentes, cerimônia de enterros. Depois tomam mate, antes de se aplicarem ao trabalho.

8h30: As crianças vão para a escola. Os professores dirigem seus trabalhos.

9h00: Confissão dos adultos, controle de atividades escolares e dos trabalhos nos ateliês.

11h00: Os cozinheiros levam o almoço aos doentes.

12h00: Almoço.

13h00: Descanso.

14h00: Retomada dos trabalhos.

16h00: Catecismo.

18h00: Oração, colação, acompanhamento dos defuntos.

19h00: Recitação do Ofício; cada um volta para sua casa.

20h00: Jantar.

20h30: “Apaga-se a fogueira”

A vida artesanal e cultural

Os artesãos e artistas guaranis: tecelãos, escultores, pintores, metalúrgicos, impressores, historiadores rivalizavam em competência, segundo o testemunho de numerosa peças que chegaram até nós.

O mais surpreendente foi, talvez, a criação da primeira gráfica na Redução de Loreto em 1700 pelos padres Serrano e Neuman; a de Buenos Aires é posterior. Lá foram feitos um ‘Martirológio romano” (a obra impressa mais antiga, conservada na Argentina, realizada em 1705 pelo indígena Juan Yapai), “A diferença entre o temporal e o eterno”, de Juan José Nieramberg e numerosos outros livros como calendários, tabelas astronômicas, partituras de canto...

As Missões possuíam geralmente uma boa biblioteca (Loreto, mais de 300 livros, Corpus por volta de 400, Santiago mais de 180, Candelária, 4724).

No colégio aprendia-se a ler e escrever em três línguas: guarani, espanhol e latim. Aplicavam-se particularmente à música. Em San Ignacio, funcionou um dos primeiros conservatórios de música (a foto mostra a entrada da sala de música), com seus próprios cantores e instrumentalistas: violinistas, violonistas, flautistas e organistas. As orquestras guaraníticas eram compostas de violinos, trompetes, címbalos, harpas, violões, etc., e não tinham rival no Rio da Prata nem no Paraguai. Sua competência era tal que os governadores os convidavam para apresentarem-se em Buenos Aires, na festa de San Ignacio. Pouco a pouco os indígenas começaram a fabricar seus próprios instrumentos ( o melhor artesão foi um índio de São Miguel, Ignacio Paira ), sob a direção de grandes profissionais jesuítas, como o Pe. Sepp, que construiu em Candelária o primeiro órgão de madeira da América. Fez igualmente, em Yapeyu, as primeiras harpas indígenas que obtiveram grande sucesso. O primeiro mestre de orquestra foi o padre belga Juan Vaseo, antigo músico da corte.

O teatro ocupava também um lugar importante. Os índios mais dotados interpretavam vidas de santos ou de personagens célebres. Certas obras, vindas da Europa, eram traduzidas para o guarani, outras eram escritas na própria Redução. A língua Guarani, com muitas nuances, exprimia perfeitamente o pensamento e os sentidos. Quase sempre os grupos de teatro eram convidados para ir interpretar obras clássicas.

No século VIII os aborígines forneceram intelectuais e artistas de valor, como Nicolás  Yapuguay, cacique e músico da Redução de Santa Maria. Ele escrevia em guarani com grande clareza e elegância, tendo dois de seus livros sido levados à gráfica. O índio Melchor  escreveu a história de sua cidadezinha Corpus Christi. O índio Vásquez de Loreto era também um bom escritor. O guarani Kabiyú era um excelente pintor, que por volta de 1618 fez maravilhas, como uma Virgem das Dores, que hoje em dia se encontra em Buenos Aires. Em São Tomé vivia o ourives e escultor Gabriel Quiri; ele trabalhava com ouro, prata, pedras preciosas (ametista e topázio) e quartzo como os melhores especialistas europeus.

Com os metais extraídos das minas (ouro, cobre, prata, ferro) os indígenas faziam verdadeiras obras de arte destinadas principalmente à ornamentação das igrejas. Fabricavam também utensílios e armas.

O trabalho na madeira suscitou também artistas talentosos,  autores de numerosas estátuas policromadas. Dentre eles destacamos o índio José, que fez em 1780 uma estátua do “Senhor da humildade e da paciência”, conservada na Igreja de São Francisco de Buenos Aires, e considerada um dos marcos iniciais da arte nacional argentina.

