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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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O protocolo de 1988

De vez em quando alguém me pergunta o que acho da Fraternidade São Pedro, da Comissão Ecclesia Dei, e dos chamados tradicionalistas ligados à Roma. Se eles têm a missa de São Pio V e estão na obediência ao Papa, porque razão nós nos mantemos afastados de Roma? É possível manter a Tradição na Igreja oficial? Porque nós somos marginalizados pelo Vaticano e eles não?

Para responder a esta pergunta de modo adequado é preciso explicar, antes de tudo, como nasceu essa Fraternidade São Pedro, que é uma dissidência da Fraternidade São Pio X e que fez os acordos com Roma, em 1988. E para se compreender o que é a Fraternidade São Pedro, é preciso conhecer a história do famoso protocolo de acordo, assinado por Mgr. Lefebvre e pelo Cardeal Ratzinguer, em 5 de maio de 1988, e depois denunciado por Mgr. Lefebvre, no dia 6 de maio. A crise que assola hoje essa organização que traiu a confiança de Mgr. Lefebvre fora prevista pelo bispo de Ecône. O Vaticano começa a devorar sua presa.

De Mgr. Lefebvre ao Cardeal Hoyos  

1ª Parte

O Protocolo de 1988 

A história começa em 1987. Como todos os anos, a data de 29 de junho é aguardada com ansiedade por todos os fiéis da Tradição; é também aguardada por Roma, onde as autoridades do Vaticano se escondem atrás de uma pose de segurança, e que na verdade esconde um receio: eles sabem que Mgr. Lefebvre não fez nada de errado, que sua posição não é cismática, que ele é um bispo zeloso pela doutrina e pela salvação das almas. Não é à toa que em Roma, muitos bispos dizem ao pé do ouvido: Mgr. Lefebvre tem razão, é um santo bispo.

Nesse dia 29 de junho de 1987, na cerimônia das ordenações sacerdotais, realizada como todos os anos, sob a vasta tenda plástica que abriga 4.000 fiéis, deixando outros 6000 sob o forte sol de verão, Mgr. Lefebvre anuncia no sermão que não poderá mais esperar um  sinal positivo de Roma, diante de seus inúmeros pedidos para sagrar bispos que o sucedam no árduo trabalho à frente da Fraternidade São Pio X. Roma não lhe dá ouvidos e Mgr. Lefebvre marca a Sagração Episcopal de quatro novos bispos para a Fraternidade São Pio X, para o dia 30 de junho do ano seguinte, 1988.

Qual o espírito dessa declaração? Haveria no prelado a intenção de se separar de Roma, de fundar uma outra Igreja, uma Igreja paralela? Um cisma? Não! Nada disso passa pela cabeça do ancião, do sábio bispo que tantos serviços já havia prestado à Igreja. E para provar, nada melhor do que ir aos documentos. Dois importantes documentos explicitam as intenções de Mgr. Lefebvre. Eles serão usados nas Sagrações do dia 30 de junho de 1988. Mas já então tinham sido redigidos, pois a necessidade das Sagrações já era antiga. Ei-los:

Declaração de Mgr. Lefebvre por ocasião das Sagrações de Ecône, 30/06/1988

"Lê-se, no capítulo XX do Êxodo, que Deus, depois de ter proibido o seu povo de adorar deuses estrangeiros, acrescentou as seguintes palavras: “Eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte e ciumento, que persegue nos filhos a iniquidade dos pais até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.” E, no capítulo XXXIV, diz assim: “Não adores deus estrangeiro. Deus ciumento, eis o nome do Senhor.”

     É justo e salutar que Deus seja ciumento do que lhe pertence em próprio e desde os séculos dos séculos; ciumento do seu ser infinito, eterno, todo-poderoso; ciumento da sua Glória, da sua Verdade, da sua Caridade; ciumento de ser o único Criador e Redentor e, portanto, o fim de todas as coisas, a única via da salvação e da felicidade de todos os anjos e de todos os homens; ciumento de ser o “alfa” e o “ômega”.

      A Igreja Católica, por Ele fundada e à qual entregou todos os seus tesouros de salvação é, também ela, ciumenta dos privilégios do seu único Mestre e Senhor e ensina a todos os homens que para Ela se devem voltar e por Ela devem ser batizados, se quiserem ser salvos e participar na Glória de Deus na Eternidade bem-aventurada. A Igreja é, pois, essencialmente missionária. Ela é essencialmente Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana.

     Ela não pode admitir que fora dela haja uma outra religião verdadeira; não pode admitir que se possa encontrar uma via de salvação fora dela, pois ela identifica-se com o seu Senhor e Deus que disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.”

     Ela tem, pois, horror a qualquer comunhão ou união com falsas religiões, com as heresias que afastam as almas do seu Deus que é o único Deus.

     Ela não conhece unidade senão no seu próprio seio, como no seu Deus. Para isso dá o sangue dos seus mártires, a vida dos seus missionários, dos seus padres, o sacrifício dos seus religiosos e religiosas; ela oferece o sacrifício quotidiano de propiciação.

     Ora, com o Vaticano II sopra na Igreja um espírito adúltero, espírito que admite, pela Declaração sobre a Liberdade Religiosa, o princípio da liberdade de consciência para os atos internos e externos, fora do alcance de qualquer autoridade.

     É o princípio da Declaração dos Direitos do Homem, da Revolução Francesa, contra os direitos de Deus. Ora, as autoridades da Igreja, do Estado e da família participam da autoridade de Deus e têm, portanto, o dever de contribuir para a difusão da Verdade e para a aplicação do Decálogo, bem como o de proteger os seus súditos do erro e da imoralidade.

     Esta Declaração levou à secularização dos Estados católicos, o que é um insulto a Deus e à Igreja, reduzindo a Igreja ao direito comum, juntamente com as falsas religiões. É o mesmo espírito adúltero tantas vezes censurado por Deus e pelos profetas ao povo de Israel (veja, na Nota 1, a Declaração de Paulo VI publicada no “Osservatore Romano” de 24 de abril de 1969).

     Esse espírito adúltero também se manifesta no ecumenismo instituído pelo Secretariado para a Unidade dos Cristãos. Esse ecumenismo aberrante valeu-nos todas as reformas litúrgicas, bíblicas, canônicas, com o regime colegial destruidor da autoridade pessoal do Sumo Pontífice, do Bispo e do Pároco (veja Nota 2).

     Esse espírito não é católico. É fruto do modernismo condenado por São Pio X. Está a devastar todas as instituições da Igreja e, especialmente, os seminários e o clero, de tal modo que podemos perguntar quem é ainda integralmente católico entre os clérigos submetidos ao espírito adúltero do Concílio.

