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Artigo 3: Fé - Consolos de Cristo aos apóstolos

Artigo 3: Fé - Consolos de Cristo aos apóstolos

Chamou-se o cap. 14 de São João de os consolos, e com muita razão: o bom Mestre, vendo os discípulos conturbados pelas predições desoladoras que acabava de fazer, lhes sugere diversos motivos de consolo. Assim tanto o pensamento como a linguagem se remontam a alturas cada vez maiores. Em primeiro lugar certifica que a presente partida não é uma partida sem esperança de retorno: Ele vai ao céu para junto do Pai e ali lhes preparará um lugar, e até que chegue a hora de ocupá-lo assegurar-lhes-á um extraordinário poder taumatúrgico, o envio do Espírito Santo Paráclito e uma assistência perpétua, ao viver misticamente entre eles.

 

I. Primeiro consolo: a certeza de uma futura reunião no céu

Jesus retorna ao Pai e ali preparará um lugar para seus amigos

A predição da traição e da negação de Pedro, mas sobretudo o anúncio da partida breve de Jesus e portanto de sua ausência, deixando o mundo sem consumar a prometida obra de fundação do reino messiânico, e deixando-os sozinhos diante de terríveis inimigos – foram para os apóstolos motivo de perturbação e angústia. Assim lhes disse Jesus: Não se perturbe o vosso coração. A razão da serenidade que se há de guardar naqueles momentos é a confiança em Deus e Nele: Credes em Deus, crede também em Mim; da mesma maneira que tendes fé em Deus, deveis tê-la em Mim, que sou seu embaixador e Cristo, e como Ele Deus; por isso, embora aparentemente vos deixe, estarei convosco para sempre, auxiliando-os desde o céu.

Demais, se pela fé persuadem-se no íntimo de que a ausência será passageira e visa lhes preparar no céu o lugar onde viverão eternamente – longe de se afligirem regozijarão. É o que lhes explica a continuação. Na casa de Meu Pai há muitas moradas. O céu não é tão-só o reino ou a cidade de Deus, mas também a casa que o Pai Celestial mantém sempre arrumada para todos os seus filhos e sua grande família. Ali haverá muitas moradas: a) muitas, pois muitos serão os filhos de Deus; b) moradas, pois ali viverão de infinito a infinito os filhos do Pai Celestial. Não fora assim, e eu vos teria dito. E se eu vos deixo aqui na temporalidade, é porque lhes vou preparar um lugar: Pois vou preparar-vos um lugar: e isso de duas maneiras: a) a primeira, pela dolorosa saída do mundo, i. e., pela morte de cruz, pois o caminho que conduzia ao céu estava bloqueado pelo pecado, e ninguém poderia lá ir se antes não se restabelecesse a paz entre Deus e os homens, mediante a paixão do Filho de Deus; b) a segunda, pela gloriosa entrada nos céus, pois as moradas celestiais não se poderiam habitar enquanto não adentrasse nos céus o Primogênito da casa e da família de Deus, Jesus Cristo, sem cuja presença não seriam admitidos os filhos adotivos. Por isso segue dizendo Nosso Senhor: Depois de ir e vos preparar um lugar, abrindo-lhes o céu pela paixão e ascensão, enviando-lhes o Espírito Santo e assistindo-os desde lá em todos os vossos trabalhos, voltarei e vos tomarei comigo, para o reino da glória, para que, onde Eu estou, também vós estejais. 

Jesus remata esses conceitos de modo sentencioso: E vós conheceis o caminho para ir aonde vou. Mas os apóstolos, rudes que eram e preocupados pela imagem de alguma viagem terrena que o Mestre iria empreender, não compreenderam suas palavras. Por isso disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? Responde Jesus com uma tripla definição de si mesmo que revela clara e categoricamente as funções de Cristo em ordem aos eternos destinos do homem. Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. A metáfora é plena e elevada.