Numerosos jesuítas que chegaram às missões já eram conhecidos na Europa por sua habilidade num ou noutro domínio técnico ou artístico. Contribuíram muito para a excelente formação dos guaranis. A tal ponto que a cultura geral das missões jesuítas ultrapassava aquela de algumas cidadezinhas espanholas! Eis alguns nomes destes jesuítas, entre os mais famosos:

―    Juan Primoli (que construiu a igreja de São Miguel, cuja maquete vemos ao lado) e Andrés Blanqui, arquitetos.

―    José Brassanelli, arquiteto, pintor e escultor.

―    Luis Verger e José Grimau, pintores.

―    Carlos Frank, carpinteiro e engenheiro mecânico.

―    Cristián Mayer, relojoeiro.

―    Buenaventura Suárez, fundidor de sinos e astrônomo, que ficou célebre até na Ásia por seu lunário publicado na Europa.

―    Antônio Sepp, considerado o pai da siderurgia argentina.

E outros geógrafos, botânicos, médicos, especialistas em armas e zoólogos, chamados pelos jesuítas para ensinar os guaranis. Todos estes mestres se fizeram guaranis com os guaranis para civilizá-los. Merece menção à parte a estátua de São Miguel, da missão de mesmo nome, representando o Arcanjo tendo sob os pés o demônio... com os traços e vestimentas dos bandeirantes, cuja crueldade e cupidez foram uma das causas do fim das Reduções

 

V ― Os bandeirantes

Os jesuítas fundaram cerca de 60 missões, mas somente 30 (com mais de 100.000 aborígines) alcançaram um verdadeiro desenvolvimento: 8 no Paraguai, 7 no Brasil e 15 na Argentina (4 na província de Corrientes e 11 na de Misiones) – ver mapa abaixo. De fato, muitas sofreram ataques incessantes dos bandeirantes, cujo objetivo era caçar guaranis e vendê-los como escravos. Em 4 anos eles destruíram 4 vilas das Missões e capturaram 60.000 aborígines. Porque essa terrível caça ao ser humano e esse obstáculo ao apostolado da Igreja? Quem eram esses bandeirantes?

A Companhia de Jesus, instalada em Guayrá, começou a procurar um caminho através do Brasil que conduzisse ao Atlântico. Apesar de viverem mais ao norte, em São Paulo, os bandeirantes interditaram qualquer avanço jesuíta ou espanhol. Eles reagiram violentamente ao impulso missionário e à tentativa de colonização espanhola, atacando as reduções e capturando os indígenas civilizados. No começo, os jesuítas tentaram resistir a essas agressões, não hesitando a partilhar a sorte dos indígenas quando não conseguiam livrá-los do cativeiro. Desse modo chegou-se a ver os Padres Masseta, Mansilla e Ruiz acompanharem os guaranis acorrentados para pedir  justiça às autoridades de São Paulo.

Os missionários escreveram relatórios ao Conselho das Índias sobre esses ataques assim como sobre as intromissões dos mestiços bandeirantes ― filhos de portuguesas e de índios ― até em regiões pertencentes à Espanha.

A Coroa portuguesa, sensível a esses pedidos, tinha ordenado que os escravistas fossem castigados e os aborígines, libertados. Foi em vão. Os paulistas utilizaram como pretexto um documento do rei de Portugal, Dom Sebastião, datado de 1570, que autorizava pegar como escravos os indígenas prisioneiros de guerra; legitimavam dessa maneira todo abuso, aproveitando-se de que os escravos tinham sido capturados em território português. O Guayrá era espanhol, mas porque privar-se de ir lá e capturar aborígines bastante úteis para trabalhar no campo e nas minas? Além disso, os indígenas civilizados pelos jesuítas eram mais capazes e menos agressivos do que os indígenas selvagens!

Os famosos bandeirantes Antônio Raposo Tavares e Manuel Pires atacaram o Guayrá com 2.000 índios tupis (tribo do leste do Brasil dominada pelos paulistas). O assalto foi extremamente violento, um padre jesuíta foi morto, os outros maltratados e, apesar de sua bravura, 30.000 indígenas guaranis foram aprisionados e conduzidos algemados a São Paulo.