     Nada é, pois, mais urgente na Igreja do que formar um clero que repudie esse espírito adúltero e modernista e salve a glória da Igreja e do seu Divino Fundador, conservando a Fé integral e os meios estabelecidos por Nosso Senhor e pela Tradição da Igreja para manter essa Fé e transmitir a vida da graça e os frutos da Redenção.

     Desde há quase vinte anos que nos esforçamos com paciência e firmeza por fazer compreender às autoridades Romanas essa necessidade do regresso à sã doutrina e à Tradição, para a renovação da Igreja, para a salvação das almas e para a glória de Deus.

     Porém, ficam surdos às nossas súplicas e, pior ainda, pedem-nos que reconheçamos a justeza de todo o Concílio e das reformas que arruinam a Igreja. Não querem ter em conta a experiência que fazemos, com a graça de Deus, da manutenção da Tradição, experiência que produz frutos verdadeiros de santidade e atrai numerosas vocações.

     Para salvaguardar o sacerdócio católico e continuar a Igreja Católica – e não uma Igreja adúltera – precisamos de bispos católicos.

     Vemos-nos, pois, obrigados, devido à invasão do espírito modernista no clero atual, e até às mais altas esferas no seio da Igreja, a consagrar bispos.

     Tendo o princípio dessa consagração sido admitido pelo Papa na carta de 30 de maio ao Cardeal Ratzinger, estas consagrações serão, não apenas válidas, como também, dadas as circunstâncias históricas, certamente lícitas. Porém, lícitas ou não, é por vezes necessário abandonar a legalidade para permanecer no direito.

     O Papa não pode deixar de desejar a continuação do sacerdócio católico. Não é, pois, de maneira nenhuma num espírito de ruptura ou de cisma que realizamos essas consagrações episcopais, mas para vir em socorro da Igreja que, sem dúvida, se encontra na mais dolorosa situação da sua história.

     Se estivéssemos no tempo de São Francisco de Assis, o Papa estaria de acordo conosco. Nesses felizes tempos, a Maçonaria não ocupava lugar no Vaticano.

     Afirmamos, pois, o nosso apego e a nossa submissão à Santa Sé e ao Papa. Ao realizar este ato temos consciência de continuar a servir a Igreja a ao Papado, como nos temos esforçado por fazer desde o primeiro dia do nosso sacerdócio.

     No dia em que o Vaticano estiver liberto dessa ocupação modernista e reencontrar o caminho seguido pela Igreja até o Vaticano II, os nossos bispos estarão inteiramente nas mãos do Sumo Pontífice, incluindo a eventualidade de deixaram de exercer as suas funções episcopais. (grifo nosso)

     Enfim, dirigimo-nos à Virgem Maria, também Ela ciumenta dos privilégios do seu Divino Filho, ciumenta da sua Glória, do seu reino sobre a terra como no Céu.

     Quantas vezes interveio em defesa, mesmo armada, da Cristandade, contra os inimigos do Reinado de Nosso Senhor! Suplicamo-lhe que intervenha hoje para afastar os inimigos do interior que tentam destruir a Igreja mais radicalmente do que os inimigos do exterior.

     Que Ela se digne conservar na integridade da fé, no amor da Igreja, na devoção do sucessor de Pedro, todos os membros da Fraternidade São Pio X e todos os padres e fiéis que trabalham com os mesmos sentimentos, para que Ela nos guarde e nos preserve tanto do cisma como da heresia.

     Que São Miguel Arcanjo nos comunique o seu zelo pela Glória de Deus e a sua força para combater os demônios.

     Que São Pio X nos transmita sua sabedoria, a sua ciência e a sua santidade para, nestes tempos de confusão e de mentira, distinguirmos o verdadeiro do falso e o bem do mal.

 

     + Marcel Lefebvre

 

Arcebispo da única Igreja de Jesus Cristo,

Santa, Católica, Apostólica e Romana,

pela graça de Deus e por eleição de

Sua Santidade o Papa Pio XII.

 

Nota 1: Declaração de Paulo VI, publicada no “Osservatore Romano” de 24 de agosto de 1969:

     “É já bem conhecida de todos a nova posição adotada pela Igreja em relação às realidades terrenas. Eis o novo princípio, muito importante na prática (...). A Igreja aceita reconhecer o mundo como “auto-suficiente” e não procura fazer dele um instrumento para os seus fins religiosos...“

     Protestei, em carta dirigida ao ex-Santo Ofício, contra essa declaração, contrária a Fé católica. A resposta foi, da parte da Secretaria de Estado, quer dizer do Cardeal Villot, que fizesse o favor de sair de Roma imediatamente! Ao que respondi que mandassem um pelotão de guardas suíços para a isso me obrigarem. Foi o silêncio.

     Eis no que se tornou – e ainda é – o Vaticano para com os defensores da Fé católica. Ora, todos os Papas, nas suas encíclicas, afirmaram o contrário. Não só a Fé, mas também a sã filosofia protestam contra essa declaração que levou à laicização de todos os Estados católicos.

 

Nota 2: O Secretariado para a Unidade dos Cristãos no Concílio.

     Convém lembrar o importante lugar que ocuparam no Concílio os membros do Secretariado para a Unidade dos Cristãos. O Cardeal Bea, seu responsável, estabeleceu relações oficiais com a loja maçônica judia dos B’nai B’rith, de Nova York. Foi ele o redator dos projetos de esquemas sobre a liberdade religiosa, sobre os judeus, sobre as religiões não cristãs, sobre o ecumenismo, em colaboração com o então Mons. Willebrands (depois cardeal), secretário do Secretariado, e Mons. de Smedt, vice-presidente do Secretariado e relator no Concílio da Declaração sobre a liberdade religiosa.

     O Cardeal Willebrands faz parte da Comissão Vaticana para as relações entre judeus e cristãos, da Comissão que mantém relações com o Conselho Ecumênico das Igrejas, em Genebra, e da Comissão que trata das relações com Moscou por meio da Igreja Ortodoxa de Moscou.

     A eles juntavam-se Mons. Etchegaray, Mons. Maller, os padres dominicanos de Contenson, Bernard Dupuy e muitos outros.

     Também não se deve esquecer a influência dos protestantes de Taizé, que, no Vaticano, têm entrada franca por todo lado.

            Não esqueçamos a participação de seis pastores protestantes na Comissão de Liturgia que produziu a missa dita “de Paulo VI”. A nocividade de todas essas comissões é considerável. As comissões paralisam toda a atividade normal da Cúria Romana. A Roma das comissões é a Roma de hoje, modernista e maçônica. Os Papas Paulo VI e João Paulo II quiseram-nas e tornaram-se seus escravos, como também são prisioneiros dos Sínodos romanos, fruto da colegialidade reconhecida pelo novo Direito Canônico

 

2- Carta de Mgr. Lefebvre aos futuros bispos

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Adveniat regnum tuum

Aos Senhores Padres Williamson, Tíssier de Mallerais,

Fellay e De Galarreta

Caríssimos amigos,

 

Estando a Cadeira de Pedro e os postos de autoridade de Roma ocupados por anticristos, a destruição do Reino de Nosso Senhor alastra rapidamente no seio de seu Corpo Místico nesta terra, especialmente pela corrupção da Santa Missa, expressão magnífica do triunfo de Nosso Senhor pela Cruz – “Regnavit a ligno Deus” – e fonte de extensão do seu Reinado nas almas e nas sociedades.

