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Category: Pe. José Maria MestreConteúdo sindicalizado

Artigo 4: Caridade - Exortações de Cristo aos apóstolos

Artigo 4: Caridade - Exortações de Cristo aos apóstolos

Chegamos à segunda parte do discurso de despedida, pronunciada a caminho do Getsêmani, em que encontramos a mesma nobreza de pensamentos e sentimentos, o mesmo tom cheio de ternura e a mesma sóbria emoção. Divide-se em duas seções: Na primeira, correspondente ao cap. 15 de São João, expõe Nosso Senhor quais serão as relações futuras dos apóstolos com Ele, entre si e com o mundo. Resume-se a contento esta seção em três palavras: União, Comunhão, Separação.

 

I. Alegoria da videira ou união de Cristo com os apóstolos

A idéia da união entre Jesus e os apóstolos já ficou dita mais acima; ali a tarefa principal pertencia a Jesus, enquanto agora a parte mais ativa se adjudica aos discípulos. Esta união, fecundíssima em frutos de benção, será mais necessária que nunca depois da partida do Mestre. Nosso Senhor a expressa com a admirável alegoria da videira e dos sarmentos, na qual não se sabe o que há de mais admirável: se o vigor ou a beleza delicada1.

Há duas partes nesta alegoria: primeiro se afirma a união que os sarmentos tem de manter com a videira, e logo se indica o meio de estabelecimento desta união, que é nada mais que a caridade.

 

A videira e os sarmentos

Literariamente duas frases se sobressaem e dominam: uma afirmação – “Eu sou a videira” – e um mandato – “Permanecei em Mim”; as demais são tão-só declarações e aplicações destas duas frases fundamentais. O desenvolvimento alternado da afirmação e do mandato está consignado em quatro períodos ou estrofes bastante regulares: a primeira fala do procedimento do vinhateiro; a segunda, do procedimento dos sarmentos, que é permanecer unidos à videira; a terceira, dos vários destinos dos sarmentos bons e maus; a quarta, do fruto que o sarmento fecundo produz.

1º. A videira e o vinhateiro – Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o vinhateiro. a) Ao lado do motivo fundamental, “Eu sou a videira”, aparece o elemento complementar, “meu Pai é o vinhateiro”. Resume-se aqui o mistério de nossa incorporação a Cristo: Jesus é a videira plantada pelo Pai. A figura da videira é muito useira nos profetas da Antiga Lei para designar Israel2. Neste passo Nosso Senhor declara aos apóstolos que em realidade é Ele a videira verdadeira e Israel só o era na condição de primeiros sarmentos desta videira3; e que o Pai é o vinhateiro, pois Ele concebeu o desígnio de constituir a Cristo Cabeça de todos os homens e de lhes comunicar a vida pela união com Jesus; b) Segue a ação do vinhateiro, a dupla poda, que elimina os sarmentos estéreis e purifica os frutuosos. Todo fruto que não der fruto em Mim, ele o cortará. Antes de tudo refere-se ao incrédulo povo judeu, que, apesar de ter sido chamado para Cristo, não frutificou Nele, mas também a todos os que no transcurso dos tempos, apesar de enxertados em Cristo, não produzem fruto nenhum. E podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. A poda esmerada não se limita ao corte dos sarmentos estéreis, mas abrange a purificação dos frutuosos, extirpando deles os brotos inúteis e redundantes que esterilizam grande parte da vinha. Os sarmentos frutuosos são, em contraste com os sarmentos cortados, todos os que acreditarão na prédica apostólica e, antes do mais, os apóstolos, como conclui Nosso Senhor: Vós já estais puros, i. e., podados (conforme o jogo de palavras do texto grego), pela palavra que vos tenho anunciado. Com a saída de Judas cortara-se da videira o único sarmento estéril do colégio apostólico; os que ali ficaram eram já sarmentos frutíferos, graças à educação santificante que com docilidade e fé receberam do Messias.

2º. A videira e os sarmentos – Cumpre aos sarmentos permanecer na videira: Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. a) Permanecei em Mim: já estais em Mim, incorporados a Mim; em virtude desta união formais comigo um só ser, um só corpo e uma só vida, quais os sarmentos enxertados na cepa, que destarte formam com ela uma só videira. Se já estais em Mim, permanecei em Mim. A vossa união comigo fora antes obra exclusiva de minha graça, porém doravante a manutenção da união comigo não haverá de ser obra de minha graça somente, mas também de vosso livre assentimento e cooperação; b) E Eu permanecerei em vós: se vós livremente mantendes e estimulais vossa união comigo, Eu hei de manter, estreitar e intensificar minha união convosco; c) Contudo, tal reciprocidade não é de perfeita igualdade para ambas as partes, a exemplo da que ocorre entre a cepa e os sarmentos na videira: a Cristo corresponde a iniciativa, a nobreza e a vida toda desta imanência; a nós corresponde tão-só admitir, não repudiar nem enfraquecer esta união; d) E não contente de nos exortar a que permaneçamos Nele, quer o Mestre nos convencer da utilidade e ainda da necessidade de tal permanência. O sarmento não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em Mim. Ou permanência frutuosa, ou separação estéril; mas esta esterilidade acarreta conseqüências funestíssimas, as quais o Mestre vai declarar na estrofe seguinte.

3º. Fins distintos para sarmentos bons e maus – A imagem inicial, Eu sou a videira, se completa com o elemento correlativo: Vós sois os sarmentos. Aqui se esclarece também, até atingir toda sua importância, o pensamento contido nesta imagem, qual seja, a necessidade premente de nossa livre permanência em Cristo. O Mestre formula tal necessidade com uma tremenda disjuntiva: ou permanência e fruto, ou separação e fogo. a) Sobre a permanência frutuosa diz: Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. Está vinculada a esta imanência recíproca a frutificação; sem essa imanência é impossível frutificar. Neste sentido acrescenta o Mestre: Porque sem Mim nada podeis fazer na ordem sobrenatural: nada em vossa santificação pessoal, nada em vossa ação apostólica, que tenha algum valor para a vida eterna; b) Sobre o outro extremo da disjuntiva, a separação catastrófica, acrescenta o Mestre: Se alguém não permanecer em Mim será lançado fora, como o sarmento. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e será queimado. Refere-se o Mestre aos que estão Nele, mas se negam a permanecer, Judas e os judeus infiéis antes de todos. Os verbos integrantes da frase evocam o fogo do inferno que espera os réprobos, bem como o fogo destruidor de Jerusalém, castigo da perfídia judaica.

4º. Frutos dos sarmentos unidos a Cristo – Se permanecerdes em Mim, e minhas palavras permanecerdes em vós: i. e., para permanecer em Cristo é necessário que seus ensinamentos permaneçam em nós, e em nós sejam a luz da inteligência, a regra da vontade e a norma divina de atividade. Para a permanência dos discípulos em Cristo se promete uma frutificação ilimitada, que por sua vez é glorificação do Pai e caráter distintivo dos discípulos de Cristo. a) Acerca do primeiro ponto disse Nosso Senhor: Pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito, o que eqüivale a dizer: “Se permanecerdes em Mim, bastar-lhes-á pedir de boca”. O tema dominante desta frase não é a oração, que aparece meio fora de contexto, mas de forma mais ampla a conquista feliz de todas as nossas aspirações; porém, como o meio normal e providencial para conseguir de Deus os bens desejados é a oração, daí sua menção acidental; b) Acerca do segundo acrescenta: Nisso é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. Realça-se o proveito da abundância de frutos com duas vantagens excelentes: a primeira visa a honra e o serviço ao Pai, que nisso é glorificado; a segunda visa ao Mestre, para quem é gloriosíssimo que a permanência em si seja fecunda em tais frutos, e aos discípulos, que com isso não só acreditam ao Mestre, senão que se tornam de uma vez para sempre discípulos Dele, sendo como tais reconhecidos.

A imagem da videira e dos sarmentos aqui alcança o pleno desenvolvimento, porém o conteúdo doutrinal se desenvolve na seqüência: à permanência dos sarmentos na videira está vinculado o duplo amor do Mestre aos discípulos e dos discípulos entre si.

 

União de caridade com o Mestre

Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Começa o Mestre com uma declaração agradável de duas formas: porque Ele nos ama, e porque compara tal amor com o amor do Pai ao Filho. Enorme há de ser esse amor, para que de algum modo se possa compará-lo com o amor eterno e infinito com que o Pai Celestial ama ao Filho dileto! Perseverai no meu amor. Transformou-se o pensamento fundamental da seção precedente; antes foi dito: Permanecei em Mim; agora se diz: Perseverai no meu amor. Como antes, quer o Mestre significar: Mantende-vos a vós neste amor que vos tenho, tornai-vos cada vez mais dignos de ser amados por Mim. Que deverão fazer os discípulos para não saírem deste amor? Esclarece o Mestre: Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor. A guarda de meus mandamentos, assim como é sinal e efeito de que me amais, será também um meio para que Eu não vos deixe de amar. Neste lugar Jesus apela para uma comparação já feita: Como também Eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor. O Filho, com humilde fruição, se compraz em repetir que guarda os mandamentos do Pai. E que amor o Pai lhe tem! O Pai ama ao Filho, e entregou todas as coisas em suas mãos4; o Pai ama ao Filho, e mostra-lhe tudo o que faz5. Assim Eu vos amarei: se guardardes meus mandamentos, manter-vos-ei sob a influência do meu amor.

Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. A alegria de Jesus é permanecer no amor do Pai, sentir-se inefavelmente por Ele amado; e Jesus quer compartilhar essa alegria com os discípulos, que para tanto devem permanecer em seu amor e sentir-se amados por Jesus. E vossa alegria será completa. O que chamara de minha alegria agora é, por via de comunhão ou transferência, vossa alegria. Desejo que vossa alegria seja completa, tal qual a minha, para que mitigue a tristeza e perturbação que sentis devido à minha ausência, a exemplo da alegria que me faz superar as angústias que oprimem meu coração.

 

II. Jesus exorta os apóstolos a viverem em caridade perfeita e recíproca (Jo 15, 12-17)

Após tratar do amor do Mestre aos discípulos, Nosso Senhor passa a ditar o mandamento do amor dos discípulos entre si, que é conseqüência da mútua inserção na videira. É interessante o desenvolvimento lógico desses versículos: a) No versículo 12 se formula o mandamento: “que vós ameis, como vos amei”, que consta de dois elementos: preceptivo e comparativo; b) Os versículos intermediários, 13-16, desenvolvem o elemento comparativo, da seguinte maneira: os versículos 13-14 procedem por associação concatenada de idéias ou termos afins (“amai”, “amor”, “amigos”), já os versículos 15-16 por dupla antítese (“não servos, mas amigos”; “não de vós para Mim, mas de Mim para vós”); c) O versículo 17, voltando ao ponto de partida, reitera o preceito.

1º. Formulação do mandamento – Este é o meu mandamento. O Mestre chama de mandamento seu ao que antes chamara de mandamento novo. Chama-lhe seu com razão porque: a) foi Ele quem criou e trouxe ao mundo este mandamento novo; b) Ele o constituiu como distintivo ou divisa dos discípulos genuínos; c) Ele se oferece a nós como modelo supremo deste mandamento de amor. Diz Ele mandamento no singular, e não mandamentos, como se não houvesse outros, porque para Ele este único mandamento sustenta e recapitula os demais. Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei. Reitera-se o mandamento antes formulado; tanto aqui quanto ali a partícula como não é meramente lógica (i. e., uma relação entre dois fatos: “Eu vos amei, amai-vos também a vós”), mas expressa e repisa o modo, a qualidade e a medida do amor (“Vosso amor tem de ser como o meu”).