Os padres Masseta  e Mansilla acompanharam-nos a pé até São Paulo e depois foram ao Rio de Janeiro para pedir justiça. Mas os ricos bandeirantes lusitano-brasileiros não quiseram ouvir nada, afirmando que as Reduções guaraníticas eram “um império cultivado, mas tirânico e injusto, uma república infame, um órgão perverso”. Em Portugal, repetiam-se as mesmas mentiras: “Os jesuítas acusavam Portugal de roubar indígenas catequizados nas Reduções para fazê-los trabalhar como animais, mas, na realidade, as missões eram, elas próprias, um império de índios escravizados” ou “os religiosos incitavam os índios a uma resistência armada, dando-lhes boas armas e ensinando-lhes as estratégias e táticas modernas”. Os bandeirantes detestavam as Reduções construídas no Guayrá, nas terras meridionais do Brasil, porque elas lhes impediam de alcançar a fronteira oeste até o rio Paraguai, limite geográfico pretendido de seu país.

É verdade que o imenso Brasil deve sua amplitude geográfica e uma boa parte de sua configuração atual às “realizações” dos bandeirantes, mas é igualmente evidente que eles foram a causa mais direta da ruína das Missões do Guayrá e do Tapé.

Essas contrariedades acabaram por vencer os jesuítas que, de comum acordo com os caciques guaranis, decidiram abandonar para sempre as treze Missões do Guayrá, fundadas com tanto sacrifício e abnegação. Foi o grande êxodo de 1631.

 

O grande êxodo

Essa migração lenta e dolorosa de 12.000 indígenas guaranis teve por chefe o jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, seguido pelos padres Suarez, Martinez, Espinosa, Contreras, Masseta, Cataldino e outros ainda. A perda nas cataratas no Iguaçu de várias pirogas com o carregamento de provisões, chuvas torrenciais, insetos de incrível voracidade, os obstáculos naturais, a peste e outras tantas dificuldades consideráveis fizeram do Padre Montoya um verdadeiro herói que, como um pai, conduziu os guaranis sãos e salvos até as Reduções argentinas.

Os nomes das antigas Reduções foram conservados; o mapa (abaixo) nos mostra o lugar definitivo das Missões jesuítas. Deve-se notar que as sete Reduções brasileiras se estabeleceram definitivamente depois da vitória de Mborore, que impediu por muito tempo ataques posteriores de bandeirantes paulistas.

 

A batalha de Mborore

Em 1639, os bandeirantes atacaram a vila de Xerez, em terra paraguaia, e ameaçaram Assunción, sempre com o pretexto de chegar até o rio Paraguai, limite geográfico, diziam eles, do Brasil. O governador do Paraguai, Don Pedro Lugo de Navarra, pediu ajuda a 4.000 indígenas das Missões guaraníticas. A administração colonial espanhola tinha dado autorização aos guaranis para utilizar armas de fogo, autorização que será, em 1643, confirmada pela coroa espanhola.

Numa manhã de março de 1641, chegaram ao rio Mborore 450 paulistas, acompanhados de 2700 índios tupis, navegando 300 pirogas.

O general guarani Ignacio Abiaurú, ajudado pelos irmãos leigos Domingo Torres e Antonio Bernal, reuniu seus 4.200 soldados, munidos de flechas, lanças, canhões e de 250 arcabuzes. A luta, de uma violência extrema, durou três dias. Os paulistas foram vencidos e vários índios tupis passaram para  lado dos guaranis civilizados.

O general Abiaurú tornou-se uma figura célebre entre os heróis guaranis. Outras vitórias se seguiram em 1647, 1651 e 1655. Depois disso, as tropas paulistas não ousaram mais avançar por longo tempo na direção oeste, onde as sete reduções brasileiras de São Francisco Borja (1682), São Nicolau (1687), São Miguel (1687), São João Batista (1697) e Santo Anjo da Guarda (1706) alcançaram um pleno florescimento até 1750, ano do Tratado de Madri.

 

VI ― O FIM DAS REDUÇÕES

O tratado de Madri (1750)

Uma novidade surpreendente chegou um dia às Missões: “Um tratado de permuta”, um tratado de troca, tinha sido assinado em Madri entre Espanha e Portugal em favor dos interesses portugueses. A colônia de Sacramento (o Uruguai) e as ilhas Filipinas tornavam-se espanholas, enquanto que as sete Reduções do Rio Grande do Sul (chamadas “Os Sete Povos das Missões”) tornavam-se portuguesas. Tinha sido decidido que os índios sairiam das Reduções e o governo português daria 4.000 pesos a cada vila. Esse tratado pode ser explicado pelo parentesco entre Fernando VI de Espanha, casado com Bárbara de Bragança, e o monarca português, pai de Bárbara, mas também pela poderosa influência da maçonaria portuguesa, da qual era membro ativo o tristemente célebre ministro português, Marquês de Pombal, inimigo ferrenho dos jesuítas...