[Nota de D. Lourenço: A expressão é forte, mas deve ser entendida sem preconceitos: Mgr. Lefebvre não diz que tal ou tal pessoa é o Anti-Cristo, e sim que os postos do Vaticano estão ocupados por anti-cristos, ou seja, autoridades que trabalham  para a destruição da Igreja, e não para sua edificação. Nesse sentido lemos na 1ª Ep. de São João: "todo o espírito que divide Jesus não é de Deus; mas este é um Anticristo."]

Surge, assim, com toda a evidência, a necessidade absoluta da permanência e da continuação do adorável Sacrifício de Nosso Senhor, para que “venha nós o seu reino”.

A corrupção da Santa Missa levou à corrupção do Sacerdócio e à decadência universal da fé na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Deus suscitou a Fraternidade São Pio X para conservação e perpetuação na Igreja do seu Sacrifício glorioso e expiatório. Escolheu verdadeiros padres, instruídos e convencidos desses mistérios divinos. Deus concedeu-me a graça de preparar esses levitas e de lhes conferir a graça sacerdotal para permanência do verdadeiro Sacrifício, segundo a definição do Concílio de Trento.

Isso valeu-nos a perseguição da Roma anticristo. Essa Roma modernista e liberal, prosseguindo a sua obra de destruição do Reinado de Nosso Senhor, como o provam Assis e a confirmação das teses liberais de Vaticano II sobre a liberdade religiosa, vejo-me forçado pela Providência Divina a transmitir a graça do episcopado católico que recebi, para que a Igreja e o sacerdócio católico continuem a subsistir para glória de Deus e salvação das almas.

É por isso que, convencido de apenas realizar a Vontade de Nosso Senhor, venho por esta carta pedir-vos que aceiteis receber a graça do episcopado católico, como já conferi a outros padres noutras circunstâncias.

Conferir-vos-ei essa graça, confiando que, sem tardar, a Sé de Pedro será ocupada por um Sucessor de Pedro perfeitamente católico, em cujas mãos podereis entregar a graça do vosso episcopado para que ele a confirme. [grifo nosso]

O fim principal dessa transmissão é conferir a graça da ordem sacerdotal para continuação do verdadeiro Sacrifício da Missa, e conferir a graça do sacramento da confirmação às crianças e aos fiéis que vo-la pedirem.

Suplico-vos que permaneçais unidos à Sé de Pedro, à Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igreja, na Fé católica integral, expressa nos símbolos da Fé, no catecismo do Concílio de Trento, em conformidade com o que vos foi ensinado no seminário. Permanecei fiéis na transmissão dessa Fé para que venha o Reino de Nosso Senhor.

Peço-vos, enfim, que permaneçais unidos à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que permaneçais profundamente unidos entre vós, submetidos ao Superior-Geral, na Fé católica de sempre, recordando as palavras de São Paulo aos Gálatas (I,8-9):

Mas ainda que alguém – nós mesmos ou um anjo do Céu – vos anuncie outro evangelho, além do que vos tenho anunciado, esse seja anátema. Repito mais uma vez o que já disse: se alguém vos anunciar outro evangelho, além do que já recebestes, esse seja anátema.”

Caríssimos amigos, sede o meu consolo em Jesus Cristo: permanecei fortes na Fé, fiéis ao verdadeiro Sacrifício da Missa, ao verdadeiro e santo Sacerdócio de Nosso Senhor, para triunfo e glória de Jesus no Céu e sobre a Terra, para salvação das almas, para salvação da minha alma.

Nos corações de Jesus e de Maria, abraço-vos e abençôo-vos.

Vosso Pai em Jesus Cristo

         + Marcel Lefebvre

na festa de Santo Agostinho, 29 de agosto de 1987

 

De um modo geral, dentro dos círculos ligados ao combate pela Tradição Católica, todos estavam acostumados em ver Mgr. Lefebvre tomar as atitudes necessárias nos momentos oportunos. O que teria sido da Igreja se, em 1976, Mgr. Lefebvre tivesse aceitado o apelo do Papa Paulo VI para não realizar as ordenações sacerdotais de Ecône? Diante de grande insistência do Papa e de muitos prelados, o bispo ficou firme e fez aquilo que sempre fizera: ordenou sacerdotes para celebrar o santo sacrifício da Missa.

Dentro do Monastère Sainte Madeleine Dom Gerard Calvet não media palavras para elogiar a atitude de Mgr. Lefebvre. Chegou a fazer um famoso sermão em que alinhavara cinco razões para não temer as  Sagrações.

O fato é que esta declaração feita em 29 de junho de 1987 provocou grande alvoroço em Roma. Mgr. Lefebvre, apesar do que disse no sermão, faz mais uma tentativa e escreve uma carta ao Cardeal Ratzinguer, datada de 8 de julho de 1987 e entregue pessoalmente ao Cardeal, no dia 11  seguinte. Além de conter uma análise sobre a desastrosa Declaração Dignitatis Humanae, sobre a Liberdade Religiosa, esta carta termina assim:

"A fim de travar a autodemolição da Igreja, suplicamos ao Santo Padre, por vosso intermédio, que conceda o livre exercício à Tradição, concedendo-lhe os meios para viver e se desenvolver para a salvação da Igreja Católica e salvação das almas; que sejam reconhecidas as obras da Tradição, em particular os seminários, e que Mons. de Castro Mayer e eu próprio possamos dotar-nos de auxiliares da nossa escolha para conservar à Igreja as graças da Tradição, única fonte de renovação da Igreja.

     Eminência, depois de quase vinte anos de instantes pedidos para que seja encorajada e abençoada a experiência da Tradição, pedidos que ficaram sempre sem resposta, é sem dúvida o último apelo, perante Deus e perante a história da Igreja. O Santo Padre e vós próprio teríeis a responsabilidade de uma ruptura definitiva com o passado da Igreja e com o seu Magistério.

     O Magistério de hoje da Igreja não se basta a si próprio, para se poder dizer católico, se ele não for a transmissão do depósito da Fé, quer dizer, da Tradição. Um Magistério novo, sem raízes no passado e, além do mais, contrário ao Magistério de sempre, só pode ser cismático, ou mesmo herético.

     Uma vontade permanente de enfraquecimento da Tradição é uma vontade suicida, que autoriza, pelo próprio fato, os católicos verdadeiros e fiéis a tomarem todas as medidas necessárias à sobrevivência da Igreja e à salvação das almas.