2º. Comparação entre o amor de Jesus e o amor a que somos obrigados – Destacam-se três propriedades no amor com que o Senhor nos ama, e que Ele deseja seja imitado em nosso amor: a) a generosidade, que chega a dar a vida pelo amado; b) a intimidade, que trata os amigos como pessoas para quem não existem segredos; c) a prioridade ou iniciativa em escolhê-los na qualidade de amigos.

a) Generosidade do amor de Jesus – Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos. O sinal do amor são as obras e sobretudo os sacrifícios; e entre os sacrifícios nenhum se compara ao da própria vida, portanto sinal de amor supremo. Este amor que Nosso Senhor, por delicadeza e modéstia, expressa de modo geral, refere-se ao seu próprio amor. A justaposição das duas expressões, “Como vos amei” e “maior amor do que aquele...”, facilmente deu a entender aos discípulos que este amor era senão o amor que Jesus iria mostrar ao mundo morrendo por eles e por todos6. Vós sois meus amigos: como se dissesse: os amigos que amo e por quem estou disposto a dar a vida – sois vós, e assim continuareis a sê-lo, se fazeis o que Eu vos mando. Que é que lhes ordena? Acabou de dizer: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”. Como vos amei? Com o maior dos amores, ao dar a vida por vós, meus amigos. Eis o mandamento; portanto deveis amar-vos uns aos outros até estarem dispostos a dar a vida uns pelos outros 7.

b) Intimidade do amor de Jesus – Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor, i. e., ignora seus pensamentos e planos, que os amos não costumam comunicar aos escravos. A vida secreta de Jesus, a Trindade, a universalidade do plano divino, as coisas eternas – não se manifestaram ao escravo, ao judeu, mas antes aos filhos: Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai. Afirma Nosso Senhor, ao comparar a missão dos apóstolos com a dos profetas, que já não tratará os apóstolos como outrora tratara os profetas: estes eram servos, e por isso a eles se comunicou a palavra de Deus de forma limitada e fragmentária, enquanto aos apóstolos, amigos que eram, confiou-se a palavra definitiva e inteira de Deus, tudo quanto o Filho ouvira do Pai, a fim de ser revelado ao mundo em seu nome.

c) Prioridade do amor de Jesus – Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi. Pela nossa amizade, Eu dei o primeiro passo8. Demais, esta amizade é um amor de predileção, já que vos escolhi poucos entre muitos, e vos chamei para serdes meus amigos diletos. E vos constitui para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça: a) Constitui-vos, i. e., destinei-vos para apóstolos ou enviados e vos confiei uma missão: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações”9; b) Produzais frutos: trata-se sobretudo do fruto apostólico, ou seja, da renovação espiritual ou santificação do mundo por meio da pregação do Evangelho, confiada aos apóstolos; c) E o vosso fruto permaneça: que dure o fruto, qual seja, a fundação da Igreja e a salvação eterna das almas. A fim de que tudo quanto pedires ao Pai em meu nome, ele vos conceda. Refere-se Jesus às petições apostólicas, i. e., relacionadas com os frutos do apostolado – o feliz resultados dos esforços apostólicos – que os apóstolos hão de encomendar a Deus em oração. Este resultado feliz é em realidade o fruto permanente mencionado na frase anterior. Ambas as frases portanto estão coordenadas e dependem por sua vez da frase principal: “Constitui-vos para que vades”. Disse o Mestre: “Constitui-vos para que vades e produzais fruto permanente, ou seja, para que realizeis com plenitude vossos ideais e planos apostólicos com o favor de Deus, implorado pela oração”10

3º. Reiteração do preceito da caridade – O que vos mando é que vos ameis uns aos outros. No princípio a fórmula do mandamento era composta, sendo expressão do elemento preceptivo (“amai-vos”) e do elemento moral (“como Eu vos amei”); aqui é simples (“que vos ameis”), já que, depois da larga ampliação do elemento moral em toda esta seção, bastava agora reiterar tão-só o preceito.

 

III. Ódio que manifestará o mundo incrédulo aos enviados de Cristo (Jo 15, 18-27)

Depois das relações dos discípulos com Deus e entre si, chega o momento de tratar das relações do discípulo com o mundo. O tema desta seção é duplo: o ódio do mundo contra os discípulos e o grande pecado dos judeus. A conexão lógica desta seção com a anterior é possível de se conceber: a) ou por contraste: porquanto o amor dos discípulos entre si se contraponha ao ódio que lhes devotará o mundo; b) ou por afinidade: porque os discípulos, intimamente associados ao Mestre, compartilharão de sua sorte e como Ele padecerão o ódio do mundo.

 

Os discípulos serão detestados pelo mundo, como detestaram o Mestre

Ao anunciar aos discípulos o ódio do mundo, propõe-lhes o Mestre quatro motivos de consolo ou alento:

1º. Antes deles Jesus foi odiado – Se o mundo vos odeia. Nesta fórmula hipotética Nosso Senhor expressa um fato real: o ódio do mundo aos discípulos. Já dissera o Mestre aos seus amigos: “Por minha causa, sereis objeto de ódio de todas as nações”11; um pouco depois dirá o Senhor: “O mundo vos odeia”12. A atitude do mundo contra os discípulos de Cristo se perpetuará por toda a história da Igreja, continuando até os dias de hoje. Sabei que odiou a Mim antes que a vós. Ser odiado pelo mundo é portanto assemelhar-se a Jesus Cristo, alvo do seu mais encarniçado ódio.

2º. Este ódio é sinal de que eles não são deste mundo – Se fosseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia. a) Por mundo se entende todos os homens que diante de Cristo assumirão a atitude de seus então inimigos – os judeus. O chefe deste mundo é Satanás, a quem Jesus três vezes chamou de “príncipe deste mundo”13; ele é o inspirador dos critérios, gostos e aspirações do século14; b) por isso, ser do mundo significa receber sua influência e aspirações, e de certo modo proceder, originar-se ou nascer dele. Entre o mundo satânico e os discípulos de Cristo o antagonismo devia ser – e é – irredutível. Se o mundo é do partido de Satanás, do antideus, são os discípulos do partido de Cristo, a encarnação viva de Deus 15. Tal oposição não é estática e sim dinâmica: os discípulos de Cristo não se adaptam às máximas e tendências do mundo, mas antes tem por missão e obra, seguindo o caminho do Mestre, destruir as obras do diabo16. Esta conduta explica o ódio irreconciliável do mundo contra os discípulos de Cristo e a Igreja de Cristo; c) A frase incidental do mundo vos escolhi recorda aos discípulos duas verdades importantes: por um lado a ventura de não pertencer ao mundo devem-na à imerecida predileção do Mestre; por outro lado esta recordação é uma advertência tácita de que, saídos ou procedentes do mundo, facilmente podem recair nos vícios de sua origem mundana (patente era o caso de Judas).

3º. Não podem pretender que o mundo os trate melhor que ao Senhor – Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que seu senhor. Tal consideração, se não é propriamente motivo de consolo ante as perseguições do mundo, ao menos é uma razão poderosa para que os servos não pretendam um comércio mais benévolo que o outorgado pelo Senhor, e para que não se maravilhem de que o mundo os trate tão mal quanto a Ele.

4º. Aos discípulos é glorioso compartilhar a sorte do Mestre – Se me perseguiram, também vos hão de perseguir. Ao lhes anunciar as perseguições futuras, ao mesmo tempo consola-os ao insinuar que o único motivo das hostilidades do mundo será – como já se expressara outras vezes, e ainda agora dirá – “por causa do meu nome”, i. e., porque são discípulos, enviados e representantes de Cristo: motivo de perseguição, fatal para o mundo e glorioso para os discípulos solidários com a sorte do Mestre17. Se guardaram a minha palavra, hão de guardar também a vossa. Esta sentença entendida à letra parece uma limitação ou correção da precedente, pois se diria: “Se muitos vos perseguirão, não faltará quem acolha vossa palavra, como alguns acolheram as minhas”. Mas levando em conta o contexto, em que se fala tão-somente dos judeus inimigos de Jesus, parece mais provável que a sentença fosse entendida em sentido negativo ou ironicamente afirmativo, como se dissesse Jesus: “Já sabeis como guardaram a minha palavra; pois é assim mesmo que guardarão a vossa”, i. e., assim como não guardaram uma, tampouco guardarão a outra.

 

Grande pecado dos Judeus

O ódio do mundo aos apóstolos é a continuação do grande pecado dos judeus incrédulos, encarnação do mundo, contra Cristo. Este é o pensamento desenvolvido na segunda parte desta seção, em que Nosso Senhor lança por duas vezes contra os judeus a acusação de pecado por um versículo que prepara a primeira acusação, por outro que serve de transição entre a primeira (mais geral) e a segunda (mais específica) e ainda por mais um que conclui o argumento.

1º. Preparação do argumento principal – Mas vos farão tudo isso, i. e., hão de vos odiar e perseguir, negando-se a receber vossa palavra, por causa do meu nome, porque vos apresentais como discípulos de um Mestre a quem aborrecem, pois Ele se apresentou a si como enviado de Deus em condições mui diferentes daquelas que aguardavam no Messias imaginado; e por isso, em suma, se me desconhecem a Mim, é porque não conhecem aquele que me enviou. À medida que o conhecimento de Cristo é conhecimento do Pai, o desconhecimento de Cristo é desconhecimento do Pai. Como vão conhecer a Deus e seus altíssimos desígnios os que fantasiam um messianismo carnal e terreno tão oposto aos planos divinos? Se desconhecem tais planos, como hão de reconhecer na qualidade de Messias e enviado de Deus a quem, segundo estes mesmos planos, se apresenta pobre e humilde, mensageiro de um reino de Deus espiritual e celestial?

2º. Argumento principal, numa formulação mais indeterminada – Se Eu não viesse como enviado de Deus e Messias, e não lhes tivesse falado, i. e., se não lhes declarasse o objeto de minha vinda e divina missão, depois de apresentar-lhes as credenciais que a acreditam, não teriam pecado. Evidente não se tratar de qualquer pecado, pois cheia de pecados está a história de Israel; contudo, tais pecados eram nalguma medida escusáveis, mas agora não há desculpa para o seu pecado: o pecado inescusável é, radicalmente, a incredulidade obstinada; formalmente, o ódio irreconciliável; efetivamente, a perseguição de morte. Antes da vinda do Mestre, o pecado capital dos judeus era a hipocrisia, a concepção formalista e exibicionista da religiosidade e santidade. Contra esse pecado ensinou Jesus uma religião em espírito e verdade e uma justiça mais íntegra e interior que a ensinada por escribas e fariseus; mas ante a mensagem do enviado de Deus os judeus, em vez de se renderem com humildade e se reformarem, rebelaram-se com orgulho; em vez de responder com fé e gratidão, responderam com ingratidão e ódio mortal. Eis o que foi o pecado dos judeus, que determinaria sua lamentável reprovação.

3º. Transição à nova formulação do argumento – Aquele que me odeia, odeia também a meu Pai. Esta sentença: a) reforça o primeiro argumento, porque o pecado de ódio contra o enviado de Deus se considera pecado de ódio contra o mesmo Deus; b) e prepara o segundo, porque nele se inferirá em conjunto o ódio contra o filho e contra o Pai.