 

A guerra guaranítica

Os 3.104 guaranis das sete Reduções se recusaram a deixar suas terras, suas casas, suas igrejas. Os padres jesuítas não conseguiram convencê-los a ir embora... Eles consideravam injusta a ordem do rei, a quem eles tinham sempre servido fielmente. Iam eles deixar para os bandeirantes, seus terríveis inimigos, os frutos de tantos anos de trabalho? Impossível; preferiam desobedecer, com armas na mão, à ordem injusta do rei.

Seu chefe era o general de cavalaria Tiarayu, muito popular, conhecido pelo nome de Sepé. Era considerado, pela sua coragem e sua habilidade no combate, como o mais terrível guerreiro da época. Não muito longe, as tropas espanholas e portuguesas aguardavam prontas para o combate, caso as ordens reais não fossem respeitadas.

A guerra durou de 1753 a 1756.

O primeiro assalto terminou com a vitória dos espanhóis e dos portugueses, fortemente armados. Por ocasião de um segundo combate, Sepé foi feito prisioneiro, conseguindo fugir. Em 1756, ele chefiou novamente um exército guarani, agora mais forte do que nunca. Mas o exército espanhol-lusitano obteve a vitória e Sepé, a alma de seus soldados, foi morto em combate. A piedade popular conta que os indígenas viram então um cavalheiro montado num cavalo de fogo entrar no céu...

O número de guaranis mortos em combate foi enorme; entre os corpos sem vida estendidos sobre o campo de batalha, contavam-se vários jesuítas que tinham tentado proteger seus filhos revoltados.

O general Nicolas Languirú sucedeu Sepé. Mas ele também sucumbiu durante a sangrenta batalha de Caybaté. Com sua morte, os guaranis, vencidos, tiveram de deixar suas terras. Assim terminaram as guerras guaraníticas.

É claro que essas guerras são conseqüências das manobras do Marquês de Pombal, desejoso de acabar com o poder militar indígena que punha obstáculo, sob a proteção e o controle do inimigo jesuíta, à expansão territorial portuguesa no Brasil. Além do mais, os adversários dos jesuítas eram numerosos, poderosos e cobiçavam a riqueza das Reduções guaraníticas, cuja organização era admirada da Europa...

 

A expulsão dos jesuítas e o fim das Reduções

Uma campanha de difamação foi lançada contra os jesuítas na Europa e na América. Os missionários eram acusados de suscitar a guerra guaranítica e de conspirar contra a monarquia  para instaurar uma república independente. Os ministros liberais Aranda, Floridablanca e Campomanes acusavam particularmente os jesuítas de frear o desenvolvimento da população da América, proibindo os indígenas de trabalhar nas comendas (das quais conhecemos os métodos); eles os acusavam também de não exigir dos indígenas o uso da língua espanhola e de fazê-los trabalhar de maneira excessiva para poder enviar milhões de pesos ao Superior Geral da Companhia , etc., etc....

O ímpeto dos detratores foi tal que o Imperador espanhol Carlos III terminou por escutá-los e assinou o decreto de expulsão dos jesuítas, aprovado pelo papa Clemente XIV, no dia 27 de fevereiro de 1767. O Papa depois arrepender-se-á amargamente dessa decisão. Carlos III, sem querer, legalizou as conquistas portuguesas e fixou os limites atuais das fronteiras do Brasil naquela região.

Carlos III, em 1761, tinha assinado o Tratado do Pardo que anulava o de Madri e ordenava os guaranis a voltar a suas terras, agora espanholas. Mas suas queridas Missões estavam em ruínas e eles tiveram de escolher entre duas opções: ou aceitar um novo sistema  que suprimia a organização comunitária dos jesuítas e impunha uma língua e um estilo de vida europeu, ou abandonar a vila. Os guaranis escolheram, evidentemente, a segunda opção. A decadência instalou-se rapidamente, com seu triste cortejo de miséria, fome, doenças e vícios.

As ruínas das Missões dos guaranis fazem, infelizmente, parte do Patrimônio Mundial da Humanidade. Se os olhos do turista as admiram, seu coração geralmente permanece indiferente porque não compreende a razão de ser dessas Missões. O próprio turista tornou-se um selvagem munido de computador, afastado de Deus e do doce Reino de Cristo Rei.