     Nossa Senhora de Fátima, tenho a certeza, abençoa este último apelo, no 70º aniversário das suas aparições e das suas mensagens. Praza a Deus que não fiqueis uma segunda vez surdos ao seu apelo. 

     Dignai-vos aceitar, Eminência, etc.

 

                                        + Marcel Lefebvre

Salta aos olhos as santas intenções do bispo de Ecône. Em nenhum momento é posto em causa algum aspecto pessoal, ligado a alguma opinião própria do bispo. Só o que lhe interessa é a Doutrina bi-milenar da Igreja.

Essa carta provocou uma resposta do Cardeal Ratzinguer que abriu uma pequena possibilidade de Mgr. Lefebvre continuar sua obra e sagrar os bispos para prosseguir as ordenações. Damos à seguir esta carta, onde acrescentamos alguns comentários:

CARTA DO CARDEAL RATZINGER A Mgr. LEFEBVRE

           Citta del Vaticano, 28.7.1987

 

Excelência,

     Agradeço sinceramente a vossa carta de 8 de julho, assim como a vossa recente obra com uma dedicatória; não deixarei de a ler com interesse. O dossier que me enviastes sobre a resposta da Congregação às “dubias” sobre a liberdade religiosa será estudado com toda a atenção necessária e o resultado ser-vos-á comunicado oportunamente.

     O vosso grande desejo de salvarguardar a tradição, dando-lhe “os meios para viver e se desenvolver” testemunha o vosso apego à fé de sempre, mas só pode realizar-se na comunhão com o Vigário de Cristo, a quem estão confiados o depósito dessa fé e o governo da Igreja.

[nota de D. Lourenço: Mgr. Lefebvre nunca pregou a desunião ao Vigário de Cristo. cf. Carta aos novos bispos, acima. Ele apenas combateu os erros doutrinários que contrariam esse Depósito da Fé]

     O Santo Padre compreende a vossa preocupação e partilha-a. Por isso, em seu nome, transmito-vos uma nova proposta, desejando dar-vos assim uma última possibilidade de acordo sobre os problemas que vos afligem: a situação canônica da Fraternidade S. Pio X e o futuro dos vossos seminários. Eis o seu conteúdo:

1.   A Santa Sé não pode conceder auxiliares à Fraternidade S. Pio X sem que ela seja dotada de uma estrutura jurídica adequada, e sem que as relações com essa mesma Sé Apostólica estejam previamente resolvidas.

2.   A Santa Sé está disposta a nomear sem demora e sem condição prévia um Cardeal-Visitador, com vista a encontrar para a Fraternidade uma forma jurídica conforme às normas do Direito Canônico atualmente em vigor.

3.  Em virtude da instituição divina da Igreja, tal situação jurídica implica necessariamente reverência e obediência, por parte dos superiores e membros da Fraternidade, em relação ao Sucessor de Pedro, o Vigário de Cristo (cf. as normas indicadas em “Lumen Gentium”, 25). Dentro dos limites dessa obediência e no quadro das normas canônicas, a Santa Sé está disposta a conceder à Fraternidade a sua justa autonomia e a garantir-lhe:

a)  a continuidade da liturgia segundo os livros litúrgicos em vigor na Igreja em 1962;

b)  o direito de formar seminaristas nos seus seminários, segundo o carisma particular da Fraternidade;

c)  a ordenação sacerdotal dos candidatos ao sacerdócio, cuja responsabilidade, até nova decisão, assumirá o Cardeal-Visitador.

4.  Enquanto se espera a aprovação da estrutura jurídica definitiva da Fraternidade, o Cardeal-Visitador será o garante da ortodoxia do ensino nos vossos seminários, do espírito eclesial e da unidade com a Santa Sé. Durante esse período, o Cardeal-Visitador decidirá igualmente sobre a admissão dos seminaristas ao sacerdócio, tendo em conta o parecer dos Superiores competentes;

5.  A estrutura jurídica a encontrar precisará, entre outras, as modalidades de uma relação positiva e conveniente da Fraternidade com as diferentes dioceses, segundo as normas previstas no Direito para casos análogos.

Peço-vos, Excelência, que considereis atentamente esta proposta, para que possa ser encontrada solução positiva, eqüitativa, que assegure a continuidade da vossa obra na submissão à autoridade da Igreja.

Se, apesar dos reiterados esforços da Santa Sé com vista a uma conciliação, persistirdes no vosso projeto de vos dotardes de um ou vários auxiliares sem o acordo do Papa e contra ele, ficará claro para todos que a “ruptura definitiva” de que fazeis menção na vossa carta, não poderá ser, de forma alguma, atribuída à Igreja e que ela dependerá exclusivamente da vossa iniciativa pessoal. 

[nota de D. Lourenço: esse parágrafo merece um reparo: os "reiterados esforços da Santa Sé" sempre se resumiram em obrigar a todos os padres e bispos a celebrar a Nova Missa. Ainda hoje, muitos bispos aqui no Brasil agem dessa forma; só sabem repetir: "obedeçam, obedeçam! sem querer analisar o mérito da questão]

  As consequências seriam graves para essa Igreja, que dizeis tanto amar, para vós próprio e para a vossa obra.

     De Instituição divina, a Igreja tem a promessa da assistência de Cristo até o fim dos tempos. A ruptura da sua unidade, por um ato de grave desobediência da vossa parte causar-lhe-ia danos incalculáveis e destruiria o futuro de vossa própria obra, pois que, fora da união com Pedro, não haveria futuro, mas tão só a ruína de tudo o que haveis desejado e empreendido. A história foi muitas vezes testemunha da inutilidade de uma apostolado realizado fora da submissão à Igreja e ao seu Chefe.

     Dando uma interpretação pessoal aos textos do Magistério, daríeis paradoxalmente prova desse liberalismo que tão fortemente combateis e agiríeis contra o fim que tendes em vista. Foi, com efeito, a Pedro que o Senhor confiou o governo da sua Igreja; é, pois, o Papa o principal obreiro da sua unidade. Sustentado pelas promessas de Cristo, ele nunca poderá por em oposição na Igreja o seu Magistério autêntico e a Santa Tradição. 

[nota de D. Lourenço: o Papa pode recusar a assistência do Divino Espírito Santo e afastar-se da Tradição. E assim o fez: basta ler algumas de suas encíclicas e as encíclicas dos seus antecessores. Por exemplo, comparem Mortalium Animae, de Pio XI, contra o Ecumenismo, e Ut Unum Sint, de João Paulo II, a  favor do Ecumenismo. São uma o oposto da outra, qualquer que seja a interpretação pessoal que se tenha.]