1º. Jesus é o Caminho, e isso: a) em sentido objetivo, porque Ele é o único Mediador entre Deus e os homens, por cuja mediação alcançamos a paz com Deus1, e só por Ele se passa do estado de pecado ao de graça, da terra ao céu; b) em sentido subjetivo, porque só Ele é a personificação da justiça e da santidade, o modelo a imitar e o mestre cujos preceitos devemos seguir.

2º. Cristo é a Verdade, i. e., a suprema realidade objetiva: todas as demais verdades, figuras e vaticínios se ordenam a Ele e Nele encontram o cumprimento; e só por Ele podemos ser iluminados nas coisas de Deus, pois é Ele o autor da fé e do conhecimento de Deus.

3º. Cristo é a Vida, porque possui a natureza divina, e portanto é fonte de toda a vida; sobretudo, do ponto de vista sobrenatural, a vida eterna nada mais será que a participação da plenitude da vida divina que Nele está2

Por tudo isso, só por Cristo se vai ao Pai: Ninguém vem ao Pai senão por Mim. Daí indicamos qual seja o fim, o Pai, e o caminho para chegar a Ele, Jesus Cristo.

 

Há de se ver o Pai em Jesus

Nas palavras seguintes indica Nosso Senhor o motivo por que somente Ele é o caminho que conduz ao Pai: é que entre eles reina tal identidade de natureza, que conhecer a um é conhecer ao outro, ir a um é ir ao outro: Se me conhecesseis, também certamente conhecerieis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto. Para que o conhecimento do Filho implique necessariamente no conhecimento do Pai são indispensáveis duas coisas:

1º. Que o Pai esteja realmente no Filho. E é o que acontece; o Pai está no Filho: a) enquanto Deus, pela comunhão e identidade de natureza, e pela circuminsessão das Pessoas Divinas, de modo que o Filho é o resplendor e a figura da substância do Pai; b) enquanto homem, porque Cristo, em virtude da união hipostática, mesmo sendo homem é Filho próprio, e não adotivo, de Deus.

2º. Que o Pai se manifeste no Filho e pelo Filho. De efeito o Pai se manifesta no Filho e pelo Filho por meio das palavras e das obras, da doutrina e dos milagres. É o que Felipe vai dizer a Ele na continuação.

Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. Estranha Felipe que Jesus diga que já viram o Pai; imagina que conhecer e ver o Pai é ver a Deus em si mesmo, e um tal favor – de que ele não se recorda haver gozado alguma vez na vida – é o que ele agora pede para si e os outros discípulos. Responde-lhe Nosso Senhor dizendo que, para além da visão beatífica, que só se oferece no céu, existe outro conhecimento de Deus que os faria ter visto no Filho o Pai: o conhecimento da fé. Há tanto tempo que estou convosco e mão me conheceste, Felipe! Depois de três anos de relações assíduas, haverias de me ter reconhecido, não como um entre tantos profetas, senão como Filho de Deus, que possui a mesma natureza e os mesmos atributos e propriedades do Pai. Aquele que me viu viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai. Se em Mim viste ao Filho de Deus, no Filho poderias ver ao Pai.

Semelhante afirmação prova-a Jesus com um raciocínio: Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em Mim? Em razão da circuminssesão das Pessoas Divinas, o Pai está no Filho, e o Filho está no Pai. A presença do Pai no Filho não é inativa: no Filho e pelo Filho fala e obra o Pai: As palavras que vos digo não as digo de Mim mesmo; mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza as suas própria obras. O pensamento do Mestre, incompleto, é conclusivo: Se minhas palavras e obras são palavras e obras do Pai, era natural que ao me verem a Mim vísseis também ao Pai; e se não vistes em Mim o Pai, é porque não me vistes com os olhos da fé. Por isso crede-me: estou no Pai, e o Pai em Mim. Vede-me com os olhos da fé. Se a tanto não chega a vossa fé, crede-o ao menos por causa dessas obras, já que Deus não pode acreditar com milagres as mentiras de um iluminado ou impostor.