Os missionários jesuítas tinham compreendido que se deve “Tudo restaurar em Cristo (Ef 1,10), OMNIA INSTAURARE IN CHRISTO”: as almas, as famílias, a sociedade política, a economia, as artes. As Reduções guaraníticas foram a realização dessa divisa de São Paulo, que também foi a de São Pio X, e é a da Igreja. Saibamos combater por esse ideal.

 

Bibliografia:

 

―    Las reducciones guaraníticas, Ana Maria Galleano.

―    Las Misiones Jesuíticas, San Ignacio Miní, César Omar Balbuena.

―    São Miguel das Missões, Secretaria Municipal de turismo e cultura de São Miguel, Brasil.

―    Santos Mártires das Missões, Estanislau  A. Kreutz.

―    Missões jesuíticas dos guaranis, CD-ROM da Associação Amigos das Missões

 

(Publicado originalmente no jornal "Guarde a Fé", da FSSPX no Brasil)

Carta Aberta ao meu General

Dom Lourenço Fleichman OSB

Queria agradecer as palavras que o senhor me dirigiu por causa do meu artigo defendendo o Movimento militar de 1964 que salvou o Brasil do comunismo.
De fato, os livros que nossos oficiais da reserva têm escrito mostram ao povo brasileiro não somente a bravura dos nossos soldados, que deram suas vidas pela Pátria, como também a crueldade, a maldade e a traição que os terroristas usaram, quando ainda não estavam no poder, para impor ao Brasil sua ideologia de morte e escravidão.

Trago de minha formação em torno de Gustavo Corção a admiração pelos feitos das nossas Forças Armadas nesta luta terrível, nesta guerra. E é com minha lembrança ainda viva que recordo as notícias que lia, ainda muito jovem, nos jornais, sobre assaltos a bancos, seqüestros de aviões, seqüestros de embaixadores, entre outros crimes. Movido, talvez, pela imaturidade dos meus quatorze ou quinze anos, nunca percebera que estes crimes não eram cometidos por assaltantes comuns, mas por terroristas guiados por um desejo de levar a luta armada ao campo, e dominar as cidades com sua doutrina escravagista.

Visita a uma exposição

Quando me recomendaram visitar a exposição Brasil 500 anos - Arte Barroca, realizada no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, alertaram-me para alguns detalhes que poderiam me desagradar. Fui e saí chocado com o que vi, e principalmente com o que ouvi.
 
A exposição, realizada com todo o requinte da modernidade, agrupa um impressionante acervo de estátuas barrocas, todas religiosas, cada uma delas merecendo do visitante alguns bons momentos de olhar contemplativo, silencioso, para poder assimilar na lentidão de nossas parcas almas, a grandeza do que estes grandes homens fizeram antes de nós.
 
Mas toda essa impressionante grandeza é jogada no chão, achatada, pela parvoíce, pela pequenez, pela submissão ao modismo (que é falsa cultura), dos curadores. E quando digo que é achatada, não falo apenas no sentido figurado,  mas até fisicamente, pois inventaram uma entrada e saída onde somos forçados a nos abaixar, talvez para procurar nos nossos intestinos algum traço dos tempos dos macacos!
 
Quando entramos na primeira sala temos a impressão que a mostra será excelente. Uma naveta de carregar incenso litúrgico, de prata, pequenina como é, enche literalmente a sala toda. É aqui que devemos nos abaixar e vai tudo por água abaixo. Na sala seguinte um ambiente escuro ornado por centenas de paus, troncos lisos, formando um cenário com pretensões ecológicas ou lá o que seja, abriga aqui e ali algumas estátuas barrocas. Esse cenário passaria desapercebido não fosse a sonorização, que nos lança de supetão, não no ambiente barroco e católico do século XVII ou XVIII, mas num sincretismo religioso pseudo-ecumênico, onde os sons misturam gregoriano com batuque do candomblé, o berimbau com as cordas de uma viola da gamba. E isso não é uma sucessão de músicas diferentes, mas uma mixagem que joga nossa alma num liquidificador espiritual, de onde só sentimos uma única sensação: ir embora o mais rápido possível. E só não saímos correndo de verdade porque as imagens são belíssimas e merecem o esforço e o sacrifício.
 
As outras salas são ornadas com uma espécie de campo florido, composto de bolas de papel colorido fixados no alto de pontas de vergalhão. Se já não é mais a ecologia, não saberia dizer o que quiseram representar; o fato é que a pobreza do cenário nada tinha de religioso, de espiritual, o que era necessário para bem apreciar obras de arte religiosa de um tempo revoluto. Senti muitas saudades da Mostra dos Espanhóis.
 