     Excelência, talvez acheis severas as minhas afirmações. Eu teria gostado, decerto, de me exprimir de outra maneira, mas a gravidade do problema em causa não me deixava escolha. De resto, tenho a certeza que reconhecereis a generosidade da proposta que vos é feita em nome do Santo Padre e que constitui o meio real de salvaguardar a vossa obra, na unidade e na catolicidade da Igreja.

     No início deste Ano Mariano, é à Virgem “Mater Ecclesiae” que confio a resolução deste longo diferendo que nos opõe, certo que a sua poderosa intercessão obterá as graças e as luzes necessárias para esse efeito.

     Assegurando-os de minha oração, aceitai, Excelência, etc.

 

                                            Joseph Card. Ratzinger

 

Apesar dos reparos que assinalamos e outros que poderíamos ter assinalado, Mgr. Lefebvre viu nesta carta uma possibilidade de acordo. Eis o que ele próprio comenta numa conferência à Imprensa, em 15 de junho de 1988:

"Eu tinha, efetivamente, pedido uma visita canônica, para que nos conhecessem, pois não nos conheciam, não vinham ver-nos. Houve, pois, uma abertura de Roma nessa ocasião. Confesso que hesitei bastante. Devia aceitar essa abertura ou recusá-la? Tinha vontade de a recusar, porque não tenho confiança nenhuma nessas autoridades romanas – devo dizê-lo – pois que as suas idéias são totalmente opostas às nossas. Não estamos, em absoluto, no mesmo comprimento de onda. Não tinha, portanto, qualquer confiança.

Tínhamos sido sempre perseguidos. Era ainda a época de Port-Marly [em que uma igreja onde sempre se celebrou a Missa tradicional, foi brutalmente invadida pela polícia de choque, a mando do bispo de Versailles], da perseguição ao Pe. Lecareux [pelo arcebispo de Bourges], pelas suas paróquias, perseguição aprovada por Roma, pois os bispos eram aprovados por Roma. Tudo isso não nos inspirava confiança, para nos pormos nas mãos de Roma, de uma Roma que combatia a Tradição.

     Quisemos, no entanto, fazer um esforço: vamos tentar..., vamos sondar quais as disposições de Roma a nosso respeito. Foi nesse espírito que fui a Roma e que, depois, recebemos a visita do Cardeal Gagnon. Parece que essa visita foi favorável. Confesso que dela nada sei, pois não recebi uma única palavra sobre o resultado dessa visita que teve lugar há sete meses."

Mgr. Lefebvre escreve, então, novamente ao Cardeal Ratzinguer esta carta que dará origem à famosa visita canônica, realizada tanto na Fraternidade São Pio X quanto em todas as demais obras tradicionais de vários países da Europa, pelo Cardeal Edouard Gagnon.

Posso testemunhar que o Cardeal só fazia exclamar sua admiração e surpresa com o que via, em todas as instituições que visitou: piedade, seriedade, alegria, muitas vocações, todos recebendo-o como um enviado do Papa. Algumas pessoas ouviram-no dizer: "Vocês estão salvando a Igreja!". Compreende-se porque seu relatório desapareceu como por encanto.

Eis a carta de Mgr. Lefebvre ao Cardeal Ratzinguer:

+ Écone, 1 de outubro de 1987

Eminência,

Será a vossa carta de 28 de julho o prenúncio de uma solução?

Alguns indícios permitem-me esperá-lo:

 

-  a ausência de uma declaração faz-nos pensar que somos finalmente reconhecidos como perfeitamente católicos;

-  o contato prolongado com um Cardeal que nos visitaria responde aos nossos anseios tantas vezes expresso;

-  a continuidade da Liturgia segundo os livros litúrgicos em vigor na Igreja em 1962 causa-nos uma profunda satisfação;

-  o direito de prosseguir a formação dos seminaristas como atualmente fazemos, segundo as normas da S. Congregação dos Seminários, também é para nós uma garantia de perenidade de nossa Obra.

 

     Para avançar na via de uma solução, parece-nos indispensável encontrar o Visitador, podendo ele vir a Ecône ou a Rickenbach, na Suiça, ou encontrando-o nós em Albano, para podermos estudar os meios concretos possíveis dessa solução definitiva.

     Não podemos pôr em causa a nossa autoridade em relação aos seminaristas. Seria contrário ao direito que tencionais conceder-nos.

     Devo estar em Albano de 16 a 20 de outubro. Ouso esperar que o desejo que acabo de exprimir já se possa realizar nessa data, para aclarar já o caminho.

     É o P. Du Chalard quem vos levará esta carta. Poderia também comunicar-me a vossa resposta.

     Agradeço-vos antecipadamente e peço-vos, Eminência, etc.

 

                                        + Marcel Lefebvre

 

P. S. Desejamos muito que o Cardeal-Visitador seja o Cardeal Gagnon.

*

Podemos dizer que assim termina a primeira fase de toda essa história. Esse conjunto de documentos prova cabalmente que Mgr. Lefebvre nunca teve qualquer intenção de cisma dentro da Igreja. Releia, caro leitor, esta última carta. O bispo de Ecône em hora nenhuma fala de alguma dúvida sobre a legitimidade do Papa, sobre uma possível falta de autoridade em João Paulo II. Não existe esse problema para ele. O que o afeta e o obriga a defender a Fé, são os constantes ataques contra a verdadeira doutrina Católica, contra a Missa Católica, contra o Sacerdócio Católico. Esse é o seu combate, e o Cardeal Gagnon não deixará de notá-lo.

A seqüência de documentos do dossier trata da realização da primeira reunião em vistas a elaborar um protocolo de acordo. Esta primeira reunião foi realizada em Roma, em 13, 14 e 15 de Abril de 1988, contando com um moderador (Pe. Duroux) e um teólogo e um canonista de cada lado. Após quarenta e oito horas de debates foi elaborado um primeiro texto, mais doutrinário do que disciplinar, o que surpreendeu um pouco à Mgr. Lefebvre. Mas havia no texto elementos suficientes para que tentassem ir adiante; afinal de contas, pela primeira vez o Vaticano falava em permitir  sem concessões a Missa de São Pio V, e mesmo aceitava que se criticasse Vaticano II.

Mgr. Lefebvre e o próprio Cardeal Ratzinguer participam, então, junto com os demais, de um novo encontro, nos dias 3 e 4 de Maio, onde fica elaborado o texto do protocolo de acordo. No dia 5 de Maio de 1988, Mgr. Lefebvre assina o protocolo. Eis o texto:

PROTOCOLO DE ACORDO

            TEXTO DA DECLARAÇÃO DOUTRINAL

            Eu, Marcel Lefebvre, Arcebispo-Bispo emérito de Tulle, assim como os Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X por mim fundada:

1)      Prometemos ser sempre fiéis à Igreja Católica e ao Romano Pontífice, seu Sumo Pastor, Vigário de Cristo, Sucessor do Bem-Aventurado Pedro no seu primado e Chefe do Corpo dos Bispos.