Estas declarações do Mestre encerram uma altíssima teologia trinitária, que podemos reduzir a quatro pontos principais: a) “Eu” e o “Pai”: distinção de pessoas no seio da Trindade; b) “Filho” e “Pai”: sendo termos correlativos, não é lícito se digam propriamente daqueles que possuam naturezas diferentes; Pai e Filho são pois de uma mesma natureza divina; c) imanência do Pai no Filho, e do Filho no Pai, o que não seria possível se não houvesse consubstancialidade entre ambos; d) o Filho recebe do Pai não apenas o ser, mas também a atividade: o Filho fala e obra, mas não por si mesmo; portanto, há unidade de ação entre o Pai e o Filho.

 

II. Segundo consolo: Jesus manifestará sua união com os apóstolos de três maneiras (Jo 14, 12-24)

Jesus consolou os apóstolos com a magnífica promessa do céu, de onde virá a buscá-los, depois de lhes preparar um lugar. Entretanto não podem os discípulos ir até onde vai Jesus, mas deverão permanecer no mundo até que Ele retorne. Para este ínterim Jesus os consola com três promessas esplêndidas: um poder extraordinário, a vinda do Espírito Santo e sua assistência perpétua.

 

Cristo lhes facultará a realização de obras ainda maiores que as suas

Satisfeita a curiosidade de Tomé e Felipe, prossegue Nosso Senhor o raciocínio. As palavras: Crede-o ao menos por causa dessas obras, dão azo a que Jesus prometa aos discípulos que, se crerem, também eles farão grandes obras: Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em Mim fará também as obra que Eu faço. Que obras são essas? A missão messiânica que Jesus recebeu do Pai. E fará ainda maiores do que estas: pois o campo de ação dos apóstolos será muito mais extenso, e porque os milagres dos apóstolos, embora não necessariamente maiores que os do Mestre, serão mais alardeados por entre as nações. Porque vou para junto do Pai: i. e., justamente porque no céu gozarei de minha glória e de meu poder, assistir-vos-ei de lá do alto para que obreis as tais obras maiores, de modo a que continueis minha obra redentora e estendais sobre todo o mundo o reino do Pai.

Promete-lhes Jesus outra casta de poder para consolar-lhes e levar a cabo as grandes obras: a eficácia da oração: E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei. Pedir em nome de Jesus é pedir em íntima união com Ele, apoiando-se em seus méritos e promessas e orando com seu mesmo espírito. Feita assim a oração goza de uma espécie de onipotência. A finalidade deste poder da oração é a glória do Pai, objetivo da vida de Jesus: Para que o Pai seja glorificado no Filho. A fim de provar a igualdade de poder e de natureza com o Pai acrescenta: Qualquer coisa que me pedirdes, em meu nome, vo-la farei: nova confirmação de sua divindade.

 

Cristo lhes enviará o Espírito Santo

Continuando anuncia o Senhor aos apóstolos um fato futuro, a vinda do Espírito Santo, que agora sabemos aconteceu no dia de Pentecostes. A expressão de maior destaque, à luz da qual há de se interpretar as demais, é: “O Padre vos dará outro Paráclito, o Espírito da Verdade”. As frases precedentes declaram a razão por que o Pai dará este novo Paráclito: “Porque Eu rogarei por vós”, “em atenção ao vosso amor por Mim”. Estas últimas revelam o mistério do por que o mundo não receberá o Espírito da Verdade, e sim vós. 