4º. Argumento principal, numa formulação mais precisa – No argumento precedente se relacionava o pecado dos judeus com a vinda de Jesus, mas não se indicava a razão imediata por que a dita incredulidade era pecado. Supunham-se ali, e aqui se declaram, as obras e os milagres de Jesus. Estas obras maravilhosas, verdadeiro selo divino que acreditava sua missão, mereciam e exigiam a fé na palavra de quem os obrava. Sem embargo os judeus, depois de vê-los, não acreditaram – eis o pecado inescusável. Por isso disse Jesus: Se Eu não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado. Realmente nem os Patriarcas, nem Moisés, nem os Profetas realizaram nada que se comparasse às obras de Jesus, como reconheceram até os judeus em momentos de sinceridade18. Mas agora as viram: e apesar disso os judeus não acreditaram: uma tremenda culpa a incredulidade em Cristo, que entranha o ódio ao Pai: e odiaram a Mim e a meu Pai.

5º. Conclusão do argumento principal – Mas foi para que se cumpra a palavra escrita em sua Lei, não porque Deus por antecipação predeterminasse a vontade dos judeus para que odiassem o Messias, mas porque a infalível previsão da divina sabedoria, logicamente posterior ao ódio previsto, não poderia deixar de se cumprir: Odiaram-me sem motivo19.

 

O ódio do mundo não impedirá que brilhe a verdade sobre Jesus Cristo

Ao ódio do mundo e à incredulidade dos judeus Jesus contrapõe o testemunho do Espírito Santo, ao qual se associará o testemunho dos discípulos.

1º. Testemunho do Espírito Santo – Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade. Cristo antes dissera que quem enviaria o Paráclito ou Consolador seria o Pai; agora diz que Ele mesmo o enviará. Ambas as expressões, longe de se contradizerem, se completam: se o envia o Pai, envia-o em nome do Filho; se o envia o Filho, envia-o de junto do Pai. Ensina São Tomás que neste envio ou missão temporal importam duas coisas: a) a procedência da origem de quem o envia; b) e uma nova maneira de ser ou obrar em outro. Segundo isto, o Espírito Santo, enviado juntamente pelo Pai e pelo Filho, procede conjuntamente de entre ambos, como de um só princípio. Que procede do Pai: se no verbo vir ou enviar se designa a missão temporal, no verbo proceder se designa a processão eterna. Ele dará testemunho de Mim. Ao discutir com os judeus Jesus apresentou quatro testemunhas a seu favor: o Batista, os próprios milagres, o Pai Celestial e as Escrituras; os judeus rechaçaram as quatro. Jesus reserva para o futuro outro testemunho, mais ostensivo, irrecusável e decisivo: o do Espírito Santo, assinaladamente na solene vinda de Pentecostes. Todos os homens se renderam de boa vontade a esta testemunha e acreditaram em Cristo; a força de tal testemunho criará a Igreja.

Aqui chegando podemos recolher as principais verdades sobre o Espírito Santo que estão contidas nesta passagem e nas duas anteriores 20: a) antes de tudo, afirma-se a personalidade do Espírito Santo: o nome de Paráclito é nome de pessoa; também se lhe atribuem ações pessoais, como ensinar e dar testemunho; b) é uma pessoa distinta da do Pai e do Filho: comparado ao Filho, é outro paráclito; enviado pelo Pai em nome do Filho, e pelo Filho em nome do Pai, não pode ser nenhum dos dois; c) é uma pessoa divina: pois divina é a ciência atribuída a ele; além disso, habita no homem segundo a ordem de habitação do Pai e do Filho e, ademais, o fato de ser outro paráclito pressupõe que seja igual a Deus Filho, a quem sucede; enfim, seu testemunho é supremo e definitivo – tudo isso evidencia uma divindade própria e verdadeira; d) esta pessoa procede do Pai e do Filho: é enviado pelo Pai e pelo Filho; pois bem, a missão [ou envio] pressupõe procedência.

2º. Testemunho dos discípulos – Também vós dareis testemunho: Associa-se ao testemunho do Espírito Santo o dos apóstolos. É impressionante na narração dos Atos dos Apóstolos a freqüência com que se recorda o testemunho dos apóstolos e a importância que se dá a ele. São eles, antes do mais, o testemunho de Cristo, de seus milagres e ensinamentos, e, sobretudo, de sua ressurreição. Mas este caráter testemunhal exigia que os apóstolos tivessem se relacionado com o Mestre por muito tempo e o conhecessem na intimidade. É o que indica Jesus em seguida: sois capazes de serdes minhas testemunhas, porque estais comigo desde o princípio21.

  1. 1. Que deu azo a esta alegoria? É possível que, ao sair do Cenáculo (“Levantai-vos, vamo-nos daqui”), Nosso Senhor entrasse com os apóstolos no Templo, sobre cuja fachada havia uma enorme videira de ouro, figura de Israel. Ao vê-la o Mestre disse aos seus que Ele era a verdadeira videira, e já não Israel segundo a carne; e que eles, e já não os judeus infiéis, são seus sarmentos. Talvez ali, no Templo, concluísse o discurso e fizesse a oração sacerdotal, pois que de acordo com São João, “Depois dessas palavras, Jesus saiu com os seus discípulos para além da torrente de Cedron”. Esta não é a saída do Cenáculo, mas a do Templo, situado junto à torrente de Cedron.
  2. 2. Sl 79, 9-11. Is 5, 1-7; Jer 2, 21; Ez 15, 2-6; 17, 6; 19, 10-14.
  3. 3. O Mestre concebe a videira tal como a concebe o comum do povo, i. e., ela é não apenas a planta inteira carregada de sarmentos no verão, mas também são as cepas podadas durante o inverno. Daí sejam os sarmentos, na alegoria de Nosso Senhor, algo sem o qual a videira medra, mas que, se se junta a ela, torna-se parte integrante da videira. Assim a videira em sentido singular é o Cristo pessoal, e a videira em sentido coletivo é o Cristo místico. Pois bem: Israel era a videira neste segundo sentido, à medida que deveria ser o primeiro povo a se enxertar e permanecer no Messias prometido, i. e., quais os sarmentos, recebia de Cristo a qualidade de ser a videira do Senhor.
  4. 4. Jo 3, 5.
  5. 5. Jo 5, 20.
  6. 6. Embora não ponderasse a supremacia de semelhante amor, já antes Jesus o afirmara naquelas declarações belíssimas: “O bom pastor dá a vida pelas ovelhas... Eu sou o bom pastor... Dou a minha vida pelas minhas ovelhas.” (Jo 10, 11-15). Repetirá São Paulo: “...que me amou e se entregou por mim.” (Gal 2, 20).
  7. 7. Assim o entendeu o discípulo amado, quem mais tarde escreveu: “Nisto temos conhecido o amor: Jesus deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3, 16).
  8. 8. Mais tarde o discípulo amado repetirá esta palavra: “Nós amamos, mas porque Deus nos amou primeiro”.
  9. 9. Mt 28, 19.
  10. 10. É o pensamento já expressado em Jo 15, 7-8. Em ambos os casos a oração não é o tema principal, mas antes uma condição expressada de forma incidental. Contudo esta menção incidental, longe de retirar a importância da oração, exalta-a, porquanto a apresente como o meio providencial para alcançar os dons e o favor de Deus, sem o qual nada de bom pode o homem ter ou fazer.
  11. 11. Mt 24, 9; Mc 13, 13; Lc 21, 17.
  12. 12. Jn 17, 14.
  13. 13. Jn 12, 31; 14, 30; 16, 11.
  14. 14. Apelidava São Paulo o conjunto desta influência satânica de “espírito deste mundo” (1Cor 2, 12), e São João o fixa nos três grandes perigos do mundo: “Tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida – não procede do Pai, mas do mundo” (1Jo 2, 16).
  15. 15. Afirmava São Paulo: “Que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial? Ou que acordo entre o fiel e o infiel?” (2 Cor 6, 14-16).
  16. 16. 1Jo 3, 8.
  17. 17. No Sermão da Montanha dissera Jesus: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 11-12). Escreve São Pedro: “Se fordes ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurado sois” (1 Pd 4, 14).
  18. 18. Assombrados com os milagres que viam exclamavam: “Jamais se viu algo semelhante em Israel” (Mt 9, 33); “Este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo” (Jo 6, 14); “Quando vier o Cristo, fará mais milagres do que este faz?” (Jo 7, 31). Desconcertados diziam até os sanedritas: “Que faremos? Este homem multiplica os milagres” (Jo 11, 47; cf. Mc 7, 37; Jo 3, 2; 9, 16; 9, 32-33). Por isso Jesus apoiando-se nos milagres argüia os judeus: “Porque, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5, 26); “Se eu não faço as obras de meu Pai, não me  creais. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras” (Jo 10, 37-38).
  19. 19. Sl 34, 19; 68, 5.
  20. 20. Jo 14, 16-17; 14, 26-27.
  21. 21. Em consonância com o pensamento do Mestre não será inútil reler: a) as palavras de São Pedro no momento de eleger o substituto de Judas (At 1, 21-22); b) a alegação de São Pedro a Cornélio (At 10, 39-42); c)  a réplica de São Pedro aos sanedritas (At 4, 20); d) a segurança de São João ao escrever como testemunha ocular do que conta (1 Jo 1, 1-3). Sobre estes testemunhos conscientes e verídicos repousa segura a fé cristã.

Artigo 3: Fé - Consolos de Cristo aos apóstolos

Artigo 3: Fé - Consolos de Cristo aos apóstolos

Chamou-se o cap. 14 de São João de os consolos, e com muita razão: o bom Mestre, vendo os discípulos conturbados pelas predições desoladoras que acabava de fazer, lhes sugere diversos motivos de consolo. Assim tanto o pensamento como a linguagem se remontam a alturas cada vez maiores. Em primeiro lugar certifica que a presente partida não é uma partida sem esperança de retorno: Ele vai ao céu para junto do Pai e ali lhes preparará um lugar, e até que chegue a hora de ocupá-lo assegurar-lhes-á um extraordinário poder taumatúrgico, o envio do Espírito Santo Paráclito e uma assistência perpétua, ao viver misticamente entre eles.

 

I. Primeiro consolo: a certeza de uma futura reunião no céu

Jesus retorna ao Pai e ali preparará um lugar para seus amigos

A predição da traição e da negação de Pedro, mas sobretudo o anúncio da partida breve de Jesus e portanto de sua ausência, deixando o mundo sem consumar a prometida obra de fundação do reino messiânico, e deixando-os sozinhos diante de terríveis inimigos – foram para os apóstolos motivo de perturbação e angústia. Assim lhes disse Jesus: Não se perturbe o vosso coração. A razão da serenidade que se há de guardar naqueles momentos é a confiança em Deus e Nele: Credes em Deus, crede também em Mim; da mesma maneira que tendes fé em Deus, deveis tê-la em Mim, que sou seu embaixador e Cristo, e como Ele Deus; por isso, embora aparentemente vos deixe, estarei convosco para sempre, auxiliando-os desde o céu.

Demais, se pela fé persuadem-se no íntimo de que a ausência será passageira e visa lhes preparar no céu o lugar onde viverão eternamente – longe de se afligirem regozijarão. É o que lhes explica a continuação. Na casa de Meu Pai há muitas moradas. O céu não é tão-só o reino ou a cidade de Deus, mas também a casa que o Pai Celestial mantém sempre arrumada para todos os seus filhos e sua grande família. Ali haverá muitas moradas: a) muitas, pois muitos serão os filhos de Deus; b) moradas, pois ali viverão de infinito a infinito os filhos do Pai Celestial. Não fora assim, e eu vos teria dito. E se eu vos deixo aqui na temporalidade, é porque lhes vou preparar um lugar: Pois vou preparar-vos um lugar: e isso de duas maneiras: a) a primeira, pela dolorosa saída do mundo, i. e., pela morte de cruz, pois o caminho que conduzia ao céu estava bloqueado pelo pecado, e ninguém poderia lá ir se antes não se restabelecesse a paz entre Deus e os homens, mediante a paixão do Filho de Deus; b) a segunda, pela gloriosa entrada nos céus, pois as moradas celestiais não se poderiam habitar enquanto não adentrasse nos céus o Primogênito da casa e da família de Deus, Jesus Cristo, sem cuja presença não seriam admitidos os filhos adotivos. Por isso segue dizendo Nosso Senhor: Depois de ir e vos preparar um lugar, abrindo-lhes o céu pela paixão e ascensão, enviando-lhes o Espírito Santo e assistindo-os desde lá em todos os vossos trabalhos, voltarei e vos tomarei comigo, para o reino da glória, para que, onde Eu estou, também vós estejais. 