2)      Declaramos aceitar a doutrina contida no número 25 da Constituição dogmática “Lumen Gentium” do Concílio Vaticano II sobre o Magistério eclesiástico e a adesão que lhe é devida.

3)      A propósito de certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano II ou respeitantes às reformas posteriores da Liturgia e do Direito e que nos parecem dificilmente conciliáveis com a Tradição, comprometemo-nos a ter uma atitude positiva de estudo e de comunicação com a Sé Apostólica, evitando toda a polêmica.

4)      Declaramos, por outro lado, reconhecer a validade do Sacrifício da Missa e dos Sacramentos celebrados com a intenção de fazer o que faz a Igreja e segundo os ritos indicados nas edições típicas do Missal Romano e dos Rituais dos Sacramentos promulgados pelo Papa Paulo VI e João Paulo II.

5)      Por fim, prometemos respeitar a disciplina comum da Igreja e as leis eclesiásticas, especialmente as contidas no Código de Direito Canônico promulgado pelo Papa João Paulo II, ressalvando-se a disciplina especial concedida à Fraternidade por uma lei particular.

I - QUESTÕES JURÍDICAS

Tendo em conta o fato de a Fraternidade São Pio X ter sido concebida há 18 anos, como uma sociedade de vida comum, e a partir do estudo das propostas formulados por S. Exa. Mons. Marcel Lefebvre e das conclusões da Visita Apostólica efetuada por S. E. o Cardeal Gagnon, a figura canônica melhor adaptada é a de uma sociedade de vida apostólica.

  1 - Sociedade de vida apostólica

  É uma solução canonicamente possível, com a vantagem de, eventualmente, também inserir, na sociedade clerical de vida apostólica, leigos (por exemplo, irmãos coadjutores).

Segundo o Código de Direito Canônico promulgado em 1983, cân. 731-746, essa sociedade goza de plena autonomia, pode formar os seus membros, pode incardinar os clérigos e assegura a vida comum dos seus membros.

Nos Estatutos próprios, com flexibilidade e possibilidade inventiva em relação aos modelos conhecidos dessas sociedades de vida apostólica, prevê-se uma certa isenção em relação aos bispos diocesanos (cf. cân. 591) no que diz respeito ao culto público, à “cura animarum” e às outras atividades apostólicas, tendo em consideração os cân. 679-683. Quanto à jurisdição relativamente aos fiéis que se dirigem aos padres da Fraternidade, ela ser-lhes-á conferida quer pelos Ordinários dos lugares, quer pela Sé Apostólica.

2 - Comissão Romana

 Uma comissão para coordenar as relações com os diversos Dicastérios e com os bispos diocesanos, assim como para resolver os eventuais problemas e contenciosos, será constituída por diligência da Santa Sé, e dotada das faculdades necessárias para tratar das questões acima indicadas (por exemplo, a implantação, a pedido dos fiéis, de um local de culto onde não houver casa da Fraternidade, “ad mentem” cân. 383,2).

Essa comissão será composta por um presidente, um vice-presidente e cinco membros, dois dos quais da Fraternidade.

Terá também a função de vigilância e apoio para consolidar a obra da reconciliação e resolver as questões relativas às comunidades religiosas que tenham uma ligação jurídica ou moral com a Fraternidade.

3 - Condição das pessoas ligadas à Fraternidade

Os membros da Sociedade clerical de vida apostólica (padres e irmãos coadjutores leigos): serão regidos pelos Estatutos da Sociedade de direito pontificial.

Os Oblatos e Oblatas, com ou sem votos privados, e os membros da ordem terceira ligados à Fraternidade: pertencem a uma Associação de fiéis ligada à Fraternidade nos termos do cân. 303, e colaboram com ela.

As Irmãs (isto é, a Congregação fundada por Mons. Lefebvre) que fazem votos públicos: constituição de um verdadeiro instituto de vida consagrada, com a sua estrutura e autonomia própria, embora se possa prever uma certa forma de ligação, no que diz respeito à unidade da espiritualidade, com o Superior da Fraternidade. Essa Congregação, pelo menos no princípio, dependerá da comissão romana, em vez da Congregação para os Religiosos.

Os membros das comunidades que vivem segundo a regra de diversos Institutos religiosos (Carmelitas, Beneditinos, Dominicanos, etc.) e que estão moralmente ligados à Fraternidade: é conveniente conceder-lhes, caso a caso, um Estatuto particular regulamentando as suas relações com as Ordens respectivas.

Os padres, que a título individual, estão moralmente ligados à Fraternidade, receberão um estatuto pessoal que tenha em conta as suas aspirações e, ao mesmo tempo, as obrigações decorrente de sua incardinação. Os outros casos particulares do mesmo gênero serão examinados e resolvidos pela comissão romana.

            Nota: Há a considerar a complexidade particular:

1)      da questão da recepção por leigos dos sacramentos de batismo, confirmação e casamento nas comunidades da Fraternidade;

2)      da questão das comunidades que praticam, sem a eles pertencerem, a regra de determinados Institutos religiosos.

4 - Ordenações

            No que diz respeito às ordenações, é preciso distinguir duas fases:

1) - De imediato

Para as ordenações previstas a curto prazo, Mons. Lefebvre seria autorizado a conferi-las ou, se não o pudesse fazer, outro bispo que ele aceite.

2) - Uma vez erigida a Sociedade de vida apostólica:

Tanto quanto possível, e a juízo do Superior-Geral, seguir a via normal: entregar as cartas dimissórias a um bispo que aceite ordenar os membros da Fraternidade.

Devido à situação particular da Fraternidade (cf. infra), a ordenação de um bispo membro da Fraternidade que, entre outras tarefas, teria também a de proceder às ordenações.

5 - Problema do Bispo

Ao nível doutrinal (eclesiológico), a garantia de estabilidade e de conservação da vida e da atividade da Fraternidade é assegurada pelo seu estabelecimento como Sociedade de vida apostólica de direito pontifical e pela aprovação dos Estatutos pelo Santo Padre.

Mas, por razões práticas e psicológicas, parece útil a consagração de um bispo membro da Fraternidade. E, por isso, no quadro da solução doutrinal e canônica da reconciliação, sugerimos ao Santo Padre que nomeie um bispo escolhido na Fraternidade, sob proposta do Mons. Lefebvre. Tendo em conta o princípio acima indicado (5.1), esse bispo não é normalmente Superior-Geral da Fraternidade. Mas julga-se oportuno que seja membro da comissão romana.

6 - Problemas particulares (a resolver por decreto ou declaração)

- Revogação da “suspensio a divinis” de Mons. Lefebvre e dispensa das irregularidades devidas às ordenações.

- Previsão de uma “anistia” e de um acordo para as casas e lugares de culto da Fraternidade erigidos, ou utilizados, até agora sem autorização dos bispos.  