Se me amais, guardareis os Meus mandamentos. Amor designa aqui, mais que um sentimento do coração, a adesão da vontade e da alma inteira à pessoa do Mestre. Os mandamentos que se devem guardar são as normas ou disposições do Mestre referentes à futura ação dos discípulos na fundação da Igreja. Em uma palavra, quer o Mestre discípulos totalmente dedicados a sua pessoa e seus planos; e destarte, para não lhes deixar desamparados com sua ausência corporal, lhe promete outro Paráclito, o Espírito Santo. E eu rogarei ao Pai. Roga Jesus enquanto homem, embora enquanto Deus Ele mesmo, juntamente com o Pai, envia o Espírito Santo. E o Pai, deferindo minha petição por respeito a Mim, vos dará outro Paráclito. Paráclito era-o já Cristo, mas o Senhor, antes de retirar-se, quis dar outro, o Espírito Santo, que há de lhes fazer no invisível o que Cristo fizera no visível, e completar a obra que Cristo iniciou. Demais, trata-se: a) de um dom gratuito, i. e., devido à bondade do Pai; b) ainda não efetuado: a doação do Espírito Santo não objetiva a santificação pessoal dos apóstolos, mas o estabelecimento do reino de Deus sobre a terra, no dia de Pentecostes. Que fique convosco, não apenas durante certo tempo, como Eu, mas eternamente, até o fim dos séculos: sinal este de que se trata de um favor outorgado, não pessoalmente aos discípulos, senão que à futura Igreja e mormente aos ministros dela. O Espírito Santo, assim como dirigiu e impulsionou a ação pessoal de Jesus3, assim há de dirigir e impulsionar também a ação dos apóstolos, continuadores da obra messiânica. É o Espírito da Verdade: porque manifestá-la-á com suas iluminações, e com suas moções inspirará coragem a quem dela dê testemunho.

Que o mundo não pode receber. Mundo aqui é o conjunto de homens governados por critérios naturalistas e perversas cobiças. Assim entendido, o mundo é radicalmente incapaz de perceber e entender o Espírito Divino: Porque não o vê nem o conhece, i. e., não tem olhos para vê-lo nem conhecê-lo. Como pode a carne receber o Espírito? Ou o erro a verdade? Por sua vez, dos discípulos disse o Mestre: Vós o conhecereis, porque permanece convosco e estará em vós. Os discípulos, imbuídos de disposições radicalmente distintas das do mundo, estão capacitados a receber ao Espírito Santo e portanto a vê-lo e conhecê-lo: amam ao Mestre e lhe guardam os mandamentos, por isso Jesus rogará para que o Espírito venha sobre eles.

Note-se que as três expressões com que se declara a presença do Espírito Santo nos discípulos nos revelam três aspectos ou modalidades dela: a) “que fique convosco”: indica companhia; b) “permanece convosco”: indica amparo ou valimento; c) “estará em vós”: indica habitação íntima. O Paráclito prometido os acompanhará, protegerá e será o “doce hóspede da alma”, não com intermitências, mas de modo permanente e perpétuo.

 

Cristo seguirá vivendo misticamente na Igreja

Uma vez que a promessa do novo Paráclito não suprime nos apóstolos a tristeza em razão da partida e ausência do Mestre, promete-lhes Jesus voltar novamente para eles e estabelecer com eles sua morada. Logo, esta promessa se estende a toda a Igreja futura.

1º. Promessa de Nosso Senhor aos apóstolos – Não vos deixarei órfãos. A ausência do Mestre não é definitiva, como a do pai que morre, mas é por breve tempo: Voltarei a vós. Esta volta não é a parusia final, mas a que se verifica nas múltiplas manifestações de Cristo entre a ressurreição e a ascensão, bem como em sua presença invisível e real na Igreja, depois que retornou aos céus. Ainda um pouco de tempo, o espaço de algumas horas, E o mundo já não Me verá: nem fisicamente, pois com minha morte e sepultura encerrar-se-á a dispensação por que Eu me deixara ver, tocar e tratar por bons e maus; nem pela fé, porque o espírito do mundo é de trevas. Vós porém Me tornareis a ver, porque depois da ressurreição só hei de me dar a conhecer a vós, meus discípulos fieis, que me vereis com vossos olhos ressuscitado, e me contemplareis com vosso espírito na glória do Pai. Porque eu vivo: e assim a morte que Jesus vai padecer é para ele acidente passageiro, que não interrompe a perenidade de sua vida eterna; e a vida do Mestre explica qual seja a vida dos discípulos: E vós vivereis: i. e., possuireis vida divina – análoga a minha – que será uma participação de minha vida eterna.