Jesus remata esses conceitos de modo sentencioso: E vós conheceis o caminho para ir aonde vou. Mas os apóstolos, rudes que eram e preocupados pela imagem de alguma viagem terrena que o Mestre iria empreender, não compreenderam suas palavras. Por isso disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? Responde Jesus com uma tripla definição de si mesmo que revela clara e categoricamente as funções de Cristo em ordem aos eternos destinos do homem. Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. A metáfora é plena e elevada.

1º. Jesus é o Caminho, e isso: a) em sentido objetivo, porque Ele é o único Mediador entre Deus e os homens, por cuja mediação alcançamos a paz com Deus1, e só por Ele se passa do estado de pecado ao de graça, da terra ao céu; b) em sentido subjetivo, porque só Ele é a personificação da justiça e da santidade, o modelo a imitar e o mestre cujos preceitos devemos seguir.

2º. Cristo é a Verdade, i. e., a suprema realidade objetiva: todas as demais verdades, figuras e vaticínios se ordenam a Ele e Nele encontram o cumprimento; e só por Ele podemos ser iluminados nas coisas de Deus, pois é Ele o autor da fé e do conhecimento de Deus.

3º. Cristo é a Vida, porque possui a natureza divina, e portanto é fonte de toda a vida; sobretudo, do ponto de vista sobrenatural, a vida eterna nada mais será que a participação da plenitude da vida divina que Nele está2

Por tudo isso, só por Cristo se vai ao Pai: Ninguém vem ao Pai senão por Mim. Daí indicamos qual seja o fim, o Pai, e o caminho para chegar a Ele, Jesus Cristo.

 

Há de se ver o Pai em Jesus

Nas palavras seguintes indica Nosso Senhor o motivo por que somente Ele é o caminho que conduz ao Pai: é que entre eles reina tal identidade de natureza, que conhecer a um é conhecer ao outro, ir a um é ir ao outro: Se me conhecesseis, também certamente conhecerieis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto. Para que o conhecimento do Filho implique necessariamente no conhecimento do Pai são indispensáveis duas coisas:

1º. Que o Pai esteja realmente no Filho. E é o que acontece; o Pai está no Filho: a) enquanto Deus, pela comunhão e identidade de natureza, e pela circuminsessão das Pessoas Divinas, de modo que o Filho é o resplendor e a figura da substância do Pai; b) enquanto homem, porque Cristo, em virtude da união hipostática, mesmo sendo homem é Filho próprio, e não adotivo, de Deus.

2º. Que o Pai se manifeste no Filho e pelo Filho. De efeito o Pai se manifesta no Filho e pelo Filho por meio das palavras e das obras, da doutrina e dos milagres. É o que Felipe vai dizer a Ele na continuação.

Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. Estranha Felipe que Jesus diga que já viram o Pai; imagina que conhecer e ver o Pai é ver a Deus em si mesmo, e um tal favor – de que ele não se recorda haver gozado alguma vez na vida – é o que ele agora pede para si e os outros discípulos. Responde-lhe Nosso Senhor dizendo que, para além da visão beatífica, que só se oferece no céu, existe outro conhecimento de Deus que os faria ter visto no Filho o Pai: o conhecimento da fé. Há tanto tempo que estou convosco e mão me conheceste, Felipe! Depois de três anos de relações assíduas, haverias de me ter reconhecido, não como um entre tantos profetas, senão como Filho de Deus, que possui a mesma natureza e os mesmos atributos e propriedades do Pai. Aquele que me viu viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai. Se em Mim viste ao Filho de Deus, no Filho poderias ver ao Pai.

Semelhante afirmação prova-a Jesus com um raciocínio: Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em Mim? Em razão da circuminssesão das Pessoas Divinas, o Pai está no Filho, e o Filho está no Pai. A presença do Pai no Filho não é inativa: no Filho e pelo Filho fala e obra o Pai: As palavras que vos digo não as digo de Mim mesmo; mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza as suas própria obras. O pensamento do Mestre, incompleto, é conclusivo: Se minhas palavras e obras são palavras e obras do Pai, era natural que ao me verem a Mim vísseis também ao Pai; e se não vistes em Mim o Pai, é porque não me vistes com os olhos da fé. Por isso crede-me: estou no Pai, e o Pai em Mim. Vede-me com os olhos da fé. Se a tanto não chega a vossa fé, crede-o ao menos por causa dessas obras, já que Deus não pode acreditar com milagres as mentiras de um iluminado ou impostor.

Estas declarações do Mestre encerram uma altíssima teologia trinitária, que podemos reduzir a quatro pontos principais: a) “Eu” e o “Pai”: distinção de pessoas no seio da Trindade; b) “Filho” e “Pai”: sendo termos correlativos, não é lícito se digam propriamente daqueles que possuam naturezas diferentes; Pai e Filho são pois de uma mesma natureza divina; c) imanência do Pai no Filho, e do Filho no Pai, o que não seria possível se não houvesse consubstancialidade entre ambos; d) o Filho recebe do Pai não apenas o ser, mas também a atividade: o Filho fala e obra, mas não por si mesmo; portanto, há unidade de ação entre o Pai e o Filho.

 

II. Segundo consolo: Jesus manifestará sua união com os apóstolos de três maneiras (Jo 14, 12-24)

Jesus consolou os apóstolos com a magnífica promessa do céu, de onde virá a buscá-los, depois de lhes preparar um lugar. Entretanto não podem os discípulos ir até onde vai Jesus, mas deverão permanecer no mundo até que Ele retorne. Para este ínterim Jesus os consola com três promessas esplêndidas: um poder extraordinário, a vinda do Espírito Santo e sua assistência perpétua.

 

Cristo lhes facultará a realização de obras ainda maiores que as suas

Satisfeita a curiosidade de Tomé e Felipe, prossegue Nosso Senhor o raciocínio. As palavras: Crede-o ao menos por causa dessas obras, dão azo a que Jesus prometa aos discípulos que, se crerem, também eles farão grandes obras: Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em Mim fará também as obra que Eu faço. Que obras são essas? A missão messiânica que Jesus recebeu do Pai. E fará ainda maiores do que estas: pois o campo de ação dos apóstolos será muito mais extenso, e porque os milagres dos apóstolos, embora não necessariamente maiores que os do Mestre, serão mais alardeados por entre as nações. Porque vou para junto do Pai: i. e., justamente porque no céu gozarei de minha glória e de meu poder, assistir-vos-ei de lá do alto para que obreis as tais obras maiores, de modo a que continueis minha obra redentora e estendais sobre todo o mundo o reino do Pai.

Promete-lhes Jesus outra casta de poder para consolar-lhes e levar a cabo as grandes obras: a eficácia da oração: E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei. Pedir em nome de Jesus é pedir em íntima união com Ele, apoiando-se em seus méritos e promessas e orando com seu mesmo espírito. Feita assim a oração goza de uma espécie de onipotência. A finalidade deste poder da oração é a glória do Pai, objetivo da vida de Jesus: Para que o Pai seja glorificado no Filho. A fim de provar a igualdade de poder e de natureza com o Pai acrescenta: Qualquer coisa que me pedirdes, em meu nome, vo-la farei: nova confirmação de sua divindade.

 

Cristo lhes enviará o Espírito Santo

Continuando anuncia o Senhor aos apóstolos um fato futuro, a vinda do Espírito Santo, que agora sabemos aconteceu no dia de Pentecostes. A expressão de maior destaque, à luz da qual há de se interpretar as demais, é: “O Padre vos dará outro Paráclito, o Espírito da Verdade”. As frases precedentes declaram a razão por que o Pai dará este novo Paráclito: “Porque Eu rogarei por vós”, “em atenção ao vosso amor por Mim”. Estas últimas revelam o mistério do por que o mundo não receberá o Espírito da Verdade, e sim vós. 

Se me amais, guardareis os Meus mandamentos. Amor designa aqui, mais que um sentimento do coração, a adesão da vontade e da alma inteira à pessoa do Mestre. Os mandamentos que se devem guardar são as normas ou disposições do Mestre referentes à futura ação dos discípulos na fundação da Igreja. Em uma palavra, quer o Mestre discípulos totalmente dedicados a sua pessoa e seus planos; e destarte, para não lhes deixar desamparados com sua ausência corporal, lhe promete outro Paráclito, o Espírito Santo. E eu rogarei ao Pai. Roga Jesus enquanto homem, embora enquanto Deus Ele mesmo, juntamente com o Pai, envia o Espírito Santo. E o Pai, deferindo minha petição por respeito a Mim, vos dará outro Paráclito. Paráclito era-o já Cristo, mas o Senhor, antes de retirar-se, quis dar outro, o Espírito Santo, que há de lhes fazer no invisível o que Cristo fizera no visível, e completar a obra que Cristo iniciou. Demais, trata-se: a) de um dom gratuito, i. e., devido à bondade do Pai; b) ainda não efetuado: a doação do Espírito Santo não objetiva a santificação pessoal dos apóstolos, mas o estabelecimento do reino de Deus sobre a terra, no dia de Pentecostes. Que fique convosco, não apenas durante certo tempo, como Eu, mas eternamente, até o fim dos séculos: sinal este de que se trata de um favor outorgado, não pessoalmente aos discípulos, senão que à futura Igreja e mormente aos ministros dela. O Espírito Santo, assim como dirigiu e impulsionou a ação pessoal de Jesus3, assim há de dirigir e impulsionar também a ação dos apóstolos, continuadores da obra messiânica. É o Espírito da Verdade: porque manifestá-la-á com suas iluminações, e com suas moções inspirará coragem a quem dela dê testemunho.

Que o mundo não pode receber. Mundo aqui é o conjunto de homens governados por critérios naturalistas e perversas cobiças. Assim entendido, o mundo é radicalmente incapaz de perceber e entender o Espírito Divino: Porque não o vê nem o conhece, i. e., não tem olhos para vê-lo nem conhecê-lo. Como pode a carne receber o Espírito? Ou o erro a verdade? Por sua vez, dos discípulos disse o Mestre: Vós o conhecereis, porque permanece convosco e estará em vós. Os discípulos, imbuídos de disposições radicalmente distintas das do mundo, estão capacitados a receber ao Espírito Santo e portanto a vê-lo e conhecê-lo: amam ao Mestre e lhe guardam os mandamentos, por isso Jesus rogará para que o Espírito venha sobre eles.

Note-se que as três expressões com que se declara a presença do Espírito Santo nos discípulos nos revelam três aspectos ou modalidades dela: a) “que fique convosco”: indica companhia; b) “permanece convosco”: indica amparo ou valimento; c) “estará em vós”: indica habitação íntima. O Paráclito prometido os acompanhará, protegerá e será o “doce hóspede da alma”, não com intermitências, mas de modo permanente e perpétuo.

