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Quinta-feira Santa!

“Nós, porém, nos gloriamos na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa salvação, nossa vida e nossa ressurreição...” (Gal. VI, 14). Estas palavras do Apóstolo Paulo, que estão no Intróito da Missa de hoje, dão-nos o diapasão, o fundamental para afinação de todos os muitos movimentos de nossa alma. É sabido que a teologia paulina é tecida de confrontações, de noções conjugadas em tensão dialética, de proposições que viram pelo avesso os critérios do mundo. Temos assim as dialéticas fraqueza-força, carne-espírito, homem exterior-homem interior, velho-novo, dor-alegria; mas nenhuma das grandes fórmulas paulinas afronta, ofende tão violentamente o sentir do mundo e da carne como este de hoje, que gira em torno daquilo em que nos gloriamos. Diga-me em que te glorias, e eu te direi quem és. O homem que vive segundo “as coisas velhas”, sem se aperceber que em Cristo tudo é novo, e o mundo se transfigurou na “nova criação”, gloría-se no prestígio, nos êxitos temporais, no progresso, no desenvolvimento econômico, nas coisas que, na sua ordem, merecem atenção e zelo, mas não merecem os títulos de glória que lhes damos, e muito menos o zelo prioritário que lhes conferem hoje tantos homens da Igreja. Nós outros, porém, nos gloriamos na cruz de Nosso Senhor.

 

Pela glória colocada em si mesmo o homem se perdeu; pela glória devolvida a quem de direito salva-se o que estava perdido; e para essa devolução, para essa revulsão, diria até para essa revolução, nenhum instrumento é mais eficaz do que a cruz de Nosso Senhor. Por isso, nós nos gloriamos nela, ao arrepio de todos os valores que o mundo tenta nos impor.

 

O cristianismo é essencialmente uma transfiguração, uma travessia, uma páscoa que se efetua e se consuma dentro de nossos corações; quem não percebeu isto, ou quem abandonou essa divina subversão que os loucos chamam de loucura, e os alienados chamam de alienação, não pegou a ponta da meada, ou perdeu-a no emaranhado de novidades superficiais que o mundo trouxe para encobrir a Novidade essencial e única. Isaías profetizou: "Não penseis mais nas coisas velhas, nem cuideis das passadas! Eis que vou realizar algo de novo. Já está brotando: Não o notais? Sim, eu traçarei pelo deserto um caminho e através do ermo lançarei o sulco de um rio" (XLIII, 18). O Cristo cumpriu na cruz as promessas anunciadas, e o Apóstolo as anuncia como realidades presentes no mundo: "Quando alguém está em Cristo é uma nova criatura, e pode-se dizer: o que era velho desapareceu, vede, tudo é novo!" (2 Cor. V, 14).

 

Mas na Quinta-Feira Santa o grito paulino ganha na Igreja uma significação mais completa: a glorificação na cruz não tem somente a significação peregrinal de aceitação da fraqueza, do sofrimento, da agonia, como aberturas do céu; tem sentido mais brilhante e mais transfigurado. Nesta cruz de hoje, no seu lenho, no seu símbolo, nas suas esquadrias, vemos a mesa da Ceia do Senhor onde, antes do sofrimento na cruz, está anunciada e representada a imolação. Não há quadro mais belo na história do mundo. Não há mais viva penetração de eternidade no mundo. O céu violou a terra, e plantou num instante, entre os seu elementos, e entre os passos incertos do homem, esse acampamento de festa divina. "Um rei celebrou as bodas de seu filho..." E a festa do céu se realiza na terra.

 

Hoje é relativamente fácil gloriarmo-nos na cruz, porque nela vemos a mesa da Eucaristia inaugural, da primeira missa do mundo.

 

Amanhã, diante do espantalho pregado num poste, fora dos muros da cidade, será mais difícil acompanhar a estranha alegria do Apóstolo. E depois, depois de amanhã, e depois de depois de amanhã, quando entrarmos na rotina dos dias iguais, e quando a Ceia Sagrada se nos apresenta como Missa, que um de nós, com mãos ungidas repete pela milionésima vez, tentando este ou aquele romper a monotonia de vinte séculos com alguma novidade mais ou menos pueril, então sim, então podemos dizer que não é fácil acompanhar a estranha alegria do Apóstolo. "Nos autem gloriari opportet in Cruce Domini nostri Jesu Christi..."

 

Mas ainda aqui é o caso de dizer: não temos outro itinerário, outro roteiro, outro indicador de caminhos fora dessa cruz plantada num monte e exposta à derrisão. Os homens de nosso tempo sentem cócegas nos ouvidos e querem procurar programas de uma novidade que eclipse a novidade de Deus. Em vão, em vão procurarão. É o caso de lhes perguntar como Pedro perguntou entre fiel e aflito: "Aonde iremos? Quem nos dirá palavras de eternidade?

 

                                                                                                                       O GLOBO  11/4/68

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