Naquele dia, quando já tenha a condição imortal, conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e eu em vós. Destas palavras se entendem três coisas: a) a primeira, a imanência do Mestre nos discípulos: Nosso Senhor apropriou-se tão intimamente dos discípulos – os quais estão enxertados Nele pela graça e Dele recebem contínuo e vital influxo – , que eles chegam a formar um só organismo vivente: o Corpo Místico de Cristo; b) a segunda, que a recíproca imanência é análoga, e não igual, à imanência do Filho no Pai: assim como esta se baseia na identidade essencial ou substancial das pessoas trinitárias, assim aquela se baseia na identidade espiritual de Cristo com seu Corpo Místico: ao lhes comunicar o próprio Espírito, Cristo transfunde nos apóstolos sua própria vida divina; c) a terceira, que desta dupla imanência lograrão os apóstolos um conhecimento claro, profundo, íntimo e experimental, de um tipo que somente a vida dos grandes místicos, tais como Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Santo Inácio de Loyola, pode nos dar uma idéia.

2º. Extensão desta promessa a toda a Igreja futura – Jesus estende a todos os fiéis o que disse aos apóstolos, ao mesmo tempo que assinala uma condição para as manifestações íntimas de que acaba de falar: a observância dos mandamentos, que é a grande prova de amor: Aquele que tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. O Senhor pede o amor traduzido em obras, ou obras nascidas do amor. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai: o Pai tem tanto amor ao Filho e deseja tanto vê-lo amado, que não pode deixar de amar com ternura quantos o amem. E Eu o amarei. As duas frases correlativas: “Aquele que me ama... Eu o amarei”, parece se deveriam juntar; sem embargo intercala Nosso Senhor entre uma e outra o amor do Pai, e por duas razões: a) a primeira, porque ninguém pode amar ao Filho sem que o Pai o leve até ele; assim ama ao Filho quem correspondeu à ação do Pai e mereceu o amor de Cristo como recompensa; b) a segunda, porque o Filho nada faz por si, mas só o que vê o Pai fazer: outra manifestação de humildade de Nosso Senhor, que delicadamente em tudo cede a primazia ao Pai.

E Me manifestarei a ele. É a afirmação principal e uma espécie de fecho do raciocínio do Mestre. Antes dissera aos discípulos: “Ver-me-eis e conhecereis que Eu estou em meu Pai”; agora, para que destarte o vejam e conheçam, diz que se manifestará a eles, mostrar-lhes-á quem é e revelará sua glória divina. Um dos frutos desta manifestação é o “conhecimento interno” de Cristo, que é a grande força santificadora da alma, o anelo ou sonho dourado dos santos4.

3º. Interpelação de Judas Tadeu – Pergunta-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo? A questão de Judas Tadeu é filha dos preconceitos que os apóstolos padeciam, bem como os judeus em geral: segundo os profetas o Messias devia manifestar-se clamorosamente a todas as nações5; no entanto disse Jesus que não se manifestaria ao mundo, senão a eles somente, o que contradizia a idéia de universalidade e esplendor do reino messiânico. Respondeu-lhe Jesus de modo indireto declarando em primeiro porque se manifestará aos discípulos e não ao mundo:

Se alguém me ama: nova ampliação universal da promessa feita apenas aos discípulos; guardará a minha palavra: a substituição de “mandamentos” por “palavras” é significativa, e confirma que ambas as expressões significam de modo geral todo o ensinamento, dogmático e moral, do Mestre: as revelações, os preceitos, os conselhos e as orientações. E meu Pai o amará: de novo, entre o amor a Jesus e a manifestação de Jesus à alma, interpõe-se o amor com que o Pai nos ama. Por isso se detalha aqui dois pontos acerca desta manifestação: a) E nós viremos a ele: antes do mais se pressupõe uma vinda ou apresentação pessoal, que inclui não apenas a Jesus Cristo, senão que também se estende ao Pai; b) E nele faremos a nossa morada: tal vinda não há de ser passageira ou momentânea, mas duradoura e permanente6. Assim Jesus consola aos seus: não só não os deixa como retorna a eles acompanhado das outras pessoas da Santíssima Trindade.