 

Cristo seguirá vivendo misticamente na Igreja

Uma vez que a promessa do novo Paráclito não suprime nos apóstolos a tristeza em razão da partida e ausência do Mestre, promete-lhes Jesus voltar novamente para eles e estabelecer com eles sua morada. Logo, esta promessa se estende a toda a Igreja futura.

1º. Promessa de Nosso Senhor aos apóstolos – Não vos deixarei órfãos. A ausência do Mestre não é definitiva, como a do pai que morre, mas é por breve tempo: Voltarei a vós. Esta volta não é a parusia final, mas a que se verifica nas múltiplas manifestações de Cristo entre a ressurreição e a ascensão, bem como em sua presença invisível e real na Igreja, depois que retornou aos céus. Ainda um pouco de tempo, o espaço de algumas horas, E o mundo já não Me verá: nem fisicamente, pois com minha morte e sepultura encerrar-se-á a dispensação por que Eu me deixara ver, tocar e tratar por bons e maus; nem pela fé, porque o espírito do mundo é de trevas. Vós porém Me tornareis a ver, porque depois da ressurreição só hei de me dar a conhecer a vós, meus discípulos fieis, que me vereis com vossos olhos ressuscitado, e me contemplareis com vosso espírito na glória do Pai. Porque eu vivo: e assim a morte que Jesus vai padecer é para ele acidente passageiro, que não interrompe a perenidade de sua vida eterna; e a vida do Mestre explica qual seja a vida dos discípulos: E vós vivereis: i. e., possuireis vida divina – análoga a minha – que será uma participação de minha vida eterna.

Naquele dia, quando já tenha a condição imortal, conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e eu em vós. Destas palavras se entendem três coisas: a) a primeira, a imanência do Mestre nos discípulos: Nosso Senhor apropriou-se tão intimamente dos discípulos – os quais estão enxertados Nele pela graça e Dele recebem contínuo e vital influxo – , que eles chegam a formar um só organismo vivente: o Corpo Místico de Cristo; b) a segunda, que a recíproca imanência é análoga, e não igual, à imanência do Filho no Pai: assim como esta se baseia na identidade essencial ou substancial das pessoas trinitárias, assim aquela se baseia na identidade espiritual de Cristo com seu Corpo Místico: ao lhes comunicar o próprio Espírito, Cristo transfunde nos apóstolos sua própria vida divina; c) a terceira, que desta dupla imanência lograrão os apóstolos um conhecimento claro, profundo, íntimo e experimental, de um tipo que somente a vida dos grandes místicos, tais como Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Santo Inácio de Loyola, pode nos dar uma idéia.

2º. Extensão desta promessa a toda a Igreja futura – Jesus estende a todos os fiéis o que disse aos apóstolos, ao mesmo tempo que assinala uma condição para as manifestações íntimas de que acaba de falar: a observância dos mandamentos, que é a grande prova de amor: Aquele que tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. O Senhor pede o amor traduzido em obras, ou obras nascidas do amor. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai: o Pai tem tanto amor ao Filho e deseja tanto vê-lo amado, que não pode deixar de amar com ternura quantos o amem. E Eu o amarei. As duas frases correlativas: “Aquele que me ama... Eu o amarei”, parece se deveriam juntar; sem embargo intercala Nosso Senhor entre uma e outra o amor do Pai, e por duas razões: a) a primeira, porque ninguém pode amar ao Filho sem que o Pai o leve até ele; assim ama ao Filho quem correspondeu à ação do Pai e mereceu o amor de Cristo como recompensa; b) a segunda, porque o Filho nada faz por si, mas só o que vê o Pai fazer: outra manifestação de humildade de Nosso Senhor, que delicadamente em tudo cede a primazia ao Pai.

E Me manifestarei a ele. É a afirmação principal e uma espécie de fecho do raciocínio do Mestre. Antes dissera aos discípulos: “Ver-me-eis e conhecereis que Eu estou em meu Pai”; agora, para que destarte o vejam e conheçam, diz que se manifestará a eles, mostrar-lhes-á quem é e revelará sua glória divina. Um dos frutos desta manifestação é o “conhecimento interno” de Cristo, que é a grande força santificadora da alma, o anelo ou sonho dourado dos santos4.

3º. Interpelação de Judas Tadeu – Pergunta-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo? A questão de Judas Tadeu é filha dos preconceitos que os apóstolos padeciam, bem como os judeus em geral: segundo os profetas o Messias devia manifestar-se clamorosamente a todas as nações5; no entanto disse Jesus que não se manifestaria ao mundo, senão a eles somente, o que contradizia a idéia de universalidade e esplendor do reino messiânico. Respondeu-lhe Jesus de modo indireto declarando em primeiro porque se manifestará aos discípulos e não ao mundo:

Se alguém me ama: nova ampliação universal da promessa feita apenas aos discípulos; guardará a minha palavra: a substituição de “mandamentos” por “palavras” é significativa, e confirma que ambas as expressões significam de modo geral todo o ensinamento, dogmático e moral, do Mestre: as revelações, os preceitos, os conselhos e as orientações. E meu Pai o amará: de novo, entre o amor a Jesus e a manifestação de Jesus à alma, interpõe-se o amor com que o Pai nos ama. Por isso se detalha aqui dois pontos acerca desta manifestação: a) E nós viremos a ele: antes do mais se pressupõe uma vinda ou apresentação pessoal, que inclui não apenas a Jesus Cristo, senão que também se estende ao Pai; b) E nele faremos a nossa morada: tal vinda não há de ser passageira ou momentânea, mas duradoura e permanente6. Assim Jesus consola aos seus: não só não os deixa como retorna a eles acompanhado das outras pessoas da Santíssima Trindade.

Assim não sucede com o mundo. Aquele que não me ama, não guarda as minhas palavras. O mundo não ama a Jesus, antes o aborrece; por isso não crê na verdade dos ensinamentos, não observa os preceitos e nem se atem às orientações; desta forma não pode esperar que o Pai e o Filho venham até ele e nele façam morada. A palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou. Quer o Mestre tão-só declarar: a) que a fonte primeira de seus ensinamentos não era humana, mas divina: o Pai Celestial7; b) que ensinava na condição de Messias ou enviado de Deus; c) que a palavra do Filho era a palavra do Pai, de quem havia recebido o ser e a geração eterna. Assim a razão desta admoestação: “Quem deseja ao Pai, deseja aquele que Ele enviou.”

 

III. Epílogo da primeira parte (Jo 14, 25-31)

 

Recapitulação

Disse-vos estas coisas enquanto estou convosco. O Mestre se vai, e ao fazer a retrospectiva dos três anos de amável convivência com os queridos discípulos já os considera coisa passada; com sua morte e ressurreição vai começar uma nova ordem de coisas, cuja realização confia à ação do Espírito Santo que Ele lhes prometera.

Mas o Páráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, irá ensinar-vos todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito. Antes anunciara aos apóstolos o Espírito Santo como Paráclito e lhes prometera a morada e o conhecimento dele; agora lhes promete seu magistério, adivinhado no qualificativo “Espírito da Verdade”. As palavras do Mestre compreendem três pontos: a) o objeto do magistério: é tudo o que vos tenho dito, i. e., todos os ensinamentos de Jesus durante a pregação evangélica, os quais o Espírito Santo recordará, ilustrando-os umas vezes, precisando-os outras, quiçá completando-os, mas sempre se limitando a eles; b) as pessoas a quem se dirige: os discípulos ali presentes; uma vez que os apóstolos não viveriam até o fim dos séculos, o magistério do Espírito Santo também compreende seus sucessores no desempenho da função apostólica8; c) o modo de ensino: a ação íntima [do Paráclito] no espírito dos discípulos, aos quais dará luz para que entendam, penetrem e aprofundem as grandes verdades ensinadas pelo Mestre, por meio de altíssimos dons de sabedoria, ciência e entendimento.

Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. É clássico o triplo aspecto da paz: consigo mesmo, com Deus e com os demais homens. A paz de que fala o Mestre aqui é principalmente a paz consigo mesmo, a serenidade de alma que acalma as turbulências do coração, devida à amizade com Deus. Disse Jesus que deixa e dá a paz: é ao mesmo tempo um legado do Mestre e um dom de seu Coração. De fato o Messias, segundo os profetas, haveria de ser o autor e o dador da paz9; por isso Nosso Senhor se apresenta como tal ao comunicá-la aos apóstolos. Não vo-la dou como o mundo a dá. Também o mundo tem a sua paz, mas é aparente, superficial e grosseira, consistente na ausência de adversidades e na satisfação dos apetites indomados; não suprime a guerra das ambições nem acalma as turbulências da alma. Mui distinta é a paz de Cristo: silêncio das paixões, mansidão ante as adversidades, tranqüilidade da consciência e antegozo do descanso eterno.

 

Dolorosa palavra de separação

Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize: ante a perspectiva da partida do Mestre, os apóstolos estavam perturbados e acovardados, e estas duas disposições, que o Senhor quis eliminar, eram um obstáculo à paz que desejava nos discípulos. Ouvistes o que eu vos disse: Vou para lhes preparar um lugar, e volto a vós para levar-lhes comigo e conservá-los para sempre em minha companhia. Tal consideração deveria consolá-los e tirar-lhes toda a perturbação e covardia; pois minha partida redunda em proveito vosso. Demais a mais, quem ama se alegra com o bem do amado; minha ida ao Pai é o maior bem a que posso apetecer, porque vou sentar-me a sua destra para ser glorificado por séculos de séculos junto a Ele: Se me amardes, certamente haveis de alegrar-vos, que vou para junto do Pai. Ele vai ao Pai segundo a natureza humana, pois a natureza divina nunca deixou ao Pai. Neste sentido há de se entender o seguinte: Porque o Pai é maior do que Eu, enquanto Filho do Homem; pois enquanto Filho de Deus sou igual ao Pai em tudo. E disse-vos agora estas coisas antes que aconteçam, para que creiais quando acontecerem, i. e., para que lhes sirva de motivo de credibilidade quando vejais minhas profecias cumpridas à letra.

 

Admirável resignação de Jesus a todas as vontades do Pai

Já não falarei muito convosco, i. e., antes de dirigir-me à morte; o ofício de Mestre suceder-se-á logo depois pelo de Redentor. Satanás, que era o principal instigador da paixão de Cristo, iria em seguida apresentar-se por meio de Judas e dos sanedritas: Porque vem o príncipe deste mundo, para começar com Ele a luta já anunciada no Protoevangélio. Contudo, nada podia Satanás e seus ministros contra Cristo, se Ele não se entregasse voluntariamente em suas mãos, pois que Satanás só tem direitos sobre o pecado e os pecadores, e já Cristo é a santidade essencial e destarte não se reconhece nenhum direito sobre Ele: Mas ele não tem nada em Mim. Entretanto Nosso Senhor, que por amor ao Pai aceitara o cumprimento de suas vontades – inclusive no que têm de mais penoso –, quer dar ao mundo o exemplo de obediência, ainda a troco de parecer por um momento vencido por quem não pode lhe fazer nada: O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou.

Ato contínuo, para demostrar que chegara a hora e ao mesmo tempo a prontidão de espírito em aceitar a paixão, disse Jesus: Levantai-vos, vamo-nos daqui. Para onde? Para as agonias do Getsêmani, a traição de Judas, o sanedrim dos judeus, o tribunal de Pilatos, o Calvário, a crucificação e a morte. Vai Jesus em busca dos padecimentos, das humilhações e da morte como se buscasse vitórias e honras.