Duas coisas mantinham-se como na sala anterior: a beleza sem par da estatuária e o distúrbio mental e espiritual causado pela mistura das músicas.
 
Ao nos aproximarmos do fim, entramos numa sala onde foram expostas as pratarias cinzeladas e o ouro cintilante dos objetos litúrgicos. Belíssimos. A curiosidade dessa vez fica por conta da forma como são expostas as peças. Andamos sobre um piso de vidro blindex e as peças ficam debaixo do vidro. Invenção apenas desnecessária e "modernosa", se não tivessem tido o mau-gosto (já não é o primeiro) de expor uma imagem de Jesus Cristo crucificado, debaixo dos nossos pés! Para quê? Só para dar o gostinho aos infiéis de dizer que "pisaram" em Cristo? Pois é o que os curadores dessa exposição fizeram com a desfiguração do Barroco Brasileiro que ali criaram. E digo isso levado pelo choque que senti ao entrar na última sala. Ali estava estampada a razão de ser daquela música sincretista e irracional: a última sala é dedicada à macumba, às imagens da macumba; e no fundo dela, uma parede inteira com a foto do Cristo coberto de plástico que a afronta, o sacrilégio e o desrespeito dos carnavalescos levaram para o Carnaval alguns anos atrás. Nessa eu não fiquei. Mas entendi o porquê daquela música: a grande mensagem da mostra Barroco Brasileiro é de nos fazer crer que a continuação da arte religiosa brasileira encontra-se na macumba, e que a cultura desse povo é o carnaval!
 
Dizem que cada povo tem o governo que merece. Pois também é verdade dizer que cada povo tem a cultura que merece. E a cultura da barbárie é falsa cultura, como o culto dos demônios e dos espíritos é falso culto. E se essa é a cultura do Brasil de  hoje, então não existe mais cultura no Brasil.
 
Foi o que procurei dizer numa carta que deixei aos curadores, lá no museu. Carta que certamente não será lida. E se for, não mudará nada, pois os homens não querem mais conhecer a verdade e desconhecem que o Belo é o eterno esplendor da Verdade que é Deus.
 


Protomártires do Brasil

“Trata-se de dois casos de martírio coletivo ocorridos em localidades do interior do Rio Grande do Norte, na primeira metade do século XVII. Vivia-se o conturbado período do domínio holandês no Nordeste do Brasil (1630/­1654), quando as autoridades flamengas, influenciadas pela Igreja Cristã Reformada Calvinista, iniciaram verdadeira perseguição religiosa às pequenas comunidades nascentes de católicos da então Capitania do Rio Grande, que começavam a se organizar. A situação agravou-se de tal maneira que culminou com o holocausto de numerosos cristãos dessas comunidades...”
 
(Trecho da Introdução de Protomártires do Brasil, de Mons. Francisco de Assis Pereira, Aparecida-SP,Editora Santuário, 2000) 
 
Os relatos seguintes, que fazem parte de um capítulo do livro referido acima, contribuíram para a Beatificação de 30 mártires brasileiros pelo Santo Padre, no dia 21 de dezembro de 1998.

Dom Vital e a Maçonaria

Nenhum lutador mais impetuoso, mais tenaz e mais capaz que D. Vital, bispo de Olinda, e a impressão que este me deixou foi extraordinária" 
Machado de Assis
 
"Peçam-nos o sacrifício de nossos cômodos; peçam-nos o sacrifício de nossas faculdades, peçam-nos o sacrifício de nossa saúde; peçam-nos o sangue de nossas veias... Mas pelo santo amor de Deus não nos peçam o sacrifício de nossa consciência, porque nunca o faremos. Sic nos Deus adjuvet. Nunca!"
D. Vital, bispo de Olinda

A História do Brasil é mais rica do que parece

O péssimo nível cultural dos nossos centros de ensino (compreenda-se: péssimo nível, em primeiro lugar, dos professores) em geral não permite que os feitos de nossos antepassados sejam mostrados aos meninos brasileiros em toda a sua verdadeira grandeza. Justamente por falta de critério (principalmente por inadequado critério de valor) a beleza de nosso passado não se desvenda de modo feliz aos olhos dos brasileiros — adultos ou crianças. Não por culpa dos fatos. Não por falta de heróis.

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