Assim não sucede com o mundo. Aquele que não me ama, não guarda as minhas palavras. O mundo não ama a Jesus, antes o aborrece; por isso não crê na verdade dos ensinamentos, não observa os preceitos e nem se atem às orientações; desta forma não pode esperar que o Pai e o Filho venham até ele e nele façam morada. A palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou. Quer o Mestre tão-só declarar: a) que a fonte primeira de seus ensinamentos não era humana, mas divina: o Pai Celestial7; b) que ensinava na condição de Messias ou enviado de Deus; c) que a palavra do Filho era a palavra do Pai, de quem havia recebido o ser e a geração eterna. Assim a razão desta admoestação: “Quem deseja ao Pai, deseja aquele que Ele enviou.”

 

III. Epílogo da primeira parte (Jo 14, 25-31)

 

Recapitulação

Disse-vos estas coisas enquanto estou convosco. O Mestre se vai, e ao fazer a retrospectiva dos três anos de amável convivência com os queridos discípulos já os considera coisa passada; com sua morte e ressurreição vai começar uma nova ordem de coisas, cuja realização confia à ação do Espírito Santo que Ele lhes prometera.

Mas o Páráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, irá ensinar-vos todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito. Antes anunciara aos apóstolos o Espírito Santo como Paráclito e lhes prometera a morada e o conhecimento dele; agora lhes promete seu magistério, adivinhado no qualificativo “Espírito da Verdade”. As palavras do Mestre compreendem três pontos: a) o objeto do magistério: é tudo o que vos tenho dito, i. e., todos os ensinamentos de Jesus durante a pregação evangélica, os quais o Espírito Santo recordará, ilustrando-os umas vezes, precisando-os outras, quiçá completando-os, mas sempre se limitando a eles; b) as pessoas a quem se dirige: os discípulos ali presentes; uma vez que os apóstolos não viveriam até o fim dos séculos, o magistério do Espírito Santo também compreende seus sucessores no desempenho da função apostólica8; c) o modo de ensino: a ação íntima [do Paráclito] no espírito dos discípulos, aos quais dará luz para que entendam, penetrem e aprofundem as grandes verdades ensinadas pelo Mestre, por meio de altíssimos dons de sabedoria, ciência e entendimento.

Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. É clássico o triplo aspecto da paz: consigo mesmo, com Deus e com os demais homens. A paz de que fala o Mestre aqui é principalmente a paz consigo mesmo, a serenidade de alma que acalma as turbulências do coração, devida à amizade com Deus. Disse Jesus que deixa e dá a paz: é ao mesmo tempo um legado do Mestre e um dom de seu Coração. De fato o Messias, segundo os profetas, haveria de ser o autor e o dador da paz9; por isso Nosso Senhor se apresenta como tal ao comunicá-la aos apóstolos. Não vo-la dou como o mundo a dá. Também o mundo tem a sua paz, mas é aparente, superficial e grosseira, consistente na ausência de adversidades e na satisfação dos apetites indomados; não suprime a guerra das ambições nem acalma as turbulências da alma. Mui distinta é a paz de Cristo: silêncio das paixões, mansidão ante as adversidades, tranqüilidade da consciência e antegozo do descanso eterno.

 

Dolorosa palavra de separação

Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize: ante a perspectiva da partida do Mestre, os apóstolos estavam perturbados e acovardados, e estas duas disposições, que o Senhor quis eliminar, eram um obstáculo à paz que desejava nos discípulos. Ouvistes o que eu vos disse: Vou para lhes preparar um lugar, e volto a vós para levar-lhes comigo e conservá-los para sempre em minha companhia. Tal consideração deveria consolá-los e tirar-lhes toda a perturbação e covardia; pois minha partida redunda em proveito vosso. Demais a mais, quem ama se alegra com o bem do amado; minha ida ao Pai é o maior bem a que posso apetecer, porque vou sentar-me a sua destra para ser glorificado por séculos de séculos junto a Ele: Se me amardes, certamente haveis de alegrar-vos, que vou para junto do Pai. Ele vai ao Pai segundo a natureza humana, pois a natureza divina nunca deixou ao Pai. Neste sentido há de se entender o seguinte: Porque o Pai é maior do que Eu, enquanto Filho do Homem; pois enquanto Filho de Deus sou igual ao Pai em tudo. E disse-vos agora estas coisas antes que aconteçam, para que creiais quando acontecerem, i. e., para que lhes sirva de motivo de credibilidade quando vejais minhas profecias cumpridas à letra.