Joseph Card. Ratzinger            + Marcel Lefebvre

Eis, assim, realizado um passo importante na história recente da Igreja,  na crise de identidade que a assola desde Vaticano II. A Igreja é uma só, e é Revelada. Essa Revelação manifesta-se na Tradição divina, ou seja, as verdades ensinadas diretamente por Deus e que não foram escritas na Bíblia, e a própria Bíblia, que é a Revelação escrita. Esses dois elementos formam a fonte de nossa Fé. E é por causa do abandono dessa Tradição divina que Mgr. Lefebvre, assim como Dom Antônio de Castro Mayer, em Campos (R.J.)  e muitos padres espalhados pelo mundo, passaram a adotar uma posição crítica em relação ao que vinha do Vaticano. 

Essa posição crítica foi aumentando na medida em que as autoridades romanas foram, inexplicavelmente, perseguindo todos aqueles que queriam manter-se fiéis à Tradição imutável da Igreja. Como pode, uma autoridade da Igreja não querer o que a Igreja sempre quis? Proibir o que a Igreja decretou como santo? Destruir todo o patrimônio espiritual da Igreja, legado dos Apóstolos e dos santos doutores? E além disso, aqueles mesmos que  assim agiam, diziam querer repelir a Igreja do Concílio de Trento, criticavam a Igreja da Rocha, falavam na Igreja moderna e evolutiva; rechaçavam a Igreja que eles diziam ser fechada e sem caridade e pregavam uma nova Igreja, aberta ao mundo. E isso tudo não era apenas dito com palavras, eram idéias postas em prática em todas as paróquias do mundo católico. Um padre, um bispo que quisesse continuar católico, só podia opor-se a todo esse conjunto de erros e de atitudes destruidoras da Tradição da Igreja. A influência do Protestantismo tornava-se cada dia maior, e os dogmas foram sendo, um a um, derrubados, como se fossem passíveis de mudanças. As imagens  arrancadas das igrejas; estas rapidamente transformaram-se em templos protestantes, sem nenhuma sacralidade. Nossa Senhora tratada como uma mulher qualquer; a Santa Missa já não exprimindo o Santo Sacrifício da Cruz, mas sendo definida e vivida como uma refeição presidida pelo  padre, mas oficiada pela assembléia de fiéis; do batismo retirou-se o sal bento e os exorcismos, mudaram as formas da Crisma, da Extrema-Unção, da Ordem; a presença Real de Nosso Senhor na Sagrada Hóstia foi diminuída até tornar-se uma presença simbólica, bem ao estilo protestante. Mudaram o Catecismo, mudaram os sacramentos, mudaram a Missa, mudaram a Bíblia, mudaram a linguagem, mudaram as vestes sacerdotais, mudaram a língua litúrgica. Seria o caso de se perguntar: O que ficou de pé, depois da avalanche de Vaticano II? E a resposta é: nada!  Os progressistas iam ao encontro das almas tradicionais sempre com duas pedras na mão: assim foram os dois legados do Papa, dois bispos belgas, que foram fazer uma visita canônica ao Seminário de Ecône, em 1974: espírito modernista, vingativos, negativos, rindo-se de tudo o que era católico em nome da Nova Igreja Conciliar.

Estou dizendo isso tudo para explicar porque Mgr. Lefebvre diz, na entrevista à imprensa que já citei acima, que ele aproximou-se das autoridades romanas mas sem deixar de desconfiar delas. Já tinha muitas experiências desagradáveis em relação a elas (cf. conferência de Mgr. Lefebvre sobre a mudança da Missa). Esta situação da vida da Igreja na época joga uma luz esclarecedora sobre a seqüência dos acontecimentos que narraremos a seguir.

*

Uma vez assinado o protocolo de acordo abriram-se as portas para uma solução rápida da situação da Fraternidade S. Pio X. Normalmente a boa vontade do Papa e do Cardeal Ratzinguer os levaria a deixar as coisas seguirem seu rumo. Mas não foi isso que aconteceu. Ouçamos Mgr. Lefebvre narrar, na Entrevista Coletiva já citada, de 15 de junho de 1988:

"O protocolo estava, pois, assinado. A imprensa anunciou: Acordo entre Mgr. Lefebvre e o Vaticano; parece que as coisas se arranjam, que tudo vai se arranjar.

     Pessoalmente, como já vos disse, tinha pouca confiança. Sempre tive um sentimento de desconfiança e devo confessar que sempre pensei que tudo quanto eles faziam era para nos levar a submetermo-nos, a aceitarmos o Concílio e as reformas pós-conciliares. Não podem admitir – e, aliás, o Cardeal Ratzinguer disse-o recentemente, numa entrevista a um jornal alemão: “Não podemos aceitar que haja grupos, depois do Concílio, que não admitem o Concílio e as reformas que foram feitas depois do Concílio. Não podemos admitir isso.” O Cardeal Ratzinguer repetiu várias vezes: “Monsenhor, há uma só Igreja; não pode haver Igreja paralela.” Eu disse-lhe: “Eminência, não somos nós que fazemos uma Igreja paralela, porque nós continuamos com a Igreja de sempre. Os senhores é que fazem uma Igreja paralela ao inventar a Igreja do Concílio, essa que o Cardeal Benelli chamou a Igreja Conciliar. Os senhores fizeram novos catecismos, novos sacramentos, uma nova missa, uma nova liturgia, não somos nós. Nós continuamos o que anteriormente se fazia. Não somos nós que fazemos uma nova Igreja!”

     Sempre sentimos, portanto, ao longo desses colóquios, um desejo, uma vontade deles nos submeterem ao Concílio.

     Bem. Apesar de tudo, tentei mostrar boa vontade, mas, no dia em que decidimos assinar, perguntei ao Cardeal Ratzinguer, a propósito do bispo: “Agora que vamos assinar o protocolo, já podem indicar a data da consagração do bispo (estávamos a 4 de maio). Tem tempo até 30 de junho para me dar o mandato para o bispo. Eu próprio participei na apresentação de bispos quando era Delegado Apostólico – de trinta e sete bispos: sei como isso se faz...”

     Já tinha apresentado os nomes, já estavam no Vaticano, três nomes, a chamada “terna”. É um termo clássico em Roma para designar os três nomes dos bispos que são propostos; e a Santa Sé escolhe entre esses três nomes. Dei, pois, três nomes. “Daqui até 30 de junho o senhor tem tempo de preparar, de fazer um inquérito e de me dar o mandato.”

     “Ah! Não, não, é impossível! Para 30 de junho é impossível! – Então quando? Em 15 de agosto? No fim do Ano Mariano? – Ah! Não, não, Monsenhor! O senhor sabe que em 15 de agosto, em Roma, não há ninguém! De 15 de julho a 15 de setembro são as férias. Não se pode pensar em 15 de agosto, é impossível! – Digamos então o 1º de novembro, dia de Todos os Santos? – Ah! Não sei, não posso dizer. – Para o Natal? – Não posso dizer.”