  1. 1. Jo 3, 13,15.
  2. 2. Jo 1, 4; 3, 36; 5, 26; 6, 35, 51-52, 55, 64; 8, 51; 10, 10, 28; 11, 25-26; etc.
  3. 3. Mt 3, 16; 4, 1; 12, 28; Mc 1, 10; Lc 3, 22; 4, 1, 18; Jo 1, 32-34.
  4. 4. 2 Pe 3, 18; Fil 3, 8-10; Lc 10, 23-24.
  5. 5. Cf. Is 2, 2; 11, 10; 42, 4. Neste sentido disseram a Jesus seus parentes, que não acreditavam Nele: “Quem deseja ser conhecido em público, não faz coisa alguma ocultamente.”
  6. 6. Primeiro se falou da missão e correspondente vinda do Espírito Santo, assim que se manifestou o Filho; agora da vinda e a morada do Pai e do Filho. Combinadas as três declarações, resulta que virão e se manifestarão aos discípulos as três pessoas divinas: é o que a teologia denomina habitação trinitária na alma dos justos, que segundo o contexto diferencia-se da onipresença natural de Deus em todos os seres, e por duas razões: a) o título da vinda ou morada: a caridade para a primeira, a imensidade divina para a segunda; b) o efeito produzido: a participação da vida divina na primeira, o ser natural na segunda.
  7. 7. Jo 7, 28: “Não vim de mim mesmo, mas é verdadeiro aquele que me enviou.”
  8. 8. Apesar disso, o Espírito Santo não ensinará a todos do mesmo modo: a) aos apóstolos, segundo sua condição de fundadores e colunas da Igreja, dar-lhes-á a conhecer algumas novas verdades não propriamente ensinadas por Cristo, como o cânon das Escrituras inspiradas divinamente; b) aos sucessores dos apóstolos, que são os bispos, assisti-los-á de contínuo em seu magistério, mas sem revelação de nenhuma verdade nova; c) aos simples fieis dará um conhecimento mais luminoso das verdades divinamente reveladas.
  9. 9. Sl 71, 3, 7; Is 9, 6-7; 11, 6; 26, 3; 27, 5; 54, 10; 66, 12; Mq 5, 5.

Artigo 2: Exórdio - Iminente separação de Cristo e seus resultados.

Artigo 2: (Exórdio) Iminente separação de Cristo e seus resultados

O começo do Sermão da Última Ceia é grandioso. O Evangelista, que não se referiu à instituição da Eucaristia, põe o discurso logo após a saída de Judas. Até então a presença do traidor oprimia os grandes afetos do Coração de Cristo naquela hora suprema e lhe impedia as efusões; mas após lhe dar um pedaço [de pão] e vê-lo partir ao seu convite: O que queres fazer, faze-o depressa, Jesus, como que livre de um pesadelo, começa o exórdio ex abrupto, no qual menciona sua glorificação e a do Pai e dá aos queridos apóstolos o novo mandamento.

 

Jesus logo será glorificado e o Pai Nele

O tom destas primeiras linhas é alegre e triunfante: Cristo considera a paixão virtualmente completa, e por isso se expressa como se Ele e o Pai já tivessem obtido a santíssima glória que resultaria dela. A palavra “glorificar”, repetida cinco vezes neste canto de vitória, dá forte realce ao pensamento: Deus glorificará ao Filho do Homem, mas o fim principal da vida humana de Cristo fora glorificar ao Pai. Admirável intercâmbio de honras que mutuamente se procuram!

Agora é glorificado o Filho do Homem. O momento da saída do traidor é como o começo da paixão, e a paixão é a glorificação de Jesus: a) primeiro, porque na paixão Jesus se viu glorificado pelo Pai, por meio de prodígios estupendos; b) logo, porque a paixão era condição indispensável para que Cristo entrasse em sua glória1; c) em terceiro lugar, porque o resgate da humanidade – sua redenção, santificação e glorificação, que são a glória de Jesus e prêmio de seu triunfo – Dele provém como de causa eficiente e meritória, sobretudo da paixão de Cristo. Qual um general aguerrido que conta com a certeza do triunfo, entra Jesus na batalha com estas palavras: “Hoje vou cobrir-me de glória”.

E Deus é glorificado Nele. A glória do Filho é também a do Pai: a) porque o que mais glorifica a Deus é a obediência e o amor, i. e., o amoroso cumprimento da vontade divina; e o maior ato de obediência e amor o realizou Jesus quando se submeteu à morte, e morte de cruz; b) porque a paixão do Filho resplandecerá a santidade, a justiça e a misericórdia de Deus, bem como o imenso amor que professou aos homens; c) finalmente, porque a paixão de Cristo é o começo do reino que Ele veio estabelecer no mundo; neste reino de Cristo o Pai é glorificado, porque é Ele mesmo [Jesus] o reino de Deus: “Venha a nós o vosso reino”.

Em troca da glória que o Pai recebe de Jesus, será Jesus glorificado pelo Pai: Se Deus foi glorificado Nele, também Deus O glorificará em si mesmo, i. e., Deus compartilhará com Ele a própria glória mediante a ressurreição, a ascensão e o assento à direita do Pai. E isto será rápido: E o glorificará em breve: durante três dias o Filho, ao entrar no mundo, se oferece com presteza à morte pela glória do Pai2; e o Pai também com presteza restitui com juros a vida e a glória que por sua honra sacrificara.

Mas a glorificação do Filho na paixão e ressurreição pressupõe uma separação e ausência dolorosa para os discípulos. Com que ternura Ele os prepara para isso! Filhinhos meus, por um pouco apenas ainda estou convosco. Vós me haveis de buscar, e sentirão saudades. Mas como disse aos judeus, também vos digo agora a vós: para onde eu vou, vós não podeis ir. Já em outra ocasião 3 Cristo anunciara aos inimigos sua partida, mas em forma de ameaça severa e em sinal de reprovação, pois a ruptura entre Ele e eles devia ser absoluta; enquanto os discípulos deixava apenas por algum tempo, como quem dissesse: Nem o fim, que é o Pai, nem o caminho, que é o martírio, são ainda para vós.

 

O novo mandamento

Cristo aproveita a impressão causada nos discípulos para lhes impor o grande mandamento da caridade, que aqui – por causa da iminência de sua morte – adquire o valor de testamento e última vontade, que há de observar-se fielmente. Utiliza Jesus três fórmulas distintas:

1º. A primeira fórmula expressa a novidade: Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Convém distinguir duas coisas, cada uma com três características: a) a prescrição: é mandamento, e não conselho; é novo, próprio do Mestre; é algo pessoal a Jesus e aos discípulos; b) o conteúdo do mandamento: amar, i. e., querer bem a outrem, e portanto fazer o bem; recíproco: uns aos outros; que vise às pessoas, não a grupos ou corporações (o amor corporativo anda amiúde acompanhado de desamor e até de ódio pessoal).

2º. A segunda fórmula expressa o motivo: Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Embora se prescreva a caridade fraterna no Antigo Testamento4, o critério dela era o amor que cada qual se devia a si: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”, ao passo que agora é o amor de Jesus: “Amareis como eu vos tenho amado”. Deste modo o amor de Cristo apresenta-se a nós como modelo, motivo e medida do nosso: a) como modelo: amor desinteressado, imenso, eterno, ardente, sem distinção de pessoas, eficaz nas boas obras, abnegado e sacrificado até a morte; b) como motivo: o amor de Cristo por nós força-nos a pagar amor com amor; e se amamos a Cristo, amaremos também os que Ele tanto amou, e nos sentiremos obrigados a cumprir o mandamento; c) como medida: amar até à morte5.

3º. A terceira fórmula apresenta [o novo mandamento] como distintivo de sua escola: Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. E assim, com delicadeza, apresenta-se Jesus a Si mesmo como o Mestre do amor.

 

Predição da tripla negação de Pedro

De tudo quanto se disse impressionou-se Pedro sobretudo com a partida iminente do Mestre. Por isso, sem prestar atenção ao resto, interrompe a Nosso Senhor perguntando-lhe: Senhor, para onde vais? Diante da pergunta indiscreta de Pedro Jesus respondeu-lhe com calma, como quem não se sente molestado: Para onde vou, não podeis seguir-me agora, mas tu seguirás mais tarde. Antes Pedro tem de cumprir a função de príncipe dos apóstolos, e após cumpri-la sofrerá o martírio por Jesus e irá com Ele. Mas imaginava Pedro que a impossibilidade de segui-lo devia-se ao pouco amor ou à covardia do discípulo; por isso, ferido no amor-próprio, tornou a perguntar: Senhor, porque te não posso seguir agora?6 Darei a minha vida por ti. Pedro fala com sinceridade, mas presumindo mais do que podia da sua fragilidade. Por isso Jesus reprime a presunção excessiva e lhe responde: Darás a tua vida por Mim!... Em verdade, em verdade te digo: não cantará o galo até que me negues três vezes. O canto do galo se calculava pela quarta vigília da manhã, das três da madrugada até às seis horas; pois bem, antes destas poucas horas, Pedro já o terá negado três vezes. Ante um tal anúncio Pedro deve ter ficado aniquilado; de fato já não intervém mais durante o colóquio de Jesus com os discípulos.

  1. 1. Lc 24, 26. Nosso Senhor já havia anunciado várias vezes Sua morte como uma exaltação: Jo 3, 14-15; 7, 39; 12, 31-32.
  2. 2. Heb 10, 5-7.
  3. 3. Jo 7, 34; 8, 21.
  4. 4. Le 19, 18.
  5. 5. 1Jo 3, 16.
  6. 6. Segundo os Sinóticos, depois desta pergunta, o Senhor anuncia a disposição providencial que permitira ao demônio, assim como havia solicitado e obtido de Deus a permissão para tentar a Jó no corpo e nos bens, obtenha agora não apenas a permissão para atacar o Senhor, mas também para perturbar aos apóstolos: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo” (Lc 22, 31); “Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13, 7).” (Mt 36, 31; Mc 14, 27). Não obstante, como o Senhor não quisesse desencorajar, mas tão-só admoestar, acrescenta em seguida palavras de esperança; a ferida do pastor terá remédio, e as ovelhas não ficarão dispersadas para sempre: “Mas depois da minha Ressurreição, Eu vos procedei na Galileia” (Mt 26, 32; Mc 14, 28). Ao que se refere a Pedro, disse Jesus: “Mas Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 32). É a confirmação de sua prerrogativa pessoal: prediz o Senhor o escândalo para todos, mas só a Pedro promete uma assistência extraordinária, em harmonia com sua missão.

Artigo 1: Introdução ao Sermão da Última Ceia

Artigo 1: Introdução ao Sermão da Última Ceia

 

Este sermão, que Jesus começou logo após a saída de Judas do Cenáculo, proferiu-se após o fim das ceias legal e eucarística, no dia anterior a sua morte. Nele se unem de modo admirável uma nobreza divinal e uma suavíssima singeleza. Até no quarto Evangelho, em que a sublimidade chega a ser habitual, em parte nenhuma, à exceção do Prólogo1, encontram-se passagens comparáveis a este discurso e à oração que o segue, manancial de riquezas teológicas e em particular de provas da divindade de Jesus Cristo. Mas antes de proceder à explicação, será necessário fazer alguns esclarecimentos para a melhor compreensão.

 

Ambiente histórico do Sermão da Ceia

Antes do mais, para que se entenda o significado profundo do Sermão da Última Ceia, há de se ter em mente alguns fatos que o precederam de imediato e influem em seu sentido: são estes sobretudo o lava-pés, o anúncio da traição de Judas e a instituição da Sagrada Eucaristia.

1º. O lava-pés causou enorme impressão no ânimo dos discípulos. A assombrosa humildade do Mestre os deixou desconcertados e aniquilados; porém aquela inconcebível humildade e simplicidade do Mestre infundia-lhes uma coragem e confiança que os conduziam até Ele. A humildade do Mestre e a confiança humilde dos discípulos preparam a intimidade do Sermão.