 

Admirável resignação de Jesus a todas as vontades do Pai

Já não falarei muito convosco, i. e., antes de dirigir-me à morte; o ofício de Mestre suceder-se-á logo depois pelo de Redentor. Satanás, que era o principal instigador da paixão de Cristo, iria em seguida apresentar-se por meio de Judas e dos sanedritas: Porque vem o príncipe deste mundo, para começar com Ele a luta já anunciada no Protoevangélio. Contudo, nada podia Satanás e seus ministros contra Cristo, se Ele não se entregasse voluntariamente em suas mãos, pois que Satanás só tem direitos sobre o pecado e os pecadores, e já Cristo é a santidade essencial e destarte não se reconhece nenhum direito sobre Ele: Mas ele não tem nada em Mim. Entretanto Nosso Senhor, que por amor ao Pai aceitara o cumprimento de suas vontades – inclusive no que têm de mais penoso –, quer dar ao mundo o exemplo de obediência, ainda a troco de parecer por um momento vencido por quem não pode lhe fazer nada: O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou.

Ato contínuo, para demostrar que chegara a hora e ao mesmo tempo a prontidão de espírito em aceitar a paixão, disse Jesus: Levantai-vos, vamo-nos daqui. Para onde? Para as agonias do Getsêmani, a traição de Judas, o sanedrim dos judeus, o tribunal de Pilatos, o Calvário, a crucificação e a morte. Vai Jesus em busca dos padecimentos, das humilhações e da morte como se buscasse vitórias e honras.

  1. 1. Jo 3, 13,15.
  2. 2. Jo 1, 4; 3, 36; 5, 26; 6, 35, 51-52, 55, 64; 8, 51; 10, 10, 28; 11, 25-26; etc.
  3. 3. Mt 3, 16; 4, 1; 12, 28; Mc 1, 10; Lc 3, 22; 4, 1, 18; Jo 1, 32-34.
  4. 4. 2 Pe 3, 18; Fil 3, 8-10; Lc 10, 23-24.
  5. 5. Cf. Is 2, 2; 11, 10; 42, 4. Neste sentido disseram a Jesus seus parentes, que não acreditavam Nele: “Quem deseja ser conhecido em público, não faz coisa alguma ocultamente.”
  6. 6. Primeiro se falou da missão e correspondente vinda do Espírito Santo, assim que se manifestou o Filho; agora da vinda e a morada do Pai e do Filho. Combinadas as três declarações, resulta que virão e se manifestarão aos discípulos as três pessoas divinas: é o que a teologia denomina habitação trinitária na alma dos justos, que segundo o contexto diferencia-se da onipresença natural de Deus em todos os seres, e por duas razões: a) o título da vinda ou morada: a caridade para a primeira, a imensidade divina para a segunda; b) o efeito produzido: a participação da vida divina na primeira, o ser natural na segunda.
  7. 7. Jo 7, 28: “Não vim de mim mesmo, mas é verdadeiro aquele que me enviou.”
  8. 8. Apesar disso, o Espírito Santo não ensinará a todos do mesmo modo: a) aos apóstolos, segundo sua condição de fundadores e colunas da Igreja, dar-lhes-á a conhecer algumas novas verdades não propriamente ensinadas por Cristo, como o cânon das Escrituras inspiradas divinamente; b) aos sucessores dos apóstolos, que são os bispos, assisti-los-á de contínuo em seu magistério, mas sem revelação de nenhuma verdade nova; c) aos simples fieis dará um conhecimento mais luminoso das verdades divinamente reveladas.
  9. 9. Sl 71, 3, 7; Is 9, 6-7; 11, 6; 26, 3; 27, 5; 54, 10; 66, 12; Mq 5, 5.
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