     Eu disse: já percebi... Estão brincando conosco... Pois bem, acabou-se! Já não tenho confiança. Eu tinha toda a razão em não ter confiança. Estão brincando conosco. Perdi completamente a confiança...

     E no dia 6 de maio, escrevi uma carta ao Papa e uma ao Cardeal Ratzinguer, dizendo: “Tinha esperado chegar a um resultado, mas creio que já não é possível. Vê-se muito bem: há uma vontade, por parte da Santa Sé, de nos submeter às suas vontades e às suas orientações. Não vale a pena continuar. Estamos em completa oposição.”

Grande alvoroço em Roma, nessa altura, por causa da carta que escrevi. "

*

Quando este fato foi  comunicado aos fiéis que acompanhavam, rezando, os colóquios com Roma, houve, sem dúvida, inquietação. É claro que havia em todos grande confiança na sabedoria de Mgr. Lefebvre, como também todos desejavam ardentemente que enfim, fosse aceita a Tradição, pelo menos como "opção" legítima.  Não fora ainda dessa vez, mas passos importantes haviam sido dados.

No mosteiro do Barroux, ao contrário do que muitos pensam, Dom Gerard Calvet fez declarações à comunidade, assim como aos fiéis, de grande vigor de pensamento, elogiando a atitude de Mgr. Lefebvre. Lembro-me com perfeição de um momento crucial na vida daquele mosteiro, ocorrido no domingo 19 de junho de 1988. Dom Gérard celebrou a missa conventual, das 10:00 da manhã. Pedira-me que fosse ao parlatório assim que terminasse a missa, receber um jornalista famoso que mantinha um programa dominical numa rádio francesa, muito ouvido porque volta e meia tomava a defesa de Mgr. Lefebvre, apesar de não freqüentar a Missa Tradicional. Seu nome era François, mas não me recordo mais o sobrenome. Ao chegar ao parlatório, a esposa do jornalista mostrou-se muito aflita com a atitude de Mgr. Lefebvre, e eu, jovem sacerdote, meio sem graça, dizia que devíamos rezar, que a Providência mostraria o caminho a Mgr. Lefebvre, e coisas desse teor. Foi quando chegou Dom Gérard, tendo terminado sua "ação de graças". Ao entrar no parlatório fiz as apresentações e disse que eles estavam muito apreensivos. Dom Gérard num élan que chegava a ser bonito e tocante fez então a apologia da atitude de Mgr. Lefebvre. Vivendo há oito anos no contato direto com aquele monge, posso dizer com certeza que aquilo era sincero: "De jeito nenhum! madame, Mgr. Lefebvre está salvando a Igreja. Não tenham medo, vocês verão adiante" etc. 

Foi quando, no meio da conversa, Dom Gérard foi chamado ao telefone.....Do outro lado da linha, Mgr. Perl, o secretário do Cardeal Mayer...... e então tudo desmoronou! O Cardeal Mayer, presidente da recém-fundada Comissão Ecclesia Dei, para tratar dos assuntos referentes aos fiéis da Tradição, queria vir ao Mosteiro propor o acordo que Mgr. Lefebvre havia recusado

No dia 20, segunda-feira, Dom Gérard reuniu na Sala Capitular, dez padres do mosteiro, para expor a situação e perguntar o que devia ser feito. Eu fui o único a dizer que devíamos gentilmente mandá-lo de volta a Roma!

Dia 21 de junho de 1988 as portas do Monastère Sainte Madeleine foram largamente abertas para a entrada triunfal do cardeal, que vinha em pele de cordeiro propor a destruição de uma comunidade formada em torno da obra de combate pela Tradição e que depunha as armas. A reunião com o Cardeal foi lamentável, começando com o Cardeal chorando. Repito: o Cardeal chorou lágrimas de crocodilo diante de onze monges atônitos e de um prelado sinistro chamado Camille Perl. Em seguida ele ofereceu o bolo envenenado: tudo o que queríamos do ponto de vista litúrgico e doutrinário, com uma única condição: romper com Mgr. Lefebvre. 

Ora, em 1984 Dom Gérard recebera do Presidente da Federação Beneditina esta mesma proposta. Ele a recusara dizendo: "o senhor me  pede para trair. Eu não sou um traidor!"

Hoje, quatro anos depois, Dom Gérard aceita trair a confiança e a amizade de um bispo que tudo fez para apoiá-lo, graças a quem a pequena comunidade de Bédoin subsistiu e cresceu, tornando-se uma das referências do combate pela Tradição católica na França.

Daí para a frente foi só a morte rápida da comunidade onde fiz meus votos monásticos para viver minha vida dentro de um catolicismo autêntico. Os padres da Fraternidade São Pio X mais escrupulosos e fracos passaram a freqüentar os corredores do Barroux, armando sua jogada triunfal: fundar uma nova sociedade de padres traidores do seu bispo. Cegos, ouvindo um canto de sereia enganador. Dom Gérard os aconselhava, e ia escondido armando sua jogada: fazer com que sua comunidade recebesse gota a gota as doses homeopáticas da virada, para que não houvesse reações contrárias. Nessa época, muitos irmãos e padres não queriam, de modo algum, afastarem-se de Mgr. Lefebvre. Mas a habilidade de Dom Gerard e a malícia do sub-Prior, certamente infiltrado dentro da comunidade para alcançar esse fim, foi virando as cabeças. Fui acompanhando enquanto pude, até que, em 26 de agosto fiz minhas malas e voltei ao Brasil, para ajudar Dom Tomás em Friburgo, a manter o Mosteiro da Santa Cruz.

Narro esses acontecimentos para mostrar o trabalho do demônio numa hora crucial como essa. Essa virada da cabeça do Prior do Barroux, na hora do telefonema do Cardeal Mayer, é muito significativa. 

Em 30 de junho de 1988, na hora das Sagrações, os padres traidores se reuniam na Abadia de Hautrive, na Suíça, para fundar a Fraternidade São Pedro. Pretendiam eles manter a Tradição, porém na obediência à Roma. Pretendiam eles manter a missa de São Pio V e nunca celebrar a missa nova. Pretendiam eles poder criticar à vontade Vaticano II e seus erros. Pretendiam eles ter as  portas abertas em todas as dioceses para se instalar à vontade. Pretendiam eles conseguir o que o "pobre coitado" do Mgr. Lefebvre, velhinho esclerosado, nunca conseguira, viver a Tradição de dentro da Roma modernista...

Coitados, quanta pretensão. A seqüência dessa história mostrará o que aconteceu com eles e como a Fraternidade São Pedro e todos os institutos que fizeram os acordos foram engolidos pela Roma modernista. Vamos ver como aconteceu.

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