2º. O anúncio da traição de um deles os deixou a todos aterrados, como se fosse o estampido dum trovão. Diante de seus olhos abriram-se perspectivas de sangue e morte. Ao primeiro espanto seguiu-se um profundo abatimento.

3º. A instituição da Eucaristia, delicadeza insuspeita, exacerbou os desencontrados sentimentos de temor e confiança. Por um lado o Mestre falava de sangue derramado e morte, mas por outro o regalo amoroso do Mestre estreitava a intimidade dos discípulos com Ele.

 

Ambiente sentimental do Sermão da Ceia

Em tais circunstâncias, neste ambiente histórico, era vivíssima a emoção do Mestre e dos discípulos. Por efeito desta emoção, o Sermão da Última Ceia é único, se comparado aos outros discursos de Jesus. Não é possível apreciá-lo com justiça nem entendê-lo sem levar em conta a emoção de quem fala e de quem escuta.

1º. O Coração do Mestre palpitava de emoção: sentimentos desencontrados lutavam Nele: por um lado saboreava em antecipação o gozo inefável do retorno ao Pai, junto ao qual recobraria a glória eterna e divina que sua humanidade agora humilhada compartilharia; mas por outro lado sentia pesar sobre si a tremenda responsabilidade dos pecados do mundo, que Ele iria expiar com sangue e morte. Estes afetos contrários originavam em seu Coração um estado de violência que, chegado o momento crítico, explodiria no Getsêmani. Entretanto grandes ideias Lhe absorviam a alma: a glorificação do Pai, a reabilitação dos homens e o estabelecimento da Igreja. Também abrasava seu Coração, até o interior das entranhas, o amor por aqueles pobres discípulos, destinados a serem executores de seu pensamento e continuadores da obra salvífica; no entanto, embora cheios de boa vontade, ainda estavam desorientados, não compreendiam o pensamento de Jesus. Todos esses sentimentos latejam nas declarações que dá Jesus durante o Sermão.

2º. Não menos importante para o entendimento do Sermão é o conhecimento do estado sentimental dos discípulos. A declaração inicial e repentina do Mestre: Para onde eu vou, vós não podeis ir, causou dolorosa repercussão no coração dos discípulos. Criava-se para eles uma situação nova, jamais imaginada, resumida nesta pergunta desoladora, que vagamente os embargava: “Sem ele, que será de nós?” Sem ele..., e o pensamento tétrico de verem-se um dia desamparados da presença do Mestre os entristecia, acovardava e abatia. Que será de nós?... e esta sensação de insegurança os desorientava, transtornava e perturbava. Covardia e perturbação: estes dois sentimentos dominantes determinam o que será o Sermão da Última Ceia: Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize2, dir-lhes-á o Mestre; o Sermão será palavra de luz que sossega a perturbação, e palavra de encorajamento que desterra a covardia: luz de instrução para ensinar aos discípulos o que terão de fazer à ausência do Mestre, e luz de coragem ou conforto para os reanimar, consolar e ainda cumular de alegria indescritível.

O ambiente mui afetivo dá ao Sermão do Senhor as seguintes características: a) por um lado o Senhor sustenta durante a longa conferência uma efusão afetiva em face dos apóstolos, qual um Pai que dá em testamento aos filhos os mais perfeitos documentos da vida cristã e apostólica; b) por outro lado uma certa incoerência ou vai-e-vem de pensamento, talvez mais aparente que real, que quiçá se deva ao estado psicológico de Jesus naqueles momentos de emoção suprema, em que iria Ele morrer e separar-se dos discípulos amados3.

 

Lugar do Sermão da Última Ceia

No que respeita ao lugar de pronunciamento do discurso, todos os exegetas católicos concordam: aconteceu no Cenáculo, mas no que se refere a sua continuação, dividem-se eles em duas correntes:

1º. Uns afirmam que o sermão se proferiu inteiramente no Cenáculo4, considerando que não é verossímil que Jesus fizesse um discurso tão elevado e extenso perto de meia-noite e às portas duma quase furtiva saída da cidade. Se alguém lhes objeta que disse Jesus: “Levantai-vos, vamo-nos daqui”5, contestam afirmando que Jesus realmente se dispôs a sair com os apóstolos, mas antes da saída definitiva retomou a palavra e deu seguimento ao tema inicial, “como costumam os amigos, que a custo se despedem dos amigos, recomeçar os discursos interrompidos”6.

2º. Outros afirmam que, a partir do primeiro versículo do cap. 15, Jesus prosseguiu em conferência com os discípulos no trajeto entre Jerusalém e o horto de Getsêmani7; apoiada tal opinião na palavra de Jesus: “Vamo-nos daqui”, esses comentadores não acreditam que Ele permanecesse por mais tempo com os discípulos no Cenáculo. É a opinião mais natural, que se restringe ao que disse São João, e é a mais persuasiva, pois que o Mestre recomeçara a falar propondo a metáfora da vinha, do vinhateiro e dos sarmentos, sugerida quer pela vista da videira de ouro colocada na fachada do Templo, ante o qual provavelmente passaram, quer pela vista dos campos e seus vinhedos recém-podados, como sói acontecer na Palestina naquela época do ano, ocasião em que os camponeses despojavam as vides dos sarmentos que não prometiam fruto8.

 

Importância do Sermão da Ceia

1º. Como Jesus falasse apenas aos apóstolos e fosse a última conversa que travaria com eles antes de sua morte, tendo em perspectiva a prova terrível por que [os apóstolos] deveriam passar, tais fatos conferem ao discurso uma importância extraordinária, convertendo-o verdadeiramente na despedida e testamento de Nosso Senhor Jesus Cristo a sua Igreja.

2º. O discurso se dirigiu aos apóstolos em íntima relação com o sacrifício eucarístico (depois de receberem o Corpo e o Sangue de Jesus e de Nosso Senhor Jesus Cristo os ordenar sacerdotes, a fim de perpetuarem este sacrifício) e na iminência da imolação cruenta da Cruz. Este é o sermão eucarístico por excelência, pois se trata da ação de graças da primeira Comunhão realizada no mundo, celebrada pelo Mestre em pessoa, em que se expressa à evidência os efeitos da Eucaristia nas almas e os do sacrifício da Cruz, que Jesus antecipa.

 3º. É cabível ponderar também o fato de que neste discurso se descortinam os mais altos mistérios da vida íntima da Trindade e os mais profundos da vida cristã. Nele o Divino Mestre abriu de par em par seu pensamento e coração, dando aos apóstolos o que poderíamos chamar a quintessência do Evangelho. Ele aqui oferece o que há de mais apurado nos mistérios da vida divina, tanto em Deus quanto no homem a quem Deus a comunica. Os mistérios estão para a Lei, assim como o Sermão da Última Ceia está para o Evangelho; por isso já denominaram estes capítulos o “Sancta Sanctorum” dos Evangelhos, e por isso mesmo não há outra parte do Evangelho de São João que mereça tanto o nome de “pneumático” ou espiritual.

4º. Finalmente, deixa-se entrever neste sermão, embora não se afirme de modo expresso, a reprovação do povo judeu por causa de sua infidelidade e recusa ao Messias. Com efeito: a) Nosso Senhor promete aos apóstolos um reencontro após a Paixão, e uma assistência especial, que negou ao povo judeu por conta de sua resistência; b) do mesmo modo ao aplicar a Si e aos apóstolos a comparação da videira e dos sarmentos, está declarando que Israel, devido à infidelidade, deixou de ser a vinha do Senhor; c) ou ao prometer o dom do Espírito aos apóstolos, mostra claramente que o Espírito se retirou da Sinagoga, como outrora se retirara de Saul para pousar em Davi; d) quando exorta os apóstolos para que se unam a Ele, está pressagiando a separação de seu povo até o final dos séculos. Assim a Sinagoga se vê privada de todos estes dons que concede o Senhor à Igreja na pessoa dos apóstolos.

 

Idéia central e plano do Sermão da Ceia

Discurso de despedida ou Testamento do Senhor: estes dois nomes expressam bem a idéia dominante, em torno da qual se agrupam todos os demais pensamentos. Dentro de algumas horas Jesus vai morrer; antes de separar-se dos apóstolos lhes dirige as últimas palavras de consolo, exortação e promessa. A ordem da exposição é de todo conforme à psicologia.

Assim que pronuncia a palavra “partida” (13, 31-38), apressa-se Cristo em consolar os apóstolos, pondo-lhes diante dos olhos os felizes efeitos que para eles e para Ele terá a separação (14, 1-31); logo após os exorta a se conservarem intimamente unidos a Ele e entre si com laços de caridade indefectível (15, 1-27); enfim os avisa do que o futuro lhes reserva e às predições dolorosas opõe o contrapeso das brilhantes promessas de vitórias e felicidade (16, 1-33). A fé é o tema do discurso no cap. 14, a caridade no cap. 15, e a esperança no cap. 16. Termina o discurso com a admirável Oração Sacerdotal de Jesus (17, 1-26).

Se observarmos apenas o aspecto exterior do discurso, as palavras “Levantai-vos, vamo-nos daqui” o dividem em duas partes: a) a primeira é mais familiar, um como diálogo com os apóstolos: Pedro, Tomé, Felipe e Judas Tadeu fazem sucessivas perguntas ao Mestre, às quais Ele responde com a costumeira bondade; b) a segunda é mais grave e solene: afora duas interrupções dos apóstolos, é um discurso em forma de monólogo.

 

Primeira parte, no Cenáculo,

Em forma de diálogo com os apóstolos (13, 31-14, 31).

 

I. Exórdio: separação iminente de Cristo e seus resultados (13, 31-38).

1º. Jesus logo será glorificado e o Pai Nele;

2º. O novo mandamento;

3º. Predição da tripla negação de Pedro.

 

II. Fé: Consolos de Cristo aos apóstolos (14).

1º. Primeiro consolo: a certeza duma futura reunião no céu.

a) Jesus retorna ao Pai e ali preparará um lugar para seus amigos;

b) Há de se ver o Pai em Jesus;

 

2º. Segundo consolo: Jesus manifestará sua união com os apóstolos de três maneiras:

a) Facultando-lhes a realização de obras ainda maiores que as suas;

b) Enviando-lhes o Espírito Santo;

c) Vivendo misticamente na Igreja;

 

3º. Epílogo da primeira parte.

a) Recapitulação;

b) Dolorosa palavra de separação;

c) Admirável resignação de Jesus a todas as vontades do Pai.

 

Segunda Parte, a caminho do Getsêmani,

Em forma de monólogo (15,1-17,26)

 

III. Caridade: Exortações de Cristo aos apóstolos (15)

1º. Alegoria da videira ou união de Cristo com os apóstolos.

a) A videira e o vinhateiro;

b) A videira e os sarmentos.

 

2º. Jesus exorta os apóstolos a viverem em caridade perfeita e recíproca.

 

3º. Ódio que manifestará o mundo aos enviados de Cristo.

a) Os discípulos serão detestados pelo mundo, como detestaram o Mestre;

b) Grande pecado do mundo;

c) O ódio do mundo não impedirá que brilhe a verdade sobre Jesus Cristo.

 

IV. Esperança: Promessas de Cristo aos apóstolos (16)

1º. Ação do Espírito Santo diante do mundo e dos apóstolos.

a) Introdução: perseguições que os apóstolos hão de sofrer em breve;

b) A obra do Paráclito em face do mundo;

c) A obra do Paráclito em face dos apóstolos.

 

2º. A tristeza presente se transformará em gozo vivíssimo e imorredouro.

a) Os apóstolos logo se verão privados do Mestre, mas por pouco tempo;

b) Gozo sem fim dos apóstolos, após este breve momento de tristeza;

c) Conclusão e recapitulação de todo o discurso.

 

V. Oração sacerdotal de Nosso Senhor Jesus Cristo (17).

1º. Jesus roga ao Pai por Si mesmo.

a) Introdução;

b) Cristo conjura ao Pai a que O glorifique ao cumprir sua missão.

 

2º. Cristo reza pelos apóstolos.

a) Razões por que esta oração merece ser ouvida;

b) O que pede Jesus para o colégio apostólico.

 

3º. Cristo reza por todos os cristãos do futuro.

a) Pede a unidade para a Igreja;

b) Pede a glória e felicidade eternas para todos os fieis;

c) Conclusão e recapitulação da oração de Jesus.

  1. 1. Jn 1, 1-18.
  2. 2. Jo 14, 27.
  3. 3. Admitem alguns autores que esta incoerência pode atribuir-se ao apóstolo redator do Evangelho, que escrevera pela primeira vez aqueles longos discursos muitos anos após o pronunciamento, sacando-os da memória aos pedaços, diz Patrizzi; não é crível que a inspiração divina suplementasse cada uma das palavras deste trabalho, segundo Corluy, já que é doutrina geralmente admitida que o Espírito Santo, ao inspirar os Santos Livros, respeita na ordem psicológica e literária a maneira de ser de cada um dos autores secundários que os escreveram.
  4. 4. Maldonado, A Lapide, Knabenbauer.
  5. 5. Jo 14, 31.
  6. 6. A Lapide.
  7. 7. Cajetano, Corluy, Fillion, Fouard.
  8. 8. Parece-nos exagero chamar este Sermão, como o fazem alguns autores, de “problema literário de difícil solução”. À medida que se esteiam naquilo em que o cap. 14 parece um discurso completo, de modo que se faltassem os caps. 15 e 16 deles não sentiríamos falta, pois que o começo do cap. 15 está completamente desligado do cap. 14 – eles concedem à opinião que explica a unidade literária do Sermão tão-somente a dignidade de hipótese possível, mas pouco provável. Segundo eles, melhor seria supor que São João, no cap. 14, quis reproduzir o cerne do Sermão ou então o recordava de forma espontânea, e mais tarde, desejoso em dar uma ideia mais cabal do Sermão, completou o escrito primitivo, mas não o refundiu com o cap. 14, antes redigiu em separado os caps. 15 e 16. As provas disso? Todas provenientes de crítica interna ou de suposições gratuitas, tão frágeis quanto as opiniões que eles descartam, de modo que estamos diante de outra hipótese possível, mas pouco provável. Por isso, relegando o problema literário ao escaninho dos falsos problemas, restringimo-nos ao modo como sempre se entendeu este Sermão, i. e., proferido por Nosso Senhor tal como o transcreve São João.

A Imaculada Conceição e o plano de Deus

Pe. José Maria Mestre

 

  

Celebramos hoje a festa da Imaculada Conceição, ou seja, o privilégio que a Virgem Maria recebe, no momento mesmo de sua concepção no seio de sua mãe, Santa Ana, de ver-se livre do pecado original. Este dogma celebra, pois, a primeira vitória total contra o pecado, porque significa isenção de todo o poderio do pecado e do demônio sobre a alma bem-aventurada de Maria; vitória de Cristo, único Salvador do gênero humano, pois a Imaculada Conceição foi concedida a Maria em vista dos méritos de Cristo em sua Paixão e morte.

Gostaria de considerar, por ocasião desta festa, dois pontos: em primeiro lugar, o aspecto combativo e atual deste dogma; em segundo, como, por este dogma, se nos revela o grandioso plano de Deus de redimir o gênero humano por um Homem e uma Mulher.

 

 

1º Aspecto combativo e atual da Imaculada Conceição.

 

Em 1917, a Maçonaria celebrou em Roma seu segundo centenário. Por todas as partes, apareceram bandeiras e cartazes que representavam o Arcanjo São Miguel vencido e derrubado por Lúcifer; e, na mesma praça S. Pedro, podia-se escutar o seguinte slogan: « Satanás reinará no Vaticano, e o Papa tomará parte em seu corpo de guarda! ».

 

O irmão Maximiliano Kolbe, franciscano conventual polaco, era então estudante de teologia na Gregoriana de Roma. Ante essas demonstrações de audácia do inimigo, pergunta-se: « Por que os católicos tem de ser tão pusilânimes na defesa de sua fé, enquanto os inimigos são tão audazes em atacá-la? Não possuímos nós armas mais eficazes que eles, o Céu e a Imaculada?» E meditando nas Sagradas Escrituras e nos Santos Padres, inspirando-se nos escritos dos santos marianos, especialmente São Luís Maria de Montfort; considerando o dogma da Imaculada e as aparições de Nossa Senhora de Lurdes, e a extensão prática de todas estas verdades, chega a esta conclusão: « A Virgem Imaculada, vitoriosa contra todas as heresias, não cederá ante seu inimigo que levanta a cabeça; se encontrar servidores fiéis, dóceis às suas ordens, logrará novas vitórias, muito maiores do que poderíamos imaginar... ».

 

E funda assim, em 16 de outubro de 1917, três dias apenas após o milagre de Fátima, a Milícia da Imaculada. O emblema desta nova milícia será a Medalha Milagrosa. Sua exigência, a consagração total à Imaculada Mãe de Deus, para viver praticamente esta consagração. Seu fim, arrancar as massas das garras de Satanás e pedir à Imaculada a conversão dos inimigos da Igreja, especialmente os mações.

 

Se São Maximiliano Kolbe dá a sua Milícia o nome de Milícia da Imaculada, é também, e é preciso sabê-lo, porque a definição do dogma da Imaculada Conceição, em 1854, por Pio IX, apresenta um aspecto combativo que os inimigos da Igreja souberam discernir em seguida, e que nós não devemos esquecer. Com efeito, em 1854, estão em plena circulação todos os princípios do Contrato Social de Rousseau, que iriam levar ao estabelecimento universal desta grande mentira que é a democracia e os direitos humanos. Qual é o cimento de todas estas fábulas, de todas estas mentiras em que, de tão boa fé, crê o homem moderno? Um só: o dogma da imaculada conceição... do gênero humano. Postula-se que o homem é bom por natureza, que o homem nasce bom e que é a sociedade quem o corrompe. Sem este postulado latente, todo o sistema social revolucionário cai.

 

Ora, Pio IX, com sua definição dogmática, o põe por terra. Pois, ao definir a Imaculada Conceição de Maria, não faz senão assentar o seguinte: a imunidade do pecado original, longe de ser uma lei geral, válida para todos os homens, é, ao contrário, o privilégio único e exclusivo de uma única criatura, que é a Santíssima Virgem Maria. E que, portanto, para os demais homens, segue vigente o pecado original, com todas as conseqüências que ele implica: a necessidade de um Redentor, a que devem submeter-se todos os homens; a necessidade da autoridade, da graça, dos sacramentos, da Igreja, da educação, da família e da necessidade, enfim, da ordem social cristã, concebida e construída especialmente para curar os homens que nascem sob o pecado original... A necessidade, pois, de tudo o que pretendiam negar os revolucionários.

 

2º O plano de Deus na economia da Redenção.

 

Mas, se nos aprofundarmos um pouco, veremos que o dogma da Imaculada Conceição, especialmente comemorado no Advento, no começo da celebração dos mistérios de Cristo, revela o plano de Deus na obra de nossa Redenção. Com efeito, nos mostra, antes de Cristo, o Novo Adão, Maria, em toda a plenitude de sua santidade, como Nova Eva. A cena do Evangelho é, a este propósito, muito sugestiva.

 

Deus quis que o gênero humano fosse propagado segundo a carne por um homem e uma mulher. Também quis que, na ordem sobrenatural, fosse restaurado por um Homem e uma Mulher.

 

Ou seja, a obra da Redenção é concebida ao modo de uma vingança divina, como no-lo ensinam unanimemente os Santos Padres.

 

O plano de Satanás foi o de perder o homem e, como ele, toda sua descendência, através da mulher, escudando-se nela, dissimulando-se por trás dela. Eva teve, assim, na ordem da queda, um papel de introdução, de preparação e de colaboração.

 

O plano de Deus será o de salvar a humanidade através de um Homem, um Novo Adão, mas com a colaboração de uma Mulher, uma Nova Eva. O Novo Adão é Cristo, a Nova Eva, Maria. Maria tem, assim, na ordem da redenção e por vontade divina, um papel de introdução (encarnação), preparação (Caná) e de colaboração (em todos mistérios de Cristo, mas especialmente, no Calvário).

 

Para cumprir de modo conveniente esta missão, que era de luta e vitória contra o diabo, era preciso que Maria não tivesse parte alguma com ele, que fosse Imaculada: Imaculada para ser digna Mãe do Redentor; Imaculada para poder ser a Corredentora do gênero humano; Imaculada para ser, em toda a linha, associada à obra de santificação do Redentor.

   

 

Conclusão.

 

Assim o vemos. O dogma da Imaculada Conceição nos mostra, ainda que em esboço e preparação, a Santíssima Virgem totalmente entretida com a obra da Redenção, da qual Ela mesma é o primeiro fruto, e o mais bem acabado. E, portanto, nos mostra a Santíssima Virgem totalmente entretida com a Igreja Católica, com a nossa própria vida espiritual, com a de nossas famílias e sociedades.

 

Deus guardou o bom vinho para o final. A visão grandiosa do papel de Maria e a intervenção extraordinária da Virgem Santíssima na obra da Redenção, que há de se fazer muito mais visível no final dos tempos, é uma graça que Deus reservou para o fim, para o momento em que a Igreja, como o grão de mostarda, tenha já crescido muitíssimo e, com ela, o conhecimento, o amor, a honra e o serviço à Santíssima Mãe de Deus.

 

Por isso, ofereçamo-nos hoje à Santíssima Virgem, entreguemo-nos totalmente a Ela. Vivemos em tempos muito perigosos, tempos em que o demônio anda totalmente à solta; mas esses tempos também hão de ser, e forçosamente o serão, tempos da Imaculada que esmaga a cabeça do demônio. E também nós somos chamados a tomar parte na inimizade da Mulher contra a Serpente, e de sua vitória contra o demônio: à condição, no entanto, de sermos, plena e voluntariamente, descendência de Maria.

 

 

Na festa da Imaculada Conceição de Maria, 8 de dezembro

 

 

 

Reflexões sobre o Apocalipse

[N. da P.] O texto seguinte é um trecho de uma carta escrita por nosso amigo, o Pe. José Maria Mestre, ao Rafael Castela Santos, do inteligente Blog "A Casa de Sarto", onde foi originalmente publicada.
 
... Dou-lhe minha opinião. É a seguinte: de modo geral, penso que deveríamos descartar todo Milenarismo, quer material (condenado pela Igreja como herético) quer espiritual (que a Igreja não permite ensinar e, de todo modo, afirmou não se poder ensinar com segurança). É certo que o Padre Castellani, no que toca o Apocalipse, nos dá uma interpretação muito sólida, pois se baseia em tudo o que de claro disseram os Santos Padres, e gozou de uma singular penetração na compreensão dos acontecimentos modernos para a aplicação das profecias do Apocalipse. Parece-me que poucos autores se poderão consultar que sejam tão luminosos quanto ele. Mas, quando advoga em favor do Milenarismo, devemos tomá-lo com cuidado. E isso por quatro razões:

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